sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Consciência negra e desenvolvimento


MAURÍCIO PESTANA

Consciência negra e desenvolvimento



Há mais de 500 anos um fato importante aconteceu na história da humanidade: o início do tráfico negreiro da África para as Américas. O Brasil, durante mais de 300 anos anos, teve toda a sua formação social, econômica e territorial idealizada e produzida a partir desse acontecimento.
A Lei Áurea, de 1888, pôs fim oficialmente à escravidão no Brasil com um enorme atraso. Fomos o último país independente da América Latina a extinguir essa mácula.
Desde então, saímos de uma estrutura predominantemente latifundiária para um país com enorme desenvolvimento tecnológico e industrial, com alta capacidade de produção de bens materiais, o que nos coloca entre as dez mais pujantes economias do planeta.
No entanto, esse desenvolvimento foi incapaz de promover a distribuição igualitária das riquezas. O Brasil registra um dos maiores índices de desigualdade social do mundo, o que acarreta um enorme agravamento da discriminação racial e do preconceito.
Os negros (somando os autodeclarados pretos e pardos) são a maioria no Brasil, mas estão praticamente excluídos do desenvolvimento econômico, são subutilizados e subvalorizados no mercado, mal remunerados e com escasso acesso a empregos qualificados.
No maior país negro fora da África, a população negra, durante quase toda a história recente do país, não teve acesso aos bancos escolares de nível superior. Dados do final do século passado mostram que apenas 2% desses bancos eram ocupados por negros.
Somente no início do século 21 –leia-se, há apenas 15 anos–, o Brasil começou a tomar medidas que reduziram as distâncias entre negros e brancos na educação, processo esse que gerou muito debate em nossa sociedade.
Programas como o Prouni e as cotas raciais, conquistas do movimento negro, começam a reverter esse quadro: atualmente, a parcela das vagas ocupadas por negros nas universidades cresceu para 20%. Essas e outras políticas afirmativas adotadas pelos governos progressistas fizeram com que o Brasil se tornasse um pouco menos desigual.
Ainda que tardiamente, chegamos a um patamar de evolução educacional que nos permite discutir de que forma iremos avançar, uma vez que temos o maior número de formandos negros da história.
Com o intuito de responder a questões como essa, a Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial de São Paulo convocou um expressivo contingente de empresas do setor privado para discutir com o setor público medidas que pudessem contribuir para a maior inserção dos negros no mercado de trabalho, principalmente em funções estratégicas e bem remuneradas.
Avaliamos em conjunto políticas e ações possíveis que a sociedade pode gerar para um desenvolvimento econômico mais equilibrado.
As comemorações do Dia da Consciência Negra chamam a atenção dos brasileiros para a necessidade de um novo modelo socioeconômico para o país, diferente daquele injusto e excludente do século passado. Precisamos de um projeto de desenvolvimento econômico que envolva a população negra da cidade de São Paulo e do Brasil.
A nação de maior população negra fora do continente africano tem a obrigação de dar exemplo para o mundo. O desenvolvimento só será verdadeiro com a inclusão.
MAURÍCIO PESTANA, 50, é secretário municipal de Promoção da Igualdade Racial de São Paulo

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