domingo, 20 de setembro de 2015

Radiografia do gigante

Radiografia do gigante

Novos dados mostram como as distorções do Estado brasileiro, que consome 40% do PIB, ultrapassam as dimensões da crise atual
Recém-divulgada pelo IBGE, uma nova coleção de estatísticas sobre receitas e despesas nas três esferas de governo oferece informações espantosas a respeito da acelerada hipertrofia estatal no Brasil.
Descreve-se, no estudo, uma estrutura paquidérmica que absorve quase 40% do PIB (Produto Interno Bruto) em impostos, contribuições, taxas, concessões, juros e outros recursos. E que gasta um montante ainda maior: em moeda corrente, são mais de R$ 2 trilhões –metade dos quais desembolsados pelo governo federal.
Não há dúvidas quanto à extravagância brasileira. Basta dizer que aqui o peso do Estado no PIB supera o de emergentes como China, Índia, Rússia e África do Sul, e se assemelha ao padrão das vizinhas Argentina e Venezuela, países às voltas com enrascadas econômicas ainda mais severas.
Os dados nacionais constam de trabalho conjunto com a Secretaria do Tesouro Nacional, no qual se buscou reunir e harmonizar balanços contábeis da administração federal, dos 26 Estados, do Distrito Federal e dos 5.570 municípios.
Os números mais atualizados são de 2013. Mesmo anteriores ao presente desmoronamento das contas públicas, radiografam o gigantismo governamental e dimensionam a dificuldade de enfrentar suas causas.
É pouco realista propugnar, em nome da desejada retomada do investimento privado, uma redução drástica e súbita do tamanho do Estado. A ampliação dos serviços públicos em todo o mundo caminha "pari passu" com o amadurecimento da democracia, processo ainda em curso no Brasil.
Isso não implica, naturalmente, uma atitude conformista. Ao contrário, o Estado brasileiro ainda deve muito à sociedade em termos de eficiência e qualidade.
Realizar os cortes emergenciais impostos pela conjuntura econômica é apenas a tarefa mais premente de uma agenda de longo prazo que se comprometa com controlar a disparada de despesas e minimizar vícios e distorções.
Trata-se de missão nada trivial. Exigirá tanto habilidade política para costurar acordos quanto capacidade de suportar reações ferozes em todos os estratos sociais.
Independentemente do desfecho da crise política que sufoca o governo Dilma Rousseff (PT), os atuais e futuros dirigentes do país precisarão rever as generosas cifras destinadas à seguridade social.
Obra da redemocratização e do texto constitucional de 1988, a teia de benefícios previdenciários, assistenciais e trabalhistas, associada à universalização da saúde e do ensino, é o que leva o crescimento das despesas públicas a superar a taxa de expansão do PIB –portanto, uma escalada insustentável.
Os compromissos previdenciários, em particular, são demasiados para um sociedade ainda relativamente jovem. Como percentual do PIB, os desembolsos do país com aposentadorias e pensões sobrepujam os de países como Reino Unido, Suíça e Austrália, onde é bem maior a proporção de idosos.
Projeta-se, para 2016, um rombo de R$ 125 bilhões nas contas do INSS. O descompasso se tornará mais acentuado nas próximas décadas. Estima-se que, até 2060, a parcela dos brasileiros com 65 anos ou mais de idade, hoje próxima dos 8%, deverá passar de 25%. Enquanto isso, cairá de 70% para 60% a população em idade ativa.
O envelhecimento demográfico torna imperativo promover uma sucessão de adaptações periódicas das perdulárias regras para a concessão e o cálculo dos benefícios.
A incerteza quanto à sustentabilidade das finanças públicas, aliada a uma estabilização precária e incompleta da inflação, acaba por alimentar outra anomalia orçamentária: um volume exorbitante de despesas com a dívida do governo, à qual o mercado impõe taxas elevadas e prazos exíguos.
Com programas de transferência de renda na casa dos 13% do PIB, gastos com pessoal e custeio (em educação e saúde, principalmente) de 19% e uma conta de juros de 7%, muito pouco sobra para mitigar as carências do país em infraestrutura, do saneamento básico às condições das rodovias.
Os investimentos federais, estaduais e municipais em obras e equipamentos, fundamentais para a ampliação da capacidade produtiva, não passaram de 2,2% do PIB de 2011 a 2013. É praticamente certo que o percentual será ainda menor neste ano de recessão.
Tudo considerado, muitos avanços precisam ser preservados, como a universalização do ensino fundamental (embora de qualidade ainda insatisfatória) e a queda de taxas de desigualdade e pobreza.
Entretanto, o declínio da economia evidenciou como os custos podem se tornar excessivos, impulsionando um cenário de instabilidade econômica a ponto de ameaçar conquistas das últimas décadas.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Um estranho hominídeo

Um estranho hominídeo

Pesquisadores descobrem em caverna da África do Sul fósseis de nova espécie 'prima' do ser humano, mas combinação de características e posição na escala evolutiva são um mistério
REINALDO JOSÉ LOPESCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Imagine ficar frente a frente com alguém que tem mãos, pernas e pés idênticos aos de todas as outras pessoas que circulam pela rua, mas cuja cabeça abriga um cérebro diminuto, do tamanho do de um gorila. Esse, em resumo, é o mistério com que se defrontaram paleoantropólogos da África do Sul ao descobrir fósseis de uma nova espécie de primo extinto do ser humano, batizada Homo naledi.
Por um lado, a descoberta da criatura é um triunfo dos estudos sobre evolução humana. Havia ossos de mais de 15 indivíduos numa câmara das cavernas conhecidas como Rising Star ("estrela em ascensão", em inglês), na província sul-africana de Gauteng. Ambos os sexos e diversas faixas etárias estão representados, o que vai permitir que os cientistas estudem em detalhes como o H. naledi viveu e morreu.
O problema é que, por enquanto, é difícil não ficar perplexo com os enigmas ligados a esse tesouro fossilizado. Ninguém ainda faz a menor ideia de como encaixar a nova espécie no álbum de família da espécie humana, por exemplo. E os autores da descoberta não conseguiram datar os fósseis com precisão, outro entrave para entender seu significado evolutivo.
MODÉSTIA E ESTRELATO
O estudo descrevendo os fósseis foi coordenado por Lee Berger, da Universidade do Witwatersrand (África do Sul), e John Hawks, da Universidade de Wisconsin em Madison (EUA). Em geral, achados com esse impacto saem nas revistas científicas mais importantes do mundo, como a "Science" ou a "Nature", mas o grupo acabou publicando seu trabalho numa publicação digital de acesso livre relativamente modesta, a "eLife".
Apesar disso, a descoberta já atraiu elogios de alguns dos principais pesquisadores da área, como o britânico Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres. Ao batizar a espécie, os antropólogos escolheram a palavra "naledi", que significa "estrela" na língua africana sotho.
Um dos principais motivos para o estrelato é o mosaico único de características da espécie, com traços considerados modernos e arcaicos. De estatura modesta (um adulto mediria pouco menos de 1,50 m), o H. naledi podia andar, correr e manipular objetos com tanta eficiência quanto uma pessoa de hoje.
Ao mesmo tempo, além do cérebro com apenas um terço do tamanho do nosso, a espécie tinha dedos das mãos fortemente curvados, como os dos grandes macacos –normalmente, isso seria uma adaptação para a vida nas árvores, o que soa estranho se o hominídeo estava mesmo capacitado a andar e correr como seus primos modernos.
De qualquer maneira, os dedos, ainda que longos e curvos, também estavam equipados com "almofadinhas" na ponta, um traço típico dos humanos atuais que facilita o manuseio fino de objetos e que não é encontrado nos grandes macacos.
Na verdade, esses enigmas também estão presentes na anatomia de outras espécies arcaicas do gênero Homo, ao qual pertence o ser humano atual, e que inclui também o Homo habilis (supostamente o primeiro a fabricar ferramentas de pedra, daí o nome) e muitos exemplares do Homo erectus, que teria iniciado a dispersão dos hominídeos para fora da África.
Há dúvidas na comunidade científica sobre as características que justificam a classificação nesse gênero e, para alguns cientistas, seria mais lógico o "rebaixamento" de certos espécimes para outros gêneros. Não está claro onde a nova espécie se encaixa nesse cenário confuso, embora Stringer, por exemplo, veja semelhanças entre ela e certos espécimes de H. erectus mais baixinhos encontrados na Geórgia, perto da Rússia.
O que não ajuda muito, além disso, é o fato de Berger e companhia não terem conseguido datar os fósseis. Se eles tiverem mais de 2 milhões de anos, podem virar sérios candidatos a membros mais primitivos do gênero Homo e ancestrais diretos do homem. Mas também podem ser mais recentes e, nesse caso, poderiam ser vistos como sobreviventes africanos de uma fase arcaica da evolução humana. Por enquanto, é cedo para bater o martelo, embora o cenário geral indique que a nossa linhagem passou por diversos experimentos evolutivos simultâneos, sem uma progressão simples de uma forma para outra.
CIDADE DOS MORTOS?
Um mistério à parte é a própria concentração de tantos corpos de hominídeos numa única câmara rochosa a cerca de 30 metros de profundidade. Durante uma entrevista coletiva nos EUA, alguns dos autores do estudo propuseram que se tratava de um comportamento ritual –os membros da espécie teriam desenvolvido o hábito de sepultar seus companheiros ali, em outras palavras.
A proposta tem potencial revolucionário porque, para a maioria dos especialistas, rituais funerários só surgiram de fato com a ascensão dos seres humanos modernos e sua expansão para fora do continente africano, a partir de uns 100 mil anos atrás.

Percepção da ação militar dos EUA no Oriente Médio muda

11 DE SETEMBRO - 2001



EI justifica uso da força, dizem pesquisas; em 2003, invasão do Iraque foi rejeitada
MARCELO NINIODE WASHINGTON
Quatorze anos depois dos atentados terroristas do 11 de Setembro, os inimigos dos Estados Unidos mudaram, e também a percepção mundial da ação militar americana no Oriente Médio.
Se a invasão do Iraque em 2003 foi amplamente rejeitada em boa parte do mundo, a maioria hoje acredita que a emergência do grupo terrorista Estado Islâmico (EI) justifica o uso da força.
As conclusões são de um estudo do Centro de Pesquisas Pew, de Washington, que detectou uma melhora considerável da imagem dos EUA até no mundo árabe, onde a rejeição era a maior.
"Ao contrário do que ocorreu na Guerra do Iraque, uma década atrás, a atual campanha aérea no Iraque e na Síria tem o apoio da maioria dos aliados europeus dos EUA e é endossada pelo público nos principais países do Oriente Médio", afirma o estudo.
Na média dos 40 países que participaram da nova sondagem, os ataques contra o Estado Islâmico tem a simpatia de 62% do público, um forte contraste com a opinião sobre a Guerra do Iraque. O Brasil ficou abaixo da média, com 46% de aprovação.
Em contraste, pesquisa do mesmo Pew em 2004, um ano depois da invasão do Iraque, mostrava altos índices de rejeição popular à ação americana, que variavam de 83%, na França, até 95%, na Jordânia.
Na maioria dos países, a percepção geral era que o governo de George W. Bush havia mentido para iniciar a guerra contra o Iraque. Hoje, diante da brutalidade do grupo terrorista, a maioria vê o EI como uma ameaça a ser combatida.
Um bom exemplo é a Jordânia, que liderava a reprovação à ação americana no Iraque. Agora, a maioria dos jordanianos não apenas aprova os ataques ao Estado Islâmico (77%) como apoia a entrada de seu país na coalizão militar liderada pelos EUA contra o grupo terrorista. O interesse é direto: país que faz fronteira tanto com a Síria quanto com o Iraque, onde o Estado Islâmico atua, a Jordânia já abriga cerca de 650 mil refugiados sírios, o equivalente a 10% de sua população.
A necessidade de ataques contra o EI construiu consenso nos EUA até entre eleitores democratas e republicanos, diferentemente do que aconteceu na Guerra do Iraque. Nesse ponto, eles estão praticamente de acordo na mesma medida: a ofensiva aérea é apoiada por 88% dos republicanos, 80% dos democratas e 75% dos independentes.
ESPANTO
Alguns detalhes da reação inicial do governo americano aos atentados do 11 de Setembro, que completam 14 anos nesta sexta-feira, só agora são conhecidos.
E-mails de membros da administração Bush obtidos nesta semana pelo jornal "The New York Times" revelam o espanto que gradualmente se instalou na Casa Branca quando os aviões sequestrados por terroristas se chocaram contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York.
"Hoje é Pearl Harbour", diz um email recebido logo após os atentados por Mary Matalin, assessora do vice-presidente Dick Cheney, do escritor conservador David Horowitz. Era uma referência ao ataque japonês à base militar dos EUA em 1941, que marcou a entrada dos EUA na Segunda Guerra.
Quase uma década e meia depois dos ataques, permanecem dúvidas e intrigas sobre os autores dos atentados e o alvo da guerra deflagrada pelos EUA em resposta, no Afeganistão e no Iraque.
Em entrevista à rede de TV Al Jazeera, o ex-presidente do Afeganistão Hamid Karzai, que assumiu o poder com o apoio dos EUA após a invasão americana derrubar o movimento extremista Taleban, negou que os atentados do 11 de Setembro tenham sido tramados em seu país por Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al Qaeda.
"Eu nem sei se a Al Qaeda existiu e não sei se ela existe. Eu nunca os vi e nem recebi informes de que a Al Qaeda estivesse operando no Afeganistão. Para mim é um mito", disse Karzai. "Para nós, eles não existem."

Quatro décadas após golpe, Chile lida com trauma na Justiça

11 DE SETEMBRO - 1973

Quatro décadas após golpe, Chile lida com trauma na Justiça

Julgamentos de crimes do regime de Pinochet ganham fôlego sob Bachelet
SYLVIA COLOMBOENVIADA ESPECIAL A BUENOS AIRES
No último dia 13, o general Ramírez Rurange, 76, deu um tiro na própria testa, na escadaria de seu apartamento, em Santiago. O suicídio ocorreu pouco após ele ser informado sobre sua condenação a 20 anos de cadeia pelo assassinato de um químico que havia estado prestes a comprometer o alto comando do regime militar chileno (1973-90).
Episódios como esse não eram comuns no Chile até poucos anos atrás. Desde o fim da ditadura, e com a lei de Anistia em vigor, os responsáveis por violações de direitos humanos gozavam de certa tranquilidade.
As coisas começaram a mudar com a detenção do general Augusto Pinochet (1915-2006) em Londres, em 1998, que abriu precedente para outras investigações, e com a eleição de Michelle Bachelet, em 2006, cujo pai morreu vítima de tortura.
Em 2014, a presidente pediu a revogação da Lei da Anistia, algo que ainda precisa ser aprovado pelo Congresso. Mesmo com a legislação ainda em vigor, muitos crimes passaram a ser investigados com base nos argumentos de lesa humanidade e delito continuado.
Cerca de mil casos estão em processo e mais de cem sentenças foram emitidas. Estima-se que 3.000 pessoas tenham desaparecido no Chile sob a ditadura.
Os casos mais recentes foram reabertos graças ao rompimento de "acordos de silêncio", procedimento comum então adotado pelas Forças Armadas.
RÉUS
O testemunho do ex-recruta Fernando Guzmán foi o que confirmou que os adolescentes Rodrigo Rojas e Carmen Gloria Quintana haviam sido queimados por soldados após serem detidos numa manifestação, em 1986. Hoje estão no banco dos réus doze ex-oficiais.
"O depoimento de Guzmán deixou claro que havia uma máquina armada para mentir", diz Quintana, que sobreviveu e está desde então no Canadá –Rodrigo morreu dias depois.
Outro ex-soldado foi o responsável pelas revelações que propiciaram o julgamento dos responsáveis pela morte do poeta Victor Jara (1932-73). Trata-se de José Paredes, que detalhou o assassinato do compositor.
Em entrevista a uma rádio, Paredes disse que sentiu necessidade de falar porque não se sente culpado, afinal "obedecia ordens".
Para o juiz Mario Carroza, responsável pela causa dos Quemados, da investigação sobre a morte do poeta Pablo Neruda (1904-73) e do ex-presidente Salvador Allende (1908-73), as revelações, mesmo que tardias, são importantes para "fazer com que mais pessoas se animem a dizer a verdade sobre o que viveram."
Para Alicia Lira, da Afep (Agrupação de Familiares de Executados Políticos), o processo ainda é lento lentidão no processo: "O mais importante é acabar com os pactos de silêncio, que foram reforçados também em governos democráticos".
Em declaração recente, a presidente Michelle Bachelet estimulou as denúncias. "Quero reiterar o chamado para quem tem informações sobre violações de direitos humanos, que as entregue antes que seja tarde demais", disse a mandatária.
Já o senador Juan Pablo Letelier, filho de Orlando Letelier, embaixador chileno nos EUA assassinado em 1976, lamenta que os "responsáveis pelos crimes dos anos 70 estejam morrendo de velhice ou se suicidando sem dizer tudo que sabem".
Enquanto isso, a Justiça argentina está na fase final de julgamento da chamada "causa Condor", que investiga 106 crimes cometidos nos países do Cone Sul em ações coordenadas entre suas Forças Armadas. Espera-se a sentença de 18 réus.
"Apenas sociedades que realmente confrontam seu passado podem ir adiante", disse o jornalista norte-americano Jon Lee Anderson, que viveu e escreveu sobre a região, à Folha.
"No Chile, o caso dos Quemados assinala um horrível padrão de comportamento das forças de segurança no regime de Pinochet. Só identificando, isolando e extirpando essas monstruosidades é possível construir um Estado de Direito completo."

A volta do Febeapá

RUY CASTRO

A volta do Febeapá

RIO DE JANEIRO - Em 1964, diante da sucessão de asneiras cometidas sob a nova ordem instaurada no país –militares invadem casa de professor e confiscam o clássico marxista "A Capital", de Eça de Queiroz; artista plástico vai preso por fazer exposição cubista, estilo de pintura originário de Cuba; neto de general obriga neto de coronel a bater continência para ele na escola–, Stanislaw Ponte Preta criou na "Última Hora" o Febeapá –o festival de besteira que assolava o país.
Era para rir e, ao mesmo tempo, para chorar. A que ponto chegara o Brasil, com aquela gente no poder. Bem, há muito deixamos de ser uma ditadura, mas o Febeapá nunca morreu de todo. De alguns anos para cá, por exemplo, parece mais potente do que nunca. Com uma diferença: as besteiras agora só se voltam contra quem as comete. Como a presidente Dilma, uma renitente praticante.
Certa vez, disse que o filme "Vidas Secas" mostrava o drama dos nordestinos que saíam "do Nordeste para o Brasil". De outra, situou no Rio a Baixada Santista. Classificou a mandioca como "uma das maiores conquistas do país". No mesmo discurso, criou uma nova espécie humana: a "mulher sapiens". E sempre foi distraída, não? Na campanha para sua primeira eleição, em 2010, seus assessores ousaram confundi-la com Norma Bengell numa foto da Passeata dos 100 mil, em 1968, e Dilma achou muito natural; depois, inventaram-lhe um doutorado em ciências econômicas pela Unicamp, e ela também não protestou.
Outro dia, justo ao ser acusada de praticar "pedaladas" para falsificar os números da economia, Dilma começou a pedalar de verdade, deixando-se fotografar andando de bicicleta em Brasília. Que festa seria Stanislaw entre nós!
Mas, como se vê, as besteiras não se voltam só contra quem as comete. Ao fim e ao cabo, todos somos vítimas desse caos mental.

domingo, 6 de setembro de 2015

Altruísmo efetivo

HÉLIO SCHWARTSMAN

Altruísmo efetivo

SÃO PAULO - Você está disposto a reduzir a carga de sofrimento animal no planeta, mas não está pronto para renunciar inteiramente às proteínas animais? Então pare de comer frango. Nossos amigos emplumados são, de longe, a espécie mais maltratada na cadeia de produção industrial de alimentos. São também aqueles que mais se beneficiariam (em número de indivíduos) com a redução da demanda.
A sugestão do filósofo William MacAskill é um exemplo perfeito de raciocínio consequencialista (o maior benefício, para a maioria) aplicado ao altruísmo. Seu mais recente livro, "Doing Good Better" (fazendo o bem melhor), é um grande catálogo de como otimizar nossa vontade de ajudar ao próximo segundo critérios racionais e quantificáveis. Estamos na era do altruísmo baseado em evidências.
MacAskill ataca em todas as frentes, desde mostrar quais ONGs proporcionam mais bem-estar por dólar investido, até oferecer conselhos sobre qual carreira um jovem disposto a "fazer a diferença" deve escolher. Ele ensina, por exemplo, que promover a vermifugação de crianças na África tende a ser mais efetivo do que programas de entrega de livros didáticos e que tornar-se cirurgião plástico e doar parte do salário pode valer mais que virar cirurgião cardíaco no Médicos Sem Fronteiras. É tudo uma questão de números.
O autor não foge de questões polêmicas. Insiste, por exemplo, que não devemos em geral doar dinheiro para vítimas de desastres naturais (essa não é uma área negligenciada) e defende os "sweatshops", fábricas que mantêm empregados em condições que alguns chamam de análogas à escravidão. A alternativa, mostra MacAskill, tende a ser muito pior.
Meu porém em relação ao livro é que, se todos seguirmos as recomendações do autor, em pouco tempo o mundo estará reduzido a meia dúzia de ONGs atuando em dois ou três setores. O sub-ótimo precisa existir como condição para tornar-se melhor.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Olhares sobre Francisco

Olhares sobre Francisco

No que está se tornando marca registrada de seu pontificado, o papa Francisco fez mais um daqueles gestos que, à primeira vista, parecem revolucionar a posição da Igreja Católica em relação a certos tabus, mas que, no fim das contas, não mudam tanto assim.
Desta vez, o alvo foi o aborto.
Na carta pastoral divulgada por ocasião do Jubileu da misericórdia –8 de dezembro de 2015 a 20 de novembro de 2016–, o pontífice anunciou que, nesse período, padres também estarão autorizados a dar o perdão a mulheres que tenham feito aborto, bem como a pessoas que as tenham ajudado, desde que se mostrem arrependidas.
A mudança ganha importância quando se considera que a Igreja Católica inclui o aborto numa restrita lista de crimes particularmente graves, que provocam a excomunhão automática.
Isso significa que, quando uma mulher faz um aborto, ela já se encontra, em virtude do próprio ato e sem necessidade de julgamento ou declaração, excomungada.
Para trazê-la de volta à comunidade de católicos, é necessário que o próprio papa ou um bispo a perdoe. Com a nova determinação, essa remissão fica mais acessível.
Embora o papa tenha encontrado mais uma ocasião para mostrar-se aberto e afinado com a modernidade, a verdade é que, em termos objetivos, nada se alterou na doutrina da igreja. O aborto não deixou de ser um delito que gera excomunhão automática, e a ampliação do poder dos padres nesse ponto é, por ora, provisória.
Francisco já recorreu a expedientes análogos quando deu declarações favoráveis a homossexuais ("quem sou eu para julgá-los?") e ao acolhimento de divorciados que contraem novas núpcias ("sempre pertencerão à igreja"). Simpatias à parte, formalmente nada mudou no tratamento que a Santa Sé dispensa a esses grupos.
Francisco, o primeiro papa jesuíta da história, encontrou uma forma inteligente de atuar. Dosa as palavras e as atitudes para que possam ser percebidas como avançadas pelo público mais progressista, mas que, aos olhos dos mais conservadores, fiquem bastante aquém de configurar uma travessia do Rubicão moral.
Não é uma estratégia ruim, já que todos os tipos de católico têm a chance de se reconhecerem no papa –e a igreja dá a impressão de não ter ficado parada no tempo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Homo quem?

Homo quem?

Para cientistas americanos, afobação para encontrar novas espécies do gênero Homo tem feito colegas perderem o critério; muitos dos supostos hominídeos não passam de macacos primitivos, afirmam
REINALDO JOSÉ LOPESCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Uma parte crucial da árvore genealógica da espécie humana virou um saco de gatos, uma bagunça completa, argumentam dois respeitados paleoantropólogos americanos.
O problema é o conjunto de espécies hoje classificadas no gênero Homo, grupo ao qual pertence, é claro, o Homo sapiens, ou seja, o ser humano de anatomia moderna, e seus primos europeus extintos, os neandertais.
É verdade que, nesses dois casos, não há grandes dúvidas –tanto que análises de DNA revelaram episódios de miscigenação entre humanos modernos e neandertais. Para Jeffrey Schwartz, da Universidade de Pittsburgh, e Ian Tattersall, do Museu Americano de História Natural, no entanto, a coisa fica feia quando o objetivo é entender formas mais arcaicas de ancestrais da humanidade.
Escavações na África e em outros lugares do mundo revelaram um minizoológico dessas criaturas –há o H. habilis, o H. rudolfensis, o H. ergaster, o H. erectus e formas mais misteriosas, conhecidas simplesmente como "Homo primitivo", isso sem falar em alguns outros nomes científicos que acabaram não pegando.
Tais nomes científicos designam fósseis que viveram num intervalo relativamente curto do tempo geológico –grosso modo, entre 2,5 milhões e 1,5 milhão de anos atrás.
Em artigo na última edição da revista especializada "Science", Schwartz e Tattersall defendem que esse milagre da multiplicação da nomenclatura foi longe demais. Boa parte dos fósseis do infográfico nesta página não deveria estar no gênero Homo, dizem eles.
MONO O QUÊ?
"Monofilético" é a palavra-chave, disse Tattersall à Folha. O termo, empregado em estudos sobre o parentesco evolutivo entre seres vivos, designa um grupo que inclui uma espécie ancestral e todos os seus descendentes. O indício-chave desse parentesco são (prepare-se para outro palavrão em grego) as chamadas sinapomorfias, que não passam de características compartilhadas por todos os membros do grupo –e apenas entre eles.
Gêneros de seres vivos, como o Homo, precisam ser grupos monofiléticos. Embora não haja uma regra estrita sobre quão inclusivos eles podem ser (ou seja, sobre a diversidade de espécies que podem "caber" dentro de um gênero), de modo geral um gênero congrega espécies de parentesco bastante próximo. Um exemplo que ajuda a entender isso no caso de mamíferos como nós é o do gênero Panthera, que congrega, entre outros, onças-pintadas, leopardos, leões e tigres.
A principal ferramenta usada ainda hoje pelos cientistas para classificar espécies (ainda vivas ou extintas) em gêneros é a semelhança anatômica ou morfológica. "Uma vez que o gênero Homo necessariamente tem de abrigar o H. sapiens, o jeito óbvio de organizar as coisas é partir dessa espécie e ver quais formas extintas formam um agrupamento monofilético e morfologicamente unificado com ele", explica Tattersall.
Para ele, porém, não é o que anda sendo feito.
"Os paleoantropólogos têm simplesmente enfiado fósseis mais e mais antigos no gênero sem se preocupar muito com a questão da morfologia. Em vez de fazer as coisas com cuidado, os trabalhos seguem o desejo de descobrir o 'Homo mais antigo', o que não dá muito certo."
Segundo ele, essa corrida acabou praticamente abandonando a busca por sinapomorfias, ou seja, traços capazes de unir de forma coerente os fósseis classificados como Homo.
De fato, existe uma enorme diversidade entre os primatas extintos hoje incluídos no gênero: há desde tampinhas (com 1,40 m de altura ou menos) de cérebro pouco maior que o de um chimpanzé, como o Homo habilis, até criaturas que fabricavam ferramentas relativamente complexas e tinham o corpo alto e esguio de um maratonista queniano, caso de alguns exemplares do Homo erectus.
Outros cientistas, como Esteban Sarmiento, da Fundação Evolução Humana (EUA), dizem que tal tendência tem levado cientistas mais afoitos a enxergar hominídeos em toda parte –certos fósseis na verdade seriam de grandes macacos primitivos.
"Existe um desejo subliminar de enxergar certos fósseis como hominídeos", pondera Tattersall. "Nós, por exemplo, descobrimos que muitos dentes do Extremo Oriente atribuídos ao Homo erectus poderiam ser interpretados de forma mais razoável como pertencentes a primos dos orangotangos. O status de hominídeo de algumas formas africanas muito antigas chegou a ser contestado."
Diante do aparente impasse, o que fazer? A sugestão de Schwartz e Tattersall é simples: começar de novo, praticamente do zero. Eles defendem que é preciso reanalisar cuidadosamente a morfologia de cada fóssil de hominídeo e, a partir daí, propor agrupamentos novos e mais coerentes.
Segundo eles, isso quase certamente levará os especialistas a jogar na lata do lixo da nomenclatura paleontológica vários dos nomes científicos que são populares hoje; ao mesmo tempo, novos gêneros deverão ser criados para acomodar os hominídeos "sem-teto".
Caso isso aconteça, seria mais um passo importante para solapar a ideia de que a evolução humana seguiu uma espécie de progressão lógica e linear, com o "objetivo" de produzir o Homo sapiens.
Em vez disso, o cenário seria mais parecido com o que se vê em outros grupos de mamíferos: uma grande diversidade de gêneros convivendo e competindo, mais como um arbusto de que como uma árvore de tronco único.

O príncipe e os súditos

BERNARDO MELLO FRANCO

O príncipe e os súditos

BRASÍLIA - Herdeiro da maior empreiteira do país, o executivo Marcelo Odebrecht é conhecido pelo apelido de príncipe. Nesta terça, ele deixou a prisão para ser cortejado por um diligente grupo de súditos: os deputados da CPI da Petrobras.
O depoimento se transformou em uma ação entre amigos. Os inquisidores pareciam concorrer para ver quem elogiava mais o empresário, que responde a ação penal por corrupção, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa.
"Senhor Marcelo, é a primeira vez que tenho a oportunidade de estar pessoalmente no mesmo ambiente que o senhor", desmanchou-se Altineu Côrtes (PR-RJ). Depois, ele disse conhecer empregados da Odebrecht que sentem "profundo orgulho" do patrão. Só faltou pedir autógrafo.
Valmir Prascidelli (PT-SP) formulou uma pergunta curiosa ao investigado. "O sr. acha adequada e correta a sua prisão, considerando que sempre se colocou à disposição da Justiça?" Odebrecht retribuiu, sensibilizado: "Agradeço muito as perguntas que o sr. está fazendo, porque elas seriam as minhas respostas".
Delegado Waldir (PSDB-GO), que na véspera chamara José Dirceu de "ladrão", parecia outra pessoa. "Parabéns, eu também me orgulho muito do meu pai", disse, quando o empreiteiro citou o patriarca Emilio.
Outro tucano, Bruno Covas (PSDB-SP), se mostrou compreensivo quando o réu se recusou a responder perguntas: "Não precisa pedir desculpas, até porque é um direito seu".
É elogiável que os deputados façam perguntas em tom educado. Mas o excesso de mesuras ficou constrangedor até para os padrões da CPI, que tem se empenhado em proteger réus e perseguir delatores da Lava Jato.
No fim, Carlos Andrade (PHS-RR) quis saber se o executivo continua a defender o financiamento privado de campanhas. Em 2014, o grupo Odebrecht doou R$ 918 mil a deputados da CPI. "Sou a favor, sempre fui", respondeu o príncipe encarcerado. Os súditos pareceram respirar aliviados.