quinta-feira, 25 de junho de 2015

Racismo

Kenneth Maxwell

Racismo


O racismo voltou a exibir sua feiura nos Estados Unidos, no homicídio de nove paroquianos negros, entre os quais a reverenda Clementa Pinckney, senadora estadual pelo Partido Democrata na Carolina do Sul, durante uma aula sobre a bíblia na Igreja Episcopal Metodista Africana Emanuel, a mais antiga congregação negra no sul do país. O homicídio em massa foi supostamente perpetrado por Dylann Roof, 21, um atirador racista.
O presidente Barack Obama expressou sua frustração quanto ao mais recente episódio de mortes de negros nos últimos meses, bem como quanto à tarefa de um dia afastar os norte-americanos de seu amor aparentemente obsessivo por armas de fogo.
Depois de um ano de intenso debate sobre as relações raciais nos EUA por conta de diversas mortes de negros desarmados por policiais brancos, e de um movimento renovado pelos direitos civis, é triste que o primeiro presidente negro do país se veja forçado a lidar constantemente com o legado do racismo em sua sociedade.
Até onde os políticos se importam, a questão se reduziu ao simbolismo da bandeira confederada desfraldada sobre a sede do Legislativo da Carolina do Sul, transferida a um mastro no chão em 2000. Obama declarou que a bandeira deveria estar em um museu. Para a maioria dos norte-americanos, ela é símbolo da escravidão, repressão e vergonha. Para a Carolina do Sul, especialmente, a memória da guerra civil pesa muito. Ela foi o primeiro Estado a se declarar favorável à confederação. Foi em Charleston que os primeiros disparos da guerra foram feitos. Foi em abril de 1861 que o bombardeio confederado ao Forte Sumter deflagrou os quatro anos de luta entre o norte e o sul. O Estado, que tinha uma população de 301 mil pessoas livres e 402 mil escravos, perdeu 12 mil homens brancos durante a guerra, a maior porcentagem entre todos os Estados sulistas.
A Carolina do Sul também proveu um dos heróis negros da guerra civil, Robert Smalls, escravo que escapou com o código secreto dos confederados, contendo sinais e a localização das minas e torpedos posicionados na baía de Charleston. Ele também ajudou a persuadir Abraham Lincoln a aceitar soldados negros no exército da união. As forças confederadas abandonaram o Forte em 1865, e o 54º Regimento de Massachusetts, uma unidade negra, marchou para a cidade de Charleston.
Os paroquianos negros da igreja Emanuel receberam com gentileza o jovem branco Dylann Roof quando ele se uniu ao seu grupo de estudo da Bíblia. Talvez, nos próximos dias, os brancos e negros devam recordar sua história compartilhada, a do ex-escravo e unionista Robert Small e eles possam todos começar a deixar para trás os divisivos ódios do passado.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Armas a postos

Armas a postos

O atual clima de confrontação entre a Rússia e os países da Otan (aliança militar ocidental) obedece a um velho e conhecido roteiro, pelo qual ambos os lados, sem que pretendam de fato se envolver em uma guerra, buscam impressionar o adversário por meio de fartas exibições de poderio bélico.
Moscou intensificou sua movimentação militar a partir do ano passado. Deslocou dezenas de milhares de soldados para as fronteiras ocidentais, ampliou os exercícios regulares de suas tropas terrestres, aéreas e navais e passou a realizar, sem aviso prévio, treinamentos de combate em regiões próximas de vizinhos europeus.
A Otan, por sua vez, reforça suas posições na Europa oriental. No início de 2015, a organização decidiu aumentar de 13 mil para 30 mil homens suas forças de reação rápida; além disso, criou novos centros de comando na região.
Agora vieram à tona planos do Pentágono, endossados por outros membros da Otan, de alocar tanques, veículos de combate e outros armamentos pesados em países dos Bálcãs e do Leste Europeu.
Se o projeto se concretizar, pela primeira vez os Estados Unidos mobilizarão equipamentos dessa espécie em países que estiveram na órbita da extinta União Soviética.
Mais que isso, a movimentação contrariaria acordo assinado entre o Kremlin e a Otan em 1997, pelo qual a aliança ocidental se compromete a não ampliar suas forças terrestres nas cercanias da Rússia.
Membros da organização militar, porém, entendem que o pacto se tornou obsoleto --as circunstâncias teriam se modificado radicalmente com a política expansionista praticada pelo presidente russo, Vladimir Putin.
O exemplo acabado dessa diretriz está na anexação da Crimeia, região que pertencia à Ucrânia, levada a cabo por Moscou em março de 2014. A ação foi conduzida em meio a protestos internacionais e apoiada por controverso referendo.
No episódio mais recente dessa escalada, Putin anunciou que acrescentará 40 mísseis intercontinentais ao seu arsenal nuclear.
Em sua frase mais conhecida, o teórico da estratégia militar Carl von Clausewitz (1780-1831) diz que a guerra é a "continuação da política por outros meios". Apesar da renovada disputa armamentista, Otan e Rússia felizmente ainda estão muito longe de atingir esse limiar fatídico.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Recomeço

ANTONIO DELFIM NETTO

Recomeço

É cada vez mais evidente que o Congresso tem muita dificuldade de produzir um sistema eleitoral razoável. Nele deveriam caber as seis ou sete tribos de pensamento político diferentes existentes no mundo e que pudessem ser votadas num processo eleitoral competitivo no qual o poder econômico não tivesse importância decisiva. Poder econômico, aqui, não é apenas o poder de pessoa física ao milhar, ou da grande empresa e do sistema financeiro que servem ao governo ou às empresas estatais, ou se beneficia do crédito privilegiado dos bancos públicos, mas, também, o das igrejas que se aproveitam de isenções tributárias para operações eleitorais, e o dos sindicatos fornidos por benefícios fiscais com o mesmo fim.
A história mostra que não há um sistema eleitoral perfeito, mas é óbvio que o nosso é imperfeito demais. Infelizmente, a despeito de todo o esforço de mobilização da Câmara, o resultado até agora foi pífio e os aperfeiçoamentos, se chegaram a acontecer, serão infinitesimais. A eliminação da possibilidade de reeleição, por exemplo, não se deveu às suas inconveniências, mas à impossibilidade de controle social que preside o processo eleitoral e cresce quando se passa do nível federal para o estadual. Atinge a plenitude no nível municipal, onde a reeleição tende a dizimar a oposição. O resultado da votação mostrou o interesse do deputado de livrar-se, no nível municipal, do poder da "máquina eleitoral" montada pelo "grupo" do prefeito reeleito e que não é sujeita a qualquer controle eficaz.
O recente protagonismo do Congresso é um fato muito positivo para a consolidação do processo democrático e para a construção da sociedade civilizada inscritos na Constituição de 1988. É preciso dizer que ele não é consequência da redução atual do papel do poder Executivo, que em si mesmo é um fenômeno preocupante. Ele é consequência do fato que para reeleger-se, o governo federal promoveu um insensato desequilíbrio que comprometeu o desenvolvimento com um gigantesco déficit nominal, o uso da contabilidade "criativa", o aumento da relação dívida/PIB, o aumento da inflação e uma valorização cambial que gerou destruição do setor industrial. Isso levou à necessidade de um "ajuste fiscal" que inibiu até agora a sua ação, que o expôs à evidente predação do Legislativo e do Judiciário que insistem em sugerir aumento de despesas sem responsabilizarem-se pelo aumento simultâneo da receita.
O excelente Plano de Safra de 2015/16 talvez seja o primeiro sinal positivo que o poder Executivo pode recuperar o seu protagonismo mantendo a ênfase no restabelecimento do equilíbrio fiscal.

Nas mãos do STF

RUY CASTRO

Nas mãos do STF

RIO DE JANEIRO - Há 20 anos, em 1995, meu livro "Estrela Solitária --Um Brasileiro Chamado Garrincha", biografia do craque, foi recolhido das livrarias e impedido de circular por um juiz que acatou uma queixa de dois advogados representando as filhas do jogador. Eu não lhes pedira autorização para escrever sobre seu pai. De fato, não me ocorrera extrair um documento assinado autorizando-me a trabalhar.
E não me faltaram oportunidades. Desde 1993, eu fora oito vezes a Pau Grande, subdistrito de Magé (RJ), ao pé da Serra dos Órgãos, onde moravam sete das oito filhas de Garrincha com dona Nair, sua primeira mulher. Ali moravam também Iracy, sua namorada de infância, e a linda filha de ambos, Márcia. Visitei-as todas, várias vezes. Serviram-me cafezinho, filaram-me cigarros e nunca suspeitei que se opunham ao meu livro.
Graças ao estilista Luiz de Freitas, dono da Mr. Wonderful e nascido na região, fui convidado às casas de 23 outros habitantes de Pau Grande, velhos operários da América Fabril, onde Garrincha trabalhara em criança. Eram a memória viva da tecelagem no Brasil --pensei até em, um dia, escrever sobre eles. Já estavam há muito em Pau Grande quando Amaro, pai de Garrincha, mudara-se para lá, em 1925, e acompanharam a gravidez de dona Carolina, que, em 1933, resultaria no pequeno Mané.
Em Bangu, bairro operário do Rio, conheci Vanderlea (não a cantora), última mulher de Garrincha, com quem ele tivera sua filha Lívia, a quem ajudei a fazer os deveres escolares nas duas tardes que passei com elas. Umas pelas outras, todas essas mulheres responderam a centenas de minhas perguntas. Mas não lhes pedi autorização, e todas me processaram.
O STF julga hoje, em Brasília, se o Brasil já tem idade para escrever sua própria história, ou se continuará precisando pedir autorização.