sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Papa afirma que não se deve insultar a fé

Papa afirma que não se deve insultar a fé

Em viagem à Ásia, Francisco considerou que a liberdade de expressão deve ter como limite o respeito às religiões

'Se alguém diz um palavrão contra a minha mãe, deve esperar um soco', afirma pontífice

LEANDRO COLON
ENVIADO ESPECIAL A PARIS

Um dia depois da publicação da nova edição do jornal satírico francês "Charlie Hebdo", o papa Francisco afirmou que a liberdade de expressão tem limite e não se pode "provocar" nem "insultar" a fé das pessoas.
A capa do jornal, a primeira após o ataque terrorista à sua sede que matou 12 pessoas, foi criticada por líderes islâmicos por estampar um desenho do profeta Maomé chorando e, internamente, ironizar jihadistas.
Durante viagem entre o Sri Lanka e as Filipinas nesta quinta (15), o papa, que aparece numa charge dessa mesma edição do jornal, foi questionado por um jornalista francês sobre os direitos à religião e de expressão.
Ao responder, citou os ataques em Paris ocorridos na semana passada.
O pontífice afirmou que matar em nome de Deus é uma "aberração", mas, ao mesmo tempo, haveria limites para satirizar religiões.
"Temos a obrigação de falar abertamente [sobre religião], temos esta liberdade. Mas sem ofender. Não se pode provocar, não se pode insultar a fé dos outros, não se pode tirar sarro dela", disse.
Apontando para um assessor, o papa deu um exemplo inusitado para mostrar que ofensas levam a reações.
"Se o doutor Gasparri [que cuida das viagens do pontífice], grande amigo, diz um palavrão contra a minha mãe, deve esperar um soco", disse o pontífice, fazendo o gesto correspondente com o braço. "É normal."
De acordo com Francisco, "há um limite". "Cada religião tem dignidade e eu não posso ironizá-la", afirmou.
Mais tarde, em nota, a assessoria de imprensa do Vaticano afirmou que as declarações do papa "não devem de modo algum ser interpretadas como justificativa para a violência e o terror ocorridos em Paris".
ENTERROS
Também nesta quinta (15) ocorreu o enterro de quatro dos 12 mortos no ataque à Redação do "Charlie Hebdo", no dia 7.
Foram sepultados os cartunistas Bernard Verlhac (conhecido como Tignous) e Georges Wolinski, além da colunista Elsa Cayat e do policial Franck Brinsolaro.
O caixão do cartunista Tignous recebeu homenagem com desenhos feitos por amigos e familiares.
O corpo do diretor do semanário satírico e também chargista, Stéphane Charbonnier (Charb), deve ser enterrado nesta sexta-feira (16).
Autores do massacre, os irmãos Chérif e Said Kouachi usaram as sátiras feitas pelo "Charlie Hebdo" sobre símbolos islâmicos para justificar o crime. "Vingamos o profeta", gritaram ao disparar os tiros contra os jornalistas.
Ambos, com histórico de ligações com extremistas muçulmanos, foram mortos pela polícia após uma caçada que durou aproximadamente 54 horas.

Filhos do inferno

Filhos do inferno

Quando já parece ter feito mais que o suficiente para horrorizar pessoas de todo o mundo, o extremismo islâmico consegue superar novos limiares de abjeção.
As gravações em que fanáticos do Estado Islâmico (EI) preparavam-se para decapitar soldados sírios ou reféns ocidentais correram pelas emissoras de TV em toda parte --e voltam a chamar a atenção poucos dias depois do odioso atentado contra o "Charlie Hebdo".
Chamam a atenção novamente, mas com um acréscimo pavoroso. Divulgam-se agora (como sempre, a autenticidade dos vídeos não está comprovada) cenas em que a execução não mais está entregue às mãos de adultos sanguinários.
Um garoto --terá seus 11 anos-- é quem empunha a pistola com que fuzila dois prisioneiros. A primeira reação do espectador é de incredulidade: ainda há candidez e beleza nos traços daquela criança.
A expressão do rosto, todavia, não ilude. Com segurança implacável, a arma é apontada para os supostos espiões russos; a exemplo de outras produções da Al-Hayat, ramo midiático do EI, o momento da execução não é mostrado.
Será tudo uma farsa, destinada a intimidar os corações mais sensíveis da opinião pública? Não se deve descartar a hipótese. Mas não é incomum, lamentavelmente, que fanáticos e assassinos recrutem crianças para suas tarefas.
Pode-se lembrar o caso da Frente Revolucionária Unida em Serra Leoa, à qual meninas serviram como combatentes e escravas sexuais, nos anos 1990. No Sudão do Sul, prossegue o recrutamento de meninos em campos de refugiados.
Por que ir tão longe, pode-se pensar, quando nas favelas brasileiras o tráfico de drogas alista, à vista de todos, adolescentes para que, de metralhadora em punho, exaltem a falência do Estado?
A resposta não é fácil. Talvez porque estejamos habituados à presença de menores armados cometendo crimes nas ruas do país, mas não à gratuidade do assassinato cometido por cegueira, por fanatismo religioso, num ritual a frio.

A diferença é real. Será idêntico, entretanto, o que há ainda de tocante e delicado nos rostos de cada criança instrumentalizada pelo crime e pelo extremismo. Algoz e vítima se integram numa mesma pessoa, nem sequer formada, mas já pronta para a morte.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Escalada fascista

ANDRÉ SINGER

Escalada fascista


Ao comentar o massacre dos jornalistas do "Charlie Hebdo" quarta-feira, o deputado Daniel Cohn-Bendit afirmou que "há no movimento islâmico terrorista e radical um momento fascista" (Folha, 8/1).
Ressalvando que isso nada tem a ver com os muçulmanos em geral, Cohn-Bendit considera que "são (...) pequenos grupos fascistas".
Por não ter condição de realizar avaliação própria, fio-me da opinião externada por um personagem cuja trajetória respeito para observar que esses "momentos fascistas" só tem feito crescer no século 21. Acima dos motivos específicos presentes nos conflitos que pipocam planeta afora, existe a tendência a se estabelecer neles uma dinâmica fascista, caracterizada pela ideia de que só o uso da força pode resolver os problemas. Embora envolvam facções antagônicas dispostas a se matarem mutuamente, os inimigos têm dois elementos que os irmanam: desprezo pela democracia e amor pela guerra. Por isso, se reforçam mutuamente.
Os atentados de 11 de setembro de 2001, aparentemente executados pela mesma organização que agora assassinou os cartunistas franceses, provocaram uma regressão autoritária nos EUA. Da suspensão de garantias individuais à injustificada invasão do Iraque, passando pela adoção da tortura como política de Estado, profusão de elementos fascistas vieram à tona numa das pátrias da democracia.
Nem mesmo a vitória de Obama, em boa medida fruto da reação de parte da sociedade à ascensão do autoritarismo na era Bush, foi capaz de reverter a tendência geral de fascistização. A promessa enfática de desativar em curto prazo Guantánamo --símbolo da tortura-- foi descumprida.
Na Europa, "o crescimento espetacular da extrema-direita", segundo Michael Löwy (Folha, 15/6), "é um fenômeno sem precedente desde os anos 1930". Não é difícil imaginar, nesse contexto, a quem irá favorecer o absurdo ataque ao jornal de Paris. Marine Le Pen, a candidata da Frente Nacional à Presidência da República francesa, já declarou que "o islamismo declarou guerra ao nosso país e devemos responder sem fraquejar" (Folha, 9/1). Ação e reação.
Em brilhante artigo de 20 anos atrás, a psicanalista britânica Hanna Segal previa que mecanismos profundos fariam o Ocidente encontrar, ou criar, novos inimigos para preencher o vácuo deixado pela Guerra Fria ("De Hiroshima à Guerra do Golfo e depois: expressões sociopolíticas de ambivalência"). O tempo lhe deu razão. Se os movimentos que acreditam na democracia não tiverem engenho e energia política suficiente para desativar as fontes que alimentam o fascismo, a covardia assassina deste 7 de janeiro ficará como preliminar de dias bem piores.

Depois do trauma


Depois do trauma

Rigor na prevenção de atentados não se opõe a políticas de integração das minorias; ambos se impõem na luta contra o extremismo
De forma cinematográfica e sangrenta, encerrou-se ontem (9) a caçada aos dois irmãos acusados de desencadear o atentado contra o semanário satírico "Charlie Hebdo", na última quarta-feira (7).
Uma equipe especializada cercou a oficina gráfica a 35 km de Paris, onde Said e Chérif Kouachi, cidadãos franceses de pais argelinos, mantinham um refém.
Sitiados, ambos tentaram abrir a bala seu caminho de fuga; tiveram, entretanto, o mesmo fim que infligiram, com muito mais impiedade e desvario, aos cartunistas, seguranças e demais profissionais fuzilados na sede do jornal parisiense.
Em solidariedade aos autores do bárbaro atentado, outro cidadão francês, Amedy Coulibaly, invadiu um mercado judaico, assassinando quatro pessoas antes de ser ele próprio morto pela polícia.
Dificilmente seria pacífico o desfecho de um acontecimento desde o início marcado pelo extremismo e pela sanguinolência.
Apenas num sentido muito estrito, contudo, pode-se falar em "desfecho". Não só porque ainda estão por ser esclarecidas todas as circunstâncias do atentado em si, mas também porque mal se vislumbram os efeitos do ocorrido para o ambiente político europeu.
Já eram visíveis, antes do morticínio, os sinais de um recrudescimento da islamofobia em alguns países. A partir deste momento, a extrema-direita francesa, reciclada na figura de Marine Le Pen, decerto poderá contabilizar ainda mais adeptos para sua política de intolerância contra imigrantes em geral.
Calcula-se em cerca de 5 milhões o número de islâmicos na França. Apenas uma ínfima minoria haverá de representar ameaça real e armada aos valores do Ocidente.
Preconceito e marginalização tendem, contudo, a ser fatores de recrutamento para as forças do extremismo --e negação de princípios fundamentais para as democracias, como a liberdade de expressão, de opinião e de culto.
Uma política ativa de integração e abertura se torna essencial para evitar que o trauma se aprofunde em ambos os lados.
Não se pode deixar de apontar, de todo modo, a aparente ineficiência dos serviços de inteligência. Os irmãos Kouachi eram monitorados havia tempos; o sequestrador Coulibaly já tinha sido responsabilizado por diversos crimes.
Ações positivas de aproximação cultural não podem se confundir com a timidez das autoridades em reprimir o terrorismo. A menos que se tenha introjetado uma variante especialmente perversa e paradoxal do preconceito, é evidente que lutar com o máximo rigor contra fanáticos e assassinos não significa padecer de islamofobia.
Nos países democráticos, a segurança, a lei e a ordem são, em sua essência, garantia dos direitos individuais e sociais, e não instrumentos do preconceito --muito menos um álibi para a violência de extremistas.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

É o choque de civilizações?

CLÓVIS ROSSI

É o choque de civilizações?

Radicais islâmicos e seus adversários islamófobos se alimentam mutuamente e criam cenário de horror
Atentados do 11 de Setembro nos Estados Unidos. Responsáveis: terroristas islâmicos.
Atentados aos trens de Madri. Responsáveis: terroristas islâmicos.
Atentados ao metrô e a ônibus de Londres. Responsáveis: terroristas islâmicos.
Atentado ao jornal satírico "Charlie Hebdo" em Paris. Os autores gritaram que estavam "vingando o profeta", alusão à publicação de charges de Maomé e a sucessivas outras edições que radicais muçulmanos acharam ofensivas.
Ou seja, por trás de todos os atentados de grande repercussão no Ocidente estão fanáticos muçulmanos.
Culpa do Corão, então? Não, responde, por exemplo, Reza Aslan, escritor iraniano-americano, pesquisador de estudos religiosos: "A noção de que há uma correlação direta entre crenças religiosas e comportamento pode parecer óbvia e autoevidente para aqueles não familiarizados com o estudo da religião. Mas [a correlação] tem sido menosprezada por cientistas sociais que notam que crenças não explicam comportamento e que o comportamento é, na verdade, o resultado de complexas interações entre uma série de fatores sociais, políticos, culturais, éticos, emocionais e, sim, religiosos".
O que complica tremendamente a equação é que quase todos esses fatores atuam mais ou menos simultaneamente sobre as comunidades muçulmanas radicadas na Europa.
E delas saíram os terroristas responsáveis pelos atentados anteriores aos desta quarta em Paris, mesmo os do 11 de Setembro, que viveram e se prepararam na Alemanha.
É o terrorismo "home grown", feito em casa, em tradução livre.
São comunidades que se sentem marginalizadas social, política e culturalmente. E é óbvio que só podem se sentir emocionalmente tocadas quando veem desabrochar com força movimentos islamófobos como o Pegida (acrônimo em alemão para Patriotas Europeus contra a Islamização da Europa).
A propósito: não deve ser mera coincidência que a barbárie contra o "Charlie Hebdo" tenha ocorrido no momento em que está sendo lançado o livro "Submissão", em que o polêmico escritor Michel Houellebecq descreve a eleição de um muçulmano como presidente da França em 2022 e todo o cortejo de "submissões" que se segue.
Os radicais islâmicos e os islamófobos europeus acabam se alimentando mutuamente.
O atentado ao jornal satírico faz Noureddine Bouzian, correspondente em Paris da Al Jazeera, prever que "os próximos dias serão muito duros para os muçulmanos na França, especialmente se a extrema direita entrar em ação".
Faz também Philip Johnston, editor-assistente de Opinião do britânico "Daily Telegraph", reconhecer que "atitudes anti-islâmicas começam a se mover da extrema direita mais para dentro da corrente principal do descontentamento popular".
Para azar de todos, parece estar se tornando realidade a profecia do choque de civilizações, lançada pelo cientista político Samuel P. Huntington, segundo quem as identidades culturais e religiosas seriam a principal fonte de conflito no mundo contemporâneo.
crossi@uol.com.br

    Charlie Hebdo

    NA INTERNET

    OUÇA E ASSISTA
    "Nós vingamos o profeta Maomé, nós matamos Charlie Hebdo", disse um dos terroristas durante o ataque em Paris. Ouça áudio e veja vídeo do atentado:
    folha.com/no1571939

      Por três séculos, a irreverência tem sido a corrente sanguínea da liberdade

      OPINIÃO

      Por três séculos, a irreverência tem sido a corrente sanguínea da liberdade

      SIMON SCHAMAESPECIAL PARA O "FINANCIAL TIMES"
      O assassinato da sátira não é motivo de piada. A horrenda carnificina no "Charlie Hebdo" serve de lembrete de que a irreverência é a corrente sanguínea da liberdade.
      O fato de os monstros por trás da matança temerem o humor a ponto de tentarem sufocá-lo a tiros, acho, é uma espécie de elogio velado.
      O negócio de publicações como o "Charlie Hebdo" é tomar liberdades, mesmo as ultrajantes, que existem para nunca perdermos o apreço pelo dom do desrespeito.
      Liberdade e riso caminham juntos na tradição europeia há três séculos. A sátira gráfica emergiu nas guerras religiosas entre católicos e protestantes, para os quais a imprensa era a resposta à iconografia da Igreja Católica, à qual, achavam, os céticos eram forçados a se submeter.
      Por isso eles inventaram uma iconografia invertida na qual papas se tornavam monstros e reis, assassinos.
      Os holandeses, que inventaram as gazetas noticiosas ilustradas na metade do século 17, se viam como vítimas da fúria religiosa. Seu contra-ataque visual começou com histórias populares ilustradas da rebelião contra a monarquia espanhola.
      O primeiro grande satirista gráfico moderno foi Romeyn de Hooghe, que o rei holandês Guilherme 3º convocou em sua guerra contra a França. Ele não se fez de rogado e produziu grandes cartuns sobre as guerras contra o monarca francês como uma batalha entre liberdade e despotismo religioso.
      Os satiristas outra vez se viram liderando a carga contra os fanáticos. E servia aos interesses dos Estados protestantes soltar-lhes as rédeas.
      A era dourada da sátira gráfica, no século 18, emergiu da tumba das guerras religiosas e foi tornada possível pelo vazio de poder, sobretudo na Grã Bretanha. Surgiram facções, cada uma recorrendo a caricaturistas para atacar seus inimigos, expor hipocrisias e derrubar os poderosos por meio da hilaridade.
      Coube assim à Grã Bretanha reinventar a política como comédia, e eles não vacilaram. Mesmo agora, nos EUA, o inimigo maior da democracia --depois do dinheiro-- é o excesso de reverência, e a sátira foi confinada a programas de TV noturnos.
      Mas, na grande era do ataque político ilustrado, não havia para onde correr e ninguém era poupado. A Igreja Anglicana; religiosos dissidentes; o Banco da Inglaterra; políticos importantes e a família real --alvos lícitos.
      A sátira oxigenou a política. James Gillray, o maior dos caricaturistas, alugava álbuns inteiros para uma noite de entretenimento. Todo mundo contemplava os desenhos: o príncipe de Gales grotescamente inchado; o premiê representado como um capacho em um monte de estrume; a rainha Charlotte, com os seios pendulares expostos, dominando o premiê.
      Gillroy só foi preso uma vez (desenhou políticos beijando o traseiro de um bebê real) e nunca cumpriu sentença.
      A grande tradição do ridículo foi transmitida a herdeiros britânicos e depois norte-americanos e europeus: a Daumier e Chruikshank; aos criadores da "Krokodil" e da "Private Eye", do "Spitting Image", do "Canard Enchainé" e do "Charlie Hebdo".
      Nesta quarta, houve uma sangrenta tentativa de tirar-nos os sorrisos. Ainda que tenham matado os satiristas, jamais aniquilarão a sátira.
      De agora em diante, o "Charlie Hebdo" servirá de marco para aqueles que acalentam a vida e o riso em lugar do culto à morte.
      Por isso, devemos àqueles que caíram lembrar-nos, em meio ao sangue, pesar e raiva, que o fato de serem assassinos não impede que sejam, também, palhaços.

      Jornal foi alvo por ir até as últimas consequências

      ENTREVISTA - DANIEL COHN-BENDIT

      Jornal foi alvo por ir até as últimas consequências

      Líder do maio de 68 e próximo de vítimas se diz desemparado com 'selvageria' e critica 'fascismo' de islã radicalizado
      RODRIGO VIZEUEDITOR-ASSISTENTE DE "MUNDO"
      O jornal "Charlie Hebdo" foi alvo de terroristas porque "ia até o fim", afirma o ícone do Maio de 1968 francês Daniel Cohn-Bendit, 69. Hoje deputado no Parlamento Europeu, o franco-alemão Cohn-Bendit, um dos líderes do movimento estudantil dos anos 60, era amigo de alguns dos cartunistas assassinados.
      Ele saudou as vítimas por sua capacidade de expor as contradições sociais e criticou o que chamou de "fascismo" do islamismo radical. Segundo o político, é preciso um combate de convencimento de muçulmanos europeus radicalizados.
      Folha- Como o sr. recebe esse ataque, primeiramente de um ponto de vista pessoal?
      Daniel Cohn-Bendit - Pessoalmente, é um choque terrível que esse atentado possa ter ocorrido em uma Redação de jornal em Paris. Nos sentimos totalmente desamparados diante da selvageria.
      Dois deles, Cabu e Wolinski, eram próximos do sr.
      Sim, nos acompanharam na maior parte de nosso percurso político. São pessoas que encontrava com frequência, com quem confraternizei, que lutavam o mesmo combate antinuclear, antimilitarista, anticlerical. Tinham a capacidade, com suas canetas e lápis, de mostrar as contradições da sociedade. Eram antinacionalistas, antinucleares, ecologistas, libertários.
      É preciso entender que "Charlie Hebdo" foi alvo por ser um jornal no qual os fundadores eram anticlericais, antirreligiosos, eles iam até o fim. Jornalistas que se consideravam no espírito de 68, no senso crítico, de uma radicalização do pensamento, da rejeição da religião, do autoritarismo.
      O sr. acredita que de alguma forma "Charlie Hebdo" exagerava nas piadas?
      Era a concepção deles, um jornal satírico onde o exagero era parte de sua ideia. Se você diz que eles exageram, diz que eles não têm razão de ser. Estavam convencidos de que a liberdade de expressão é atacar de Cristo a Maomé. Era a concepção de liberdade deles. Pode-se achar isso babaca ou bom. Mas é parte do jogo. Uma sociedade livre é justamente aquela que suporta o excesso.
      Como vê o ataque do ponto de vista político?
      Creio que há no movimento islâmico terrorista e radical um momento fascista. São forças, pequenos grupos fascistas. Isso não quer dizer --e a elite política e todo mundo na França sublinhou isso bem hoje-- que se deva confundir esse fascismo que se faz em nome do islã com os muçulmanos em geral.
      Como combater isso?
      Existe um combate militar-policial, como contra o Estado Islâmico. Não é com boas palavras e pedindo o dia todo que você vai derrotá-lo. Além disso, na sociedade, é preciso demonstrar aos muçulmanos europeus que eles são cidadãos europeus e como tal devem combater o extremismo.

      Integração de muçulmanos à Europa é alvo de manipulações

      ANÁLISE

      Integração de muçulmanos à Europa é alvo de manipulações

      DIOGO BERCITOENVIADO ESPECIAL A PARIS
      Não é verdade que o islã seja incompatível com a Europa "cristã e democrática", como será dito depois do atentado à Redação do "Charlie Hebdo". Nem que haja uma "guerra entre civilizações".
      Mas o ataque brutal de Paris, assim como episódios anteriores de violência radical na região, deixam por outro lado evidente o atrito entre países europeus e suas populações muçulmanas.
      O "Charlie Hebdo" já havia sido sido alvo de atentado em 2011 depois de publicar uma ilustração de Maomé. Na Dinamarca, é célebre o caso das caricaturas do profeta com uma bomba na cabeça --que motivou revoltas e ameaças.
      O diretor holandês Theo van Gogh foi morto em 2004 após realizar um filme polêmico sobre o tratamento das mulheres no islã.
      Esse atrito era justamente um dos temas da edição desta quarta do jornal, representando o romancista francês Michel Houellebecq, que acaba de publicar um livro sobre a França do futuro --governada por muçulmanos. O temor diante da imigração e do crescimento dessa população é evidente ali.
      O assunto é matéria-prima para a manipulação política em diferentes grupos. A direita francesa, por exemplo, é crítica à imigração ao país. Líderes islâmicos radicais mobilizam seus seguidores em torno de casos como o do "Charlie Hebdo", também.
      O isolamento e a falta de perspectivas, aliás, são apontados por jovens militantes como uma das razões pelas quais viajam à Síria para lutar nas fileiras do Estado Islâmico.
      Também preocupa que a luta contra o EI, percebida em alguns círculos como uma "luta contra o islã", motive ataques como o desta quarta.

      Ataque contra mídia é o pior desde 2009, diz entidade

      Ataque contra mídia é o pior desde 2009, diz entidade

      Naquele ano, 34 jornalistas foram mortos em massacre nas Filipinas
      Para CPJ, 2014 é ápice dos 3 anos mais mortais para a categoria; no Brasil, associações do setor repudiam ataque
      NELSON DE SÁDE SÃO PAULO
      O atentado contra o "Charlie Hebdo", segundo o Comitê para a Proteção de Jornalistas, "é o pior ataque à mídia desde o massacre de Maguindanao", em novembro de 2009, nas Filipinas --quando ao menos 34 jornalistas foram mortos ao cobrir ato eleitoral.
      A lista de piores ações contra jornalistas feita pelo CPJ, sediado em Nova York (EUA), destaca ainda a morte de 11 funcionários da TV Al Shaabiya em 2006, em Bagdá (Iraque), e de cinco da E-TV em 1997, em Hyderabad (Índia).
      Segundo o CPJ, 2014 vem sendo "o ápice dos três anos mais mortais" para jornalistas desde que a entidade iniciou levantamento detalhado, em 1992. Até ontem, o fenômeno era creditado principalmente à guerra civil síria.
      "A ameaça aos jornalistas e à liberdade de expressão é global, sem porto seguro", disse Joel Simon, diretor-executivo do CPJ. Para Robert Mahoney, vice da entidade, os jornalistas devem se unir e "passar a mensagem de que os atentados homicidas para nos calar não prevalecerão".
      O sentimento ecoou por entidades globais de imprensa.
      O presidente-executivo da Associação Mundial de Jornais (Wan-Ifra), Vincent Peyrègne, afirmou que "esta absurda atrocidade não é apenas um ataque à imprensa, mas também à sociedade e aos valores pelos quais todos lutamos", alertando para o "crescente clima de ódio que ameaça fraturar nossa compreensão de democracia".
      No Brasil, o vice-presidente da Associação Nacional de Jornais, Francisco Mesquita Neto, disse que o ataque, além de matar "colaboradores de um veículo que se caracteriza por abordar a realidade pela via do humor, claramente pretende intimidar a imprensa que não se submete a uma visão de mundo totalitária".
      Para o presidente da Associação Nacional de Editores de Revistas, Frederic Kachar, "este atentado inaceitável atinge também a liberdade de expressão e de imprensa, pilares fundamentais para sociedades democráticas".
      A diretoria da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) alertou "para o perigo da intolerância (seja política, religiosa ou de qualquer natureza) e do obscurantismo, que tem gerado ataques às liberdades de expressão e de imprensa em todo o mundo".
      E a diretoria da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) afirmou que "a carnificina tenta impor o terror aos meios de comunicação e calar o direito à expressão em um dos países que o simboliza", sendo "um ataque à liberdade de imprensa em todo o mundo".

      Cerca de 100 mil vão às ruas por vítimas de atentado na França

      Cerca de 100 mil vão às ruas por vítimas de atentado na França

      Em Paris, 35 mil se reuniram na Praça da República; franceses temem xenofobia após episódio
      Presidente francês pede união ao país e diz que assassinos serão tratados 'com rigidez'; EUA oferecem apoio
      GUSTAVO RIBEIROCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM PARIS
      Cerca de 100 mil pessoas se mobilizaram em toda a França em solidariedade às 12 vítimas fatais do ataque ao jornal Charlie Hebdo. O principal ato ocorreu na Praça da República, em Paris, e reuniu 35 mil franceses.
      O evento foi marcado pela preocupação em não estigmatizar os árabes e muçulmanos que vivem na França.
      "Esses monstros não representam toda a comunidade árabe. Não podemos nos deixar contagiar pelo delírio de um ato extremista", diz o jornalista Alexandre Bodovski.
      Organizado por partidos de esquerda, o ato começou às 17h (hora local). Inicialmente, os manifestantes ficaram em silêncio, mostrando cartazes em defesa da liberdade de expressão e em repúdio ao extremismo. Depois, entoaram cantos de "Não temos medo" e "Eu sou Charlie".
      Por volta das 22h30, desenhistas fizeram um memorial às vítimas: um círculo de velas, com canetas no interior.
      "Eu e minha mulher acompanhamos toda a trajetória do Charlie. É um jornal que sempre representou um direito fundamental: o de rir de tudo e de todos", disse o aposentado Jean Banot, que participava da manifestação.
      "O mais triste, além da perda humana, é saber que esse episódio dará abertura a discursos xenófobos", acrescentou sua mulher, Michelle.
      A preocupação não chega a ser um exagero, pois também havia vozes radicais. Era o caso de Claude Batola, congolês radicado na França há 20 anos. "É preciso acabar de uma vez por todas com o islã radical na França. O que eles fizeram é desumano."
      Manifestantes criticaram presentes que empunhavam bandeiras de partidos políticos ou da União Europeia. "Este é um momento de solidariedade. Não é hora de proselitismo político", disse a psicóloga Margot Martin.
      O Partido Socialista francês convocou "todos os republicanos franceses" a uma manifestação no sábado (10).
      Os atos desta quarta e repetiram em cidades da Europa, dos EUA e do Brasil. Cerca de 200 manifestantes fizeram um ato no vão livre do Masp, na região central em São Paulo, enquanto outros 150 se reuniram no Largo do Machado, zona sul do Rio.
      APOIO
      O presidente da França, François Hollande, afirmou não haver dúvida de que o ataque foi terrorista e pediu união ao país. "Nossa melhor arma é a união. Nada pode nos dividir e nada pode nos colocar uns contra os outros." Ele ressaltou que seu governo fará tudo para encontrar os assassinos, que serão tratados "com rigidez".
      Líderes mundiais, como a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente dos EUA, Barack Obama, repudiaram o ataque. Obama se comprometeu a ajudar a França na caça aos terroristas. "Vamos providenciar qualquer assistência para levar os terroristas à Justiça", disse em nota.
      A presidente Dilma Rousseff demonstrou "profundo pesar e indignação" e classificou o ato como um ataque à liberdade de imprensa.

      "Fui morar em Paris por causa dos quadrinhos de Wolinski"

      DEPOIMENTO

      "Fui morar em Paris por causa dos quadrinhos de Wolinski"

      ADÃO ITURRUSGARAIQUADRINISTA DA FOLHA
      Georges Wolinski era minha maior influência. Em 1990, fui morar em Paris por causa dos seus quadrinhos.
      Ele era um dos mais importantes humoristas da França. Desenhava e escrevia muito bem. Fez parte das irreverentes revistas "Hara-Kiri" e "L'Écho des Savanes", minhas preferidas. Vou aproveitar este momento para confessar que "chupei" do Wolinski o cenário das tiras "La Vie en Rose".
      Em minha estadia em Paris, nunca consegui encontrá-lo. Cheguei a ficar horas na porta da editora, sob a neve, na esperança de encontrar o Wolinski e mostrar minha pasta de desenhos.
      Só fui conhecer o Wolinski pessoalmente dois anos depois, no Rio de Janeiro, em um festival de quadrinhos.
      Lembro como se fosse ontem. Entreguei uma revista minha a ele e me respondeu: "Isso me interessa, posso ficar com ela?"
      Logo depois encontrei-o num bar, que estava cheio de desenhistas que participavam do encontro. Ele parecia entediado, levantou-se de repente e disse: "Com licença, vou procurar umas putas".

      Cartunista morto era visto como uma lenda entre colegas francese

      DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

      Georges Wolinski, 80, um dos mais reverenciados cartunistas da França e um símbolo de maio de 68, estava entre os doze mortos no ataque ao semanário satírico Charlie Hebdo nesta quarta (7).
      Nascido na Tunísia de pais judeus, Wolinski mudou para a França em 1946. Largou a faculdade de arquitetura em Paris e começou a desenhar cartuns nos anos 60, contribuindo para a revista mensal satírica Hara-Kiri.
      Durante as revoltas estudantis de 68, Wolinski foi co-fundador da revista satírica L'Enragé with Siné.
      Suas charges de forte teor político e erótico já foram publicadas no jornal Libération, na Paris-Match, além do jornal comunista "L'Humanité" e do Charlie Hebdo.
      Junto com Georges Pichard, ele criou Paulette, uma de suas personagens mais marcantes.
      O cartunista recebeu a Legião de Honra, a mais alta condecoração da França.
      "Wolinski influenciou todo mundo que vocês conhecem: Ziraldo, Jaguar, Nani, Henfil, Fortuna... O cara era uma ESCOLA. Que dia tenebroso!", escreveu o cartunista brasileiro André Dahmer no Twitter.
      Além de Wolinski, os cartunistas Jean Cabut, 76, o "Cabu"; e Bernard Verlhac, o Tignous, estavam entre as vítimas.
      Cabut era um dos mais famosos cartunistas franceses e foi chamado de "o melhor jornalista da França" pelo diretor de cinema Jean-Luc Godard. Seu personagem mais conhecido é Mon Beauf (Meu caipira, em uma tradução livre), que transformou-se sinônimo de francês racista ou sexista.
      Ele foi o autor da charge em que o profeta Maomé aparece soluçando, com as mãos na cabeça, dizendo: "É difícil ser amado por idiotas", junto com a legenda "Maomé sobrecarregado pelos fundamentalistas."
      A charge apareceu na capa do Charlie Hebdo que reproduziu os cartuns publicados pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten, em 2005, que tinham levado a uma série de protestos de muçulmanos ao redor do mundo, com saldo de 50 mortos.
      Bernard Maris, 68, outra vítima do ataque, escrevia uma coluna no Charlie Hebdo, era comentarista de economia e professor da Universidade de Paris. Dois policiais também foram mortos no atentado.

      Apesar de ameaças, editor não se intimidava

      Apesar de ameaças, editor não se intimidava

      Depois de edição parodiando Maomé em 2011, sede do jornal foi atacada
      Cartunista Stéphane Charbonnier, defensor da livre expressão, dizia viver 'sob lei francesa, não sob a do Alcorão'
      DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS
      O cartunista Stéphane Charbonnier, 47, diretor editorial do jornal satírico francês Charlie Hebdo que foi morto nesta quarta (7), não se deixava intimidar.
      Em 2011, ele publicou uma edição paródia do jornal, em que dizia ter contado com o profeta Maomé como "editor convidado" e comemorava a vitória do partido islamista nas eleições da Tunísia. Prometia cem chibatadas a quem não achasse graça.
      Logo depois, a sede do jornal foi alvo de um ataque à bomba e ficou completamente destruída. A edição seguinte à polêmica trazia na capa um muçulmano beijando um chargista.
      Ao Le Monde, ele disse não ter medo de ataques. "Não tenho filhos, nem mulher, nem carro, nem crédito", disse. "Talvez soe um pouco pomposo, mas prefiro morrer em pé do que viver de joelhos."
      Depois do ataque, Charb, como era conhecido, passou a contar com proteção policial. Mas defendia a liberdade de expressão e não deixou de publicar charges polêmicas. "Usar nossa liberdade em um país livre não é provocação", disse em entrevista à Folha na época. "Publicamos o desenho de Maomé para zombar da sharia."
      Em 2012, Charbonnier ignorou advertências do governo francês e publicou charges que mostravam Maomé nu e em poses pornográficas.
      "Será que é razoável jogar lenha na fogueira", perguntou Laurent Fabius, chanceler francês na época, ao fechar embaixadas francesas em mais de 20 países, diante dos protestos de muçulmanos.
      "Maomé não é sagrado para mim", ele disse. "Eu vivo sob a lei francesa, não sob a lei do Alcorão."
      O Charlie Hebdo foi fundado em 1970 depois que a publicação Hara-Kiri, onde os cartunistas Georges Wolinski e Jean Cabut trabalhavam, fechou em meio a críticas por ter satirizado a morte de Charles de Gaulle.
      A equipe fundou o Charlie Hebdo, ou Semanário Charlie, em referência à sua publicação das tirinhas do Charlie Brown.
      Charb trabalhou no jornal por mais de 20 anos. Nesse período, o Charlie não poupou ninguém: teve capas com o papa Bento XVI abraçando romanticamente um guarda do Vaticano e um judeu ortodoxo beijando um soldado nazista.
      Um cartum recente que ele desenhou parece profético. Retrata um homem usando a vestimenta típica de extremistas islâmicos, com uma cara muito infeliz, e os dizeres: "Ainda nenhum ataque na França". No balãozinho, uma frase do extremista: "Calma, ainda tenho até o fim de janeiro para fazer meus desejos de ano novo.

      RAIO-X - CHARLIE HEBDO [LÊ-SE: CHARLÍ HEBDÔ]

      RAIO-X - CHARLIE HEBDO [LÊ-SE: CHARLÍ HEBDÔ]

      Slogan
      'Jornal Irresponsável'
      Periodicidade
      semanal
      Colaboradores antes do ataque
      20 cartunistas
      30 redatores
      Tiragem
      50 mil exemplares
      História
      Sucedeu a revista "Hara-Kiri Hebdo", fechada em 1970 pelo Ministério do Interior após capa ser considerada ofensiva ao presidente Charles de Gaulle, que acabara de morrer. Em 1981, jornal é suspenso por problemas financeiros. Ele volta a ser publicado em 1992

      Polícia identifica dois atiradores como franceses de origem árabe


      Segundo agência, um dos três suspeitos se entregou a agentes
      GRACILIANO ROCHACOLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS
      Terroristas islâmicos invadiram nesta quarta-feira (7) a sede do jornal satírico francês "Charlie Hebdo", que já fora ameaçado pela publicação de charges sobre o islã no passado, e mataram a tiros ao menos 12 pessoas. Os cartunistas mais influentes da França foram alvo do maior atentado no país em 50 anos.
      Outras 11 pessoas foram feridas e quatro delas estavam em estado grave até a conclusão desta edição.
      O ataque foi planejado e executado por pelo menos três pessoas. O mais novo deles, identificado por policiais consultados pela Associated Press como Hamyd Mourad, 18, teria se entregado à polícia na noite de quarta-feira (madrugada de quinta na França).
      A informação foi divulgada pela agência AFP, e até a conclusão desta edição, não havia sido confirmada pelo governo francês. A polícia havia realizado durante a noite uma operação de busca em Reims, onde viveria Mourad.
      As identidades dos outros dois foram confirmadas pela polícia de Paris na noite de quarta: os irmãos Said, 34, e Chérif Kouachi, 32 --franceses de origem árabe, que seriam moradores de Gennevilliers (periferia de Paris).
      No comunicado, a polícia divulgou as fotos dos irmãos e deixou um telefone de contato para informações. Segundo a nota, eles são suspeitos de "estarem armados e serem perigosos".
      Chérif, chegou a ser condenado em 2008 a 18 meses de prisão por terrorismo, sob a acusação de enviar guerrilheiros para ajudar insurgentes no Iraque.
      Apesar de nenhum grupo ter assumido a autoria do atentado, uma testemunha disse ao jornal britânico "Telegraph" que o grupo, antes de começar a atirar, abordou um homem na rua e disse: "Diga à imprensa que essa é a Al Qaeda no Iêmen".
      Armados com fuzis Kalashnikov e encapuzados, dois deles entraram no prédio da redação, na rua Nicolas Appert, a 400 metros da praça da Bastilha.
      Os terroristas foram direto para o segundo andar do edifício, onde era realizada a reunião de pauta da publicação.
      ALVOS ESCOLHIDOS
      O advogado do semanário, Richard Malka, disse que os terroristas separaram as mulheres e pediram para os homens se identificarem. Só então começaram a atirar à queima-roupa, indicando que os alvos já estavam previamente escolhidos.
      Quatro eram os cérebros e os traços da "Charlie Hebdo": o diretor de redação Stéphane Charbonnier, o Charb, Jean Cabut, o Cabu, Georges Wolinski e Bernard Verlhac, o Tignous.
      Dentro do prédio, onze pessoas foram mortas ""oito eram jornalistas/cartunistas, um era um convidado da redação e um funcionário da manutenção do prédio (baleado na recepção).
      Os terroristas mataram ainda policiais que protegiam o prédio em virtude das ameaças de extremistas. Um deles, Ahmed Merabet, agonizava na calçada quando um dos terroristas voltou e disparou em sua cabeça.
      Um vídeo feito por vizinhos flagrou o assassinato. Logo após atirar no policial, dois homens entraram num Citroën C3 onde o terceiro aguardava com o motor ligado.
      Antes de os autores do crime entrarem no carro, um deles gritou: "Allah Akbar" ("Deus é Grande") e "O profeta está vingado. 'Charlie Hebdo' está morto".
      O C3 foi abandonado no extremo nordeste de Paris. Os terroristas roubaram outro carro para seguir em fuga.
      A escolha do alvo não foi aleatória. "Charlie Hebdo" é uma publicação que entrou no radar dos extremistas islâmicos em 2006 quando publicou charges de Maomé consideradas ofensivas ao profeta.
      Em 2011, o semanário fez uma edição chamada "Sharia Hebdo", aludindo à lei islâmica. Na véspera da publicação, os escritórios da editora foram incendiados.
      Com os terroristas ainda em fuga, o governo francês elevou para o nível máximo o alerta de terrorismo. O governo também reforçou a vigilância em templos, meios de transporte e pontos turísticos da capital francesa.

      Terroristas matam 12 em jornal de Paris para 'vingar Maomé'

      Terroristas matam 12 em jornal de Paris para 'vingar Maomé'

      Alvos eram cartunistas do satírico 'Charlie Hebdo'; Atiradores sabiam horário de reunião; Presidente François Hollande pede união nacional; 'Eu sou Charlie' vira emblema do luto
      Terroristas encapuzados mataram a tiros de fuzil 12 pessoas e feriram 11 nesta quarta-feira (7), na Redação do jornal satírico "Charlie Hebdo", em Paris. Foi o atentado com maior número de mortes na Europa desde 2005, quando bombas explodiram no metrô e num ônibus em Londres, com 52 vítimas.
      Entre os mortos estão oito jornalistas do semanário, sendo quatro cartunistas --incluindo o diretor do jornal, Stéphane Charbonnier (o Charb), e Georges Wolinski, expoente do gênero no país--, e dois policiais.
      Em seguida à ação, os atiradores gritaram: "Nós vingamos o profeta Maomé". Nenhum grupo assumia a autoria do atentado. O governo francês informou a identidade de dois dos três suspeitos, de origem árabe. O terceiro se entregou após uma grande operação policial.
      Desde 2006, quando passou a publicar cartuns do profeta fundador do islamismo, o "Charlie Hebdo" sofre ameaças e atentados de extremistas.
      O ataque seguiu um plano meticuloso: os terroristas chegaram ao local pouco depois das 11h locais (8h de Brasília), enquanto a equipe do jornal fazia a sua reunião semanal de pauta. Os três atiradores gritaram nomes dos jornalistas enquanto os matavam.
      Líderes de todo o mundo condenaram o ataque e ofereceram apoio ao presidente francês, François Hollande, que pediu a união de seus compatriotas.
      Milhares saíram às ruas da França. A frase "Je Suis Charlie" (Eu Sou Charlie) tornou-se o emblema do luto, estampando sites de jornais franceses e cartazes e liderando os tópicos mais comentados no Twitter.

      O terror livre

      JANIO DE FREITAS

      O terror livre

      Serviços de inteligência consomem bilhões de dólares, mas são incapazes de imobilizar o terrorismo

      Marcar uma data em que os jornais de todo o mundo publiquem em suas primeiras páginas a charge que, há oito anos, dispôs o fanatismo a prometer a vingança ontem consumada em Paris --o que conviria é uma resposta deste gênero, em uníssono mundial, para demonstrar aos fanáticos que a sua violência pode tornar universal o que pretendem reprimir. Mas o que os governos preparam é o de sempre.
      Três pessoas, apenas. E reduzem a lixo os bilhões de euros, bilhões de dólares e gigantescos dispositivos policiais-militares destinados a imobilizar o fanatismo terrorista. Nada mais estúpido do que os "serviços de inteligência". Sob a inspiração da CIA, esses serviços, de nacionalidades incontáveis, coordenam-se mundo afora, com as mais indecentes violações dos direitos civis. Mas de repente passa-se a ver notícias de um exército enorme, muito bem equipado e treinado, conquistando em poucos dias vasta porção do Oriente Médio. E os tais serviços de inteligência e seus respectivos governantes surpreendem-se tanto quando nós com esse tal "Estado Islâmico", que não sabem de onde vem, para onde quer ir e vai, nem conseguem detê-lo.
      A história ensina que o mundo tem fases de imbecilização, variáveis no alcance e na vigência. Está em uma delas há décadas.
      O ESPECIALISTA
      Os adversários do deputado Eduardo Cunha na disputa pela presidência da Câmara não têm por que ficar otimistas com a notícia de que ele está citado na Lava Jato, e deverá ser objeto de inquérito no Supremo. A notícia tanto pode prejudicar Eduardo Cunha como pode eriçar os ânimos dos seus aliados.
      Eduardo Cunha está habituado a circunstâncias assim. Já bateu na trave em várias situações de escândalo: como integrante do grupo de PC Farias no governo Collor, quando esteve na companhia de habitação fluminense no governo Garotinho, em Furnas, em sombrias versões e transações com uma refinaria privada no governo Sérgio Cabral. E lá está ele como favorito, até agora, para controlar a Câmara. Eduardo Cunha é especialista em confusões.
      Além disso, o previsto pedido do procurador-geral da República ao STF, para inquérito contra o deputado, seria posterior à eleição na Câmara, a ser feita no dia mesmo de retorno da atividade parlamentar, no início de fevereiro.

      O CORRETO

      O confronto aberto com a ministra Kátia Abreu por Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Agrário, promete diversão duradoura. O risco da líder do agronegócio não está só na convicção equivalente e contrária de Patrus. Está em que ele saque a Constituição, na qual se define a finalidade social da terra, e puxe a fita métrica que comprova a existência de latifúndio no arraial mesmo de Kátia Abreu. Ou não haveria por aqui tantos reis e rainhas da soja.
      Mas, desde logo, não dá para aceitar a tese da ministra de que "o correto é o governo fazer as hidrovias e depois concessionar [ui] para a iniciativa privada". Esse é o método vigente. O correto é outro: o governo faz a concessão, que é uma forma de arrendamento, e o concessionário obterá lucro do investimento que faça, não de investimento público.
      Em caso de dúvida, à ministra e a seus associados basta lembrar-se dos filmes de faroeste sobre a construção das estradas de ferro e as hidrovias que alastraram o progresso no território americano. E eram os séculos 18 e 19.

      Os mercados do petróleo

      KENNETH MAXWELL

      Os mercados do petróleo

      Uma das grandes tendências mundiais no mês passado foi o colapso do preço internacional do petróleo.
      A crise na Petrobras já era ruim, mas o mergulho dos preços internacionais do petróleo, combinado à queda na demanda mundial e aos superávits petroleiros, resultou em virada profunda nos mercados futuros de petróleo, que traz consequências imediatas para as perspectivas brasileiras. O petróleo é a fundação da economia internacional e a base para muita esperança quanto ao futuro crescimento econômico, e para avanços na influência internacional e competitividade brasileiras.
      Esta semana o contrato padrão europeu para o petróleo Brent com entrega em fevereiro caiu para US$ 54,72 por barril, em Londres, sua menor cotação desde maio de 2009. Nos EUA, o contrato de referência do petróleo do país caiu abaixo dos US$ 50 em Nova York para fevereiro, sua menor cotação em cinco anos; no começo da semana, era negociado a US$ 49,95, pela primeira vez desde abril de 2009. Houve queda livre nos preços das ações das companhias internacionais de energia, o que insuflou o medo de desaceleração econômica nos investidores de Wall Street e Londres.
      O Brasil vinha contando com preços internacionais altos a fim de ajudar a financiar a exploração de suas vastas, mas difíceis e dispendiosas, reservas submarinas, para o que a participação e o envolvimento estrangeiro são componente essencial. Mas a presidente Dilma, em seu discurso de posse, culpou "inimigos externos" pelos problemas (autoinfligidos) da Petrobras. As grandes petroleiras internacionais foram as maiores perdedoras esta semana, com o recuo das ações nas bolsas.
      O Brasil não é uma Venezuela, certamente. E muito menos Arábia Saudita, Kuwait, Iraque ou Rússia. Tampouco Nigéria ou Angola. Todos eles dependem quase exclusivamente de exportações de petróleo e gás natural. A economia brasileira é mais diversificada e (pelo menos potencialmente) mais resistente. Os consumidores podem se beneficiar dos custos mais baixos ao transporte.
      Mas o Brasil pode sofrer danos colaterais enquanto a Arábia Saudita joga a carta do petróleo em seu benefício ao não reduzir a produção apesar da queda de preços. Com as maiores e mais baratas reservas do planeta, parece preparada para uma guerra de preços para bloquear a concorrência da produção dos EUA de petróleo extraído do xisto betuminoso, o novo desafiante no setor, que necessita de preços de pelo menos US$ 80 por barril.
      Nas últimas décadas, as oscilações no preço do petróleo causaram grandes perturbações e sofrimento em todo o mundo. Infelizmente, parece que desempenharão o mesmo papel uma vez mais em 2015.

      7 de Janeiro


      7 de Janeiro


      Bárbaro ataque a jornal parisiense constitui inaceitável violência contra valores universais de liberdade e tolerância
      Dizendo ter vingado o profeta Maomé, assassinos encapuzados entram num carro preto e aceleram rumo a um destino desconhecido. No vídeo, logo divulgado, é possível ver a pressa brutal com que fuzilaram um guarda, já caído na calçada, antes de fugir.
      Concluía-se assim o atentado que matou 12 pessoas, entre jornalistas, cartunistas e policiais, na sede do semanário satírico "Charlie Hebdo", na manhã desta quinta-feira, 7 de janeiro de 2015, em Paris.
      A publicação estava marcada havia tempos pelos seguidores do fanatismo islâmico. Em 2011, um incêndio criminoso atingia sua sede, buscando punir os autores de algumas caricaturas do profeta.
      Ninguém, na Redação, se intimidou. Ao contrário, seguidas edições se dedicaram a condenar, pelo sarcasmo, a estreiteza e a violência dos fundamentalistas. Seu diretor, Stéphane Charbonnier, constava de uma "lista de procurados" da Al Qaeda; hoje está morto, ao lado de um dos mais conhecidos chargistas do mundo, Georges Wolinski, fuzilado aos 80 anos.
      Os responsáveis pelo atentado sem dúvida terão percebido o quanto o humor é importante para a defesa da liberdade e da razão.
      O terrorismo muitas vezes se faz como pura vingança, a exemplo do morticínio de poucos dias atrás numa escola paquistanesa onde estudavam filhos de militares engajados na repressão aos extremistas.
      No massacre em Paris, acrescentam-se objetivos diversos. Impunha-se silenciar uma publicação que atuava como fonte incansável de desmoralização do que as religiões podem ter de mais triste, de mais irracional, de mais homicida.
      Foi pela zombaria, aliás, que o Iluminismo conseguiu várias de suas brilhantes vitórias contra a intolerância dogmática da Igreja Católica no século 18.
      Os panfletos de Voltaire, a sorridente relativização das tradições na pena de Montesquieu, o urbano ceticismo de Hume, tudo contribuiu para que se tornasse mais difícil de sustentar --porque tola, porque inútil, porque cega, porque ridícula-- a obediência literal a um sistema de crenças advindo de uma época de medo e ignorância.
      A estreiteza católica foi vencida; recuperou-se, da religião cristã, o que sempre teve de pacificador, caritativo e generoso. Hoje, o que possa haver de pacífico, arejado e bom no islamismo se vê, a cada momento, ameaçado por esse exército de bárbaros.
      Num ambiente em que alguns jovens ocidentais se sentem fascinados pelo radicalismo muçulmano, o esforço e a coragem exigidos para desarmar o obscurantismo passam, mais uma vez e como sempre, pela liberdade de expressão e --mais do que nunca-- pelo talento de troçar, de brincar, de rir.
      Neste atentado que, conforme frisam alguns comentaristas, surge como o "11 de Setembro" da imprensa mundial, é ilustrativo que a vítima tenha sido uma publicação satírica.
      A indignação, a revolta, o luto e as lágrimas se impõem. Mas que não se perca o sorriso. Tristes são os assassinos. Nosso é o sorriso da liberdade, da esperança e da razão.