quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Socialdemocracia no século 21

EDUARDO ZIBERMAN E IGOR ABDALLA

A socialdemocracia surgiu de cisão do socialismo alemão no século 19. Em oposição à revolução comunista de Karl Marx, criou-se uma dissidência que pregava a promoção pacífica do socialismo no processo democrático-parlamentar.

O apogeu da socialdemocracia ocorreu na Europa pós-1945, quando o Estado de bem-estar social combinou capitalismo e amplo sistema de benefícios sociais, como meio-termo entre a União Soviética comunista e a economia de mercado estadunidense.

No Brasil, a socialdemocracia foi a via média entre o nacional-estatismo e o "Centrão" conservador na Assembleia Constituinte, com uma perspectiva de centro-esquerda decisiva para a Constituição de 1988. Replicou-se o sistema do Estado de bem-estar social europeu, que, entretanto, tinha sua viabilidade fiscal desafiada desde os anos 1970, com o fim da bonança do pós-guerra. Não surpreende que o sistema adotado pela Constituição Federal tenha acarretado gastos governamentais crescentes nas últimas décadas.

Diante da deterioração corrente das finanças públicas, com as mazelas econômicas consequentes, espera-se, ou melhor, torce-se para que a sociedade brasileira entenda que não é possível atender todas as demandas contempladas em um amplo Estado de bem-estar social. As despesas precisam caber no orçamento que a sociedade transfere ao Estado. É necessário, portanto, estabelecer prioridades.

Desde os seus primórdios, a socialdemocracia priorizou o trabalhador, elo mais vulnerável do conflito distributivo expresso na luta de classes. No século 21, em que ainda pese a necessidade de se combater a pobreza e redistribuir renda, o principal conflito distributivo que se desenha é o de gerações.

Com a degradação do meio-ambiente, assim como o envelhecimento demográfico, empenha-se o futuro de modo flagrantemente insustentável para que a geração corrente possa consumir e receber benesses governamentais.

Cabe à socialdemocracia do século 21 seguir sua tradição ideológica e priorizar o elo mais frágil e vulnerável deste conflito distributivo: as gerações vindouras. Até porque a natureza deste conflito é muito mais perversa do que a do conflito de classes. Ao contrário dos movimentos trabalhistas, não é possível às gerações futuras se organizar para defender seus direitos.

Se as crianças, os recém e não nascidos pudessem se fazer representar, pipocariam Brasil afora manifestações exigindo a reforma da previdência. Na ausência desta, o próprio governo projeta que, em 2050, as despesas públicas com a previdência serão 12,6 por cento do PIB.

A magnitude dos tributos que incidirão, direta e indiretamente, sobre a renda futura das crianças de hoje (e de amanhã) será proibitiva. A reforma da previdência, portanto, não se destina apenas a contribuir para o necessário reequilíbrio fiscal, mas também proteger as gerações futuras.

Mais uma vez, se os não nascidos pudessem ser expostos às projeções alarmantes, ainda que incertas, sobre os efeitos do aquecimento global, estes exigiriam prioridade ao tema. Caso a trajetória de aquecimento global não seja mitigada, um estudo recém-publicado pela revista britânica "Nature" estima que, em 2100, o PIB per capita brasileiro será 83% menor do que aquele que vigoraria em um mundo sem mudanças climáticas. É imperativo, portanto, que o progresso de hoje permita às gerações futuras usufruir de condições ambientais ao menos semelhantes às atuais.

O mundo mudou faz tempo. A dimensão do conflito distributivo, que exige uma atenção maior da socialdemocracia, já não é a luta entre o trabalho e o capital, mas a luta entre o cidadão de hoje e o cidadão de amanhã. É notável que as supostas forças brasileiras de esquerda, ao centrar seu discurso nos oprimidos, não se levantem em defesa daqueles que, de todos, são os mais vulneráveis.

Cabe à socialdemocracia brasileira retomar para si bandeiras associadas erroneamente pelo senso comum "à direita", como a reforma da previdência, e "à esquerda", como a sustentabilidade. Nossos filhos e netos agradecem.


EDUARDO ZIBERMAN, 33, é doutor pela Universidade de Nova York e professor de economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio
IGOR ABDALLA, 34, é doutor pelo Instituto Universitário Europeu, professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio e presidente do Instituto Teotônio Vilela

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Só o Brasil oficial não sabia?


JOÃO LARA MESQUITA

Só o Brasil oficial não sabia?


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O desastre de Mariana, possivelmente, é o pior acidente ambiental brasileiro. Além de soterrar comunidades, matando 11 pessoas, e deixando 8 desaparecidos até agora, provocou a morte do rio Doce.
O Saae (Serviço Autônomo de Água e Esgoto), de Baixo Guandu (ES), analisou a água do rio e encontrou metais pesados: chumbo, alumínio, ferro, bário, cobre, boro e mercúrio.
"O rio está morto, o cenário é o pior possível", disse Luciano Magalhães, diretor do Saae. Morte anunciada em razão de uma legislação frouxa e inexistência de fiscalização.
Além da Samarco, propriedade da Vale e da anglo-australiana BHP Billiton, o governo federal também deveria ser punido; afinal, a responsabilidade é dele.
O Código de Mineração, no capítulo 2º, artigo 21º, inciso 24, estabelece que "compete à União organizar, manter e executar a inspeção do trabalho".
Já o capítulo 1º, artigo 174, é claro: "Como agente normativo e regulador da atividade econômica, o Estado exercerá, na forma da lei, as funções de fiscalização, incentivo e planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo para o setor privado".
Infelizmente, como denuncio em meu trabalho, a ausência de fiscalização é unânime em todas as comunidades nativas do litoral.
A Folha noticiou, em junho passado, que o principal órgão de controle ambiental do governo federal, o Ibama, tem apenas três barcos em atividade para fiscalizar os mais de 7.300 km do litoral brasileiro.
Em entrevista para o site "Mar sem Fim" (www.marsemfim.com.br), Maria Tereza Jorge Pádua, um dos ícones do ambientalismo brasileiro, sentenciou: "o meio ambiente nunca foi prioridade no Brasil".
Alguém duvida?
Fui aos sites. Descobri que a "missão" da Vale é "transformar recursos naturais em prosperidade e desenvolvimento sustentável". Desconfio de quem se diz "verde", "sustentável", "eco isso ou aquilo". Cansei de ver a destruição do litoral por empresas que abusam do jargão.
De toda forma, continuei a leitura. A Vale lista no site seis valores que norteiam a atuação da empresa. O primeiro e o terceiro foram duros de engolir. Respectivamente, "a vida em primeiro lugar" e "cuidar de nosso planeta". Argh!
O pior estava por vir. Vasculhando sobre a BHP, a casa caiu. O governo federal foi tão omisso que não se preocupou com o histórico de acidentes da empresa.
A BHP Billiton, ao contrário de Midas, tem dedo podre. Acidentes graves são frequentes onde atua. Um dos piores aconteceu em Papua-Nova Guiné, ao abrir uma mina de ouro e cobre, a OK Tedi Copper Gold Mine, em 1984.
Durante 20 anos despejou, dia após dia, 80 mil toneladas de rejeitos contendo cobre, cádmio, zinco e chumbo, diretamente na bacia do rio Fly, o que arruinou terras de milhares de agricultores, envenenando 2.000 quilômetros quadrados de floresta. E detonou dois rios, o Fly e o Ok Tedi.
Para fugir das responsabilidades, assinou acordos com líderes comunitários, que isentaram a empresa do pagamento de indenizações.
ONGs informaram que "ao conversarem com os nativos, ficou claro que eles não sabiam o que estavam assinando". O histórico da BHP gerou um relatório alternativo, "BHP Billiton Dirty Energy", informando sobre a destruição de comunidades na Colômbia, acidentes na Indonésia e Austrália.
Já o "Mining Journal" cita outros, como o da mina de cobre em Pinto Valley, Arizona (EUA).
Só o Brasil oficial não sabia?

JOÃO LARA MESQUITA, 60, jornalista, mantém o site www.marsemfim.com.br. Foi diretor, de 1982 a 2003, da Rádio Eldorado, do Grupo Estado
*

sábado, 21 de novembro de 2015

Paradise now


Paradise now

hélio schwartsman



SÃO PAULO - "Brian está no paraíso." Foi com essa mensagem que Sara, a mulher do jovem belga de ascendência brasileira que era membro do Estado Islâmico na Síria, anunciou sua morte à família. Será que Sara está certa? Existe mesmo um paraíso e pessoas que morrem lutando por Deus, a exemplo de Brian e dos terroristas que barbarizaram Paris na sexta-feira 13, ganham um passe expresso para lá?
Obviamente, não há nenhum indício físico de que exista vida no além e muito menos de que ela seja boa. Não obstante, textos religiosos tentam nos convencer do contrário. Os gregos tinham seus Campos Elísios, o cristianismo fala em salvação, mas é o islamismo que oferece as descrições mais detalhadas. O nobre Corão ensina que, no paraíso, podemos beber o vinho que era proibido na terra (Suras 83:25 e 47:15), fartar-nos com a carne de porco (52:22) e deliciar-nos com virgens (44:54 e 55:70) e "mancebos eternamente jovens" (56:17).
Apologistas islâmicos vão além. Jalal al-Suyuti (1445-1505), por exemplo, explica que, no paraíso, a virgindade das "huris" se renova após cada ato sexual, e que os pênis dos eleitos nunca esmorecem. No Jardim das Delícias, até a ereção é eterna.
Apesar das tentações do paraíso, não dá para atribuir os atentados de Paris apenas à religião. A esmagadora maioria dos crentes não sai por aí metralhando infiéis. É preciso algo mais, e cientistas políticos vêm oferecendo longas listas de ingredientes.
Meu ponto é que, embora a religião seja, no atacado, inocente, não pode ser totalmente exonerada. Ela carrega o pecado de fazer com que pessoas normais vejam como respeitáveis as hipóteses mais extravagantes, como a ressurreição de mortos, nascimentos virginais e orgasmos infinitos. Quando ligam o modo religioso de pensar, crentes, até os mais pacíficos, já não acham tão absurda a ideia de que Deus quer que liquidemos infiéis. Essa solidariedade passiva ajuda a alimentar o terrorismo. 

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Nossas futilidades


Nossas futilidades


Hoje à noite, viajo a Nova York para estar na entrega dos prêmios do Emmy International, que acontece na segunda (23). O seriado "Psi", que criei para o canal HBO (com equipes e colaboradores muitas vezes extraordinários), é um dos indicados ao prêmio de melhor série dramática. Emilio de Mello, o protagonista, é indicado ao prêmio de melhor ator de série dramática.
Agora mesmo, pensando na viagem, sou tomado por uma sensação de futilidade –como quando lemos, no jornal, uma notícia atroz e enxergamos, logo embaixo, a propaganda de uma bolsa, de um relógio ou de um cruzeiro. Estarei num jantar de gala, que celebra o entretenimento, enquanto, por exemplo, o Exército Islâmico escraviza as mulheres do povo yazidi do Curdistão ou, então, massacra jovens sentados num café ou numa casa de show de Paris.
Justamente, os jihadistas do Estado Islâmico nos desprezam porque, aos olhos deles, somos todos fúteis. O bizarro é que nós possamos, de uma certa forma, concordar com eles, ou seja, menosprezar nossa própria cultura e sua aparente "futilidade".
Um romance, um seriado, um namoro no bar ou um show de metal talvez sejam menos fúteis do que um ritual religioso qualquer. Mas nem deveríamos querer justificar nossas diversões, nossa liberdade e nosso prazer de viver.
No campo cristão, São Paulo (não a cidade, que é ótima, mas o autoproclamado apóstolo) é quem engajou o cristianismo numa cruzada contra a futilidade e o prazer.
Claro, Paulo fez que o cristianismo fosse uma religião universal, ótima para a diversidade do Império Romano, e ótima para a cultura moderna. O filósofo Alain Badiou, em "São Paulo – A Fundação do Universalismo" (Boitempo, 2009), é convincente: Paulo fundou uma religião que podia ser universal porque não era mais a verdade exclusiva de um povo, de uma cidade, de um território ou de uma classe social.
Mas isso não me basta para gostar dele. Fico com Nietzsche, achando que Paulo odiava o humano nele mesmo e propôs o mesmo ódio aos cristãos da época e do futuro. Vou ser irreverente (é um bom dia para o espírito de "Charlie Hebdo"): Paulo inaugurou o mecanismo projetivo quando caiu do cavalo e, para não admitir sua imperícia como cavaleiro, achou que Deus o tinha jogado no chão para convertê-lo.
Ele continuou no mecanismo projetivo: inventou um cristianismo sombrio na ilusão de que, perseguindo os "pecadores", ele conseguiria controlar seus desejos carnais.
Resultado: para nós, o prazer e a futilidade são sempre um pouco culpados, como se tivéssemos a obrigação de nos preocupar o tempo inteiro só com o divino e o absoluto. Na época, alguém deveria ter dito a São Paulo: "Get a life", vá viver sua vida, que é melhor...
No dia do enterro de meu avô, que eu adorava, voltando do cemitério, meus sobrinhos e eu (todos pré-adolescentes) fomos despachados para o cinema perto de casa. Eu hesitei. Como assim, ir ao cinema depois do funeral? Meu pai me lembrou que o avô era quem mais me levava ao cinema: assistir a um filme naquele dia talvez fosse o melhor jeito de honrar sua memória.
Pois bem, no ataque contra Paris, os lugares escolhidos foram cafés, restaurantes, um show de rock (todos num bairro boêmio) e um estádio de futebol: são lugares de prazer –de futilidade, não é?
Os jihadistas atacam em nós o que mais os seduz. O que eles odeiam são os atos e os pensamentos que eles precisam destruir dentro de si. Os mortos de Paris, para os jihadistas, não são pessoas (sequer "infiéis"): eles são os representantes de suas próprias tentações internas. Como sempre, os moralistas perseguem (e até exterminam) seus próprios desejos rebeldes.
Esse, aliás, é o ponto de partida para entender os jovens ocidentais que se alistam no Exército Islâmico. Como ocidentais, aprenderam a se odiar por serem "fúteis" e "hedonistas". Eles apenas transformam o ódio de si mesmos em ódio da gente.
O que fazer para que as coisas mudem? Talvez fosse a hora de sermos menos inimigos de nós mesmos. Ou seja, a hora de pensar que nossa grandeza está no fato de que gostamos do mundo onde vivemos. E podemos defender com orgulho não tanto nossas religiões ou grandes ideias, mas o que somos de melhor, sem ironia: uma saída para escutar uma banda legal, papo furado entre amigos à mesa de um café na rua e, às vezes, uns beijos escondidos na porta de um prédio da rua de Charonne. Ou de qualquer rua de nossas cidades. 

contardo calligaris

Consciência negra e desenvolvimento



MAURÍCIO PESTANA

Consciência negra e desenvolvimento



Há mais de 500 anos um fato importante aconteceu na história da humanidade: o início do tráfico negreiro da África para as Américas. O Brasil, durante mais de 300 anos anos, teve toda a sua formação social, econômica e territorial idealizada e produzida a partir desse acontecimento.
A Lei Áurea, de 1888, pôs fim oficialmente à escravidão no Brasil com um enorme atraso. Fomos o último país independente da América Latina a extinguir essa mácula.
Desde então, saímos de uma estrutura predominantemente latifundiária para um país com enorme desenvolvimento tecnológico e industrial, com alta capacidade de produção de bens materiais, o que nos coloca entre as dez mais pujantes economias do planeta.
No entanto, esse desenvolvimento foi incapaz de promover a distribuição igualitária das riquezas. O Brasil registra um dos maiores índices de desigualdade social do mundo, o que acarreta um enorme agravamento da discriminação racial e do preconceito.
Os negros (somando os autodeclarados pretos e pardos) são a maioria no Brasil, mas estão praticamente excluídos do desenvolvimento econômico, são subutilizados e subvalorizados no mercado, mal remunerados e com escasso acesso a empregos qualificados.
No maior país negro fora da África, a população negra, durante quase toda a história recente do país, não teve acesso aos bancos escolares de nível superior. Dados do final do século passado mostram que apenas 2% desses bancos eram ocupados por negros.
Somente no início do século 21 –leia-se, há apenas 15 anos–, o Brasil começou a tomar medidas que reduziram as distâncias entre negros e brancos na educação, processo esse que gerou muito debate em nossa sociedade.
Programas como o Prouni e as cotas raciais, conquistas do movimento negro, começam a reverter esse quadro: atualmente, a parcela das vagas ocupadas por negros nas universidades cresceu para 20%. Essas e outras políticas afirmativas adotadas pelos governos progressistas fizeram com que o Brasil se tornasse um pouco menos desigual.
Ainda que tardiamente, chegamos a um patamar de evolução educacional que nos permite discutir de que forma iremos avançar, uma vez que temos o maior número de formandos negros da história.
Com o intuito de responder a questões como essa, a Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial de São Paulo convocou um expressivo contingente de empresas do setor privado para discutir com o setor público medidas que pudessem contribuir para a maior inserção dos negros no mercado de trabalho, principalmente em funções estratégicas e bem remuneradas.
Avaliamos em conjunto políticas e ações possíveis que a sociedade pode gerar para um desenvolvimento econômico mais equilibrado.
As comemorações do Dia da Consciência Negra chamam a atenção dos brasileiros para a necessidade de um novo modelo socioeconômico para o país, diferente daquele injusto e excludente do século passado. Precisamos de um projeto de desenvolvimento econômico que envolva a população negra da cidade de São Paulo e do Brasil.
A nação de maior população negra fora do continente africano tem a obrigação de dar exemplo para o mundo. O desenvolvimento só será verdadeiro com a inclusão.
MAURÍCIO PESTANA, 50, é secretário municipal de Promoção da Igualdade Racial de São Paulo

Consciência negra e desenvolvimento


MAURÍCIO PESTANA

Consciência negra e desenvolvimento



Há mais de 500 anos um fato importante aconteceu na história da humanidade: o início do tráfico negreiro da África para as Américas. O Brasil, durante mais de 300 anos anos, teve toda a sua formação social, econômica e territorial idealizada e produzida a partir desse acontecimento.
A Lei Áurea, de 1888, pôs fim oficialmente à escravidão no Brasil com um enorme atraso. Fomos o último país independente da América Latina a extinguir essa mácula.
Desde então, saímos de uma estrutura predominantemente latifundiária para um país com enorme desenvolvimento tecnológico e industrial, com alta capacidade de produção de bens materiais, o que nos coloca entre as dez mais pujantes economias do planeta.
No entanto, esse desenvolvimento foi incapaz de promover a distribuição igualitária das riquezas. O Brasil registra um dos maiores índices de desigualdade social do mundo, o que acarreta um enorme agravamento da discriminação racial e do preconceito.
Os negros (somando os autodeclarados pretos e pardos) são a maioria no Brasil, mas estão praticamente excluídos do desenvolvimento econômico, são subutilizados e subvalorizados no mercado, mal remunerados e com escasso acesso a empregos qualificados.
No maior país negro fora da África, a população negra, durante quase toda a história recente do país, não teve acesso aos bancos escolares de nível superior. Dados do final do século passado mostram que apenas 2% desses bancos eram ocupados por negros.
Somente no início do século 21 –leia-se, há apenas 15 anos–, o Brasil começou a tomar medidas que reduziram as distâncias entre negros e brancos na educação, processo esse que gerou muito debate em nossa sociedade.
Programas como o Prouni e as cotas raciais, conquistas do movimento negro, começam a reverter esse quadro: atualmente, a parcela das vagas ocupadas por negros nas universidades cresceu para 20%. Essas e outras políticas afirmativas adotadas pelos governos progressistas fizeram com que o Brasil se tornasse um pouco menos desigual.
Ainda que tardiamente, chegamos a um patamar de evolução educacional que nos permite discutir de que forma iremos avançar, uma vez que temos o maior número de formandos negros da história.
Com o intuito de responder a questões como essa, a Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial de São Paulo convocou um expressivo contingente de empresas do setor privado para discutir com o setor público medidas que pudessem contribuir para a maior inserção dos negros no mercado de trabalho, principalmente em funções estratégicas e bem remuneradas.
Avaliamos em conjunto políticas e ações possíveis que a sociedade pode gerar para um desenvolvimento econômico mais equilibrado.
As comemorações do Dia da Consciência Negra chamam a atenção dos brasileiros para a necessidade de um novo modelo socioeconômico para o país, diferente daquele injusto e excludente do século passado. Precisamos de um projeto de desenvolvimento econômico que envolva a população negra da cidade de São Paulo e do Brasil.
A nação de maior população negra fora do continente africano tem a obrigação de dar exemplo para o mundo. O desenvolvimento só será verdadeiro com a inclusão.
MAURÍCIO PESTANA, 50, é secretário municipal de Promoção da Igualdade Racial de São Paulo

Preconceito na sala de aula

RICARDO HENRIQUES

Preconceito na sala de aula

Mais jovens negros estão frequentando o ensino médio, e a distância entre eles e os estudantes brancos, ao menos no que diz respeito ao acesso, diminuiu.

Essa constatação, feita a partir dos dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE, mostra que estamos conseguindo reduzir desigualdades nos bancos escolares.
Em 2014, mais da metade (51%) de brasileiros de 15 a 17 anos que se autodeclararam pretos ou pardos ao IBGE estava cursando o ensino médio. No início do século 21, essa proporção era de apenas 25%, ou um em cada quatro alunos. Entre jovens brancos da mesma idade, a variação no mesmo período foi de 51% para 65%.
Daniel Bueno
O aumento na proporção de negros no ensino médio pode ser atribuído a uma combinação de ações que resultaram na melhoria do fluxo desde os anos iniciais. Políticas públicas externas à escola, caso do Bolsa Família, contribuíram para a queda da evasão e para a manutenção das crianças na escola.
O avanço no acesso, contudo, não veio acompanhado da melhoria da qualidade do ensino. Esse quadro é agudo no ensino médio. No trágico contexto em que todos os grupos tiveram piora no desempenho medido pelo Saeb, exame nacional do MEC, a distância no aprendizado de português e matemática entre negros e brancos se manteve estável.
Em 1995, a proficiência média em língua portuguesa no terceiro ano do ensino médio dos estudantes brancos era de 292 pontos; dos negros, 278. Em 2013, a média dos alunos brancos caiu para 269 e a dos negros, para 254 pontos. A média considerada adequada pelo movimento Todos pela Educação é de 300 pontos.
É fundamental que voltemos os esforços para a elaboração de políticas educacionais focadas no ambiente escolar, para melhorarmos os resultados e para que a escola não reproduza as desigualdades de origem. É preciso olhar para o que acontece dentro da sala de aula, porque parte da desigualdade no aprendizado é causada por atitudes discriminatórias veladas.
A formação docente, por exemplo, não prepara o professor para a realidade das escolas públicas. O currículo das licenciaturas dedica-se muito à matriz teórica e filosófica e pouco à prática em sala. Um bom plano de aula enfrenta na origem a maioria das defasagens do alunato de diversos segmentos sociais.
Em outra frente, a flexibilidade do currículo do ensino médio deve oferecer opções de trajetórias, que podem ser acadêmicas ou técnicas, a partir de uma base comum. Isso possibilitaria, também, a incorporação dos saberes e cultura dos territórios. É importante que o currículo incorpore temas como sexualidade, discriminação, política e religião em suas múltiplas formas, estimulando a pluralidade de opiniões.
Por fim, a gestão escolar é fundamental para esse enfrentamento. Todo o esforço da gestão deve estar voltado para a melhoria da aprendizagem e para a redução das desigualdades no interior da escola –e entre escolas. É papel do diretor promover a escuta e o diálogo com os estudantes, professores e comunidade escolar, criando um ambiente de respeito às diferenças.
A persistente desigualdade de aprendizagem dos estudantes negros, frente ao atual cenário de práticas discriminatórias e intolerância, demanda políticas públicas educacionais e iniciativas que enfrentem essa realidade.
É uma agenda imprescindível para transformarmos uma sociedade marcada por desigualdades históricas em uma nação socialmente justa, igualitária e diversa.
RICARDO HENRIQUES, 55, economista, é superintendente executivo do Instituto Unibanco e membro do Conselho de Administração do Instituto Internacional de Planejamento da Educação da Unesco

Abaixo da média



EDITORIAL

Abaixo da média


Dados o colapso da economia neste ano e as projeções cada vez mais preocupantes para 2016, mostra-se irrelevante a rotineira revisão do PIB feita pelo IBGE.
Com as novas informações sobre 2012 e 2013, o crescimento anual médio no primeiro mandato de Dilma Rousseff (PT) subiu de 2,1% para 2,2%. No agregado, a economia ficou 0,4 ponto percentual maior.
Como se vê, a inclusão de dados que não estavam disponíveis à época da divulgação original não fez muita diferença em relação ao passado –e certamente não fará nenhuma quanto ao futuro.
Em março, uma alteração mais ampla havia incorporado investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Na ocasião, a alta média do PIB de 2011 a 2014 passou de 1,7% para 2,1%.
Efetuadas as atualizações, o período Dilma pode parecer um pouco menos ruim, mas permanece essencialmente o mesmo. O desempenho de seu governo é o pior das últimas décadas, seja em termos absolutos, seja em termos relativos. Seu primeiro mandato, além disso, deixou o legado mais deplorável.
Tomem-se as gestões de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e de Lula (PT). De 1995 a 2002, com o tucano na Presidência, o Brasil cresceu em média 2,4% ao ano, em um período marcado não só por recorrentes crises internacionais mas também baixos preços de matérias-primas. A América Latina, para comparação, avançou 2,2%.
Lula, por sua vez, vivenciou ambiente internacional bem melhor. Houve maior dinamismo na América Latina, em decorrência da demanda chinesa por bens primários. A economia da região, assim como a do Brasil, expandiu-se em média 4,1% de 2003 a 2010.
Esse padrão mudou com Dilma Rousseff. De 2011 a 2014, o crescimento latino-americano desacelerou, mas ficou em 3% na média, taxa bem superior à do Brasil –que só se saiu melhor que países quase arruinados, como a Venezuela.
Quando se considera o segundo mandato da petista, a situação se torna dramática. Caso se confirmem as projeções de analistas compiladas pelo Banco Central, o PIB cairá 3,1% neste ano e 2% em 2016. O crescimento voltaria em 2017 e 2018, mas em ritmo insuficiente para produzir uma média acima de zero no quadriênio.
Não há novidade em dizer que foram muitos e grandes os erros dos últimos anos. O real custo da incompetência, contudo, aparece no longo prazo: uma década de estagnação e a desmobilização das forças sociais para o crescimento.
Que o desastre causado pela irresponsabilidade dilmista sirva de motivação para fortalecer as instituições e a gestão das contas públicas, pilares para um projeto de desenvolvimento que possa durar mais que um ciclo eleitoral.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Palestinos e nazistas


João Pereira Coutinho

Escritor português, é doutor em ciência política. É colunista do 'Correio da Manhã', o maior diário português.

Palestinos e nazistas

Binyamin Netanyahu está errado: não foram os palestinos que ensinaram a matança sistemática de judeus aos nazistas.

O Holocausto, como qualquer historiador sério sabe, não se refere apenas ao período pós-1942, quando na Conferência de Wannsee se decidiu "a solução final para a questão judaica" (é importante citar "questão judaica" porque há sempre uns eruditos para quem o Holocausto não foi especificamente pensado para os judeus).

O Holocausto abrange todo o período entre 1933 e 1945, ou seja, desde a chegada de Hitler ao poder até a derrota do Terceiro Reich na Segunda Guerra Mundial. E, nesse período, os nazistas não precisavam de lições de genocídio de palestinos.

A partir de 1933, a perseguição e os assassinatos começaram; campos de concentração foram erguidos na Alemanha; a partir de 1938, com a "Kristallnacht", as matanças esporádicas tornaram-se rotina.

E, com o início da Segunda Guerra Mundial, os fuzilamentos em massa passaram a ser o prato do dia. Um exercício que era demorado, psicologicamente exigente (para a frágil saúde mental dos soldados do Reich, entenda). Era preciso uma "solução" mais rápida e, digamos, "indolor".

A partir de 1942, ou seja, com a desastrosa campanha contra a União Soviética (ou, para os eruditos, contra os seus aliados soviéticos, porque nazistas e comunistas tinham um pacto desde 1939), começaram as primeiras experiências químicas para matar judeus como quem mata baratas ou outros seres rastejantes.

Quando os nazistas descobriram o infame Zyklon B (que, ironia macabra, servia para matar baratas e outros seres rastejantes), estava encontrada a chave para acabar com os judeus da Europa.

Isso significa que o líder árabe na Palestina –Haj Amin al-Husseini– é inocente no antissemitismo assassino do mesmo período histórico? Também não. Vamos esquecer, por motivos caridosos, o fato de Al-Husseini ter sido considerado criminoso de guerra em Nuremberg e ter fugido para o Egito.

A pergunta fundamental é outra: por que motivo o "mufti" de Jerusalém foi considerado um criminoso de guerra?

Não é preciso consultar obras de peso sobre o assunto. Gregory Harms e Todd M. Ferry, apesar das suas simpatias pró-palestinas –repito: pró-palestinas–, escreveram um excelente livro de introdução ao conflito israelo-palestino que recomendo sempre a interessados –e a iletrados.

O retrato que ambos pintam de Al-Husseini resume-se a isto: o "mufti" representa um dos maiores erros do Mandato Britânico da Palestina.

Resumindo uma longa e complexa história, a partir do momento em que os britânicos, nos escombros da Primeira Guerra, decidiram que a Palestina deveria ser partilhada entre judeus e árabes, que já habitavam o território sob administração do Império Otomano (império que desapareceu na guerra), os árabes recusaram essa partilha. Assim começou, no essencial, a luta que dura até hoje.

Confrontado com essa violência, Londres acreditou que o "mufti" de Jerusalém era a pessoa indicada para tentar sossegar os ânimos.

Errou. Barbaramente. Al-Husseini não era apenas um antissemita virulento, que incitava aos confrontos e desejava uma limpeza étnica na Palestina.

Com o Terceiro Reich, o "mufti" estabeleceu relações de amizade e cooperação com Hitler. Na Palestina, criou os "escoteiros nazistas" (uma cópia da Juventude Hitlerista); recebeu apoio financeiro da Alemanha e até da Itália para a luta contra os judeus; e quando, na Alemanha, conheceu finalmente os campos de concentração, retornou à Palestina para também construir um campo do gênero perto da povoação de Nablus.

O premiê israelense Netanyahu está errado. Não foi Al-Husseini quem ensinou a lição a Hitler. O que aconteceu foi o contrário: na teoria e na prática, o Terceiro Reich apenas deu alimento suplementar a um ódio ideológico que já existia na Palestina.


Escuso de dizer que é esse o ódio que permanece até hoje. Porque o conflito israelo-palestino não é, porque nunca foi, um problema territorial. É um problema ideológico que não tem solução enquanto uma das partes olhar para os judeus exatamente como Hitler olhava para eles.

domingo, 25 de outubro de 2015

Dólar mais alto deixa o brasileiro mais pobre; veja quem ganha e quem perde

Dólar mais alto deixa o brasileiro mais pobre; veja quem ganha e quem perde

Sophia Camargo
Colaboração para o UOL, em São Paulo
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  • Rafael Neddermeyer/Fotos Públicas
O dólar ultrapassou pela primeira vez a marca de R$ 4. Muitas pessoas acham que isso não as afeta, pois não ganham em dólar nem pretendem viajar para o exterior em breve. A verdade, porém, é que o dólar mais alto deixou o brasileiro mais pobre.
"O impacto da alta do dólar na vida das pessoas vai chegar a todos, inclusive à dona de casa", diz Edgar de Sá, economista-chefe da FN Capital.
Um dólar tão valorizado retrata uma economia que está em desequilíbrio, segundo o professor da Escola de Economia de São Paulo da FGV Clemens Nunes. 
Segundo ele, o Brasil está em situação de desequilíbrio fiscal, o que mostra que o governo gasta mais do que ganha, e os investidores não enxergam uma solução sustentável para esse problema num futuro próximo.
"Não há perspectiva de melhora. A consequência disso é que o real se desvaloriza e ficamos mais pobres. Perdemos poder de compra em relação ao resto do mundo."

Qual é o primeiro impacto do dólar mais alto?

A alta do dólar afeta a vida das pessoas comuns porque puxa a inflação para cima.
Muitas matérias-primas são importadas --como trigo, gás e gasolina. Isso provoca um aumento do pãozinho, do macarrão, da gasolina, por exemplo.
Além disso, alguns produtos que são produzidos aqui no Brasil também têm seu preço atrelado ao dólar.
É o caso da soja, da carne, do café, do açúcar, do milho. Mesmo que eles sejam produzidos no país, quando o dólar está mais caro fica mais vantajoso para o produtor exportar. Então, se ele mantém o produto para ser vendido aqui dentro, ele vai querer receber mais por isso.
Outra maneira pela qual a alta do dólar influencia os preços é que, com o produto importado mais caro, os produtos nacionais acabam também sofrendo um reajuste. "Os produtores aproveitam a alta do importado para aumentar a margem de lucro do nacional também", diz Nunes.
Para ele, no curto prazo alguns setores podem até ser beneficiados com a alta do dólar (ver abaixo). "Mas no médio e longo prazo, todos perdem, pois a moeda não está desvalorizada por uma escolha, mas porque a economia está enfraquecida."

Veja quem ganha e quem perde com a alta do dólar

Quem ganha
Arte/UOL

  • Balança comercial – A balança comercial é a relação entre as exportações e importações de um país. Com o aumento do dólar, fica mais caro importar e mais barato exportar, o que ajuda a equilibrar essa conta. A balança vem apresentando resultados positivos graças à alta do dólar. Em agosto, por exemplo, a balança apresentou o melhor resultado em três anos
  • Empresas exportadoras – por terem custos em reais e receitas em dólar, essas empresas se beneficiam da alta da moeda norte-americana. Exemplos são as empresas de papel e celulose e do setor agrícola exportador, como produtoras de soja e de suco de laranja. Esses setores ficam mais competitivos lá fora, mas isso não significa que as exportações vão aumentar imediatamente. "As empresas têm que buscar o mercado lá fora que perderam antes, com o real valorizado", diz Nunes. Além disso, a economia mundial não está tão aquecida para que haja muita procura pelos produtos brasileiros. "Tirando os Estados Unidos, ainda estão meio mal das pernas Europa, China e Mercosul" 
  • Empresas voltadas ao mercado interno – Essas empresas se beneficiam da alta do dólar pois sofrem menos competição dos produtos importados
  • Turismo doméstico – o turismo nacional deve ganhar fôlego com a desistência dos brasileiros de tirar férias no exterior. Mesmo assim, não é esperado um aumento muito grande porque, apesar de o dólar estar mais caro, a economia brasileira como um todo está mais fraca. "As pessoas estão preocupadas com a crise e evitam gastar", afirma Edgar de Sá, economista-chefe da FN Capital

Quem perde
Arte/UOL

  • Consumidor final – Os aumentos de custos na economia são invariavelmente repassados para o consumidor, que sofre com a inflação e a perda do seu poder de compra
  • Empresas importadoras – As indústrias que vendem produtos importados ou que dependem substancialmente de matérias-primas importadas são prejudicadas com a alta do dólar. Exemplos são a indústria química, farmacêutica, revenda de carros importados, de perfumes, chocolates, vinho importado. "Vai depender da capacidade delas de repassar a alta dos custos ao consumidor", diz Nunes.
  • Empresas que tenham dívidas em dólar – Se a empresa fez dívidas em dólar para compra de equipamentos ou insumos e não tem mecanismos de proteção (hedge cambial) para pagamento dessa dívida, está com um problema muito grande agora, afirma Luiz Fernando Roxo, economista da ZenEconomics
  • Pessoas que fizeram gastos no cartão de crédito no exterior – Além do custo de 6,38% de IOF, o aumento do dólar faz com que o gasto no exterior seja bastante aumentado. É por isso que os especialistas não indicam fazer gastos expressivos com cartão de crédito no exterior, mas deixar seu uso apenas para emergências
  • Quem tem viagem marcada para o exterior ou programa de estudos no exterior – Com a alta dos preços lá fora, os turistas estão optando por trocar a viagem por um destino nacional ou até mesmo escolher um país menos caro. "Muitos turistas estão optando por fazer viagens para a América do Sul e intercâmbios em países como Nova Zelândia", diz Edgar de Sá

sábado, 24 de outubro de 2015

De Faurisson a Netanyahu

24/10/2015 

Por: 

Demétrio Magnoli


A Solução Final, isto é, o extermínio dos judeus, não foi concebida por Hitler, mas sugerida ao Führer por Amin al-Husseini, o mufti (clérigo islâmico) de Jerusalém em novembro de 1941. A novidade foi anunciada dias atrás por Binyamin Netanyahu perante o Congresso Mundial Sionista. Dando esse passo, que provocou justo escândalo, o primeiro-ministro de Israel formula uma nova versão do revisionismo do Holocausto. Ela caminha em trilha paralela à do revisionismo de Robert Faurisson, um dos "pais fundadores" do movimento de negação do genocídio judeu.

O francês Faurisson não foi o pioneiro. Antes dele, o negacionismo emergiu pela voz do historiador americano Harry Barnes, em 1962. Mas, naquele tempo, a memória ainda quente da abertura dos portões de Auschwitz e dos Julgamentos de Nuremberg confinava os negacionistas à insignificância. Mais de uma década depois, porém, quando Faurisson divulgou suas teses, a revisão histórica já encontrava recepção em relevantes círculos políticos extremistas. No rastro da Guerra dos Seis Dias (1967), a consolidação do Estado de Israel e a configuração do moderno nacionalismo palestino reativavam o antissemitismo na Europa, tanto entre os neofascistas quanto em correntes da esquerda radical.
Disfarçado sob a fantasia da pesquisa histórica, o negacionismo cumpria uma função política definida. O intelectual Roger Garaudy explicitou-a no título de um livro de 1996: "Os mitos fundadores da política israelense". Nele, o ex-comunista e ex-católico convertido ao Islã explicou que o desvendamento do "mito" do extermínio de seis milhões de judeus faria ruir o alicerce moral sobre o qual se ergueu Israel.
O revisionismo de Netanyahu é de tipo diferente, mas também serve a um fim político útil. Investindo numa mistura tóxica de oportunismo e amoralidade, o chefe de governo israelense pronunciou-se às vésperas de sua visita à Alemanha, uma nação que, por razões óbvias, interdita-se escrupulosamente de confrontar autoridades de Israel. No lugar de negar o Holocausto, ele cuidou de reescrever a narrativa histórica. "Hitler não queria, naquela época, exterminar os judeus, mas expeli-los", ensinou, antes de introduzir sua "descoberta". Husseini teria dito ao Führer que "se você os expulsar, todos eles virão para cá; queime-os!", plantando a semente do genocídio.
Os historiadores esclareceram, há muito, as relações entre Husseini e Hitler. Na moldura da guerra, o mufti buscava um acordo com a Alemanha para o estabelecimento de um Estado árabe na Palestina Britânica. A marcha rumo ao genocídio também foi minuciosamente exposta, apesar da queima dos arquivos pelo regime nazista. De fato, o Führer decidiu-se pelas câmaras de gás no outono de 1941, mas não inspirado por um clérigo de Jerusalém. A Solução Final derivou da descrença no triunfo militar, que se instalou na mente de Hitler com o fracasso da invasão da URSS. Os judeus deveriam perecer para pagar o sangue alemão derramado –e para evitar a vingança contra os nazistas e seus descendentes.
Na versão de Netanyahu, Husseini funciona como uma dupla metáfora. O fardo da culpa deve ser lançado sobre os ombros dos muçulmanos, em geral, e dos palestinos, em particular. Com isso, o primeiro-ministro conecta-se à onda de islamofobia difundida pela direita europeia na hora da crise dos refugiados e, simultaneamente, tenta deslegitimar a ideia da paz em dois Estados, no momento em que se ensaia mais um levante palestino. Ele opera no campo fértil do "choque de civilizações", apostando no confronto.
"Nós sustentamos nossa responsabilidade pelo Holocausto", replicou Angela Merkel. "Isso é ensinado nas escolas alemãs por um bom motivo: não deve ser esquecido jamais", completou seu porta-voz. É uma vergonha para Israel ter que ouvir essa verdade reiterada por um governo alemão. 

Após 12 anos no poder, casal Kirchner deixa legado controverso na Argentina

MARIANA CARNEIRO

Chegando ao final de oito anos de governo e 12 do kirchnerismo, a presidente argentina Cristina Kirchner começou a se despedir do cargo com um vídeo em que lembra alguns feitos de sua gestão.
O kirchnerismo chegou ao poder em 2003, quando o marido de Cristina, Néstor (1950-2010), se elegeu com 22% dos votos, após o ex-presidente Carlos Menem (1989-99) desistir de ir ao segundo turno contra o antigo aliado.
Nessa década no poder, os Kirchner tiraram a Argentina do colapso, após a crise de 2001, que levou o país à bancarrota. Seu principal feito foi ter reduzido a pobreza, que no início de seu governo engolia mais da metade da população, para os atuais 28%.
Mas não sem críticas. A política kirchnerista se notabilizou principalmente pela confrontação permanente, que buscou inimigos nos políticos opositores, no "imperialismo" americano e inglês e nos meios de comunicação.
Enrique Marcarian - 9.set.2015/Reuters
Cristina Kirchner e o candidato governista Daniel Scioli
Cristina Kirchner e o candidato governista Daniel Scioli
"O kirchnerismo foi um período forte na história contemporânea argentina. Pelos amores e ódios que despertou, não passará despercebido", diz o analista Ricardo Rouvier.
No setor empresarial, porém, essa política de confrontação e interferência se traduziu em menos investimentos na última fase da gestão Cristina, o que acabou por deprimir o crescimento. Hoje, a economia está estagnada.
Mas a presidente dobrou a aposta. Neste ano de eleições, turbinou os gastos sociais e levará a Argentina a um deficit fiscal recorde, equivalente a 7% do PIB do país.
Se gera alto grau de incerteza sobre como o próximo governante lidará com a correção da gastança, por outro lado sua política contribuiu para que a mandatária se despeça com alta popularidade.
Com mais de 50% de aprovação, a presidente indicou como sucessor o peronista Daniel Scioli, que foi vice de Néstor e hoje governa a província de Buenos Aires.
A principal discussão dessa eleição, segundo analistas, é se o eleitor deseja a continuidade das atuais políticas ou a mudança. O placar apertado ilustrado pelas pesquisas indica que a população chegará dividida ao pleito.
Os números mais recentes dão a Scioli 38,3% das intenções de voto, seguido por Mauricio Macri, da coligação Mudemos, com 29,2%, e Sergio Massa, que representa peronistas antikirchneristas (21%).
Com esse cenário, ninguém se arrisca a dizer se a eleição terminará no primeiro turno ou se haverá uma final.


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Netanyahu é criticado após dizer que Holocausto foi sugestão palestina


Netanyahu é criticado após dizer que Holocausto foi sugestão palestina


Numa declaração que gerou críticas imediatas tanto de lideranças palestinas como israelenses, o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, disse na noite de terça (20) que o Holocausto teria sido ideia de um religioso palestino, e não do ditador alemão Adolf Hitler.

Segundo Netanyahu, Haj Amin al-Husseini, grão-mufti de Jerusalém entre 1921 e 1937, teria orientado Hitler durante uma viagem a Berlim, em 1941.
"Hitler não queria exterminar os judeus naquela época, ele queria expulsar os judeus", disse Netanyahu. "E Haj Amin al-Husseini disse a Hitler: 'Se você expulsá-los, eles virão todos para cá'", completou.
Sebastian Scheiner - 20.out.2015/Associated Press
O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, discursa no Congresso Sionista Mundial em Jerusalém, na terça (20)
Binyamin Netanyahu, discursa no Congresso Sionista Mundial em Jerusalém, na terça (20)
Na versão de Netanyahu, o ditador alemão teria perguntado, na sequência, o que deveria fazer então com os judeus. "Queimá-los", teria respondido o líder religioso palestino, segundo o premiê israelense.
Nesta quarta-feira (21), antes de embarcar para a Alemanha, Netanyahu comentou a repercussão sobre sua declaração e disse ser "absurdo" ignorar o papel do grão-mufti no holocausto.
"Eu não tive a intenção de absolver Hitler de sua responsabilidade, mas de mostrar que o pai da nação palestina queria destruir os judeus mesmo sem haver ocupação", disse.
Durante o Holocausto, anterior à criação do Estado de Israel, o território da Palestina estava sob mandato britânico.
A declaração de Netanyahu foi feita durante o 37º Congresso Sionista Mundial, em Jerusalém, momentos antes de o premiê dividir o palco com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.
MERKEL
Em entrevista coletiva ao lado de Netanyahu em Berlim, a chanceler alemã, Angela Merkel, disse que a responsabilidade pelo Holocausto é alemã.
"Por isso não vemos nenhuma razão para mudar nossa visão sobre a história e, especialmente, sobre esta questão", afirmou Merkel.
Netanyahu, por sua vez, disse estar "muito claro" que Hitler foi o responsável pelo "aniquilamento de seis milhões de judeus", mas também que o líder palestino "aprovou a solução final".
Ao lado do premiê, Merkel ainda afirmou que os assentamentos israelense são "contraproducentes" e instou israelenses e palestinos a acabarem com a violência.
Wikimedia Commons
Haj Amin al-Husseini e Adolf Hitler, em imagem de dezembro de 1941. Crédito Wikimedia Commons
Al-Husseini e Hitler, em foto de 1941
FIM POLÍTICO
O secretário-geral da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), Saeb Erekat, lamentou o discurso de Netanyahu e disse que o premiê deveria parar de "usar essa tragédia humana para angariar pontos para um fim político".
"É um dia triste na história, quando um líder do governo israelense odeia tanto seu vizinho que quer absolver o criminoso de guerra mais notório na história, Adolf Hitler, do assassinato de seis milhões de judeus", disse Erekat, que é o principal negociador palestino com os israelenses.
O líder da oposição, Isaac Herzog, disse que a declaração foi uma "distorção histórica perigosa" que pode favorecer nagacionistas do Holocausto.
Até o ministro de Defesa israelense, Moshe Yaalon, que é muito próximo a Netanyahu, rechaçou a declaração. "Certamente não foi [Husseini] que inventou a 'Solução Final'", disse Yaalon à rádio do Exército. "Foi uma ideia maligna do próprio Hitler."
Dina Porat, principal historiadora do Yad Vashem, museu sobre o Holocausto de Jerusalém, considerou equivocada a declaração de Netanyahu.
"Embora tivesse posições antissemitas muito extremadas, não foi o mufti que deu a Hitler a ideia de exterminar os judeus", disse ela à agência de notícias AFP. "Esse ideia foi muito anterior ao encontro entre ambos em novembro de 1941. Em um discurso no Reichstag (antigo Parlamento alemão), em 30 de janeiro de 1939, Hitler já menciona 'um extermínio da raça judia'.
A declaração de Netanyahu ocorre em um momento de tensão entre israelenses e palestinos. Nas últimas semanas, ataques e confrontos mataram ao menos dez israelenses e 40 palestinos, muitos dos quais identificados como agressores.