quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O milagre de Francisco

BERNARDO MELLO FRANCO

O milagre de Francisco

BRASÍLIA - Com menos de dois anos de papado, o argentino Jorge Mario Bergoglio produziu seu primeiro milagre: intermediou a reaproximação histórica entre Estados Unidos e Cuba. A participação de Francisco não se limitou a palavras de incentivo, como reconheceram Barack Obama e Raúl Castro. Ele pressionou pela libertação de presos políticos nos dois países e abriu o Vaticano para a última reunião dos negociadores.
O anúncio de ontem coincidiu com o aniversário do papa, que comemorou 78 anos de idade. Modesto, ele promoveu audiência na praça São Pedro, brincou com os casais que dançariam tango em sua homenagem e se recolheu, deixando os louros do dia para os líderes políticos. Coube à Santa Sé registrar, em nota, a sua "viva satisfação" com a notícia.
Se o papel de Francisco na modernização da igreja ainda está sendo escrito, sua atuação diplomática já pode entrar nos livros de história. O impulso para o reatamento das relações entre EUA e Cuba foi o avanço mais expressivo, mas não o único. Só neste ano, ele quebrou o gelo com a China ao escrever para Xi Jinping e uniu os presidentes de Israel, Shimon Peres, e da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, em oração pela paz no Oriente Médio.
A ação do papa ajudará a melhorar as biografias de Obama e Castro. O presidente americano ainda não havia dado motivos concretos para justificar o prêmio Nobel da Paz que recebeu há cinco anos. O irmão de Fidel, por sua vez, vinha decepcionando quem apostava nele para conduzir a abertura política na ilha.
A primeira viagem de Francisco aos EUA está programada para setembro de 2015. Até lá, é possível que ele ajude a arrancar novos avanços, como o fim da tortura em Guantánamo e a suspensão do embargo a Cuba. Se fizer escala em Havana, poderá testemunhar o restabelecimento de eleições livres e das garantias individuais. Como escreveu Brecht e lembrou o noticiário de ontem, nada deve parecer impossível de mudar.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Incoerência americana

Incoerência americana

Fechar Guantánamo. Barack Obama prometeu fazê-lo em 2008, quando disputava seu primeiro mandato como presidente dos EUA, supostamente o cargo mais poderoso do mundo.
Seis anos e duas eleições depois, o campo de prisioneiros continua em funcionamento, contradizendo os valores democráticos dos quais os americanos tanto se vangloriam.
Alguns dos 136 detidos (número que resta após o envio de seis deles para o Uruguai) estão presos há mais de uma década sem acusação formal. São, entretanto, considerados "perigosos demais".
Guantánamo converteu-se num labirinto jurídico. Em primeiro lugar, os internos estão presos numa dupla condição: como combatentes e como suspeitos de terrorismo.
A primeira figura, chamada de detenção prospectiva, já foi aplicada por vários países em diversas guerras. Inimigos capturados, sem nenhum tipo de julgamento, são mantidos num campo de internamento até o fim do conflito, para que não voltem a combater. Terminado o confronto, são libertados.
A chamada guerra ao terror, contudo, não é um conflito clássico. Não se vislumbra um término oficial para ela. Os militantes ficam presos indefinidamente, mas os EUA não lhes concedem o estatuto de soldados inimigos, o que ao menos os poria sob proteção das convenções de Genebra.
A segunda figura, detenção retrospectiva, se assemelha a casos criminais costumeiros. Os suspeitos teriam de ser formalmente acusados por delitos, seus defensores precisariam ter acesso às provas e deveria haver um julgamento justo.
O problema é que, para um bom número de prisioneiros de Guantánamo, ou não há provas suficientes para a condenação, ou elas foram obtidas por meios ilegais (tortura), ou se teme apresentá-las numa corte, pois acabariam revelando a identidade de agentes infiltrados.
As agências de segurança afirmam que, soltos, muitos voltariam a engajar-se no combate aos EUA.
O Congresso americano, dominado pela oposição, faz o máximo para complicar a vida de Obama, o que inclui sabotar todas as tentativas de resolver ou atenuar o imbróglio. Daí a longevidade desse sistema de exceção, que não condiz com as tradições dos EUA.

O dano que Guantánamo traz à imagem do país é tamanho que cabe perguntar se não seria preferível soltar de uma vez todos os presos. Grupos radicais não enfrentam dificuldades em recrutar outros jihadistas, afinal. Os EUA poderiam ao menos proclamar de forma mais crível que defendem valores democráticos contra a barbárie.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Intervenção militar


Vladimir Safatle

Na próxima quarta-feira (10), a Comissão Nacional da Verdade deve apresentar o relatório de seus trabalhos. Espera-se que nomes de torturadores e assassinos sejam enfim publicados, que seus crimes sejam fartamente descritos, a fim de que, ao menos, ganhem força processos para terminar com a impunidade aos que cometeram crimes contra a humanidade durante a ditadura militar.
Mas, como por ironia da história, neste exato momento, o Brasil conhece manifestações periódicas de pessoas que saem às ruas pedindo por um golpe militar. Não uma mobilização pelo dever de memória, mas um clamor para a repetição da destruição do país.
Mas o que dizer destas pessoas? Estariam elas a exercer seu direito de liberdade de expressão expondo seu descontentamento com a situação política atual ou estariam a cometer o mais vil e torpe de todos os crimes, o mais imperdoável, a saber, este que clama pela destruição do mínimo de liberdade que dispomos atualmente?
Notem, quem sai à rua e levanta um cartaz pedindo "intervenção militar" não está fazendo a mesma coisa que alguém a gritar "Fora Dilma" ou "Fora FHC". "Fora X, Y ou Z" é algo que se ouve em todas as partes do mundo onde há descontentamento. Significa normalmente um pedido de impeachment, de renúncia ou a afirmação da deslegitimação do poder.
Já quem clama por um golpe militar pede, necessariamente, a implementação de um regime de exceção, com assassinatos sistemáticos de Estado contra oponentes, comandado por uma casta militar que fará o que o Brasil nomeará na quarta: a destruição física e simbólica de quem não está acostumado com o silêncio.
Quem quer a causa quer as consequências. Por isto, pedir por uma "intervenção militar" não é uma "opinião" política, mas pura e simplesmente o crime por excelência.
Claro que haverá aqueles a dizer que eu deveria então criticar os que saem às ruas e pedem, por exemplo, por "revolução" (onde? Faz tempo que não vejo ninguém fazer isso). No entanto, uma revolução é uma sublevação popular que dá voz ao poder instituinte. Nada a ver com um golpe que, por sua vez, é a forma máxima do fim da política.
Por isso, quem levanta um cartaz a favor de um golpe militar não pode estar na rua, mas deveria estar ou respondendo a processos por incitação à forma máxima de violência ou diretamente na cadeia.

Uma sociedade que não pune quem pratica tal violência, mas convive com os que a elogiam como se fosse algo meio pitoresco, cava sua própria cova.

Nostalgia perversa

Carlos Heitor Cony

RIO DE JANEIRO - O pior de um governo em crise é a sucessão ou o golpe. E pior do que o golpe é a esperança absurda de que uma solução autoritária que, além de atrasar o país, oprime o povo.
Tivemos os anos de chumbo, executados pelo regime militar que se instaurou em 1964/1968 (dois golpes, um dentro de outro). A pretexto de combater uma fictícia república sindical, trouxe a ditadura e os crimes, não dos traficantes, mas do Estado.
Nos meados do século passado, houve a vergonhosa falência da República de Weimar, que, juntamente com a truculência vingativa do Tratado de Versalhes, mergulhou a Alemanha no nazismo, que por pouco não infelicitou o mundo, acabando com o estágio de civilização que a humanidade conquistara a duras e sofridas penas.
O ano que está no fim brindou-me com dois pasmos que até agora não digeri: aqueles 7 a 1 da Copa e a campanha pela volta do regime militar que desgraçou duas gerações.
Assim como não degluti os gols sofridos em mais ou menos dois minutos de jogo, minhas fatigadas vísceras não metabolizaram a nefasta campanha que começa a ser feita em jornais e no boca a boca de amplas camadas da população, clamando pela volta do passado, dos militares e paisanos que instalaram e mantiveram uma ditadura de 21 anos.
Quem a esqueceu não merece ser brasileiro e muito menos cidadão capaz de aprovar e exaltar todos os crimes que ainda esperam por justa e necessária punição. Embora não aprove nem justifique o governo de dona Dilma, muito menos de sua base aliada, principalmente o PT com a sua decantada militância que lembra as esquadras de Mussolini, que afinal --todos sabem-- foi o modelo que Hitler adotou com inicial sucesso.
Com uma vantagem para o Führer: enquanto o Duce gostava do "Funiculì, Funiculà", Hitler preferia o coro dos peregrinos do Tannhäuser.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Vázquez, de centro-esquerda, volta à Presidência uruguaia

Candidato, que governou país de 2005 a 2010, foi vitorioso no segundo turno


Ele substituirá o atual presidente, Mujica, e deve anunciar medidas sociais e de combate à sensação de insegurança

SYLVIA COLOMBO ENVIADA ESPECIAL A MONTEVIDÉU 

  O candidato governista Tabaré Vázquez, 74, venceu o segundo turno das eleição uruguaia. Com 49% de urnas apuradas, ele tinha 52% dos votos, contra 42% do adversário, Luis Lacalle Pou. Enquete de boca de urna dava 53% a Vázquez e 41% a Pou.
Vázquez, de centro-esquerda, anunciou, ao votar no clube Arbolito, no bairro de La Teja, que lançará pacote de medidas logo após assumir, em março do ano que vem.
O foco estará na ampliação de planos sociais e medidas de segurança (o aumento da violência é apontado como principal problema do país).
Em discurso à noite, Vázquez disse: "O Uruguai de hoje não é o mesmo de 2005, nem o de 2010. Há novas demandas e novos desafios. Não podemos perseguir quimeras, temos que perseguir os objetivos alcançáveis."
Presidente de 2005 a 2010, ele anunciará seu gabinete na próxima semana e disse que chamará pessoas ligadas à oposição para alguns dos cargos, em gesto que chamou de "grande encontro nacional".
Alguns nomes da sua primeira administração devem voltar. Além do atual vice-presidente, Danilo Astori, que ocupará o ministério da Economia (leia ao lado), outro ex-ocupante da pasta, Álvaro García, deve ser secretário de Planejamento.
As ex-ministras da Saúde, María Julia Muñoz, e de Desenvolvimento Social, Marina Arismendi, seriam recolocadas em outros postos.
O atual presidente, José "Pepe" Mujica, que desta vez não foi votar a bordo de seu Fusca 1987, ocupará uma vaga no Senado.
Na quinta-feira, pesquisa Factum divulgou que Mujica pode deixar o cargo com 65% de aprovação. Em 2010, Tabaré saiu do posto com 70%.
Em Montevidéu, a forte tempestade iniciada na madrugada atrasou o início da votação em alguns bairros.
Lacalle Pou, candidato do Partido Nacional (conhecido como "blanco"), votou pela manhã e disse estar de acordo com o gesto conciliador de Vázquez com a oposição.
Agradeceu o apoio do Partido Colorado, principalmente do ex-candidato Pedro Bordaberry, que obteve 13% dos votos no primeiro turno, e do ex-presidente Julio Maria Sanguinetti.
Após a divulgação dos primeiros números, Lacalle Pou disse que seu partido será atuante na oposição "já a partir de amanhã", mas desejou sorte ao presidente eleito.
LEI DE MÍDIA
Na semana que vem, o Senado debaterá pela primeira vez uma nova lei de mídia proposta pela Frente Ampla.
A ideia é definir a produção mínima de conteúdo nacional e criar um órgão regulador. Oposição e principais veículos de comunicação independentes são contra.
Mujica diz que não se trata de "mordaça". "Não pensamos em regular conteúdos nem em nos meter na linha editorial dos meios".
A Frente Ampla também apresentará projeto de mudança na lei eleitoral. Em casos de diferença de mais de 10% entre os dois primeiros colocados num primeiro turno, não haveria o segundo.
No dia 26 de outubro, Vázquez obteve 47%, ante 30% de Lacalle Pou. 

O terror do Estado Islâmico na Síria

Paulo Sérgio Pinheiro

Subestimou-se a consolidação desse grupo terrorista na Síria. Houve países mais centrados na derrubada de Assad que no fim da violência
Faz pouco tempo que o chamado Estado Islâmico, ou EI, fez circular um vídeo com 18 soldados sírios decapitados, mostrando ainda a cabeça decepada de um ativista humanitário norte-americano. Essas cenas são uma amostra do terror que esse grupo emprega para subjugar tanto civis como combatentes em áreas que controlam na Síria.
Homens, mulheres e crianças sírios que fugiram do EI, recentemente entrevistados, relatam que execuções, amputações e açoitamentos em público são rotineiros. A exibição de corpos mutilados e de cabeças espetadas em grades traumatizam ainda mais os sírios, em especial as crianças.
Mulheres e meninas sírias são excluídas da vida pública. Mulheres executadas, por apedrejamento, por terem tido contato não aprovado com o sexo oposto. Regulamentos ditam o que vestir, quem elas podem encontrar e onde trabalhar, submetidas a uma brigada feminina de costumes.
Há casamentos forçados de meninas de 13 anos com combatentes do grupo terrorista muito mais velhos. Mulheres e meninas da etnia yazidi, alvo de abusos terríveis, muitas sequestradas no Iraque em setembro de 2014, levadas para a Síria e vendidas para escravidão sexual nos mercados na província de Al Raqqah, controlada pelo "Estado Islâmico".
As crianças são vítimas, perpetradoras e testemunhas de execuções do Estado Islâmico, que recorre à educação como instrumento de doutrinação para promover uma nova geração de recrutas. Na cidade de Raqqa são obrigadas a assistir a vídeos de execuções em massa de soldados sírios, dessensibilizando-as à violência extrema.
Em áreas que o Estado Islâmico ocupa, com diversas comunidades étnicas e religiosas, estas são forçadas a se converter ou a fugir. Há um padrão de violência contra determinados grupos --cristãos, xiitas e curdos-- para reduzir e controlar a sua presença naquelas áreas.
O EI tem atacado jornalistas e ativistas que tentam comunicar o sofrimento diário dos que vivem sob seu jugo. Muitos foram sequestrados, desaparecidos, torturados e executados. Combatentes foram executados durante seus ataques militares recentes, incluindo as exceções de mais de 200 soldados capturados de base aérea em Al Raqqah e o assassinato de centenas de membros da tribo Sheitat, em Dayr Az-Zawr, em agosto deste ano.
Como se chegou a esse quadro horripilante em que o EI viola sistematicamente os direitos humanos, comete com impunidade crimes de guerra e contra a humanidade?
Esses terroristas não caíram do céu, formaram-se na Síria ou vieram do exterior financiados e armados desde 2011 por vários países e indivíduos da região, aproveitando-se de fronteiras porosas.
A comunidade internacional subestimou a consolidação gradual desse grupo terrorista na Síria e não agiu, muitos países estavam mais centrados na derrubada do governo Bashar al-Assad do que no fim da violência ou na proteção das populações civis.
A Europa não barrou eficazmente a ida de centenas de seus nacionais para a Síria e o Estado Islâmico. O governo sírio poupou até bem pouco tempo o EI de ataques e, por sua vez, contou com o apoio militar de vários países, também com contingentes estrangeiros, com bombardeios aéreos atingindo pesadamente a população civil, numa escalada da guerra civil no seu quarto ano.
A Síria está devastada, 3 milhões de refugiados, 6 milhões de deslocados internamente, numa população de 23 milhões.
A falta de um processo político permitiu que o extremismo e o sectarismo se alastrassem mais. É urgente a comunidade internacional chegar a uma gestão da crise mais eficiente, que leve a uma solução negociada entre o governo sírio e as oposições para o fim do conflito. Caso contrário, haverá o agravamento da desestabilização regional e maior o sofrimento da população.

Causa própria

Valdo Cruz

BRASÍLIA - No ano da eleição mais cara do país, a cada dia tomamos ciência de nova conta milionária no exterior recheada de dinheiro surrupiado da Petrobras. Tudo sob comando de diretores mancomunados com partidos políticos.
Em cenário tão escandaloso, nossos deputados e senadores deveriam estar preocupados em dar uma resposta ao eleitorado, dedicando seu precioso tempo a aprovar uma reforma política que reduza esta roubalheira de dinheiro público.
Pois bem, ficamos sabendo que eles estão ocupados é com outros afazeres. Em tempo de corte de gastos, nossos congressistas planejam aumentar seus salários, as verbas para suas bases eleitorais e o dinheiro que financia seus partidos.
Continha salgada, coisa de R$ 1,15 bi por ano, bancada com nosso dinheiro. Eles querem elevar, por exemplo, o salário de R$ 26,7 mil para R$ 33,7 mil. Não fosse o descrédito do mundo político e sua improdutividade, seria até uma soma justa.
Afinal, teoricamente, deveriam representar seus eleitores. Ganhando um salário razoável, estariam livres da tentação de servir a outros senhores. Mas não é o que tem acontecido com todos congressistas --tem parlamentar que não resiste a uma oportunidade tentadora.
É bom lembrar ainda que nossos parlamentares têm direito a médico, dentista, moradia, telefone celular e combustível de graça.
Pior é saber que, nesta farra, querem aumentar o dinheiro que sai dos cofres públicos para bancar a vida dos partidos políticos. Uma total falta de sintonia com o eleitorado.
Além de pensar em seus bolsos, nossos congressistas deveriam é estar perguntando aos eleitores se concordam que seu dinheiro financie campanhas eleitorais e o funcionamento de partidos políticos.

Como a resposta hoje, com certeza, seria negativa, o Congresso prefere legislar, no apagar das luzes de 2014, em causa própria. E deixar de lado o interesse do prezado eleitor.

O voo do Super-Homem

Vinicius Mota


SÃO PAULO - O que permite ao Super-Homem voar? Na antiga lenda grega, Dédalo e seu filho Ícaro mimetizam as asas dos pássaros, usando penas e cera. Já o herói da capa vermelha que veio de Krypton não se presta a nenhum trabalho de verossimilhança. Apenas levita e voa.
É inútil pensar em empuxo, arrasto, sustentação ou consumo de energia. Como na célebre cena do Barão de Münchhausen, que puxa os próprios cabelos para livrar-se do afogamento, o voo do Super-Homem é fantasia ensimesmada. Não se relaciona com o mundo físico ao redor.
Quimeras assim às vezes engolfam o pensamento econômico, sem poupar os profissionais mais dotados, que ciclicamente incidem na crença da valorização perpétua de ativos financeiros. Há seis anos o mundo paga o preço do mais recente desvario.
A imaturidade, o corporativismo e as ideologias também hipnotizam. Movimentos juvenis exigem "tarifa zero" no transporte urbano. Outros grisalhos defendem a "gratuidade" nas universidades públicas. Há economista a advogar que o governo amplie ainda mais os gastos e a dívida para impulsionar o crescimento.
Em todos esses casos, quando os proponentes não enganam a si mesmos, é o público que iludem. O liame oculto nessas bandeiras empurra contas bilionárias para quem paga impostos em situações tão corriqueiras como a compra num açougue ou a reforma da casa.
O despertar do encanto se dá na tarefa de cotejar quem paga tributos, de um lado, com os beneficiários da despesa e dos empréstimos estatais, do outro. O método mostra que o devedor da dívida pública não é o governo, mas sim dezenas de milhões de brasileiros mal remediados, cujo trabalho remunera, com 5% do que o país produz todo ano, um grupo bem menor de financiadores do Tesouro.
Desse modo se atinge o estágio da lucidez, no qual Super-Homem, se quiser voar, que compre o bilhete num avião de carreira.

Vitória sobre infecções

O mundo está às vésperas de uma conquista inédita. Em breve, as doenças infecciosas, que vêm há milênios dizimando bebês e crianças, podem deixar de ser a principal causa de mortalidade infantil.

Um estudo recente que modelou dados de 194 países mostra que, dos 6,3 milhões de crianças com até cinco anos de idade que morreram em 2013, 52% faleceram devido a moléstias infecciosas. Três anos antes, eram 64%. A virada está próxima, se é que já não ocorreu.
Isoladamente, a principal causa de óbito é a prematuridade (15,4%), seguida de perto pela pneumonia (14,9%). Grandes vilões do passado, notadamente as diarreias, mas também sarampo e tétano, já não ocupam as primeiras posições.
Segundo os autores da pesquisa, publicada no periódico médico britânico "The Lancet" no mês passado, os 3,6 milhões de mortes a menos registrados em 2013 em relação a 2000 podem ser atribuídos a ganhos no controle da pneumonia, diarreia e sarampo. São avanços formidáveis da humanidade.
A partir desse ponto, contudo, melhorias tendem a ficar mais difíceis. Aos poucos, os países esgotam o arsenal de ações fáceis, capazes de atingir grandes fatias da população --oferecer água tratada e esgoto, fazer campanhas de vacinação e pelo aleitamento materno.
À medida que se registram reduções nas mortes por infecções, os óbitos neonatais (até o 28º dia de vida) tendem a ganhar preponderância --e as iniciativas para enfrentá-los se tornam cada vez mais individualizadas e caras.
Se o quadro global, de todo modo, é bastante positivo, há uma nota negativa para a qual é preciso chamar a atenção: permanecem abissais as diferenças entre as diversas regiões do planeta.
Enquanto Estados desenvolvidos já baixaram há vários anos a mortalidade infantil para faixas inferiores a 10 óbitos por mil nascimentos com vida e nações emergentes estão chegando lá, países da África subsaariana continuam mal.
Respondendo por 25% dos nascimentos no mundo e quase 50% dos óbitos de crianças até cinco anos, esse grupo eleva a taxa média do planeta para 46 óbitos por mil nascimentos com vida.

Um índice bem melhor que os 200 por mil estimados para a Idade Média, mas muito pior do que aquele que seria possível atingir com o nível de conhecimento médico e avanço tecnológico do mundo.