quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Entenda a crise da dívida Argentina

Folha de S. Paulo



Entenda a crise da dívida Argentina

A CRISE
Em 1991, a Argentina lançou um plano para zerar a inflação: cada peso valia US$ 1. Para crescer, país se endividou
OS TÍTULOS
Em 2001, o país parou de pagar as dívidas, parte na forma de títulos (papéis que oferece para se financiar)
A RENEGOCIAÇÃO
Em 2005 e 2010, a Argentina ofereceu pagar menos a credores; 92% aceitaram
OS "ABUTRES"
Os que não aceitaram (8%) venderam os títulos a fundos "abutres", que compram dívidas por valores menores
SEM DÓ
Em 16.jun, a Justiça dos EUA decidiu que a Argentina deve pagar US$ 1,3 bi a um dos "abutres", o NML
SEM RECURSOS
Decisão pode se estender a outros credores, e a dívida iria a US$ 15 bi (o país tem reserva de menos de US$ 30 bi)
SEM ACORDO
Apesar do calote técnico após o fracasso do acordo, o governo argentino diz querer negociar
SEM DESCULPAS
Após o calote técnico no último dia 30, o juiz americano Thomas Griesa exigiu que a Argentina siga negociando 

1914 poderá se repetir?

Folha de S. Paulo





Luiz Carlos Bresser-Pereira

TENDÊNCIAS/DEBATES

1914 poderá se repetir?


Cem anos depois do início da Primeira Guerra, o mundo alcançaria maior progresso; a guerra de 1914 provou ser um jogo de soma menor que zero
A guerra de 1914 foi talvez a mais irracional das grandes guerras --uma guerra que só teve derrotados. Há um debate entre os historiadores sobre qual país foi o principal responsável e, geralmente, a Alemanha ocupa esse papel. É uma tese razoável já que, entre as grandes potências europeias, a Alemanha ainda não conhecera a democracia e --o que é mais importante--, como se atrasara em completar sua revolução industrial, não construíra um grande império na Ásia e na África, ao contrário do que acontecera com o Reino Unido e a França.
Vinte anos depois de terminada a primeira, estourou a Segunda Guerra Mundial, que, na realidade, foi uma continuação ressentida da anterior. Significaria isso que uma terceira guerra entre os grandes países seria possível? Não, porque cem anos depois o mundo alcançaria um estágio mais elevado de progresso ou de civilização; e também porque a guerra entre grandes países, que já se provou ter sido um jogo de soma menor que zero em 1914, hoje deixou de fazer qualquer sentido.
Para compreender a falta de sentido das guerras entre grandes países há um fator adicional, de caráter estrutural, aos dois fatores que acabei de citar. Já em 1914 a causa principal das guerras capitalistas --a definição de fronteiras entre os grandes Estados-nação-- estava deixando de existir porque essas fronteiras estavam praticamente definidas; em 2014, elas estão completamente definidas e tentar mudá-las é inviável.
Vejamos esse argumento em perspectiva histórica. As guerras conduzidas pelos impérios antigos faziam sentido nas sociedades pré-capitalistas porque eram a principal forma de apropriação do excedente econômico por aqueles que tinham mais força. Com a revolução capitalista, a apropriação do excedente passou a ser realizada no mercado, por meio do lucro, de forma que as guerras deixaram de ter a importância econômica que tinham nas sociedades pré-capitalistas.
Entretanto, durante a revolução capitalista que durou cerca de 300 anos, as guerras continuaram atrativas. Estavam, então, se formando os Estados-nação na Europa e, para eles, ampliar suas fronteiras por meio de guerras era fundamental porque só um grande mercado interno viabilizaria a revolução industrial. Por isso, durante essa longa transição, muitas foram as guerras. Mas, em 1914, essas fronteiras já estavam razoavelmente definidas.
Havia, porém, uma causa "racional" para a guerra de 1914. Os países que primeiro realizaram sua revolução industrial e capitalista, Reino Unido, França, Bélgica e Holanda, tiveram força suficiente para reduzir à condição de colônia os povos da Ásia e da África. Era o imperialismo moderno que surgia. Mas a Alemanha e a Itália, que se atrasaram em sua industrialização, não estavam satisfeitas com essa distribuição das colônias entre as grandes potências.
O imperialismo antigo ou clássico entrou em derrocada na Primeira Guerra Mundial com o colapso dos impérios Austro-Húngaro, Russo e Otomano, mas um segundo tipo de imperialismo --o industrial-- ainda parecia viável, e a luta por definir o domínio das colônias talvez seja a principal explicação para essa guerra. Mas logo esse segundo imperialismo também perdeu viabilidade; no mundo moderno, os custos de imperializar outros países tornara-se mais altos do que os benefícios.
As grandes potências lideradas pelos EUA mudaram sua estratégia para um terceiro tipo de imperialismo que já usavam na América Latina e que denomino "imperialismo de hegemonia ideológica". Buscam e geralmente logram convencer as elites locais de que a ocupação dos seus mercados através do financiamento e dos investimentos diretos é benéfica para elas. Mas, para isso, as guerras entre grandes potências não são necessárias. Bastam as guerras localizadas contra pequenos países renitentes em aceitar a dominação por hegemonia dos países ricos.