quarta-feira, 30 de julho de 2014

O "déjà-vu" IDH

Folha de S. Paulo





Flavio Comim

TENDÊNCIAS/DEBATES

O "déjà-vu" IDH


Impossível livrar-se de uma sensação de "déjà-vu" quando se anuncia que o Brasil subiu apenas uma posição no ranking do IDH
Avanço discreto. Crescimento modesto. Progresso tímido. Ritmo lento. Os adjetivos podem variar, mas retratam a mesma realidade já vista nos anos anteriores, que sugere que o país está preso a uma "armadilha de estagnação" do seu desenvolvimento.
Como sempre, o governo brasileiro reclama dos dados desatualizados usados no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Impossível livrar-se de uma forte sensação de "déjà-vu" quando o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) anuncia --outra vez-- que o Brasil subiu apenas uma posição no ranking do IDH.
Em meio à mesmice, a mídia parece estar mais interessada nas divisões internas do PNUD sobre a eficiência do Bolsa Família do que nas informações trazidas pelo IDH deste ano. O "déjà-vu' IDH" parece nos ajudar pouco ou quase nada a entender os desafios de curto prazo e problemas estruturais brasileiros.
A origem desse "déjà-vu' IDH", que nos conta quase a mesma história anualmente, está no tecnicismo que impregnou o modo de interpretar a variação anual do IDH. O que um cidadão comum faria para saber se o país melhorou ou piorou no IDH? Faria uma comparação simples entre o ranking passado e o ranking atual. Mas isso não é o que o PNUD faz.
Primeiro ele atualiza o IDH do ano anterior. Isso gera um "passado revisado". Depois, compara o novo ranking com esse "passado revisado". O resultado disso é que as variações de ranking ficam escondidas entre o passado e o "passado revisado" obliterando informações importantes. Politicamente, ficam soterradas nessa revisão todas as grandes variações que fizeram do IDH um indicador tão relevante para a política pública. Esse procedimento diminui o risco de dar uma má notícia, mas também esconde as boas, o que é o caso agora.
Retiremos o tecnicismo e veremos que o Brasil subiu esse ano seis posições no ranking do IDH. O governo brasileiro estaria agora celebrando ao invés de lamentando. O Brasil estava na 85º posição no ano passado e está agora na 79º posição.
Por outro lado, se aceitarmos o tecnicismo deixaremos de reconhecer o grande avanço brasileiro na área de educação, principalmente no ganho de um ano na expectativa de vida escolar no Brasil, que chega a 15,2 anos de estudo, dado similar ao de Cingapura ou do Japão, por exemplo.
No ano passado, o Brasil tinha 81,1% da expectativa escolar da Noruega (1º no IDH). Agora, subiu para 86,4%, um aumento anual expressivo. Isso não nega os grandes desafios que o país tem pela frente na melhoria da qualidade e desigualdade da educação. Mas, ao reconhecer esse avanço, mostra como muito mais necessita ser feito na saúde e na economia.
O "déjà-vu' IDH" esconde na cortina de poeira do tecnicismo e da conveniência política --que harmoniza e suaviza as variações anuais no ranking do IDH-- lições importantes de política pública. Primeiro, que o Brasil tem feito muito mais pela sua educação do que pela sua saúde. O país incorpora hoje em sua política pública educacional um forte viés de inclusão, de avaliação e de sinergias com o setor privado que não tem paralelo com a política pública de saúde. Segundo, que enquanto há metas claras para a saúde e educação, não há nada estabelecido para um padrão de vida desejado para os brasileiros (a renda nacional bruta per capita do Brasil é apenas 22,3% da renda da Noruega, por exemplo).
Precisamos reconhecer as flutuações nos rankings nominais do IDH para que possamos identificar com maior clareza metas e desafios para o desenvolvimento humano do país. O "déjà-vu' IDH" mais esconde que revela e, portanto, é a antítese da razão de ser do Índice de Desenvolvimento Humano.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Antissionismo é antissemitismo

Folha de S. Paulo



Claudio Lottenberg

Antissionismo é antissemitismo

Após o Holocausto, o antigo antissemitismo foi substituído pelo antissionismo. A máscara é nova, mas a alma horrenda é velha conhecida
O debate sobre o Oriente Médio parece atualmente querer regredir ao pré-1947, quando a ONU decidiu dividir a Palestina em dois países, um árabe e um judeu. Aqui e ali, volta-se a negar o direito à autodeterminação nacional do povo judeu em sua terra ancestral.
A tentativa de demonização do sionismo é apenas isto: a negação do direito de um povo à autodeterminação. Nenhum outro movimento nacional sofreu ou sofre essa campanha contrária avassaladora.
É moda dizer que o sionismo e Israel são entidades coloniais. Nem como piada serve. Os falsificadores da história precisariam explicar por que a URSS votou na ONU em 1947 a favor de um "empreendimento colonial". Votação em que o maior colonizador da época, o Reino Unido, absteve-se. Aliás, a URSS foi o primeiro país a reconhecer Israel.
Nós mesmos somos cidadãos de um país cuja independência foi apoiada pelo Império Britânico. E daí? E daí nada. É comum que nações em busca da autodeterminação explorem as contradições intercolonialistas e interimperialistas.
A divisão de um país em dois aconteceu também em outra descolonização, na mesma época da partilha da Palestina, na joia da coroa britânica, quando Índia e Paquistão viraram dois países. E o critério para a delimitação também foi étnico-demográfico. Incluindo transferências de populações --que hoje viraram sinônimo de limpeza étnica.
O direito à separação de povos e nacionalidades que não desejam viver juntos foi também assegurado, mais recentemente, no desmembramento da ex-Iugoslávia e na extinção da Tchecoslováquia.
Os argumentos deslegitimadores do sionismo mal disfarçam o preconceito e a discriminação.
Guerras têm vencedores e perdedores. O final da Segunda Guerra Mundial assistiu a dramáticos e trágicos deslocamentos populacionais, consequências de realidades produzidas no campo de batalha.
Um caso bastante conhecido é o palestino. Infelizmente, até hoje os palestinos pagam a dívida que seus líderes de então contraíram, ao aliarem-se à Alemanha nazista. Países árabes também invadiram o nascente Estado judeu logo após sua independência, em 1948.
Outro argumento contra o sionismo é que os judeus não seriam um povo, mas apenas uma religião.
Cada nação deve definir sua identidade. Se judeus definem-se por uma religião (o judaísmo), uma língua (o hebraico) e uma terra (Israel), ninguém tem nada a ver com isso.
Imagine-se o escândalo se Israel mudasse de nome, para "Estado Judeu de Israel". Mas não ouvimos reclamações contra, por exemplo, o "Islâmica" em "República Islâmica do Irã" ou "Árabe" em República Árabe do Egito.
O sionismo foi e é apenas isto: a expressão moderna da autodeterminação nacional judaica. E Israel surgiu na descolonização no pós-guerra, beneficiado pelas alianças corretas na vitória sobre o nazismo. Essa é a verdade histórica.
O único caminho para a paz é o reconhecimento das realidades históricas e a divisão em dois países por critérios demográficos. Dois Estados para dois povos.
O antigo antissemitismo saiu de moda após o mundo ter descoberto o Holocausto. Foi substituído por uma nova forma de discriminação: o antissionismo. A máscara é nova, mas a alma horrenda é velha conhecida. Uma verdadeira aberração.

A lição de Daniel

Folha de S. Paulo

Vladimir Safatle

A lição de Daniel

Daniel Barenboim não é apenas um dos músicos mais completos da atualidade; pianista e maestro com interpretações maiores. Na verdade, Barenboim é um homem de rara coragem e visão, capaz de atitudes políticas de forte significado. Judeu argentino, o músico é atualmente cidadão palestino e israelense e, por atos políticos desta natureza, sua voz deveria ser mais ouvida no momento atual.
Há alguns dias, ele escreveu um impressionante artigo, "Podemos viver juntos", no qual lembrava que nunca haverá solução militar para o conflito Israel-Palestina.
Ações como as que vemos atualmente não levarão a aumento algum da segurança de Israel, nem destruirão o Hamas. Por isto, diz Barenboim: "Não faz sentido que Israel se recuse a negociar com o Hamas ou que se recuse a reconhecer o governo de unidade; não, Israel deve escutar os palestinos que estão dispostos a falar a uma só voz".
Claro que alguns dirão: "Mas como negociar com alguém que não reconhece seu direito de existência?". Se assim fosse, não haveria razão alguma para os palestinos negociarem com um governo israelense comandado pelo Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Em seu programa, o Likud simplesmente não reconhece o direito de existência de um Estado palestino à oeste do rio Jordão. No entanto, os palestinos negociam com representantes de um partido que nega seu direito de existência.
Sim, mas como negociar com "terroristas"? Esta era, vejam vocês, a mesma pergunta feita pela administração colonial britânica na Palestina, referindo-se a grupos judaicos de luta armada atuantes nos anos 40, como Irgun, Stern e Haganá. Tanto foi assim que os britânicos sequer votaram a favor da criação do Estado de Israel.
"Terrorista" foi também a palavra usada por Albert Einstein e Hannah Arendt em carta ao "New York Times" (4/12/1948) para se referir ao futuro primeiro-ministro de Israel, Menachen Begin, líder do futuro Likud. Mas, se há algo que a história das lutas de ocupação (Argélia, Vietnã, Irlanda etc.) nos ensina, é: chega uma hora em que você terá que negociar com os "terroristas". Foi isso que a Inglaterra fez com o IRA (Exército Republicano Irlandês), e será isso que, um dia, Israel terá que fazer com o Hamas.
Não é o caso aqui de justificar o Hamas. Trata-se de um grupo que representa o que há de pior no mundo árabe, com um projeto autoritário, destrutivo e demente de sociedade religiosa. Mas seu destino será, provavelmente, o mesmo de grupos muçulmanos como a Irmandade Muçulmana ou o Nahda tunisiano: serão expulsos do poder pelo próprio povo que eles julgam representar. Mas para tanto, o governo de Israel deveria começar por parar de dar a ocasião perfeita para eles posarem de mártires.

Quando todos têm razão

Folha de S. Paulo



Hélio Schwartsman

SÃO PAULO - O conflito entre israelenses e palestinos não se resolve porque cada parte valoriza muito os aspectos em que tem razão, deixando de reconhecer que o inimigo também apresenta pontos válidos.

Os palestinos têm todos os motivos do mundo para rejeitar a ocupação da Cisjordânia e combatê-la. Israelenses estão cobertos de razão ao afirmar que necessitam de fronteiras seguras e que é complicado ter como vizinho um regime cujo principal objetivo é destruir o Estado hebreu. Acrescente-se a isso pelo menos seis décadas de atritos que custaram as vidas de familiares de ambas as partes e conclui-se que israelenses e palestinos têm justificativas de sobra para odiar-se e querer eliminar uns aos outros. Mas, como não há condições materiais ou políticas de fazê-lo, o mais razoável é que encontrem um modo de conviver.
O conflito sobreviveu à Guerra Fria e a incontáveis iniciativas de paz porque caiu na versão bélica do que os economistas chamam de armadilha do equilíbrio estável. Para as lideranças do Hamas, a guerra contra Israel se tornou a principal senão a única razão de existir. É dela que extraem seu poder e seu status social. Dificilmente darão um passo em direção à paz. Israel, por ser uma democracia, a única da região, deveria ser mais maleável. O problema é que é uma democracia bastante disfuncional, na qual pequenos partidos religiosos vêm há décadas servindo como fiel da balança em coalizões frágeis, o que lhes deu um poder desproporcional, que usam para manter e ampliar os assentamentos judaicos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.
Embora não exista solução mágica para o conflito, um modo de fazer com que as lideranças palestinas moderadas voltem a ser vistas como relevantes e se credenciem como o interlocutor de cuja ausência os israelenses tanto reclamam, seria desmantelar essas colônias. Mesmo que isso não resulte na paz, faria muito bem à política e às finanças de Israel.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Eduardo Giannetti Trabalho alienado

Folha de S. Paulo





Eduardo Giannetti

Fernando Pessoa ganhou a vida como tradutor de cartas comerciais; T. S. Eliot como bancário. John Stuart Mill dava expediente na East India Company, e Charles Peirce, no instituto de geografia americano. Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade foram servidores públicos exemplares.

O que é trabalho? O exemplo desses criadores --entre tantos que poderiam ser lembrados-- é sugestivo. Embora premidos a trabalhar para pagar as contas no fim do mês, eles souberam encontrar no seu trabalho fora do emprego --independente de paga e, em alguns casos, até do apreço dos contemporâneos-- uma razão de viver.
Isso permite distinguir duas concepções discrepantes: o trabalho como ganha-pão, exercido sob a pressão da necessidade, e o trabalho como vocação, ou seja, como uma atividade voluntária, não necessariamente remunerada, por meio da qual se busca dar vazão ao impulso criador e alcançar um sentido de realização pessoal.
O ideal de um mundo liberto do trabalho imposto de fora, como obrigação alheia à livre escolha individual, tem uma longa história. A formulação clássica é devida a Marx.
Na sociedade comunista, afiançava ele na "Crítica ao Programa de Gotha" de 1875, "quando tiver desaparecido a subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do trabalho", o trabalho deixará de ser "apenas um meio de vida para tornar-se, ele próprio, a primeira necessidade vital".
O comunismo, sabemos, não honrou a promessa. Ao contrário, levou a alienação do trabalho a novos píncaros, como no conhecido lamento do funcionário soviético --"nós fingimos que trabalhamos e eles fingem que nos pagam". Nada disso, porém, diminui o problema ou faz dele uma prerrogativa do marxismo.
Como já alertava Mill em 1848: "Trabalhar pelo preço oferecido por outro e para o lucro deste, sem interesse algum pelo trabalho --sendo o preço do trabalho ajustado pela competição hostil, com um lado pedindo o mais possível e o outro pagando o menos que puder-- não é, mesmo quando os salários são elevados, um estado satisfatório para seres humanos que deixaram de julgar-se inferiores àqueles a quem servem".
O espantoso é que, não obstante o furioso aumento da produtividade desde o século 19 --o que poderia, em tese, reduzir a necessidade do trabalho alienado--, estamos hoje ainda mais distantes do ideal projetado pelos economistas clássicos do que quando eles o formularam.
A escalada do consumo atropelou o valor da autonomia na vida prática e engoliu o sonho do trabalho como esfera de autorrealização humana. O ter --e não o fazer-- nos define. Não é à toa que o sentimento do vazio, em meio à toda tecnologia e abundância ocidentais, só faz crescer.


Reações violentas

Folha de S. Paulo



 

Governo brasileiro acerta ao condenar desproporção na ofensiva de Israel à faixa de Gaza, mas peca por silenciar sobre ações do Hamas
Depois do choque, a reflexão. Após dizer-se horrorizado com a notícia de que pelo menos 15 pessoas, entre as quais mulheres e crianças, foram mortas num ataque israelense a uma escola mantida pela ONU e que servia como refúgio para palestinos, o secretário-geral da entidade, Ban Ki-moon, resumiu um imperativo: "Parar a matança --e pará-la agora".
É desolador o desenrolar de mais este conflito entre Israel e palestinos, cujo estopim ocorreu em junho, com o assassinato de três adolescentes judeus que pediam carona nas proximidades da Cisjordânia. Pelo menos 700 palestinos, a maioria deles civis, foram mortos nas últimas semanas.
Nesta quarta-feira, em Genebra, a alta comissária dos direitos humanos da ONU, Navi Pillay, afirmou que Jerusalém não fez o suficiente para proteger as vidas de civis durante suas ofensivas aéreas ou ao destruir casas e hospitais.
Pillay, além disso, não descarta a hipótese de que o Estado tenha cometido crimes de guerra, o que será alvo de investigação já aprovada pela maioria dos países em reunião da ONU sobre o tema.
De forma sensata, a representante das Nações Unidas condenou também o grupo radical islâmico Hamas, que controla a faixa de Gaza, por seus ataques indiscriminados contra o vizinho. Além de 32 integrantes das Forças Armadas de Israel, há registro de três civis mortos no país.
Salta aos olhos a assimetria nesse confronto. Lastreado nessa constatação, o Itamaraty emitiu, também na quarta-feira, uma forte nota diplomática.
"O governo brasileiro considera inaceitável a escalada da violência entre Israel e Palestina. Condenamos energicamente o uso desproporcional da força por Israel na faixa de Gaza, do qual resultou elevado número de vítimas civis, incluindo mulheres e crianças."
Não fosse pela completa omissão aos lançamentos de foguetes promovidos diariamente pelo Hamas, o comunicado seria uma justa expressão do descontentamento da comunidade internacional com o andamento do conflito. Houve, em vez disso, apenas a genérica exortação para que as partes cheguem a um cessar-fogo.
No plano doméstico, o silêncio do governo federal quanto aos radicais palestinos reforçou, em pleno período de campanha eleitoral, a polarização ideológica e quase automática em que setores de esquerda engrossam as fileiras da crítica a Israel, enquanto a direita reprova os métodos do Hamas.
Tal seletividade na vocalização da defesa dos direitos humanos --universais por princípio-- é sem dúvida digna de crítica, tanto doméstica quanto internacional.
Seria um rematado exagero, contudo, extrair desse episódio que o Brasil seja país "politicamente irrelevante" ou "anão diplomático". Essa, porém, foi a reação de representantes israelenses nesta quinta-feira, em um claro sinal de destempero e intransigência --atributos que só prejudicam as necessárias negociações de paz para a região. 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ubaldo e a política

Folha de S. Paulo


Bernardo Mello Franco


SÃO PAULO - Muita gente não sabe, mas o escritor João Ubaldo Ribeiro era também cientista político. Foi professor da Universidade Federal da Bahia e, para azar da academia, deixou a cátedra para se dedicar à literatura. Mesmo assim, manteve-se um afiado observador do poder e de seus ocupantes.
Em 1981, lançou "Política", raro ensaio em uma obra marcada por grandes romances e seleções de crônicas. Com estilo despretensioso, o livro foi concebido como um manual para "trabalhadores, estudantes e o povo em geral", no momento em que o país preparava a volta à democracia. Suas ideias continuam atuais, o que indica que os nossos problemas não mudaram muito.
Ubaldo escreve que a política, em qualquer regime, gira em torno de três questões: quem manda, por que manda, como manda. "O Estado representa o interesse público, embora muitas vezes defenda apenas os interesses das elites, das classes dominantes", pontua. "Não importa o que lhe digam, quem manda é quem está levando vantagem."
Sem abrir mão do ceticismo, o escritor defende a política e mostra a fragilidade do discurso de que ninguém presta, que voltou à moda nas manifestações de junho. Para ele, quem gosta de se dizer "apolítico" é na verdade conservador, porque não vê necessidade de mudanças.
Se achamos que os políticos são "pouco dignos de confiança, corruptos, incompetentes e assim por diante", diz, devemos verificar se nossa opinião não se estende também a outras categorias da sociedade, como médicos, mecânicos e banqueiros. "Parafraseando uma frase bíblica, uma árvore boa não pode dar tantos frutos maus", conclui o autor de "Viva o Povo Brasileiro".
No fim do livro, Ubaldo afirma que o cidadão bem informado é mais capaz de fazer suas próprias escolhas. Não deixa de ser também uma defesa do jornalismo, outro setor que ficou mais pobre com a sua morte, na última sexta-feira. 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Livro conta detalhes do fim da segregação nos EUA

Folha de S. Paulo

Legislação que estabeleceu direitos civis no país completou 50 anos nesta quarta-feira (2)
 
RODOLFO LUCENA DE SÃO PAULO
 
Na madrugada daquele feriadão, talvez ainda de ressaca pela magnífica vitória da quinta-feira anterior, o presidente dos EUA bateu na porta do quarto de hóspedes, onde dormia sua secretária.
Geraldine Whittington era uma jovem negra, atraente e competente, que Lyndon Baines Johnson havia contratado cerca de um mês após assumir a Presidência, como que a dar exemplo na luta contra a segregação racial.
Ao som das clandestinas batidas, ela sequer perguntou o que o chefe queria --talvez só uma inocente conversa. Com a porta fechada, avisou que não se sentia bem: "Estou naqueles dias", gritou, para desestimular qualquer insistência.
Johnson, que na véspera havia assinado o que muitos consideram a mais importante lei norte-americana do século passado, entendeu o recado e bateu em retirada.
É com detalhes assim que o jornalista Todd Purdum, do site "Politico" e da revista "Vanity Fair", por 23 anos repórter do "New York Times", recheia seu minucioso relato da aprovação da Lei dos Direitos Civis. O ato, que completou 50 anos na quarta (2), tornou ilegal nos EUA a discriminação por raça, cor, religião, sexo ou país de origem.
Foi assinado num momento de efervescência das lutas populares no país, que ainda lambia as feridas provocadas pelo assassinato do presidente John Kennedy, em 1963. Kennedy foi o "pai" da lei, que anunciou ao país quando a violência contra os negros chegava ao que parecia ser o ponto máximo.
No sul, o movimento negro fazia campanhas contra a segregação racial; em universidades, tropas federais precisavam garantir o acesso dos primeiros estudantes negros, enquanto grupos racistas, apoiados pelas forças repressivas locais, resistiam.
Em Birmingham, a polícia disparava jatos de água contra manifestações pacíficas de estudantes; cães policiais eram atiçados contra jovens, em cena que provocou indignação. Parlamentares sulistas ficaram ainda mais revoltados com a ideia de tornar ilegal a discriminação.
Mas o projeto não morreu com o assassinato de Kennedy: na sua posse, Johnson prometeu levá-lo adiante. Mais que isso: apesar de ter a maioria do Congresso, queria vê-lo nascer com o voto de democratas e republicanos.
PRAGMATISMO
Em "An Idea Whose Time Has Come: Two Presidents, Two Parties, and the Battle for the Civil Rights Act of 1964" (uma ideia cuja hora chegou: dois presidentes, dois partidos e a batalha pela Lei dos Direitos Civis de 1964, em inglês), Purdum acompanha a trajetória do projeto da gestação até a assinatura, na Casa Branca.
O livro se debruça principalmente sobre o processo parlamentar e, por vezes, chega a deixar o leitor embrulhado nas minúcias da tramitação por comissões do Congresso. Não deixa de revelar, porém, a miríade de acordos, pequenas e grandes traições.
Traz também a voz das ruas. É emocionante o relato da construção da Grande Marcha pelos Direitos Civis em Washington, em agosto de 1963, quando o reverendo Martin Luther King fez seu famoso discurso.
Apesar da empolgação, mostra as negociações e o pragmatismo que, nos bastidores, ajudaram a garantir que tudo transcorresse na mais santa paz.
Onze meses depois, King iria à Casa Branca, ao lado de Robert Kennedy e J. Edgar Hoover, testemunhar a assinatura presidencial. Levaria de lembrança uma das canetas usadas no ato em que a discriminação racial foi banida dos EUA --pelo menos, na letra da lei.

AN IDEA WHOSE TIME HAS COME...
AUTOR Todd S. Purdum
EDITORA Henry Holt and Co.
QUANTO US$ 22 (416 págs.)

quarta-feira, 2 de julho de 2014

50 anos do fim do apartheid americano

Folha de S. Paulo



50 anos do fim do apartheid americano

Cinco décadas após a Lei dos Direitos Civis, negros vivem melhor, mas disparidade social nos EUA ainda é grande
ISABEL FLECK DE NOVA YORK Em maio de 1964, o então presidente dos EUA, Lyndon Johnson, defendeu em discurso uma "Grande Sociedade" em que cada cidadão fosse tratado de forma igual, independentemente de "crença, raça ou cor da pele".
O conceito estaria presente na Lei dos Direitos Civis, assinada por ele em 2 de julho daquele mesmo ano, que estabeleceu o fim da segregação racial em escolas, ambientes de trabalho e lugares públicos em todo o país.
Meio século depois, os EUA têm um presidente negro, e a separação legal de espaços com base na cor da pele é parte de um passado distante.
Os negros viram sua renda familiar média crescer, bem como o percentual de adultos que concluem os ensinos médio e superior no país. O casamento inter-racial, proibido em vários Estados há 50 anos, hoje representa uma de cada seis uniões no país.
No entanto, a disparidade entre brancos e negros segue grande nos planos econômico e social, mostrando que os EUA ainda não atingiram a fase "pós-racial", como muitos defenderam após a eleição de Barack Obama.
A diferença entre a parcela de negros e brancos desempregados, por exemplo, é maior hoje (6 pontos percentuais) do que há 50 anos (4,4). O quadro foi agravado pela crise, depois da qual os negros também têm tido mais dificuldade em recuperar postos, segundo números do Departamento de Trabalho.
A renda média de uma família afro-americana ainda representa menos de dois terços da de uma família branca não hispânica. O valor do acúmulo de bens destas últimas, que há 30 anos era quase quatro vezes maior que o de famílias negras, em 2010 representava seis vezes mais.
A diferença entre brancos e negros acima de 25 anos que concluíram o ensino superior nos EUA subiu de 6 pontos percentuais para 13, e a população carcerária continua majoritariamente negra.
"A raça ainda é fator determinante nos EUA hoje, e isso é refletido nos indicadores econômicos. A combinação entre pobreza e isolamento racial é o que torna as expectativas de mobilidade econômica e social tão desanimadoras", avalia Gavin Wright, da Universidade Stanford.
Para Peter Myers, da Universidade do Wisconsin, as causas das disparidades nos campos econômico e social são variadas. "No caso do acúmulo de bens, por exemplo, os esforços sistemáticos ao longo da história para evitar que afro-americanos adquirissem riquezas certamente têm um impacto até hoje."
SEPARAÇÃO POR BAIRRO
Mesmo longe de lembrar a segregação racial imposta em partes do sul do país até a década de 60, grandes cidades americanas têm ainda hoje forte separação, por bairros, entre brancos e negros ""forçada por uma conjunção de fatores econômicos e sociais.
Estudo da Brown University com base em dados do Censo de 2010 mostra que Nova York, Chicago e Miami estão entre as dez cidades mais "segregadas" entre brancos, negros e latinos dos EUA.
Em Nova York, enquanto a parte de Manhattan ao sul do Harlem é basicamente branca, Harlem, Queens e Bronx são majoritariamente negros ou têm forte presença latina.
Em partes do Brooklyn, a "gentrificação" --especulação imobiliária que eleva preços e expulsa parte da população local-- afastou uma grande parcela negra de bairros próximos a Manhattan.
A separação se reflete também nas escolas, com o Estado de Nova York também apresentando as salas de aula mais "segregadas" do país, conforme levantamento da Universidade da Califórnia.
Só 8% das escolas do Estado podem ser consideradas multirraciais, diz o estudo. Das 32 escolas municipais da cidade de Nova York, 19 tinham, no máximo, 10% de estudantes brancos em 2010.
Para Gary Orfield, coordenador do estudo, o fenômeno é explicado por "segregação residencial intensa tanto para negros quanto para latinos e escolas públicas operadas por uma gestão privada, que intensificam a desigualdade". 

Muito além do vizinho

Folha de S. Paulo


Alexandre Schwartsman

Decisão da Justiça dos EUA mostra que é preciso achar outras formas de lidar com reestruturação de dívidas

Pode parecer estranho aos olhos de alguns, mas tanto o governo dos Estados Unidos quanto o FMI não ficaram particularmente satisfeitos com a decisão tomada pelas cortes americanas no que diz respeito à dívida argentina. Sem querer entrar no seu mérito jurídico (mesmo porque me falta qualificação para isto), acredito ser importante explicar o motivo do descontentamento daqueles que são tidos como defensores do imperialismo e, por extensão, dos direitos dos credores.
Tratemos de esquecer que o problema diz respeito à Argentina, ou a qualquer país pelo qual possamos nutrir simpatia ou antipatia referente à sua política econômica, e tentemos pensar em termos genéricos.
Quando uma empresa não consegue mais pagar seus credores, vai à falência: deixa de existir, seus ativos são liquidados e o resultado distribuído entre os credores, em geral seguindo alguma ordem de preferência estabelecida na legislação local.
Um país soberano, por outro lado, não costuma sumir nem pode ter seus ativos liquidados para pagamento de suas dívidas, por exemplo, entregando um pedaço de seu território, ou mesmo o direito às suas riquezas naturais.
Países não vão à falência; chegam, no máximo, mais próximos ao que seria uma concordata, isto é, negociam com seus credores o quanto será possível pagar da dívida original e, a partir daí, recomeçam a vida, normalmente em condições piores de acesso a crédito.
Ocorre que, ao contrário do caso de uma empresa concordatária, não há uma corte que garanta igualdade de tratamento a credores no caso de países soberanos. Alguns podem aceitar os termos propostos pelo devedor, mas outros, insatisfeitos, podem optar por se manter à margem do processo, problema que agora atormenta a Argentina, mas que já nos afligiu em outros momentos da nossa história.
Da mesma forma, quando uma empresa pede concordata, a corte pode determinar aos credores que não a executem, isto é, mantenham linhas de crédito (mantida, é claro, a condição que novos créditos não sejam sujeitos à renegociação); no caso soberano isto não é factível e cada um trata de sair tão rápido quando pode, o que costuma agravar a intensidade das crises.
Para lidar com estes problemas foi proposta, há pouco mais de dez anos, a criação do equivalente a uma corte internacional de falências (SDRM --Mecanismo de Reestruturação de Dívidas Soberanas na sigla em inglês), mas a ideia não vingou.
A alternativa adotada foi a inclusão de Cláusulas de Ação Coletiva nas novas dívidas. Estas permitem que credores que representem uma maioria qualificada (por exemplo, 75% do valor da dívida) possam alterar alguns termos do contrato, obrigando os demais a segui-los. Isto não resolve todos os problemas acima, mas atenua o incentivo a se tornar um credor recalcitrante.
A decisão das cortes americanas atua no sentido oposto. Mérito jurídico à parte, essa jurisprudência cria incentivos para que credores se recusem a participar da renegociação, pois passam a contemplar a possibilidade de receberem a totalidade da dívida, em vez de uma fração dela.
Em particular, no caso de um título com emissão modesta, podem, inclusive, comprar (com desconto expressivo) uma parcela suficientemente alta dele para impedirem a formação da maioria qualificada e assim bloquearem alterações nos termos do contrato.
Isso aumenta o risco da repetição do problema agora observado e torna o mercado internacional de capitais mais instável.
É esta a raiz do descontentamento dos EUA e do FMI. A nova jurisprudência pode tornar muito mais difícil o processo de renegociação de dívida, agravando a instabilidade financeira.
Não nutro qualquer simpatia pela política econômica argentina, mas é fundamental perceber que a decisão das cortes traz implicações que vão muito além do vizinho. Tornou-se ainda mais urgente achar formas de lidar com reestruturação de dívidas soberanas.

aschwartsman@gmail.com
@alexschwartsman

terça-feira, 1 de julho de 2014

Mídia tardou a perceber dimensão do conflit

Folha de S. Paulo



Análise 100 anos da 1ª guerra

Jornais demoraram a notar que assassinato do herdeiro do trono austríaco, há 100 anos, era início de epopeia humana

LEÃO SERVA COLUNISTA DA FOLHA

Não foi fácil para o jornalismo perceber na morte do herdeiro do trono austríaco, Francisco Ferdinando, o início de uma grande epopeia da história humana. O assassinato, estopim da Primeira Guerra Mundial, completou cem anos no sábado (28).
Embora os jornais do dia seguinte destacassem a notícia, ela foi tratada como o fato restrito que teria sido se a diplomacia não tivesse amplificado o embate a ponto de torná-lo uma guerra mundial.
No dia 29/6, "O Estado de S.Paulo" deu a notícia com título de apelo local, "O attentado de Serajevo", pouco acima da metade de sua capa; o "Diário de Notícias" (Lisboa) atribuiu cunho étnico, com o sobretítulo "O Ódio de Raças"; o "Figaro" (Paris) fez um título informativo: "Arquiduque herdeiro da Áustria e sua mulher assassinados na Bósnia". Os três dedicaram um terço de suas páginas.
O "New York Times" deu mais destaque: meia página. A manchete incluiu a informação de que "jovem bósnio vinga a ocupação de seu país". O relato dos acontecimentos do dia anterior destaca a decisão equivocada que levou o nobre austríaco, apesar de alertado, a seguir para a morte por tiros depois de escapar de um primeiro atentado, a bomba. Nenhum dos quatro jornais previu a guerra, menos ainda mundial.
Os disparos do bósnio-sérvio Gavrilo Princip poderiam ter dado início apenas a um conflito regional, talvez virasse uma Terceira Guerra dos Bálcãs (após as de 1912 e 13). Mas as negociações que se seguiram, na chamada "Crise de Julho", atraíram para o embate as demais potências europeias, globalizando o conflito. É o tema do livro "Os Sonâmbulos" (Cia. das Letras), de Christopher Clark.
Pelos jornais, a Primeira Guerra levou cerca de um mês para nascer, enquanto a Segunda teve parto mais rápido: com a invasão da Polônia, em 1º/9/1939.
O "Estadão" deu manchete precisa: "Começou a guerra na Europa", enquanto o "Diário de Notícias" perguntava: "Malograram-se as tentativas para salvar a paz?". O "NYT" publicou todas as notícias, mas não explicitou em título o conflito continental.
Embora seja a "testemunha ocular da história", frequentemente o jornalismo tem dificuldade de lidar com as raízes que podem elucidar os fatos. Sua matéria prima é a notícia e o prato quente que oferece é o texto surpreendente, que pareceria requentado se fosse previsto antes.
Ao avaliar a cobertura que fez da Guerra do Vietnã (nos anos 1960), o repórter americano David Halberstam disse: "O problema é tentar cobrir uma coisa todos os dias como novidade, quando é tudo uma consequência da Guerra Franco-Indochinesa, que já é parte da história" ("A Primeira Vítima", de Philip Knightley, 1978).
Há exceções. Em plena Primeira Guerra, o escritor John Reed publicou um relato de viagem pela Europa do Leste conflagrada. No livro, diz: "A questão macedônica [dos Bálcãs] tem sido a causa de todas as grandes guerras europeias nos últimos 50 anos. Até que seja resolvida, não haverá paz, nos Bálcãs ou fora deles". ("War in Eastern Europe", 1916).
A frase é uma das citações mais populares da bibliografia sobre conflitos nessa região. Em 30 palavras, o jornalista que ficaria famoso com "Os Dez Dias que Abalaram o Mundo" (sobre a tomada do poder na Rússia pelos bolcheviques, em 1917) resume o passado e prevê o futuro.
A raiz dos conflitos: "A Macedônia é a mais terrível confusão étnica jamais imaginada. Turcos, albaneses, sérvios, romenos, gregos e búlgaros vivem lado a lado sem se misturarem".
O que aconteceu: as causas de tensão não foram resolvidas, por isso, nas décadas seguintes, houve vários conflitos na região.
Se ampliamos o foco um pouco mais para o leste vemos confusões análogas de país em país. Reed ajuda a interpretar as crises entre Rússia e vizinhos e prever outras.
O desconforto do jornalismo com a história motivou decisão radical do dissidente iugoslavo Milovan Djilas (1911-95), que foi dirigente comunista, até cair em desgraça e passar anos preso.
O escritor Robert D. Kaplan conta: "Eu percebi que Djilas acertava sempre, era capaz de prever o futuro. Seu método era simples para um europeu do leste e difícil para um americano: ele ignorava o noticiário e pensava apenas historicamente. O presente para ele era apenas um momento do passado se movendo rápido para o futuro" (em "Balkan Ghosts", 1993).
Djilas então deve ter previsto uma Europa do Leste fragmentada em inúmeros pequenos países e cheia de disputas nacionalistas. Como há cem anos.