terça-feira, 27 de maio de 2014

Terremoto

Folha de S. Paulo
Vladimir Safatle

Um terremoto nem sempre é percebido quando ocorre. Não porque ele seja fraco, mas porque é próprio da natureza de certos homens e mulheres querer acreditar que as dificuldades de hoje apenas repetem as dificuldades de ontem e que, sendo assim, não devemos nos preocupar mais hoje do que ontem. A força de um terremoto, no entanto, ocorre mesmo a despeito do desejo de negá-la.
Dessa maneira, há de se dizer: um terremoto ocorreu na Europa no último domingo (25). Nunca em sua história uma eleição para o Parlamento Europeu foi tão dominada por partidos de extrema direita. Antes, ela ganhara eleições em países menores, como na Dinamarca e nos Países Baixos, e participara de governos, como na Itália e na Áustria. Mas a extrema direita nunca fora vitoriosa de maneira tão clara em países absolutamente centrais, como agora o foi no Reino Unido e na França.
Agora, partidos racistas e xenófobos, com programas claramente protofascistas, influenciarão como nunca a política europeia. Não devemos imaginar que a eleição do último domingo foi um ponto fora da curva. Na verdade, ela foi apenas o começo.
As marchas contra o casamento homossexual, a islamofobia medieval, o recrudescimento da "identidade nacional": todos esses fenômenos são sintomas de uma bem-sucedida estratégia de mobilização do medo como afeto central da política que veio para ficar. Medo do fim das "nossas tradições e formas de vida", medo da insegurança, medo da pauperização.
A raiva contra as decisões impessoais dos tecnocratas opacos de Bruxelas se transformou em ódio contra o vizinho imigrante com suas pequenas diferenças. O continente europeu parece, mais uma vez, incapaz de sair de suas crises sem que sua impotência em construir alternativas econômicas se transforme em pânico paranoico contra populações que vivem em seu território.
Depois dessa eleição na Europa, discursos preconceituosos --até então feitos entredentes-- circularão sem receios, ações que muitos temiam fazer a céu aberto serão cada vez mais banais, violências contra populações mais vulneráveis serão vistas como ações de autodefesa.
Muitos são os responsáveis por tal catástrofe, mas mesmo quando governos ditos de esquerda se esmeram em agir com a lógica securitária da extrema direita, chega um momento em que as pessoas irão preferir escolher o original.
A ausência de coragem da social-democracia europeia em quebrar de vez com a política de brutalidade identitária herdada de seus antecessores será certamente um das maiores dívidas que a história cobrará de seus líderes enfraquecidos e sem rumo.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Putin olha para o leste

Folha de S. Paulo



Kenneth Maxwell

Vladimir Putin está olhando para o leste. Em uma visita de dois dias à China para uma reunião com o presidente Xi Jinping, Putin transformou a assinatura de um contrato de fornecimento de gás natural à China em peça central de sua estratégia. As negociações entre a estatal chinesa National Petroleum Corp e a estatal russa de gás natural Gazprom foram encerradas nesta quarta-feira (21). Estima-se que o acordo seja de mais de US$ 400 bilhões. A China é "um amigo confiável", disse Putin.
Desde que a Rússia anexou a Crimeia, Putin está ansioso para demonstrar que não está isolado. A China é uma resposta óbvia. Putin deve assinar com o presidente chinês outros 30 acordos como o da Gazprom, incluindo três novos projetos de investimento conjunto entre o Fundo de Investimento Direto Russo e a China Investment Corporation, envolvendo energia, transporte e infraestrutura. Os chineses são os maiores parceiros comerciais dos russos, com comércio bilateral de US$ 90 bilhões ao ano, um montante que deve chegar a US$ 200 bilhões anuais no final da década.
Enquanto Putin olha para o leste, Obama olha para o oeste. O presidente americano acabou de concluir uma visita de sete dias ao Japão, Coreia do Sul e Malásia, além de fazer sua primeira visita oficial às Filipinas, onde assinou um tratado de defesa de dez anos que dá aos EUA acesso às bases militares filipinas que os americanos perderam ao fechar a base aérea Clark e a base da baía de Subic, nos anos 90. Tudo isso tem por objetivo firmar as alianças asiáticas dos EUA diante das ambições territoriais chinesas na região.
Os Estados Unidos saíram ao ataque contra a China nesta semana. O Departamento de Justiça apresentou queixas-crime contra cinco oficiais das Forças Armadas da China, alegando que eles hackearam os sistemas de cinco empresas norte-americanas. Foi a primeira vez que Washington acusou um governo estrangeiro desse tipo de delito.
O quadro é mais complicado, claro. Obama não obteve seu principal objetivo nas visitas a Tóquio, Seul, Kuala Lumpur e Manilha, que era a aprovação dos parceiros asiáticos a um acordo de livre comércio no Pacífico. Do lado de Putin, embora o petróleo e o gás natural respondam por mais de 50% da receita do governo russo, os consumidores da Europa e, especialmente, da Alemanha, precisam do petróleo e gás natural russos tanto quanto a Rússia precisa do dinheiro dessas vendas. Os benefícios para os russos de qualquer acordo com a China são para o futuro.
A Crimeia e a Ucrânia podem não ter levado ainda a uma nova guerra fria. Mas no leste como no oeste a sensação é a de que ela está por surgir.

Colômbia imprevisível


Há quatro anos, Juan Manuel Santos se tornou o presidente mais bem votado da história da Colômbia, apoiado por 69% dos eleitores no segundo turno. Hoje candidato à reeleição, enfrenta disputa acirrada e imprevisível.
As duas circunstâncias --sua caminhada tranquila e suas dificuldades presentes-- estão relacionadas à atuação de Álvaro Uribe. Se o popular ex-presidente (2002-2010) apadrinhou Santos e o conduziu ao poder, ele agora faz de tudo para derrotar o ex-aliado.
Legalmente impedido de concorrer à Presidência por já ter exercido dois mandatos, Uribe é o principal cabo eleitoral de Óscar Iván Zuluaga, seu ex-ministro da Fazenda e fiel seguidor. O candidato oposicionista disputará o primeiro turno neste domingo (25) em situação de empate técnico com Santos.
O debate se concentra sobretudo na divergência a respeito das negociações de paz com a guerrilha das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) --o conflito armado dura quase meio século.
Grande parte da popularidade de Uribe decorre de seu rigor nesse tema. Atualmente acuadas, as Farc controlavam, no início dos anos 2000, porção expressiva do território colombiano e, com o financiamento do narcotráfico, tinham poder operacional para realizar sequestros, assassinatos e atentados terroristas.
De 2006 a 2009, coube ao hoje presidente Santos, então à frente do Ministério da Defesa, papel de destaque na implementação da política linha-dura.
No início de seu mandato, Santos deu sinais de que abandonaria tal orientação quando buscou melhorar as relações com Hugo Chávez (morto em 2013). Para Álvaro Uribe, o venezuelano era um ditador aliado das Farc.
Pouco depois, criador e criatura romperam. Santos iniciou negociações de paz com a guerrilha; Uribe viu na iniciativa uma ameaça às conquistas de seu governo, obtidas "manu militari".
Em entrevista a esta Folha, Santos defendeu o processo que começou. Seu adversário, Zuluaga, declarou, também a este jornal, que suspenderá as tratativas em andamento desde novembro de 2012.

O provável segundo turno, no dia 15 de junho, dará ocasião para que esclareçam pontos obscuros de seus programas e ampliem os temas em debate. A Colômbia, afinal, não é refém das Farc.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Acusado pela morte de Paiva nega ter colaborado no crime

Folha de S. Paulo



Ditadura

DO RIO - Um dos militares denunciados pelo homicídio do ex-deputado Rubens Paiva, o coronel do Exército Rubens Paim Sampaio negou, em depoimento ao Ministério Público Federal, que estivesse nas instalações do DOI-Codi do Rio quando Paiva foi torturado.
Em declaração que faz parte da denúncia, o coronel Ronald Leão, morto em novembro de 2013, diz ter sido impedido pelo coronel Paim Sampaio de entrar na sala onde o ex-deputado era torturado. Para a Procuradoria, Paim Sampaio teve "participação comissiva" na morte, impedindo a entrada de alguém que poderia intervir. Ele nega e diz que soube da morte de Paiva por um telefonema "de uma pessoa do DOI cujo nome não se recorda".

Tragédia

Antonio Delfim Netto

Os excelentes economistas Carlos Antônio Rocca e Lauro dos Santos Junior, do Centro de Estudos do Mercado de Capitais do Ibmec (Cemec), acabam de divulgar um trabalho fundamental para o entendimento do que está acontecendo no cerne da economia brasileira, "Investimentos das Companhias Abertas e seu Financiamento no Período 2005 a 2013". A tradição dos estudos dos ilustres professores é de ir à economia quantitativa realmente séria. Vão à "salsicha" para ver como ela é feita. Não se perdem nas receitas de como elas deveriam ser feitas, que tanto encantam os neoliberais e heterodoxos que infestam o cenário econômico nacional.
As contas nacionais dos últimos anos revelam uma taxa de investimento em níveis próximos de 20% do PIB no período 2010-2011, reduzida para 18% em 2013 (menos 2%). A taxa de poupança doméstica caiu ainda mais no mesmo período: de 17% para 14% (menos 3%), o menor nível desde 2002. Isso sugere que o aumento do consumo doméstico foi financiado pela poupança externa: o deficit em conta corrente aumentou de 2,5% do PIB em 2011 para 3,6% em 2013.
Em trabalho anterior os mesmos economistas mostraram que a maior parte da queda da poupança interna não resultava da redução da poupança das famílias, mas, essencialmente, da queda da poupança das empresas evidenciada na redução do importante fluxo dos lucros retidos, fundamental para financiar os investimentos. O novo trabalho tenta quantificar em que medida as companhias abertas, não financeiras, contribuíram para aqueles resultados, a partir de uma análise dos dados obtidos com a consolidação de balanços das empresas que compõem a base de dados da consultoria Economática.
Estudos como esse são sempre sujeitos a "armadilhas" metodológicas que os autores identificam e procuram evitar. A conclusão mais importante é que "as empresas abertas não financeiras reduziram sua poupança e investimento de forma ainda mais acentuada que o conjunto das empresas não abertas". E que, "em geral, optaram em reduzir os investimentos, manter a distribuição de dividendos, reduzir a participação de recursos próprios e aumentar suas dívidas para financiar os menores investimentos", o que terá graves consequências sobre o crescimento futuro. O gráfico abaixo resume a tragédia.

terça-feira, 20 de maio de 2014

O medo do novo

Vladimir Safatle

O filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995) costumava dizer que algo novo nunca aparece de uma vez. Pois, quando se nasce, sempre se nasce frágil e titubeante, acostumando-se aos poucos com a situação na qual o recém- -nascido se encontra pela primeira vez.
Por isso, o que é novo, para poder sobreviver, precisa revestir-se por um tempo com a capa do já visto. Assim, as forças que no fundo tudo fazem para deixar as estruturas intocadas não irão destruir o que acabou de nascer. Elas nem sequer perceberão sua singularidade, até que seja tarde demais para reagir.
Essa descrição de Deleuze era, na verdade, uma espécie de conselho que talvez seja a nossa versão contemporânea para as virtudes da prudência. O tipo do conselho de que sempre nos esquecemos quando agimos.
Na maioria das vezes, nossos desejos são maiores do que a nossa capacidade de preparar as nossas ações. Por isso, talvez, tantos projetos de transformação acabem abortados, muitas vezes por interesses de conservação do que já perdeu seu tempo, mas que faz de tudo para esconder dos outros que já está morto.
Acho que tal perspectiva vale, principalmente, para o que se passa agora no campo da política. Estamos em um momento que está apenas começando e exigirá toda nossa criatividade e paciência para a construção de novas experiências políticas.
Alguns gostariam de confiar na espontaneidade da revolta, mas como mostram os desdobramentos da Primavera Árabe no Egito, o entusiasmo por si só não garante a realidade de nossos sonhos.
Outros entendem que a potência do novo sempre traz no seu bojo novas formas de organização, mas permitir que tais novas formas não sejam destruídas em seu nascedouro nem sempre é fácil.
No que diz respeito ao campo das esquerdas, há de se dizer que ainda conseguiremos criar uma esquerda não dirigista, que não seja refém de interesses eleitorais comezinhos travestidos de necessidade histórica, que pare de usar o discurso do medo para esconder sua falta de capacidade de produzir futuros.
Uma esquerda que demonstre à sociedade não os seus conflitos internos ou as suas depressões seguras, mas, sim, sua força criativa. Uma esquerda que entenda como é impossível defender a transformação da experiência democrática na sociedade enquanto continua a ter as piores práticas no interior de certos aparelhos partidários. Pois ninguém confiará em alguém incapaz de fazer na própria casa aquilo que se propõe a fazer na casa dos outros.
Há uma juventude combativa e dinâmica que sabe disso e que aprendeu a não se contentar com pouco.


O guarda da Porta Marina

Carlos Heitor Cony

RIO DE JANEIRO - Em 24 de agosto de 79 (a.C.), o soldado montava guarda na Porta Marina. As cidades eram muradas e a Porta Marina era a principal porque ficava voltada para o mar. Quando o Vesúvio entrou em erupção, o soldado que estava de plantão viu aquela massa de cinza e fogo avançando sobre a cidade, sobre a porta da qual tomava conta.
Era um rapaz. Acho que o corpo dele carbonizado, feito em pedra, está no Museu Nacional de Nápoles. Como todos os soldados que montavam guarda naquele dia, ele recebera instruções de como agir no caso de aparecer um forasteiro, uma pessoa estranha à cidade, mais ou menos na base do "quem vem lá", pedindo senha ou contrassenha. Como no filme de Orson Welles, equivalia ao "non trespassing", que guarda a casa do cidadão Kane, o SPQR ( Senatus Populusque Romanus).
O soldado não fora preparado para aquilo, enfrentar a massa de fogo e pedra que avançava contra ele, contra a sua porta, contra a sua cidade. O que fazer? Fugir? Para onde? Trair o dever de guardar sua cidadela? Lutar contra aquilo que não sabia o que era?
A intuição e o treino militar fizeram com que cumprisse sua obrigação. Tomou a posição de sentido, protegeu-se com o escudo que os romanos usavam, com as quatro letras que assustavam o mundo. Empunhou a lança para combater o estranho que ameaçava invadir a cidade.
Próxima a Roma, cabeça do mundo, Pompéia era o paraíso de lazer do patriciado romano que apreciava suas termas, seus caldários e frigidários, sua proximidade com o mar, rota obrigatória para Capri e Ischia.

Tudo foi tão rápido que ficou eternizado em pedra, na mesma posição, com o mesmo escudo protegendo o peito, a mesma lança para impedir que o estranho invadisse a cidade. Era uma resistência inútil mas necessária.

O candomblé e o tinhoso

Hélio Schwartsman


SÃO PAULO - Numa decisão para lá de polêmica, o juiz federal Eugênio Rosa de Araújo, da 17ª Vara Federal do Rio, indeferiu pedido do Ministério Público para que fossem retirados da rede vídeos tidos como ofensivos à umbanda e ao candomblé. No despacho, o magistrado afirmou que esses sistemas de crenças "não contêm os traços necessários de uma religião" por não terem um texto base, uma estrutura hierárquica nem "um Deus a ser venerado".
Para mim, esse é um belo caso de conclusão certa pelas razões erradas. Creio que o juiz agiu bem ao não censurar os filmes, mas meteu os pés pelas mãos ao justificar a decisão.
Ao contrário do Ministério Público, não penso que religiões devam ser imunes à crítica. Se algum evangélico julga que o candomblé está associado ao diabo, deve ter a liberdade de dizê-lo. Religiões, como qualquer outra instituição ou pessoa, poderiam reclamar proteção contra inverdades factuais. O problema aqui é que a teologia trafega num reino da fantasia sem muito conteúdo empírico, o que torna difícil decidir o que corresponde ou não a fatos. Como não podemos nem sequer estabelecer se Deus e o demônio existem, o mais lógico é que prevaleça a liberdade de dizer qualquer coisa.
Não consigo, porém, nem imaginar tentativa mais canhestra do que a do magistrado de determinar o que é uma religião. Ela exclui a maior parte dos fenômenos religiosos, já que a esmagadora maioria dos sistemas de crenças documentados pelos antropólogos não conta com texto sagrado nem estrutura hierárquica. Em muitos deles, é preciso fazer força para enxergar a noção de um deus.
Não sei até se o juiz não viola a lei ao deixar de reconhecer a umbanda e o candomblé como religiões. O § 1º do art. 44 do Código Civil, afinal, reza: "São livres a criação, a organização, a estruturação interna e o funcionamento das organizações religiosas, sendo vedado ao poder público negar-lhes reconhecimento (...)".