quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

País quer fugir do pior do comunismo, diz filósofo britânico

Para Roger Scruton, aproximação com UE é boa para Ucrânia, mas ruim para o bloco
Britânico Roger Scruton comenta a intervenção russa na Ucrânia, o inchaço da UE e a crise de valores na Europa

GUILHERME CELESTINO DE SÃO PAULO

O filosofo britânico Roger Scruton, 69, é formado em Cambridge, especialista em estética e professor visitante nas universidades de St. Andrews e Oxford. Mas foi no debate político e cultural que surgiu como crítico do multiculturalismo, do comunismo e da União Europeia (UE).
Scruton lecionou em 1990 no Jan Hus Educational Foundation na antiga Tchecoslováquia, instituição criada por professores de Oxford em 1980, que distribuía livros, organizava palestras de pensadores ocidentais e era conhecida pela polícia política tcheca como "Centro de Subversão Ideológica".
Em entrevista à Folha, ele fala sobre a crise na Ucrânia, o surgimento de novos atores políticos na Europa e a comparação entre o Tea Party e a extrema-direita europeia.
Folha - Como o senhor vê os protestos recentes em Kiev?
Roger Scruton - Os protestos são contra a dominação russa e as formas ilegais de governo pós-comunista que perpetuam alguns dos piores aspectos do comunismo. O desejo de aderir à UE é o de ser parte do sistema ocidental de Estados e também o desejo de escapar à última das correntes impostas em 1917 [ano da Revolução Russa].
O que acha de os manifestantes desejarem uma maior aproximação com a UE e o afastamento da Rússia?
É bom para a Ucrânia se aproximar da UE, e ruim para a UE, que já está sobrecarregada de países ex-comunistas e suas populações em fuga. O que é preciso é que a Ucrânia seja nacionalmente independente e possa negociar livremente com seus vizinhos, mas que não seja parte da UE. O bloco europeu vai em breve desmoronar sob a pressão de muitos membros e muita liberdade de trânsito entre eles.
Em artigo recente, a revista britânica "Economist" comparou os partidos europeus de extrema direita e anti-UE ao movimento Tea Party nos EUA. O senhor concorda com tal comparação?
É claro que não. Ninguém sabe o que é ser de "extrema direita". Tem nacionalistas na Europa que querem reafirmar a identidade nacional em oposição à UE. Eles são como o Tea Party na procura por uma ordem anterior frente àquilo que veem como perda de identidade e direção. Mas, diferentemente do Tea Party, o interesse deles não é o Estado de direito, mas sim a identidade nacional.
Na França, 10 mil pessoas se reuniram na semana passada contra a flexibilização da lei do aborto e em apoio a novo projeto de lei na Espanha que restringe o aborto. Como explicar esses atos?
A Espanha é um estado em crise cultural, após ter rejeitado sua herança católica, e sem nenhuma ideia do que pôr em seu lugar. Já a manifestação na França é uma resposta ao governo de esquerda que introduziu o casamento gay e a afirmação de que a família é mais importante do que a sociedade sem raízes, exemplificada em todos os sentidos pelo presidente [François] Hollande.

O senhor diz que a liberdade depende de uma rede delicada de instituições. Isso é possível em países de experiência democrática recente, como Rússia e Ucrânia?
As coisas precisam ser construídas de modo gradual, e pessoas boas devem estar preparadas para fazer sacrifícios a fim de criar instituições que durem. O importante é não ter muitas expectativas, e permitir o máximo de espaço à sociedade civil.

Ucrânia dividida



É preocupante a análise de Leonid Kravchuk, primeiro presidente da Ucrânia após a independência da União Soviética, em 1991. De acordo com ele, o acirramento dos conflitos nas últimas semanas deixou seu país na iminência de uma guerra civil.
Tendo por estopim a rejeição presidencial a um acordo de livre-comércio com a União Europeia, os protestos que se repetem na Ucrânia desde novembro se intensificaram neste ano após a tentativa do governo de cercear as liberdades de expressão e reunião. Diversas leis foram baixadas com esse intuito, mas seus efeitos tiveram o sentido contrário do pretendido.
Nesta semana, premido pelas ruas, o governo do presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, anunciou uma série de concessões. Entre elas, a revogação da maioria das leis antiprotesto recém-aprovadas --inclusive a que estabelecia prisão de até 15 anos a quem participasse de atos públicos-- e a destituição do primeiro-ministro.
Os centenas de milhares de manifestantes, contudo, almejam mais do que Yanukovich mostra-se disposto a oferecer. Querem a retomada das negociações de um acordo de associação comercial com a União Europeia, anistia incondicional a quem foi preso durante os protestos e a renúncia do próprio presidente, com a consequente antecipação das eleições.
Persiste, portanto, um perigoso impasse na vida política ucraniana. Verifica-se, desde a semana passada, uma escalada de confrontos com as forças policiais; já se registraram pelo menos três mortes, além de centenas de feridos.
São choques que evidenciam as tensões, já latentes há algum tempo, entre segmentos da sociedade que desejam maior aproximação com a Europa e setores que prezam os laços tradicionais com a Rússia.
Questões econômicas de um Estado endividado e em recessão tornam ainda mais difícil a resolução desse conflito de forças. Refém da importação de gás natural e petróleo da Rússia, a Ucrânia fica exposta a pressões exercidas por Moscou. Aproximar-se da União Europeia não é uma decisão isenta de custos, dadas as ameaças feitas pelo governo de Vladimir Putin.
Dificilmente haverá melhor saída para essa crise do que uma solução negociada com a participação de Rússia e União Europeia.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

TIM

Antonio Delfim Netto

Se tomarmos o septênio 2007-13, em que se iniciou a grande recessão mundial, as performances das economias brasileira e mexicana diferem, mas não se pode afirmar qual é a melhor: 1) crescimento anual do PIB: Brasil 3,5% e México 2,0%; 2) inflação anual: Brasil 5,3% e México 4,3% e 3) deficit em conta-corrente: Brasil 2% e México 1%.
A situação é mais perturbadora quando olhamos as "expectativas" dos agentes econômicos no curto prazo (2014-15). Esperam um aumento médio do PIB no Brasil de 2% ao ano (estável) e de 3,6% no México (crescendo) e uma taxa de inflação média no Brasil de 5,5% e de pouco mais de 3,5% no México. Mais do que isso: a agência de rating Standard & Poor's promoveu o México em dezembro e agora sugere que poderá rebaixar o Brasil.
De onde vem tanta incerteza e pessimismo? Talvez do lado político. O México elegeu em julho de 2012 o presidente Enrique Peña Nieto, que deixou claro a que veio. Elegeremos nosso presidente em outubro de 2014. Hoje o mais provável vencedor é Dilma Rousseff. O problema é que o governo enfrenta sérias desconfianças do setor empresarial, que não se sente confortável com o excessivo ativismo gerencial manifestado até aqui. Ninguém sabe se um segundo mandato será uma aposta dobrada no que não funcionou satisfatoriamente, ou se haverá uma correção de rumo.
No México, depois de 70 anos da chamada "ditadura perfeita" do Partido Revolucionário Institucional (PRI), dez anos de democracia foram insuficientes para corrigir seus erros. O PRI voltou ao poder em 2012 pelas mãos de Peña Nieto. No dia da posse ele assinou, junto com seus principais adversários, o "Pacto do México", para aprovar no Congresso uma revolução econômica e social nas telecomunicações, na educação, energia e finanças, cuja essência é dar maior liberdade à iniciativa privada, insistir na necessidade de competição e reduzir o poder dos oligopólios construídos legalmente ao longo dos intermináveis 70 anos.
O programa tem sido muito bem-sucedido: o Congresso quebrou a castanha do retrógrado sindicato dos professores, ampliou a concorrência nas telecomunicações e estabeleceu a competição no setor de energia.

Há uma lição na experiência mexicana que deveríamos introjetar: todo oligopólio legalmente protegido, como é o nosso setor de comunicações, torna-se preguiçoso no desenvolvimento tecnológico e contenta-se em explorar o consumidor indefeso. Forçar, por exemplo, como sugerem os interessados, a venda da TIM para os atuais operadores (com mais dinheiro do governo) seria um erro trágico, pelo qual pagaríamos em alguns anos. Como se viu no México, as consequências vêm sempre depois...

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A lição de Ariel Sharon

João Pereira Coutinho


Nenhum outro premiê israelense fez na Faixa de Gaza exatamente aquilo que os palestinos reclamavam
Morre Ariel Sharon. Há festejos na Faixa de Gaza. Fato: não esperava que os palestinos chorassem a morte de um homem que fez da segurança de Israel a sua eterna paixão.
Primeiro, combatendo nas principais guerras que o país travou desde 1948. E, depois, elegendo a Organização para a Libertação da Palestina (e Arafat) como inimigo número um --um ódio pessoal que o levou à invasão do Líbano em 1982 e aos massacres nos campos de refugiados de Sabra e Shatila. Sharon não ordenou essas matanças de palestinos?
Novo fato. Mas não é preciso ser um gênio militar para perceber que, depois do assassinato de Bashir Gemayel, o líder dos cristãos do Líbano, haveria vingança pesada dos Falangistas sobre os palestinos que eles consideravam responsáveis pelo homicídio. Fechar os olhos a essas atrocidades é também uma forma de cumplicidade lamentável.
Acontece que os festejos em Gaza soam estranho quando nenhum outro premiê israelense fez no território exatamente aquilo que os palestinos reclamavam: retirada unilateral do exército de Israel.
Hoje, quando se fala dos "territórios ocupados", a Cisjordânia e os Montes Golã (na Síria) fazem parte do pacote. Mas a Faixa de Gaza, desde 2005, pertence aos palestinos porque Ariel Sharon decidiu terminar com uma ocupação de quase 40 anos, desmantelando milhares de colonos judeus na região.
Os motivos não foram beneméritos. A ocupação representava um desgaste internacional para Israel. Mas a principal razão era pragmática: Sharon entendeu que o "processo de paz" chegara ao fim.
Cinco anos antes, em Camp David, Israel estava disposto a concessões históricas impensáveis: o reconhecimento de um Estado palestino independente em Gaza e na Cisjordânia; a divisão de Jerusalém como capital dos dois Estados; e até o retorno de uma parcela de refugiados palestinos a Israel e compensações financeiras para os restantes (que viveriam, logicamente, no futuro Estado palestino).
Arafat, em gesto dificilmente classificável, exigiu o retorno de todos os refugiados a Israel (4 milhões), uma forma elegante de convidar o estado judaico a suicidar-se demograficamente (Israel tem uma população de 8 milhões, com 6 milhões de judeus e 1,5 milhões de árabes).
Depois do fracasso de Camp David, seguiu-se Ariel Sharon --uma escolha democrática que representa bem a desilusão da sociedade israelense com as negociações de paz.
E Sharon limitou-se a seguir a velha recomendação do general Yigal Alon, que depois da Guerra dos Seis Dias de 1967 alertara para os perigos de uma ocupação sem fim em Gaza e na Cisjordânia. Melhor seria controlar os territórios (de fora) sem governar milhões de palestinos hostis (por dentro). Ninguém o escutou. Só Sharon, 40 anos depois.
Dito e feito: Israel se retira de Gaza em 2005 e, no ano seguinte, o Hamas vence as eleições no território. Na imprensa "mainstream", o Hamas é apresentado como um grupo que luta contra a ocupação israelense. É uma forma de ver as coisas.
Outra é dizer simplesmente que se trata de um grupo terrorista que nega a existência da "entidade sionista"; que passou a usar Gaza como rampa de lançamento de "rockets" para o interior de Israel a partir de 2005; e que, também a partir desse ano, elegeu a Autoridade Palestina da Cisjordânia como "inimiga" fraternal. Tudo por causa da "traição" de Mahmoud Abbas em dialogar com Israel.
Hoje, não existe mais uma Palestina. Existem, pelo menos, duas: uma em Gaza, outra na Cisjordânia. Falar de um Estado palestino independente é uma piada de mau gosto quando os próprios palestinos não se entendem entre si.
Contas feitas, o que fica na morte de Sharon? Sim, um legado militar com páginas notáveis (lembrar a campanha do Sinai em 1967 contra o Egito) e as páginas negras (os massacres de Sabra e Shatila).
Mas, depois da retirada unilateral de Gaza, Sharon mostrou ao mundo que o conflito israelense-palestino não é territorial; é puramente ideológico. E que é inútil trocar terra por paz quando o interlocutor nem sequer reconhece o nosso direito à existência.

Os festejos de Gaza expressam isso mesmo: os palestinianos já têm um território autônomo, que poderia ser a base de um futuro Estado palestino. Mas o problema central continua o mesmo: o fato de os judeus também terem o seu Estado ali ao lado.

O Estado

Vladimir Safatle

Poucos problemas político-filosóficos têm o dom de produzir tantos conflitos quanto aquele a respeito da função do Estado. A divisão entre os que querem pensar uma sociedade sem Estado e os que não veem sentido algum nessa empreitada ultrapassa a dicotomia tradicional entre esquerda e direita. De toda forma, qualquer reflexão possível sobre o Estado na política contemporânea deve partir da internalização das críticas por ele sofridas nos últimos quarenta anos.
Várias delas insistiam no Estado como aparato disciplinar responsável pela perpetuação de uma vida social normatizada na figura do direito. O cidadão do Estado era, acima de tudo, alguém que deveria se conformar a um aparato normativo legal e uniformizador a fim de ser reconhecido como pessoa capaz de contrair contratos, assumir propriedades, direitos positivos, deveres e funções sociais.
A crítica, peça maior de uma teoria renovada do poder, era pertinente. No entanto, ela não implicava, necessariamente, o abandono do reconhecimento do Estado como instituição política central, mas, sim, sua metamorfose. Pois seu puro e simples abandono trazia problemas insolúveis.
Não queremos apenas a possibilidade de se desenvolver como singularidades, queremos ser reconhecidos enquanto singularidades. Mas não quero ser reconhecido apenas na minha comunidade, entre os meus amigos. Quero ser reconhecido em todo e qualquer contexto social do qual participo e porventura participarei.
Abre-se assim uma dimensão de demanda de universalidade que nos impulsiona em direção a um arranjo institucional de garantias de reconhecimento que nos leva, necessariamente, a um conceito pós-nacional de Estado. Sem tal arranjo, demandas dessa natureza perdem seu direito.
Por outro lado, a atividade econômica é produtora de desigualdades. A ampliação da posse comum minora tais desigualdades, mas uma defesa abstrata do fim da propriedade apenas faria com que o desejo de individualização presente na propriedade se voltasse contra o espaço comum. Hegel era suficientemente astuto para perceber que a propriedade não era o problema, mas sua generalização a toda a esfera social e sua transformação em direito fundamental acima de todos os outros.

Mas que instituição tem a força de quebrar os interesses individuais no campo da economia a fim de impedir o desenvolvimento da desigualdade? Claro que poderíamos recorrer à teoria do Estado como agente da classe dominante, mas, mais de uma vez na história, foi a pressão das classes desfavorecidas sobre o Estado que quebrou tais interesses de classe. O que nos obriga a desenvolver, no mínimo, uma figura um pouco mais contraditória do Estado.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Obama, o império e a paz

Luiz Carlos Bresser-Pereira

No acordo com o Irã, o presidente dos EUA teve coragem para contrariar Israel e Arábia Saudita
Os impérios do passado tinham uma única lógica --a do poder militar, porque era através dele que a oligarquia dominante alcançava seus demais objetivos; já um império moderno como o americano possui pelo menos duas lógicas: a lógica econômica da ocupação dos mercados internos dos países em desenvolvimento por suas exportações e por suas multinacionais, e a lógica militar da segurança nacional.
Logo após um candidato progressista, Barack Obama, ter sido eleito presidente dos EUA, escrevi um artigo nesta Folha prevendo que ele conseguiria realizar alguns avanços no plano interno, na política econômica pós-crise financeira global de 2008 e na política social, mas que pouco poderia fazer no campo da política externa, dada a força das duas lógicas imperiais.
Até meados de 2013 minha previsão parecia confirmada. Obama logrou uma grande vitória na política social com seu plano de saúde, o "Obamacare", e, no plano econômico, não obstante a ferrenha oposição republicana, contribuiu para que os EUA afinal saíssem da recessão. Mas no plano externo o presidente parecia paralisado.
A lógica militar de um império é a lógica da guerra, mas, entre os grandes países, essa lógica há muito cedeu à da política internacional --à negociação e às concessões mútuas--, porque o limite do poder imperial é definido pelo poder dos concorrentes. Mas o mesmo não ocorreu para os países da periferia do capitalismo: para eles, sempre que revelassem insubordinação maior, a lógica americana continuou a ser a das guerras, justificadas pela "doutrina da segurança nacional".
Mas, afinal, Obama surpreendeu. Pouco depois da revista "The Economist" publicar uma capa em que aparecia submergindo no mar, ele fez um acordo com a Rússia e com a Síria no qual esta aceitou entregar suas armas químicas para destruição. E, logo em seguida, aproveitando a eleição de um presidente moderado no Irã, estabeleceu as bases para um acordo nuclear com esse país.
É verdade que Obama só pôde agir assim porque --principalmente em relação à Síria-- contou com o apoio da opinião pública americana, que não quer a guerra. Mas este fato não lhe tira o mérito. Para garantir a paz --afinal, o bem maior nas relações internacionais--, precisou de coragem para enfrentar no plano interno os defensores da lógica militar. E não hesitou em enfrentar seus maiores aliados no Oriente Médio: Israel e Arábia Saudita.
Obama sabe que o tempo dos impérios está terminando. Que os custos econômicos do exercício da condição imperial estão se tornando maiores do que os benefícios, porque muitos dos povos antes dominados lograram se constituir ou estão se constituindo em nação e, dessa forma, reunindo forças para enfrentar a dominação.

Naturalmente o império americano continua com sua hegemonia ideológica e com um sistema de instituições financeiras internacionais que serve a seus interesses e aos dos demais países ricos. Mas essa é uma condição de seu poder econômico. É um problema que os países periféricos só lograrão superar se forem capazes de definir estratégias nacionais de desenvolvimento.

Oriente pós-americano


Pesquisa encomendada pela rede CNN no final do ano passado mostrou elevada rejeição dos americanos à presença militar dos EUA no Afeganistão. Apenas 17% disseram estar de acordo com o prosseguimento da guerra, deflagrada há 12 anos em resposta aos ataques do 11 de Setembro. Em dezembro de 2008, o apoio era de 52%.
Tais números refletem o cansaço da opinião pública dos Estados Unidos com as intervenções no Oriente Médio, cujos resultados, em que pesem vitórias sobre a Al Qaeda, são no mínimo duvidosos.
A previsão propagandística de que as forças americanas seriam capazes de iniciar um processo de democratização na região mostrou-se, como se podia imaginar, inconsistente. A retirada, que já ocorreu no Iraque, em breve também chegará ao território afegão.
Os EUA preparam-se para abandonar o front num momento delicado. Atentados extremistas continuam a ocorrer no Afeganistão e no Iraque; a Síria dilacera-se numa infindável guerra civil; e o Líbano, contaminado pelo clima de radicalização, também se torna palco para a barbárie fundamentalista.
O quadro regional revela-se ainda mais obscuro quando acrescido dos fracassos da Primavera Árabe e das dificuldades que alimentam as relações entre iranianos, sauditas, palestinos e israelenses.
Levanta-se, assim, a perspectiva de um cenário regional "pós-americano", marcado por uma generalização de conflitos e ações terroristas. Sob efeito de um vácuo de poder, em que nenhum interessado mostra disposição ou capacidade para criar consensos e saídas institucionais convincentes, a situação pode se tornar incontrolável.
O argumento, antes de servir de base para nova escalada intervencionista, de resto improvável, sugere que a comunidade internacional e os setores mais equilibrados dos países da região terão que lidar com uma longa instabilidade.
De positivo, os maus resultados da estratégia beligerante norte-americana tendem a propiciar investidas no terreno diplomático --como evidenciado pelas recentes tratativas entre os EUA e o Irã.
Não seriam, todavia, conversações triviais. Elas ocorreriam em meio a um histórico de ódios e ressentimentos acumulados. Talvez seja uma visão pessimista; para a compreensão realista do Oriente Médio, contudo, o ceticismo parece ser componente indispensável.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Democracia na penúria

Bolívar Lamounier

TENDÊNCIAS/DEBATES
Doação eleitoral de empresas deve ser proibida?

não

Democracia sem eleições não existe. Eleição sem campanha também não. Campanha grátis tampouco. Assim, quem prefere viver numa democracia precisa admitir que um sistema adequado de financiamento eleitoral é indispensável.
Em tese, o financiamento pode ser exclusivamente privado, exclusivamente público ou misto. Entendido naturalmente que "público", em qualquer idioma, significa custeado pelos impostos que os cidadãos pagam ao governo.
No Brasil, a hipótese de um sistema exclusivamente privado não chega a ser cogitada. A de um sistema exclusivamente público, sim, é cogitada e não raro apresentada como uma panaceia.
O principal argumento a favor do financiamento exclusivamente público é o combate à corrupção. Afirma-se que ele acabará com o caixa dois e tudo o que isso significa, assegurando a lisura dos pleitos e uma representação política isenta de compromissos espúrios.
Eu, sinceramente, não vejo razão para tanto otimismo. O pressuposto de tal hipótese é o de que os partidos e candidatos ficarão contentes com suas respectivas frações dos recursos públicos, abstendo-se de buscar recursos adicionais. Eu não apostaria nisso.
Quanto ao modelo misto, público e privado, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) requereu ao Supremo Tribunal Federal a inconstitucionalidade da participação de empresas no financiamento.
Quatro ministros já deram seus votos, todos conforme o pretendido pela OAB, ou seja, contra doações empresariais. Ao vetá-las, os quatro ministros presumivelmente entenderam que o cidadão-contribuinte dispõe de condições pecuniárias e de reservas de boa vontade para arcar sozinho com as despesas de campanha. No entanto, entre tais supostos e a realidade dos fatos parece-me existir uma distância considerável.
Há coisa de dois anos, na condição de relator de um dos projetos de reforma política, o deputado Henrique Fontana (PT-RS) sugeriu limitar o valor das contribuições individuais a R$ 700.
Ainda que o teto eventualmente adotado não seja tão baixo, o potencial de arrecadação por essa via não é promissor, por duas razões bem conhecidas: a distribuição de renda do país e o desagrado com que a política partidária e parlamentar é vista atualmente pela maioria dos eleitores brasileiros.
Do que acima se expôs, é possível depreender que a democracia brasileira pode estar sendo empurrada para uma situação preocupante: a de uma extrema penúria de recursos. No afã de combater a corrupção, podemos estar a um passo de jogar fora o bebê com a água do banho.
A questão final a considerar é por que uma parcela da elite política e governamental brasileira parece disposta a abraçar um modelo tão restritivo de financiamento. Por que excluir as empresas privadas?
Dir-se-á que o objetivo é combater a corrupção. Ora, que a corrupção atingiu limites inaceitáveis é óbvio. Mas é igualmente óbvio que seus agentes e processos encontram-se dos dois lados, ou seja, no setor privado tanto quanto no público, sem esquecer suas possíveis ramificações entre entidades intermediárias, como soem ser as ONGs, o sindicalismo etc.
O que produz a corrupção e lhe dá chances de prosperar não é o ambiente (a suposta ganância, a motivação de lucro) da empresa privada; não exclusivamente. Sem dúvida, reduzir as falcatruas ao mínimo possível passou a ser um objetivo essencial do sistema político brasileiro. Mas isso se faz com fiscalização rigorosa, transparência, exame sério e rápido das prestações de contas pelos tribunais competentes e o fim da impunidade, não com velhas prevenções contra a empresa privada.


Antes do 1º de abril

RIO DE JANEIRO - A menos de três meses do dia 1° de abril, vem por aí uma chuva de eventos pelos 50 anos do golpe civil-militar de 1964 --livros, séries de reportagens na imprensa, programas de TV, exposições, debates, palestras, shows. Mas, por mais agitado que seja o trimestre, dificilmente se comparará ao que fervilhava nesse exato período em 1964, em que o intenso zum-zum-zum cultural do Rio disputava com o crescente e sinistro rumor de sabres.
No teatro estavam em cartaz, ao mesmo tempo, Fernanda Montenegro (com "Mary, Mary", de Jean Kerr), Maria Della Costa (com "Gimba", de Guarnieri) e Bibi Ferreira (com "Minha Querida Lady", de Alan Jay Lerner). No cinema, estreavam "Ganga Zumba", de Cacá Diegues, "Os Fuzis", de Ruy Guerra, e --em primeira exibição numa sessão no Vitória, no dia 13 de março, a poucos quilômetros do megacomício daquela noite na Central do Brasil--, "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha.
Dois discos que ficariam para sempre saíram naqueles dias: "Getz/Gilberto", de Stan Getz e João Gilberto, contendo o "Garota de Ipanema" que tomaria o mundo na voz centimétrica de Astrud, e "Nara", o primeiro LP de Nara Leão, contendo "Diz Que Fui Por Aí", de Zé Kéti, e a profética "Marcha da Quarta-Feira de Cinzas", de Lyra e Vinicius. Anibal Machado e Ary Barroso tinham acabado de morrer; Brigitte Bardot logo iria chegar.
Nas livrarias, os novos romances de Clarice Lispector, "A Paixão Segundo G.H.", Carlos Heitor Cony, "Antes, o Verão", e Campos de Carvalho, "O Púcaro Búlgaro". Nas bancas, o último número da revista "Senhor" (fechara em janeiro) e o primeiro de "Pif-Paf", a revista de Millôr Fernandes (nasceria em março). A praia era no Castelinho, em frente ao botequim Mau Cheiro, e fazia sol todos os dias.

Mas, nos dias 31 de março e 1º de abril, iria chover.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Pantera negra

Kenneth Maxwell

No domingo, Eusébio, o grande ídolo do futebol português, morreu de um ataque cardíaco em Lisboa, aos 71 anos. Ele nasceu em Lourenço Marques, então capital da colônia portuguesa de Moçambique. Depois da independência do país, o nome da cidade mudou para Maputo. Eusébio era conhecido como "pérola negra" e como "pantera negra". Já outros o chamavam de "o rei". Foi incluído por um painel de cem especialistas da Fifa, em 1998, na lista dos dez maiores jogadores de futebol de todos os tempos. Alguns dos votantes o colocaram na terceira posição no ranking, atrás de Pelé e Maradona.
O pai de Eusébio da Silva Ferreira era um ferroviário angolano branco, e sua mãe era de Moçambique. Ele foi recrutado pelo time lisboeta Benfica para grande irritação do Sporting, o maior rival do Benfica na capital portuguesa. Eusébio defendeu o Benfica durante todos os seus 15 anos de carreira futebolística em Portugal. O ditador português António de Oliveira Salazar interferiu quando a Inter de Milão tentou contratá-lo, impedindo Eusébio de aceitar. Salazar declarou que ele era um patrimônio de Portugal.
Há quem afirme que o jogador foi usado pela ditadura. Mas Eusébio sempre evitou a política. Era acima de tudo um jogador de futebol. Joaquim Chissano, ex-presidente moçambicano que conhecia Eusébio desde a infância, declarou, ao ser informado da morte do jogador, que havia "perdido um amigo". E acrescentou: "Todos em Moçambique têm orgulho de Eusébio".
A fama de Eusébio surgiu nos anos 60. Em 1962, o Benfica derrotou o poderoso Real Madrid por cinco a três em Amsterdã, com dois gols de Eusébio. Na Copa de 1966, Eusébio ficou com o prêmio de melhor jogador. Portugal derrotou o Brasil, mas foi eliminado na semifinal pela Inglaterra. Eusébio encerrou a carreira com 679 gols em 678 partidas oficiais. Sua maior tristeza era nunca ter vencido uma Copa.
Cristiano Ronaldo, o formidável atacante português que muitos veem como digno sucessor de Eusébio, marcou seu 400º gol nesta semana: 230 com o Real Madrid, 118 com o Manchester United, cinco com o Sporting de Lisboa e 47 pela seleção portuguesa. O jogo da segunda-feira no estádio Santiago Bernabéu, em Madri, começou com um minuto de silêncio em homenagem a Eusébio, que estava sendo sepultado no cemitério do Lumiar, em Lisboa.
O Real Madrid derrotou o Celta de Vigo por três a zero. Ronaldo marcou dois gols. Depois da partida, disse sobre Eusébio: "Ele sempre esteve perto de mim e me ajudou muito. É uma figura mítica, e o dia de hoje é muito triste para mim. Dedico meus dois gols a você, Eusébio, mas a verdade é que você os marcou. Você está sempre em meu coração".

Alquimia síria

É preciso uma dose de comedimento ao avaliar o anúncio de que o primeiro carregamento de armas químicas foi retirado no início desta semana da Síria, país que convive com uma violenta guerra civil desde março de 2011.
Trata-se, é claro, de mais um passo bem-sucedido, sob a supervisão da Organização para a Proibição de Armas Químicas, no sentido de eliminar o arsenal de gases tóxicos do regime comandado pelo ditador Bashar al-Assad.
A iniciativa da comunidade internacional surgiu em resposta a um ataque químico atribuído a forças governistas, com saldo de mais de 1.400 mortos.
Costurado por Rússia e Estados Unidos em setembro do ano passado, o acordo prevê que o governo sírio se desfaça de todas as substâncias químicas de emprego bélico sob seu poder e encerre as atividades de instalações que produzam tais armas até o fim de junho.
Houve um pequeno atraso em relação ao cronograma original, que previa a entrega de 500 toneladas desses materiais até 31 de dezembro. É pouco menos da metade de um arsenal estimado em mais de 1.300 toneladas de gases tóxicos.
O governo Assad alegou que o mau tempo e problemas logísticos causados pelo conflito civil no país prejudicaram o transporte da carga até a cidade portuária de Latakia, onde foi depositada em um navio dinamarquês.
Não é o desrespeito ao prazo inicialmente acordado o fator que causa maior preocupação na região. Tampouco o é, no fundo, a questão do arsenal químico.
Com ou sem essas armas, o sangrento conflito lamentavelmente prossegue em marcha no território sírio. Em março completará três anos, já tendo deixado mais de 100 mil mortos e 2,5 milhões de refugiados no exterior, o que equivale a 10% da população local.
A situação não parece melhorar, e travam-se, atualmente, muitos combates no país. Forças rebeldes moderadas que enfrentam militares leais a Assad também precisam lidar com um crescente número de facções extremistas ligadas à rede terrorista Al Qaeda.
Em Raqqa, única capital de província sem controle do governo, crescem os combates entre o radical Estado Islâmico do Iraque e do Levante --que hoje comanda a cidade-- e alas rebeldes conservadoras. Desde sexta-feira, mais de cem pessoas foram mortas na região.

Questões como essa têm de ser enfrentadas durante a nova conferência internacional de paz, marcada para 22 de janeiro, para que seja possível vislumbrar uma maneira de pôr fim à violência na Síria.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Concessionárias de energia terão de ressarcir danos a consumidores


Argentina

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS -
 O ministro do Planejamento da Argentina, Julio De Vido, anunciou ontem que as empresas de energia da região de Buenos Aires terão de ressarcir os usuários residenciais devido aos apagões ocorridos na semana passada.
Num discurso com pesadas críticas às empresas Edenor e Edesur, ele disse que consumidores domésticos que ficaram sem luz por um período de 12 a 24 horas receberão 490 pesos (R$ 178). Os que tiveram corte de fornecimento por um período de 24 a 48 horas receberão 760 pesos (R$ 275). Usuários que ficaram mais de dois dias sem luz receberão 870 pesos (R$ 315).
O valor representará cerca de 221 milhões de pesos (R$ 80 milhões) para a Edesur e cerca de 77 milhões de pesos (R$ 28 milhões) para a Edenor.
As duas empresas também sofrerão sanções regulatórias, a serem pagas ao Estado.
A Edesur pagará 17,8 milhões de pesos (R$ 6,5 milhões), e a Edenor, 8 milhões (R$ 2,9 milhões).

Herói ou traidor?

Alexandre Vidal Porto

A contribuição de Snowden foi mostrar ao mundo a necessidade de proteger o direito à privacidade
Edward Snowden nasceu na Carolina do Norte. Completou 30 anos em junho e é especialista em computadores. Por conta de seu trabalho, teve acesso a informações sobre programas secretos da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA).

Por considerar que alguns desses programas violariam a Constituição americana, decidiu vazar para a imprensa 1,7 milhão de documentos relativos a ações de espionagem e coleta de dados, supostamente irregulares, realizadas pelos Estados Unidos em todo o mundo.
Snowden hoje mora na Rússia, que lhe concedeu asilo temporário. É considerado fugitivo por Washington, e seu passaporte foi cancelado. Se voltar aos Estados Unidos, poderá ser condenado à prisão perpétua.
Dois juízes federais americanos já consideraram que programas da NSA que ele denunciou violam a Constituição. Um painel independente convocado pelo presidente Obama criticou os programas de segurança e sugeriu alterações.
A legalidade dos programas deverá ser decidida pela Suprema Corte. Se esta os declarar inconstitucionais, condenar Snowden equivaleria a considerar criminosa uma pessoa porque ela denunciou um crime.
A maior parte da população americana ainda acha que Snowden é um traidor. No entanto, número crescente de pessoas parece valorizar o alcance de suas ações e passa a vê-lo como herói.
Nesta semana, o "New York Times" afirmou em editorial que Snowden "prestou um grande serviço" aos EUA. O britânico "Guardian" também lhe teceu elogios. Ambos defendem que Obama conceda "clemência" e não lhe imponha qualquer sanção severa.
Snowden merece a clemência de Obama porque é errado que um governo possa impor sigilo sobre ilegalidades cometidas por esse próprio governo.
Domesticamente, nos EUA, Snowden terá sido a primeira pessoa a indicar que o governo poderia estar utilizando métodos antiéticos, intrusivos e potencialmente ilegais contra cidadãos. Ele agiu como uma espécie de Ministério Público informal, honrando e defendendo os melhores valores de seu país.
Internacionalmente, a contribuição de Snowden foi abrir os olhos da comunidade mundial para a necessidade de um regime global de proteção do direito à privacidade. Sem ele, a resolução sobre o tema, adotada pela ONU em sua última Assembleia-Geral, talvez ainda levasse anos para ser aprovada.
Snowden já acenou a bandeira branca: declarou ao "Washington Post" que sua missão estava cumprida e que sua intenção havia sido, simplesmente, informar o público americano e estimular o debate sobre a questão.
Seria ótimo que o governo Obama fizesse gesto apaziguador semelhante --em relação a Snowden e a toda a comunidade internacional que sua política de segurança melindrou. Sem constituir um mea culpa formal, a clemência do presidente seria um ato gracioso de penitência, adequado a um governo que parece, sim, ter ferido a lei e a ética, dentro e fora de suas fronteiras.

Documento revela que EUA buscam acesso total na web


NSA desenvolve supercomputador de acesso irrestrito a máquinas, diz jornal
Projeto de agência de espionagem é mais uma revelação de Edward Snowden e foi revelado pelo 'Washington Post'

DE SÃO PAULO

A Agência de Segurança Nacional americana (NSA) trabalha para criar um computador quântico, máquina que seria capaz de acessar informações de qualquer computador conectado à internet.
A informação foi divulgada pelo jornal "Washington Post", a partir de documentos revelados pelo delator Edward Snowden.
A NSA tem sido alvo de críticas por desenvolver métodos de espionagem de informações confidenciais de civis e estrangeiros na web.
A criação de um computador quântico operacional tem sido o objetivo de diversos esforços de grupos de cientistas ao redor do mundo.
Ele teria diversas aplicações, como na resolução de problemas matemáticos e na criação de inteligência artificial, mas acredita-se que a NSA tenha interesse específico em quebrar códigos de senhas de acesso.
Também não se sabe se a agência está à frente de outros grupos na corrida para o desenvolvimento do aparelho, como laboratórios americanos e europeus.
Os documentos vazados da NSA indicam que a agência acredita estar equiparada aos centros de pesquisa financiados por União Europeia e Suíça, que se encontram entre os mais avançados do mundo.
GAIOLAS METÁLICAS
O computador quântico é algo ainda muito delicado. Seu desenvolvimento é feito em salas chamadas de gaiolas de Faraday, grandes recintos vedados para que não haja troca de energia eletromagnética com o meio. A NSA explica, nos documentos vazados, que isso é necessário para "manter em andamento os delicados experimentos de computação quântica".
Enquanto um computador normal usa o sistema binário, em que um bit pode ter os valores zero ou um, o novo aparelho lida com bits que valem zero e um ao mesmo tempo.
Em termos simples, isso faria com que a máquina gastasse menos tempo em cálculos complexos, desvendando os códigos de encriptação muito mais rapidamente.

Segundo o "Post", estima-se que um aparelho minimamente capaz de realizar tais tarefas ainda deve demorar mais dez anos para ser criado, na hipótese mais otimista --a pessimista é que demore mais de cem.

Mãos alheias

Ruy Castro

RIO DE JANEIRO - Há meses, um megagrupo francês, Vivendi, depois de abocanhar a gigante americana Universal --esta, já resultado de 50 anos de fusões na área das gravadoras de música popular--, comprou a outra gigante, a inglesa EMI, também a soma de 50 anos de fusões na mesma área. Significa que, agora, o legado de Bing Crosby, Carlos Gardel, Edith Piaf, Frank Sinatra, Amália Rodrigues, os Beatles, os Rolling Stones e outros do mesmo calibre --até há pouco sob diferentes bandeiras-- tem um só dono.
Nas economias marca barbante, como a brasileira, essas fusões levam a uma fria e implacável desnacionalização. Neste momento, por exemplo, 90% da música popular gravada no Brasil no século 20 pertencem a três grupos estrangeiros: a dita Vivendi, a japonesa Sony e a americana Warner.
A novidade não está no fato de a história da música brasileira não pertencer a brasileiros --porque só às vezes isso não aconteceu. Mas no de que, desde os anos 30, ela nunca esteve concentrada em tão poucas mãos, e alheias. Naquela década, por exemplo, era dominada pela inglesa Odeon (aliás, EMI) e pelas americanas Victor e Columbia.
Essas potências nunca perderam o domínio, mas, a partir de 1945, tiveram de ceder parte do território a pequenas e bravas gravadoras brasileiras que começaram a surgir, como a Continental, Sinter, Copacabana, Todamérica, Star, Musidisc, Mocambo, RGE, Chantecler, e, nos anos 60, os bravíssimos selos Festa, Elenco, Forma, Cid, Equipe, Som Maior, Farroupilha, Imagem. Com o tempo, no entanto, todos esses nanicos foram sendo absorvidos pelos grandes e estes, por outros novos no mercado e ainda maiores.

Os quais se comeram uns aos outros e, hoje, de novo em três, controlam o nosso passado musical -- o que, como dizia George Orwell, é essencial para controlar também o presente e o futuro.