quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O milagre de Francisco

BERNARDO MELLO FRANCO

O milagre de Francisco

BRASÍLIA - Com menos de dois anos de papado, o argentino Jorge Mario Bergoglio produziu seu primeiro milagre: intermediou a reaproximação histórica entre Estados Unidos e Cuba. A participação de Francisco não se limitou a palavras de incentivo, como reconheceram Barack Obama e Raúl Castro. Ele pressionou pela libertação de presos políticos nos dois países e abriu o Vaticano para a última reunião dos negociadores.
O anúncio de ontem coincidiu com o aniversário do papa, que comemorou 78 anos de idade. Modesto, ele promoveu audiência na praça São Pedro, brincou com os casais que dançariam tango em sua homenagem e se recolheu, deixando os louros do dia para os líderes políticos. Coube à Santa Sé registrar, em nota, a sua "viva satisfação" com a notícia.
Se o papel de Francisco na modernização da igreja ainda está sendo escrito, sua atuação diplomática já pode entrar nos livros de história. O impulso para o reatamento das relações entre EUA e Cuba foi o avanço mais expressivo, mas não o único. Só neste ano, ele quebrou o gelo com a China ao escrever para Xi Jinping e uniu os presidentes de Israel, Shimon Peres, e da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, em oração pela paz no Oriente Médio.
A ação do papa ajudará a melhorar as biografias de Obama e Castro. O presidente americano ainda não havia dado motivos concretos para justificar o prêmio Nobel da Paz que recebeu há cinco anos. O irmão de Fidel, por sua vez, vinha decepcionando quem apostava nele para conduzir a abertura política na ilha.
A primeira viagem de Francisco aos EUA está programada para setembro de 2015. Até lá, é possível que ele ajude a arrancar novos avanços, como o fim da tortura em Guantánamo e a suspensão do embargo a Cuba. Se fizer escala em Havana, poderá testemunhar o restabelecimento de eleições livres e das garantias individuais. Como escreveu Brecht e lembrou o noticiário de ontem, nada deve parecer impossível de mudar.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Incoerência americana

Incoerência americana

Fechar Guantánamo. Barack Obama prometeu fazê-lo em 2008, quando disputava seu primeiro mandato como presidente dos EUA, supostamente o cargo mais poderoso do mundo.
Seis anos e duas eleições depois, o campo de prisioneiros continua em funcionamento, contradizendo os valores democráticos dos quais os americanos tanto se vangloriam.
Alguns dos 136 detidos (número que resta após o envio de seis deles para o Uruguai) estão presos há mais de uma década sem acusação formal. São, entretanto, considerados "perigosos demais".
Guantánamo converteu-se num labirinto jurídico. Em primeiro lugar, os internos estão presos numa dupla condição: como combatentes e como suspeitos de terrorismo.
A primeira figura, chamada de detenção prospectiva, já foi aplicada por vários países em diversas guerras. Inimigos capturados, sem nenhum tipo de julgamento, são mantidos num campo de internamento até o fim do conflito, para que não voltem a combater. Terminado o confronto, são libertados.
A chamada guerra ao terror, contudo, não é um conflito clássico. Não se vislumbra um término oficial para ela. Os militantes ficam presos indefinidamente, mas os EUA não lhes concedem o estatuto de soldados inimigos, o que ao menos os poria sob proteção das convenções de Genebra.
A segunda figura, detenção retrospectiva, se assemelha a casos criminais costumeiros. Os suspeitos teriam de ser formalmente acusados por delitos, seus defensores precisariam ter acesso às provas e deveria haver um julgamento justo.
O problema é que, para um bom número de prisioneiros de Guantánamo, ou não há provas suficientes para a condenação, ou elas foram obtidas por meios ilegais (tortura), ou se teme apresentá-las numa corte, pois acabariam revelando a identidade de agentes infiltrados.
As agências de segurança afirmam que, soltos, muitos voltariam a engajar-se no combate aos EUA.
O Congresso americano, dominado pela oposição, faz o máximo para complicar a vida de Obama, o que inclui sabotar todas as tentativas de resolver ou atenuar o imbróglio. Daí a longevidade desse sistema de exceção, que não condiz com as tradições dos EUA.

O dano que Guantánamo traz à imagem do país é tamanho que cabe perguntar se não seria preferível soltar de uma vez todos os presos. Grupos radicais não enfrentam dificuldades em recrutar outros jihadistas, afinal. Os EUA poderiam ao menos proclamar de forma mais crível que defendem valores democráticos contra a barbárie.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Intervenção militar


Vladimir Safatle

Na próxima quarta-feira (10), a Comissão Nacional da Verdade deve apresentar o relatório de seus trabalhos. Espera-se que nomes de torturadores e assassinos sejam enfim publicados, que seus crimes sejam fartamente descritos, a fim de que, ao menos, ganhem força processos para terminar com a impunidade aos que cometeram crimes contra a humanidade durante a ditadura militar.
Mas, como por ironia da história, neste exato momento, o Brasil conhece manifestações periódicas de pessoas que saem às ruas pedindo por um golpe militar. Não uma mobilização pelo dever de memória, mas um clamor para a repetição da destruição do país.
Mas o que dizer destas pessoas? Estariam elas a exercer seu direito de liberdade de expressão expondo seu descontentamento com a situação política atual ou estariam a cometer o mais vil e torpe de todos os crimes, o mais imperdoável, a saber, este que clama pela destruição do mínimo de liberdade que dispomos atualmente?
Notem, quem sai à rua e levanta um cartaz pedindo "intervenção militar" não está fazendo a mesma coisa que alguém a gritar "Fora Dilma" ou "Fora FHC". "Fora X, Y ou Z" é algo que se ouve em todas as partes do mundo onde há descontentamento. Significa normalmente um pedido de impeachment, de renúncia ou a afirmação da deslegitimação do poder.
Já quem clama por um golpe militar pede, necessariamente, a implementação de um regime de exceção, com assassinatos sistemáticos de Estado contra oponentes, comandado por uma casta militar que fará o que o Brasil nomeará na quarta: a destruição física e simbólica de quem não está acostumado com o silêncio.
Quem quer a causa quer as consequências. Por isto, pedir por uma "intervenção militar" não é uma "opinião" política, mas pura e simplesmente o crime por excelência.
Claro que haverá aqueles a dizer que eu deveria então criticar os que saem às ruas e pedem, por exemplo, por "revolução" (onde? Faz tempo que não vejo ninguém fazer isso). No entanto, uma revolução é uma sublevação popular que dá voz ao poder instituinte. Nada a ver com um golpe que, por sua vez, é a forma máxima do fim da política.
Por isso, quem levanta um cartaz a favor de um golpe militar não pode estar na rua, mas deveria estar ou respondendo a processos por incitação à forma máxima de violência ou diretamente na cadeia.

Uma sociedade que não pune quem pratica tal violência, mas convive com os que a elogiam como se fosse algo meio pitoresco, cava sua própria cova.

Nostalgia perversa

Carlos Heitor Cony

RIO DE JANEIRO - O pior de um governo em crise é a sucessão ou o golpe. E pior do que o golpe é a esperança absurda de que uma solução autoritária que, além de atrasar o país, oprime o povo.
Tivemos os anos de chumbo, executados pelo regime militar que se instaurou em 1964/1968 (dois golpes, um dentro de outro). A pretexto de combater uma fictícia república sindical, trouxe a ditadura e os crimes, não dos traficantes, mas do Estado.
Nos meados do século passado, houve a vergonhosa falência da República de Weimar, que, juntamente com a truculência vingativa do Tratado de Versalhes, mergulhou a Alemanha no nazismo, que por pouco não infelicitou o mundo, acabando com o estágio de civilização que a humanidade conquistara a duras e sofridas penas.
O ano que está no fim brindou-me com dois pasmos que até agora não digeri: aqueles 7 a 1 da Copa e a campanha pela volta do regime militar que desgraçou duas gerações.
Assim como não degluti os gols sofridos em mais ou menos dois minutos de jogo, minhas fatigadas vísceras não metabolizaram a nefasta campanha que começa a ser feita em jornais e no boca a boca de amplas camadas da população, clamando pela volta do passado, dos militares e paisanos que instalaram e mantiveram uma ditadura de 21 anos.
Quem a esqueceu não merece ser brasileiro e muito menos cidadão capaz de aprovar e exaltar todos os crimes que ainda esperam por justa e necessária punição. Embora não aprove nem justifique o governo de dona Dilma, muito menos de sua base aliada, principalmente o PT com a sua decantada militância que lembra as esquadras de Mussolini, que afinal --todos sabem-- foi o modelo que Hitler adotou com inicial sucesso.
Com uma vantagem para o Führer: enquanto o Duce gostava do "Funiculì, Funiculà", Hitler preferia o coro dos peregrinos do Tannhäuser.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Vázquez, de centro-esquerda, volta à Presidência uruguaia

Candidato, que governou país de 2005 a 2010, foi vitorioso no segundo turno


Ele substituirá o atual presidente, Mujica, e deve anunciar medidas sociais e de combate à sensação de insegurança

SYLVIA COLOMBO ENVIADA ESPECIAL A MONTEVIDÉU 

  O candidato governista Tabaré Vázquez, 74, venceu o segundo turno das eleição uruguaia. Com 49% de urnas apuradas, ele tinha 52% dos votos, contra 42% do adversário, Luis Lacalle Pou. Enquete de boca de urna dava 53% a Vázquez e 41% a Pou.
Vázquez, de centro-esquerda, anunciou, ao votar no clube Arbolito, no bairro de La Teja, que lançará pacote de medidas logo após assumir, em março do ano que vem.
O foco estará na ampliação de planos sociais e medidas de segurança (o aumento da violência é apontado como principal problema do país).
Em discurso à noite, Vázquez disse: "O Uruguai de hoje não é o mesmo de 2005, nem o de 2010. Há novas demandas e novos desafios. Não podemos perseguir quimeras, temos que perseguir os objetivos alcançáveis."
Presidente de 2005 a 2010, ele anunciará seu gabinete na próxima semana e disse que chamará pessoas ligadas à oposição para alguns dos cargos, em gesto que chamou de "grande encontro nacional".
Alguns nomes da sua primeira administração devem voltar. Além do atual vice-presidente, Danilo Astori, que ocupará o ministério da Economia (leia ao lado), outro ex-ocupante da pasta, Álvaro García, deve ser secretário de Planejamento.
As ex-ministras da Saúde, María Julia Muñoz, e de Desenvolvimento Social, Marina Arismendi, seriam recolocadas em outros postos.
O atual presidente, José "Pepe" Mujica, que desta vez não foi votar a bordo de seu Fusca 1987, ocupará uma vaga no Senado.
Na quinta-feira, pesquisa Factum divulgou que Mujica pode deixar o cargo com 65% de aprovação. Em 2010, Tabaré saiu do posto com 70%.
Em Montevidéu, a forte tempestade iniciada na madrugada atrasou o início da votação em alguns bairros.
Lacalle Pou, candidato do Partido Nacional (conhecido como "blanco"), votou pela manhã e disse estar de acordo com o gesto conciliador de Vázquez com a oposição.
Agradeceu o apoio do Partido Colorado, principalmente do ex-candidato Pedro Bordaberry, que obteve 13% dos votos no primeiro turno, e do ex-presidente Julio Maria Sanguinetti.
Após a divulgação dos primeiros números, Lacalle Pou disse que seu partido será atuante na oposição "já a partir de amanhã", mas desejou sorte ao presidente eleito.
LEI DE MÍDIA
Na semana que vem, o Senado debaterá pela primeira vez uma nova lei de mídia proposta pela Frente Ampla.
A ideia é definir a produção mínima de conteúdo nacional e criar um órgão regulador. Oposição e principais veículos de comunicação independentes são contra.
Mujica diz que não se trata de "mordaça". "Não pensamos em regular conteúdos nem em nos meter na linha editorial dos meios".
A Frente Ampla também apresentará projeto de mudança na lei eleitoral. Em casos de diferença de mais de 10% entre os dois primeiros colocados num primeiro turno, não haveria o segundo.
No dia 26 de outubro, Vázquez obteve 47%, ante 30% de Lacalle Pou. 

O terror do Estado Islâmico na Síria

Paulo Sérgio Pinheiro

Subestimou-se a consolidação desse grupo terrorista na Síria. Houve países mais centrados na derrubada de Assad que no fim da violência
Faz pouco tempo que o chamado Estado Islâmico, ou EI, fez circular um vídeo com 18 soldados sírios decapitados, mostrando ainda a cabeça decepada de um ativista humanitário norte-americano. Essas cenas são uma amostra do terror que esse grupo emprega para subjugar tanto civis como combatentes em áreas que controlam na Síria.
Homens, mulheres e crianças sírios que fugiram do EI, recentemente entrevistados, relatam que execuções, amputações e açoitamentos em público são rotineiros. A exibição de corpos mutilados e de cabeças espetadas em grades traumatizam ainda mais os sírios, em especial as crianças.
Mulheres e meninas sírias são excluídas da vida pública. Mulheres executadas, por apedrejamento, por terem tido contato não aprovado com o sexo oposto. Regulamentos ditam o que vestir, quem elas podem encontrar e onde trabalhar, submetidas a uma brigada feminina de costumes.
Há casamentos forçados de meninas de 13 anos com combatentes do grupo terrorista muito mais velhos. Mulheres e meninas da etnia yazidi, alvo de abusos terríveis, muitas sequestradas no Iraque em setembro de 2014, levadas para a Síria e vendidas para escravidão sexual nos mercados na província de Al Raqqah, controlada pelo "Estado Islâmico".
As crianças são vítimas, perpetradoras e testemunhas de execuções do Estado Islâmico, que recorre à educação como instrumento de doutrinação para promover uma nova geração de recrutas. Na cidade de Raqqa são obrigadas a assistir a vídeos de execuções em massa de soldados sírios, dessensibilizando-as à violência extrema.
Em áreas que o Estado Islâmico ocupa, com diversas comunidades étnicas e religiosas, estas são forçadas a se converter ou a fugir. Há um padrão de violência contra determinados grupos --cristãos, xiitas e curdos-- para reduzir e controlar a sua presença naquelas áreas.
O EI tem atacado jornalistas e ativistas que tentam comunicar o sofrimento diário dos que vivem sob seu jugo. Muitos foram sequestrados, desaparecidos, torturados e executados. Combatentes foram executados durante seus ataques militares recentes, incluindo as exceções de mais de 200 soldados capturados de base aérea em Al Raqqah e o assassinato de centenas de membros da tribo Sheitat, em Dayr Az-Zawr, em agosto deste ano.
Como se chegou a esse quadro horripilante em que o EI viola sistematicamente os direitos humanos, comete com impunidade crimes de guerra e contra a humanidade?
Esses terroristas não caíram do céu, formaram-se na Síria ou vieram do exterior financiados e armados desde 2011 por vários países e indivíduos da região, aproveitando-se de fronteiras porosas.
A comunidade internacional subestimou a consolidação gradual desse grupo terrorista na Síria e não agiu, muitos países estavam mais centrados na derrubada do governo Bashar al-Assad do que no fim da violência ou na proteção das populações civis.
A Europa não barrou eficazmente a ida de centenas de seus nacionais para a Síria e o Estado Islâmico. O governo sírio poupou até bem pouco tempo o EI de ataques e, por sua vez, contou com o apoio militar de vários países, também com contingentes estrangeiros, com bombardeios aéreos atingindo pesadamente a população civil, numa escalada da guerra civil no seu quarto ano.
A Síria está devastada, 3 milhões de refugiados, 6 milhões de deslocados internamente, numa população de 23 milhões.
A falta de um processo político permitiu que o extremismo e o sectarismo se alastrassem mais. É urgente a comunidade internacional chegar a uma gestão da crise mais eficiente, que leve a uma solução negociada entre o governo sírio e as oposições para o fim do conflito. Caso contrário, haverá o agravamento da desestabilização regional e maior o sofrimento da população.

Causa própria

Valdo Cruz

BRASÍLIA - No ano da eleição mais cara do país, a cada dia tomamos ciência de nova conta milionária no exterior recheada de dinheiro surrupiado da Petrobras. Tudo sob comando de diretores mancomunados com partidos políticos.
Em cenário tão escandaloso, nossos deputados e senadores deveriam estar preocupados em dar uma resposta ao eleitorado, dedicando seu precioso tempo a aprovar uma reforma política que reduza esta roubalheira de dinheiro público.
Pois bem, ficamos sabendo que eles estão ocupados é com outros afazeres. Em tempo de corte de gastos, nossos congressistas planejam aumentar seus salários, as verbas para suas bases eleitorais e o dinheiro que financia seus partidos.
Continha salgada, coisa de R$ 1,15 bi por ano, bancada com nosso dinheiro. Eles querem elevar, por exemplo, o salário de R$ 26,7 mil para R$ 33,7 mil. Não fosse o descrédito do mundo político e sua improdutividade, seria até uma soma justa.
Afinal, teoricamente, deveriam representar seus eleitores. Ganhando um salário razoável, estariam livres da tentação de servir a outros senhores. Mas não é o que tem acontecido com todos congressistas --tem parlamentar que não resiste a uma oportunidade tentadora.
É bom lembrar ainda que nossos parlamentares têm direito a médico, dentista, moradia, telefone celular e combustível de graça.
Pior é saber que, nesta farra, querem aumentar o dinheiro que sai dos cofres públicos para bancar a vida dos partidos políticos. Uma total falta de sintonia com o eleitorado.
Além de pensar em seus bolsos, nossos congressistas deveriam é estar perguntando aos eleitores se concordam que seu dinheiro financie campanhas eleitorais e o funcionamento de partidos políticos.

Como a resposta hoje, com certeza, seria negativa, o Congresso prefere legislar, no apagar das luzes de 2014, em causa própria. E deixar de lado o interesse do prezado eleitor.

O voo do Super-Homem

Vinicius Mota


SÃO PAULO - O que permite ao Super-Homem voar? Na antiga lenda grega, Dédalo e seu filho Ícaro mimetizam as asas dos pássaros, usando penas e cera. Já o herói da capa vermelha que veio de Krypton não se presta a nenhum trabalho de verossimilhança. Apenas levita e voa.
É inútil pensar em empuxo, arrasto, sustentação ou consumo de energia. Como na célebre cena do Barão de Münchhausen, que puxa os próprios cabelos para livrar-se do afogamento, o voo do Super-Homem é fantasia ensimesmada. Não se relaciona com o mundo físico ao redor.
Quimeras assim às vezes engolfam o pensamento econômico, sem poupar os profissionais mais dotados, que ciclicamente incidem na crença da valorização perpétua de ativos financeiros. Há seis anos o mundo paga o preço do mais recente desvario.
A imaturidade, o corporativismo e as ideologias também hipnotizam. Movimentos juvenis exigem "tarifa zero" no transporte urbano. Outros grisalhos defendem a "gratuidade" nas universidades públicas. Há economista a advogar que o governo amplie ainda mais os gastos e a dívida para impulsionar o crescimento.
Em todos esses casos, quando os proponentes não enganam a si mesmos, é o público que iludem. O liame oculto nessas bandeiras empurra contas bilionárias para quem paga impostos em situações tão corriqueiras como a compra num açougue ou a reforma da casa.
O despertar do encanto se dá na tarefa de cotejar quem paga tributos, de um lado, com os beneficiários da despesa e dos empréstimos estatais, do outro. O método mostra que o devedor da dívida pública não é o governo, mas sim dezenas de milhões de brasileiros mal remediados, cujo trabalho remunera, com 5% do que o país produz todo ano, um grupo bem menor de financiadores do Tesouro.
Desse modo se atinge o estágio da lucidez, no qual Super-Homem, se quiser voar, que compre o bilhete num avião de carreira.

Vitória sobre infecções

O mundo está às vésperas de uma conquista inédita. Em breve, as doenças infecciosas, que vêm há milênios dizimando bebês e crianças, podem deixar de ser a principal causa de mortalidade infantil.

Um estudo recente que modelou dados de 194 países mostra que, dos 6,3 milhões de crianças com até cinco anos de idade que morreram em 2013, 52% faleceram devido a moléstias infecciosas. Três anos antes, eram 64%. A virada está próxima, se é que já não ocorreu.
Isoladamente, a principal causa de óbito é a prematuridade (15,4%), seguida de perto pela pneumonia (14,9%). Grandes vilões do passado, notadamente as diarreias, mas também sarampo e tétano, já não ocupam as primeiras posições.
Segundo os autores da pesquisa, publicada no periódico médico britânico "The Lancet" no mês passado, os 3,6 milhões de mortes a menos registrados em 2013 em relação a 2000 podem ser atribuídos a ganhos no controle da pneumonia, diarreia e sarampo. São avanços formidáveis da humanidade.
A partir desse ponto, contudo, melhorias tendem a ficar mais difíceis. Aos poucos, os países esgotam o arsenal de ações fáceis, capazes de atingir grandes fatias da população --oferecer água tratada e esgoto, fazer campanhas de vacinação e pelo aleitamento materno.
À medida que se registram reduções nas mortes por infecções, os óbitos neonatais (até o 28º dia de vida) tendem a ganhar preponderância --e as iniciativas para enfrentá-los se tornam cada vez mais individualizadas e caras.
Se o quadro global, de todo modo, é bastante positivo, há uma nota negativa para a qual é preciso chamar a atenção: permanecem abissais as diferenças entre as diversas regiões do planeta.
Enquanto Estados desenvolvidos já baixaram há vários anos a mortalidade infantil para faixas inferiores a 10 óbitos por mil nascimentos com vida e nações emergentes estão chegando lá, países da África subsaariana continuam mal.
Respondendo por 25% dos nascimentos no mundo e quase 50% dos óbitos de crianças até cinco anos, esse grupo eleva a taxa média do planeta para 46 óbitos por mil nascimentos com vida.

Um índice bem melhor que os 200 por mil estimados para a Idade Média, mas muito pior do que aquele que seria possível atingir com o nível de conhecimento médico e avanço tecnológico do mundo.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Entenda a crise da dívida Argentina

Folha de S. Paulo



Entenda a crise da dívida Argentina

A CRISE
Em 1991, a Argentina lançou um plano para zerar a inflação: cada peso valia US$ 1. Para crescer, país se endividou
OS TÍTULOS
Em 2001, o país parou de pagar as dívidas, parte na forma de títulos (papéis que oferece para se financiar)
A RENEGOCIAÇÃO
Em 2005 e 2010, a Argentina ofereceu pagar menos a credores; 92% aceitaram
OS "ABUTRES"
Os que não aceitaram (8%) venderam os títulos a fundos "abutres", que compram dívidas por valores menores
SEM DÓ
Em 16.jun, a Justiça dos EUA decidiu que a Argentina deve pagar US$ 1,3 bi a um dos "abutres", o NML
SEM RECURSOS
Decisão pode se estender a outros credores, e a dívida iria a US$ 15 bi (o país tem reserva de menos de US$ 30 bi)
SEM ACORDO
Apesar do calote técnico após o fracasso do acordo, o governo argentino diz querer negociar
SEM DESCULPAS
Após o calote técnico no último dia 30, o juiz americano Thomas Griesa exigiu que a Argentina siga negociando 

1914 poderá se repetir?

Folha de S. Paulo





Luiz Carlos Bresser-Pereira

TENDÊNCIAS/DEBATES

1914 poderá se repetir?


Cem anos depois do início da Primeira Guerra, o mundo alcançaria maior progresso; a guerra de 1914 provou ser um jogo de soma menor que zero
A guerra de 1914 foi talvez a mais irracional das grandes guerras --uma guerra que só teve derrotados. Há um debate entre os historiadores sobre qual país foi o principal responsável e, geralmente, a Alemanha ocupa esse papel. É uma tese razoável já que, entre as grandes potências europeias, a Alemanha ainda não conhecera a democracia e --o que é mais importante--, como se atrasara em completar sua revolução industrial, não construíra um grande império na Ásia e na África, ao contrário do que acontecera com o Reino Unido e a França.
Vinte anos depois de terminada a primeira, estourou a Segunda Guerra Mundial, que, na realidade, foi uma continuação ressentida da anterior. Significaria isso que uma terceira guerra entre os grandes países seria possível? Não, porque cem anos depois o mundo alcançaria um estágio mais elevado de progresso ou de civilização; e também porque a guerra entre grandes países, que já se provou ter sido um jogo de soma menor que zero em 1914, hoje deixou de fazer qualquer sentido.
Para compreender a falta de sentido das guerras entre grandes países há um fator adicional, de caráter estrutural, aos dois fatores que acabei de citar. Já em 1914 a causa principal das guerras capitalistas --a definição de fronteiras entre os grandes Estados-nação-- estava deixando de existir porque essas fronteiras estavam praticamente definidas; em 2014, elas estão completamente definidas e tentar mudá-las é inviável.
Vejamos esse argumento em perspectiva histórica. As guerras conduzidas pelos impérios antigos faziam sentido nas sociedades pré-capitalistas porque eram a principal forma de apropriação do excedente econômico por aqueles que tinham mais força. Com a revolução capitalista, a apropriação do excedente passou a ser realizada no mercado, por meio do lucro, de forma que as guerras deixaram de ter a importância econômica que tinham nas sociedades pré-capitalistas.
Entretanto, durante a revolução capitalista que durou cerca de 300 anos, as guerras continuaram atrativas. Estavam, então, se formando os Estados-nação na Europa e, para eles, ampliar suas fronteiras por meio de guerras era fundamental porque só um grande mercado interno viabilizaria a revolução industrial. Por isso, durante essa longa transição, muitas foram as guerras. Mas, em 1914, essas fronteiras já estavam razoavelmente definidas.
Havia, porém, uma causa "racional" para a guerra de 1914. Os países que primeiro realizaram sua revolução industrial e capitalista, Reino Unido, França, Bélgica e Holanda, tiveram força suficiente para reduzir à condição de colônia os povos da Ásia e da África. Era o imperialismo moderno que surgia. Mas a Alemanha e a Itália, que se atrasaram em sua industrialização, não estavam satisfeitas com essa distribuição das colônias entre as grandes potências.
O imperialismo antigo ou clássico entrou em derrocada na Primeira Guerra Mundial com o colapso dos impérios Austro-Húngaro, Russo e Otomano, mas um segundo tipo de imperialismo --o industrial-- ainda parecia viável, e a luta por definir o domínio das colônias talvez seja a principal explicação para essa guerra. Mas logo esse segundo imperialismo também perdeu viabilidade; no mundo moderno, os custos de imperializar outros países tornara-se mais altos do que os benefícios.
As grandes potências lideradas pelos EUA mudaram sua estratégia para um terceiro tipo de imperialismo que já usavam na América Latina e que denomino "imperialismo de hegemonia ideológica". Buscam e geralmente logram convencer as elites locais de que a ocupação dos seus mercados através do financiamento e dos investimentos diretos é benéfica para elas. Mas, para isso, as guerras entre grandes potências não são necessárias. Bastam as guerras localizadas contra pequenos países renitentes em aceitar a dominação por hegemonia dos países ricos.


quarta-feira, 30 de julho de 2014

O "déjà-vu" IDH

Folha de S. Paulo





Flavio Comim

TENDÊNCIAS/DEBATES

O "déjà-vu" IDH


Impossível livrar-se de uma sensação de "déjà-vu" quando se anuncia que o Brasil subiu apenas uma posição no ranking do IDH
Avanço discreto. Crescimento modesto. Progresso tímido. Ritmo lento. Os adjetivos podem variar, mas retratam a mesma realidade já vista nos anos anteriores, que sugere que o país está preso a uma "armadilha de estagnação" do seu desenvolvimento.
Como sempre, o governo brasileiro reclama dos dados desatualizados usados no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Impossível livrar-se de uma forte sensação de "déjà-vu" quando o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) anuncia --outra vez-- que o Brasil subiu apenas uma posição no ranking do IDH.
Em meio à mesmice, a mídia parece estar mais interessada nas divisões internas do PNUD sobre a eficiência do Bolsa Família do que nas informações trazidas pelo IDH deste ano. O "déjà-vu' IDH" parece nos ajudar pouco ou quase nada a entender os desafios de curto prazo e problemas estruturais brasileiros.
A origem desse "déjà-vu' IDH", que nos conta quase a mesma história anualmente, está no tecnicismo que impregnou o modo de interpretar a variação anual do IDH. O que um cidadão comum faria para saber se o país melhorou ou piorou no IDH? Faria uma comparação simples entre o ranking passado e o ranking atual. Mas isso não é o que o PNUD faz.
Primeiro ele atualiza o IDH do ano anterior. Isso gera um "passado revisado". Depois, compara o novo ranking com esse "passado revisado". O resultado disso é que as variações de ranking ficam escondidas entre o passado e o "passado revisado" obliterando informações importantes. Politicamente, ficam soterradas nessa revisão todas as grandes variações que fizeram do IDH um indicador tão relevante para a política pública. Esse procedimento diminui o risco de dar uma má notícia, mas também esconde as boas, o que é o caso agora.
Retiremos o tecnicismo e veremos que o Brasil subiu esse ano seis posições no ranking do IDH. O governo brasileiro estaria agora celebrando ao invés de lamentando. O Brasil estava na 85º posição no ano passado e está agora na 79º posição.
Por outro lado, se aceitarmos o tecnicismo deixaremos de reconhecer o grande avanço brasileiro na área de educação, principalmente no ganho de um ano na expectativa de vida escolar no Brasil, que chega a 15,2 anos de estudo, dado similar ao de Cingapura ou do Japão, por exemplo.
No ano passado, o Brasil tinha 81,1% da expectativa escolar da Noruega (1º no IDH). Agora, subiu para 86,4%, um aumento anual expressivo. Isso não nega os grandes desafios que o país tem pela frente na melhoria da qualidade e desigualdade da educação. Mas, ao reconhecer esse avanço, mostra como muito mais necessita ser feito na saúde e na economia.
O "déjà-vu' IDH" esconde na cortina de poeira do tecnicismo e da conveniência política --que harmoniza e suaviza as variações anuais no ranking do IDH-- lições importantes de política pública. Primeiro, que o Brasil tem feito muito mais pela sua educação do que pela sua saúde. O país incorpora hoje em sua política pública educacional um forte viés de inclusão, de avaliação e de sinergias com o setor privado que não tem paralelo com a política pública de saúde. Segundo, que enquanto há metas claras para a saúde e educação, não há nada estabelecido para um padrão de vida desejado para os brasileiros (a renda nacional bruta per capita do Brasil é apenas 22,3% da renda da Noruega, por exemplo).
Precisamos reconhecer as flutuações nos rankings nominais do IDH para que possamos identificar com maior clareza metas e desafios para o desenvolvimento humano do país. O "déjà-vu' IDH" mais esconde que revela e, portanto, é a antítese da razão de ser do Índice de Desenvolvimento Humano.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Antissionismo é antissemitismo

Folha de S. Paulo



Claudio Lottenberg

Antissionismo é antissemitismo

Após o Holocausto, o antigo antissemitismo foi substituído pelo antissionismo. A máscara é nova, mas a alma horrenda é velha conhecida
O debate sobre o Oriente Médio parece atualmente querer regredir ao pré-1947, quando a ONU decidiu dividir a Palestina em dois países, um árabe e um judeu. Aqui e ali, volta-se a negar o direito à autodeterminação nacional do povo judeu em sua terra ancestral.
A tentativa de demonização do sionismo é apenas isto: a negação do direito de um povo à autodeterminação. Nenhum outro movimento nacional sofreu ou sofre essa campanha contrária avassaladora.
É moda dizer que o sionismo e Israel são entidades coloniais. Nem como piada serve. Os falsificadores da história precisariam explicar por que a URSS votou na ONU em 1947 a favor de um "empreendimento colonial". Votação em que o maior colonizador da época, o Reino Unido, absteve-se. Aliás, a URSS foi o primeiro país a reconhecer Israel.
Nós mesmos somos cidadãos de um país cuja independência foi apoiada pelo Império Britânico. E daí? E daí nada. É comum que nações em busca da autodeterminação explorem as contradições intercolonialistas e interimperialistas.
A divisão de um país em dois aconteceu também em outra descolonização, na mesma época da partilha da Palestina, na joia da coroa britânica, quando Índia e Paquistão viraram dois países. E o critério para a delimitação também foi étnico-demográfico. Incluindo transferências de populações --que hoje viraram sinônimo de limpeza étnica.
O direito à separação de povos e nacionalidades que não desejam viver juntos foi também assegurado, mais recentemente, no desmembramento da ex-Iugoslávia e na extinção da Tchecoslováquia.
Os argumentos deslegitimadores do sionismo mal disfarçam o preconceito e a discriminação.
Guerras têm vencedores e perdedores. O final da Segunda Guerra Mundial assistiu a dramáticos e trágicos deslocamentos populacionais, consequências de realidades produzidas no campo de batalha.
Um caso bastante conhecido é o palestino. Infelizmente, até hoje os palestinos pagam a dívida que seus líderes de então contraíram, ao aliarem-se à Alemanha nazista. Países árabes também invadiram o nascente Estado judeu logo após sua independência, em 1948.
Outro argumento contra o sionismo é que os judeus não seriam um povo, mas apenas uma religião.
Cada nação deve definir sua identidade. Se judeus definem-se por uma religião (o judaísmo), uma língua (o hebraico) e uma terra (Israel), ninguém tem nada a ver com isso.
Imagine-se o escândalo se Israel mudasse de nome, para "Estado Judeu de Israel". Mas não ouvimos reclamações contra, por exemplo, o "Islâmica" em "República Islâmica do Irã" ou "Árabe" em República Árabe do Egito.
O sionismo foi e é apenas isto: a expressão moderna da autodeterminação nacional judaica. E Israel surgiu na descolonização no pós-guerra, beneficiado pelas alianças corretas na vitória sobre o nazismo. Essa é a verdade histórica.
O único caminho para a paz é o reconhecimento das realidades históricas e a divisão em dois países por critérios demográficos. Dois Estados para dois povos.
O antigo antissemitismo saiu de moda após o mundo ter descoberto o Holocausto. Foi substituído por uma nova forma de discriminação: o antissionismo. A máscara é nova, mas a alma horrenda é velha conhecida. Uma verdadeira aberração.

A lição de Daniel

Folha de S. Paulo

Vladimir Safatle

A lição de Daniel

Daniel Barenboim não é apenas um dos músicos mais completos da atualidade; pianista e maestro com interpretações maiores. Na verdade, Barenboim é um homem de rara coragem e visão, capaz de atitudes políticas de forte significado. Judeu argentino, o músico é atualmente cidadão palestino e israelense e, por atos políticos desta natureza, sua voz deveria ser mais ouvida no momento atual.
Há alguns dias, ele escreveu um impressionante artigo, "Podemos viver juntos", no qual lembrava que nunca haverá solução militar para o conflito Israel-Palestina.
Ações como as que vemos atualmente não levarão a aumento algum da segurança de Israel, nem destruirão o Hamas. Por isto, diz Barenboim: "Não faz sentido que Israel se recuse a negociar com o Hamas ou que se recuse a reconhecer o governo de unidade; não, Israel deve escutar os palestinos que estão dispostos a falar a uma só voz".
Claro que alguns dirão: "Mas como negociar com alguém que não reconhece seu direito de existência?". Se assim fosse, não haveria razão alguma para os palestinos negociarem com um governo israelense comandado pelo Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Em seu programa, o Likud simplesmente não reconhece o direito de existência de um Estado palestino à oeste do rio Jordão. No entanto, os palestinos negociam com representantes de um partido que nega seu direito de existência.
Sim, mas como negociar com "terroristas"? Esta era, vejam vocês, a mesma pergunta feita pela administração colonial britânica na Palestina, referindo-se a grupos judaicos de luta armada atuantes nos anos 40, como Irgun, Stern e Haganá. Tanto foi assim que os britânicos sequer votaram a favor da criação do Estado de Israel.
"Terrorista" foi também a palavra usada por Albert Einstein e Hannah Arendt em carta ao "New York Times" (4/12/1948) para se referir ao futuro primeiro-ministro de Israel, Menachen Begin, líder do futuro Likud. Mas, se há algo que a história das lutas de ocupação (Argélia, Vietnã, Irlanda etc.) nos ensina, é: chega uma hora em que você terá que negociar com os "terroristas". Foi isso que a Inglaterra fez com o IRA (Exército Republicano Irlandês), e será isso que, um dia, Israel terá que fazer com o Hamas.
Não é o caso aqui de justificar o Hamas. Trata-se de um grupo que representa o que há de pior no mundo árabe, com um projeto autoritário, destrutivo e demente de sociedade religiosa. Mas seu destino será, provavelmente, o mesmo de grupos muçulmanos como a Irmandade Muçulmana ou o Nahda tunisiano: serão expulsos do poder pelo próprio povo que eles julgam representar. Mas para tanto, o governo de Israel deveria começar por parar de dar a ocasião perfeita para eles posarem de mártires.

Quando todos têm razão

Folha de S. Paulo



Hélio Schwartsman

SÃO PAULO - O conflito entre israelenses e palestinos não se resolve porque cada parte valoriza muito os aspectos em que tem razão, deixando de reconhecer que o inimigo também apresenta pontos válidos.

Os palestinos têm todos os motivos do mundo para rejeitar a ocupação da Cisjordânia e combatê-la. Israelenses estão cobertos de razão ao afirmar que necessitam de fronteiras seguras e que é complicado ter como vizinho um regime cujo principal objetivo é destruir o Estado hebreu. Acrescente-se a isso pelo menos seis décadas de atritos que custaram as vidas de familiares de ambas as partes e conclui-se que israelenses e palestinos têm justificativas de sobra para odiar-se e querer eliminar uns aos outros. Mas, como não há condições materiais ou políticas de fazê-lo, o mais razoável é que encontrem um modo de conviver.
O conflito sobreviveu à Guerra Fria e a incontáveis iniciativas de paz porque caiu na versão bélica do que os economistas chamam de armadilha do equilíbrio estável. Para as lideranças do Hamas, a guerra contra Israel se tornou a principal senão a única razão de existir. É dela que extraem seu poder e seu status social. Dificilmente darão um passo em direção à paz. Israel, por ser uma democracia, a única da região, deveria ser mais maleável. O problema é que é uma democracia bastante disfuncional, na qual pequenos partidos religiosos vêm há décadas servindo como fiel da balança em coalizões frágeis, o que lhes deu um poder desproporcional, que usam para manter e ampliar os assentamentos judaicos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.
Embora não exista solução mágica para o conflito, um modo de fazer com que as lideranças palestinas moderadas voltem a ser vistas como relevantes e se credenciem como o interlocutor de cuja ausência os israelenses tanto reclamam, seria desmantelar essas colônias. Mesmo que isso não resulte na paz, faria muito bem à política e às finanças de Israel.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Eduardo Giannetti Trabalho alienado

Folha de S. Paulo





Eduardo Giannetti

Fernando Pessoa ganhou a vida como tradutor de cartas comerciais; T. S. Eliot como bancário. John Stuart Mill dava expediente na East India Company, e Charles Peirce, no instituto de geografia americano. Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade foram servidores públicos exemplares.

O que é trabalho? O exemplo desses criadores --entre tantos que poderiam ser lembrados-- é sugestivo. Embora premidos a trabalhar para pagar as contas no fim do mês, eles souberam encontrar no seu trabalho fora do emprego --independente de paga e, em alguns casos, até do apreço dos contemporâneos-- uma razão de viver.
Isso permite distinguir duas concepções discrepantes: o trabalho como ganha-pão, exercido sob a pressão da necessidade, e o trabalho como vocação, ou seja, como uma atividade voluntária, não necessariamente remunerada, por meio da qual se busca dar vazão ao impulso criador e alcançar um sentido de realização pessoal.
O ideal de um mundo liberto do trabalho imposto de fora, como obrigação alheia à livre escolha individual, tem uma longa história. A formulação clássica é devida a Marx.
Na sociedade comunista, afiançava ele na "Crítica ao Programa de Gotha" de 1875, "quando tiver desaparecido a subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do trabalho", o trabalho deixará de ser "apenas um meio de vida para tornar-se, ele próprio, a primeira necessidade vital".
O comunismo, sabemos, não honrou a promessa. Ao contrário, levou a alienação do trabalho a novos píncaros, como no conhecido lamento do funcionário soviético --"nós fingimos que trabalhamos e eles fingem que nos pagam". Nada disso, porém, diminui o problema ou faz dele uma prerrogativa do marxismo.
Como já alertava Mill em 1848: "Trabalhar pelo preço oferecido por outro e para o lucro deste, sem interesse algum pelo trabalho --sendo o preço do trabalho ajustado pela competição hostil, com um lado pedindo o mais possível e o outro pagando o menos que puder-- não é, mesmo quando os salários são elevados, um estado satisfatório para seres humanos que deixaram de julgar-se inferiores àqueles a quem servem".
O espantoso é que, não obstante o furioso aumento da produtividade desde o século 19 --o que poderia, em tese, reduzir a necessidade do trabalho alienado--, estamos hoje ainda mais distantes do ideal projetado pelos economistas clássicos do que quando eles o formularam.
A escalada do consumo atropelou o valor da autonomia na vida prática e engoliu o sonho do trabalho como esfera de autorrealização humana. O ter --e não o fazer-- nos define. Não é à toa que o sentimento do vazio, em meio à toda tecnologia e abundância ocidentais, só faz crescer.


Reações violentas

Folha de S. Paulo



 

Governo brasileiro acerta ao condenar desproporção na ofensiva de Israel à faixa de Gaza, mas peca por silenciar sobre ações do Hamas
Depois do choque, a reflexão. Após dizer-se horrorizado com a notícia de que pelo menos 15 pessoas, entre as quais mulheres e crianças, foram mortas num ataque israelense a uma escola mantida pela ONU e que servia como refúgio para palestinos, o secretário-geral da entidade, Ban Ki-moon, resumiu um imperativo: "Parar a matança --e pará-la agora".
É desolador o desenrolar de mais este conflito entre Israel e palestinos, cujo estopim ocorreu em junho, com o assassinato de três adolescentes judeus que pediam carona nas proximidades da Cisjordânia. Pelo menos 700 palestinos, a maioria deles civis, foram mortos nas últimas semanas.
Nesta quarta-feira, em Genebra, a alta comissária dos direitos humanos da ONU, Navi Pillay, afirmou que Jerusalém não fez o suficiente para proteger as vidas de civis durante suas ofensivas aéreas ou ao destruir casas e hospitais.
Pillay, além disso, não descarta a hipótese de que o Estado tenha cometido crimes de guerra, o que será alvo de investigação já aprovada pela maioria dos países em reunião da ONU sobre o tema.
De forma sensata, a representante das Nações Unidas condenou também o grupo radical islâmico Hamas, que controla a faixa de Gaza, por seus ataques indiscriminados contra o vizinho. Além de 32 integrantes das Forças Armadas de Israel, há registro de três civis mortos no país.
Salta aos olhos a assimetria nesse confronto. Lastreado nessa constatação, o Itamaraty emitiu, também na quarta-feira, uma forte nota diplomática.
"O governo brasileiro considera inaceitável a escalada da violência entre Israel e Palestina. Condenamos energicamente o uso desproporcional da força por Israel na faixa de Gaza, do qual resultou elevado número de vítimas civis, incluindo mulheres e crianças."
Não fosse pela completa omissão aos lançamentos de foguetes promovidos diariamente pelo Hamas, o comunicado seria uma justa expressão do descontentamento da comunidade internacional com o andamento do conflito. Houve, em vez disso, apenas a genérica exortação para que as partes cheguem a um cessar-fogo.
No plano doméstico, o silêncio do governo federal quanto aos radicais palestinos reforçou, em pleno período de campanha eleitoral, a polarização ideológica e quase automática em que setores de esquerda engrossam as fileiras da crítica a Israel, enquanto a direita reprova os métodos do Hamas.
Tal seletividade na vocalização da defesa dos direitos humanos --universais por princípio-- é sem dúvida digna de crítica, tanto doméstica quanto internacional.
Seria um rematado exagero, contudo, extrair desse episódio que o Brasil seja país "politicamente irrelevante" ou "anão diplomático". Essa, porém, foi a reação de representantes israelenses nesta quinta-feira, em um claro sinal de destempero e intransigência --atributos que só prejudicam as necessárias negociações de paz para a região. 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ubaldo e a política

Folha de S. Paulo


Bernardo Mello Franco


SÃO PAULO - Muita gente não sabe, mas o escritor João Ubaldo Ribeiro era também cientista político. Foi professor da Universidade Federal da Bahia e, para azar da academia, deixou a cátedra para se dedicar à literatura. Mesmo assim, manteve-se um afiado observador do poder e de seus ocupantes.
Em 1981, lançou "Política", raro ensaio em uma obra marcada por grandes romances e seleções de crônicas. Com estilo despretensioso, o livro foi concebido como um manual para "trabalhadores, estudantes e o povo em geral", no momento em que o país preparava a volta à democracia. Suas ideias continuam atuais, o que indica que os nossos problemas não mudaram muito.
Ubaldo escreve que a política, em qualquer regime, gira em torno de três questões: quem manda, por que manda, como manda. "O Estado representa o interesse público, embora muitas vezes defenda apenas os interesses das elites, das classes dominantes", pontua. "Não importa o que lhe digam, quem manda é quem está levando vantagem."
Sem abrir mão do ceticismo, o escritor defende a política e mostra a fragilidade do discurso de que ninguém presta, que voltou à moda nas manifestações de junho. Para ele, quem gosta de se dizer "apolítico" é na verdade conservador, porque não vê necessidade de mudanças.
Se achamos que os políticos são "pouco dignos de confiança, corruptos, incompetentes e assim por diante", diz, devemos verificar se nossa opinião não se estende também a outras categorias da sociedade, como médicos, mecânicos e banqueiros. "Parafraseando uma frase bíblica, uma árvore boa não pode dar tantos frutos maus", conclui o autor de "Viva o Povo Brasileiro".
No fim do livro, Ubaldo afirma que o cidadão bem informado é mais capaz de fazer suas próprias escolhas. Não deixa de ser também uma defesa do jornalismo, outro setor que ficou mais pobre com a sua morte, na última sexta-feira. 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Livro conta detalhes do fim da segregação nos EUA

Folha de S. Paulo

Legislação que estabeleceu direitos civis no país completou 50 anos nesta quarta-feira (2)
 
RODOLFO LUCENA DE SÃO PAULO
 
Na madrugada daquele feriadão, talvez ainda de ressaca pela magnífica vitória da quinta-feira anterior, o presidente dos EUA bateu na porta do quarto de hóspedes, onde dormia sua secretária.
Geraldine Whittington era uma jovem negra, atraente e competente, que Lyndon Baines Johnson havia contratado cerca de um mês após assumir a Presidência, como que a dar exemplo na luta contra a segregação racial.
Ao som das clandestinas batidas, ela sequer perguntou o que o chefe queria --talvez só uma inocente conversa. Com a porta fechada, avisou que não se sentia bem: "Estou naqueles dias", gritou, para desestimular qualquer insistência.
Johnson, que na véspera havia assinado o que muitos consideram a mais importante lei norte-americana do século passado, entendeu o recado e bateu em retirada.
É com detalhes assim que o jornalista Todd Purdum, do site "Politico" e da revista "Vanity Fair", por 23 anos repórter do "New York Times", recheia seu minucioso relato da aprovação da Lei dos Direitos Civis. O ato, que completou 50 anos na quarta (2), tornou ilegal nos EUA a discriminação por raça, cor, religião, sexo ou país de origem.
Foi assinado num momento de efervescência das lutas populares no país, que ainda lambia as feridas provocadas pelo assassinato do presidente John Kennedy, em 1963. Kennedy foi o "pai" da lei, que anunciou ao país quando a violência contra os negros chegava ao que parecia ser o ponto máximo.
No sul, o movimento negro fazia campanhas contra a segregação racial; em universidades, tropas federais precisavam garantir o acesso dos primeiros estudantes negros, enquanto grupos racistas, apoiados pelas forças repressivas locais, resistiam.
Em Birmingham, a polícia disparava jatos de água contra manifestações pacíficas de estudantes; cães policiais eram atiçados contra jovens, em cena que provocou indignação. Parlamentares sulistas ficaram ainda mais revoltados com a ideia de tornar ilegal a discriminação.
Mas o projeto não morreu com o assassinato de Kennedy: na sua posse, Johnson prometeu levá-lo adiante. Mais que isso: apesar de ter a maioria do Congresso, queria vê-lo nascer com o voto de democratas e republicanos.
PRAGMATISMO
Em "An Idea Whose Time Has Come: Two Presidents, Two Parties, and the Battle for the Civil Rights Act of 1964" (uma ideia cuja hora chegou: dois presidentes, dois partidos e a batalha pela Lei dos Direitos Civis de 1964, em inglês), Purdum acompanha a trajetória do projeto da gestação até a assinatura, na Casa Branca.
O livro se debruça principalmente sobre o processo parlamentar e, por vezes, chega a deixar o leitor embrulhado nas minúcias da tramitação por comissões do Congresso. Não deixa de revelar, porém, a miríade de acordos, pequenas e grandes traições.
Traz também a voz das ruas. É emocionante o relato da construção da Grande Marcha pelos Direitos Civis em Washington, em agosto de 1963, quando o reverendo Martin Luther King fez seu famoso discurso.
Apesar da empolgação, mostra as negociações e o pragmatismo que, nos bastidores, ajudaram a garantir que tudo transcorresse na mais santa paz.
Onze meses depois, King iria à Casa Branca, ao lado de Robert Kennedy e J. Edgar Hoover, testemunhar a assinatura presidencial. Levaria de lembrança uma das canetas usadas no ato em que a discriminação racial foi banida dos EUA --pelo menos, na letra da lei.

AN IDEA WHOSE TIME HAS COME...
AUTOR Todd S. Purdum
EDITORA Henry Holt and Co.
QUANTO US$ 22 (416 págs.)

quarta-feira, 2 de julho de 2014

50 anos do fim do apartheid americano

Folha de S. Paulo



50 anos do fim do apartheid americano

Cinco décadas após a Lei dos Direitos Civis, negros vivem melhor, mas disparidade social nos EUA ainda é grande
ISABEL FLECK DE NOVA YORK Em maio de 1964, o então presidente dos EUA, Lyndon Johnson, defendeu em discurso uma "Grande Sociedade" em que cada cidadão fosse tratado de forma igual, independentemente de "crença, raça ou cor da pele".
O conceito estaria presente na Lei dos Direitos Civis, assinada por ele em 2 de julho daquele mesmo ano, que estabeleceu o fim da segregação racial em escolas, ambientes de trabalho e lugares públicos em todo o país.
Meio século depois, os EUA têm um presidente negro, e a separação legal de espaços com base na cor da pele é parte de um passado distante.
Os negros viram sua renda familiar média crescer, bem como o percentual de adultos que concluem os ensinos médio e superior no país. O casamento inter-racial, proibido em vários Estados há 50 anos, hoje representa uma de cada seis uniões no país.
No entanto, a disparidade entre brancos e negros segue grande nos planos econômico e social, mostrando que os EUA ainda não atingiram a fase "pós-racial", como muitos defenderam após a eleição de Barack Obama.
A diferença entre a parcela de negros e brancos desempregados, por exemplo, é maior hoje (6 pontos percentuais) do que há 50 anos (4,4). O quadro foi agravado pela crise, depois da qual os negros também têm tido mais dificuldade em recuperar postos, segundo números do Departamento de Trabalho.
A renda média de uma família afro-americana ainda representa menos de dois terços da de uma família branca não hispânica. O valor do acúmulo de bens destas últimas, que há 30 anos era quase quatro vezes maior que o de famílias negras, em 2010 representava seis vezes mais.
A diferença entre brancos e negros acima de 25 anos que concluíram o ensino superior nos EUA subiu de 6 pontos percentuais para 13, e a população carcerária continua majoritariamente negra.
"A raça ainda é fator determinante nos EUA hoje, e isso é refletido nos indicadores econômicos. A combinação entre pobreza e isolamento racial é o que torna as expectativas de mobilidade econômica e social tão desanimadoras", avalia Gavin Wright, da Universidade Stanford.
Para Peter Myers, da Universidade do Wisconsin, as causas das disparidades nos campos econômico e social são variadas. "No caso do acúmulo de bens, por exemplo, os esforços sistemáticos ao longo da história para evitar que afro-americanos adquirissem riquezas certamente têm um impacto até hoje."
SEPARAÇÃO POR BAIRRO
Mesmo longe de lembrar a segregação racial imposta em partes do sul do país até a década de 60, grandes cidades americanas têm ainda hoje forte separação, por bairros, entre brancos e negros ""forçada por uma conjunção de fatores econômicos e sociais.
Estudo da Brown University com base em dados do Censo de 2010 mostra que Nova York, Chicago e Miami estão entre as dez cidades mais "segregadas" entre brancos, negros e latinos dos EUA.
Em Nova York, enquanto a parte de Manhattan ao sul do Harlem é basicamente branca, Harlem, Queens e Bronx são majoritariamente negros ou têm forte presença latina.
Em partes do Brooklyn, a "gentrificação" --especulação imobiliária que eleva preços e expulsa parte da população local-- afastou uma grande parcela negra de bairros próximos a Manhattan.
A separação se reflete também nas escolas, com o Estado de Nova York também apresentando as salas de aula mais "segregadas" do país, conforme levantamento da Universidade da Califórnia.
Só 8% das escolas do Estado podem ser consideradas multirraciais, diz o estudo. Das 32 escolas municipais da cidade de Nova York, 19 tinham, no máximo, 10% de estudantes brancos em 2010.
Para Gary Orfield, coordenador do estudo, o fenômeno é explicado por "segregação residencial intensa tanto para negros quanto para latinos e escolas públicas operadas por uma gestão privada, que intensificam a desigualdade". 

Muito além do vizinho

Folha de S. Paulo


Alexandre Schwartsman

Decisão da Justiça dos EUA mostra que é preciso achar outras formas de lidar com reestruturação de dívidas

Pode parecer estranho aos olhos de alguns, mas tanto o governo dos Estados Unidos quanto o FMI não ficaram particularmente satisfeitos com a decisão tomada pelas cortes americanas no que diz respeito à dívida argentina. Sem querer entrar no seu mérito jurídico (mesmo porque me falta qualificação para isto), acredito ser importante explicar o motivo do descontentamento daqueles que são tidos como defensores do imperialismo e, por extensão, dos direitos dos credores.
Tratemos de esquecer que o problema diz respeito à Argentina, ou a qualquer país pelo qual possamos nutrir simpatia ou antipatia referente à sua política econômica, e tentemos pensar em termos genéricos.
Quando uma empresa não consegue mais pagar seus credores, vai à falência: deixa de existir, seus ativos são liquidados e o resultado distribuído entre os credores, em geral seguindo alguma ordem de preferência estabelecida na legislação local.
Um país soberano, por outro lado, não costuma sumir nem pode ter seus ativos liquidados para pagamento de suas dívidas, por exemplo, entregando um pedaço de seu território, ou mesmo o direito às suas riquezas naturais.
Países não vão à falência; chegam, no máximo, mais próximos ao que seria uma concordata, isto é, negociam com seus credores o quanto será possível pagar da dívida original e, a partir daí, recomeçam a vida, normalmente em condições piores de acesso a crédito.
Ocorre que, ao contrário do caso de uma empresa concordatária, não há uma corte que garanta igualdade de tratamento a credores no caso de países soberanos. Alguns podem aceitar os termos propostos pelo devedor, mas outros, insatisfeitos, podem optar por se manter à margem do processo, problema que agora atormenta a Argentina, mas que já nos afligiu em outros momentos da nossa história.
Da mesma forma, quando uma empresa pede concordata, a corte pode determinar aos credores que não a executem, isto é, mantenham linhas de crédito (mantida, é claro, a condição que novos créditos não sejam sujeitos à renegociação); no caso soberano isto não é factível e cada um trata de sair tão rápido quando pode, o que costuma agravar a intensidade das crises.
Para lidar com estes problemas foi proposta, há pouco mais de dez anos, a criação do equivalente a uma corte internacional de falências (SDRM --Mecanismo de Reestruturação de Dívidas Soberanas na sigla em inglês), mas a ideia não vingou.
A alternativa adotada foi a inclusão de Cláusulas de Ação Coletiva nas novas dívidas. Estas permitem que credores que representem uma maioria qualificada (por exemplo, 75% do valor da dívida) possam alterar alguns termos do contrato, obrigando os demais a segui-los. Isto não resolve todos os problemas acima, mas atenua o incentivo a se tornar um credor recalcitrante.
A decisão das cortes americanas atua no sentido oposto. Mérito jurídico à parte, essa jurisprudência cria incentivos para que credores se recusem a participar da renegociação, pois passam a contemplar a possibilidade de receberem a totalidade da dívida, em vez de uma fração dela.
Em particular, no caso de um título com emissão modesta, podem, inclusive, comprar (com desconto expressivo) uma parcela suficientemente alta dele para impedirem a formação da maioria qualificada e assim bloquearem alterações nos termos do contrato.
Isso aumenta o risco da repetição do problema agora observado e torna o mercado internacional de capitais mais instável.
É esta a raiz do descontentamento dos EUA e do FMI. A nova jurisprudência pode tornar muito mais difícil o processo de renegociação de dívida, agravando a instabilidade financeira.
Não nutro qualquer simpatia pela política econômica argentina, mas é fundamental perceber que a decisão das cortes traz implicações que vão muito além do vizinho. Tornou-se ainda mais urgente achar formas de lidar com reestruturação de dívidas soberanas.

aschwartsman@gmail.com
@alexschwartsman

terça-feira, 1 de julho de 2014

Mídia tardou a perceber dimensão do conflit

Folha de S. Paulo



Análise 100 anos da 1ª guerra

Jornais demoraram a notar que assassinato do herdeiro do trono austríaco, há 100 anos, era início de epopeia humana

LEÃO SERVA COLUNISTA DA FOLHA

Não foi fácil para o jornalismo perceber na morte do herdeiro do trono austríaco, Francisco Ferdinando, o início de uma grande epopeia da história humana. O assassinato, estopim da Primeira Guerra Mundial, completou cem anos no sábado (28).
Embora os jornais do dia seguinte destacassem a notícia, ela foi tratada como o fato restrito que teria sido se a diplomacia não tivesse amplificado o embate a ponto de torná-lo uma guerra mundial.
No dia 29/6, "O Estado de S.Paulo" deu a notícia com título de apelo local, "O attentado de Serajevo", pouco acima da metade de sua capa; o "Diário de Notícias" (Lisboa) atribuiu cunho étnico, com o sobretítulo "O Ódio de Raças"; o "Figaro" (Paris) fez um título informativo: "Arquiduque herdeiro da Áustria e sua mulher assassinados na Bósnia". Os três dedicaram um terço de suas páginas.
O "New York Times" deu mais destaque: meia página. A manchete incluiu a informação de que "jovem bósnio vinga a ocupação de seu país". O relato dos acontecimentos do dia anterior destaca a decisão equivocada que levou o nobre austríaco, apesar de alertado, a seguir para a morte por tiros depois de escapar de um primeiro atentado, a bomba. Nenhum dos quatro jornais previu a guerra, menos ainda mundial.
Os disparos do bósnio-sérvio Gavrilo Princip poderiam ter dado início apenas a um conflito regional, talvez virasse uma Terceira Guerra dos Bálcãs (após as de 1912 e 13). Mas as negociações que se seguiram, na chamada "Crise de Julho", atraíram para o embate as demais potências europeias, globalizando o conflito. É o tema do livro "Os Sonâmbulos" (Cia. das Letras), de Christopher Clark.
Pelos jornais, a Primeira Guerra levou cerca de um mês para nascer, enquanto a Segunda teve parto mais rápido: com a invasão da Polônia, em 1º/9/1939.
O "Estadão" deu manchete precisa: "Começou a guerra na Europa", enquanto o "Diário de Notícias" perguntava: "Malograram-se as tentativas para salvar a paz?". O "NYT" publicou todas as notícias, mas não explicitou em título o conflito continental.
Embora seja a "testemunha ocular da história", frequentemente o jornalismo tem dificuldade de lidar com as raízes que podem elucidar os fatos. Sua matéria prima é a notícia e o prato quente que oferece é o texto surpreendente, que pareceria requentado se fosse previsto antes.
Ao avaliar a cobertura que fez da Guerra do Vietnã (nos anos 1960), o repórter americano David Halberstam disse: "O problema é tentar cobrir uma coisa todos os dias como novidade, quando é tudo uma consequência da Guerra Franco-Indochinesa, que já é parte da história" ("A Primeira Vítima", de Philip Knightley, 1978).
Há exceções. Em plena Primeira Guerra, o escritor John Reed publicou um relato de viagem pela Europa do Leste conflagrada. No livro, diz: "A questão macedônica [dos Bálcãs] tem sido a causa de todas as grandes guerras europeias nos últimos 50 anos. Até que seja resolvida, não haverá paz, nos Bálcãs ou fora deles". ("War in Eastern Europe", 1916).
A frase é uma das citações mais populares da bibliografia sobre conflitos nessa região. Em 30 palavras, o jornalista que ficaria famoso com "Os Dez Dias que Abalaram o Mundo" (sobre a tomada do poder na Rússia pelos bolcheviques, em 1917) resume o passado e prevê o futuro.
A raiz dos conflitos: "A Macedônia é a mais terrível confusão étnica jamais imaginada. Turcos, albaneses, sérvios, romenos, gregos e búlgaros vivem lado a lado sem se misturarem".
O que aconteceu: as causas de tensão não foram resolvidas, por isso, nas décadas seguintes, houve vários conflitos na região.
Se ampliamos o foco um pouco mais para o leste vemos confusões análogas de país em país. Reed ajuda a interpretar as crises entre Rússia e vizinhos e prever outras.
O desconforto do jornalismo com a história motivou decisão radical do dissidente iugoslavo Milovan Djilas (1911-95), que foi dirigente comunista, até cair em desgraça e passar anos preso.
O escritor Robert D. Kaplan conta: "Eu percebi que Djilas acertava sempre, era capaz de prever o futuro. Seu método era simples para um europeu do leste e difícil para um americano: ele ignorava o noticiário e pensava apenas historicamente. O presente para ele era apenas um momento do passado se movendo rápido para o futuro" (em "Balkan Ghosts", 1993).
Djilas então deve ter previsto uma Europa do Leste fragmentada em inúmeros pequenos países e cheia de disputas nacionalistas. Como há cem anos. 

terça-feira, 27 de maio de 2014

Terremoto

Folha de S. Paulo
Vladimir Safatle

Um terremoto nem sempre é percebido quando ocorre. Não porque ele seja fraco, mas porque é próprio da natureza de certos homens e mulheres querer acreditar que as dificuldades de hoje apenas repetem as dificuldades de ontem e que, sendo assim, não devemos nos preocupar mais hoje do que ontem. A força de um terremoto, no entanto, ocorre mesmo a despeito do desejo de negá-la.
Dessa maneira, há de se dizer: um terremoto ocorreu na Europa no último domingo (25). Nunca em sua história uma eleição para o Parlamento Europeu foi tão dominada por partidos de extrema direita. Antes, ela ganhara eleições em países menores, como na Dinamarca e nos Países Baixos, e participara de governos, como na Itália e na Áustria. Mas a extrema direita nunca fora vitoriosa de maneira tão clara em países absolutamente centrais, como agora o foi no Reino Unido e na França.
Agora, partidos racistas e xenófobos, com programas claramente protofascistas, influenciarão como nunca a política europeia. Não devemos imaginar que a eleição do último domingo foi um ponto fora da curva. Na verdade, ela foi apenas o começo.
As marchas contra o casamento homossexual, a islamofobia medieval, o recrudescimento da "identidade nacional": todos esses fenômenos são sintomas de uma bem-sucedida estratégia de mobilização do medo como afeto central da política que veio para ficar. Medo do fim das "nossas tradições e formas de vida", medo da insegurança, medo da pauperização.
A raiva contra as decisões impessoais dos tecnocratas opacos de Bruxelas se transformou em ódio contra o vizinho imigrante com suas pequenas diferenças. O continente europeu parece, mais uma vez, incapaz de sair de suas crises sem que sua impotência em construir alternativas econômicas se transforme em pânico paranoico contra populações que vivem em seu território.
Depois dessa eleição na Europa, discursos preconceituosos --até então feitos entredentes-- circularão sem receios, ações que muitos temiam fazer a céu aberto serão cada vez mais banais, violências contra populações mais vulneráveis serão vistas como ações de autodefesa.
Muitos são os responsáveis por tal catástrofe, mas mesmo quando governos ditos de esquerda se esmeram em agir com a lógica securitária da extrema direita, chega um momento em que as pessoas irão preferir escolher o original.
A ausência de coragem da social-democracia europeia em quebrar de vez com a política de brutalidade identitária herdada de seus antecessores será certamente um das maiores dívidas que a história cobrará de seus líderes enfraquecidos e sem rumo.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Putin olha para o leste

Folha de S. Paulo



Kenneth Maxwell

Vladimir Putin está olhando para o leste. Em uma visita de dois dias à China para uma reunião com o presidente Xi Jinping, Putin transformou a assinatura de um contrato de fornecimento de gás natural à China em peça central de sua estratégia. As negociações entre a estatal chinesa National Petroleum Corp e a estatal russa de gás natural Gazprom foram encerradas nesta quarta-feira (21). Estima-se que o acordo seja de mais de US$ 400 bilhões. A China é "um amigo confiável", disse Putin.
Desde que a Rússia anexou a Crimeia, Putin está ansioso para demonstrar que não está isolado. A China é uma resposta óbvia. Putin deve assinar com o presidente chinês outros 30 acordos como o da Gazprom, incluindo três novos projetos de investimento conjunto entre o Fundo de Investimento Direto Russo e a China Investment Corporation, envolvendo energia, transporte e infraestrutura. Os chineses são os maiores parceiros comerciais dos russos, com comércio bilateral de US$ 90 bilhões ao ano, um montante que deve chegar a US$ 200 bilhões anuais no final da década.
Enquanto Putin olha para o leste, Obama olha para o oeste. O presidente americano acabou de concluir uma visita de sete dias ao Japão, Coreia do Sul e Malásia, além de fazer sua primeira visita oficial às Filipinas, onde assinou um tratado de defesa de dez anos que dá aos EUA acesso às bases militares filipinas que os americanos perderam ao fechar a base aérea Clark e a base da baía de Subic, nos anos 90. Tudo isso tem por objetivo firmar as alianças asiáticas dos EUA diante das ambições territoriais chinesas na região.
Os Estados Unidos saíram ao ataque contra a China nesta semana. O Departamento de Justiça apresentou queixas-crime contra cinco oficiais das Forças Armadas da China, alegando que eles hackearam os sistemas de cinco empresas norte-americanas. Foi a primeira vez que Washington acusou um governo estrangeiro desse tipo de delito.
O quadro é mais complicado, claro. Obama não obteve seu principal objetivo nas visitas a Tóquio, Seul, Kuala Lumpur e Manilha, que era a aprovação dos parceiros asiáticos a um acordo de livre comércio no Pacífico. Do lado de Putin, embora o petróleo e o gás natural respondam por mais de 50% da receita do governo russo, os consumidores da Europa e, especialmente, da Alemanha, precisam do petróleo e gás natural russos tanto quanto a Rússia precisa do dinheiro dessas vendas. Os benefícios para os russos de qualquer acordo com a China são para o futuro.
A Crimeia e a Ucrânia podem não ter levado ainda a uma nova guerra fria. Mas no leste como no oeste a sensação é a de que ela está por surgir.

Colômbia imprevisível


Há quatro anos, Juan Manuel Santos se tornou o presidente mais bem votado da história da Colômbia, apoiado por 69% dos eleitores no segundo turno. Hoje candidato à reeleição, enfrenta disputa acirrada e imprevisível.
As duas circunstâncias --sua caminhada tranquila e suas dificuldades presentes-- estão relacionadas à atuação de Álvaro Uribe. Se o popular ex-presidente (2002-2010) apadrinhou Santos e o conduziu ao poder, ele agora faz de tudo para derrotar o ex-aliado.
Legalmente impedido de concorrer à Presidência por já ter exercido dois mandatos, Uribe é o principal cabo eleitoral de Óscar Iván Zuluaga, seu ex-ministro da Fazenda e fiel seguidor. O candidato oposicionista disputará o primeiro turno neste domingo (25) em situação de empate técnico com Santos.
O debate se concentra sobretudo na divergência a respeito das negociações de paz com a guerrilha das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) --o conflito armado dura quase meio século.
Grande parte da popularidade de Uribe decorre de seu rigor nesse tema. Atualmente acuadas, as Farc controlavam, no início dos anos 2000, porção expressiva do território colombiano e, com o financiamento do narcotráfico, tinham poder operacional para realizar sequestros, assassinatos e atentados terroristas.
De 2006 a 2009, coube ao hoje presidente Santos, então à frente do Ministério da Defesa, papel de destaque na implementação da política linha-dura.
No início de seu mandato, Santos deu sinais de que abandonaria tal orientação quando buscou melhorar as relações com Hugo Chávez (morto em 2013). Para Álvaro Uribe, o venezuelano era um ditador aliado das Farc.
Pouco depois, criador e criatura romperam. Santos iniciou negociações de paz com a guerrilha; Uribe viu na iniciativa uma ameaça às conquistas de seu governo, obtidas "manu militari".
Em entrevista a esta Folha, Santos defendeu o processo que começou. Seu adversário, Zuluaga, declarou, também a este jornal, que suspenderá as tratativas em andamento desde novembro de 2012.

O provável segundo turno, no dia 15 de junho, dará ocasião para que esclareçam pontos obscuros de seus programas e ampliem os temas em debate. A Colômbia, afinal, não é refém das Farc.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Acusado pela morte de Paiva nega ter colaborado no crime

Folha de S. Paulo



Ditadura

DO RIO - Um dos militares denunciados pelo homicídio do ex-deputado Rubens Paiva, o coronel do Exército Rubens Paim Sampaio negou, em depoimento ao Ministério Público Federal, que estivesse nas instalações do DOI-Codi do Rio quando Paiva foi torturado.
Em declaração que faz parte da denúncia, o coronel Ronald Leão, morto em novembro de 2013, diz ter sido impedido pelo coronel Paim Sampaio de entrar na sala onde o ex-deputado era torturado. Para a Procuradoria, Paim Sampaio teve "participação comissiva" na morte, impedindo a entrada de alguém que poderia intervir. Ele nega e diz que soube da morte de Paiva por um telefonema "de uma pessoa do DOI cujo nome não se recorda".

Tragédia

Antonio Delfim Netto

Os excelentes economistas Carlos Antônio Rocca e Lauro dos Santos Junior, do Centro de Estudos do Mercado de Capitais do Ibmec (Cemec), acabam de divulgar um trabalho fundamental para o entendimento do que está acontecendo no cerne da economia brasileira, "Investimentos das Companhias Abertas e seu Financiamento no Período 2005 a 2013". A tradição dos estudos dos ilustres professores é de ir à economia quantitativa realmente séria. Vão à "salsicha" para ver como ela é feita. Não se perdem nas receitas de como elas deveriam ser feitas, que tanto encantam os neoliberais e heterodoxos que infestam o cenário econômico nacional.
As contas nacionais dos últimos anos revelam uma taxa de investimento em níveis próximos de 20% do PIB no período 2010-2011, reduzida para 18% em 2013 (menos 2%). A taxa de poupança doméstica caiu ainda mais no mesmo período: de 17% para 14% (menos 3%), o menor nível desde 2002. Isso sugere que o aumento do consumo doméstico foi financiado pela poupança externa: o deficit em conta corrente aumentou de 2,5% do PIB em 2011 para 3,6% em 2013.
Em trabalho anterior os mesmos economistas mostraram que a maior parte da queda da poupança interna não resultava da redução da poupança das famílias, mas, essencialmente, da queda da poupança das empresas evidenciada na redução do importante fluxo dos lucros retidos, fundamental para financiar os investimentos. O novo trabalho tenta quantificar em que medida as companhias abertas, não financeiras, contribuíram para aqueles resultados, a partir de uma análise dos dados obtidos com a consolidação de balanços das empresas que compõem a base de dados da consultoria Economática.
Estudos como esse são sempre sujeitos a "armadilhas" metodológicas que os autores identificam e procuram evitar. A conclusão mais importante é que "as empresas abertas não financeiras reduziram sua poupança e investimento de forma ainda mais acentuada que o conjunto das empresas não abertas". E que, "em geral, optaram em reduzir os investimentos, manter a distribuição de dividendos, reduzir a participação de recursos próprios e aumentar suas dívidas para financiar os menores investimentos", o que terá graves consequências sobre o crescimento futuro. O gráfico abaixo resume a tragédia.

terça-feira, 20 de maio de 2014

O medo do novo

Vladimir Safatle

O filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995) costumava dizer que algo novo nunca aparece de uma vez. Pois, quando se nasce, sempre se nasce frágil e titubeante, acostumando-se aos poucos com a situação na qual o recém- -nascido se encontra pela primeira vez.
Por isso, o que é novo, para poder sobreviver, precisa revestir-se por um tempo com a capa do já visto. Assim, as forças que no fundo tudo fazem para deixar as estruturas intocadas não irão destruir o que acabou de nascer. Elas nem sequer perceberão sua singularidade, até que seja tarde demais para reagir.
Essa descrição de Deleuze era, na verdade, uma espécie de conselho que talvez seja a nossa versão contemporânea para as virtudes da prudência. O tipo do conselho de que sempre nos esquecemos quando agimos.
Na maioria das vezes, nossos desejos são maiores do que a nossa capacidade de preparar as nossas ações. Por isso, talvez, tantos projetos de transformação acabem abortados, muitas vezes por interesses de conservação do que já perdeu seu tempo, mas que faz de tudo para esconder dos outros que já está morto.
Acho que tal perspectiva vale, principalmente, para o que se passa agora no campo da política. Estamos em um momento que está apenas começando e exigirá toda nossa criatividade e paciência para a construção de novas experiências políticas.
Alguns gostariam de confiar na espontaneidade da revolta, mas como mostram os desdobramentos da Primavera Árabe no Egito, o entusiasmo por si só não garante a realidade de nossos sonhos.
Outros entendem que a potência do novo sempre traz no seu bojo novas formas de organização, mas permitir que tais novas formas não sejam destruídas em seu nascedouro nem sempre é fácil.
No que diz respeito ao campo das esquerdas, há de se dizer que ainda conseguiremos criar uma esquerda não dirigista, que não seja refém de interesses eleitorais comezinhos travestidos de necessidade histórica, que pare de usar o discurso do medo para esconder sua falta de capacidade de produzir futuros.
Uma esquerda que demonstre à sociedade não os seus conflitos internos ou as suas depressões seguras, mas, sim, sua força criativa. Uma esquerda que entenda como é impossível defender a transformação da experiência democrática na sociedade enquanto continua a ter as piores práticas no interior de certos aparelhos partidários. Pois ninguém confiará em alguém incapaz de fazer na própria casa aquilo que se propõe a fazer na casa dos outros.
Há uma juventude combativa e dinâmica que sabe disso e que aprendeu a não se contentar com pouco.