sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Kennedy

Museu reedita exposição que Kennedy viu no dia da morte
SILAS MARTÍDE SÃO PAULO
Na noite antes de seu assassinato, que hoje completa 50 anos, o presidente John Kennedy e sua mulher, Jacqueline, dormiram num quarto de hotel cheio de obras de arte, entre elas peças de Picasso, Monet e Van Gogh.
Era a suíte 850 do Hotel Texas em Fort Worth, de onde partiram para Dallas na manhã seguinte, quando Kennedy foi morto.
As 16 obras não eram, é claro, parte da decoração do hotel. Mas sim fruto da ideia de um crítico de arte de um jornal local que convenceu os maiores colecionadores dali a emprestarem obras-primas para surpreender o casal.
Um museu em Fort Worth agora relembra a data reunindo quase todas essas peças na mostra que leva o nome do antigo hotel onde Kennedy passou a última noite.
"Era o hotel mais chique da cidade", conta Shirley Reece-Hughes, curadora da mostra no Museu Amon Carter. "Eles iam ficar no maior quarto de todos, no 13º andar, mas o serviço secreto achou a outra suíte mais segura por ter menos acessos."
Mesmo menor, o apartamento tinha dois quartos e uma sala de estar. De acordo com o protocolo da época, Kennedy e Jackie dormiram em quartos separados.
No quarto dela, por causa de sua ascendência francesa, estavam obras de impressionistas como Monet e Van Gogh. O dele tinha clássicos da arte americana, como "Swimming", obra-prima que Thomas Eakins pintou no século 19, retratando garotos nadando num lago.
Mas Kennedy e a primeira dama só foram perceber que estavam numa espécie de minimuseu no dia seguinte. Depois de um atraso no jantar em Houston, o casal voou até Fort Worth e chegou ao hotel quase à meia-noite, indo direto para a cama.
Talvez isso explique porque trocaram de quarto. Restos de espuma de barbear no quarto preparado para Jackie indicam que o presidente dormira entre os impressionistas, enquanto manchas de maquiagem no outro quarto dão a entender que a primeira dama ficou por ali.
No dia seguinte, espantados com as obras, Kennedy e a mulher quiseram agradecer Ruth Johnson, a colecionadora que organizou a mostra. Sem saber seu telefone, pediram a agentes da guarda presidencial que procurassem todas as mulheres com esse nome na lista telefônica até acharem a Ruth correta.
"Kennedy falou com ela, depois passou o telefone para Jackie, que disse que as obras eram tão lindas que ficaria difícil sair do quarto", conta a curadora. "Esse foi o último telefonema que Kennedy deu em vida para alguém fora de seu círculo."
Para Reece-Hughes, o objetivo é "reconstruir aqui a parte que foi esquecida dessa história."

O anjo da história

JOSÉ ANÍBAL
O anjo da história
Se hoje algo retoma, de algum modo, os tempos de Jango, é certo recurso retórico a um populismo fácil, de sínteses pretensiosas e rasas
Em meados dos anos 1970, exilado em Paris, tive a oportunidade de conversar com o general Euryale de Jesus Zerbini, defensor da legalidade durante o golpe de 1964, em seguida isolado, preso e reformado.
Entre outros episódios, Euryale de Jesus Zerbini contou que, no início do golpe militar, o presidente João Goulart lhe telefonou para saber como estava a estratégica unidade do Exército de Caçapava, então comandada pelo general.
Zerbini reiterou sua lealdade e sua determinação de acatar as ordens do presidente. Jango agradeceu e encerrou a conversa dizendo que ligaria novamente para instruí-lo. Com nostalgia, o general arrematou: "Estou esperando o telefonema até hoje".
Lembrei-me desse episódio ao ler o estimulante artigo de André Singer, "Longa ausência", publicado na Folha de sábado passado, 16 de novembro ("Opinião"). Singer menciona um episódio do livro de memórias do notável Almino Affonso ("Da Tribuna ao Exílio") sobre os últimos momentos de João Goulart em Brasília, em 1º de abril de 1964.
Nesse caso, a "vilania dos traidores", para usar a expressão de Salvador Allende, refere-se à sabotagem da Varig, cujo avião, que deveria levar Jango para o Sul, ficou em solo. Jango embarcou em um avião da FAB (Força Aérea Brasileira) e esperava voltar a Brasília em 48 horas. Assim como o telefonema ao general Zerbini, Jango não retornou.
Então, outra vilania, esta do presidente do Senado, que declarou vaga a Presidência da República. O então presidente levou quase meio século para voltar a Brasília, pela mesma FAB que o levou embora.
Segundo Singer, Jango teve de esperar não apenas a morte, "mas também que viesse um período político que, de algum modo, retoma o seu, para que pudesse reassumir, na quinta-feira anterior [14 de novembro], o lugar que lhe cabe como antigo chefe de Estado".
Todos os brasileiros --todos nós que lutamos contra a ditadura, todos nós que reconhecemos na democracia um valor universal-- "reassumimos" junto com o presidente João Goulart durante a homenagem da semana passada.
O Brasil amadureceu, passeou por todo o espectro ideológico em mais de 20 anos de democracia, sempre com transições republicanas --mesmo no impeachment de Collor. Jango não teve a mesma sorte. Nem o Brasil. Onde a similitude entre a época de Jango e a atual?
No governo FHC, a tutela militar sobre o poder civil, com a criação do Ministério da Defesa, esvaiu-se. Assim como a violência política e qualquer tentativa de desestabilização por agentes internacionais.
Nos propósitos e nas circunstâncias, mas sobretudo pela postura institucional de temperança e austeridade, nada poderia estar mais distante de João Goulart do que o momento presente, tanto nas virtudes quanto nos defeitos.
Se é o reformismo de Jango que o emparelha aos governos do PT, haja viseira ideológica. Apesar do patente desejo da sociedade por mudanças, nada tem sido mais antirreformista do que o PT no poder.
A última das descomposturas, o mensalão, mal esfriou e nem assim procuraram uma tranca para a porta arrombada. O sistema político, como de resto o governo, anda para trás. Reforma, que é bom, nenhuma.
Discursos exaltados, abusando de rede nacional, não tangenciam questões políticas relevantes. Deixam mais insatisfação do que esperança de mudança.
Se algo retoma, de algum modo, aquele tempo, é certo recurso retórico a um populismo fácil, de sínteses pretensiosas e rasas, que se apropria da história confundindo a ênfase com o fato.
Singer, como um anjo da história, observa os homens de longe, fora do tempo e acima das coisas.

Dallas marcada

RUY CASTRO
Dallas marcada
RIO DE JANEIRO - É provável que Dallas, no Texas, nunca se livre do estigma de ser a cidade onde, há 50 anos no dia de hoje, John Kennedy foi morto. Outras cidades já foram palco de assassinatos iguais ou piores, como o de César, em Roma, ou o de Lincoln, em Washington, mas havia algo de inevitável nisso. Afinal, eles trabalhavam nelas.
Dallas, não. Seu ódio contra Kennedy era maciço, e o desfile do presidente em carro aberto, uma provocação. Hoje Dallas tenta apagar essa imagem, mas todos sabem que Lee Oswald, o assassino, apenas fez o que muitos políticos, fazendeiros, empresários, protestantes, valentões e racistas da cidade gostariam de ter feito.
Columbine, no Colorado (1999), e Newtown, em Connecticut (2012), onde dezenas de inocentes foram fuzilados por psicopatas, e a praia da Luz, no Algarve, em Portugal (onde, em 2007, desapareceu a menina inglesa Madeleine), também ficaram marcadas. Essas cidades não contribuíram para as tragédias, mas continuarão lembradas como seus cenários.
Por mim, quero que Dallas se dane. Foi a única vez em que, ao entrar nos EUA sem ser por Nova York, a imigração me parou. Se bem que talvez eles tivessem razão. O ano era 1988, e eu estava vindo de Cuba pela Cidade do México --daí o desembarque lá. Talvez tenham visto em mim um contrabandista de charutos, porque me fizeram abrir a mala.
Eu não trazia nenhum charuto, e sim um comprometedor estoque de biquínis brasileiros. Manuseando, cheirando e quase comendo aqueles microssutiãs e calcinhas, devem ter pensado que eu era um agente do tráfico de brancas. Custei a convencê-los de que eram um presente da "Playboy" brasileira para sua irmã americana, e que eu os estava levando de favor. E vinguei-me dizendo que, perto dos nossos, os biquínis das mulheres americanas ficariam melhores se usados como paraquedas.