quinta-feira, 25 de julho de 2013

A mensagem do padre Antonio Vieira

ANITA WAINGORT NOVINSKY
TENDÊNCIAS/DEBATES
As ideias do jesuíta Antonio Vieira sobre a reconciliação de judeus e cristãos encontram eco nas palavras calorosas de outro jesuíta, quatro séculos depois

Com o estabelecimento do Santo Ofício da Inquisição em 1536, desenvolveu-se em Portugal uma tradição de clandestinidade que acabou se incorporando profundamente à vida nacional.
A insegurança que a Inquisição produziu em todos os portugueses por meio da fiscalização, das denúncias anônimas e da censura escrita e falada condicionou atitudes e comportamentos dúbios. Sem saber de que ângulo provinha o perigo, portugueses criaram um verdadeiro talento para dissimular.
Uma "outra" leitura de alguns textos do padre Antonio Vieira (1608-1697) nos revela um Vieira "escondido" em suas dissimulações. A íntima convivência com judeus na Holanda e na França e com cristãos novos em Portugal e no Brasil marcou de maneira profunda suas ideias sobre esse povo e seu destino.
Sua larga e universal concepção do mundo, suas ideias sobre justiça, sua crítica à corrupção da igreja e sua valorização extrema do povo judeu chocavam-se com o fanático mundo lusitano. Numa sociedade como a portuguesa, na qual o critério para a valorização do homem é sua origem e seu sangue, Vieira se elevava acima de seu tempo. "A verdadeira fidalguia é a ação: o que fazeis, isso sois, nada mais", escreveu ele.
Analisando sua visão sobre os judeus, que emerge nas entrelinhas de suas obras, sentimos uma preocupação constante com a reconciliação entre o judaísmo antigo e a doutrina de Cristo, entre o povo judeu e os cristãos.
Para os ouvidos conservadores e antissemitas portugueses do Setecentos, certamente soavam chocantes suas reflexões, principalmente quando ele constrói um paralelo entre a situação política de Portugal (então sob domínio da Espanha) e a dos judeus: "Todos os homens desejam soberania e não querem estar sujeitos a estranhos. Assim é o direito dos judeus esperarem justamente serem reconduzidos à sua pátria". Para Vieira, o mito do retorno dos judeus à Palestina "não é apenas uma promessa divina, mas é um direito legítimo, porque vivem sob o jugo estranho".
Nos seus últimos anos, Vieira viveu na Bahia, rodeado de cristãos-novos e judaizantes, compartilhando com eles de uma seita milenarista. Em sua obra-prima "Clavis Prophetarum", procura ler então nas Sagradas Escrituras o que está oculto e reafirma seus sonhos de reconciliação entre judeus e cristãos.
Quando os ritos judaicos dos cristãos novos eram punidos até com a morte pela Inquisição, Vieira afirma que deviam ser permitidos, pois seu uso não fora proibido por Deus, mas meramente pela igreja. E vai ainda mais longe, afirmando que a circuncisão será permitida aos cristãos, não como culto religioso, mas como sinal da Lei Antiga, derivada de Abrão.
Mas o que manipula de uma forma magistral é a sua concepção do Messias, ponto crucial das divergências entre cristãos novos e velhos --ou seja, o Messias já vindo e o Messias ainda esperado. Entra, então, no imaginário judaico, afirmando que a paz no mundo é uma das principais consequências da vinda do Messias, "e como a paz não existe, o Messias ainda não veio".
Numa Europa impregnada de previsões apocalípticas, profecias, ocultismo, heterodoxias e milenarismos, Vieira se fundamenta no Velho Testamento, joga com as palavras e com o poder e coloca-se como um ecumênico, cuja mais forte mensagem é a reconciliação entre judeus e cristãos.
Navegando na interpretação das Escrituras, lança a mensagem mais esclarecida, humana e moderna que se ouviu no Setecentos português: a liberdade dos cristãos novos de serem judeus.
Felizmente, quatro séculos depois, a mensagem do jesuíta Antonio Vieira encontra eco nas palavras calorosas de outro jesuíta, o novo papa Francisco, sobre os judeus.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Milagre

ANTONIO DELFIM NETTO
Há muitos anos, quando o Brasil era capaz de humor pedagógico exercido por um inesquecível Chico Anísio, havia uma personagem na escolinha do professor Raimundo que afirmava: "quero um vestido Dior e uma viagem a Paris". O professor então lhe perguntava: "mas se quer por que não tem"? E ela respondia: "me falta só uma coisinha, o dinheiro".
É essa questão que parece estar na cabeça da "manada irracional" que, segundo o presidente da Confederação Nacional dos Municípios, levou alguns prefeitos a vaiarem a presidente Dilma Rousseff, depois de terem recebido 15,7 bilhões de reais de repasses para melhorar basicamente os serviços de saúde e 4,7 bilhões para a construção de 135 mil unidades do programa Minha Casa Minha Vida.
Ela não se alterou, mas não deixou por menos. Disse à manada, "Vocês são prefeitos como eu sou presidenta. Vocês sabem que não tem milagre. Quem falar que tem milagre na gestão pública sabe que não é verdade".
Foi confortador ouvi-la, porque às vezes o governo e o Congresso parecem transacionar com milagres. O pânico revelado na tumultuada resposta de ambos à "voz das ruas" mostrou que em situação de estresse eles também podem confundir "desejos" com "recursos", com sérias consequências sobre o equilíbrio econômico sem, ao fim, corrigir os desequilíbrios sociais.
A enfática declaração de Dilma de que não há milagre na gestão resume-se no seguinte: só podem ser distribuídos e utilizados internamente os recursos que foram produzidos (PIB), somados aos eventuais ganhos na relação de troca e ao que tomamos emprestado no exterior, que dependem, respectivamente, da conjuntura e da paciência dos credores.
Entre 2003 e 2010, a renda interna cresceu mais do que o PIB (4,1%) devido à melhoria da relação de troca. Entre 2011 e 2013, o PIB crescerá talvez, 2,0% (2,5% para 2013) e a renda ainda menos, pela sua inversão. É urgente, portanto, cooptar o Congresso para uma agenda positiva de reformas microeconômicas que aumentem a produtividade total da economia. Descoordenado como está, sua propensão à demagogia nas vésperas da eleição poderá levá-lo a continuar a namorar com "milagres"...
A volta ao crescimento está ligada à expansão dos investimentos privados em infraestrutura e à maturação das reformas no campo da energia e nos portos. A primeira depende de leilões bem projetados, apoiados em minuciosos "planos de trabalho" que estimulem a competição e determinem a menor taxa de retorno. Isso exige a superação da pretensão de saber que alimenta o amadorismo que os tem dominado. A segunda vai ocorrer em dois ou três anos.

Nova marcha chinesa

O crescimento do PIB chinês no segundo trimestre é mais uma evidência de que a segunda maior economia do mundo continua a desacelerar.
Verdade que investidores imaginavam que a velocidade da expansão chinesa pudesse diminuir de forma abrupta. Não foi o que aconteceu. O avanço de 7,5%, na comparação com o segundo trimestre de 2012, representou redução suave em relação aos três meses anteriores, quando a China cresceu 7,7%.
Mesmo que o PIB chinês se estabilize em 7,5% neste ano, já será registrado o menor incremento em quase duas décadas e meia. Não se descarta, todavia, que o governo venha a aceitar um crescimento menos expressivo.
O motivo é a inflexão no modelo de desenvolvimento da China. Aos poucos, as exportações e o investimento governamental deixam de ser o motor da economia, substituídos pelo consumo privado.
Há muito a avançar nesse campo. Enquanto o consumo das famílias brasileiras equivale a 62% do PIB, na China essa proporção é de apenas 35%.
Não se trata de transição simples. Para focalizar um exemplo atual, analistas internacionais consideram premente a reforma do sistema financeiro chinês, hoje pouco transparente. Nada menos que um terço do crédito do país, segundo a agência de classificação de risco Fitch, circula em uma espécie de mercado paralelo.
Como nem o governo pode aferir a real qualidade desses empréstimos, é difícil assegurar que a expansão do consumo tenha base sólida para sustentar o crescimento.
A mudança de marcha é sentida de forma mais intensa em importantes parceiros comerciais da China. Na Alemanha, principal economia europeia, as exportações diminuem. No Brasil, o preço dos produtos vendidos no exterior declina.
A desaceleração chinesa pode ser particularmente dura para a economia brasileira, uma vez que ocorre ao mesmo tempo que a retomada do crescimento dos EUA --ao refluxo de capitais para o mercado americano, já em curso, se somaria uma crescente perda de receitas com vendas ao exterior.
O desafio é enorme, e o Brasil não conseguirá enfrentar a nova situação sem repensar amplamente sua estratégia. Torna-se cada vez mais importante gastar melhor os impostos que arrecada, incentivar a eficiência das empresas exportadoras e oferecer condições mais atraentes aos investimentos produtivos.

sábado, 6 de julho de 2013

Fora de compasso

Fora de compasso
Derrotas sofridas por Dilma Rousseff expõem estilo errático de sua gestão, que precisa assumir novos rumos na política e na economia
Desde o dia 21 de junho, quando se manifestou em rede nacional de rádio e TV sobre a onda de protestos que se alastrava pelo país, a presidente Dilma Rousseff tem acumulado graves reveses.
Naquele pronunciamento, a mandatária observou com propriedade que "a nova energia" das ruas poderia impulsionar necessárias mudanças institucionais. A sugestão mais audaciosa nesse sentido veio com a proposta de uma Constituinte exclusiva para promover a reforma política.
Logo, porém, ficou claro que a presidente se havia equivocado ao anunciar tal plano, ao qual nenhuma discussão, nem sequer num círculo restrito de assessores e aliados, dera solidez e coerência.
Nem mesmo o vice-presidente, Michel Temer (PMDB-SP), fora consultado --ele que, líder do maior partido aliado do governo e professor de direito constitucional, já havia produzido um artigo condenando semelhante ideia.
Viu-se então a presidente obrigada a um recuo constrangedor. A intenção seria apenas realizar um plebiscito acerca dos principais pontos da reforma.
Não tardou para que se revelasse o novo engano: o Executivo tentava impor ao Legislativo e ao Judiciário uma agenda irrealista ao defender a conclusão da consulta popular antes do dia 5 de outubro, de modo que suas diretrizes já se aplicassem ao pleito de 2014.
Novamente a iniciativa presidencial frustrou-se. Oposição e parcela dos aliados do Planalto nocautearam a proposta --que poderá ser viabilizada, com sorte, no próximo ano, para valer em 2016.
Tais episódios ilustram um método de atuação que soa como regra no governo federal. Decisões são tomadas ao sabor dos acontecimentos, sem que obedeçam a uma estratégia clara. Parecem produzidas antes por conveniências publicitárias e impulsos pessoais de Dilma Rousseff do que por um projeto capaz de dar continuidade ao desenvolvimento do país.
É o que se tem verificado na área econômica, cuja administração é feita no vaivém do varejo, com temerárias doses de voluntarismo e improviso. São pífios os resultados. A inflação ascende a patamar perigoso, os investimentos caem, as contas públicas se desequilibram e o PIB não decola.
Já é hora de o governo tomar as medidas necessárias para restaurar a confiança e recolocar o país nos trilhos. É preciso enfrentar o inchaço da máquina administrativa, submetida ao loteamento político, e proceder a uma mudança de rumos na economia.
Persistir no caminho do fisiologismo, da ação fortuita e do intervencionismo estatal somente adiará o encontro do Brasil com uma nova etapa de crescimento vigoroso e progresso social.

Folha de São Paulo, 06/07/2013