sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Igreja precisa de pontífice 'mais pastor que professor', diz Boff


Teólogo brasileiro conviveu com papa, mas acabou punido por ele

PATRÍCIA BRITTO
DE SÃO PAULO

Para o teólogo e ex-frade brasileiro Leonardo Boff, 74, Bento 16 foi um papa frustrado, que tentou reduzir a igreja a um "museu".
Durante seus estudos na Universidade de Munique, na Alemanha, nos anos 1960, Boff conviveu com Joseph Ratzinger, com quem conversava sobre teologia.
Em 1985, foi surpreendido quando a Congregação para a Doutrina da Fé, no Vaticano, então presidida por Ratzinger, o puniu com um ano de silêncio obsequioso, a proibição de falar em público e de publicar suas ideias. Em 1992, desligou-se da ordem franciscana.
Expoente da Teologia da Libertação, linha que une princípios do catolicismo ao marxismo, hoje Leonardo Boff se diz aliviado com o anúncio da renúncia de Bento 16.
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Folha - O senhor conviveu com Joseph Ratzinger antes de ele se tornar papa. Como era a relação entre vocês?
Leonardo Boff - Conheci Bento 16 nos meus anos de estudo na Alemanha, entre 1965 e 1970. Ouvi muitas conferências dele. Trabalhamos juntos na revista internacional "Concilium", entre 1975 e 1980. Enquanto os outros faziam sesta, eu e ele passeávamos e conversávamos sobre temas de teologia. Como pessoa, é finíssimo, tímido e extremamente inteligente.
Ficou surpreso quando ele lhe impôs o silêncio obsequioso?
Quando ele foi nomeado presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, fiquei sumamente feliz. Quinze dias após, ele me disse: "Vejo que há várias pendências suas aqui". Aí eu me dei conta: ele já foi contaminado pelo bacilo romano que faz dos que lá trabalham moderados e conservadores. Fiquei, mais que surpreso, decepcionado.
Como avalia o pontificado?
Bento 16 foi um eminente teólogo e um papa frustrado. Esse papa tentou reduzir a igreja a um museu de antiguidades.
Reintroduziu o latim na missa, escolheu vestimentas renascentistas, manteve hábitos palacianos para quem iria comungar. Oferecia primeiro o anel papal para ser beijado e depois dava a hóstia, coisa que já não se fazia.
O senhor ficou aliviado quando ele anunciou a renúncia?
Desde o princípio, sentia muita pena dele, pois pelo que o conhecia, especialmente por sua timidez, imaginava o esforço que devia fazer para saudar o povo, abraçar pessoas, beijar crianças.
Embora tenha se mostrado autoritário, não era apegado ao cargo. Fiquei aliviado porque a igreja está sem liderança que suscite esperança e ânimo. Precisamos de um outro perfil de papa, mais pastor que professor.
A igreja precisa se modernizar para evitar a perda de fiéis?
A igreja pode manter as suas convicções, como a questão do aborto e da não manipulação da vida. Mas deveria renunciar ao status de exclusividade, como se fosse a única portadora da verdade.

Favelas rurais

Hélio Schwartsman

SÃO PAULO - Deu na Folha que o governo Dilma freou o ritmo das desapropriações para fins de reforma agrária, com o objetivo de repensar o modelo. Segundo o ministro Gilberto Carvalho, que sempre foi bastante ligado aos movimentos sociais, muitos assentamentos acabaram se tornando favelas rurais.
É realmente um ponto interessante para refletir. A reforma agrária ainda faz sentido? A resposta é "cada vez menos", porque, se ela finalmente vier, chegará com um atraso fatal.
Em termos de estruturação da sociedade, uma repartição mais equitativa das terras teria sido importante se tivesse ocorrido lá pelos fins do século 19, início do 20, no máximo. Aí, sim, a criação de uma numerosa classe de pequenos proprietários rurais poderia ter dado uma feição melhor e mais justa ao país.
O problema é que esse é mais um bonde da história que nós desperdiçamos. Agora, em tempos de competição globalizada e emprego intensivo da tecnologia e da ciência, a agricultura é uma atividade que tende a exercer-se com tanto mais eficiência quanto mais mecanizada for e em maiores extensões de terra ocorrer. O número de pessoas exigido para o cultivo deverá ser cada vez menor.
Isso não significa necessariamente que precisamos abandonar qualquer ideia de reforma agrária, mas é preciso mudar sua justificativa. Ela deixa de ser um projeto estratégico de modernização do campo e constituição de uma classe média rural para converter-se num programa social, que dá renda e ocupação a um setor marginalizado da sociedade.
Esse novo enquadramento tem, é claro, implicações. É preciso refazer as contas e eventualmente reequacionar as verbas dedicadas aos diferentes programas sociais. Afinal, não há justificativa moral para gastar mais com pobres rurais que com pobres urbanos, ainda mais num país que já tem quase 85% de sua população vivendo em cidades e segue em acelerado processo de urbanização.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Bento 16 é um papa incompreendido, diz arcebispo de SP


D. Odilo Scherer negou, porém, que isolamento de pontífice no Vaticano tenha contribuído para renúncia

Cardeal, citado como possível nome para substituir o papa, nega que tenha pretensões de assumir o posto

DE SÃO PAULO

Um dos cardeais brasileiros que aparecem na bolsa de apostas sobre quem será o próximo papa, d. Odilo Pedro Scherer, 63, arcebispo de São Paulo, disse que Bento 16 foi incompreendido e colocado na berlinda durante seu pontificado.
O cardeal, que participará do conclave para eleger o sucessor de Bento 16, falou ontem pela primeira vez desde que o papa anunciou sua renúncia para o próximo dia 28.
"O papa foi colocado na berlinda em relação a várias questões ao longo de seu pontificado. Ele procurou fazer o melhor para o bem da igreja, mas nem sempre foi bem interpretado", disse em entrevista na catedral da Sé, sem detalhar essas questões.
Para o arcebispo, Bento 16 não foi bem compreendido em sua condução da igreja, "no confronto das ideias, no campo da cultura e no embate da opinião pública".
Considerado conservador, o alemão Joseph Ratzinger, 85, enfrentou em seu pontificado escândalos como o "Vatileaks", vazamento de documentos secretos pelo ex-mordomo que apontavam para casos de corrupção na igreja. Também foi acusado de dar pouca atenção às denúncias de pedofilia no próprio clero.
D. Odilo procurou, contudo, negar rumores de que o papa estivesse isolado no Vaticano e que isso tenha contribuído para sua decisão.
"Bento 16 tinha todos os contatos de que precisava. Ele foi restringindo esses contatos em razão de sua idade, das suas forças. Não dá para dizer que estivesse isolado no Vaticano", disse.
Tido como um cardeal moderado no Brasil, mas conservador fora do país, d. Odilo é considerado um dos candidatos a papa por comandar a maior arquidiocese do maior país católico no mundo. Também conta a favor dele o fato de cerca de 40% da população católica se concentrar na América Latina.
Mas ele evitou se apresentar como um possível candidato. "Seria muita pretensão um cardeal dizer: 'Eu estou preparado'. Vai ser muito mais um julgamento dos outros do que do próprio."
O cardeal disse ainda considerar que nem o país de origem nem a idade dos elegíveis serão avaliados pelo conclave como pontos essenciais para escolher o pontífice.
Para ele, o perfil do eleito deverá ser o de alguém preparado para enfrentar os desafios contemporâneos da igreja. O principal, diz, é a existência de uma nova cultura cheia de subjetivismo e relativismo total dos valores, inclusive éticos e religiosos.
O cardeal falou ainda sobre o momento em que recebeu a notícia sobre a renúncia do papa. Disse que tinha acabado de chegar a Roma e estava desfazendo a mala quando ouviu a notícia pelo rádio. "Minha reação foi de surpresa, de compreensão e de admiração, porque foi um gesto extremamente corajoso, humilde e desapegado."

QUARESMA

Ele pediu ontem à comunidade arquidiocesana que ore para que os cardeais tenham sabedoria e discernimento no momento da escolha do novo papa. O conclave deverá ocorrer na segunda quinzena de março, no Vaticano.
D. Odilo Scherer celebrou ontem, na catedral da Sé, a missa que marca o início da Quaresma, na Quarta-Feira de Cinzas.

Antes de sair, papa vai nomear o presidente do Banco do Vaticano


Chefe anterior foi afastado após o vazamento de documentos

DO ENVIADO A ROMA

Antes de deixar o papado, Bento 16 tapará um dos buracos abertos na estrutura do Vaticano pelas divisões internas: será nomeado dentro de "poucos dias" o presidente do IOR (Instituto para Obras Religiosas), mais conhecido como o Banco do Vaticano.
O anúncio foi feito pelo secretário de Estado, Tarcisio Bertone, o segundo homem na estrutura da Santa Sé, a quem se acusa de ter feito pressão para que fosse demitido Ettore Gotti Tedeschi, pessoa de confiança do papa e membro da Opus Dei -a poderosa ordem que teve papel relevante com João Paulo 2º e continuou tendo com Joseph Ratzinger.
Gotti Tedeschi, acusado de má gestão, sem maiores especificações, foi afastado em maio do ano passado.
A demissão foi "acompanhada de uma demolição de sua figura humana e profissional, que filtrou dos muros vaticanos e que não tem precedentes na história recente da Santa Sé", segundo o boletim "Vatican Insider", publicado pelo matutino "La Stampa".
O simples fato de que o cargo ficou vago durante quase um ano indica como as finanças do Vaticano são obscuras e problemáticas.
Essa complexidade seria uma das razões para que o papa decidisse renunciar.
Marco Tosatti, também em "La Stampa", lembra os problemas de saúde de Bento 16, mas acrescenta que "quem o conhece fala também de uma característica que o acompanhou a vida toda, isto é, a tendência a somatizar problemas e dificuldades da igreja".

PRESSA

"Vatican Insider" critica a decisão de nomear o novo presidente do banco exatamente no momento em que há estupor pela renúncia de Bento 16.
Lamenta que, "nesta dramática semana (...), a máquina da Cúria atue normalmente, não obstante o pasmo bem evidente mesmo dentro dos muros vaticanos".
É razoável supor que o cardeal Bertone tenha apressado a nomeação do banqueiro para evitar que a vacância continuasse por pelo menos mais um mês, porque a renúncia do papa causa a paralisia do Vaticano, inclusive nomeações.

Cúria está dividida por jogos de poder e denúncias de corrupção


Entrevista - Gianluigi Nuzzi

Para jornalista italiano responsável por revelar documentos vazados pelo mordomo do papa, Bento 16 não teve força para empreender reforma na igreja

GRACILIANO ROCHA
ENVIADO ESPECIAL A ROMA

Um dos responsáveis pelas denúncias que deflagraram o escândalo conhecido como "Vatileaks" -o vazamento de documentos secretos da Santa Sé-, o jornalista italiano Gianluigi Nuzzi, 43, disse que a renúncia de Bento 16 foi causada pela perda de poder do papa para reformar a cúpula da igreja.
Em entrevista à Folha, ele afirmou que a elite administrativa do Vaticano está rachada por intrigas e suspeitas de corrupção.
Nuzzi é autor de "Sua Santità" ("Sua Santidade", em português), livro que aponta um crescente antagonismo entre o papa e o número dois do Vaticano, o secretário de Estado Tarcisio Bertone.
Os documentos que abasteceram o livro de Nuzzi e a imprensa italiana provocaram a prisão e a condenação de Paolo Gabriele, o mordomo do papa que foi acusado de ser o autor do vazamento. Gabriele recebeu indulto do pontífice.
O escândalo jogou sobre o cardeal Bertone a suspeita de ter promovido uma campanha para afastar o arcebispo Carlo Maria Viganò, responsável pelas licitações do Vaticano, que havia denunciado casos de corrupção.
A seguir, a entrevista que Nuzzi concedeu à Folha.
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Folha - Na sua opinião, o que pode ter provocado a renúncia do papa: o cansaço alegado por Bento 16 ou as divisões internas da igreja?
Gianluigi Nuzzi - Eu acredito que o papa não tem mais a força pra reformar a Cúria Romana [cúpula da igreja], que está dividida por brigas, denúncias de corrupção e jogos de poder. Acredito que Bento 16 não confie mais em seu secretário de Estado. Os dois não conseguem mais prosseguir juntos na condução da igreja no mundo.
Por que Bento 16 não prevaleceu?
O papa se chocou com blocos de poder, que exigem uma reforma radical de cunho político. Isso não é próprio de um papa que é e continuará sendo um teólogo.
O futuro papa vai encontrar que ambiente na Santa Sé?
O futuro dependerá muito daquilo que escolherão os cardeais não italianos -se saberão interpretar e entender esse mal-estar na Cúria e se saberão unir forças em prol de candidatos não italianos. Até porque os protagonistas das histórias contadas em meu livro são todos italianos.
O senhor acredita que o vazamento de documentos teve alguma influência nessa decisão do papa?
A influência não é sobre sua renúncia. O problema não é que certas coisas se tornem públicas, mas quem são os protagonistas dessas histórias, os protagonistas negativos.
Os italianos vão eleger o novo Parlamento neste mês. A decisão do papa repercute de algum modo no processo?
Ela deixa um sinal de confusão em todos.

Bento 16 aponta hipocrisia e divisão na igreja


Na missa depois do anúncio da renúncia, papa indica que ato pode ter relação com lutas internas de poder no clero

Apesar de usar um tipo de andador, pontífice conduz cerimônia sem demonstrar esgotamento físico

CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A ROMA

Bento 16 usou o Evangelho segundo Mateus para, ao que tudo indica, apontar as verdadeiras razões pelas quais decidiu renunciar ao papado:
"Jesus denunciou a hipocrisia religiosa, o comportamento que quer aparecer, a atitude que busca aplauso e aprovação", leu, em tom de voz monocórdico, na sua última homilia e também última celebração na Basílica de São Pedro, durante a Missa das Cinzas, que dá início à Quaresma -os 40 dias que antecedem a Páscoa, durante os quais os cristãos realizam penitência para recordar o período bíblico em que Jesus esteve no deserto.
Não escondeu também que "o rosto da igreja é, às vezes, deturpado pela divisão no corpo eclesial".
A palavra "escândalo" tampouco esteve ausente da homilia: "Mesmo nos nossos dias, muitos estão prontos para rasgar-se as vestes diante de escândalos e injustiças, naturalmente cometidas por outros, mas poucos parecem disponíveis para agir sobre seu próprio coração, sua própria consciência e suas próprias intenções".
Por mais que, para renunciar, tenha alegado o esgotamento de suas forças, a versão de que, na verdade, Bento 16 foi derrotado pelas lutas de poder internas acabou prevalecendo na mídia italiana e internacional.
As palavras do papa só reforçam essa interpretação.
Até porque Bento 16 suportou bem os 110 minutos que durou a cerimônia, no fim da tarde de ontem, acompanhada por 8.000 pessoas no interior da imponente basílica de 387 anos e por incontáveis mais que, lotado o templo, postaram-se à frente dos quatro telões instalados na praça São Pedro.
Viram, é verdade, o papa usar uma espécie de andador, um estrado móvel, para percorrer os 45 metros da nave central até o altar, ladeado pelos dois impressionantes baldaquinos de Bernini.
Mas viram também que as mãos do papa, 85 anos, tremeram pouco ou nada quando levava à boca dos fiéis a hóstia consagrada.
Nesse instante, ficava ainda mais evidente o anel do pescador, símbolo oficial do papa, que será destruído no dia 28, antes das 17h (14h em Brasília), quando Bento 16 deixará o Vaticano a bordo de um helicóptero.

APLAUSOS NA MISSA

Às 17h em ponto, a procissão de praxe deu entrada. Logo depois, entrou um Bento 16 de rosto sério, que se manteve imutável pelos 110 minutos seguintes, apesar de alguns assistentes terem visto olhos marejados depois que o secretário de Estado Tarcisio Bertone, segundo na hierarquia, saiu da liturgia convencional para agradecer ao papa por "haver dado o luminoso exemplo de simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor, um trabalhador, porém, que soube, a todo momento, realizar o que é mais importante: levar Deus aos homens e levar os homens a Deus".
Seguiu-se um aplauso forte, contínuo, que durou cinco longos minutos.
Contraste total com o silêncio absoluto com que se ouviram as palavras do papa.
Silêncio e aplausos compartilhados pelos cardeais presentes. Eles, como Bento 16, vestindo a casula (o manto longo que cobre a batina) roxa, própria para a cerimônia de Cinzas.
A semelhança de roupagem reforçava a certeza de que um deles poderá ser o substituto de Bento 16, a partir de algum momento do próximo mês (se for possível concluir com êxito as votações no Colégio Cardinalício).
De todos os cardeais presentes, apenas dois eram negros, Peter Turkson (Gana, eleitor) e Francis Arinze (Nigéria, 81 anos e, portanto, não eleitor).
O papa cumpriu também o ritual de passar cinzas na cabeça de quatro dos cardeais, no que não deixa de carregar também um simbolismo: as cinzas são um antigo ritual que convida quem as recebe a refletir sobre o dever da conversão, de mudar de vida, de arrepender-se perante Deus.
Afinal, a hipocrisia e as divisões eclesiais a que o papa se referiu dizem respeito também, ou principalmente, aos cardeais.

DESPEDIDAS

A missa foi a primeira depois do anúncio da renúncia, na segunda-feira passada, e também será a última de Bento 16 no Vaticano.
Até o final do mês que marca o fim de seu papado, Bento 16 vai comandar uma oração dominical na praça São Pedro no dia 24 e uma audiência geral no dia 27, além de encontros com bispos e audiências com alguns chefes de Estado. A renúncia do papa está agendada para dia 28.
Ontem, antes da missa, durante a manhã, Bento 16 fez no salão de audiências do Vaticano a sua primeira aparição pública após a renúncia.
Bento 16 a justificou dizendo que sai por vontade própria e para o "bem da igreja".
"Tomei a decisão com plena liberdade para o bem da igreja, depois de ter rezado muito e examinado minha consciência perante Deus."
A audiência durou pouco mais de uma hora, num salão lotado com cerca de 10 mil de pessoas. Na maior parte do tempo, o papa permaneceu sentado. Quando a cerimônia terminou, cardeais fizeram fila para beijar o anel do pescador e alguns convidados cumprimentaram pessoalmente o pontífice.

Mudança


Kenneth Maxwell

O papa Bento 16 estabeleceu um precedente nesta semana, ao renunciar ao pontificado, a primeira renúncia papal desde 1415 -quando o papa Gregório 12 deixou o posto para pôr fim ao Grande Cisma Ocidental da Igreja Católica.
A renúncia do papa Gregório 12 não foi voluntária. O último papa que havia renunciado voluntariamente foi Pietro Angelerio, um monge e eremita de 79 anos que deixou o posto em 1294. Depois de cinco meses como papa Celestino 5º, ele declarou que a abdicação de um papa era possível, e abdicou.
O papa Bento 16 deixará o pontificado em 28 de fevereiro. Aos 85 anos, ele declarou que já não tem a "força de corpo e mente" requerida para continuar. Angelo Sodano, decano do colégio de cardeais, declarou que o anúncio, feito em latim durante uma reunião de cardeais em um consistório no Palácio Apostólico, "pegou a todos de surpresa". Porém o reinado do papa Bento 16 foi marcado por controvérsias, especialmente as relacionadas a abusos sexuais praticados por religiosos.
O ano de 1415 foi memorável por outro acontecimento. Naquele ano, os portugueses conquistaram Ceuta, a fortaleza no lado africano do estreito de Gibraltar, o que deu início à expansão da Europa na África do Norte e, mais tarde, na Ásia e no Brasil. O enclave de Ceuta foi a única porção do Império Português que se alinhou com a Espanha em 1640, quando da independência de Portugal, e foi formalmente cedido por Portugal aos espanhóis em 1668.
A semana também foi notável porque a Coreia do Norte realizou um teste nuclear. Foi o terceiro teste nuclear do país, mas o primeiro a ser realizado sob o governo de Kim Jong-un, depois do lançamento bem-sucedido de um satélite em dezembro. A China aderiu aos protestos internacionais contra o teste.
Nesta semana, o Partido Comunista Francês (PCF) abandonou a foice e o martelo como ilustração de suas carteirinhas de associado. O emblema dos camponeses e proletários está sendo substituído por uma estrela de cinco pontas representando a esquerda europeia, uma aliança frouxa que inclui a Frente Esquerdista francesa.
O PCF foi fundado em 1920 e, no ápice de sua influência, tinha 26% dos votos no país, 182 assentos no Legislativo e indicou ministros em diversas gestões socialistas. Hoje, tem apenas 10 cadeiras no Legislativo, depois de conquistar 6,8% dos votos na eleição geral de 2012.
Pierre Laurent, secretário-geral do PCF, disse que a foice e o martelo já não representavam as realidades cotidianas: "Queremos nos voltar para o futuro... [o símbolo] não é tão relevante para uma nova geração de comunistas".

A ameaça norte-coreana


A expectativa de algum arejamento no regime da Coreia do Norte, após a ascensão do jovem ditador Kim Jung-un, se esfacelou com a detonação de uma bomba nuclear em Kilju, no nordeste do país.
O terceiro teste subterrâneo confirma a nação asiática como maior fator de instabilidade na região, com seu governo sempre disposto a chantagear inimigos e até aliados.
A explosão foi a mais violenta da série de três, algo entre 4 e 10 quilotons (20% a 50% do poder da bomba de Hiroshima), embora haja indícios de que partiu de artefato pequeno o bastante para se acomodar numa ogiva. Como houve um bem-sucedido teste balístico em dezembro passado, a Coreia do Norte estaria hoje mais perto da capacidade de alvejar vizinhos como Coreia do Sul e Japão.
O alvo principal da provocação de Kim Jung-un, contudo, parece estar ao norte da fronteira. Principal aliado (se não único) de seu regime, a China passa por delicada transição na cúpula do poder, com a entronização de Xi Jinping como líder máximo da ditadura irmã.
Interessa a Kim testar a disposição dos chineses para manter a linha de comércio bilateral (US$ 5,9 bilhões em 2012) que impede norte-coreanos de precipitar-se na penúria e no caos. Cada vez mais engajada em contrastar o poderio dos EUA, ao menos no setor asiático, a China não pressionará tão cedo o regime do país que lhe serve de tampão para afastar das fronteiras a influência militar norte-americana na Coreia do Sul.
A temeridade norte-coreana decerto leva irritação a Pequim, mas não a ponto de tornar aceitável uma escalada de sanções internacionais contra o vizinho. Na prática, chancela-se o uso da ameaça nuclear por norte-coreanos como um tipo de seguro contra supostas articulações externas para derrubar o regime. Kim contará com o apoio da nova direção chinesa, de corte igualmente conservador.
Não será ainda desta vez, acredita-se, que o Conselho de Segurança das Nações Unidas adotará resoluções duras, "prontas e críveis", contra a ditadura norte-coreana, como demandam os Estados Unidos. Para contornar o veto inevitável da China, o colegiado tende a abrandar novas restrições cogitadas para obter consenso.
As sanções, portanto, devem seguir focalizadas diretamente sobre o bloqueio do desenvolvimento de mísseis nucleares. É pouco provável que envolvam a interrupção do fornecimento de petróleo, por exemplo, que continuará a ser provido pela China -embora a Coreia do Norte, ao contrário do Irã, já tenha provado do que é capaz.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Comissão precisa ter 'mais atitude', afirma Marcelo Rubens Paiva


Para filho de desaparecido político, grupo que investiga crimes da ditadura deve 'caçar os verdadeiros gângsteres'

Documento que indica morte no Exército não encerra o caso; segundo escritor, falta achar o corpo e ouvir os algozes

PATRÍCIA BRITTO
DE SÃO PAULO
PAULO WERNECK
EDITOR DA “ILUSTRÍSSIMA”

"A Comissão Nacional da Verdade é muito tímida", disse o escritor Marcelo Rubens Paiva, 53, em entrevista à Folha, em seu apartamento em São Paulo. O filho do deputado cassado Rubens Paiva, um dos principais desaparecidos políticos da ditadura militar (1964-1985), afirmou que esperava um "pouco mais de atitude" do grupo que investiga os crimes do Estado.
Um exemplo é o recente episódio da morte do coronel Júlio Miguel Molinas, em novembro. A família recebeu a informação de que, tão logo Molinas morreu, o Exército recolheu em sua casa caixas que conteriam documentos sobre crimes da ditadura.
A comissão recebeu desse arquivo documentos referentes aos casos Rubens Paiva e Riocentro, mas Marcelo acredita que a maior parte foi escondida pelo Exército.
Ora sarcástico, ora angustiado pelos 42 anos de espera pela verdade, o escritor comentou a divulgação pela Folha, na última segunda-feira, de um documento inédito que indica que Rubens Paiva morreu nas dependências do DOI-Codi, em janeiro de 1971.
O autor de "Feliz Ano Velho" disse ainda que a grande personagem da família é sua mãe, Eunice, que sofre do mal de Alzheimer. Ela se tornou uma pioneira da luta pelos direitos humanos no país logo após sair da prisão, dias depois da morte do marido.
Folha - O caso do desaparecimento do seu pai está solucionado para a família?
Marcelo Rubens Paiva - Não. Até agora, o que foi revelado a gente já sabia, só não tinha o documento. A novidade é a prova de que ele foi morto nas dependências do DOI-Codi.
Primeiro, falta saber quando ele realmente foi morto. Segundo, o que fizeram com o corpo, onde está, como foi essa operação. São os mesmos torturadores que torturaram todos os caras no DOI-Codi do Rio no mesmo período. Tenho muita curiosidade de ver esses caras prestando depoimento, o que parece que é um próximo passo.
A Comissão da Verdade está bem amparada em termos de informação?
A comissão é muito tímida. Vou ser bem fantasioso, como escritor eu gosto de fazer comparações absurdas, mas eu esperava um Kevin Costner, do filme "Os Intocáveis", uma forma de caçar os verdadeiros gângsteres com um pouco mais de atitude. A comissão tinha que bater na porta dos caras que ela quer que sejam ouvidos.
Quando ela foi tímida?
No caso do coronel Júlio Miguel Molinas, ex-chefe do DOI-Codi do Rio, lá no RS. A gente ouviu falar que, um dia depois da morte dele [1º/11], houve uma operação do Exército que cercou a casa e levou caixas e caixas de documentos. A CNV é que deveria ter chutado a porta do cara com um grupo de investigadores de alto nível, porque afinal é uma comissão oficial do governo brasileiro. Devia ter pegado essas caixas. Se por um lado o Exército vai lá e chuta a porta, a comissão pede um ofício. É tudo muito lento.
A comissão avisa a família antes de divulgar?
Não. Foi uma queixa da família. A gente não quer mais ficar lendo as coisas pela imprensa, é muito chato. A gente prefere ser avisado antes.
Qual é a sua lembrança do dia em que seu pai foi preso?
Eu tinha 11 anos. A casa toda cheia de militares com metralhadoras. Era patético porque eles achavam que era um "aparelho". E era feriado, Dia de São Sebastião. Deu praia. Em frente à minha casa, tinha uma rede de vôlei famosa, que era a do Chico Buarque e da Marieta [Severo].
Ali era um point, as pessoas iam para a praia e deixavam as coisas lá em casa. Então iam chegando. Chegou o namorado da minha irmã, de 16 anos, e prenderam o cara. Chegou o neto do Caio Prado Jr., coincidentemente ideólogo comunista no Brasil, que ia para a praia, e prenderam. Era contrastante com o que aquela casa representava.
Você tem intenção de escrever sobre seu pai?
Tenho um projeto que é falar da luta da minha mãe. Descobri que a minha mãe foi muito mais importante que meu pai. Meu pai foi uma vítima da ditadura, escondeu pessoas, foi um deputado importante, foi cassado, foi para o exílio, voltou escondido, foi torturado violentamente.
Mas a grande personagem da família é minha mãe, fundadora da Comissão Brasileira pela Anistia, organizadora do movimento das Diretas-Já. Foi presa no dia seguinte ao meu pai, no DOI-Codi, saiu três dias depois. Desse dia em diante, o papel que ela teve foi o de uma verdadeira combatente contra a ditadura.