quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Netanyahu se reelege com vitória apertada


Partido recém-fundado por apresentador de TV centrista surpreende nas urnas e fica em 2º lugar, indicam projeções

Se os resultados forem confirmados, premiê terá a opção de formar governo sem influência da direita mais radical

MARCELO NINIO
DE JERUSALÉM

Confirmando as previsões, o partido do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu foi o mais votado nas eleições de ontem e deve formar o novo governo de Israel, segundo pesquisas de boca de urna de três canais de TV.
A grande surpresa dessas projeções é um partido de centro recém-criado, comandado por uma celebridade da TV, que aparece como a segunda força política.
Fundado há menos de um ano pelo jornalista e apresentador Yair Lapid, o partido Yesh Atid (Há Futuro) teria entre 18 e 19 deputados, ficando com uma bancada só menor que o Likud-Beitenu, a aliança de Netanyahu, que teria entre 31 e 33.
Em tese, o triunfo de Lapid significa a opção de um governo mais moderado sob a liderança do premiê, sem a influência dominante dos partidos de extrema direita.
Também indica um Parlamento mais polarizado, com a redução da vantagem do bloco de direita, aliado natural de Netanyahu.
QUASE EMPATE
No atual Legislativo a direita tem 65 deputados contra 55 da centro-esquerda. As primeiras projeções da eleição de ontem mostram quase empate, com pequena diferença a favor da direita.
Em seu primeiro discurso após a divulgação das projeções que lhe davam vitória, ontem, Netanyahu disse que seu interesse é formar "o governo mais amplo possível", abrindo as portas para os partidos de centro.
Ao enumerar os princípios da coalizão, porém, o premiê mencionou em primeiro lugar a preocupação com temas de segurança, "incluindo a ameaça iraniana".
O surpreendente desempenho do Yesh Atid embaralha as cartas para a formação do próximo governo e torna difícil prever qual será sua direção nos principais temas.
As projeções sugerem que o premiê Netanyahu terá a possibilidade numérica de construir um gabinete só com partidos de direita.
Isso significaria uma posição mais dura em assuntos de segurança, como a negociação com os palestinos e a ameaça de ataque ao Irã.
Numa aliança de direita, um dos parceiros mais poderosos seria o partido ultranacionalista Bait Yehudi (Lar Judeu), do magnata do software Naftali Bennett, um veemente opositor de um Estado palestino.
Uma coalizão dominada pela direita não agrada a Netanyahu, segundo avaliação de analistas, porque se sustentaria em uma maioria frágil, além de proporcionar um aumento da pressão internacional contra Israel.
O desafio do premiê será conciliar a agenda de Yair Lapid, centrada em temas econômicos e no fim da isenção do serviço militar para judeus ultraortodoxos, com a de partidos religiosos.
Em sua campanha, Lapid prometeu que só entrará no governo caso ele se comprometa a avançar na negociação com os palestinos.
TEMAS DOMÉSTICOS
O possível êxito do Yesh Atid indica um movimento da opinião pública na direção de assuntos domésticos.
Lapid enfatiza temas socioeconômicos, como o encolhimento da classe média e os privilégios dos religiosos, deixando de lado os de segurança, geralmente centrais.
"As pessoas estão fartas de políticos profissionais, querem soluções para problemas do dia a dia", disse Danny Tsafrir, 45, que é dono de uma carpintaria na cidade de Modiin, entre Jerusalém e Tel Aviv, e eleitor de Lapid.

Brasil será investigado por caso Herzog


Comissão da OEA decidiu apurar denúncia sobre responsabilidade e omissão do país na morte do jornalista

Para governo brasileiro, interpretação atual da Lei da Anistia não permite a abertura de processo judicial

DE SÃO PAULO

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos) vai investigar a responsabilidade do Brasil por não esclarecer as circunstâncias da morte do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, durante a ditadura.
O caso foi admitido pelo órgão internacional em novembro passado e divulgado ontem por entidades ligadas aos direitos humanos, que fizeram a denúncia em 2009.
De acordo com a denúncia, o Brasil não cumpriu seu dever de investigar, processar e punir os responsáveis pela morte do jornalista.
A expectativa é que em até um ano a comissão da OEA conclua o processo e divulgue um relatório com recomendações ao governo brasileiro. Entre elas, poderá estar a abertura de um inquérito criminal para esclarecer as circunstâncias do caso.
Se o país não cumprir as recomendações, o caso deverá ser levado à Corte Interamericana de Direitos Humanos, instância superior que poderá condenar o Brasil, como o fez em 2010 por causa dos mortos e desaparecidos na guerrilha do Araguaia.
ANISTIA
Quando foi notificado sobre a denúncia, no ano passado, o governo brasileiro argumentou que não poderia abrir um inquérito para investigar o caso porque o crime está anistiado.
A jurisprudência da OEA, contudo, afirma que a Lei da Anistia não pode ser usada para impedir investigação e punição dos responsáveis por grandes violações dos direitos humanos, como torturas e desaparecimentos forçados.
Vlado, como era conhecido, morreu após ser torturado no DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operação de Defesa Interna), em São Paulo.
Na época, a versão do Exército para sua morte foi a de suicídio, mas no ano passado a Justiça determinou a correção de seu atestado de óbito, para constar que a morte ocorreu em decorrência de "lesões e maus tratos".
"A gente quer saber quem são os responsáveis pelo que aconteceu ao meu pai", afirma Ivo Herzog, filho do jornalista.

Inflação


Antonio Delfim Netto

A taxa de inflação é como um "radiador" que dissipa o calor produzido pela inércia. Exemplificando sem exaurir:
1º) Por todos os atritos naturalmente produzidos pela demora necessária para ajustar as demandas setoriais (choques de oferta, mudança de hábitos) com as respectivas ofertas;
2º) Pela deficiência da infraestrutura;
3º) Pelos obstáculos institucionais e políticos que retardam os ajustes da oferta dos insumos básicos;
4º) Pelos exageros cometidos pelo poder incumbente quando perde o senso e se entrega ao voluntarismo populista, que ignora as restrições físicas impostas pelas identidades da contabilidade nacional;
5º) Pelo próprio governo quando tenta proteger sua receita pela indexação automática de impostos, preços, tarifas ou salários da própria inflação que está criando;
6º) Pelo estímulo ao crédito quando não há mais fatores de produção disponíveis em proporção adequada e a acumulação do deficit em conta-corrente não permite importá-los;
7º) Quando os salários reais crescem acima da produtividade física do trabalho.
A taxa de inflação é, por-tanto, um indicador duvidoso da demanda global. Ela é, simultaneamente, causa e efeito da redistribuição das rendas. No fundo, é a imagem invertida no espelho do nível de produtividade da economia que cresce à medida que se reduzem os mesmos "atritos" que a produzem.
A redução da taxa de inflação brasileira -que, há oito anos, permanece em torno de 5,2% ao ano e que, como em todos os países com "metas inflacionárias" com bandas, namora o seu teto- não é, obviamente, uma tarefa apenas do BC. É uma missão de todo o governo, que envolve o aumento da sua eficiência apoiada em reformas microeconômicas bem "focadas" que precisam do apoio da sociedade.
Por exemplo, um mercado de trabalho bem organizado, que respeita os direitos constitucionais dos trabalhadores e onde a livre negociação salarial dentro da empresa (e não do setor), sob as vistas de uma comissão de fábrica eleita e com representatividade, pretere os efeitos legais acumulados pelo corporativismo ao longo dos anos, é poderoso instrumento para o aumento da "produtividade" do trabalho e, ao mesmo tempo, a redução dos atritos que se dissipam como pressões inflacionárias.
Por outro lado, quando há um desajuste entre a disponibilidade da mão de obra e suas habilidades em relação às necessidades da economia, é extremamente custoso corrigi-lo cortando a demanda global pela política monetária. São necessárias medidas estruturais que aumentem a oferta e a qualidade da mão de obra: rápida educação profissional e imigração!

Tio Sam e nós


Igor Gielow

BRASÍLIA - É interessante ver como Barack Obama é quase uma unanimidade no Brasil. Pesquisas davam conta de uma "intenção de voto" ao democrata que lhe garantiria uma vitória aqui muito maior do que a que obteve ano passado em casa.
Claro, há o fator simpatia. Bush era associado a políticas belicistas e tal. Texano branco e bronco, não tem o apelo cosmopolita do negro de nome muçulmano/africano, ainda que Obama tenha passado também pelas forjas da elite americana.
Mas o fato é que o Brasil foi lateral na política externa do primeiro mandato de Obama, talvez pela falta da afinidade anímica que havia entre Bush e Lula, e ainda não há indicações de que isso será alterado.
Houve, sim, uma distensão devido à saída dos antiamericanos mais estridentes de posições centrais do Itamaraty, após a chegada de Dilma em 2011, e a avanços pontuais.
A relação econômica segue firme, mas sem exatamente um salto qualitativo. Obama fez um dos governos mais anticapitalistas recentes, no particular do livre-comércio, e Dilma prefere uma visão setentista de protecionismo a campeões nacionais (para usar o eufemismo vigente).
É possível argumentar, algo folcloricamente, que é bom para o Brasil estar fora do radar de um país que viola diariamente a soberania de outros com o uso de aviões-robôs. Lulistas e dilmistas sempre correm a dizer que os EUA já não nos importam tanto só porque variamos o cardápio da balança comercial.
Erros grosseiros. O Ocidente, para bem e para mal, é liderado por
Washington. Assim, é bom enxugar as lágrimas que derramou pelo discurso docemente progressista (como se "drones" o fossem) da posse de Obama, caro humanista de Facebook.
É muito mais a dinâmica da complexa relação com o Tio Sam, e não os frutos ainda instáveis da relação Sul-Sul ou os ditames mercantilistas de Pequim, que nos molda hoje e no futuro próximo como atores globais.

igor.gielow@uol.com.br

domingo, 20 de janeiro de 2013

Autores da morte de Rubens Paiva poderão ser identificados


Coordenador da Comissão da Verdade diz que novo texto comprovará morte pelo Exército

Ex-deputado federal desapareceu há exatos 42 anos, quando foi levado para depor no DOI-Codi, no Rio

PATRÍCIA BRITTO
DE SÃO PAULO

O coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Cláudio Fonteles, divulgará em fevereiro um texto que, segundo ele, ajudará a identificar os responsáveis pela morte do ex-deputado federal Rubens Paiva, desaparecido há 42 anos pela ditadura militar.
Fonteles já havia anunciado que o texto de sua autoria comprovará que Paiva foi morto por agentes da ditadura no DOI-Codi -um dos principais centros de repressão do regime-, no Rio de Janeiro.
Apesar de não identificar os autores do assassinato, o coordenador afirma que os novos documentos ajudarão a chegar até eles. "Pode se chegar sim [a essas pessoas], esses textos vêm para isso."
Em novembro, foi descoberta a ficha de entrada de Rubens Paiva em uma unidade do DOI-Codi no Rio. Até então, não havia prova documental da presença dele no local, apenas testemunhos.
Agora, o coordenador da Comissão da Verdade afirma que novos documentos originários dos centros de informações das Forças Armadas e encontrados no Arquivo Nacional, em Brasília, desconstruirão a versão oficial para o desaparecimento de Paiva.
Dos quatro documentos que ele analisa há quase dois meses, um será "novidade absoluta", afirma.
Junto com esses, Fonteles também divulgará estudos sobre a estrutura do Estado ditatorial militar.

DESAPARECIMENTO

Deputado crítico do regime militar, Rubens Paiva teve o mandato cassado pelo AI-1 (Ato Institucional nº 1), em 1964, e os direitos políticos suspensos por dez anos.
Em 20 de janeiro de 1971, foi procurado por agentes da ditadura em sua casa e levado para prestar depoimento no DOI-Codi da Tijuca, zona norte do Rio. Tinha 41 anos. Desde então, nunca mais foi visto pela família.
A versão oficial sustentada pelo Exército é a de que o ex-deputado fugiu dos militares quando era levado para o reconhecimento de um local na cidade. Relatos de testemunhas, contudo, indicam que Paiva morreu sob tortura.
Essa também é a hipótese mais provável na opinião de familiares, como Vera Paiva, filha do ex-deputado.
Ela afirma que a forma que encontrou de homenagear o pai é denunciar as violações aos direitos humanos que, segundo ela, ainda acontecem no país. "As prisões e os desaparecimentos arbitrários continuam. Todo dia tem notícia desse tipo", disse.
A defesa pela garantia dos direitos fundamentais, diz Vera, foi o que motivou a morte do pai. "Meu pai não morreu por nada. Ele morreu porque defendia isso."

Estrangeiro sob suspeita


Jaime Ginzburg

Um professor universitário é humilhado por funcionário de aeroporto nos EUA e não sabe o motivo. Os meses seguintes no país seriam de inquietação
Um professor universitário brasileiro desembarcou no aeroporto de Washington. Seu destino era Minneapolis, onde atuaria como professor visitante na Universidade de Minnesota. Ele foi conduzido a uma sala, e ali foi mantido por uma hora e meia.
Nesse período, foi insultado, constrangido e humilhado. Segundo o funcionário do balcão, em seus documentos, uma assinatura deveria ser apresentada em cor azul, mas a tinta usada era preta. Isso era suficiente para uma suspeita de fraude.
Nessa sala, acompanhou as situações de quatro homens, três deles pareciam árabes e um deles, africano. O funcionário desrespeitou de modo exemplar a todos eles. Depois de 50 minutos de abuso de autoridade e bullying, o professor, fisicamente exausto, disse que se dispunha a voltar ao Brasil e resolver junto ao consulado o problema.
A reação foi de que, se fizesse isso, teria um registro impedindo-o de voltar aos Estados Unidos em cinco a dez anos. O professor disse que lidaria com isso. O funcionário respondeu que essa não era atitude esperada de um professor.
Ao final de uma hora e meia, o funcionário disse que permitiria que o docente fosse a Minneapolis, com a expectativa de receber novos documentos da universidade. Mais adiante seria notificado se seria deportado ou não.
As atividades na universidade foram iniciadas. Enquanto não teve resposta do U.S. Immigration and Customs Enforcement, o professor não podia ter um cartão de seguridade social e, por isso, não podia regularizar sua situação bancária e seu pagamento. E não poderia voltar ao Brasil com tranquilidade.
Por algum tempo, o professor manteve, com inquietação, a percepção de que, de fato, deveria ter cometido algum erro e era responsável pelo problema. No entanto, conversando com muitas pessoas, percebeu que seu caso não era único.
Perante o funcionário no aeroporto, todos os documentos acadêmicos, papéis referentes à cooperação internacional e à pesquisa, foram considerados irrelevantes. Se de fato o problema fosse uma assinatura, poderia ser resolvido de vários modos pacíficos. O que ocorreu foi um problema de espaço público e de significado político.
Diante de intimidação e gritos ameaçadores e de meses prejudicado por não regularizar sua legalidade, o professor queria ir embora e nunca mais voltar.
Nas universidades brasileiras, a cooperação internacional tem sido muito valorizada. Mas supõe que, em outros países, exista interesse por trabalhos desenvolvidos no Brasil. Esse professor pretendia contribuir para o incremento de estudos brasileiros. É errado mistificar a expectativa de colaboração. Ser um professor universitário não torna ninguém menos vulnerável.
A cooperação internacional em pesquisa traz muitas dificuldades, é um desafio orçamentário e exige anos de trabalho para estabelecer confiança recíproca. É inaceitável que ela seja danificada por uma conduta caracterizada, como esse funcionário bem expressou, por arrogância, desprezo e ameaça.
Não surpreende que, em um país em que os problemas educacionais são muito graves, o valor do conhecimento seja neutralizado pelo princípio da intimidação e do medo.
Foi muito triste ter sido esse professor, humilhado ao chegar e vivendo como suspeito por um longo tempo nos Estados Unidos. Certo de que ninguém merece agressão por causa de uma cor de assinatura e sem saber exatamente por que fui tratado desse modo, voltei ao Brasil ponderando que posso ter sido detido por causa de minhas sobrancelhas. Em Minneapolis, muitas pessoas acreditavam que eu era árabe.
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Responsável e competitivo


Henrique Meirelles

Entrando no sexto ano de crise, cujos primeiros sinais apareceram em 2007 no mercado imobiliário dos EUA, podemos, hoje, ter noção mais clara do ocorrido e da tendência presente e futura.
Ela começou como crise de crédito clássica nos EUA. Uma prolongada conjunção de estabilidade e crescimento com juros baixos permitiu expansão de crédito e tomada de risco insustentáveis.
O crédito imobiliário "subprime" foi muito bem até 2007, elevando o preço dos imóveis. Quando se atingiu o limite de endividamento e muitos não honraram pagamentos, ocorreu processo inverso de queda de preços e de perdas dos credores. A capacidade dos bancos de emprestar desabou. E o aperto de crédito espalhou a crise pela economia, causando contração econômica.
Isso foi compensado pelo governo com aportes fiscais e ações monetárias do Fed que restabeleceram a saúde do sistema financeiro e de grandes empresas, processo completado por reformas estruturais nas grandes corporações.
O segundo passo da crise se deu na Europa, onde países do sul enfrentaram o mesmo problema dos EUA, só que os mais vulneráveis lá eram os governos. O processo de desalavancagem europeu foi complicado pelo fato de esses países serem parte do euro, sem políticas monetária e cambial próprias para atender a necessidades nacionais específicas. O enfrentamento se deu via reformas estruturais, austeridade fiscal e ação decisiva do BC europeu para estabilizar o euro, garantindo liquidez dos bancos e de dívidas de países.
O que vemos agora?
Os EUA reagem melhor. Sua economia é mais dinâmica, tem maior flexibilidade trabalhista e um sistema financeiro mais veloz para reconhecer perdas e recompor balanços. As empresas foram agressivas na reestruturação. Hoje, elas têm produtividade superior ao do início da crise, produzem mais gastando menos e são muito lucrativas. Há ainda o desafio fiscal, mas Congresso e Executivo negociam uma síntese entre a necessidade de ajuste da dívida no longo prazo e o risco de que ajustes de curto prazo causem recessão.
Na Europa, o desafio é maior, pois há deficiências estruturais. Países do sul e do norte têm a mesma moeda, mas competitividades diferentes, o que torna o equilíbrio instável. Será inevitável que ou os países do sul façam reformas profundas por competitividade ou haja saída gradual do euro.
São duas então as lições da crise: 1) Ciclos de expansão de crédito geram mais consumo e investimento, elevando o crescimento potencial, mas, quando o endividamento torna-se excessivo, geram crises de consequências graves ao emprego e ao crescimento; 2) Produtividade e competitividade são as palavras-chave para o crescimento no longo prazo.

O segundo Obama



Legado do presidente democrata talvez dependa mais das promessas de transição econômica que de ações no Congresso dos EUA

Barack Hussein Obama, 44º presidente dos Estados Unidos, inicia o segundo mandato entre o desejo de tornar-se um dos grandes líderes da história de seu país, de um lado, e os meios limitados para atingir esse objetivo, do outro.
A lista de tarefas a que se propõe o democrata ao longo dos próximos quatro anos não é modesta. Favorecer a retomada da economia após cinco anos de crise mundial; encaminhar a dívida e o deficit públicos para o equilíbrio; tornar menos hostis as leis de imigração; reestruturar a política de convívio e contenção em torno da China; influenciar na estabilização do Oriente Médio em transe.
Não bastassem aspirações tão ambiciosas, o massacre de crianças de dezembro no Estado de Connecticut, na costa atlântica, recolocou o tema do controle de armas na agenda presidencial. O objetivo de restringir o acesso de cidadãos a armas capazes de promover matanças desperta um embate latente na sociedade norte-americana.
O direito de portar armas, emenda inserida na Constituição em 1791, é de pronto invocado por grupos conservadores radicais, contrários ao aumento das restrições. Deslocado do contexto -o propósito no tardio século 18 era inibir tiranias, conferindo à comunidade o poder de formar milícias-, o princípio constitucional torna-se emblema de certa direita militante.
Essa corrente promove, curiosamente, uma nova mitificação do passado do país. Nessa reconfiguração, a sabotagem de um carregamento de chá promovida por colonos rebeldes em Boston, em 1773, por vezes ganha mais relevo que a própria Declaração de Independência, três anos depois.
A resistência de facções estridentes, contudo, não explica suficientemente nem determina a adesão de parcelas expressivas dos eleitores, na média mais moderadas, às fileiras do conservadorismo. O maior divisor de águas a mobilizar as massas é o debate em torno da extensão dos poderes do governo sobre a vida e o bolso dos cidadãos.
Esse é o combustível mais vigoroso da oposição doméstica aos planos de Barack Obama. A maioria republicana na Câmara dos Representantes propugna pela redução da dívida e do deficit público, que explodiram como custo do combate à crise. Resiste também às tentativas de elevar impostos ou de restringir, como no caso das armas, o raio de ação individual.
Uma batalha crucial a esse respeito está em curso. Obama, cujo partido domina o Senado, precisa do apoio dos republicanos na Câmara para elevar o teto legal do endividamento público, hoje em US$ 16,4 trilhões (pouco mais que o PIB dos EUA). O dinheiro para pagar a fornecedores e credores do governo chegará ao fim, estima-se, em meados de fevereiro, se nada for feito.
Uma disputa em torno do mesmo tema, em 2011, derrubou a confiança na retomada econômica, nos EUA e no mundo, e provocou vasta turbulência financeira. Apesar disso, os republicanos tendem a repetir agora a tática de desgastar a Casa Branca e de arrancar concessões de Obama na negociação para evitar o que seria um calote da maior economia do planeta.
Se o legado de Obama depende de votações no Congresso -como é o caso das propostas para a política fiscal, as armas e a imigração-, então ele precisará mitigar a resistência republicana. Uma vitória do Partido Democrata nas eleições legislativas de 2014, que renovarão toda a Câmara e um terço do Senado, seria o meio mais efetivo de atingir o objetivo presidencial.
Mas talvez a herança percebida do presidente ao final de seus oito anos possa prescindir dos resultados, sempre imprevisíveis, de eleições e embates legislativos. Uma confluência de fatores pode favorecer, nos próximos anos, a retomada da economia, em bases mais seguras do que o ciclo anterior, movido a endividamento desatado.
Os EUA passam por uma mudança notável na produção doméstica de energia -gás e petróleo extraídos de rochas metamórficas com técnicas de mineração-, o que está baixando o custo de produzir no país. Começa a ganhar velocidade e escala um ciclo de repatriação da produção industrial, antes centrada na Ásia, para abastecer o mercado consumidor americano.
Dotados dos mais prolíficos centros tecnológicos do mundo, os EUA também vão beneficiar-se, paulatinamente, de uma vantagem demográfica. Já ostentam uma população de perfil mais jovem que a média dos países desenvolvidos -e caminham para suplantar a China nesse aspecto em menos de duas décadas. A potência ocidental terá, a crer nas previsões, menos dificuldades para angariar força de trabalho que a oriental.
Batalhas no Congresso costumam galvanizar a atenção da opinião pública. Mas o futuro de Barack Obama nos livros de história talvez dependa muito mais das ações de seu governo destinadas a acelerar -e a não atrapalhar- a transição econômica em marcha.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

UNE lança Comissão da Verdade própria em encontro de estudantes


Ditadura

DE SÃO PAULO - A União Nacional dos Estudantes (UNE) oficializa hoje a criação de sua própria Comissão da Verdade, que investigará mortes e desaparecimentos de líderes estudantis durante a ditadura militar (1964-1985), entre eles 46 de seus ex-dirigentes.
Um dos primeiros casos que serão estudados é o de Honestino Monteiro Guimarães. Presidente da entidade eleito em 1971, o estudante militou no movimento de esquerda Ação Popular e desapareceu após ser preso no Centro de Informações da Marinha, em 1973.
Além de estudantes, integrarão a comissão familiares de vítimas da ditadura, pesquisadores e personalidades ligadas aos direitos humanos.
Proibida de funcionar durante a ditadura, a UNE foi alvo de repressão em episódios como o incêndio que destruiu sua sede no Rio de Janeiro, em 1964, e a prisão de cerca de mil estudantes durante tentativa de realizar um congresso secreto em Ibiúna (SP), em 1968.
"Como os estudantes brasileiros estiveram no centro desse embate, é sensato e necessário que haja um estudo específico para compreender que tipo de perseguições sofreram", disse à Folha o presidente da UNE, Daniel Iliescu.
O lançamento ocorrerá durante encontro nacional de estudantes em Recife e terá entre os convidados o coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Cláudio Fonteles.

Armadilhas no Mali



São preocupantes os desdobramentos da intervenção militar da França no Mali, iniciada há uma semana com a autorização da ONU.
Um grupo radical islâmico que se diz ligado à rede terrorista Al Qaeda sequestrou 41 estrangeiros na Argélia -país vizinho do Mali que tem dado apoio à ação francesa.
O episódio é a primeira retaliação islamita à ofensiva da França, e nada sugere que será a última. Dias atrás, um rebelde malinês afirmou que seu país representa uma "armadilha muito pior do que Iraque, Afeganistão ou Somália".
A operação do Exército da Argélia para resgatar os reféns resultou na morte de um número ainda incerto de pessoas, entre insurgentes e sequestrados. Não há dúvidas de que o desfecho lamentável decorreu da precipitação das forças argelinas, o que não diminui a dificuldade do problema da França.
O Mali, a exemplo de quase duas dezenas de países da África, era uma colônia francesa até meados do século passado (1960), e os laços históricos pesaram na decisão da França de auxiliar o governo malinês contra os rebeldes. Eventual abstenção poderia ser vista pelos regimes das nações francófonas como um sinal de que não podem mais contar com o apoio de Paris.
Manter sua influência sobre o oeste da África é crucial para a França. Uma vitória dos insurgentes no Mali, localizado no centro dessa região, poderia desestabilizar países vizinhos com importância material nada desprezível.
Para citar dois exemplos, o Níger tem algumas das maiores reservas de urânio do mundo, e a Argélia responde por um quarto do gás natural importado pela Europa.
Além disso, há a ameaça de que um país geograficamente próximo da Europa ocidental caia nas mãos de radicais islâmicos. Os insurgentes no norte do Mali não são mais os nômades tuaregues que, há um século, promovem levantes periódicos. Os rebeldes que agora tentam tomar a capital Bamaco são filiados à Al Qaeda.
Desde junho, o grupo controla o norte do país com mão de ferro. Seus militantes ganharam espaço após dois eventos do começo do ano passado. Primeiro, os tuaregues venceram algumas batalhas. Depois, militares insatisfeitos com a atuação do Exército malinês promoveram um golpe de Estado.
O vácuo de poder criado por esse golpe permitiu o fortalecimento dos radicais islâmicos que, mais organizados, suplantaram os tuaregues e assumiram os focos da insurgência. Quando ficou claro que seria difícil para o governo do Mali, ainda em fase de transição, interromper o avanço rebelde, a ONU deu seu aval para a intervenção comandada pela França.
É difícil prever por quanto tempo o conflito se estenderá. É ainda mais difícil imaginar que termine sem que milhares de pessoas paguem com suas vidas por uma guerra que não escolheram lutar.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Posses


Kenneth Maxwell

Obama tomará posse na semana que vem em seu segundo mandato como presidente dos EUA. A previsão do tempo não é favorável. Tampouco há previsões de um caminho fácil depois que ele assumir.
Um novo abismo fiscal pende sobre o país. Dessa vez, o problema é o limite para as dívidas federais. O controle de armas está na agenda. Mas os norte-americanos compraram mais armas de fogo (muitas delas, armas portáteis importadas do Brasil) no mês transcorrido desde o massacre de alunos e professores em uma escola do Connecticut.
Há uma batalha feroz a caminho quanto à indicação de Chuck Hagel por Obama como secretário da Defesa. Um anúncio de página inteira já foi publicado no "New York Times", assinado pelo ex-prefeito de Nova York Ed Koch, pelo deputado federal Eliot Engel e pelo professor Alan Dershowitz, e pago pelo "Comitê de Emergência por Israel", instando os eleitores a escrever aos senadores do Estado, Chuck Schumer e Kirsten Gillibrand, pedindo que votem "não" à confirmação de Hagel.
Este mês marca o 150º aniversário da Proclamação de Emancipação, algo que Obama, o primeiro presidente negro dos EUA, deve celebrar. Em 1º de janeiro de 1863, Abraham Lincoln fez a proclamação, que não libertava os escravos fora dos dez Estados então em rebelião contra a União, na Guerra Civil Americana. Mas a proclamação de Lincoln jamais foi contestada judicialmente. A abolição da escravatura foi confirmada para todo o território dos EUA, na 13ª Emenda à Constituição, adotada pelo Congresso em fevereiro de 1865 e ratificada pelos Estados em dezembro do mesmo ano.
Na França, o presidente François Hollande interveio no Mali. Os rebeldes islâmicos estavam se saindo muito melhor que o esperado no país, o que não surpreende, pois estão bem equipados com armas roubadas da Líbia, uma consequência inesperada de outra intervenção francesa (e britânica).
Os britânicos forneceram aviões C-17 para ajudar a transportar suprimentos e soldados de Paris para Bamaco, a capital do Mali. O Conselho de Segurança da ONU apoia a ação francesa. Hollande diz que os soldados franceses ficarão no Mali pelo tempo que for preciso. Ele espera ter 2.500 soldados posicionados, e antecipa que uma força oeste-africana, com soldados de Nigéria, Burkina Fasso, Togo e Senegal seja (em breve) enviada para apoiar o governo malinês.
Em Londres, enquanto isso, David Cameron está dando os retoques finais em seu "grande discurso" sobre o Reino Unido e a Europa. Amanhã, em Amsterdã, o premiê britânico pode (ou não) prometer um referendo (depois da próxima eleição geral), na qual (ele espera) os conservadores podem (ou não) conquistar a maioria no Parlamento.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Atendimento hospitalar ligado a energéticos cresce


Segundo relatório dos EUA, maior grupo de pessoas afetadas tem entre 18 e 25 anos

DO NEW YORK TIMES

Cresce o número de pacientes atendidos em emergências hospitalares por complicações ligadas ao consumo de bebidas energéticas, revelam novos dados federais dos Estados Unidos.
Os casos anuais em que pessoas procuraram hospitais por razões ligadas ao consumo de energéticos dobraram entre 2007 e 2011.
Os problemas, normalmente ligados ao consumo excessivo de cafeína, podem incluir ansiedade, dores de cabeça, arritmia cardíaca e até ataques cardíacos.
Os dados mostram que o maior grupo de pacientes está na faixa dos 18 aos 25 anos. Dois terços dos pacientes atendidos foram homens.
Cerca de 42% das pessoas atendidas tinham tomado as bebidas com álcool ou outras substâncias, como remédios para deficit de atenção.
O setor de energéticos vem sendo alvo de atenção após a revelação de que a FDA (agência americana que regula remédios) teria recebido denúncias de mortes e ferimentos envolvendo as bebidas.
Os fabricantes de energéticos afirmam que seus produtos não causam perigos à saúde, e há poucas evidências de que as bebidas proporcionem qualquer coisa senão uma dose alta de cafeína, semelhante à que é encontrada numa xícara de café forte.

Eleição paraguaia preocupa antitabagistas


Favorito para ser presidente, Horácio Cartes é sócio de empresa de cigarros líder em contrabando para o Brasil

Candidato nega que interesses pessoais possam se sobrepor às questões coletivas; eleição será em abril

FLÁVIA FOREQU E JOHANNA NUBLAT
DE BRASÍLIA

Uma possível vitória do empresário Horácio Cartes -favorito na corrida presidencial paraguaia em abril- preocupa entidades e autoridades que atuam no controle do tabaco no Brasil.
Candidato do conservador Partido Colorado, ele é sócio da empresa de cigarros Tabesa, considerada pela indústria brasileira de fumo uma das principais marcas contrabandeadas para o país.
Hoje a quase totalidade do mercado paralelo no Brasil tem origem em fábricas paraguaias. E estima-se que mais de 80% da produção do país acabe no comércio ilegal.
Assim, o receio é que políticas antitabagistas do Paraguai, hoje já consideradas frágeis, se tornem ainda mais frouxas ou até inexistentes com a eleição de um empresário do setor do tabaco.
"Enquanto não houver um movimento por parte do governo paraguaio no sentido de tentar controlar a produção de seus fabricantes e o destino das mercadorias, ainda vamos conviver com o contrabando", explica Marcelo Fisch, auditor fiscal da Receita Federal que atua na área.
Ele aponta uma redução do contrabando frente a medidas de controle. Mas os números ainda impressionam.
A estimativa é que somente entre 10% e 15% do cigarro que entra ilegalmente no país é apreendido. Acredita-se que 18,3 bilhões de cigarros irregulares circularam no Brasil em 2011 -o que representou 18% do mercado total.
Os cigarros paraguaios entram ilegalmente no país em caminhões ou barcos, principalmente na fronteira entre o país vizinho e os Estados do Paraná e Mato Grosso do Sul.
Além de abocanhar uma fatia importante do mercado legal brasileiro, o cigarro contrabandeado é visto como um risco adicional à saúde pública por seus baixos preços.
Enquanto, no Brasil, um maço tem preço mínimo fixado em R$ 3, o mercado negro vende à metade disso.

BRASIL SOZINHO

Em novembro do ano passado, um novo protocolo de combate à oferta ilegal de cigarros e de cooperação internacional foi adotado por 140 países, entre eles o Brasil.
"O Paraguai não foi à reunião onde o protocolo foi aprovado, mas é signatário da Convenção Quadro para Controle do Tabaco [tratado internacional amplo que desencadeou esse protocolo]", diz Paula Johns, diretora-executiva da ONG ACT (Aliança de Controle do Tabagismo).
Sem o Paraguai, a implementação do acordo no Brasil fica prejudicada, avalia Tânia Cavalcante, secretária-executiva da comissão oficial que aplica essa convenção no Brasil e funcionária do Instituto Nacional do Câncer.
"Nos preocupa a possibilidade de o Paraguai ter como presidente um empresário da área de tabaco. Principalmente porque a gente entende que a implementação do protocolo depende da cooperação internacional", diz.
Para Vera Luiza da Costa e Silva, pesquisadora visitante da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, a eventual vitória de Cartes trará um natural conflito de interesses.
Procurado pela Folha, Cartes informou via assessoria que "de forma alguma o interesse público será precedido do pessoal". "Assim [minha candidatura] não pode representar preocupação de ONGs ou autoridades brasileiras."

Poluição não tem solução rápida, diz líder chinês


Níveis recordes lotam hospitais de Pequim

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

O futuro primeiro-ministro da China, Li Keqiang, disse ontem que não há solução rápida para a poluição em Pequim, que bateu novo recorde ontem e já lota hospitais com casos de asma e alergia.
À rádio estatal, o atual vice-chefe de governo disse que "houve um acúmulo de fumaça" na cidade e que o governo agirá: "Por um lado, temos que aumentar a força da gestão ambiental e outras tarefas oficiais e, por outro, devemos pedir ao público que reforce a proteção pessoal".
O departamento de vigilância ambiental de Pequim disse ter implementado plano de emergência que visa reduzir o número de carros nas estradas e cortar as emissões de fábricas em 30%.
A qualidade do ar em Pequim chegou a 755 no sábado, em um índice que mede partículas no ar conhecido como PM2.5. A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda que o nível diário de uma cidade não ultrapasse 15. Acima de 300 já é considerado perigoso.
A longo prazo, inalação de poluentes pode aumentar os casos de câncer e doenças cardíacas.

PIB da Alemanha registrou alta de apenas 0,7% no ano passado


Resultado é o pior desde 2009; exportações e investimentos caíram

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

O PIB da Alemanha, maior economia da Europa, ficou praticamente estagnado no ano passado: alta de 0,7% segundo dados do governo, abaixo das previsões dos economistas. O número indica que houve retração de 0,5% no último trimestre de 2012.
É o pior resultado desde 2009 -quando, colhida pela crise que eclodiu em 2008, a economia do país encolheu 5,1%- e mostra que, embora tenha evitado a recessão, a Alemanha não passou incólume pela crise na zona do euro, que abrange 17 países.
Por uma peculiaridade metodológica, o Escritório Federal de Estatísticas alemão só divulga o PIB do quarto trimestre um mês depois dos resultados fechados do ano.
Mas é certo que houve retração, já que nos três trimestres anteriores havia sido registrada ligeira alta (0,8% no primeiro trimestre, 0,3% no segundo e 0,2% no terceiro).
MENOS EXPORTAÇÕES
Especialistas atribuem o resultado à queda nas exportações alemãs, sobretudo para países da eurozona que estão em recessão -como Portugal, Espanha e Grécia-, e à redução dos investimentos por parte do setor industrial.
Apesar de alguns analistas, à luz dos números de 2012, reduzirem sua previsão de crescimento da Alemanha em 2013 (de 1% para 0,4%), outros mostram certo otimismo.
"Esperamos que os problemas do final do ano sejam de curta duração, já que a economia global dá sinais de recuperação", avaliou Rainer Sartoris, analista do HSBC.
Sartoris afirmou ainda que a demanda doméstica pesou negativamente no PIB porque os empresários relutaram em investir, apesar da disposição dos consumidores em gastar -os salários na Alemanha aumentaram 3,6% em 2012.
Outro dado positivo foi o primeiro superavit orçamentário do setor público alemão em cinco anos, de 0,1%.

Imaginação


Antonio Delfim Netto

A imaginosa operação realizada pelo governo para fingir o cumprimento do superavit primário foi irritante.
Teria sido muito melhor para a sua credibilidade reconhecer que, com um crescimento do PIB de 1% e uma queda de 2% na produção industrial, recomenda-se um afrouxamento fiscal e monetário e um estímulo aos investimentos. O aspecto mais preocupante foi a revelação da má qualidade do portfólio do BNDESPar empurrado para a Caixa Econômica Federal.
Tal evidência aconselha que se incluam na dívida líquida alguns dos empréstimos do Tesouro ao banco. Tem razão o TCU quando insiste em tomar conhecimento das garantias oferecidas aos empréstimos do BNDES, o que não está protegido pelo "segredo bancário".
Entretanto, por mais desastrada que tenha sido a operação na essência e na oportunidade, ela está longe de sugerir, como se tem afirmado, que "o governo perdeu o controle fiscal, a última peça restante do tripé". Afinal, terminamos o ano com um deficit nominal em torno de 2,4% do PIB, com uma taxa de inflação de quase 5,8% e com uma relação dívida líquida/PIB em torno de 36%, o que não prenuncia nenhum descontrole. Mas o deficit em conta-corrente de quase 2,5% do PIB sugere algum cuidado.
Há uma angústia provocada pela repetição de "truques" contábeis que, às vezes, chegam à transmutação de dívida pública (chumbo) em receita pública (ouro) graças à obra e à arte de alquimistas na busca da pedra "filosofal" capaz de produzir o "ilusionismo geral". A preocupação é legítima. Eles ameaçam reconstruir relações incestuosas entre o Tesouro Nacional, o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal.
Estamos diante de uma sucessão de "espertezas" capazes de, desapercebidamente, destruir o esforço de transparência que vem sendo preparado desde 1983, que levou à eliminação da famosa "conta-movimento" do BB e culminou na magnífica Lei de Responsabilidade Fiscal, até hoje duramente combatida pelo Partido dos Trabalhadores.
Agora mesmo, o governo introduziu de contrabando, numa medida provisória, um dispositivo prejudicial ao equilíbrio fiscal, o que justifica a tal angústia.
É uma pena. Isso torna ainda mais difícil superar a desconfiança que, hoje, existe entre o setor privado capaz de produzir as obras de infraestrutura e a sua interface no governo. A experiência recente mostrou que esta tem mais "poder" do que "competência", evidenciado no fato de atacar os problemas certos, mas de tentar resolvê-los sempre com mais calor do que luz!

Sarcófagos de concreto


Ruy Castro


RIO DE JANEIRO - Morreu Ada Louise Huxtable, 91, crítica de arquitetura do "New York Times", de 1963 a 1981, e do "Wall Street Journal". Foi a pioneira do gênero na imprensa. Não tolerava edifícios hostis às pessoas que viviam e trabalhavam neles ou aos seus vizinhos. Pena que não fosse brasileira.
Com uma Ada Louise na praça, não teríamos a intolerável Catedral Metropolitana, na avenida Chile, aqui no Rio -misto de usina nuclear com um balde emborcado, que acanalhou os Arcos da Lapa. Ou o espigão da Faculdade Cândido Mendes, na rua do Carmo, que engoliu o convento onde o príncipe d. João instalou a rainha dona Maria, em 1808. Ada Louise diria que Albert Speer, arquiteto do nazismo, os aprovaria.
Um de seus livros, de 1976, intitulava-se "Kicked a Building Lately?" (Chutou algum edifício ultimamente?). Chutar edifícios pode doer, mas é um protesto contra as empresas que plantam "sarcófagos de concreto" onde, até então, havia prédios adequados à harmonia urbana. Ou contra arquitetos cuja vaidade os faz projetar edifícios antissociais e em escala anti-humana, que desprezam o entorno.
Nesse sentido, o que ela não diria sobre Brasília, onde Lucio Costa e Oscar Niemeyer, fiéis a Le Corbusier, decretaram a morte da rua? No último domingo, a Folha entrevistou Paul Goldberger, sucessor de Ada Louise no "NYT" e seu crítico de arquitetura por 25 anos. "[Brasília] tem alguns bons prédios, mas não tem boas ruas", ele disse. "Parece um campus universitário no subúrbio".
Rola hoje, por toda parte, uma arquitetura de brilhos, mármores e espelhos -"como uma mulher cheia de joias", alerta meu amigo Luiz Fernando Janot, conselheiro do IAB.
O pior de qualquer arquitetura extravagante é que não só nos obriga a conviver com ela pelo resto da vida como cafonizará também a vida de nossos netos.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Governo de Nixon foi um poço de contradições


Análise

'Presidente de Watergate', que faria 100 anos hoje, foi 'falcão' que encerrou guerra e anticomunista que reatou com a China

CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA
ESPECIAL PARA A FOLHA

É comum a elaboração de listas dos melhores presidentes da história dos EUA por historiadores, jornalistas ou pelo público geral. Nelas, o nome de Richard Nixon, cujo centenário de nascimento ocorre hoje, nunca aparece entre os dez primeiros.
No entanto, poucos dos que em geral ficam no topo entre os 44 homens que ocuparam o cargo fizeram tanto quanto ele, em termos de políticas públicas de consequências duradouras e benéficas para o país e de atos de Estado importantes para a história mundial.
Apesar de suas realizações, o legado de Nixon estará sempre maculado pelo escândalo de Watergate, que o forçou a ser o primeiro (e até agora único) presidente americano a renunciar ao posto (para evitar um impeachment que era absolutamente certo).
Nixon foi um personagem shakespeariano. Não por acaso motivou filmes, peças e até uma ópera. Sua gestão foi um poço de contradições.
"Falcão" histórico, pôs fim à Guerra do Vietnã, que ceifava a vida de 300 americanos por dia quando ele assumiu o poder em 1969, e acabou com o serviço militar obrigatório em seu país.
Anticomunista histérico, estabeleceu relações diplomáticas entre EUA e China comunista; com isso a referendou como integrante da comunidade internacional e acelerou um processo de "détente" com a União Soviética.
Antissemita instintivo, fez de um judeu, o secretário de Estado Henry Kissinger, a pessoa mais importante de seu governo, ao final até mais relevante que ele próprio.
Beneficiário de doações políticas de empresas dos setores econômicos mais depredadores do ambiente, criou a Agência de Proteção ao Ambiente e sancionou uma revolucionária legislação de combate à poluição.
Associado a grupos políticos que tentavam boicotar o avanço dos direitos civis para os negros, criou e implantou as primeiras leis de ação afirmativa e garantiu o fim da segregação racial em escolas públicas.
Nixon viu o homem chegar à Lua, aprovou o programa Apollo-Soyuz, que colocou americanos e soviéticos em cooperação científica e terminou com a corrida espacial.
Seu projeto de assistência médica à população era quase tão inclusivo quanto o de Barack Obama e só não foi implantado porque os democratas na oposição, liderados por Edward Kennedy, o derrotaram por quererem outro, que fosse universal.
Mas a personalidade paranoide, autoritária, obsessiva de Nixon o levou ao desastre político de Watergate e obscureceu sua biografia.
Candidato à reeleição em 1972, era o favorito absoluto contra o frágil candidato democrata, George McGovern.
Nada impediria sua vitória, que de fato ocorreu com uma consagradora avalanche de votos (60,6% dos populares, a quarta maior porcentagem de todos os tempos, e 520 dos 537 eleitorais).
Apesar de todos saberem que se tratava de uma "barbada", que o redimiria definitivamente das derrotas eleitorais de 1960 (para a Presidência, contra John Kennedy) e 1962 (para o governo da Califórnia, contra Pat Brown), Nixon autorizou a execução de atos ilegais para assegurar sua vitória.
Entre eles, a invasão do diretório nacional do Partido Democrata no edifício Watergate, onde esperava encontrar documentos comprometedores contra o adversário McGovern, e contribuições de campanha irregulares.
Os invasores de Watergate foram presos, doações ilegais, descobertas e reveladas ao público. Para piorar, Nixon agiu para encobrir os crimes, destruir provas que o ligassem a eles e obstruir a Justiça.
Resultado: processo de impeachment, renúncia, humilhação pública, da qual só conseguiu se recuperar, e apenas parcialmente, muito tempo depois.
* CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA* é editor da revista "Política Externa"

Desemprego na eurozona bate recorde em novembro


Índice divulgado ontem foi de 11,8%, o maior da série histórica; Espanha lidera Taxa avançou pelo 19º mês seguido; resultado é visto como balde de água fria na esperança de retomada econômica

Antonio Calanni/Associated Press
Mulher pede dinheiro a passantes no centro de Milão (norte da Itália)
Mulher pede dinheiro a passantes no centro de Milão (norte da Itália)

BERNARDO MELLO FRANCODE LONDRES

A crise na zona do euro levou o índice de desemprego na região a atingir a marca recorde de 11,8% em novembro, informou ontem a Eurostat, a agência oficial de estatísticas da União Europeia.
O número é o maior já registrado desde o início da série histórica, em 1999. Sua divulgação foi recebida como um balde de água fria nas esperanças de início da retomada da economia no bloco.
O índice de desemprego nos 17 países que adotam a moeda única europeia teve salto expressivo na comparação com novembro de 2011, quando estava em 10,6%.
Em relação ao mês anterior, a taxa aumentou 0,1 ponto percentual, o equivalente a mais 113 mil pessoas sem emprego na região.
Apesar de a variação ter sido pequena, este foi o 19º mês seguido em que o desemprego avançou, de acordo com os números oficiais.
"Os dados não permitem ver muitos raios de esperança em uma recuperação da zona do euro", alertou o economista-chefe da consultoria IHS para a Europa e o Reino Unido, Howard Archer.
"No geral, a situação econômica da região ainda parece muito sombria", afirmou o analista, em texto enviado a investidores e jornalistas.
Para Archer, é "altamente provável" que o índice de desemprego entre os países que adotam a moeda única continue a crescer nos próximos meses e ultrapasse a marca de 12% ao longo deste ano.
ESPANHÓIS E GREGOS
A Espanha, um dos países mais atingidos pela crise, continua a ter a maior taxa de desempregados da zona do euro: 26,6%, o que significa que ao menos uma em cada quatro pessoas aptas a trabalhar está de braços cruzados no país. O índice avançou 3,6 pontos em apenas um ano.
O segundo lugar no ranking pertence à Grécia, que registrou 26% de desemprego em setembro, dado mais recente disponível.
O terceiro país da lista é Portugal, onde o índice de pessoas em busca de trabalho chegou a 16,3% em novembro passado.
Na soma dos 27 países que compõem a União Europeia, o desemprego permaneceu estável em 10,7%, igualando o recorde histórico registrado em outubro.
No total, mais de 26 milhões de pessoas estão procurando emprego no bloco, sendo 18,8 milhões na chamada zona do euro.
Entre os jovens de até 25 anos de idade, considerados os mais vulneráveis à crise, o número de desempregados chega a 5,8 milhões, sendo 3,7 milhões nos países que adotam a moeda única.
Na comparação com novembro de 2011, o desemprego subiu em 18 países do bloco, caiu em sete e permaneceu estável em dois.
Os melhores resultados foram registrados na Áustria (4,5%), em Luxemburgo (5,1%), na Alemanha (5,4%) e na Holanda (5,6%).

A questão externa


Matias Spektor

Diplomacia brasileira pode ser talhada para acelerar a redução da pobreza, mas é preciso quebrar a cabeça

Se você liga para política externa, não perca a produção recente de André Singer (USP), Jessé de Souza (UFJF), Luiz Werneck Vianna (PUC-Rio) e Marcelo Neri (Ipea). À primeira vista não parece, mas suas mensagens são cheias de consequências para a condução da diplomacia.
Por vias distintas, eles dão sentido à polarização emergente entre os 10% mais ricos da população do país e a maioria absoluta de pobres e semipobres que agora revoluciona a política e o mercado. A tensão incide sobre os costumes, a competição partidária, as políticas públicas, a qualidade da democracia e a natureza do capitalismo nacional.
Depois de ler esses autores, a pergunta que se coloca é clara: de que modo a polarização impacta a política externa brasileira?
Não há resposta fácil porque o fenômeno é novo. De quebra, não temos precedente histórico de uma diplomacia voltada para defender os interesses da massa empobrecida.
Ao longo do tempo, a política externa representou os interesses de financistas, exportadores e grandes industriais. Orientou-se estrategicamente para dar "autonomia" às elites nacionais em seu afã industrializante. Seu objetivo era desenvolver um capitalismo nacional, não gerar uma sociedade sem pobres nem minimamente igualitária.
Assim, a diplomacia ajudou a transformar o país de economia rural em sexta potência industrial em uma geração. O modelo é perverso. A metade das pessoas ainda não tem esgoto em casa. Quase 70% ganham até dois salários mínimos. E o número de homicídios supera muitas vezes o de países em guerra, como Iraque e Afeganistão.
O compromisso com a agenda antipobreza, quando chega ao discurso diplomático, é mais retórico do que prático. Não surpreende que os chavões mais repetidos tenham 40 anos de uso.
Existe agora a oportunidade de dar um passo atrás e imaginar como seria uma diplomacia talhada para acelerar a redução da pobreza e da desigualdade.
Essa guinada reformaria o comportamento internacional do país em áreas como direitos humanos, comércio, desarmamento, ambiente, imigração, combate ao tráfico de drogas, ajuda para o desenvolvimento e integração regional.
Uma mudança dessa envergadura não será fácil, porque vai demandar graus de acomodação inéditos.
Tome-se, por exemplo, o caso das multinacionais brasileiras. A política externa opera hoje para facilitar-lhes o voo na África e na América do Sul, beneficiando regiamente o capital nacional. Contudo, essa mesma política produz efeitos deletérios para quem está na base da pirâmide social.
Na vida de um país que é campeão mundial de desigualdade, injustiça e arbítrio, mas quer deixar de sê-lo, a política externa pode jogar um papel construtivo na reversão do quadro.
É necessário quebrar a cabeça com estudos detalhados para descobrir como.
Se isso nunca foi feito no passado, talvez seja porque as forças em jogo não estavam alinhadas nessa procura.
A julgar pelo que dizem nossos principais intelectuais públicos, as coisas quiçá começaram a mudar.

Impasse na Venezuela



Adiamento da posse de Chávez gera tensão e requer interpretação da Constituição, inconclusiva sobre o caminho a seguir
O agravamento do quadro de saúde do presidente Hugo Chávez, que o levou a deixar a Venezuela para se submeter a tratamento em Cuba, criou um impasse institucional. Reeleito em outubro para exercer seu quarto mandato, o líder bolivariano, que sofre de câncer, não reúne condições de retornar a Caracas a tempo de prestar juramento e tomar posse amanhã, data estipulada pela Constituição.
Opositores e defensores do governo divergem sobre que caminho seguir. A Mesa da Unidade Democrática (MUD), coalizão oposicionista, enviou carta à Organização dos Estados Americanos reafirmando sua interpretação de que, na ausência de Chávez, o chefe da Assembleia Nacional deve assumir a Presidência temporariamente e convocar novas eleições.
Segundo a MUD, se isso não ocorrer, será um desrespeito à Constituição do país e uma grave ameaça à ordem democrática.
O entendimento dos chavistas é diverso. A cerimônia de posse de Chávez, que foi reconduzido ao cargo pelo voto popular, seria mera formalidade que pode esperar pela definição do estado de saúde do presidente. Enquanto isso, o atual vice, Nicolás Maduro, permaneceria no comando do país.
O episódio reveste-se de características inéditas, e o texto constitucional não responde de maneira inequívoca às dúvidas suscitadas.
A Carta determina que, se o presidente eleito sofrer afastamento permanente (por morte ou renúncia, por exemplo) antes da posse, haverá nova eleição no prazo de 30 dias. Nesse período, o país será governado interinamente pelo presidente da Assembleia Nacional.
Em caso de ausência temporária do presidente da República, a Constituição estabelece a interinidade do vice por um prazo de até 180 dias, desde que com a anuência do Poder Legislativo.
Não está claro no texto constitucional, todavia, o que ocorre quando há um impedimento temporário na data da posse -daí o imbróglio, pois os chavistas apostam, ou fingem que apostam, nesse cenário.
A situação é mais complicada porque, na Venezuela, o vice-presidente não é eleito, mas indicado pelo chefe do Executivo. A rigor, a partir de amanhã, Maduro perderia os poderes de que foi investido.
A complexidade é tamanha que o principal nome da oposição, Henrique Capriles, declarou que caberia ao Tribunal Supremo de Justiça oferecer uma clara interpretação da norma constitucional.
Essa é, sem dúvida, a melhor solução. O impasse venezuelano é um assunto interno do país e deve ser resolvido por suas instituições. Não há razão, até aqui, para apontar um "golpe" em curso na Venezuela, assim como foram precipitadas e infelizes as declarações, por parte do governo brasileiro, de apoio à visão chavista.
No cerne da dificuldade está a falta de transparência sobre a saúde de Chávez. Como de hábito, os representantes do chavismo agem de modo autocrático, mostrando-se intransigentes no diálogo com as demais forças políticas do país.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Árabes vivem crise de identidade, diz escritor


Para Amin Maalouf, confronto entre sunitas e xiitas piorou com invasão do Iraque e é fundamental na guerra síria

Romancista libanês critica ingerência da religião no Estado e diz que o Egito não votou por um regime religioso

DIOGO BERCITODE SÃO PAULO

Quando lançou o ensaio "On Identity", em 1996, Amin Maalouf esperava que o livro se tornasse obsoleto em um futuro próximo -que a ideia de que uma crise de identidade teria consequências violentas fosse coisa superada.
O escritor franco-libanês consolidou sua carreira e foi eleito imortal da Academia Francesa. Mas hoje ainda testemunha um Oriente Médio imerso em conflitos sanguinolentos entre comunidades.
Parte dos confrontos é travada entre sunitas e xiitas, casos de Iraque, Síria e Líbano.
Outra parte está ligada ao papel da religião no Estado -caso do Egito, onde Maalouf vê atitudes equivocadas do governo quanto ao islã.
Leia trechos da entrevista que o escritor concedeu à Folha por telefone, de Paris.
Folha - Há temor de uma nova guerra civil no Líbano. O senhor está preocupado?
Amin Maalouf - É preocupante, mas há sinais encorajadores. A população está dividida em duas partes. Metade é hostil ao atual regime da Síria, e metade tem ressalvas quanto à insurgência e quer que esse governo continue.
Meu temor é que essa divisão política produza uma confrontação militar. Mas os principais grupos militares se abstiveram do confronto, apesar de poder ser dito a esta altura que o regime da Síria quis esse tipo de conflito armado e tentou provocá-lo.
Essa situação tem origem no conflito de identidade, como o sr. descreve no seu livro?
Penso que o conflito na Síria tornou-se, sim, um conflito entre duas comunidades.
O regime se apoia na comunidade alauita [xiita], e o conflito parece cada vez mais a disputa entre a maioria sunita e a minoria xiita. O Exército tornou-se a força de uma comunidade pequena, e por isso muitas pessoas de outros grupos desertaram e se uniram à oposição. Isso está claro hoje e se reflete no Líbano.
Em muitos casos, a situação nos países árabes orientais -Síria, Líbano, Iraque, Bahrein etc.- tem como fator decisivo o conflito entre sunitas e xiitas. É claro que isso não acontece no norte da África, em que não há xiitas e, portanto, não há conflito.
Como esses países chegaram a uma situação tão crítica?
Essa parte do mundo está dividida. Foi dividida por linhas comunitárias. Mas há elementos que são recentes.
Dei um exemplo, que é o conflito entre sunitas e xiitas. Claro que há divisão entre xiitas e sunitas no mundo muçulmano desde o século 7º. Mas esse confronto entre comunidades, sangrento como no Iraque, é uma coisa nova.
Foi iniciado quando?
Começou principalmente nos últimos dez anos. Tornou-se maligno na invasão do Iraque (2003), provavelmente porque houve um sentimento entre os sunitas de que eles perderam a guerra.
Algumas pessoas desempenharam um papel importante em alimentar essa oposição entre as comunidades.
Uma delas foi Abu Musab al Zarqawi [islamita ligado à Al Qaeda, morto em 2006 pelos EUA], ao perpetrar massacres e fazer propaganda antixiita. Isso levou a um confronto que não existia.
O poeta sírio Adonis diz que a cultura árabe já foi extinta. Você acha que isso leva a uma crise de identidade, também?
Há outras questões cruciais. O que aconteceu no último ano foi importante -houve levantes e uma aspiração por democracia, por mais liberdade. E houve um debate muito relevante tomando forma, que é a participação da religião nessas sociedades.
O regime anterior no Egito costumava dizer que o inimigo eram os extremistas religiosos. Grupos como a Irmandade Muçulmana pareciam ser a principal oposição.
Agora. em muitos países as pessoas votaram nesses grupos, porque eles têm legitimidade e presença na população. O que vemos no Egito e na Tunísia são esses movimentos sendo confrontados pela realidade dos governos.
Não tenho certeza de que a população irá aceitar outro totalitarismo político e social. Esta é uma era de incertezas. Mas algo está se movendo.
A identidade religiosa é mais importante hoje?
Não tenho certeza de que essa seja uma atitude a longo prazo. Foi uma reação à situação em que esses grupos eram a principal oposição.
Mas não acho que a população tenha votado por regimes religiosos, por exemplo, no Egito. A Irmandade não foi eleita por ser um movimento islâmico, mas apesar de ser.
A escolha era entre uma pessoa que parecia vir do antigo regime [Ahmed Shafiq] e uma da Irmandade [Mohamed Mursi, o atual presidente]. Os egípcios decidiram não votar no antigo regime.
Acho que o governo está errado em impor essa nova Constituição. Deveria mostrar que o islã não entra em conflito com a democracia, e não islamizar as instituições. O papel deles é propor soluções para os problemas, mas não há solução religiosa para os problemas econômicos.
Em "On Identity", o senhor dizia torcer para a crise da identidade se tornar irrelevante no futuro. Isso de fato ocorreu?
Não. E não acho que estejamos próximos da solução. É ainda mais complicado hoje. Muitas sociedades enfrentam tensões por problemas não solucionados de identidade.
Os árabes também?
Sim, assim como os europeus. Claramente o problema de identidade no mundo árabe é mais maligno hoje, por uma série de razões, entre elas o conflito sunitas-xiitas.
Também há explicações globais. Na globalização, todas as culturas se sentem sob pressão. A reação natural a isso é que todos queiram reafirmar suas identidades. Pessoas que vêm de grupos frágeis têm medo de ser aniquiladas, e pessoas de grupos poderosos temem ser invadidas por uma cultura externa.

O fim do mensalão


Vladimir Safatle


O retorno de José Genoino à Câmara dos Deputados é sintoma de uma bizarra compulsão de seu partido em relação ao chamado mensalão.
É compreensível levantar discussões sobre a extensão e a profundidade das penas, assim como sobre a necessidade de punir com o mesmo rigor a vertente tucana do escândalo. Não é aceitável, porém, agir como se nada tivesse ocorrido, como se o julgamento fosse simplesmente um complô urdido contra a esquerda brasileira.
Ao afirmar que os condenados no mensalão não seriam desligados do partido, ao aceitar organizar uma contribuição para auxiliar tais condenados a pagarem as multas aplicadas pelo STF e, agora, ao achar normal que alguém condenado em última instância assuma uma vaga no Congresso, o PT age como um avestruz que coloca a cabeça na terra e erra de maneira imperdoável.
O mínimo a ser feito depois do julgamento era apresentar uma autocrítica severa para a opinião pública. Tal autocrítica não deveria ser apenas moral, embora ela fosse absolutamente necessária.
Ela deveria ser também política, pois se trata de compreender como o maior partido de esquerda do Brasil aceitou, em prol do flerte com as práticas mais arcaicas de "construção da governabilidade", esvaziar completamente as pautas de transformação política do Estado e de aprofundamento de mecanismos de democracia direta.
Desde que subiu ao poder federal, planos interessantes, como o orçamento participativo, sumiram até mesmo da esfera municipal do PT, o que dirá a discussão a respeito da superação dos impasses da democracia parlamentar.
No seu lugar, setores do partido acharam que poderiam administrar a política brasileira com os mesmos expedientes de sempre e, ainda assim, saírem ilesos. Agora, mostram-se surpresos com o STF.
Para que todos não paguem por isso diante da opinião pública, há de se dizer claramente que não é a esquerda brasileira que foi julgada no mensalão, mas um setor que acreditou, com uma ingenuidade impressionante, poder abandonar a construção de novas práticas políticas sem, com isso, se transformar paulatinamente na imagem invertida daquilo que sempre criticaram.
Se uma autocrítica fosse feita, o Brasil poderia esperar que certos atores políticos começassem, enfim, uma reflexão sobre a necessidade do aprofundamento da participação popular como arma contra a corrupção do poder.
Ao que parece, no entanto, precisaremos de muito mais escândalos para que tal pauta seja, um dia, colocada em cena.

Fraqueza comercial



Diferença entre exportações e importações tem pior saldo desde 2002; resultado ruim é fruto de deficiências internas, além da crise global
A balança comercial brasileira teve em 2012 seu pior resultado em dez anos. A diferença entre as exportações e as importações foi de US$ 19,4 bilhões, redução de quase 35% em relação aos US$ 29,7 bilhões obtidos em 2011.
O desempenho ruim está diretamente relacionado com a desaceleração da economia mundial. O Brasil exportou um total de US$ 242,6 bilhões, 5,3% a menos que no ano anterior. Preços menores de commodities, especialmente do minério de ferro, e a recessão europeia explicam boa parte do recuo.
Outros destaques negativos foram as vendas para a China -principal parceira comercial do Brasil-, que diminuíram 7%, e para a Argentina -ainda um grande destino de manufaturados brasileiros, apesar da deterioração de sua economia-, que absorveu 20,7% a menos do que em 2011.
O saldo só não foi pior porque as importações também caíram 1,4%, para US$ 223,1 bilhões. O crescimento do PIB de apenas 1% (contra os mais de 3% projetados no início do ano passado) limitou as compras brasileiras.
Para 2013 não se espera um saldo comercial muito melhor. De um lado, deve haver alguma retomada do crescimento global e dos preços das matérias-primas, impulsionando as exportações. A safra agrícola também promete ser boa -a última estimativa do IBGE indica alta superior a 5%. Por outro lado, o PIB brasileiro deve crescer cerca de 3%, elevando as importações.
Não são apenas as causas globais, contudo, as responsáveis pela estagnação do comércio brasileiro. Muitas amarras históricas que ainda prendem o país são "made in Brazil". A falta de inovação e de competitividade, por exemplo, mantém a pauta exportadora pouco diversificada e com baixo conteúdo tecnológico.
Além disso, a política comercial é pouco eficaz para aumentar a integração da economia brasileira nas cadeias globais de produção. Diversos países vêm estabelecendo acordos bilaterais ou regionais que formam teias mercantis cada vez mais complexas, mas o Brasil não participa desse movimento.
Por fim, o governo não tem uma estratégia para reverter o declínio do Mercosul, que se apaga em protecionismo pueril e na falta de compromisso com a integração.
Por razões sobretudo ideológicas, o Brasil aposta em nações problemáticas da América Latina (como Argentina e Venezuela), em vez de traçar uma agenda positiva com países que têm seguido melhor a rota do desenvolvimento, como Chile, México e Colômbia.
Não será apenas desvalorizando sua moeda que o Brasil dinamizará o comércio exterior. Nas modernas redes de produção, são os condicionantes internos de competitividade e o alinhamento estratégico entre governos e empresas, locais e multinacionais, que determinam onde ocorrerão os investimentos em setores de ponta.
Não se vê nem sombra desse tipo de debate no Brasil.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Cercado por ditaduras


Minha história Carlos Alfredo Claret, 64


Argentino foi preso e torturado no Rio Grande do Sul, em possível ação da Operação Condor em 1978

FELIPE BÄCHTOLDDE PORTO ALEGRE

RESUMO O engenheiro argentino Carlos Alfredo Claret, 64, vivia no Rio Grande do Sul em 1978, quando foi preso. Com militância peronista, ele migrou após o golpe militar na Argentina, em 1976. Na cadeia, sofreu tortura e foi interrogado por pessoas que identificou como militares argentinos, em uma possível ação da Operação Condor, a aliança entre ditaduras do Cone Sul.
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Na ditadura da Argentina, diziam: "Primeiro, vão matar os militantes, depois os simpatizantes e, ao final, serão os indiferentes".
Saí do país por uma questão política. Era dirigente da universidade de Río Cuarto, em Córdoba. Um colega foi encarcerado em 1976 e apareceu no outro dia enforcado. Eu não podia mais ficar.
Vim ao Brasil e fui trabalhar em uma fábrica em Passo Fundo (RS). Mas me procuravam na Argentina pela militância na universidade.
Um dia, um amigo veio me avisar que a polícia estava na fábrica procurando documentos de estrangeiros.
Pouco depois, o Exército me apanhou. Estava perto de uma praça, dirigindo, e dois carros militares na frente trancaram o meu Fiat. Eles me apontaram um fuzil e diziam: "Fica quieto". Ninguém falava nenhuma palavra.
Dias antes, eu tinha solicitado um certificado de bons antecedentes para poder trabalhar regularmente.
Fui levado a um regimento do Exército em Passo Fundo. Fui encapuzado, algemado e deitado no banco de trás de um Fusca.
Viajamos e chegamos à Polícia Federal em Porto Alegre umas 3h. Tentava saber onde estava. Diziam: "Temos todo o tempo do mundo, ninguém sabe onde você está. Temos a tua mulher, os filhos". Não me diziam a acusação, nada.
Fui levado para uma salinha de interrogatório, isolada. Não davam porrada, mas vinha um grandão que me pegava pelos cabelos e falava: "Vamos te matar".
Eles me mandaram escrever toda a minha história, as pessoas que eu conhecia na Argentina, tudo. Passei um tempo longo nessa sala.
Vinha um cara mau, ameaçava. Apareceu até um que se dizia padre, falando para confiar na igreja e relatar meus "contatos".
Fui deixado lá dias, sem água ou comida. Escrevi toda a história da minha vida. Se eu deitava, tocava uma campainha, acendia uma lâmpada muito forte. Não sei quanto tempo foi. O cérebro já não sabe o que está fazendo.
Foram dois períodos disso. No segundo, puseram fios [elétricos] nas mãos e nos pés. Davam choques e diziam que teria mais se não escrevesse.
O último interrogatório tinha gente da Argentina. Estavam vestidos como civis, mas dava para ver que eles eram militares.
O que eu mais sofria era não saber o que ocorria com as crianças e a minha mulher.
De uma hora para outra, parou tudo. O chefe da polícia disse: virá aqui o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados.
Achei que era outra estratégia para me fazer falar, como a do padre. Fecham a porta e entra um rapazinho, bem vestido. Era Guy Prim, do Alto Comissariado, que trabalhava com dom Paulo Evaristo Arns em São Paulo. Falou que meus amigos em São Paulo o tinham contatado.
Ele disse: "Podem te levar à Argentina a qualquer momento, tens que confiar em mim". Ele mostrou seu passaporte e pediu para preencher um formulário das Nações Unidas [para solicitar refúgio]. Escrevi o que ocorreu.
Guy Prim me disse para tentar ir para a Holanda ou a Suécia porque responderiam rápido. Falou: "Se não responderem logo, vão te mandar para a Argentina".
Colocamos Suécia e, em 24 horas, concederam a autorização para viver lá. Levaram-me algemado até o avião. Moro na Suécia hoje, criei uma companhia de consultoria.
Fiquei um mês preso. Foi por milímetros, uma coisa terrível. Se me mandassem para a Argentina em vez de Porto Alegre, desapareceria e ninguém saberia.