terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Neurocientista psicopata

Neurocientista psicopata

James Fallon era um neurocientista norte-americano envolvido em pesquisas sobre as relações entre padrões anatômicos do cérebro de psicopatas e comportamento criminoso. Sua hipótese era a de que existiam distinções anatômicas sensíveis entre criminosos violentos e pessoas "normais". Imbuído da certeza de que a anatomia é o destino, lá foi Fallon tentar mostrar que a baixa atividade em certas áreas do lobo frontal e temporal, responsáveis pela empatia e compaixão, poderia nos auxiliar a identificar um psicopata.
Mas eis que o inimaginável ocorre. A fim de construir um quadro comparativo, o neurocientista resolveu servir-se de tomografias de si mesmo e de membros de sua própria família. Aterrorizado, Fallon descobriu que seu próprio cérebro tinha similitudes fundamentais com a anatomia cerebral dos psicopatas. Sim, ele mesmo era um psicopata potencial, um "protopsicopata".
"Eu sempre soube", disse sua mulher. Afinal, anos a fio esquecendo o dia do rodízio do carro e não se comovendo com relatos das desfortunas do câncer do seu tio-avô só podiam significar uma indiferença fria e tendencialmente psicopata. "É verdade, eu sempre fui insensível", responde o neurocientista. Mesmo suas ações de caridade, ele agora reconhece, eram feitas sem empatia e sem "real envolvimento", ou seja, sem aquela lágrima no canto dos olhos que escorre furtivamente, como Hollywood nos ensinou.
Mas havia um problema: Fallon não matou ninguém, ninguém reclamou de ter sido estuprada por ele. Por que então o protopsicopata não passou ao ato? "O amor da família me salvou. Ele conseguiu neutralizar o pior". Ao que só podemos responder: "Aleluia, aleluia".
Esta história real demonstra a inanidade especulativa primária de certos setores das neurociências. Pois o que Fallon descobriu não foi sua "protopsicopatia" nem a força redentora do amor familiar, mas a simples ausência de relações diretas entre estados cerebrais e "comportamento criminoso".
A neurologia conseguiu identificar áreas do cérebro, como o giro supramarginal, cujas atividades são fundamentais para a empatia e a compaixão. Mas se eu fosse kantiano, lembraria que a apatia e a desconfiança em relação à compaixão são condições, não apenas para a psicopatia e para o comportamento antissocial, mas para todo comportamento moral, já que a universalidade do julgamento moral exige o não envolvimento especial com sujeitos particulares determinados.

Ou seja, o mesmo estado cerebral pode estar na base de dois comportamentos sociais divergentes, o que demonstra que não há causalidade direta alguma entre estado cerebral e comportamento social. Mas admitir tal evidência deixaria muita gente sem emprego.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Kennedy

Museu reedita exposição que Kennedy viu no dia da morte
SILAS MARTÍDE SÃO PAULO
Na noite antes de seu assassinato, que hoje completa 50 anos, o presidente John Kennedy e sua mulher, Jacqueline, dormiram num quarto de hotel cheio de obras de arte, entre elas peças de Picasso, Monet e Van Gogh.
Era a suíte 850 do Hotel Texas em Fort Worth, de onde partiram para Dallas na manhã seguinte, quando Kennedy foi morto.
As 16 obras não eram, é claro, parte da decoração do hotel. Mas sim fruto da ideia de um crítico de arte de um jornal local que convenceu os maiores colecionadores dali a emprestarem obras-primas para surpreender o casal.
Um museu em Fort Worth agora relembra a data reunindo quase todas essas peças na mostra que leva o nome do antigo hotel onde Kennedy passou a última noite.
"Era o hotel mais chique da cidade", conta Shirley Reece-Hughes, curadora da mostra no Museu Amon Carter. "Eles iam ficar no maior quarto de todos, no 13º andar, mas o serviço secreto achou a outra suíte mais segura por ter menos acessos."
Mesmo menor, o apartamento tinha dois quartos e uma sala de estar. De acordo com o protocolo da época, Kennedy e Jackie dormiram em quartos separados.
No quarto dela, por causa de sua ascendência francesa, estavam obras de impressionistas como Monet e Van Gogh. O dele tinha clássicos da arte americana, como "Swimming", obra-prima que Thomas Eakins pintou no século 19, retratando garotos nadando num lago.
Mas Kennedy e a primeira dama só foram perceber que estavam numa espécie de minimuseu no dia seguinte. Depois de um atraso no jantar em Houston, o casal voou até Fort Worth e chegou ao hotel quase à meia-noite, indo direto para a cama.
Talvez isso explique porque trocaram de quarto. Restos de espuma de barbear no quarto preparado para Jackie indicam que o presidente dormira entre os impressionistas, enquanto manchas de maquiagem no outro quarto dão a entender que a primeira dama ficou por ali.
No dia seguinte, espantados com as obras, Kennedy e a mulher quiseram agradecer Ruth Johnson, a colecionadora que organizou a mostra. Sem saber seu telefone, pediram a agentes da guarda presidencial que procurassem todas as mulheres com esse nome na lista telefônica até acharem a Ruth correta.
"Kennedy falou com ela, depois passou o telefone para Jackie, que disse que as obras eram tão lindas que ficaria difícil sair do quarto", conta a curadora. "Esse foi o último telefonema que Kennedy deu em vida para alguém fora de seu círculo."
Para Reece-Hughes, o objetivo é "reconstruir aqui a parte que foi esquecida dessa história."

O anjo da história

JOSÉ ANÍBAL
O anjo da história
Se hoje algo retoma, de algum modo, os tempos de Jango, é certo recurso retórico a um populismo fácil, de sínteses pretensiosas e rasas
Em meados dos anos 1970, exilado em Paris, tive a oportunidade de conversar com o general Euryale de Jesus Zerbini, defensor da legalidade durante o golpe de 1964, em seguida isolado, preso e reformado.
Entre outros episódios, Euryale de Jesus Zerbini contou que, no início do golpe militar, o presidente João Goulart lhe telefonou para saber como estava a estratégica unidade do Exército de Caçapava, então comandada pelo general.
Zerbini reiterou sua lealdade e sua determinação de acatar as ordens do presidente. Jango agradeceu e encerrou a conversa dizendo que ligaria novamente para instruí-lo. Com nostalgia, o general arrematou: "Estou esperando o telefonema até hoje".
Lembrei-me desse episódio ao ler o estimulante artigo de André Singer, "Longa ausência", publicado na Folha de sábado passado, 16 de novembro ("Opinião"). Singer menciona um episódio do livro de memórias do notável Almino Affonso ("Da Tribuna ao Exílio") sobre os últimos momentos de João Goulart em Brasília, em 1º de abril de 1964.
Nesse caso, a "vilania dos traidores", para usar a expressão de Salvador Allende, refere-se à sabotagem da Varig, cujo avião, que deveria levar Jango para o Sul, ficou em solo. Jango embarcou em um avião da FAB (Força Aérea Brasileira) e esperava voltar a Brasília em 48 horas. Assim como o telefonema ao general Zerbini, Jango não retornou.
Então, outra vilania, esta do presidente do Senado, que declarou vaga a Presidência da República. O então presidente levou quase meio século para voltar a Brasília, pela mesma FAB que o levou embora.
Segundo Singer, Jango teve de esperar não apenas a morte, "mas também que viesse um período político que, de algum modo, retoma o seu, para que pudesse reassumir, na quinta-feira anterior [14 de novembro], o lugar que lhe cabe como antigo chefe de Estado".
Todos os brasileiros --todos nós que lutamos contra a ditadura, todos nós que reconhecemos na democracia um valor universal-- "reassumimos" junto com o presidente João Goulart durante a homenagem da semana passada.
O Brasil amadureceu, passeou por todo o espectro ideológico em mais de 20 anos de democracia, sempre com transições republicanas --mesmo no impeachment de Collor. Jango não teve a mesma sorte. Nem o Brasil. Onde a similitude entre a época de Jango e a atual?
No governo FHC, a tutela militar sobre o poder civil, com a criação do Ministério da Defesa, esvaiu-se. Assim como a violência política e qualquer tentativa de desestabilização por agentes internacionais.
Nos propósitos e nas circunstâncias, mas sobretudo pela postura institucional de temperança e austeridade, nada poderia estar mais distante de João Goulart do que o momento presente, tanto nas virtudes quanto nos defeitos.
Se é o reformismo de Jango que o emparelha aos governos do PT, haja viseira ideológica. Apesar do patente desejo da sociedade por mudanças, nada tem sido mais antirreformista do que o PT no poder.
A última das descomposturas, o mensalão, mal esfriou e nem assim procuraram uma tranca para a porta arrombada. O sistema político, como de resto o governo, anda para trás. Reforma, que é bom, nenhuma.
Discursos exaltados, abusando de rede nacional, não tangenciam questões políticas relevantes. Deixam mais insatisfação do que esperança de mudança.
Se algo retoma, de algum modo, aquele tempo, é certo recurso retórico a um populismo fácil, de sínteses pretensiosas e rasas, que se apropria da história confundindo a ênfase com o fato.
Singer, como um anjo da história, observa os homens de longe, fora do tempo e acima das coisas.

Dallas marcada

RUY CASTRO
Dallas marcada
RIO DE JANEIRO - É provável que Dallas, no Texas, nunca se livre do estigma de ser a cidade onde, há 50 anos no dia de hoje, John Kennedy foi morto. Outras cidades já foram palco de assassinatos iguais ou piores, como o de César, em Roma, ou o de Lincoln, em Washington, mas havia algo de inevitável nisso. Afinal, eles trabalhavam nelas.
Dallas, não. Seu ódio contra Kennedy era maciço, e o desfile do presidente em carro aberto, uma provocação. Hoje Dallas tenta apagar essa imagem, mas todos sabem que Lee Oswald, o assassino, apenas fez o que muitos políticos, fazendeiros, empresários, protestantes, valentões e racistas da cidade gostariam de ter feito.
Columbine, no Colorado (1999), e Newtown, em Connecticut (2012), onde dezenas de inocentes foram fuzilados por psicopatas, e a praia da Luz, no Algarve, em Portugal (onde, em 2007, desapareceu a menina inglesa Madeleine), também ficaram marcadas. Essas cidades não contribuíram para as tragédias, mas continuarão lembradas como seus cenários.
Por mim, quero que Dallas se dane. Foi a única vez em que, ao entrar nos EUA sem ser por Nova York, a imigração me parou. Se bem que talvez eles tivessem razão. O ano era 1988, e eu estava vindo de Cuba pela Cidade do México --daí o desembarque lá. Talvez tenham visto em mim um contrabandista de charutos, porque me fizeram abrir a mala.
Eu não trazia nenhum charuto, e sim um comprometedor estoque de biquínis brasileiros. Manuseando, cheirando e quase comendo aqueles microssutiãs e calcinhas, devem ter pensado que eu era um agente do tráfico de brancas. Custei a convencê-los de que eram um presente da "Playboy" brasileira para sua irmã americana, e que eu os estava levando de favor. E vinguei-me dizendo que, perto dos nossos, os biquínis das mulheres americanas ficariam melhores se usados como paraquedas.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

As forças da história

HÉLIO SCHWARTSMAN
As forças da história
SÃO PAULO - A troca de Mahmoud Ahmadinejad, o incorrigível, por Hasan Rowhani, o moderado, fará Ocidente e Irã finalmente se entenderem na questão nuclear? Personalidades e fatores ainda mais caprichosos como o próprio acaso influenciam a história ou sua marcha é ditada por forças mais profundas?
Durante boa parte do século 20, prevaleceram concepções que enfatizam os grandes movimentos. Aí se incluem os marxistas, com a luta de classes e o materialismo histórico, a turma dos Annales, com sua "longue durée" e o pessoal da geopolítica, para quem características topográficas, climáticas e demográficas são decisivas. Somam-se a eles os chamados institucionalistas, que destacam o papel de estruturas como tipo de governo, grau de liberdade, eficiência do Judiciário etc.
Representantes de todas essas escolas produziram boas análises, com grande poder explicativo e que geram interessantes "insights". Não há dúvida de que todos os elementos citados e outros não citados têm sua importância. Mas isso é tudo?
Não parece absurdo imaginar, no rastro dos proponentes da chamada história contrafactual, que, se Hitler tivesse se dedicado à arte e não à política, ou tivesse morrido na Primeira Guerra, os acontecimentos subsequentes teriam sido bem diferentes.
De forma mais jocosa, Matthew White defende que, se o nacionalista sérvio Gavrilo Princip não tivesse assassinado o arquiduque Francisco Ferdinando em 1914, não teria havido a Primeira Guerra, nem consequentemente a tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia, nem a assunção de Hitler na Alemanha. Princip, sozinho, responde pelas mortes de 80.000.001 pessoas.
White avança o sinal, mas é difícil dizer quanto. Se os achados dos cientistas que estudam sistemas complexos valem para a história, pequenas variações podem produzir resultados dramáticos --e isso sem contrariar as tais das forças profundas.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Allende e os 40 anos do golpe militar no Chile

HORACIO GUTIÉRREZ
Allende e os 40 anos do golpe militar no Chile
Pinochet emerge potente para encarnar o contraexemplo. Uma maldição para a direita: sua sobrevivência passaria por "despinochetizar-se"
Em setembro, completaram-se 40 anos do golpe militar que derrubou no Chile o presidente socialista Salvador Allende. Interessante constatar como o 11 de setembro de 1973 --que dividiu o país em dois, temporal e simbolicamente-- foi lá celebrado.
Nunca antes a data tinha sido objeto de tantos eventos: programas de TV, livros, recitais, exposições, passeatas, missas, ações judiciais, ao longo e largo do país. O que está acontecendo? Uma resposta pode ser o ano eleitoral em curso no Chile, que confronta candidatas presidenciais com ideários exatamente opostos: Michelle Bachelet, socialista, e Evelyn Matthei, da direita, ambas filhas de generais, a primeira com o pai assassinado por não aderir ao golpe, a outra com um pai que integrou a junta militar golpista.
Mas esse dado não explica tudo: já tinham ocorrido aniversários do golpe em época eleitoral e não provocaram a ressonância deste.
O que tanto se rememora? Nos eventos, proliferaram atos de "perdão" às vítimas; documentários revelaram detalhes das atrocidades da ditadura; peças de teatro preocuparam-se em restituir a dignidade dos humilhados; debates buscaram a genealogia do mal; palestras revisitaram o socialismo; inúmeras foram as homenagens a Allende, nenhuma a Pinochet. Foi Pinochet esquecido? Não. Emergiu potente, mas para encarnar, como nunca antes, o contraexemplo, aquilo que nunca mais deveria acontecer.
Uma maldição para a direita e sua candidata presidencial, obrigadas a emitir sinais de mudanças: sua sobrevivência passaria por "despinochetizar-se", o que significaria colaborar na erradicação de entulhos autoritários como a Constituição de 1980, além de incluir em seu ideário, sem constrangimentos, a democracia e o respeito aos direitos humanos como valores permanentes.
E Allende? Allende, claro, sempre fora recordado com afeto pela esquerda, mas desta vez notou-se sua irrupção num espaço público mais amplo, aparecendo com vigor e dignidade. Reaparece cheio de ideias para dar, pautando até a atual agenda do mundo popular: a construção de uma sociedade mais justa e plural, mesmo tendo o socialismo desaparecido do vocabulário político.
As massas obstinadas que concorreram aos mil eventos foram as que Allende sempre amou: os trabalhadores, os estudantes, os intelectuais, as minorias, com participação quiçá hegemônica das novas gerações. Não fosse pelas lembranças oficiais no passado recente, poder-se-ia gritar ao vento que Allende, como uma fênix, renascera literalmente das cinzas, contaminando com seu discurso subversivo as novas gerações que teimam em repetir publicamente valores caros a ele: rebelar-se contra toda exploração, hoje associada ao neoliberalismo imposto pela ditadura.
Todo Chile pôde ouvir em setembro, agora pela boca de jovens, que "os processos sociais não se detêm nem com o crime nem com a força" e que "novamente se abrirão as grandes avenidas por onde passará o homem livre para construir uma sociedade melhor". Para remate, verdadeira penitência para a direita, ressoaria o eco queimante há muito cantado pelas massas politizadas, infladas de superioridade moral: "Se siente, se siente, Allende está presente".

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Agência espionou Martin Luther King e Muhammad Ali

Agência espionou Martin Luther King e Muhammad Ali
NSA realizou escutas nos anos 60 por causa da oposição de ambos à Guerra do Vietnã
A Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA, atualmente envolvida em um escândalo de espionagem, gravou conversas de críticos proeminentes da guerra do Vietnã nos anos 60, entre os quais o ativista Martin Luther King e o ex-boxeador Muhammad Ali, revelam documentos sigilosos recentemente liberados.
As escutas incluíam ligações telefônicas e cabogramas de dois senadores no exercício de seus mandatos: Frank Church, democrata do Idaho, e Howard Baker, republicano do Tennessee --este último, misteriosamente, um dos mais firmes partidários do esforço de guerra norte-americano no Vietnã.
A NSA também interceptou comunicações internacionais de jornalistas conhecidos como Tim Wicker, do "New York Times", e Art Buchwald, escritor satírico que tinha coluna no "Washington Post".
Alem de King, uma segunda figura importante na luta pelos direitos civis, Whitney Young, da Liga Urbana Nacional, também teve suas comunicações interceptadas clandestinamente.
Ali, campeão mundial dos pesos pesados, foi colocado na lista de escutas por volta de 1967. Ele foi aprisionado por recusar a convocação para o Exército, perdeu seu título e foi excluído do boxe.
Acredita-se que tenha continuado a ser alvo de vigilância pelos próximos seis anos.
A agência fez grandes esforços para manter ocultas do público suas atividades, conhecidas como "Operação Minaret".
Todos os relatórios relacionados à operação eram impressos em papel sem logotipo da NSA ou outras marcas de identificação exceto o carimbo "apenas para uso informativo".
Os documentos eram entregues por mensageiro diretamente à Casa Branca, muitas vezes diretamente ao presidente Lyndon Johnson, que estabeleceu o programa em 1967, e seu sucessor, Richard Nixon.
A falta de fiscalização sobre o programa de escutas levou até mesmo a história oficial da NSA a concluir que a Operação Minaret havia sido "causa de descrédito, se não abertamente ilegal".
A Operação Minaret originalmente tinha por alvo traficantes de drogas e suspeitos de terrorismo, mas foi alterada, a pedido da Casa Branca, para rastrear as atividades políticas legítimas de pessoas que protestavam contra a guerra.

EUA e Irã realizam encontro histórico

EUA e Irã realizam encontro histórico
Chanceler iraniano e Kerry debateram programa nuclear de Teerã lado a lado
Após encontro, Zarif diz que negociação poderia ser concluída em 1 ano; americano cogita revisar sanções contra o Irã
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS
Numa aproximação inédita em 34 anos --desde a Revolução Islâmica, em 1979, quando romperam relações--, EUA e Irã estiveram juntos oficialmente ontem em uma mesa de negociações.
O secretário americano de Estado, John Kerry, e seu colega iraniano, Mohammad Javad Zarif, sentaram-se lado a lado para discutir o programa nuclear do Irã, sobre o qual há a suspeita de ter fins militares. Eles estavam acompanhados dos chanceleres do Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha --demais países que integram o grupo de negociação P5+1.
O esforço de conciliação ganhou impulso após a posse do moderado Hasan Rowhani na Presidência do Irã, em agosto.
Zarif e Kerry tiveram uma breve reunião a dois, em que puderam "explorar um pouco mais as possibilidades" de diálogo, nas palavras do secretário americano.
Após a reunião, Zarif deu uma palestra em Nova York e disse que primeiro é preciso definir os "perímetros" das negociações e, depois, avançar para "finalizá-las, esperançosamente, no prazo de um ano".
Em entrevista à rede de TV CBS veiculada parcialmente ontem à noite, Kerry afirmou que os EUA poderiam "ajustar o regime de sanções", mas desde que "fique claro estar em marcha um processo transparente, em que saibamos exatamente o que o Irã está fazendo com seu programa [nuclear]".
Anteontem, Rowhani dissera ao "Washington Post", que quer chegar a um acordo com o Ocidente num prazo de três a seis meses. À CBS Kerry afirmou que é "possível" trabalhar com essa projeção.
Segundo Catherine Ashton, chefe de diplomacia da União Europeia que participou da reunião, foram definidos parâmetros para a nova rodada de negociações, marcada para 15 e 16 de outubro, em Genebra (Suíça).
TENSÃO COM ISRAEL
Mais cedo, o presidente iraniano Hasan Rowhani cobrou que Israel assine o TNP (Tratado de Não Proliferação Nuclear). O acordo tem 189 signatários, entre eles o Irã.
Rowhani disse que Israel deveria se unir "sem atraso" ao pacto.
Segundo o chefe da delegação de Israel na ONU, Yuval Steinitz, Rowhani quer "desviar o foco".

Um caso de fracasso

HÉLIO SCHWARTSMAN
Um caso de fracasso
SÃO PAULO - O Ipea divulgou anteontem um pequeno estudo em que mostra que foi praticamente nulo o impacto da Lei Maria da Penha (11.340/06) sobre os feminicídios. De 2001 a 2006, os cinco anos que antecederam a introdução do diploma, a taxa de homicídios cometidos contra mulheres foi de 5,28 por 100 mil; no quinquênio subsequente, ficou em 5,22, decréscimo de 1,14%, sem maior significado estatístico.
Tal desempenho não chega a ser uma surpresa. O famoso endurecimento de leis, do qual a Maria da Penha é um caso emblemático, funciona bem para políticos marcarem pontos com suas bases. Serve também para nos deixar com a sensação de dever cumprido, de que estamos fazendo algo para resolver o grave problema da violência doméstica.
Infelizmente, o expediente não apresenta tanta eficácia na redução dos crimes propriamente ditos, especialmente quando o delito a ser coibido é daqueles que se cometem por impulso, como é o caso de agressões e homicídios não premeditados.
Minhas amigas feministas não gostam muito, mas trabalhos de sociólogos sérios, como Murray Straus e John Archer, pintam um quadro da violência doméstica mais nuançado que a costumeira narrativa do perpetrador desequilibrado que ataca a mulher inocente. Em suas pesquisas, eles revelam que os papéis de agressor e vítima são tudo menos inequívocos e que boa parte dos conflitos é resultado de uma escalada em que as duas partes trocam agressões verbais e, depois, físicas. O homem provoca mais estragos porque é mais forte.
Daí não decorre, é claro, que devamos desistir de combater a violência e deixar que mulheres continuem a ser mortas por seus companheiros. É preciso, contudo, adotar uma estratégia coerente, que só excepcionalmente deve incluir leis mais duras. O problema de seguir a trilha mais ponderada é que os resultados demoram a aparecer e dificilmente podem ser capitalizados numa eleição.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A contrainteligência que falta ao Brasil

MARCELO ITAGIBA
A contrainteligência que falta ao Brasil
Enquanto a NSA investe bilhões em tecnologia de espionagem, no Brasil não há nem sequer preocupação em proteger dados estratégicos
Na chamada "realpolitik", as leis do poder governam o mundo dos Estados, assim como a lei da gravidade governa o mundo da física.
Essa é a regra que sempre dominou as relações internacionais, apesar da criação, historicamente recente, de um órgão regulador, a Organização das Nações Unidas (ONU).
Os Estados usam a espionagem para angariar conhecimentos que embasem decisões vantajosas. Todos os países possuem agências de espionagem, conhecidas eufemisticamente como de inteligência.
Existem cinco formas principais para obtenção de dados. Humint (Human Intelligence), que busca informações por meio de espiões. Osint (Open Source Intelligence) são as fontes abertas (jornais, revistas, internet e trabalhos científicos). Imint (Image Intelligence), coletada por meio de imagens obtidas por fotos e filmes provenientes de aviões e satélites. Masint (Measurement and Signature Intelligence), obtida por meio de eventos sísmicos provocados pela explosão de um artefato nuclear. E Sigint (Signal Intelligence), que é a interceptação de sinais de comunicação.
As denúncias de Edward Snowden desnudaram a Agência de Segurança Nacional (NSA), o mais intrusivo órgão da espionagem americana, que trabalha com o Sigint, decifrando uma rede de comunicações transmitidas, em âmbito mundial, por satélites, ondas telefônicas e cabos marítimos e terrestres. Estima-se em 320 milhões o total de ligações interceptadas e processadas diariamente pela NSA.
Um software criado pela Narus, empresa que hoje pertence à Boeing, controlado remotamente pela NSA em Fort Meade, varre espectros de comunicação na busca de endereços, números de telefones, sistemas em rede, capturando palavras-chave e frases. Qualquer comunicação que levante suspeita é imediatamente separada, processada, copiada e gravada para análise.
Uma vez que alguém se torna alvo, todas as suas comunicações passam a ser avaliadas, bem como as de qualquer um de seus contatos. Por um processo chamado data-mining, as informações são organizadas em gráficos, o que permite um verdadeiro raio-x de suas atividades.
A agência está investindo mais de US$ 2 bilhões em um novo centro, na cidade Bluffdale, em Utah. Computadores que rodam em espantosas velocidades medidas por yottabites (um bilhão de quatrilhões) vão decifrar os dados interceptados, inclusive transações bancárias e de cartões de crédito.
Tais ações atentam contra o direito à privacidade e às liberdades civis, de expressão e da imprensa. É uma ameaça às democracias representativas cometida sob o paradoxal argumento de que visa garanti-las.
As ações de espionagem contra o Brasil são repulsivas, aéticas e imorais, mas fazem parte do arsenal das grandes potências, que pinçam o que querem dessa teia tecnológica global. O Brasil precisa urgentemente investir em tecnologias que o habilitem a desenvolver mecanismos de defesa para os nossos sistemas e criptografia que impeçam, dificultem ou retardem a rápida decodificação de dados estratégicos.
Não há verdadeira preocupação no setor público e estratégico brasileiro em proteger dados, atributo da chamada atividade de contrainteligência. A Agência Brasileira de Inteligência e a Polícia Federal devem se articular com órgãos militares e estratégicos para a criação de uma cultura de proteção de dados.
O Brasil possui protocolos de cooperação com agências de inteligência estrangeiras e, inclusive, programas em andamento com a espionagem americana. A pergunta que se faz à presidenta é se ela adotou alguma medida para paralisar ou cancelar essas atividades, ou se tudo não passa de mera retórica.

Boas notícias

KENNETH MAXWELL
Boas notícias
Há alguns projetos maravilhosamente empolgantes em curso no Brasil, um dos quais eu vi em ação na semana passada, no Festival de História de Diamantina, em Minas Gerais.
É um caminhão com um museu móvel de história do Brasil, que reuniu os melhores acadêmicos, artistas e cineastas para produzir um verdadeiro festival da experiência cultural brasileira, dirigido à mais ampla audiência. Era evidente que estava funcionando, dadas as multidões que acompanhavam a mostra.
O Caminhão Museu Sentimentos da Terra tem curadoria do cenógrafo carioca Gringo Cardia e coordenação de Heloísa Starling, da UFMG.
Heloísa é assessora da Comissão da Verdade, historiadora e empresária cultural. Ela apresentou, no Festival de História de Diamantina, um notável estudo que mapeia os centros de tortura entre 1964 e 1968 nos seguintes Estados: Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Bahia e Pernambuco. O estudo mostra a escala da tortura e sua localização em instalações militares. Heloísa foi a idealizadora do projeto Caminhão Museu Sentimentos da Terra e nos guiou em nossa visita.
O caminhão tem um pequeno teatro que mostra vídeos narrados por importantes artistas brasileiros como Chico Buarque, Gilberto Gil, Maria Bethânia (que também fez um show de música e poesia no festival), Caio Blat e Dira Paes. Vi dois deles: "Canudos", que conta a história de Antônio Conselheiro e da luta nos sertões baiano e cearense entre a comunidade de quase 24 mil moradores rurais pobres e as forças militares enviadas contra ela; e "Indígenas", que acompanha a história do destino (e da persistência) dos índios brasileiros ao longo de 500 anos, da chegada dos portugueses, em 1500, até hoje.
Ambos são evocativos, comoventes e historicamente precisos. "Indígenas" conta como uma população de seis milhões de índios caiu a apenas 300 mil nos anos 1980, mas agora se recuperou para cerca de 800 mil. "Canudos" conta uma história de resistência e destruição. Os dois são belas produções, combinando o melhor das capacidades brasileiras de apresentação, animação e teatro. Ambos falam a uma população de todas as idades e todas as realizações educacionais. É um belo exemplo do que é possível.
O caminhão também mostra, em painéis, as vidas de oito personalidades envolvidas em conflitos rurais, do visconde do Uruguai a Chico Mendes, permite que as pessoas se vistam em trajes rurais e tem uma seção de livros e vídeos disponíveis para os visitantes, e tudo isso convida à participação ativa. É uma bela experiência. O melhor do Brasil.

sábado, 21 de setembro de 2013

Não basta querer

MARIA ELISA GRANCHI FONSECA
SIM
Não basta querer
Desde 2002, a Associação Americana de Retardo Mental propõe a compreensão de deficiência mental para além do mero ser ou não ser intelectualmente "bom" ou "ruim".
É preciso considerar os sistemas de apoio com que a pessoa com deficiência intelectual (DI) precisará contar ao longo da vida. Além das habilidades intelectuais, há que se considerar a saúde física do indivíduo, seu desempenho social e sua capacidade de adaptação às práticas da vida diária, e tudo isso depende da severidade de cada caso.
Limitações de adaptação prejudicam tanto a convivência quanto a capacidade da pessoa em responder ao que o ambiente espera dela em sua residência, na escola, no trabalho e na comunidade.
Pense, então, na situação conjugal, que advém do casamento. Uma situação que envolve rotina doméstica, contas a pagar, faxina a fazer, comida a preparar e "amor para dar", o que, aliás, não é a questão. Aspectos emocionais, direito ao amor, apaixonar-se, envolver-se intimamente, tudo isso é da condição humana. Independentemente da DI. Independentemente de ser ou não DF, PC, TDAH, DA e demais siglas.
A concepção de matrimônio e casamento costuma ser romanceada, como um direito a ser garantido. Mas não se pode deixar de considerar os efeitos desse contrato sobre a vida de quem os leva.
Não basta querer casar para casar. Um par com recursos intelectuais e funcionais limitados, a ponto de precisarem de apoio pervasivo e supervisão direta, terão consciência plena de estarem em um lar, e não somente em uma casa mobiliada? A presença de alguém mediando o casamento faz do mesmo matrimônio?
Não que neguemos a essas pessoas o direito à família e ao casamento. Mas não podemos negar, outrossim, que essas mesmas pessoas sejam passíveis de recursos linguísticos limitados, tenham dificuldade no trato com o dinheiro, problemas com autonomia e independência, falhas nas competências sociais, na observância de regras e leis, na credulidade.
Podem também ter dificuldades para evitar a vitimização, problemas com deslocamento, higiene, vestuário, manejo de medicamentos, habilidades ocupacionais e com a segurança --situações de difícil enfrentamento quanto mais severa for a deficiência intelectual.
Tudo isso poderá fazer com que as competências necessárias para a vida a dois passem a ser motivos para a vida a três, ou quatro, ou cinco. A presença constante de alguém pode vir a ser urgente e até critério para a manutenção da independência e qualidade de vida do casal.
Há dúvidas quanto a se o casamento entre duas pessoas com DI vai se caracterizar como casamento no sentido pleno do termo. Ou ainda como "viver junto", "estar perto de", tanto faz. Isso está relacionado ao grau da DI. Quanto melhor a pessoa funcionar no ambiente, menos problemas de adaptação terá no convívio com seu cônjuge, em seu lar.
Não parece ter havido discussão sobre casamento entre pessoas com DI leve. Isso pelo fato de os quadros leves estarem próximos dos neurotípicos, que se confundem na multidão. A discussão que se se observa considera indivíduos com quadros mais comprometidos, o que provoca um questionamento: de onde partiu a ideia? Quem resolveu casar com quem?
Se o caso é mais severo, o rebaixamento intelectual deixa o indivíduo menos suscetível a fantasias e à tentação de fazer planos. Será que alguém não resolveu por ele que, agora, além de todos os direitos iguais, também é preciso exigir o direito civil de se casar? Não, deficientes intelectuais não devem se casar sem autorização antes que se avalie a severidade de cada caso.

Direito à felicidade

MARA GABRILLI E ROMÁRIO
NÃO
Direito à felicidade
Quem disse que somente pessoas sem deficiência intelectual têm condições de escolher seus parceiros?
Se tal prerrogativa correspondesse à realidade, divórcios entre pessoas sem deficiência não chegariam a índices tão altos. Índices que, aliás, têm batido recordes no país, de acordo com o IBGE.
Casados há nove anos, Rita Pokk e Ariel Goldenberg não fazem parte dessa estatística. Atores com síndrome de Down do filme "Colegas", eles são prova de que precisamos rever nossa legislação, que insiste em impor barreiras para que pessoas com deficiência intelectual, por conta própria, casem-se.
Arthur Dini Grassi Netto e Ilka Farrath Fornaziero conhecem bem essas dificuldades. Também jovens com a síndrome de Down, os dois lutaram por um ano para vencer impedimentos legais e conseguirem, enfim, concretizar seu matrimônio.
Assim como eles, muitos casais são impedidos pela Justiça de simplesmente exercer seu direito civil.
Tolher uma pessoa de seu direito de amar é destituí-la da condição humana. O direito de manifestar afeto é legitimo, não pode ser ignorado.
No Brasil, o exercício do direito à afetividade, ao voto, à sexualidade e outros são frequentemente negados às pessoas com deficiência intelectual em função de um processo que se tornou quase mecânico: a interdição judicial.
Embora o Código Civil não seja claro ao tratar a questão, é prática recorrente atribuir ao curador de uma pessoa com deficiência intelectual todas as decisões de sua vida civil e, muitas vezes, atos de natureza não civil. Não se leva em consideração a real capacidade e vontade do curatelado, que deveria ser assistido em vez de representado.
O Código Civil tem incongruências com relação à Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, da qual o Brasil é signatário. Ela garante o reconhecimento de que as pessoas com deficiência têm capacidade legal, em igualdade de condições com as demais pessoas, em todos os aspectos.
Para propor mudanças nesse cenário, o Estatuto da Pessoa com Deficiência (projeto de lei nº 7.699/2006) traz alterações ao Código Civil com vistas à adequação do procedimento judicial de interdição. A ideia é que pessoas com deficiência intelectual não precisem mais da autorização da Justiça para colocar em prática o direito ao matrimônio, mesmo sob curatela.
O texto do estatuto, aberto até 5 de outubro para consulta pública no edemocracia.camara.gov.br, prevê ainda o direito de votar e ser votado e à saúde sexual e reprodutiva, restringindo ao curador o envolvimento em questões de cunho patrimonial. O objetivo é garantir o protagonismo do interditando, sem impedir, no entanto, quando necessário, a interferência da figura do curador, que deve respeitar o potencial e a autonomia do curatelado.
Os direitos sexuais e reprodutivos das pessoas com deficiência intelectual são os mesmos de qualquer outro cidadão, bem como os direitos civis e políticos. Privá-las de exercê-los só fortalece o preconceito da sociedade sobre a deficiência intelectual, que entre todas as deficiências é a mais discriminada.
Hoje já assistimos, ainda que de forma incipiente, à inclusão da pessoa com deficiência intelectual. Pessoas com síndrome de Down, que há poucas décadas tinham a expectativa de vida muito curta, agora lutam para formalizar sua maturidade, exercendo o direito ao matrimônio. E o fazem de maneira consciente, sem perder a espontaneidade e a candura, tão características de seu jeito de encarar a vida. Vetá-las de sua autonomia, decidindo por elas seu futuro, além de ir contra qualquer diretriz de uma nação inclusiva, cria uma barreira que as impede de buscar a própria felicidade.

Mulheres da Índia


A Justiça da Índia condenou à morte, na semana passada, quatro dos seis homens que estupraram, torturaram e mataram uma fisioterapeuta de 23 anos, no final de 2012, em Nova Déli.
O episódio brutal despertou uma série de protestos no país em favor de alterações na legislação sobre violência contra a mulher. Com ampla repercussão internacional, as manifestações exerceram pressão decisiva para que o processo fosse julgado em menos de um ano.
Milhares de ativistas comemoraram, mas sabem que o julgamento foi resposta pontual ao assassinato da jovem. Falta muito para a Índia mudar a histórica indiferença do Estado em relação aos crimes de gênero --algo epidêmico em diversos países da Ásia e da África.
Ineficiência policial, impunidade e questões culturais deixam a mulher indiana tão vulneráveis que, segundo estimativas oficiais, apenas 2% dos estupros são reportados --contra 10% da média mundial, patamar já inaceitável de subnotificação. Agrava o problema na Índia o fato de somente 26% dos casos conhecidos resultarem em condenação --0,5% do total.
A discriminação pelo gênero, na Índia, acompanha a mulher desde o ventre: abortos de fetos femininos são muito mais comuns. Na infância, as meninas morrem com mais frequência que os meninos, resultado de abusos e negligência.
No casamento a violência é particularmente marcante pela cultura do dote. Embora ilegal, a prática persiste, e desavenças relativas ao valor que a família da noiva deveria pagar ao futuro marido provocaram mais de 8.000 assassinatos de mulheres apenas em 2012.
Nada disso mudará no curto prazo, mas é alvissareiro que, desde os protestos pelo assassinato da fisioterapeuta, milhares de mulheres tenham se sentido encorajadas a denunciar abusos, desde estupros até ataques com ácido.
Além disso, o Legislativo especificou novos tipos de crime, ampliou o conceito de estupro e endureceu suas penas.
Modificações legais, contudo, não bastam para coibir práticas inaceitáveis e têm pouca relação direta com a impunidade. Também não será por esse caminho que as mulheres alcançarão maior participação no mercado de trabalho ou nas tomadas de decisão.
Merecem atenção, ainda assim, as primeiras respostas institucionais que o país oferece a um problema gravíssimo não só na Índia, mas em todo o mundo.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Tiradentes

KENNETH MAXWELL

Nascido em São João del-Rei, Minas Gerais, em 1746, Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido pelo apelido Tiradentes, era parte de uma família de seis crianças e foi criado pelo irmão Domingos, que era padre, depois que seus pais morreram prematuramente.
No momento da conspiração mineira do final de 1788 e começo de 1789, ele era alferes nos Dragões de Minas, a força militar regular de Minas Gerais. Servia nos Dragões desde 1775. Mas, em 1788, ele ainda não havia obtido promoção e seu soldo não havia aumentado, e se vira preterido em quatro oportunidades de promoção em benefício de outros que ele definiu como "mais bonitos", ou que desfrutavam do apoio influente de parentes bem posicionados.
Ainda assim, Silva Xavier havia comandado o importante destacamento dos Dragões que patrulhava a estrada pela serra da Mantiqueira, no governo de dom Rodrigo José de Menezes. Mas o governador que o sucedeu, Luís da Cunha Meneses, retirou Silva Xavier desse lucrativo posto. Cunha Meneses era o "Fanfarrão Minésio" das "Cartas Chilenas", os versos satíricos escritos por Tomás Antônio Gonzaga entre 1786 e 1787.
Silva Xavier era conhecido por sua competência como dentista, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Era amigo dos grandes contratadores de Minas, José Rodrigues de Macedo e Domingos de Abreu Vieira. Hospedava-se com Abreu Vieira e jogava cartas com ele. Abreu Vieira era padrinho de sua filha. Os contratadores controlavam as grandes fontes de receita de Minas Gerais, as "entradas" e os "dízimos", e pagavam (de maneira perfeitamente legal) uma proporção desse dinheiro como "propina" ao governador. Todos tinham pesadas dívidas para com o Tesouro Real, em 1788.
Tiradentes conhecia bem o Rio de Janeiro, tendo servido como parte de uma força militar enviada à capital do Vice-Reino em 1778. Ele estava no Rio em 1788, onde tinha tentado promover, sem sucesso, um esquema para fornecer água potável à cidade. Foi lá que conheceu José Álvares Maciel, que voltava da Europa. Maciel havia estudado na Universidade de Coimbra, em Portugal, e depois visitado a Inglaterra. Era filho de um rico contratador de Minas e sua irmã era casada com o comandante dos Dragões de Minas. Maciel havia trazido uma cópia da "Recueil des Loix Constitutives des États-Unis de l'Amérique", comprada em Birmingham.
Na volta para Minas, Tiradentes se hospedou com o coronel Aires Gomes na fazenda deste perto de Borda do Campo. Ele falou da república florescente que Minas se tornaria caso se libertasse de Portugal. Atacou os "governadores ladrões" e seus comparsas, que, segundo ele, "açambarcavam os cargos, riquezas e posições que deveriam por direito caber aos naturais da terra".

sábado, 3 de agosto de 2013

'Cor ou raça'

HÉLIO SCHWARTSMAN

SÃO PAULO - Não morro de simpatia por cotas raciais. Há algo de incômodo, para não dizer sombrio, na ideia de que o Estado classifique cidadãos com base na cor da pele e outras características fenotípicas.
Mesmo com esse pé atrás, sou sensível aos argumentos de quem defende tais mecanismos de inclusão. Num mundo em que o curso universitário virou a principal mola de ascensão social, é complicado transformar o desempenho em provas (medida que, embora objetiva, encerra uma série de vieses) no critério único de admissão. Não vejo, assim, como absurdos programas de ação afirmativa que levem em conta raça.
O que me parece um desatino é a multiplicação das instâncias em que somos obrigados a declarar a que "cor ou raça" pertencemos. Agora, é praticamente impossível obter algum documento oficial --incluindo registros de nascimento, atestados de óbito, carteiras de trabalho-- sem preencher um quadradinho racial. Pesquisadores já não podem mais nem atualizar seu currículo Lattes na página do CNPq sem autoclassificar-se. Os órgãos menos autoritários ainda produzem formulários que oferecem a opção "não desejo declarar", mas a maioria não é tão tolerante.
Compreendo o interesse do governo em produzir dados que permitam incorporar a dimensão racial às análises estatísticas, mas a participação nessa empreitada, cujo valor científico é bastante discutível, deveria ser um convite, jamais uma imposição.
O linguista Roman Jakobson afirmava que o idioma falado por uma pessoa ajuda a moldar seu pensamento quando a força a explicitar distinções. Falantes do português vemos a Lua como essencialmente feminina, já os que se expressam em alemão pensam o satélite como algo masculino. Meu receio é que a burocracia, ao obrigar que pensemos a nós mesmos em termos de raça, contribua para naturalizar características que desejaríamos ver banidas das relações sociais.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

A mensagem do padre Antonio Vieira

ANITA WAINGORT NOVINSKY
TENDÊNCIAS/DEBATES
As ideias do jesuíta Antonio Vieira sobre a reconciliação de judeus e cristãos encontram eco nas palavras calorosas de outro jesuíta, quatro séculos depois

Com o estabelecimento do Santo Ofício da Inquisição em 1536, desenvolveu-se em Portugal uma tradição de clandestinidade que acabou se incorporando profundamente à vida nacional.
A insegurança que a Inquisição produziu em todos os portugueses por meio da fiscalização, das denúncias anônimas e da censura escrita e falada condicionou atitudes e comportamentos dúbios. Sem saber de que ângulo provinha o perigo, portugueses criaram um verdadeiro talento para dissimular.
Uma "outra" leitura de alguns textos do padre Antonio Vieira (1608-1697) nos revela um Vieira "escondido" em suas dissimulações. A íntima convivência com judeus na Holanda e na França e com cristãos novos em Portugal e no Brasil marcou de maneira profunda suas ideias sobre esse povo e seu destino.
Sua larga e universal concepção do mundo, suas ideias sobre justiça, sua crítica à corrupção da igreja e sua valorização extrema do povo judeu chocavam-se com o fanático mundo lusitano. Numa sociedade como a portuguesa, na qual o critério para a valorização do homem é sua origem e seu sangue, Vieira se elevava acima de seu tempo. "A verdadeira fidalguia é a ação: o que fazeis, isso sois, nada mais", escreveu ele.
Analisando sua visão sobre os judeus, que emerge nas entrelinhas de suas obras, sentimos uma preocupação constante com a reconciliação entre o judaísmo antigo e a doutrina de Cristo, entre o povo judeu e os cristãos.
Para os ouvidos conservadores e antissemitas portugueses do Setecentos, certamente soavam chocantes suas reflexões, principalmente quando ele constrói um paralelo entre a situação política de Portugal (então sob domínio da Espanha) e a dos judeus: "Todos os homens desejam soberania e não querem estar sujeitos a estranhos. Assim é o direito dos judeus esperarem justamente serem reconduzidos à sua pátria". Para Vieira, o mito do retorno dos judeus à Palestina "não é apenas uma promessa divina, mas é um direito legítimo, porque vivem sob o jugo estranho".
Nos seus últimos anos, Vieira viveu na Bahia, rodeado de cristãos-novos e judaizantes, compartilhando com eles de uma seita milenarista. Em sua obra-prima "Clavis Prophetarum", procura ler então nas Sagradas Escrituras o que está oculto e reafirma seus sonhos de reconciliação entre judeus e cristãos.
Quando os ritos judaicos dos cristãos novos eram punidos até com a morte pela Inquisição, Vieira afirma que deviam ser permitidos, pois seu uso não fora proibido por Deus, mas meramente pela igreja. E vai ainda mais longe, afirmando que a circuncisão será permitida aos cristãos, não como culto religioso, mas como sinal da Lei Antiga, derivada de Abrão.
Mas o que manipula de uma forma magistral é a sua concepção do Messias, ponto crucial das divergências entre cristãos novos e velhos --ou seja, o Messias já vindo e o Messias ainda esperado. Entra, então, no imaginário judaico, afirmando que a paz no mundo é uma das principais consequências da vinda do Messias, "e como a paz não existe, o Messias ainda não veio".
Numa Europa impregnada de previsões apocalípticas, profecias, ocultismo, heterodoxias e milenarismos, Vieira se fundamenta no Velho Testamento, joga com as palavras e com o poder e coloca-se como um ecumênico, cuja mais forte mensagem é a reconciliação entre judeus e cristãos.
Navegando na interpretação das Escrituras, lança a mensagem mais esclarecida, humana e moderna que se ouviu no Setecentos português: a liberdade dos cristãos novos de serem judeus.
Felizmente, quatro séculos depois, a mensagem do jesuíta Antonio Vieira encontra eco nas palavras calorosas de outro jesuíta, o novo papa Francisco, sobre os judeus.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Milagre

ANTONIO DELFIM NETTO
Há muitos anos, quando o Brasil era capaz de humor pedagógico exercido por um inesquecível Chico Anísio, havia uma personagem na escolinha do professor Raimundo que afirmava: "quero um vestido Dior e uma viagem a Paris". O professor então lhe perguntava: "mas se quer por que não tem"? E ela respondia: "me falta só uma coisinha, o dinheiro".
É essa questão que parece estar na cabeça da "manada irracional" que, segundo o presidente da Confederação Nacional dos Municípios, levou alguns prefeitos a vaiarem a presidente Dilma Rousseff, depois de terem recebido 15,7 bilhões de reais de repasses para melhorar basicamente os serviços de saúde e 4,7 bilhões para a construção de 135 mil unidades do programa Minha Casa Minha Vida.
Ela não se alterou, mas não deixou por menos. Disse à manada, "Vocês são prefeitos como eu sou presidenta. Vocês sabem que não tem milagre. Quem falar que tem milagre na gestão pública sabe que não é verdade".
Foi confortador ouvi-la, porque às vezes o governo e o Congresso parecem transacionar com milagres. O pânico revelado na tumultuada resposta de ambos à "voz das ruas" mostrou que em situação de estresse eles também podem confundir "desejos" com "recursos", com sérias consequências sobre o equilíbrio econômico sem, ao fim, corrigir os desequilíbrios sociais.
A enfática declaração de Dilma de que não há milagre na gestão resume-se no seguinte: só podem ser distribuídos e utilizados internamente os recursos que foram produzidos (PIB), somados aos eventuais ganhos na relação de troca e ao que tomamos emprestado no exterior, que dependem, respectivamente, da conjuntura e da paciência dos credores.
Entre 2003 e 2010, a renda interna cresceu mais do que o PIB (4,1%) devido à melhoria da relação de troca. Entre 2011 e 2013, o PIB crescerá talvez, 2,0% (2,5% para 2013) e a renda ainda menos, pela sua inversão. É urgente, portanto, cooptar o Congresso para uma agenda positiva de reformas microeconômicas que aumentem a produtividade total da economia. Descoordenado como está, sua propensão à demagogia nas vésperas da eleição poderá levá-lo a continuar a namorar com "milagres"...
A volta ao crescimento está ligada à expansão dos investimentos privados em infraestrutura e à maturação das reformas no campo da energia e nos portos. A primeira depende de leilões bem projetados, apoiados em minuciosos "planos de trabalho" que estimulem a competição e determinem a menor taxa de retorno. Isso exige a superação da pretensão de saber que alimenta o amadorismo que os tem dominado. A segunda vai ocorrer em dois ou três anos.

Nova marcha chinesa

O crescimento do PIB chinês no segundo trimestre é mais uma evidência de que a segunda maior economia do mundo continua a desacelerar.
Verdade que investidores imaginavam que a velocidade da expansão chinesa pudesse diminuir de forma abrupta. Não foi o que aconteceu. O avanço de 7,5%, na comparação com o segundo trimestre de 2012, representou redução suave em relação aos três meses anteriores, quando a China cresceu 7,7%.
Mesmo que o PIB chinês se estabilize em 7,5% neste ano, já será registrado o menor incremento em quase duas décadas e meia. Não se descarta, todavia, que o governo venha a aceitar um crescimento menos expressivo.
O motivo é a inflexão no modelo de desenvolvimento da China. Aos poucos, as exportações e o investimento governamental deixam de ser o motor da economia, substituídos pelo consumo privado.
Há muito a avançar nesse campo. Enquanto o consumo das famílias brasileiras equivale a 62% do PIB, na China essa proporção é de apenas 35%.
Não se trata de transição simples. Para focalizar um exemplo atual, analistas internacionais consideram premente a reforma do sistema financeiro chinês, hoje pouco transparente. Nada menos que um terço do crédito do país, segundo a agência de classificação de risco Fitch, circula em uma espécie de mercado paralelo.
Como nem o governo pode aferir a real qualidade desses empréstimos, é difícil assegurar que a expansão do consumo tenha base sólida para sustentar o crescimento.
A mudança de marcha é sentida de forma mais intensa em importantes parceiros comerciais da China. Na Alemanha, principal economia europeia, as exportações diminuem. No Brasil, o preço dos produtos vendidos no exterior declina.
A desaceleração chinesa pode ser particularmente dura para a economia brasileira, uma vez que ocorre ao mesmo tempo que a retomada do crescimento dos EUA --ao refluxo de capitais para o mercado americano, já em curso, se somaria uma crescente perda de receitas com vendas ao exterior.
O desafio é enorme, e o Brasil não conseguirá enfrentar a nova situação sem repensar amplamente sua estratégia. Torna-se cada vez mais importante gastar melhor os impostos que arrecada, incentivar a eficiência das empresas exportadoras e oferecer condições mais atraentes aos investimentos produtivos.

sábado, 6 de julho de 2013

Fora de compasso

Fora de compasso
Derrotas sofridas por Dilma Rousseff expõem estilo errático de sua gestão, que precisa assumir novos rumos na política e na economia
Desde o dia 21 de junho, quando se manifestou em rede nacional de rádio e TV sobre a onda de protestos que se alastrava pelo país, a presidente Dilma Rousseff tem acumulado graves reveses.
Naquele pronunciamento, a mandatária observou com propriedade que "a nova energia" das ruas poderia impulsionar necessárias mudanças institucionais. A sugestão mais audaciosa nesse sentido veio com a proposta de uma Constituinte exclusiva para promover a reforma política.
Logo, porém, ficou claro que a presidente se havia equivocado ao anunciar tal plano, ao qual nenhuma discussão, nem sequer num círculo restrito de assessores e aliados, dera solidez e coerência.
Nem mesmo o vice-presidente, Michel Temer (PMDB-SP), fora consultado --ele que, líder do maior partido aliado do governo e professor de direito constitucional, já havia produzido um artigo condenando semelhante ideia.
Viu-se então a presidente obrigada a um recuo constrangedor. A intenção seria apenas realizar um plebiscito acerca dos principais pontos da reforma.
Não tardou para que se revelasse o novo engano: o Executivo tentava impor ao Legislativo e ao Judiciário uma agenda irrealista ao defender a conclusão da consulta popular antes do dia 5 de outubro, de modo que suas diretrizes já se aplicassem ao pleito de 2014.
Novamente a iniciativa presidencial frustrou-se. Oposição e parcela dos aliados do Planalto nocautearam a proposta --que poderá ser viabilizada, com sorte, no próximo ano, para valer em 2016.
Tais episódios ilustram um método de atuação que soa como regra no governo federal. Decisões são tomadas ao sabor dos acontecimentos, sem que obedeçam a uma estratégia clara. Parecem produzidas antes por conveniências publicitárias e impulsos pessoais de Dilma Rousseff do que por um projeto capaz de dar continuidade ao desenvolvimento do país.
É o que se tem verificado na área econômica, cuja administração é feita no vaivém do varejo, com temerárias doses de voluntarismo e improviso. São pífios os resultados. A inflação ascende a patamar perigoso, os investimentos caem, as contas públicas se desequilibram e o PIB não decola.
Já é hora de o governo tomar as medidas necessárias para restaurar a confiança e recolocar o país nos trilhos. É preciso enfrentar o inchaço da máquina administrativa, submetida ao loteamento político, e proceder a uma mudança de rumos na economia.
Persistir no caminho do fisiologismo, da ação fortuita e do intervencionismo estatal somente adiará o encontro do Brasil com uma nova etapa de crescimento vigoroso e progresso social.

Folha de São Paulo, 06/07/2013

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Adeus a Gutenberg?


Aldo Pereira

TENDÊNCIAS/DEBATES

A revolução de Gutenberg como que antecipou o vendaval internético que hoje desfolha jornais e revistas e os confina ao acesso pago
Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg (c. 1398-1468) não inventou a imprensa. Técnica de carimbar escritos em papel já existia na China cinco séculos antes de Gutenberg nascer. Em seu tempo, europeus tinham aprendido também a fabricar papel, outra milenar invenção chinesa, como sucedâneo de papiro e pergaminho.
Gutenberg tampouco inventou tipos móveis de metal: coreanos já os usavam no século 8. E a prensa de sua oficina era a mesma que, fazia séculos, espremia uvas para fabrico de vinho.
Donde então provém a glória de Gutenberg? Não apenas de ter integrado esses elementos num sistema eficiente. Também da inteligente transposição de técnicas de ourivesaria para artes gráficas: com martelo, punção, buril e cinzel gravou no ferro os primeiros moldes para fundição de tipos ("carimbos de letras"). Ou seja, de ter inventado a produção em série dos tipos até então entalhados na madeira um a um.
Com ponto de fusão relativamente baixo, sua liga de chumbo, antimônio e estanho (talvez na proporção 70/20/10) conferia aos tipos dureza suficiente para não se deformarem quando premidos contra o papel. Mas era também suficientemente dúctil para assumir forma precisa na fundição. Noutras proporções, essa requintada "receita" metalúrgica subsistiria em vários processos de fundição de tipos (inclusive linotipo) até o século 20.
O que muito favoreceu o sistema Gutenberg foi o livro já ter evoluído, na época, do formato "volumen" para o códex, isto é, do rolo contínuo para a pilha de folhas costurada na margem.
Além de viabilizar a impressão, essa mudança trouxe ao leitor meio prático de fazer buscas na Bíblia, em breviários e noutras obras religiosas que predominavam no mercado livreiro. O códex matou o "volumen" como o disco do computador mataria a fita e como o CD desbancaria cassetes de áudio e vídeo. Códex era já, em termos, o livro de hoje.
Ao baratear a produção de livros, panfletos e outros impressos, Gutenberg democratizou o saber, afrouxou o privilégio aristocrático e clerical de acesso a ideias e fatos.
Quanto Gutenberg teria vislumbrado do futuro cultural, econômico e político de seu sistema, não se sabe. A acuidade de sua visão técnica contrastava com a miopia comercial. Morreu falido, arruinado por contrato leonino firmado com certo agiota que o financiara.
A revolução de Gutenberg como que antecipou o vendaval internético que hoje desfolha jornais e revistas e os confina a refúgios de acesso pago. Ao mesmo tempo, o e-book (Kindle, Nook, Kobo etc., afora improvisações de outras engenhocas eletrônicas) leva à pergunta: hora do adeus às variantes do sistema Gutenberg de carimbar papel?
Talvez, mas até certo ponto.
Muita gente tem referido precedentes análogos: cinema não matou teatro, televisão não matou cinema nem rádio, discos e iPod não mataram o show. Começa a ganhar foco certo consenso de que, passado algum empurra-empurra de acomodação, uma seleção de jornais, revistas e decerto livros de papel continuará a ser impressa por prazo indeterminado. Por quê?
Porque a maior parte da confraria anônima de leitores sempre incluirá aquele que, mesmo sem repelir engenhocas, abre um livro novo e cheiroso com a expectativa juvenil de quem abre de par em par uma janela para o mundo das ideias, do sonho, da poesia e do saber, mundo de todos os mundos, reais e imaginários. Fetiche? Ah, volúpia do pecado inocente!
Seu lugar continua seu, caro Gutenberg --basta chegar um pouquinho para lá.


Kenneth Maxwell

"Campeões cambaleantes"

No "Financial Times" desta semana, Joe Leahy, correspondente do jornal no Brasil, oferece uma análise pessimista sobre as perspectivas econômicas brasileiras.
Ele escreve que o boom na maior economia latino-americana, alimentado pelos altos preços das commodities e crédito fácil, chegou ao seu pico, o que coloca sob pressão as empresas que desfrutavam de forte apoio político e econômico do Estado.
Avaliando grandes empresas privadas e estatais que receberam crédito estatal subsidiado, como Petrobras e Vale, Leahy aponta para o rebaixamento da classificação de crédito do BNDES e da Caixa Econômica Federal pela Moody's Investors Services, alegando que os dois têm exposição excessiva aos seus maiores devedores.
O principal exemplo de Leahy está nas empresas de Eike Batista. A OGX, companhia petroleira criada por ele, está envolvida em um dos negócios mais arriscados e de maior necessidade de capital, a exploração e produção de petróleo, setor no qual os mercados brasileiros não têm grande experiência. Para agravar o problema, a OGX se viu forçada a suspender a produção em seus três poços "offshore" de petróleo no campo de Tubarão Azul, na bacia de Santos.
Outros analistas atribuem os dilemas atuais à forma de capitalismo de Estado praticada no país. Mas será que estão certos?
O Brasil certamente precisa investir mais na atualização de sua infraestrutura, na melhora de estradas, portos, ferrovias e aeroportos. E a aproximação da Copa e da Olimpíada torna esses projetos muito urgentes.
Mas também é verdade que na Europa e nos EUA há, igualmente, incerteza sobre o futuro. O amplo consenso que prevalecia desde a Segunda Guerra Mundial está se rompendo, e a questão é basicamente a mesma dos dois lados do Atlântico Norte: como sustentar as redes de previdência e bem-estar social que se tornaram excessivamente dependentes de dinheiro emprestado, diante da austeridade e da limitação de recursos?
Nos EUA, o impasse político é evidente. Já entrou em vigor o corte automático de Orçamento que resulta do fracasso da Casa Branca e da liderança do Congresso em obter um acordo sobre finanças públicas.
Na Europa, Mario Draghi, presidente do BC Europeu, assumiu o compromisso de adquirir títulos de dívida nacional dos países da zona do euro, o que salvou o euro (por enquanto). Mas isso não ajuda pequenas e médias empresas do sul da Europa.
A desaceleração econômica na China e a instabilidade nos mercados internacionais do Brasil representam desafios, com certeza. Mas os problemas brasileiros nem de longe podem ser atribuídos ao papel econômico do Estado.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O câmbio


Antonio Delfim Netto

Quando em 2010 o ministro Mantega usou a expressão "guerra cambial", para caracterizar a consequência não intencional da política de afrouxamento monetário dos bancos centrais dos países desenvolvidos, foi submetido a um impiedoso ataque dos sacerdotes que se supõem os guardiões da "verdadeira" teoria econômica com relação à qual, aliás, diziam que ele teria pouca familiaridade...
Assistimos a um festival externo e interno de obviedades e cinismo. Ben Bernanke, do Fed, declarou que o valor do dólar americano flutuava "ao sabor do mercado" e que nunca fora objeto de preocupação explícita da política econômica dos EUA. Mario Draghi, do Banco Central Europeu, disse quase a mesma coisa. Revelou que o valor do euro era sim uma preocupação da política econômica da Comunidade Europeia, mas não era seu objeto.
As respostas ignoravam o problema levantado pelo ministro brasileiro. Ele nunca afirmou que havia uma política explícita de desvalorização das moedas. O que ele afirmou, e afinal verificou-se que é verdade, é que, mesmo não tendo essa intenção, a política monetária que expande a liquidez para combater a recessão produz aquele efeito colateral. E o que importa é o efeito da medida, não a sua intencionalidade.
Pois bem. Um recente e competente trabalho dos economistas Reuven Glick e Sylvain Leduc ("Unconventional Monetary Policy and the Dollar", abril, 2013), do Federal Reserve Bank de San Francisco, concluiu que, "mesmo quando o Fed não objetiva o dólar, o anúncio de mudanças na política monetária pode alterar o seu valor. Antes da crise financeira de 2007-2009, o valor do dólar costumava cair quando o Fed reduzia taxa básica ("federal funds"). Desde a crise, os anúncios da expansão monetária, através de mecanismos não convencionais (o "monetary easing"), têm tido efeito semelhante no valor do dólar".
O trabalho mostra que as "surpresas" produzidas pelo aumento da liquidez que resulta da política monetária laxista têm um efeito substancial sobre o valor do dólar. "De fato --conclui o artigo--, um afrouxamento monetário não esperado que reduz em 1% a taxa de juros dos bônus do Tesouro de longo prazo, produz, em 30 minutos, um declínio de 3% do valor efetivo do dólar".
Como todo trabalho econométrico, este também espera contestação. Enquanto ela não vier temos de nos render ao fato de que o ministro tinha alguma razão.
Isso mostra como é ilusória a ideia que, em algum lugar ou em algum tempo, tenha existido um sistema de câmbio livremente flutuante, independente das políticas fiscal e monetária.

Valores e culturas diferentes


Fernando Rodrigues

BRASÍLIA - Quando há mortes em série nos EUA, a reação no Brasil é quase sempre a mesma. No calor do fato, é comum ouvir: a sociedade norte-americana é doente e cheia de malucos atirando uns nos outros.
Como se sabe, não é bem assim. Tragédias com matadores descontrolados acontecem em todas as partes. No Brasil, a memória sobre Realengo ainda está fresca.
A análise subsequente é também clássica nessas horas. Resmunga-se contra o destaque para três mortos em Boston enquanto nas periferias brasileiras há muito mais assassinatos e ninguém dá bola. Seria melhor me eximir de comentar tal observação. Não resisto. Repito o óbvio. Uma das razões para um fato virar notícia é a sua excepcionalidade.
Mas o aspecto que mais me interessa nessas situações é quando, em geral, policiais nos EUA são aplaudidos depois de caçarem suspeitos. É só as imagens aparecerem "foi o caso das bombas em Boston" e muitos brasileiros reagem tapando o nariz. Acham um despropósito saudar agentes de segurança "tão brutais" (sic). Afinal, um dos suspeitos foi morto em circunstâncias incertas. O outro ficou gravemente ferido ao ser capturado.
A reação brasileira é reveladora da nossa relação com a lei e a ordem. Há aqui um desprezo difuso a tudo que cheira a oficialismo. Identifico três razões na origem desse valor bem tupiniquim (também presente na América Latina afora).
Primeiro, a ditadura militar (1964-1985) nos ensinou a desconfiar e a repelir policiais. Segundo, a tradição ibero-católica nos compele a amar o Estado quando temos algo a lucrar de maneira direta e a odiá-lo se nos obriga a cumprir nosso dever. Por fim, a qualidade geral da polícia no Brasil deixa a desejar.
Nesse contexto, entendo tantos brasileiros sentirem náusea ao verem norte-americanos aplaudindo seus policiais. Mas acho que esse é mais um traço do nosso atraso.

À flor da pele


Hélio Schwartsman


SÃO PAULO - Foi Porfírio (c. 234 - c. 305) quem definiu o homem como animal racional. Ele estava errado, mas isso não é tão mau. Afinal, se fôssemos racionais o tempo todo, ninguém daria gorjeta num restaurante a que não pretende voltar e esposas abandonariam seus maridos doentes para ficar com um parceiro saudável. Num mundo perfeitamente racional, havendo garantias de que não seremos apanhados, sempre vale a pena roubar a carteira do melhor amigo. A moral e a ética estão fundadas em nossas emoções.
Isso não significa que um temperinho racional não seria bem-vindo. Por mais que tente, não compreendo a reação da multidão de franceses que protesta contra a aprovação do casamento gay. O que dois adultos fazem de forma consensual entre quatro paredes em matéria de sexo não é da conta de mais ninguém e, se o Estado confere a casais heterossexuais uma série de direitos, não há justificativa racional para não estendê-los a pares do mesmo gênero. Até faria sentido se os manifestantes estivessem reclamando das perdas fiscais que a medida implicará, mas não parece que seja este o caso.
De modo análogo, não entendo bem a insistência dos gays no casamento de papel passado. Eles estão basicamente procurando sarna para se coçar. Dado que 55% dos matrimônios franceses acabam em divórcio e que os direitos fundamentais estão assegurados tanto na figura do casamento quanto do pacto civil, ao qual homossexuais já têm acesso, na maioria dos casos seria mais prático e barato jamais oficializar as núpcias. Essa ao menos tem sido a opção de cada vez mais franceses. Embora o instituto do pacto civil tenha sido criado em 1999 para contemplar os gays, hoje 95% dos que recorrem a ele são casais heterossexuais.
Mesmo sem pretender chegar a um mundo 100% racional, que seria um lugar ruim de viver, deveríamos pensar duas vezes antes de dar plena vazão a nossas emoções morais.