quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Parlamento russo veta adoção por americanos


Medida depende apenas da sanção do presidente Putin para entrar em vigor
Ação é represália à decisão dos EUA de proibir o ingresso de russos acusados de violar direitos humanos

Dmitry Lovetsky/Associated Press
Manifestantes protestam contra lei aprovada pelo Parlamento que veta adoção de crianças russas por americanos
Manifestantes protestam contra lei aprovada pelo Parlamento que veta adoção de crianças russas por americanos
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

A câmara alta do Parlamento da Rússia aprovou ontem, por unanimidade, um projeto de lei que proíbe a adoção de crianças russas por americanos. O projeto também impede que organizações com atuação política recebam dinheiro dos Estados Unidos e veta a concessão de vistos para americanos acusados de violar direitos de russos.
As medidas, um sinal de deterioração das relações entre Moscou e Washington, dependem agora apenas da sanção do presidente Vladimir Putin para entrar em vigor no começo de janeiro.
No início da semana, antes da aprovação final do Parlamento, o presidente disse que considerava o veto às adoções uma "resposta emotiva, mas apropriada" aos Estados Unidos, mas não confirmou se iria sancioná-lo.
O projeto é visto como uma retaliação à decisão recente do Congresso americano de impedir a concessão de vistos e congelar os ativos em território americano de russos acusados de violações de direitos humanos, inclusive funcionários do governo.
A norma foi batizada de Ato Magnitski em referência ao advogado russo Serguei Magnitski, que trabalhava para um fundo de investimentos estrangeiro e foi preso sob suspeita de fraude fiscal após denunciar suposto esquema de corrupção no país.
Os Estados Unidos criticam a Rússia por não ter levado a fundo uma investigação sobre a morte do advogado, no que veem como mais um sinal preocupante emitido pelo governo Putin, alvo de críticas frequentes por violações de direitos humanos e tendências ao autoritarismo.
Putin, por sua vez, diz que Magnitski morreu de um ataque do coração.
O projeto aprovado ontem pelo Parlamento russo foi batizado com o nome de Dima Yakovlev, um menino russo de dois anos que morreu nos Estados Unidos após seu pai adotivo tê-lo esquecido em um carro. O homem acabou inocentado pela Justiça.
Durante a votação, parlamentares argumentaram que o veto à adoção por americanos iria proteger as crianças russas e encorajar seu acolhimentos por famílias locais.
Alguns chegaram a dizer que o interesse dos americanos era apenas usar as crianças como fonte de órgãos para transplante ou para satisfazer suas fantasias sexuais, num exemplo da virulência do sentimento antiamericano de parte da sociedade.
O projeto, porém, enfrenta a resistência de muitos cidadãos russos, que consideram que as crianças serão as maiores prejudicadas. Ontem, sete manifestantes que protestavam contra a decisão foram presos em Moscou.
Os Estados Unidos são o destino da maior parte dos órfãos russos adotados por estrangeiros. No ano passado, foram cerca de mil adoções, e, desde 1999, mais de 45 mil.
Segundo o Unicef, existem cerca de 740 mil crianças vivendo sem os pais no país.

Fé, esperança e amor


Kenneth Maxwell


É uma das mais famosas citações do Novo Testamento, da Epístola de São Paulo aos Coríntios: "Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor".
A palavra "amor" é ocasionalmente traduzida como "caridade". É assim que ela é expressa em 1 Coríntios 13:13 na tradução da Bíblia para o inglês autorizada pelo rei James 1º, em 1604, e concluída e publicada em 1611.
O Sport Club Corinthians Paulista foi batizado em homenagem ao Corinthians Casuals Football Club, de Londres. Cinco trabalhadores da Ferrovia Paulista -Anselmo Correia, Antônio Pereira, Carlos Silva, Joaquim Ambrósio e Rafael Perrone- fundaram o Corinthians Paulista Club, em 1910, depois de um jogo disputado pelo Corinthians Casuals Football Club em uma excursão a São Paulo. O clube paulista sempre teve uma torcida apaixonada na classe operária.
Em 16 de dezembro de 2012, o Corinthians Paulista venceu o Chelsea Football Club, da Inglaterra, por 1 a 0, e conquistou o Mundial de Clubes da Fifa, diante de 30 mil de seus torcedores que viajaram a Yokohama, no Japão.
O Corinthians Paulista é famoso pelo seu sistema de recrutamento e treinamento de juvenis, que oferece a muitos jovens jogadores de futebol brasileiros uma oportunidade para superar a pobreza.
Estima-se que o time tenha 30 milhões de torcedores no Brasil. A equipe sedia suas partidas no emblemático estádio do Pacaembu, em São Paulo, mas uma nova sede, a Arena Corinthians, está sendo construída com o apoio do BNDES, da Odebrecht e de títulos de desenvolvimento da Prefeitura de São Paulo que oferecem incentivos fiscais. Deve ser inaugurada em 2013.
Apenas quatro dos jogadores do Corinthians Paulista são estrangeiros, entre os atletas do elenco principal.
O Chelsea, sediado no estádio de Stamford Bridge, em Londres, é propriedade do bilionário russo Roman Abramovich. A equipe já teve nove técnicos desde que Abramovich comprou o clube, em 2003: Claudio Ranieri, José Mourinho, Avram Grant, Luiz Felipe Scolari, Guus Hiddink, Carlo Ancelotti, Andre Villas-Boas, Roberto Di Matteo e Rafael Benítez. O time principal é igualmente internacional, com apenas sete ingleses entre os atletas que integram o elenco profissional.
O futebol do Chelsea tem pouco de "suavidade e luz", é fato. E o mesmo pode ser dito sobre o Corinthians Paulista. Mas o clube brasileiro oferece muita "fé, esperança e amor". Sua vitória sobre o Chelsea é ótimo presságio para 2013. E também é um ótimo presságio para um Ano-Novo muito feliz e muito bem-sucedido para vocês todos.

A Constituição do Egito



Mursi e sua Irmandade Muçulmana conseguem referendar nova Carta, não sem protestos e dúvidas pelo futuro democrático do país
Seis meses após se tornar o primeiro presidente do Egito a conquistar o poder pelas urnas, o islamita Mohamed Mursi venceu de novo ao aprovar, com pouco debate, uma Constituição redigida por seus aliados religiosos. O referendo em apoio ao texto suscitou protestos violentos e acusações de fraude, o que ampliou o cisma entre adeptos e opositores da Irmandade Muçulmana, grupo de Mursi.
Apesar de delinear-se um arcabouço legal mais conservador, não se justifica, por enquanto, o pavor da classe média egípcia, endossado pela opinião pública ocidental, de que o Egito caminha em direção à teocracia após livrar-se da ditadura secular de Hosni Mubarak.
A Constituição preocupa mais pelas suas omissões do que por seu conteúdo. Não há, por exemplo, limite claro ao poder dos militares.
Menções à preservação da ordem pública e dos "valores morais" soam como ameaça potencial às liberdades civis e individuais. A liberdade de culto só é garantida para outras "religiões divinas" (cristianismo e judaísmo), o que suscita temor em seitas menores.
O texto assevera que todos os cidadãos, homens e mulheres, são iguais perante a lei. Em matérias como casamento e herança, minorias religiosas prosseguirão sob a alçada dos respectivos cleros.
A nova Constituição promete ainda independência do Judiciário e liberdade de imprensa. Mas arbitragens em questões legais caberão à Universidade Al Azhar, epicentro intelectual do islã sunita, conhecida pela tradição moderada.
Por controversa que seja, a Constituição de Mursi reflete um novo pacto entre a maior parte dos egípcios e seus governantes. Todas as consultas nas urnas desde a queda de Mubarak, incluindo a eleição dos parlamentares que definiram a composição da Constituinte, indicam que a força política mais popular, coesa e organizada é a Irmandade Muçulmana.
O jogo democrático trouxe à tona o Egito devoto que Mubarak e seus aliados ocidentais alienaram. A oposição secular acusa os religiosos de terem confiscado a revolução, mas ela ganharia tempo e reconhecimento se considerasse a dinâmica pós-revolucionária como um processo em aberto. Só com a medição de forças, nas ruas, corre o risco de terminar isolada.
Duas razões reforçam a noção de que Mursi não implementará uma guinada extremista: a necessidade de manter a bilionária ajuda militar dos EUA e o pragmatismo imposto pela crise econômica.
A Constituição está sujeita a emendas e precisa ser regulamentada pelo próximo Parlamento. Ainda parece cedo para dar por fracassado todo o esforço de democratização do Egito.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Salário e ambição


Kenneth Maxwell


A "Chronicle of Higher Education" é uma revista especializada voltada aos acadêmicos norte-americanos. Nesta semana, ela publicou os resultados de uma pesquisa sobre a remuneração dos reitores de 493 instituições privadas de ensino superior nos EUA, de acordo com suas declarações de renda para o ano de 2010.
A pesquisa constatou que os reitores mais bem pagos recebiam benefícios que o setor privado já abandonou. Entre os 50 reitores mais bem pagos de universidades privadas, a "Chronicle" apontou que metade recebia dinheiro das instituições para pagar os impostos sobre bonificações e benefícios.
É uma prática que caiu em desfavor em muitas companhias de capital aberto, cujos conselhos decidiram que suas vantagens não bastavam para compensar a indignação que isso causa entre os acionistas. Essa forma de remuneração "se tornou radiativa nos dez últimos anos", disse à publicação Mark Borges, especialista em remuneração de executivos.
O reitor mais bem pago em 2010 foi Bob Kerrey, que recebeu US$ 3 milhões para dirigir a New School University, em Nova York. O total inclui uma "bonificação de retenção" de US$ 1,2 milhão, que, segundo a New School, serve para "garantir uma transição tranquila para seu sucessor".
Apenas três das escolas de ensino superior contatadas pela "Chronicle" ofereceram informações adicionais sobre os pagamentos não salariais que conferem aos seus reitores.
Uma delas é a Universidade Columbia, cujo reitor, Lee Bollinger, recebeu US$ 13.556 isentos de impostos para cobrir pagamentos de apólices de seguro. Bollinger detinha o sétimo posto no ranking dos reitores mais bem pagos, com remuneração de US$ 1.932.931 em 2010, da qual só 49,2% correspondia ao seu salário-base. A reitora da Universidade Harvard, Drew Gilpin Faust, recebeu US$ 875.331 em 2010; ficou em 47º lugar no ranking dos reitores mais bem pagos, e o salário-base respondia por 80,6% de sua remuneração.
Bob Kerrey recebeu a medalha de honra por sua bravura quando serviu numa unidade Seal da Marinha na Guerra do Vietnã; ele perdeu parte de uma perna como resultado de ferimentos sofridos em combate. Pouco depois de assumir seu posto na New School, em 2001, um de seus segredos mais sombrios foi revelado:
o massacre de 13 mulheres e crianças desarmadas pela sua unidade de comando, em Thanh Phong, no delta do rio Mekong, Vietnã, em 1969.
Kerrey foi governador de Nebraska, pelo qual também foi senador. Ele renunciou à reitoria da New School no fim de 2010 e tentou voltar ao Senado. O democrata Kerrey terminou derrotado pela deputada estadual e pecuarista republicana Deb Fischer, por 58% a 42% dos votos.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Universidade católica?


Vladimir Safatle

Universidade católica?

A crise na PUC-SP devido à nomeação da terceira colocada em uma lista tríplice evidenciou uma questão mais grave, que não diz respeito apenas ao mecanismo viciado de escolha de reitor. Artigo publicado na Folha por dom Odilo Pedro Scherer demonstra profunda distorção no sentido do que é uma universidade.
Uma universidade não é apenas um espaço de formação profissional e de qualificação técnica. Desde o seu início, ela foi uma ideia vinculada à constituição de um espaço crítico de livre pensar. Ela era a expressão social do desejo de que o conhecimento se desenvolvesse em um ambiente livre de dogmas, sem a tutela de autoridades externas, sejam elas vindas do Estado, da igreja ou do mercado. A universidade dialoga com essas três autoridades, mas não se submete a nenhuma delas, mesmo quando é dirigida pelo poder público, por grupos confessionais ou empresários.
Por isso, há de se falar com clareza: no interior da República, não há espaço para universidades católicas, protestantes, judaicas ou islâmicas, mas universidades dirigidas por católicos, dirigidas por protestantes etc., o que é algo totalmente diferente.
Uma universidade não existe para divulgar, de maneira exclusiva, valores de qualquer religião que seja. Ela admite que tais valores estejam presentes em seu espaço, mas admite também que nesse mesmo espaço encontremos outros valores, pois só esse livre pensar é formador do conhecimento.
Se certos setores da igreja não querem isso, principalmente depois do realinhamento conservador de Bento 16, então é melhor que eles se dediquem à gestão de seminários.
A universidade, mesmo particular, é uma autorização do poder público que exige, para tanto, a garantia de que valores fundamentais para a formação livre serão respeitados.
Se a igreja percebe a PUC como um instrumento de defesa de seus valores, então não há razão alguma para ela fazer isso com dinheiro do Estado, já que seus cursos de pós-graduação recebem dinheiro público via agências de fomento.
Ao que parece, alguns acreditam que, em uma universidade dirigida por católicos, professores não devem se manifestar publicamente a favor do aborto e do casamento homossexual. E o que fará tal universidade com professoras que abortam e professores que se declaram abertamente homossexuais? Serão convidados a se retirar?
E o professor que ensina Nietzsche e a "morte de Deus", Voltaire e seu pensamento anticlerical? Terão o mesmo destino do professor de história que pesquisou as barbáries da Inquisição ou das relações entre o Vaticano e o fascismo ou da professora de psicologia que defende teorias "queers", já acusadas pelo papa de minar os valores da família cristã?

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Éden, utopia e inferno


Kenneth Maxwell

O Brasil era visto inicialmente como o Jardim do Éden. Sérgio Buarque de Holanda o definiu como "uma visão do paraíso", no qual as pessoas viviam inocentemente, em um clima perfeito, cercadas de pássaros exóticos e ani-mais estranhos.
Américo Vespúcio, em sua famosa carta a Lorenzo di Pierfrancesco de Medici, escrita de Lisboa em 1502, falava de um povo que vivia sem dinheiro, propriedade ou comércio, em completa liberdade social e moral, sem reis ou religião. A "Utopia", publicada por Thomas More em 1516, foi em parte inspirada pela vívida descrição do Brasil por Vespúcio.
Mas o mito demoníaco, com seu medo do atraso e do canibalismo, não demorou muito a se manifestar. A primeira xilogravura colorida a mão surgiu em Augsburgo em 1505, mostrando homens e mulheres marrons, usando chapéus de penas e mastigando braços e pernas humanos, defumando outras partes de corpos humanos em uma fogueira, em preparação para um festim. A legenda aproveitava o relato de Vespúcio: "Eles lutam uns contra os outros e devoram uns aos outros... Vivem por 150 anos. E não têm governo".
Mesmo os sempre pacientes jesuítas, que chegaram em 1549 em sua primeira missão ao Novo Mundo, às vezes se desesperavam quanto à capacidade dos indígenas de trabalhar seriamente.
O padre Anchieta observou, em 1586, que tampouco a natureza da terra ajuda, sendo relaxante, preguiçosa e melancólica, e, por isso, todo o tempo é dedicado a "festas, cantos e diversão".
As aspirações bíblicas para a América portuguesa como a "Terra de Santa Cruz" não se realizaram, claro. Em lugar disso, o comércio triunfou. A nova terra recebeu o nome do prosaico pau-brasil. Os portugueses logo passaram a recorrer à coerção, às safras de exportação e aos escravos africanos. O jesuíta Antônio Vieira descreveu os caldeirões fervilhantes das usinas de açúcar como "um espelho do inferno".
Os habitantes originais do Brasil haviam, nesse meio tempo, se tornado "índios", ainda que Pedro Álvares Cabral já soubesse que isso não era fato -ao contrário de Colombo, que persistiu em acreditar que estava na Ásia mesmo depois de passar um ano encalhado na Jamaica, em 1503/1504. Cabral, afinal, estava a caminho da verdadeira Índia ao avistar inadvertidamente a costa brasileira.
Cabral ficou pouco mais de uma semana. Mas Pero Vaz de Caminha escreveu a Lisboa em 1º de maio de 1500 descrevendo a beleza, a nudez e a inocência dos povos indígenas que os portugueses haviam encontrado nas praias de areia branca, e que tanto os havia chocado e deliciado.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Confiança


Antonio Delfim Netto


Os economistas aprenderam que a "confiança" é a engrenagem fundamental no funcionamento da sociedade. É uma roda dentada: quando gira, põe em marcha todo o sistema; quando perde os dentes, o paralisa.
Paradoxalmente, ela é difícil de definir, mas fácil de ver quando não existe!
Por exemplo, quando os consumidores ficam mais cautelosos porque não têm "confiança" de que manterão seus empregos no futuro devido às incertezas sobre a política monetária. Quando os empresários liquidam seus estoques em lugar de manter ou ampliar o nível de sua produção porque não têm "confiança" no governo e nas suas promessas. Quando os banqueiros preferem comprar papéis do governo em lugar de financiar a produção porque não têm "confiança" no futuro do setor privado devido às dúvidas em relação aos objetivos da política social e econômica.
Esses exemplos mostram que a "engrenagem" fundamental, a "roda dentada" que move todo o sistema, é a "confiança" que deve se estabelecer entre o setor privado e o Estado. O primeiro entendendo os problemas dramáticos do segundo e reconhecendo o fato de que o poder incumbente é o elemento regulador dos mercados para aumentar a competição num ambiente favorável aos negócios, e não aos "amigos negociantes".
O segundo, introjetando a sua finitude diante da perenidade do sistema, deve manobrar com inteligência e paciência para obter a cooperação do primeiro para a consecução dos seus objetivos.
Desde Adam Smith isso é evidente. Ao contrário da dedução pedestre, não é apenas o interesse individual que leva ao interesse geral. Isso só ocorre quando há "confiança" de que o interesse individual obedece a um padrão de moralidade que levará ao interesse geral (o açougueiro não venderá carne de gato por carne de coelho, por exemplo). A falta de "confiança" entre os agentes impede o aproveitamento de inúmeras oportunidades de cooperação e eleva os custos de transação, reduzindo o crescimento econômico.
Hoje, sabemos que uma razão fundamental para as enormes dificuldades de construir uma teoria monetária reside na própria essência da moeda. O que leva alguém a receber em troca de um objeto físico ou de um serviço uma quantidade de moeda? Nada além da "confiança": a crença de que poderá trocá-la por outros bens físicos e serviços ou guardá-la como reserva de valor, o que altera profundamente o seu comportamento social, como mostrou Georg Simmel.
Não é sem razão que há correlação positiva, e não relação de causalidade, entre o nível de confiança dos agentes sociais e econômicos no poder incumbente e o sucesso de suas políticas sociais e econômicas.

Israel insiste no erro


Quando a Assembleia-Geral da ONU aprovou a elevação de status da Autoridade Palestina de "entidade observadora" a "Estado observador não membro", o governo de Israel poderia ter identificado ali mais um sinal de que sua posição belicista é cada vez menos defensável.
Na votação da semana passada, 138 países apoiaram o pleito palestino e apenas 9 foram contrários a ele (41 se abstiveram). Ainda que a nova condição não dê poder de voto à Palestina, o efeito simbólico do reconhecimento como Estado não deve ser desprezado.
À revelia do recado da ONU, porém, Israel resolveu retaliar a Palestina e aprovou a construção de 3.000 unidades habitacionais em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia -áreas ocupadas desde 1967.
Em seguida, o Estado judeu congelou fundos que deveria repassar à Autoridade Nacional Palestina -oriundos de impostos de novembro sobre produtos que entram no território palestino sob controle de Israel.
Na segunda-feira, Reino Unido, França, Espanha, Suécia e Dinamarca convocaram os embaixadores israelenses em suas respectivas capitais para dar explicações sobre as medidas anunciadas por Israel. Ontem, o Brasil fez o mesmo.
Os Estados Unidos, tradicionais aliados de Israel, não tomaram iniciativa tão categórica (na diplomacia, a convocação de um embaixador representa séria insatisfação de um país com o outro), mas criticaram as decisões do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu.
As reações desses países decorrem, sobretudo, do injustificável plano israelense de ampliar a colonização. Uma parcela das novas habitações ficará num corredor entre Jerusalém Oriental e o assentamento judaico de Maale Adumim, dividindo a Cisjordânia em duas partes e dificultando ainda mais a viabilidade do Estado palestino.
Verdade que as 3.000 unidades anunciadas não representam um grande avanço de Israel. Iniciados há quase 45 anos, os assentamentos já são moradia para mais de 500 mil judeus na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.
A gravidade do gesto está mais na localização e no momento escolhidos. Uma vez estabelecidas, as colônias dificultam negociações sobre o território em que se implantaram. São, portanto, um retrocesso. A pretexto de defender os israelenses, a política de Netanyahu complica a situação com a Palestina e sugere que a seu governo interessa antes acirrar o conflito que buscar a paz na região.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Ação contra Curió por sequestro é suspensa


Militar responde a processo por crimes que teriam sido feitos na Guerrilha do Araguaia

DE SÃO PAULO

O desembargador Olindo Herculano de Menezes, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (Brasília), aceitou uma liminar para suspender uma ação penal contra o coronel da reserva Sebastião Rodrigues Curió, 77.
Ele é acusado de ter cometido o sequestro e cárcere privado de cinco militantes de esquerda em 1974, durante a Guerrilha do Araguaia.
A ação contra Curió foi aberta em agosto pela Justiça Federal em Marabá (PA).
Também responde à ação o tenente-coronel da reserva Lício Maciel, 82.
Ambos participaram da repressão ao grupo armado que atuou na divisa de Tocantins (na época Goiás), Pará e Maranhão entre 1972 e 1975.
Em março, uma ação contra Curió já havia sido rejeitada, mas o Ministério Público Federal recorreu e conseguiu mudar a decisão.
De acordo com a Procuradoria, essa é uma ação inédita contra um militar por crimes que teriam ocorrido durante a ditadura (1964-1985).
A defesa do coronel recorreu ao TRF com um habeas corpus, argumentando que a Lei da Anistia não permite a abertura de ação do tipo.
Em sua liminar, Herculano de Menezes rebateu o argumento do Ministério Público de que o caso deve ser investigado em uma ação penal, já que a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil, em 2010, por não ter investigado a morte de 62 pessoas na guerrilha
"A investigação tem o sentido apenas de propiciar o conhecimento da verdade histórica, para todas as gerações, de ontem e de hoje, o que não se submete a prazos de prescrição", afirma o desembargador, na decisão publicada semana passada.
A mérito da questão ainda vai ser analisado pelos desembargadores da 4ª Turma do TRF.

Formalismo


Vladimir Safatle

A morte de Décio Pignatari nos permite, mais uma vez, lançar luzes sobre o movimento concretista e os desdobramentos da experiência literária nacional. Pois o concretismo parece ter se imposto como o último momento da literatura brasileira a abrir espaço a uma produção capaz de refletir, com grande capacidade especulativa, suas decisões formais e seu lugar histórico.
Servindo de referência não apenas para a poesia, mas também para as artes plásticas e a música, o movimento concretista merece que nos debrucemos mais uma vez sobre ele.
Sua procura em mostrar, como dizia Maiakóvski, de que "sem forma revolucionária não há arte revolucionária", talvez seja uma das expressões possíveis para uma espécie de "programa comum" tão presente nos anos 1950 e 1960 no Brasil e que gira em torno da necessidade de superação do atraso.
O "formalismo" nunca foi alguma forma de pregação autista da autonomia da obra de arte. Jacques Rancière compreendeu isso muito bem quando lembrou que, em toda discussão sobre a autonomia da obra de arte, sempre ressoou a crença em uma comunidade por vir. Crença de que a arte, quando fala de si mesma, pode fornecer os delineamentos de um vínculo social renovado.
Pois esse aparente retorno da linguagem sobre si mesma produzido pela arte é sua maneira de expressar a consciência do esgotamento da força expressiva de nossas convenções, consciência do desabamento do mundo que, até aquele momento, nossa linguagem suportou.
Ninguém mostrou isso de maneira mais bem-acabada do que Mallarmé, não por acaso uma das referências maiores dos concretistas, juntamente com Ezra Pound, Cummings, Maiakóvski e outros.
O mesmo Mallarmé que procurava a força de anulação própria a um poema que não teria mais medo de dizer: "Nada terá tido lugar a não ser o lugar". Ou seja, só flertando com o grau zero que podemos começar a criar.
Que tais preocupações com a forma estética aparecessem no Brasil dos anos 1950, isso deve ser creditado à consciência de que apenas esse retorno à crença na potência disruptiva da pura forma poderia fortalecer as direções de nossa experiência modernista. No fundo, o concretismo sentia a urgência de mudar as estratégias de nossa produção artística, talvez muito voltadas à procura da afirmação de nossa nacionalidade.
Todas essas discussões são, ainda, profundamente relevantes. Como se elas tivessem ficado no ar à espera de um desdobramento, de alguma forma de aprimoramento. Como se algo de nosso país tivesse, por alguma razão bizarra, parado no momento de Décio Pignatari.