segunda-feira, 30 de abril de 2012

Meu Brasil brasileiro

MARCO ANTONIO, VILLA

HISTORIADOR; É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE 
FEDERAL DE SÃO CARLOS (UFSCAR)
Estado de S.Paulo

O Brasil é um país, no mínimo, estranho. Em 1992, depois de grande mobilização nacional e de uma comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) acompanhada diariamente pela população, o então presidente Fernando Collor de Mello teve o seu mandato cassado. Foi o primeiro presidente da República que teve aprovado um processo de impeachment no País. De acordo com os congressistas, o presidente foi deposto por ter cometidos crimes de responsabilidade. Collor foi acusado de ter articulado com o seu antigo tesoureiro de campanha, Paulo César Farias, um grande esquema de corrupção que teria arrecado mais de US$ 1 bilhão. Acabou absolvido pelo Supremo Tribunal Federal por falta de provas. Passados 20 anos, o mesmo Fernando Collor, agora como senador por Alagoas, foi indicado por seu partido, o PTB, para compor a CPMI que se propõe a investigar as ações de Carlinhos Cachoeira. Deixou a posição de caça e passou a ser um dos caçadores.

Quem mudou: Collor ou o Brasil? Provavelmente nenhum dos dois. Algo está profundamente errado quando um país não consegue, depois de duas décadas, enfrentar a corrupção. Hoje, diferentemente de 1992, as denúncias de corrupção são muito mais graves. Estão nas entranhas do Estado, em todos os níveis, e em todos os Poderes. Não se trata - o que já era grave - simplesmente de um esquema de corrupção organizado por um grupo marginal do poder, recém-chegado ao primeiro plano da política nacional.
Ao longo dos anos a corrupção foi sendo aperfeiçoada. Até adquiriu status de algo natural, quase que indispensável para governar. Como cabe tudo na definição de presidencialismo de coalizão, não deve causar admiração considerar que a corrupção é indispensável para a governabilidade, garante estabilidade, permite até que o País possa crescer - poderia dizer algum analista de ocasião, da turma das Polianas que infestam o Brasil.
Parodiando Karl Marx, corruptos de todo o Brasil, uni-vos! Essa poderia ser a consigna de algum partido já existente ou a ser fundado. Afinal, a nossa democracia está em crise, mas não é por falta de partidos. É uma constatação óbvia de que o Brasil não tem memória. O jornalista Ivan Lessa escreveu que a cada 15 anos o Brasil esquecia o que tinha acontecido nos últimos 15. Lessa é um otimista incorrigível. O esquecimento é muito - mas muito - mais rápido. É a cada 15 dias. Caso contrário não seria possível imaginar que Fernando Collor estivesse no Senado, presidisse comissões e até indicasse diretores de empresas estatais, como no caso da BR Distribuidora. E mais: que fosse indicado como membro permanente de uma CPMI que visa a apurar atos de corrupção. Indo por esse caminho, não vai causar nenhuma estranheza se o Congresso Nacional revogar o impeachment de 1992 e até fizer uma sessão de desagravo ao ex-presidente. Como estamos no Brasil, é bom não duvidar dessa possibilidade.
Em 1992 muitos imaginavam que o Brasil poderia ser passado a limpo. Ocorreram inúmeros atos públicos, passeatas; manifestos foram redigidos exigindo ética na política. Até surgiu uma "geração de caras-pintadas". Parecia - só parecia - que, após a promulgação da Constituição de 1988 e a primeira eleição direta presidencial - depois de 29 anos -, a tríade estava completa com a queda do presidente acusado de sérios desvios antirrepublicanos. O novo Brasil estaria nascendo e a corrupção, vista como intrínseca à política brasileira, seria considerada algo do passado.
Não é necessário fazer nenhum balanço exaustivo para constatar o óbvio. A derrota - de goleada - dos valores éticos e morais republicanos foi acachapante. Nos últimos 20 anos tivemos inúmeras CPIs. Ficamos indignados ouvindo depoimentos em Brasília com confissões públicas de corrupção. Um publicitário, Duda Mendonça, chegou mesmo a confessar - sem que lhe tivesse sido perguntado - na CPMI do Mensalão que havia recebido numa conta no exterior o pagamento pelos serviços prestados à campanha do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva. A bombástica revelação foi recebida por alguns até com naturalidade. O que configurava um crime de responsabilidade, de acordo com a Constituição, além de outros delitos, não gerou, por consequência, nenhum efeito. E, vale recordar, com a concordância bovina - para lembrar Nelson Rodrigues - da oposição.
A aceitação de que política é assim mesmo foi levando à desmoralização da democracia e de seus fundamentos. Hoje vivemos um simulacro de democracia. Ninguém quer falar que o rei está nu. Democracia virou simplesmente sinônimo de realização de eleições, despolitizadas, desinteressadas e com um considerável índice de abstenção (mesmo com o voto obrigatório). Aqui, até as eleições acabaram possibilitando expandir a corrupção.
Na política tradicional, a bandeira da ética é empunhada de forma oportunista, de um grupo contra o outro. Na próxima CPI os papéis podem estar invertidos, sem nenhum problema. É um querendo "pegar" o outro. E muitas vezes o feitiço pode virar contra o feiticeiro.
E as condenações? Quem está cumprindo pena? Quem teve os bens, obtidos ilegalmente, confiscados? Nada. O que vale é o espetáculo, e não o resultado.
O Brasil conseguiu um verdadeiro milagre: descolou a política da economia. O País continua caminhando, com velocidade reduzida, por causa da má gestão política. Mas vai avançando. E por iniciativa dos simples cidadãos que desenvolvem seus negócios e constroem dignamente sua vida. Depois, muito depois, vão chegar o Estado e sua burocracia. Aparentemente para ajudar, mas, como de hábito, para tirar "alguma casquinha", para dizer o mínimo. E a vida segue.
Não vai causar admiração se, em 2032, Demóstenes Torres for indicado pelo seu partido para fazer parte de uma CPI para apurar denúncias de corrupção. É o meu Brasil brasileiro, terra de samba e pandeiro.

sábado, 28 de abril de 2012

Brasil pede que Bolívia investigue militares

Número dois do Itamaraty solicita a colega apuração de alegada invasão de terras de brasileiros no país vizinho



Exército boliviano deu ultimato até 25 de maio para que colonos deixem a área de 50 km à margem da fronteira

ISABEL FLECK
DE SÃO PAULO
FREUD ANTUNES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM RIO BRANCO


O Itamaraty pediu ontem que a Bolívia investigue as denúncias de que militares e policiais do país vizinho invadiram propriedades de brasileiros em território boliviano.
Em telefonema ao vice-chanceler boliviano, Juan Carlos Alurralde, o secretário-geral de Relações Exteriores, Ruy Nogueira, manifestou a preocupação brasileira com as acusações e solicitou uma apuração.
Segundo o governo do Acre -Estado que faz divisa com o departamento de Pando, onde teria ocorrido a invasão-, o Exército da Bolívia deu um ultimato até 25 de maio para que eles deixem suas casas na faixa de 50 km a partir da fronteira.
Pela lei boliviana, estrangeiros não podem ter propriedades nessa região.
No entanto, um acordo bilateral entre os dois países prevê a saída dos brasileiros até o fim deste ano.
"O Exército boliviano fala aos produtores que o prazo é até 25 de maio, mas isso não corresponde ao acordo. Os brasileiros têm até 31 de dezembro para desocupar a fronteira", disse o secretário de Justiça e Direitos Humanos do Acre, Nilson Mourão.
O secretário disse ter ouvido cinco moradores da região, que relataram ameaças, abate de animais e tomada de uma casa pelos militares.
O encarregado de negócios da embaixada brasileira em La Paz, Eduardo Sabóia, que esteve anteontem na região de Capixaba (AC), também colheu relatos e fotos dos colonos, que comprovam a invasão das propriedades e as denúncias de que militares bolivianos entraram armados em território brasileiro.
As imagens foram mostradas por Sabóia ontem a autoridades bolivianas em La Paz.
Segundo a Folha apurou, há fotos de soldados do país vizinho com armas na cintura na cidade de Capixaba.
O Exército brasileiro abriu uma sindicância para analisar a ação, que violaria uma norma internacional que exige solicitação prévia para movimentação de forças armadas em outro país.
Um pelotão com cerca de 35 militares enviado anteontem para a região de Capixaba seguirá na fronteira até que as tensões diminuam.
Procurada, a chancelaria boliviana disse ter repassado o pedido de investigação brasileiro aos ministérios responsáveis.
O acordo para a retirada pacífica de brasileiros estabelece que eles sejam realocados no interior da Bolívia ou no Brasil, com o apoio da OIM (Organização Internacional para Migrações) e do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).
O Incra do Acre informou ter recebido do Itamaraty em 2010 uma lista com 554 famílias para serem reassentadas. Até o fim de 2011, 120 famílias já haviam sido retiradas da área.
Neste ano, segundo o Incra, outras 150 famílias deverão ser realocadas em duas fazendas próximas à BR-317, em Capixaba. As outras só poderão ser reassentadas em 2013.

Em ato com 70 mil, Cristina celebra expropriação da YPF

Presidente da Argentina agradeceu o apoio da maior parte da oposição

ARIEL PALACIOS , 
CORRESPONDENTE, BUENOS AIRES - 
O Estado de S.Paulo

A presidente Cristina Kirchner, diante de 70 mil militantes do Partido Justicialista (Peronista) acotovelados no portenho estádio do Vélez Sarsfield, celebrou ontem a expropriação da empresa YPF de gás e petróleo. Cristina surpreendeu ao agradecer o respaldo da maior parte da oposição: "Obrigado a todos aqueles que tornaram isto possível. É uma obra que não é somente de um partido ou de um setor... É de todos os argentinos e para todos os argentinos!".
Segundo Cristina, a Argentina "recuperou" a YPF, empresa que foi removida na semana passada das mãos da espanhola Repsol.
A YPF, fundada em 1922 como estatal, foi privatizada em 1992. Os empresários argentinos que compraram a empresa a revenderam em 1999 para a Repsol. Mas, depois de 13 anos administrando a companhia, a empresa espanhola, acusada de não investir no país, foi retirada do comando da YPF de forma compulsória, com o confisco de 51% das ações.
"Jamais permitiremos que nossa história seja escrita novamente pelos que estão lá fora. E não permitiremos os interesses que são contrários à pátria", discursou Cristina, apelando ao nacionalismo.
Na madrugada de quinta-feira o Senado aprovou o projeto de lei de expropriação. Na próxima quarta-feira começará o debate na Câmara de Deputados. As discussões prometem ser prolongadas. A expectativa do governo Kirchner é de votar - e aprovar - o confisco da empresa de gás e petróleo na quinta-feira.
Cristina, levemente afônica, discursou apenas 45 minutos. Em pé, numa tribuna com os dizeres "Unidos e organizados", rodeada por todo seu gabinete de ministros, a presidente reconheceu que o atual grupo que está no governo "não é eterno".
"Não somos eternos, e pudemos comprovar isso de forma dramática", disse, com a voz embargada, em alusão ao ex-presidente Néstor Kirchner, seu marido, que morreu em outubro de 2010. "A juventude precisará levantar essas bandeiras", discursou. "Os jovens devem ser os guarda-costas desse legado histórico."

domingo, 22 de abril de 2012

Assessor de Nixon envolvido no caso Watergate morre aos 80

Condenado e preso por sete meses, Charles Colson virou pastor



DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS


Charles Colson, assessor do presidente americano Richard Nixon (1969-1974) envolvido no escândalo do Watergate, morreu ontem aos 80 por complicações após uma cirurgia cerebral.
Colson, conhecido como o mestre da "guerra suja" do governo Nixon, foi condenado por tentativa de obstruir a Justiça e esteve preso por sete meses em 1974. Ao sair da cadeia, transformou-se num importante líder evangélico e um militante defensor da reforma prisional.
Em 1972, o assessor e estrategista político fez parte do comitê de reeleição de Nixon responsável pela tentativa de espionagem do Partido Democrata no edifício Watergate, o ponto de partida do escândalo que levaria o presidente a renunciar.
Colson, que uma vez disse que passaria por cima da avó se preciso fosse para reeleger Nixon, elaborou a lista de "inimigos" a serem espionados pelo governo.
Ele foi condenado, porém, por outro crime, que se descobriu durante a investigação do "Watergate": ele confessou ter ajudado a formular estratégias ilegais na tentativa de desacreditar o analista do Departamento de Defesa Daniel Ellsberg.
O analista havia vazado à imprensa os chamados "Papéis do Pentágono", documentos que revelaram a verdadeira situação dos americanos na Guerra do Vietnã.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Alegações armênias: distorcendo a verdade

Ersin Erçin

O Império Otomano enfrentou ações subversivas internas. Facções armênias se aliaram aos russos. A tragédia que se seguiu não foi um genocídio
Os trágicos eventos de 1915 continuam sendo distorcidos por grupos nacionalistas da diáspora armênia. Tentam impor uma memória unilateral, baseada em meias verdades, preconceitos e documentos falsificados.
Turcos e armênios conviveram pacificamente por mais de 800 anos. É necessário evitar a leitura seletiva da história e se esforçar para analisar, objetivamente, o que realmente ocorreu em 1915.
As complexas circunstâncias, às vésperas e durante 1915, precisam ser bem compreendidas. O início da Primeira Guerra Mundial, acompanhado pela contínua desintegração do Império Otomano, impôs severas dificuldades a todos os seus indivíduos, incluindo turcos, curdos, judeus e armênios.
O império lutou não apenas contra invasores, mas também contra atividades subversivas internas. Algumas facções armênias se aliaram às forças russas e realizaram revoltas na Anatólia Oriental (região da Turquia), levando ao assassinato de incontáveis civis.
Diante de tal ameaça interna em tempos de guerra, o governo foi forçado a realocar parte da população armênia para longe da zona de guerra, enquanto vários outros armênios continuaram suas vidas em outras partes do império.
Os registros otomanos demonstram claramente que o governo deu ordens para garantir a segurança das pessoas que estavam sendo realocadas. Entretanto, sob condições de guerra exacerbadas por conflitos internos, banditismo, fome, epidemias e por um aparato de Estado decadente, todos esses fatores juntos culminaram em uma tragédia.
Ninguém nega o sofrimento dos armênios. O que é inadmissível à consciência comum é a apresentação unilateral de tal tragédia como "genocídio". Pesquisas acadêmicas realizadas por renomados estudiosos provam a inexistência de intenções ou ordens do governo para destruir a população armênia.
A diáspora armênia tenta fundamentar as suas alegações fazendo referência a publicações tendenciosas e distorcidas. Essas fontes são parte de uma campanha de propaganda de guerra realizada por inimigos do Império Otomano, a fim de denegrir a sua imagem e justificar as suas ambições imperiais e reivindicações territoriais.
As alegações infundadas de genocídio se tornaram um instrumento político. Os fóruns de debate para questões historicamente controversas não são os parlamentos. A anulação do projeto de lei no Conselho Constitucional da França, entre outros, mostra a importância da prevenção contra a politização da história em decorrência de políticas internas.
A propagando política armênia deve ser substituída por um debate acadêmico legítimo. É crucial que seja permitida uma pesquisa imparcial dos registros e arquivos históricos. Os registros otomanos estão completamente abertos a todos os pesquisadores.
A campanha de ódio de alguns grupos armênios para monopolizar a verdade e impor suas versões dos eventos de 1915 também prejudica o processo de normalização entre Turquia e Armênia. Devemos prestar o devido respeito às memórias de tantas vidas perdidas, sejam elas armênias ou turcas, buscando a verdade.

Os limites do lulismo

Vladimir Safatle

Há alguns anos, o cientista político André Singer cunhou o termo "lulismo" para dar conta do modelo político-econômico implementado no Brasil desde o início do século 21.
Baseado em uma dinâmica de aumento do poder aquisitivo das camadas mais baixas da população por meio do aumento real do salário mínimo, de programas de transferência de renda e de facilidades de crédito para consumo, o lulismo conseguiu criar o fenômeno da "nova classe média".
No plano político, esse aumento do poder aquisitivo da base da pirâmide social foi realizado apoiando-se na constituição de grandes alianças ideologicamente heteróclitas, sob a promessa de que todos ganhariam com os dividendos eleitorais da ascensão social de parcelas expressivas da população.
O resultado foi uma política de baixa capacidade de reforma estrutural e de perpetuação dos impasses políticos do presidencialismo de coalizão brasileiro.
No entanto é bem possível que estejamos no momento de compreensão dos limites do modelo gestado no governo anterior. O aumento exponencial do endividamento das famílias demonstra como elas, atualmente, não têm renda suficiente para dar conta das novas exigências que a ascensão social coloca na mesa.
É fato que o país precisa de uma nova repactuação salarial. As remunerações são, em média, radicalmente baixas e corroídas por gastos que poderiam ser bancados pelo Estado. Por isso, é possível dizer que a próxima etapa do desenvolvimento nacional passe pela recuperação dos salários.
A melhor maneira de fazer isso é por meio de uma certa ação do Estado. Uma família que recebe R$ 3.500 mensais gasta praticamente um terço de sua renda só com educação privada e planos de saúde. Normalmente, tais serviços são de baixa qualidade. Caso fossem fornecidos pelo Estado, tais famílias teriam um ganho de renda que isenção alguma de imposto seria capaz de proporcionar.
Entretanto a universalização de uma escola pública de qualidade e de um serviço de saúde que realmente funcione não pode ser feita sob a dinâmica do lulismo, pois ela exige investimentos estatais só possíveis pela taxação pesada sobre fortunas, lucros bancários e renda da classe alta. Ou seja, isso exige um aumento de impostos sobre aqueles que vivem de maneira nababesca e que têm lucros milionários no sistema financeiro.
Algo dessa natureza exige, por sua vez, uma mobilização política que está fora do quadro de consensos do lulismo.Porém a força política que poderia pressionar essa nova dinâmica ainda não existe no Brasil. Ela pede uma esquerda que não tenha medo de dizer seu nome.

O óleo de Cristina

Editoriais
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Governo argentino expropria grupo espanhol, reestatiza a YPF, maior petrolífera do país, e abre crise com a Europa e investidores
A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, iniciou ontem a reestatização da petrolífera YPF, a maior do país, vendida à espanhola Repsol em 1999 pelo governo de Carlos Menem.
A Casa Rosada enviou ao Congresso projeto de lei que transfere 51% das ações da companhia, todas pertencentes ao grupo espanhol, para o Estado. Os valores que serão pagos pelas cotas ainda não foram definidos.
A decisão abre uma crise com a Espanha e a União Europeia, que já haviam advertido o governo argentino sobre as consequências graves que a expropriação poderia acarretar.
Em que pese o argumento da Casa Rosada de que a Argentina apenas iguala-se a outras nações do continente, como o Brasil, nas quais o Estado detém o controle sobre o setor petroleiro, trata-se de medida intempestiva, que gera insegurança jurídica e erode ainda mais a já desgastada credibilidade daquele país aos olhos do mercado internacional.
A atividade petrolífera na Argentina vem enfrentando dificuldades há uma década. Desde 2002, por exemplo, o preço máximo recebido para cada barril exportado pelas empresas do setor está fixado pelo governo em US$ 42. A parcela restante da receita gerada pela venda -bastante substancial, pois as cotações internacionais do petróleo têm se mantido em níveis muito mais altos- vai para os cofres do governo.
Essa e outras regras restritivas têm prejudicado a rentabilidade do setor. Como seria de esperar, isso tem se traduzido em baixo investimento, o que por sua vez tem levado a uma escassez de combustíveis: em 2011 a produção de petróleo foi 32% menor do que em 1998. Já as importações de combustíveis vêm aumentando muito: de 2004 para 2011, saltaram de menos de US$ 1 bilhão para US$ 9,4 bilhões.
Como as exportações perderam ímpeto, o comércio exterior de combustíveis da Argentina, lucrativo há décadas, tornou-se deficitário em 2011.
O governo Kirchner culpa as petroleiras pelo baixo investimento e pela escassez de combustíveis. A Petrobras também é afetada pelo conflito. A Província de Neuquén cassou a concessão da empresa brasileira para explorar petróleo numa área -embora a suspensão ainda dependa do Legislativo.
A confrontação com as empresas do setor vem se aguçando, também, em função da recente descoberta de que a Patagônia abriga reservas gigantescas de um tipo de petróleo associado ao xisto: o equivalente a 23 bilhões de barris, quase metade do pré-sal brasileiro.
Trata-se de um tipo de óleo de extração mais cara e complexa do ponto vista tecnológico. Exigirá, portanto, investimentos de monta para realizar-se. Resta saber que investidores, num ambiente de populismo e atrito com empresários, estarão dispostos a correr esse risco.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Crise política na China

Editoriais
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Um raro indício das divergências internas no Partido Comunista Chinês veio à tona sob a aparência de um mirabolante filme de ação e espionagem oriental.
Até o início do ano, Bo Xilai, dirigente do PCC na área de Chong-qing, era um dos políticos mais populares da China. À frente de uma região industrial com 30 milhões de habitantes, Bo era cotado como nome certo para o Comitê Permanente, órgão máximo do país.
O dirigente ganhara visibilidade por seu perfil populista calcado na retomada de slogans e tradições comunistas, além de ampliar a rede de assistência social de sua região e combater a corrupção. Sua perseguição às máfias criminosas atingira também empresários locais.
Em fevereiro, Wang Lijun, chefe de polícia de Chongqing, até então homem de confiança de Bo, fugiu para um consulado dos EUA em busca de asilo. Carregava o que dizia serem provas de comportamento criminoso da família de Bo.
A mulher do líder populista foi acusada pelo assassinato de um empresário inglês. Bo perdeu o cargo de direção do partido em Chong-qing. Sua carreira política acabou.
Ainda que o expurgo possa ter sido precipitado por tais episódios, o afastamento já era de interesse dos dirigentes do partido.
Bo vinha-se valendo de estratégia heterodoxa para ganhar projeção. Além do jogo de influências e favores internos ao partido, buscou conquistar apoio popular direto. O fato de recorrer a símbolos e canções do período maoista como tática de aproximação com os mais pobres e de apoio nas alas mais ortodoxas do PCC levou o premiê Wen Jiabao a caracterizá-lo como político retrógrado, adversário da abertura à economia de mercado.
A sensibilidade oportunista de Bo para os novos conflitos sociais e as vantagens de se amparar na velha guarda fizeram dele uma ameaça e um obstáculo conservador para a política de Wen.
O PCC teme a mobilização popular direta, que pode fugir a seu controle. Foi o que ocorreu no período maoista e nas manifestações estudantis de 1989, que levaram ao massacre de Tiananmen.
Mas o expurgo de Bo não resolve os desafios reais com os quais o PCC precisa se defrontar. A diminuição do ritmo de expansão econômica, a crescente desigualdade e a constituição de uma opinião pública urbana de classe média projetam um futuro político bem mais instável e conflituoso para o país.

domingo, 15 de abril de 2012

Caetano Veloso e os elegantes uspianos

"Por que Schwarz ou Chaui nunca têm nada a dizer sobre o que se passa na Coreia do Norte?"



PAULO WERNECK
ILUSTRAÇÃO RAFAEL CAMPOS ROCHA



RESUMO Caetano Veloso comenta o ensaio recém-publicado "Verdade Tropical: Um Percurso do Nosso Tempo", em que Roberto Schwarz faz uma crítica ao livro de memórias do compositor, mas também destaca sua qualidade literária. Caetano fala de silêncios da esquerda, do estigma de conservador e reponde ao ensaísta.

"Gosto de atrito. É a base do sexo", diz Caetano Veloso à Folha. "Mas não rejeito o antagonismo."
Quinze anos depois de publicar suas memórias da Tropicália em "Verdade Tropical", um antigo antagonista bate à porta de Caetano: o crítico marxista Roberto Schwarz, no ensaio "Verdade Tropical: Um Percurso do Nosso Tempo". O texto, inédito, foi incluído no recém-lançado "Lucrécia versus Martinha" (veja crítica na pág. 6), que a Companhia das Letras lhe enviou em primeira mão.
O ensaio "reconta" criticamente a narrativa, transformando-a na história da conversão de um "menino portador de inquietação" de província a um "novo Caetano", que "festejou a derrocada da esquerda como um momento de libertação". Ao mesmo tempo, põe nas alturas a prosa do baiano.
Schwarz critica seu "traço de personalidade muito à vontade no atrito mas avesso ao antagonismo", as "ambivalências" do tropicalismo, o "patriotismo fantasioso" e "supersticioso" do compositor, sua "defesa do mercado", seu "confusionismo", sua "cumplicidade" com os agentes que o prenderam -e por aí vai.
Em suma, o ensaísta afirma que "Verdade Tropical" "compartilha os pontos de vista e o discurso dos vencedores da ditadura". Em outro momento, recrimina o "regressivo" "amor aos homens da ditadura" que Caetano e Gil expressaram.
"Esse parágrafo de Schwarz é cruel e tolo", rebate Caetano. "A prisão me pôs mais profundamente em inimizade com o projeto dos militares de direita que tomaram o Brasil". Ele reafirma sua "teimosia em permanecer no campo da esquerda", mas também diz ter deixado de temer, em 1967, "palavras como 'conservador' ou 'de direita', como se fossem xingamentos que ostracizam", diz. Direita e esquerda, nos anos da ditadura e hoje, são o foco desta entrevista, concedida por e-mail.
Ele aponta o silêncio de Schwarz e de outros expoentes do pensamento de esquerda, como a filósofa Marilena Chaui, a respeito do totalitarismo em regimes comunistas como a China e a Coreia do Norte: sobre isso, diz ele, "nossos elegantes uspianos nada dizem".
"Verdade Tropical" volta à pauta não somente pelas mãos de Schwarz, mas também pela edição em separado de um de seus capítulos, "Antropofagia", na coleção Grandes Ideias [Penguin Companhia, 72 págs., R$ 10,90].
Em agosto, o compositor completa 70 anos. A gravadora Universal abre as comemorações neste mês, com o relançamento, em CD e LP, de seu cultuado "Transa". Quarentão, o álbum foi remasterizado pelo produtor original, Steve Rooke. Em maio, sai por aqui "Live at Carnegie Hall With David Byrne", já lançado nos EUA. E, em agosto, um tributo com artistas brasileiros e estrangeiros.
Depois de produzir "Recanto", disco de Gal Costa com canções suas, Caetano volta-se para a composição de um novo CD a ser gravado com a banda Cê, que o acompanhou em "Cê" (2006) e "Zii & Zie" (2009).
Folha - Roberto Schwarz faz um misto de valorização literária e severa crítica ideológica de "Verdade Tropical", 15 anos depois da publicação. O que retém em sua leitura?
Caetano Veloso - É envaidecedor que Schwarz tenha escrito tanto (e com tanta energia) sobre meu velho livro. Claro que não coincido com o grosso da crítica ideológica. No entanto, retenho a observação de que o argumento desenvolvido a partir da cena central de "Terra em Transe" seja, no livro, um tanto mal concebido.
Por que Schwarz só publica o ensaio 15 anos depois do seu livro?
Não sei. Talvez ele o tenha lido com grande atraso (não 15 anos de atraso, é claro) e demorado muito para decidir-se a discuti-lo publicamente. Talvez ele tenha tardado também em metabolizar o que leu.
Por que o livro renasce agora, com a edição de bolso de um de seus capítulos e a crítica de Schwarz?
Não sei.
Como foi a recepção do livro nos países em que foi publicado?
Foi publicado, em boas traduções, na Itália e na Espanha (e países de língua espanhola). A tradução francesa é horrível. A grega eu não sei ler. De qualquer modo, todas as traduções partem da edição americana (os direitos fora do Brasil e de Portugal são da Knopf), que deformou muito a estrutura do original. Todos os elogios literários que o livro mereceu de Roberto não seriam justificados para quem só lesse as traduções.
Me lembro de que a "New York Times Book Review" deu resenha favorável. Ouço comentários positivos de amigos argentinos, espanhóis e italianos. Também de alguns gregos. Na França parece que, além da tradicional mania francesa de traduzir como quem corrige o original, deram o longo texto a pessoas totalmente desqualificadas intelectualmente: já que se trata de um livro de cantor pop, por que pedir a alguém que saiba ler e escrever para traduzir?
Schwarz vê a relação dos tropicalistas com a esquerda como uma "comédia de desencontros", na qual haveria mais afinidades do que divergências. Seu livro descreve longamente as divergências, e Schwarz agora as reitera. Ainda é possível falar em afinidades?
Claro que há e sempre houve afinidades. Gil e eu, além de Tom Zé e Rogério Duprat, sempre fomos "de esquerda". Nossos amigos foram sempre majoritariamente de esquerda. Na altura do tropicalismo deu-se uma virada em mim, e também em Gil, pelo menos, que exigia repensar tudo por conta própria, desfazendo adesões automáticas. O maior inimigo era esse automatismo.
A cena de "Terra em Transe" é positiva porque expõe a quebra do automatismo ideológico a que artistas e intelectuais se viam presos. Quando o protagonista fala, o tom blasfemo revela tratar-se de um momento liberador. Claro que, uma vez olhando as coisas mais livremente, os males da esquerda apareceriam.
O ensaio atribui a você uma "generalização para a esquerda do nacionalismo superficial dos estudantes que o vaiavam" e a visão da "esquerda como obstáculo à inteligência". Desde então, que renovação você vê na esquerda do ponto de vista cultural?
Toda cartilha ideológica, pode ser -e frequentemente é- obstáculo à inteligência. Eu tinha amigos na extrema esquerda que gostavam do que eu fazia e nada opunham ao tropicalismo.
Já contei em minha coluna no "Globo" como quase dei apoio logístico ao grupo de Marighella, através de minha amiga Lurdinha, uma guerrilheira que foi torturada e a quem [o delegado Sérgio Paranhos] Fleury se refere, numa entrevista, como a pessoa mais corajosa que ele conheceu.
Aliás, Hélio Oiticica, Glauber e Zé Celso eram de esquerda, além de Rubens Gerchman, Zé Agrippino e Rogério Duarte. O "desbunde" foi sobretudo um evento interno ao mundo das esquerdas. Hoje em dia, quando Delfim é defensor de Lula e Dilma e se opõe a FH, gosto da revista "Fevereiro", de Ruy Fausto, e detesto blogs como o de Paulo Henrique Amorim.
Sempre me pergunto por que Roberto Schwarz ou Marilena Chaui nunca têm nada a dizer sobre o que se passa na Coreia do Norte (não vale dizer que a "grande imprensa já diz"). Por que Lula e Tarso Genro mandaram de volta, num avião venezuelano, os atletas cubanos que tinham pedido asilo político ao Brasil? Isso é admissível? Ninguém na esquerda reclama de nada disso?
Os esforços intelectuais de [Theodor] Adorno para igualar a vida americana ao Terceiro Reich e à União Soviética só servem para provar repetidas vezes que as liberdades nas democracias liberais são suspeitas: a ostensiva falta de liberdade em países comunistas nunca é combatida, nem eloquentemente, nem cedo.
Quando eu era moço, intelectuais de esquerda dizerem-se anti-stalinistas representava um piso mínimo de elegância: quase nunca passava de uma declaração para se poder continuar sendo comunista. Não havia (como Tony Judt mostrou que não havia na França) um esforço crítico, por parte de intelectuais de esquerda, de se opor aos estados policiais.
É interessante notar que Zizek elogia o imperialismo chinês no Tibete e desculpa as paradas fascistas da Coreia do Norte. Nossos elegantes uspianos nada dizem.
Qual foi a novidade em termos de crítica ao tropicalismo no Brasil e no exterior?
Não leio quase nada sobre tropicalismo. Às vezes esse movimento é citado em publicações sobre música popular, às vezes em artigos acadêmicos (de estudos sobre América Latina ou língua portuguesa). Nada me impressiona muito.
Augusto de Campos e Ferreira Gullar polemizaram em torno de acontecimentos dos anos 1950 e 60, o país discute a Comissão da Verdade, torturadores têm sofrido "esculachos" na porta de casa. A conta dos anos 1960 e 70 não fecha?
Que conta fecha? Mas vamos andando. O ser humano é um desequilibrador. Pessoalmente, sou pela Comissão da Verdade. Há um trecho crucial em "Verdade Tropical", que Schwarz sintomaticamente ignora, em que conto o quanto aprendi sobre a verdade da sociedade brasileira ao ouvir, na cadeia, urros de dor de torturados, os quais não eram nossos companheiros de prisão política. Havia quem dissesse que se tratava de presos políticos vindos de outros quartéis. Mas chegou-se à conclusão de que eram presos comuns, ladrões da Zona Norte, bandidos.
Pois bem, antes da ditadura, durante e depois, esses maus tratos vêm se dando nas delegacias e prisões civis e militares. Se não denunciarmos (e mesmo punirmos) os torturadores que trabalhavam para o Estado, não teremos a saúde social mínima necessária para começar a acabar com isso.
Há um paralelo entre o público dos festivais e os comentaristas de internet e blogueiros de hoje?
Deve haver. Mas não interessa.
O que pensa da Comissão da Verdade e da Lei da Anistia?
Senti que o modelo espanhol da Anistia serviria para o Brasil. Hoje sou totalmente pela Comissão da Verdade e não acho que torturadores devam ser perdoados. Os guerrilheiros foram punidos (inclusive com tortura e morte). É enganoso equiparar os dois tipos de crime.
Você é retratado como um memorialista "comprometido com a vitória da nova situação, para a qual o capitalismo é inquestionável". Como responde à acusação de "conservadorismo" político?
Deixei de temer palavras como "conservador" ou "de direita", como se fossem xingamentos que ostracizam, em 1967. Minha teimosia em permanecer no campo da esquerda vem de minha crença na possibilidade de mudar para melhor o jeito de a gente viver sobre a Terra. Não descarto sequer a eventualidade de alguma violência. Mas estou certo de que o que se chama de esquerda também atrapalha muito.
O mito do Brasil e de sua oportunidade de originalidade me põe numa situação em que posso sonhar mais alto, pondo os horrores das revoluções e seus desdobramentos sob crítica. Por essa razão me atraem mais as sugestões de Mangabeira Unger do que as repetições da esquerda uspiana.
Ele abre espaço para a originalidade do Brasil. Para mim isso é fatal: somos originais, seremos originais ou desapareceremos. O capitalismo não é inquestionável: que a gasolina americana tivesse sido enriquecida com chumbo porque isso a fazia mais rentável, e que o empresário que usou essa vantagem tenha mantido em segredo a descoberta de que o chumbo era prejudicial à saúde pública para não ver cair o lucro; e que, depois de essa descoberta ter-se tornado pública, a gasolina americana tenha reduzido gradativamente até zero seu teor de chumbo, mas a brasileira não, por razões de lucro (com todas as implicações de acumulação de capital e de reafirmação de poderes imperialistas), é algo que expõe a que graus de irracionalidade e de desumanidade pode chegar uma organização social que se submeta à exclusiva força da grana. Sou contra.
Mas não quero que os que lutam contra isso possam ganhar poderes autocráticos. Uma revolução feita a partir da originalidade benigna de um Brasil de sonho deveria não precisar ser sangrenta e poderia, de qualquer modo, orientar os serviços que alguém queira prestar à Justiça de um jeito diferente daquele que tem sido desenvolvido pelos movimentos revolucionários da esquerda convencional. Estes têm levado à autocracia e a Estados policiais. Sou contra.
Além disso, quando se diz "capitalismo" o que é mesmo que se está querendo dizer? O capítulo sobre o conceito no livro de Mangabeira é instigante. E Lacan disse uma vez que "o inconsciente é capitalista".
Schwarz critica o "amor aos homens da ditadura" expresso por Gilberto Gil ao tomar ayahuasca e comenta os seus elogios à letra de "Aquele Abraço": "A lição aplicada pelos militares havia surtido efeito". Como vê essa avaliação severa?
Esse parágrafo de Schwarz é cruel e tolo. A prisão me pôs mais profundamente em inimizade com o projeto dos militares de direita que tomaram o Brasil. A descrição dos solavancos por que passamos não poderia ser desinfetada para agradar aos revolucionários de gabinete. Sou muito franco e apaixonado pela clareza e pela luz.
Gosto mais do esclarecimento do que da Dialética do Esclarecimento, que tanto obscurece. (Aliás, desconfio dessa escolha da palavra "esclarecimento" em lugar de "Iluminismo".)
A lição aplicada pelos militares surtiu efeito em mim: me fez mais realista, mais conhecedor dos pesos concretos da vida. Foi sob a ditadura, sobretudo na prisão, que aprendi a odiar o odiável em nossa sociedade.
Para o ensaísta, há uma discrepância entre as visões de "Verdade Tropical" sobre o Brasil pré-64: ora é descrito como um "ascenso socializante", com sua experiência em Santo Amaro e em Salvador, ora como "um período incubador de intolerância e ameaça à liberdade". Você enxerga essa discrepância?
Eu poderia ter sido um garoto de esquerda, sem desconfianças a respeito sequer do stalinismo. Mas não fui. Me atraiu o livro de Luís Carlos Maciel sobre Beckett, Kafka e Ionesco: a esquerda que eu conhecia era lukacsiana e ninguém falava em Adorno em 1963 em Salvador (embora se falasse muito em Gramsci, o que era pioneiro).
Poderia ter sido um garoto assim e, depois, descoberto que nos países comunistas (não só na URSS e seus satélites, mas na China de Mao, em Cuba, na Coreia do Norte) o Estado desrespeitava oficialmente os mais básicos direitos humanos -e ter me revoltado contra o projeto comunista.
Mas eu era um garoto desconfiado da "ditadura do proletariado", além de ser um sujeito pacato da baixa classe média que sentia natural horror pelo aspecto violento das revoluções.
Descobrir que a experiência do "socialismo real" era de fazer temer os esboços de implantação do comunismo entre nós não foi uma surpresa assustadora. Foi um gradual reconhecimento da complexidade das coisas. Isso aparece em meu livro com todas as idas e vindas por que minha mente passou. Com as nuances e sem evitar as questões que não ficaram resolvidas dentro de mim.
Não é um livro de propaganda ideológica. É um relato em que as reflexões relembradas -ou as sugeridas pela lembrança- acompanham cada passo.
Você se reconhece na descrição que o crítico faz de seu "traço de personalidade muito à vontade no atrito mas avesso ao antagonismo"?
Gosto de atrito. É a base do sexo. Mas não rejeito o antagonismo.
Sou nitidamente contra o Brasil ter devolvido os atletas cubanos. Sou nitidamente contra o manifesto dos militares reformados. Sou nitidamente contra Lula ter apoiado a eleição de Ahmadinejad antes de o próprio Irã decidir se as eleições tinham sido fraudadas ou não.

Escândalo leva PC chinês a expor fraturas

Após expurgar sem alarde o líder em ascensão Bo Xilai, governo rompe silêncio e o acusa de "sérias" violações



Rachadura na cúpula do regime torna-se pública no momento em que a China prepara uma transição no poder



Andy Wong - 11.março.2012/Associated Press
Bo Xilai no Congresso do Povo, em março, antes de cair em desgraça, na maior reviravolta política da China desde 1989
Bo Xilai no Congresso do Povo, em março, antes de cair em desgraça, na maior reviravolta política da China desde 1989


FABIANO MAISONNAVE
DE PEQUIM


Às vésperas de trocar sua cúpula pela primeira vez em uma década, o escândalo envolvendo o líder político Bo Xilai fez o Partido Comunista abandonar seu esforço de várias décadas no sentido de manter a aparência de unidade e promover uma transição previsível e sem surpresas.
Na última terça-feira, o governo chinês rompeu o silêncio: acusou Bo Xilai de "sérias" violações -sem especificar quais- e confirmou que a sua mulher é suspeita de envolvimento na morte de um empresário britânico.
Trata-se da maior reviravolta política na China desde o movimento pró-abertura política em 1989, que levou ao massacre de estudantes na praça da Paz Celestial e ao expurgo de membros do PC.
Desde aquele ano até a queda de Bo Xilai, o partido já havia afastado outros quatro membros do Politburo, colegiado de 25 pessoas que só perde em importância para o Comitê Permanente, com nove integrantes. Mas Bo é, de longe, o caso mais espetacular, pelas suas credenciais e ambições.
A começar pela origem familiar: seu pai, Bo Yibo, foi herói da revolução comunista de 1949 e um dos "oito imortais", grupo que controlou a política nos anos 80.
Até há pouco estrela em ascensão, Bo Xilai procurava ganhar projeção entre os chineses num momento em que a cúpula do partido, sem a presença dos líderes históricos Mao Tsé-tung e Deng Xiaoping, professa discrição e decisões colegiadas.
À vontade diante das câmeras, Bo Xilai passou a vender a imagem de um líder que procurava resgatar os valores tradicionais do partido por meio do uso da simbologia maoista e pela suposta intolerância à corrupção.
A sua ação mais conhecida foi uma enorme campanha contra a máfia de Chongqing, região que passou a governar em 2007. Foram cerca de 1.500 prisões, muitas consideradas arbitrárias.
A ofensiva rendeu uma imagem positiva na opinião pública, irritada com os sucessivos casos de corrupção envolvendo dirigentes.
Mas também deu a Bo Xilai seu maior inimigo dentro do partido: Wang Yang, outro membro do Politburo e chefe do partido na província de Guangdong, a mais próspera região da China e vizinha a Hong Kong.
Wang, antecessor de Bo Xilai em Chongqing, viu várias pessoas próximas a ele serem presas e passou a ser visto como tolerante com a máfia.
Agora, Wang viu aumentarem suas chances de entrar no Comitê Permanente, que renovará sete cadeiras e deve ser encabeçado pelo atual vice-presidente Xi Jinping, em substituição a Hu Jintao.
Nos últimos anos, a disputa acabou gerando a criação dos termos "modelo de Guangdong", com uma imagem de mais liberdade econômica e tolerância política, e o "modelo de Chongqing", considerado mais estatista.
De fato, Chongqing, sob Bo Xilai, aumentou os investimentos por meio de suas empresas estatais. Um dos maiores exemplos é a empresa Chongqing Grain, que está investindo US$ 1,2 bilhão para processar soja na Bahia.
Mas Bo Xilai não é refratário a empresas privadas. Em junho, durante um fórum na cidade a que a reportagem da Folha assistiu, ele ressaltou que, das 500 maiores empresas do mundo na lista da revista "Forbes", 54 têm investimentos no município.
Tampouco sua vida pessoal segue o ascetismo de Mao.Seu filho, Bo Gagua, passou metade da vida em escolas caras britânicas e dos EUA.

Morre aos 78 o cineasta Paulo Cezar Saraceni

Cofundador do cinema novo, dirigiu "Porto das Caixas" e "Casa Assassinada"

Corpo será cremado amanhã, no Rio; último trabalho foi o inédito "O Gerente", baseado em conto de Drummond

Pedro Carrilho - 18.jan.11/Folhapress
O cineasta Paulo Cezar Saraceni na casa em que vivia, no Jardim Botânico, zona sul do Rio
O cineasta Paulo Cezar Saraceni na casa em que vivia, no Jardim Botânico, zona sul do Rio


DO RIO


Morreu ontem no Rio, por falência múltipla dos órgãos, o cineasta Paulo Cezar Saraceni, 78. Um dos fundadores do cinema novo, ao lado de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, dizia ter cunhado o lema do movimento: "Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça".
Em outubro do ano passado, Saraceni havia sofrido um AVC (acidente vascular cerebral). Desde então, estava internado no Hospital Federal da Lagoa, na zona sul do Rio.
"Ele foi o último romântico do cinema brasileiro. Não tinha plano de saúde, não tinha nada", disse à Folha Haroldo Marinho, 68, cineasta e grande amigo de Saraceni.
O diretor assinou filmes como "O Desafio" (1965) e "Ao Sul do Meu Corpo" (1982). "Porto das Caixas" (1962), "A Casa Assassinada" (1971) e "O Viajante" (1998), todos com argumento ou inspirados na obra de Lúcio Cardoso (1912-68), compõem o que o realizador denominou "trilogia da paixão".
Saraceni trabalhou como crítico de cinema e assistente de direção teatral antes de completar o primeiro longa, o documentário "Arraial do Cabo" (1959).
Seu último trabalho foi "O Gerente" (2011), baseado em conto de Carlos Drummond de Andrade. O longa, ancorado no primeiro roteiro que Saraceni escreveu, em 1952, abriu o Festival de Tiradentes (MG) em janeiro de 2011 e ainda não teve lançamento comercial. Pelo menos duas gravações originais de João Gilberto estão na trilha sonora.
O cineasta se recuperava de um primeiro AVC quando começou a rodar "O Gerente". "Ele já estava com a saúde bem baqueada, mas todos os amigos se reuniram para viabilizar o filme", relembra Marinho.
O diretor Zelito Vianna, amigo de longa data, ficou responsável pela produção. Atores que já haviam trabalhado com Saraceni, como Ney Latorraca e Othon Bastos, participaram em troca de cachês simbólicos.
PROJETO
Durante o período de internação no Hospital da Lagoa, o cineasta alternava momentos de inconsciência com outros em que conseguia conversar com os amigos. Nesses últimos, falava sobre o projeto que ambicionava concretizar quando saísse dali: o filme "Chaplin Club", sobre o primeiro cineclube brasileiro, que funcionou no Rio entre 1928 e 1931.
O corpo de Saraceni será velado hoje, a partir das 14h, no Parque Lage. A cremação está prevista para amanhã, às 14h, no Memorial do Carmo, no Caju.
O cineasta deixa mulher, a atriz Ana Maria Nascimento e Silva, e um filho.

sábado, 14 de abril de 2012

Em livro, Videla admite mortes durante ditadura na Argentina

Confissões estão na obra "Disposición Final", de Ceferino Reato



DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS


O ex-ditador Jorge Videla admitiu pela primeira vez que foram mortas "7.000 ou 8.000" pessoas durante o último regime militar da Argentina (1976-1983). O ex-mandatário afirmou que era o "preço a ser pago para ganhar a guerra contra a subversão".
Videla, 86, fez a confissão no livro "Disposición Final" (disposição final, em português), do jornalista argentino Ceferino Reato, que disse ter ficado "chocado" pela maneira como o ex-ditador relatou os horrores cometidos durante a "guerra suja".
"Me surpreendeu como Videla me dizia as coisas. Sempre o vi muito articulado, muito preciso em suas lembranças, usando uma linguagem descarnada e sem metáforas. Parecia um analista de fatos cometidos por outra pessoa", destacou, em entrevista à agência de notícias Efe.
No livro, o ex-ditador cifrou a quantidade de mortes durante os "anos de chumbo" e assegurou que o regime militar fez os restos mortais das vítimas sumirem "para não provocar protestos".
MÉTODO
As confissões foram o resultado de nove longas entrevistas feitas entre outubro de 2011 e março de 2012 com Videla na penitenciária federal de Campo de Maio, nos arredores de Buenos Aires.
No livro, Jorge Videla faz uma descrição pormenorizada dos métodos usados pela ditadura para sequestrar e assassinar opositores, justifica o uso da tortura e destaca a influência da chamada "doutrina francesa" na luta contra as guerrilhas.
O ex-ditador explica que o país foi dividido em "cinco regiões" antes do golpe de Estado de 24 de março de 1976 e que o chefe de cada um desses territórios tinha ordenado meses antes a confecção de listas de pessoas que deveriam ser detidas após a derrocada da então presidente constitucional, Isabel Perón.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Muito antes

Ruy Castro

RIO DE JANEIRO - No fim de seu reinado, que coincidiu com o fim do século 19, a rainha Vitória, da Inglaterra, foi apresentada ao projeto do submarino, um navio que viajava debaixo d'água e, de lá, disparava contra o inimigo. Vitória ficou chocada: "Quer dizer que o inimigo não verá nossa bandeira?". Era um golpe baixo e ela não quis saber. Mas isso, claro, foi muito antes dos aviões-robôs.
No Campeonato Carioca de 1913, Belfort Duarte, jogador do América, pôs a mão na bola dentro da própria área e impediu um gol do adversário. O juiz não percebeu. Belfort se acusou e exigiu que ele marcasse o pênalti contra sua equipe. E ele marcou, para desespero dos meninos Vicente Celestino, Lamartine Babo e Mario Reis, que já eram torcedores do América. Mas isso, claro, foi antes de Maradona, Messi e outros que acham normal fazer gols com a mão.
Até 1950, as rádios americanas não admitiam tocar a mesma gravação mais de uma vez a cada 24 horas. "Imagine o ouvinte perceber que já ouviu aquele disco há poucas horas!", eles alegavam. Mas isso, claro, foi antes do Top 40, da "payola" (jabá) e do roquenrol.
Nos anos 70, os clubes brasileiros não admitiam corromper seus uniformes com marcas comerciais. O que os torcedores diriam ao ver seus craques reduzidos a homens-sanduíche anunciando pneu, refrigerante ou óleo de carro? Mas isso, claro, foi antes de começarem a oferecer até o fundilho dos calções para imprimir marca de gilete ou de camisinha.
Em outros tempos, políticos e contraventores se mantinham a certa distância, sabendo que aquela intimidade era perigosa. Mas isso, claro, foi antes de o senador Demóstenes Torres (GO) e o empresário de caça-níqueis Carlinhos Cachoeira frequentarem as mesmas contas bancárias -e de, antes deles, muitos outros já terem feito o mesmo sem ser apanhados.

domingo, 8 de abril de 2012

2003 - 'O que você vê é o que é' - Lula e George W. Bush

DO RIO
DE SÃO PAULO
Em abril de 2005, dois meses antes de renunciar devido à denúncia do mensalão, o chefe da Casa Civil, José Dirceu, diz ao embaixador John Danilovich que a relação bilateral está no melhor nível "desde a 2ª Guerra".
Interlocutor dos EUA desde a eleição, Dirceu se preocupa com o "estado de paralisia" da Alca, já que o Brasil precisa "aumentar cem vezes" o comércio com os EUA.
A conversa, relatada num telegrama obtido pelo "WikiLeaks", intriga o embaixador, mas ainda tira proveito da "boa química" entre Luiz Inácio Lula da Silva (2003-11) e George W. Bush (2001-09), consagrada na cúpula de 2003.
"What you see is what you get" (o que você vê é o que é), disse Bush a assessores sobre o brasileiro, segundo relata o embaixador aposentado Rubens Barbosa no livro "O Dissenso de Washington".
Antes da posse de Lula, o diplomata Richard Haass viera ao Brasil dizer que pretendia "institucionalizar" a relação. Em 2003, são criados grupos permanentes de nível ministerial em várias áreas.
O Itamaraty achava que Bush, apesar do conservadorismo, era um "político intuitivo", um "nice guy".
As divergências crescem, porém. No fim de 2005, a Embaixada dos EUA diz que o governo Lula "reluta em cooperar" com o americano, a não ser numa "troca entre iguais". Demonstra desconforto com piadas do assessor Marco Aurélio Garcia. "Sabe por que não há golpe nos EUA? Porque não há embaixada americana lá."
Os americanos, entretanto, procuram o Brasil para entender e fazer mediação com Hugo Chávez e Evo Morales. Em 2007, o subsecretário de Estado Nicholas Burns diz que seguiu conselho de Lula de não responder às provocações de Chávez: "Queremos conversa; ele não".
Naquele ano, o memorando de cooperação em biocombustíveis dá um viés positivo à relação. Os EUA chamam o Brasil de "líder regional e parceiro global", fórmula atualizada para "potência global emergente" -resultado do fator China, do crescimento pós-2006 e do pré-sal.

1998 - 'Convite singular' - Fernando Henrique Cardoso e Bill Clinton

DO RIO
DE SÃO PAULO
"Os EUA pretendem envolver a América Latina numa cruzada, agora não contra comunistas, mas contra narcotraficantes", ataca o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima em telegramas enviados de Washington em 1996.
O Brasil chamava de "predatória" a ação da DEA (agência antidrogas) na Bolívia, e chegou a dispensar por um ano a ajuda americana no setor -"o dinheiro é pouco e as regras, leoninas".
Foi a ida a Nova York para uma reunião da ONU sobre o tema, entretanto, que levou Fernando Henrique Cardoso (1995-03) ao encontro tido como símbolo de sua boa relação com Bill Clinton (1993-2001): um jantar e uma noite no retiro presidencial de Camp David, em 1998.
Os brasileiros pediram para levar fotógrafo, e os americanos vibraram porque a imprensa destacou a "importância e a singularidade" do convite, segundo documentos da Biblioteca Clinton.
Na conversa, Clinton cumprimentou FHC pela "impressionante resposta do Brasil à turbulência financeira na Ásia" (a desvalorização do real e o socorro bilionário do FMI viriam depois).
FHC chegou ao poder disposto a restaurar a credibilidade do Brasil e a inseri-lo no "mainstream" global, definiu depois o chanceler Luiz Felipe Lampreia. O país aderiu ao Tratado de Não Proliferação Nuclear e aprovou uma nova Lei de Patentes.
Mas a sintonia com Clinton foi perturbada também pela proposta da Alca (Área de Livre Comércio das Américas). O Brasil temia ser engolido pela "assimetria" entre sua economia e a americana.
Em 2001, já sob George W. Bush, o embaixador Rubens Barbosa critica "o primarismo dos argumentos" americanos no tema: "revelam um claro erro de avaliação da firmeza da nossa postura". Para ele, a Alca morreu quando os EUA tiraram da mesa temas de interesse do Brasil, como subsídios agrícolas.

1991 - 'Diga Tlatelolco' - Fernando Collor e George H. Bush

DO RIO
DE SÃO PAULO
Fernando Collor (1990-92) é saudado em Washington por George Bush (1989-93) como um "líder moderno", um Indiana Jones da nova ordem internacional.
Collor tinha adotado medidas de abertura comercial, além de encerrar atividades secretas do programa nuclear brasileiro. Em antecipação à Eco-92, no Rio, seu governo anunciou medidas ambientais que atraíram a atenção de ONGs americanas.
Troca de dívida por projetos sustentáveis, proibição de subsídios para a agropecuária na Amazônia -as propostas divulgadas no Brasil eram tantas que a embaixada em Washington pediu para saber o que era verdade.
Bush pressionava o Brasil a submeter as instalações nucleares à Agência Internacional de Energia Atômica, e para isso foi negociada uma emenda ao Tratado de Tlatelolco, que bane armas nucleares na América Latina.
Ele telefona a Collor para "reiterar a importância de Tlatelolco". O brasileiro, segundo transcrição americana, fica em dúvida: "O quê?". Bush repete: "Tlatelolco".
Depois, na conversa na Casa Branca, Collor diz que "mais difícil do que pronunciar Tlatelolco é entendê-lo", dado que um artigo do tratado permite explosões nucleares "para fins pacíficos".
O brasileiro fala dos "tremendos sacrifícios" do país para reduzir o deficit orçamentário e voltar a pagar a dívida externa, depois da moratória da década de 80.
"Queremos explorar a possibilidade de novos investimentos. Temos que crescer de novo. O desemprego é enorme. Estamos sofrendo uma recessão", apela.

1978 - 'Ele se convidou' - Ernesto Geisel e Jimmy Carter

DO RIO
DE SÃO PAULO
O convite a Jimmy Carter (1977-81) não foi iniciativa do Brasil, mas do governo americano, desdenhou o chanceler de Ernesto Geisel (1974-79), Antônio Azeredo da Silveira, à véspera da visita do presidente.
A relação ia de mal a pior. Carter acusava seus antecessores de terem apoiado "qualquer ditador" pelo "medo excessivo" do comunismo. Disse que os direitos humanos não eram só assunto interno dos países, e sobretudo fazia pressão contra o acordo nuclear Brasil-Alemanha.
Silveira assinara em 1976 com Henry Kissinger, então secretário de Estado, um memorando de consultas mútuas sobre temas globais que foi por água abaixo com Carter. Geisel denunciara o acordo militar com os EUA.
Em 1977, o secretário de Estado Cyrus Vance tinha esquecido no gabinete de Geisel um documento que revelava a estratégia de usar a suposta concordância da Argentina em não reprocessar plutônio para pressionar o Brasil na área nuclear.
Antes da visita, os EUA propuseram ao Brasil uma parceria para explorar a energia térmica dos oceanos. Memorandos do Itamaraty apontaram custo alto e risco de acidente ambiental: "Talvez por isso não instalaram o projeto na Califórnia".
O assessor de Segurança Nacional de Carter, Zbigniew Brzezinski, disse que o presidente teria um "dia de contemplação" no Rio de Janeiro -onde ele se encontrou com o cardeal Paulo Evaristo Arns e outros opositores da ditadura.
Carter recebeu também o empresário imobiliário Sergio Dourado, passo que Brzezinski criticou. "A reputação dele o tornou um símbolo de desconsideração com os seres humanos."
Em carta depois a Geisel, Carter diz querer "deixar para trás um tempo difícil". Teve pouco tempo. Eleito em 1980, Ronald Reagan distinguiu regimes "autoritários" dos "totalitários" e buscou se aproximar de João Baptista Figueiredo (1979-85).
O Brasil precisava dos EUA devido à crise da dívida, mas houve divergências sobre a Guerra das Malvinas e intervenções na América Central.

1971 - 'Um cara e tanto' - Emilio Garrastazu Médici e Richard Nixon

DO RIO
DE SÃO PAULO
William Rogers, secretário de Estado dos EUA: "Eu acho que esse Médici é uma boa ideia".
Richard Nixon, presidente dos EUA: "Ele é um cara e tanto, não é?".
Rogers: "Estou feliz que ele esteja no nosso lado".
Nixon: "Forte e, uh, você sabe [risos]. Queria que ele estivesse governando todo o continente".
Registrada pela Casa Branca, a conversa ocorreu durante a visita oficial de Médici (1969-74) a Nixon (1969-74), em dezembro de 1971, período mais repressivo da ditadura.
Henry Kissinger, assessor de Segurança Nacional de Nixon, defendia uma "parceria especial" com o Brasil, que vivia o "milagre econômico" e reivindicava tratamento diferenciado em relação aos demais latino-americanos.
A "subversão" na América Latina foi destaque entre os tópicos definidos para a conversa dos presidentes, segundo telegrama do chanceler brasileiro, Mário Gibson Barbosa, que pediu segredo à embaixada em Washington.
Nixon perguntou a Médici se acreditava que os militares do Chile eram capazes de derrubar o presidente socialista Salvador Allende. O general "deixou claro que o Brasil estava trabalhando para esse objetivo", segundo Kissinger.
O Itamaraty temia protestos contra Médici. Gibson avisou os americanos que a viagem deveria ser "cercada da maior simpatia e livre de qualquer incidente".
Na conversa, Médici chamou as disputas bilaterais de "briga de amantes". Na época, os EUA impunham restrições a produtos brasileiros, como café solúvel, e reclamavam da ampliação para 200 milhas do mar territorial.
A repressão no Brasil era alvo da Subcomissão de Assuntos Hemisféricos do Senado, presidida pelo senador Frank Church, cuja presença em cerimônias da visita foi vetada por Gibson.
Nixon perguntou a Médici se ele era popular. O brasileiro disse acreditar "que o povo realmente apoia o que ele estava tentando fazer -continuar o trabalho da revolução de 1964".
No brinde público, Nixon, que renunciaria em 1974, voltou a cortejar o visitante: "Sabemos que, para onde o Brasil for, o resto da América Latina também irá".

1960 - 'Infatigáveis comunistas' - Juscelino Kubitschek e Dwight Eisenhower

DO RIO
DE SÃO PAULO
De carona no avião Columbine III, entre São Paulo e Rio, Juscelino Kubitschek (1956-61) ofereceu mediação entre EUA e Cuba. "Qualquer coisa que nações latino-americanas pudessem fazer para trazer Castro a um estado de espírito mais ameno seria de ajuda", responde Dwight Eisenhower (1953-61).
A irmã de Fidel se refugiara na embaixada brasileira durante o regime de Fulgêncio Batista. O Brasil "estava em situação boa para falar com Castro", disse JK, segundo resumo americano da conversa. Ele "concordava que [Fidel] era um problema para todas as Américas".
As relações bilaterais estavam "frias", admitem os americanos. JK rompera com o FMI em 1959 (Eisenhower o convenceu a reatar) e os EUA receberam mal sua Operação Panamericana (OPA), que tentava comprometê-los com a industrialização dos vizinhos ao sul do Rio Grande.
Para Washington, a viagem é um "impulso psicológico necessário" à relação. Afinal, o governo brasileiro "continua na crença de que o Brasil em breve se tornará uma grande potência e tem de ser consultado pelos EUA em políticas importantes".
Em visita aos EUA em 1956, JK já tinha pedido apoio a seu Plano de Metas e fez tudo para negar que devesse sua eleição ao Partido Comunista.
Um telegrama da embaixada brasileira relata reunião com autoridades dos EUA, incluindo o diretor da CIA Frank Wisner. JK reclama que os "comunistas são infatigáveis" e oferece trocar informações sobre a "infiltração subversiva".
Em 1960, os presidentes trocam elogios. JK diz que o americano era "um dos dois maiores homens do século" (o outro sendo Winston Churchill), um "paladino da liberdade". Eisenhower, que a construção de Brasília era "inspiração para o mundo".
"Os brasileiros receberiam bem o capital estrangeiro", diz JK, que entrega ao colega um memorando com as propostas da OPA, incluindo preços mínimos para produtos primários e a criação de um órgão hemisférico de apoio técnico à indústria.
Em 1962, em Washington, João Goulart (1961-64) fez pedidos semelhantes a John Kennedy, mas os EUA já apostavam na sua derrubada.

1949 - 'Mãos vazias' - Eurico Dutra e Harry Truman

DO RIO
DE SÃO PAULO
"É inútil recusar tudo o que os brasileiros quiserem. Se o presidente Dutra voltar de mãos vazias, com nada além de reiteração oral de nossa amizade, ele será objeto de amarga crítica política."
O embaixador americano no Brasil mandou em vão o conselho a seu chefe, o secretário de Estado James Webb, em telegrama às vésperas da visita oficial do general Eurico Gaspar Dutra (1946-51) aos EUA, a primeira de um presidente brasileiro.
O general retribuía visita de Harry Truman (1947-53), que viera ao Rio dois anos antes para a conferência de assinatura do Tiar (Tratado Interamericano de Assistência Recíproca), instrumento da recém-iniciada Guerra Fria.
Dutra tinha liberalizado a economia, favorecendo importações dos EUA. Proscrevera os comunistas e rompera relações com a URSS.
Ele buscava o aumento da cooperação econômica americana. Houve decepção depois da visita, quando saiu o relatório da Comissão Técnica Brasil-EUA, a Missão Abbink, criada em 1948 para traçar um plano de desenvolvimento para o país.
O informe não detalhava projetos nem custos. Nacionalistas anti-Dutra o viram como veículo para a presença estrangeira na exploração do petróleo e minérios.
Em memorando a Truman, Webb sugeriu que ele fosse vago com Dutra. Sobre pedido de armamentos, que assegurasse "nosso reconhecimento do Brasil como aliado [...] dentro dos limites das nossas capacidades". O assunto "empréstimos" deveria ser evitado.
A prioridade dos EUA já estava na contenção do comunismo na Europa, com o Plano Marshall, e na Ásia. "Na paz, como na guerra, nossos países sempre marcharam unidos", discursou Dutra em Washington.
Cinco meses depois, um telegrama da embaixada brasileira avisou que a liberação das parcelas do empréstimo para a usina de Volta Redonda dependia de o Brasil pagar os "atrasados comerciais" a empresas americanas.

1943 - 'Rendição incondicional' - Getúlio Vargas e Franklin Roosevelt

DO RIO
DE SÃO PAULO
No dia 27 de janeiro de 1943, um telegrama do embaixador em Washington Carlos Martins resume o objetivo de Franklin Delano Roosevelt e Winston Churchill na conferência de Casablanca: a "rendição incondicional" do Eixo nazifascista.
No dia seguinte, sem aviso público, Getúlio Vargas (1930-45) chega a Natal, onde já funcionava uma base americana, para um encontro com Roosevelt (1933-45). Oferece "cooperação completa" e acerta apoio à criação da Força Aérea Brasileira, que enviaria soldados à Europa dois anos depois.
Em 1942, Vargas havia saído da posição dúbia entre os Aliados e o Eixo, numa grande barganha com Washington. O acordo garantia fundos americanos para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional e a compra de armamentos. Em troca, os EUA tinham a base no Nordeste e o fornecimento de minerais estratégicos.
No esforço de guerra, houve atraso nos equipamentos para a usina de Volta Redonda. Em outubro de 1942, um ofício a Martins pede-lhe que pergunte aos americanos se a "prioridade perdeu significação". Três meses depois, o secretário de Estado Dean Acheson promete indicar um funcionário no War Production Board só para cuidar do assunto.
A aliança com os EUA isola os simpatizantes do fascismo no governo e apressa o fim da ditadura de Vargas. Mas ele não tinha decretado o Estado Novo quando Roosevelt veio pela primeira vez ao Brasil, em 1936.
Na Política da Boa Vizinhança, que prometia a não intervenção nos vizinhos, o americano disse que "duas pessoas", ele e Vargas, inventaram o New Deal.
Ele ficou hospedado num palacete da família Guinle no Rio, e depois mandou gorjetas para os 39 empregados. O chanceler Mário de Pimentel Brandão enviou telegrama ao chefe de polícia, Felinto Müller, pedindo censura a jornais críticos à hospedagem.

1928 - 'O melhor amigo' - Washington Luís e Herbert Hoover

DO RIO
DE SÃO PAULO
"Nenhum país é mais amigo dos EUA do que o Brasil", saudou o "New York Times", em editorial sobre a visita ao Rio do presidente eleito Herbert Hoover (1929-33).
O país vivia desde o início da República uma "aliança não escrita" com os EUA, mas se tornava cada vez mais próximo à medida que os americanos absorviam suas exportações de café e substituíam os capitais ingleses.
As más línguas europeias diziam que Hoover veio para ampliar mercados. Mas o presidente Washington Luís (1926-30) não poupou esforços na recepção e na despedida, com queima de fogos em toda a costa do Rio.
"É uma recepção estrondosa. Toda a imprensa vibra sem exceção", comemorou o Itamaraty, em circular.
Embaixadores brasileiros contrastavam a passagem de Hoover com sua visita a Uruguai e Argentina. Em Montevidéu "há uma aversão quase geral das camadas populares aos norte-americanos", disse o embaixador Cyro Valle, devido às intervenções na América Central justificadas pela Doutrina Monroe.
Uruguaios protestaram contra a caçada dos marines ao guerrilheiro nacionalista da Nicarágua Augusto César Sandino. Ao presidente argentino Hipólito Irigoyén, Hoover disse que a ação visava proteger americanos.

sábado, 7 de abril de 2012

Mais inflação, por favor

Paul Krugman

O Fed tem mandato duplo: se preocupar com a estabilidade dos preços e também os empregos
Há alguns dias, Alan Greenspan, o ex-presidente do Federal Reserve (o banco central americano), fez um discurso em defesa de seu sucessor. Ataques de republicanos a Ben Bernanke, ele disse, são "completamente inapropriados e destrutivos".
Mas por que os ataques são tão devastadores? Afinal de contas, ninguém na América deveria ser imune a críticas, muito menos aqueles -como os diretores do Fed- que têm o poder de fazer nossas vidas melhores ou piores.
Não. O real motivo dos ataques a Bernanke serem tão negativos é que eles são um esforço para induzir o Fed a tomar a decisão errada. Quem critica a política da instituição quer que ela sufoque a recuperação, ao invés de acelerá-la.
A direita quer que o Fed se mantenha obsessivo com a inflação, quando a verdade é que estaríamos melhor se, em vez disso, ele se preocupasse mais com o desemprego.
Na realidade, um pouco mais de inflação não seria uma má ideia.
O Fed tem, segundo a lei, um mandato duplo: preocupar-se com a oferta de empregos e também com a estabilidade dos preços.
E uma política mais agressiva para lutar contra o desemprego talvez levasse a inflação acima dos 2%.
Mas lembre-se das obrigações do Fed: se ele se recusar a aceitar os riscos no campo da inflação, mesmo com a desastrosa performance do emprego, seria o mesmo que violar seu próprio estatuto.
E, mais que isso, se a taxa tivesse uma alta maior, para 3% ou 4%, seria terrível? Pelo contrário, iria ajudar a economia.
A maioria do setor privado continua a ser prejudicada pelo excesso de dívida acumulada durante o período da bolha imobiliária. Esse débito é, sem dúvida, o principal fator a impedi-lo de investir e, por consequência, perpetua a crise.
Uma taxa modesta de inflação poderia, no entanto, reduzir essa ameaça -fazendo com que a dívida assuma seu real valor- e ajudar a promover a melhora de que o setor privado necessita.
Ao mesmo tempo, outras áreas do setor privado acumularam grandes quantias; uma inflação moderada faria esse montante estagnado menos atraente, agindo como um estímulo ao investimento.
Em resumo, longe de temer que medidas contra o desemprego levem a uma escalada da inflação, o Fed deveria desejar essa previsão.
Esse raciocínio me leva de volta às criticas republicanas e seu efeito negativo na política.
Realmente, Bernanke gosta de insistir que ele e seus colegas não são afetados pela política. Mas essa afirmação não é coerente com o comportamento do Fed -ou, às vezes, com a falta de medidas tomadas pela entidade.
Como muitos analistas têm notado, a própria previsão do Fed indica que, enquanto as coisas têm melhorado um pouco, ainda são esperados inflação baixa e desemprego alto nos próximos anos.
A mais recente reunião desse órgão mostrou que o Fed está inclinado a não tomar providências, a não ser esperar que as coisas se direcionem para o pior caminho.
Então, o que está acontecendo? Creio que os membros do Fed, admitam eles ou não, estão se sentindo intimidados -e são os trabalhadores americanos que estão pagando o preço por essa timidez.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Inquisição e extermínio

Kenneth Maxwell

Paul Preston, o mais conhecido historiador britânico da Espanha moderna, revela a plena extensão do que define como "holocausto espanhol" do século 20 em seu novo livro, sobre a horrenda repressão e a violência perpetradas pelo general Francisco Franco. O livro também ajuda a explicar a oposição continuada que existe na Espanha quanto ao reconhecimento dessa história sombria.
Mais de 200 mil pessoas foram mortas na Guerra Civil Espanhola, e outras tantas morreram longe das frentes de batalha. Preston mostra como as vítimas foram estigmatizadas. Ele também detalha a violência do lado republicano: os assassinatos extrajudiciais, as execuções após julgamentos sumários, a destruição causada pelas colunas anarquistas e o papel de agentes soviéticos no massacre de trotskistas.
Mas é a violência sistemática das forças de Franco que causa maior choque. Preston descreve como 12 mil crianças foram roubadas de suas mães e as experiências médicas conduzidas pelo comandante do serviço psiquiátrico franquista, que buscava uma causa patológica para as ideias esquerdistas, um "gene vermelho" que vincularia o marxismo a uma deficiência mental, como parte de um racismo eugênico para "depurar nossa raça".
Recentemente, os juízes da Suprema Corte espanhola decidiram demitir o juiz Baltazar Garzón de seu posto, em um caso envolvendo gravações de conversas entre advogados de defesa e seus clientes em um processo de corrupção. Líderes locais do partido do premiê espanhol haviam sido acusados de conceder contratos em troca de propinas. A Suprema Corte decidiu que Garzón havia excedido em seus poderes.
Garzón é o juiz que solicitou a detenção do general chileno Augusto Pinochet em Londres por supostos crimes contra os direitos humanos. Ele também havia iniciado uma investigação sobre a morte de 114 mil pessoas durante a Guerra Civil Espanhola. A Suprema Corte decidiu, quanto a este processo, sustentar os termos da lei de anistia espanhola de 1977, afirmando que ela foi crucial na transição pacífica espanhola da ditadura à democracia, em 1975.
Há a informação de que cerca de 300 mil bebês espanhóis foram roubados de suas mães e vendidos para a adoção, com a conivência da Igreja Católica, entre 1939 e 1989. As mães foram informadas de que seus bebês morreram. A lei de anistia, uma vez mais, impede a investigação de crimes ocorridos na era Franco, mas promotores estão investigando 900 desses casos em todo o país.
A justificativa de freiras e médicos que perpetraram esses crimes era a de que as mães não eram competentes para cuidar de seus filhos, e que as crianças ficariam melhores sob a guarda de pais "devotos".

Tradução de PAULO MIGLIACCI

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Protesto contra o golpe militar reúne 300 pessoas em SP

Ditadura

DE SÃO PAULO


Cerca de 300 pessoas participaram ontem de passeata no centro de São Paulo para protestar contra o golpe militar de 1964, que completou 48 anos.
A passeata, convocada pela internet e batizada de "Cordão da Mentira", saiu do cemitério da Consolação e foi encerrada nas proximidades do antigo prédio do Dops (Departamento de Ordem Política e Social).
A manifestação passou também, entre outros pontos, pela sede da TFP (Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade) e em frente à Folha, onde foi lido um editorial do jornal em apoio à Lei da Anistia, posição contrária à dos manifestantes.

Família de espanhol morto no Dops quer monumento

Parentes realizaram missa no sábado em Barcelona para homenageá-lo

Governo confirmou que Miguel Sábat Nuet foi assassinado em 1973 e entregou cinzas no final do ano passado

PATU ANTUNES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE BARCELONA


A família do espanhol Miguel Sábat Nuet, morto em 30 de outubro de 1973 no Dops, em São Paulo, quer que um monumento seja construído no Memorial da Resistência para lembrar de forma permanente os mortos e os presos durante a ditadura militar no Brasil.
O monumento sugerido pela família Sábat seria uma tocha, a exemplo da que existe no Fossar de les Moreres, que lembra, em Barcelona, os catalães mortos na Guerra da Sucessão Espanhola.
O projeto, que eles pretendem levar ao governo brasileiro em conjunto com outros familiares de desaparecidos políticos, foi divulgado no sábado em Barcelona, durante uma missa privada em homenagem a Nuet.
No final do ano passado, a família recebeu as cinzas dele em cerimônia realizada pela Secretaria de Direitos Humanos em São Paulo. Na ocasião, o governo brasileiro pediu perdão à família e classificou a morte de Nuet, inicialmente registrada como suicídio, como assassinato.
A família também foi indenizada em R$ 100 mil. Nuet não tinha nenhuma militância conhecida em organizações de esquerda.
A localização da sua família na Espanha e na Venezuela, para onde ele havia emigrado em 1950, foi realizada pela Folha em janeiro de 2008. Quatro meses depois, seu corpo, que havia sido enterrado em uma vala comum no cemitério Dom Bosco, foi exumado e um exame de DNA atestou que se tratava mesmo de Nuet.
"Estes últimos quatro anos foram de expectativa, muita dor e agora libertação", afirmou Miguel Sábat Díaz, 55, um dos filhos do espanhol.
"É irônico que estejamos nos despedindo dele justamente no aniversário do golpe militar do Brasil. Mas agora estamos muito agradecidos ao governo brasileiro e a todas as pessoas que nos ajudaram a encontrar a verdade. Nosso desejo é que a morte dele e dos outros não fique impune", disse a filha, María del Carmen Sábat, 57.

O assunto é a Argentina segundo os Argentinos

Luis María Kreckler

Malvinas: enclave colonial no Atlântico Sul

O território argentino só estará completo quando as Malvinas nos forem restituídas; potências de outrora ainda agem como se o mundo não tivesse mudado

Hoje, completam-se 30 anos do conflito no Atlântico Sul.
A Argentina toda homenageia com dor a memória dos caídos no enfrentamento e a usurpação sofrida já há 180 anos por parte de uma potência colonial extrarregional. A presença dessa potência não só fere a integridade territorial argentina, mas também a identidade da América Latina.
A recuperação das ilhas Malvinas é mais do que um anseio, é um dever irrenunciável, uma política do Estado argentino, plasmada na Constituição Nacional e prioridade do governo da presidenta Cristina Fernández de Kirchner.
Não será encontrado um único argentino, de qualquer ideologia ou posição política, que não concorde, de coração, que somente quando as ilhas Malvinas sejam restituídas à Argentina, nosso território estará completo.
Tampouco será encontrado argentino algum que não esteja convicto de que sua recuperação somente será conseguida por meio da paz.
O Brasil, desde 1833, acompanha a Argentina em sua reclamação de soberania. O governo e o povo argentino reconhecem o apoio incondicional que este país nos presta.
O Brasil conhece as ambições estrangeiras sobre seus recursos naturais. Todos os países da região latino-americana compartilhamos a convicção de que os recursos de nossos espaços marítimos constituem um elemento vital para assegurar o desenvolvimento dos nossos povos.
Hoje temos uma base militar extrarregional no extremo do Atlântico Sul, promovendo a depredação pesqueira e a exploração ilegal de hidrocarbonetos.
Se tem uma coisa que aprendemos na América do Sul é que podemos ter muitas diferenças, mas temos um destino comum.
As declarações do Brasil, o apoio que tem cada ocasião oferecem as autoridades brasileiras, a preocupação e a ênfase que põe seu governo nos confirma, a cada dia, que estamos no caminho certo da integração.
Nós estamos entendendo que somos donos do nosso destino, que temos que caminhar juntos e que neste projeto não cabe que potências coloniais de outrora continuem atuando como se o mundo não tivesse mudado nestes últimos séculos.
Com vocação de paz, a Argentina apela ao diálogo para a reparação desta dívida histórica, que fere o meu país e a América Latina toda.

LUIS MARÍA KRECKLER, 57, sociólogo pela Universidade Nacional de Buenos Aires, é embaixador da Argentina no Brasil

O assunto é a Argentina segundo os Argentinos

Gabriel Saez

Aos EUA, as nossas lições sobre decadência

Bem-vindos ao clube! Sentem-se ali junto à França. Decair não é tão ruim: vende-se mais vinho, taxistas viram filósofos. Vai que surge um tango no Kansas?

Tony Soprano: "É bom fazer parte de algo desde o começo. Cheguei tarde para isso, eu sei. Mas ultimamente sinto a sensação de que cheguei no fim. A melhor parte já terminou."
Dra. Melfi: "Acho que muitos americanos têm essa sensação."
Por mais de uma década eu tinha ouvido falar sobre como a série americana "Família Soprano" ("The Sopranos", no original) era ótima. Então finalmente decidi experimentar.
Fiquei chocado quando, após quatro minutos de episódio piloto, o diálogo acima aconteceu. Soou tão familiar... Afinal, é um sujeito de origem italiana reclamando que o presente, apesar de ser mais rico e confortável, é pior que o passado. Era a encarnação do espírito argentino.
Crescer na Argentina implica continuamente praticar o revisionismo histórico e ceder à nostalgia de nossa grandeza passada.
Na realidade, é uma nostalgia da grandeza à qual sentimos ter direito, mas da qual, por alguma razão, fomos privados. A psique argentina reside na terra do "deveria, teria, poderia ter". Se o Brasil é o eterno país do futuro, a Argentina é o país do passado perenemente dourado.
Nós somos obcecados em olhar para trás, para um tempo (há um século, digamos) em que nosso PIB era comparável ao das potências europeias. Coçamos nossas cabeças tentando entender como pudemos fazer tudo errado desde então. Ah, se...
A Argentina é a decana do clube de nações totalmente obcecadas por seu declínio. Logo, é um grande prazer para nós receber os Estados Unidos em nossa irmandade mal-humorada. Isso mesmo, podem ocupar seu lugar ali ao lado da França.
Sejam bem-vindos, mas se preparem para muitos comentários sarcásticos. Pessoalmente, estou farto de ouvir que "o Japão é um exemplo do quanto é possível fazer com tão pouco; a Argentina é o contrário". Há o igualmente irritante "a Austrália é o que a Argentina poderia ter sido". Os brasileiros me dão aflição com o seu convite sutil para que a Argentina se torne "o seu Canadá".
Mas os tempos globais difíceis fazem a nossa experiência parecer relevante. Por isso, nossa presidente aproveita toda oportunidade para pregar sobre o "modelo argentino". Não é um modelo de desenvolvimento. É um modelo de resiliência.
Sabe por que? Quando olhamos a Grécia, sorrimos. Sabemos imediata e instintivamente o que é aquela confusão toda. Vemos os "indignados" espanhóis como irmãos. "Ocupe Wall Street" nos parece ser a versão de Hollywood de "Que se vayan todos", movimento que afastou o presidente De La Rúa, há uma década, e nos permitiu o privilégio raro de ter cinco presidentes em uma semana.
Tá vendo, América? Vocês ainda têm muito chão pela frente.
Não se preocupem: um declínio obsessivo não é de todo ruim. É uma dádiva para livreiros, psicanalistas e analistas políticos pessimistas. Converte taxistas em filósofos. Parece fazer maravilhas também pelo consumo de carne vermelha e vinho, sem falar nas conversas de café de final de noite, cheias de angústia existencial. Buenos Aires curte final de noite e angústia existencial como ninguém. Quem sabe o Kansas assista ao surgimento de sua própria dança melancólica que lembre o tango.
Mas, para que vocês americanos possam entrar para o clube das nações em declínio obsessivo, ainda há algo que precisam fazer. Guerras sem sentido, política fiscal insensata e decadência cultural não bastam.
Vocês também precisam se livrar da sua fé na possibilidade de reinvenção. Sim, precisam desistir daquilo que Mangabeira Unger e Cornel West descreveram como "a religião americana da possibilidade".
A ordem natural das coisas é que a democracia realize um ideal e que os próprios indivíduos se realizem? Esqueçam. Isso é um obstáculo ao gozo pleno do declínio, sempre acompanhado de fatalismo resignado.
A religião americana da possibilidade é o que nós, de outras partes do mundo, mais admiramos nos EUA ao longo da história. Nós, argentinos, estamos tão envolvidos em nosso drama histórico que é difícil perceber quão grandes fomos de fato.
Mas pessoas de todo o mundo vieram para cá, sim, em busca de felicidade e realização. A maioria dos filhos delas ainda ama esta terra. Nossos vizinhos gostam de nós mais do que se dispõem a admitir. Quem sabe algum dia ainda possamos conquistar a grandeza -ou ao menos um ponto de equilíbrio entre humor e angústia existencial, tornando os nossos "poderíamos-ter-sidos" mais folclóricos e menos dolorosos.
Não seria exatamente reinventar a noção de reinvenção, algo que ainda pode estar ao alcance dos EUA, mas pode ser o suficiente para fazer com que o Tony Soprano que existe em nós se sinta um pouco melhor.

GABRIEL SAEZ, 38, mestre em relações internacionais pela Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais (Argentina), é assessor na Câmara dos Deputados do país.

Tradução de CLARA ALLAIN

Expurgo de líder local expõe divisão dentro do Partido Comunista da China

Estrela cadente. Bo Xilai, líder do PC na cidade de Chongqing, era um dos favoritos para assumir um posto no Comitê Permanente do Politburo, no fim do ano, mas foi subitamente afastado do cargo depois que um assessor pediu asilo no Consulado dos EUA

CLAUDIA TREVISAN
 ENVIADA ESPECIAL ,
CHONGQING, CHINA - O Estado de S.Paulo

A cidade de Chongqing é palco de um expurgo político poucas vezes visto na China desde os protestos da praça Tiananmen em 1989. O esforço é para eliminar o espírito vermelho da Revolução Cultural, representado pelo legado de Bo Xilai, 62, antigo chefe local que caiu em desgraça.


"O show de Chongqing terminou", disse ao Estado o comentarista político Wang Kan. As canções revolucionárias começaram a sair de cena. As minisséries "comerciais", que foram banidas há um ano para dar lugar a "concertos vermelhos" e programas revolucionários, retornaram às telinhas.

Acima de tudo, o drama político colocou em xeque os métodos utilizados na campanha contra o crime organizado, que levou à detenção de quase 5 mil pessoas e deu celebridade nacional a Bo e a seu braço direito, o chefe de polícia Wang Lijun. A cada dia aprecem novas denúncias de que muitas das investigações foram conduzidos sob tortura, provas fabricadas e houve desrespeito a procedimentos legais básicos.

Estudioso da Revolução Cultural e ex-editor de uma revista dedicada à história do Partido Comunista, He Shu acredita que a operação antimáfia era o elemento que mais aproximava o período de Bo dos anos de terror vividos pela China entre 1966 e 1976. "Como Mao Tsé-tung, ele abandonou a lei e criou grupos especiais de investigação, sem definir claramente o que era considerado crime", declarou He.

Da mesma maneira que Mao, Bo soube eletrizar a população. Carismático e dono de um estilo próprio em um mar de líderes inexpressivos, ele continua a ser venerado por grande parte de Chongqing, mesmo depois de seu afastamento.

Cerca de 15 pessoas abordadas pela reportagem do Estado na cidade foram unânimes em manifestar admiração pelo ex-governante. O combate ao crime, a melhoria da infraestrutura urbana e as políticas sociais são as principais razões que justificam o apoio ao líder afastado.

Esses também eram os ingredientes do "Modelo de Chongqing" que Bo pretendia usar como credencial de entrada no Comitê Permanente do Politburo, grupo de nove pessoas que manda na China, cujos novos membros serão definidos em congresso do PC no fim do ano.

Integrante da poderosa facção dos "pequenos príncipes", formada por filhos de heróis revolucionários, Bo era um dos favoritos, apesar da oposição do atual primeiro-ministro, Wen Jiabao, feroz crítico da Revolução Cultural e um dos líderes da facção rival à do ex-chefe de Chongqing.

Na opinião de Wang Kan, Bo seria um dos nove se o ex-comandante de sua operação antimáfia não tivesse pedido asilo político no Consulado dos EUA em Chengdu, em fevereiro, em um gesto que chocou os chineses.

As razões de Wang Lijun continuam nebulosas, mas o enredo cinematográfico ganhou mais um personagem na semana passada, depois que Londres pediu à China que reabra a investigação sobre a morte do britânico Neil Heywood, ocorrida em Chongqing em novembro.

Heywood era próximo da família de Bo, mas entrou em uma disputa comercial com a mulher do ex-líder, a advogada Gu Kailai. O britânico morava em Pequim e amanheceu morto em um quarto de hotel em Chongqing. A polícia concluiu que ele havia sido vítima do consumo excessivo de álcool, apesar de seus amigos garantirem que ele não bebia. Não houve autópsia e seu corpo foi cremado na China.

Segundo a Reuters, o rompimento entre Bo e Wang Lijun ocorreu depois que este levantou a suspeita de que o britânico havia sido envenenado, em um homicídio que teria o envolvimento de Gu Kailai.

O maior paradoxo da campanha de nostalgia maoista promovida por Bo Xilai em Chongqing é o fato de sua família ter sido vítima dos horrores da Revolução Cultural. Seu pai foi preso e torturado, sua mãe foi assassinada por guardas de Mao. O próprio Bo ficou preso de 1968 a 1972.

Como tudo o que envolve a cúpula do PC, o destino de Bo é um mistério. Não há informações sobre sua localização nem mesmo sobre as razões de seu afastamento. Um detalhe, porém, revela a intensidade da disputa interna e o apoio de Bo Xilai dentro do partido: ele ainda mantém sua cadeira entre os 25 integrantes do Politburo, a segunda instância na hierarquia de poder da China.