terça-feira, 27 de março de 2012

Jovens protestam contra torturadores em todo o País

O Estado de São Paulo

Cerca de cem integrantes do Levante Popular da Juventude, em sua maioria universitários, participaram nesta segunda-feira, 26, de um ato protesto diante da sede da empresa de segurança Dacala, na Avenida Vereador José Diniz, na zona sul de São Paulo. Com carro de som, faixas, bumbos, cartazes e material de pichação, eles acusaram publicamente o proprietário da empresa, o delegado aposentado David dos Santos Araújo, de ter torturado, estuprado e assassinado militantes políticos que se opunham à ditadura militar, na década de 1970.

"Há um assassino e estuprador à solto na vizinha", diz o manifesto que foi distribuído pelos manifestantes aos funcionários da empresa e às pessoas que passavam pela rua, uma das mais movimentadas da região. Eles também lembraram depoimentos de ex-presos políticos, segundo os quais o delegado se escondia sob a alcunha de Capitão Lisboa, durante as sessões de tortura.

O delegado não se encontrava na empresa no momento da manifestação, segundo os funcionários. Um grupo de três viaturas da PM acompanhou a manifestação e anotou a chapa do carro de som e os nomes dos advogados que acompanhavam os estudantes.

Porto Alegre

Militantes da organização Levante Popular da Juventude protestaram diante da casa do coronel Carlos Alberto Ponzi, ex-chefe do Serviço Nacional de Informações, nesta segunda-feira, em Porto Alegre, exibindo faixas e cartazes com dizeres como "aqui em frente mora um torturador". O ato chamou a atenção de vizinhos, pedestres e motoristas que passavam pela área do bairro Rio Branco durante cerca de 40 minutos.

Segundo carta enviada à imprensa pelos manifestantes, o protesto foi parte de uma ação conjunta que teve atos semelhantes no Pará, Ceará, Minas Gerais e Bahia ao longo do dia. O grupo destacou que a mobilização apoia a Comissão da Verdade "pelo direito de esclarecer os crimes praticados durante a ditadura civil-militar" e "mostrar que a sociedade está organizada e defende a responsabilização dos militares envolvidos pelos crimes cometidos no período". Ponzi é um dos 13 brasileiros acusados pela Justiça italiana em dezembro de 2010 pelo desaparecimento do militante político ítalo-argentino Lorenzo Ismael Viñas em Uruguaiana, em 1980. O coronel não foi localizado pela reportagem.

domingo, 18 de março de 2012

'Curió', o herói da ditadura

Elio Gaspari

O major do Araguaia sabe o que aconteceu há 40 anos naquele fim de mundo, tomara que conte
Sete procuradores tentaram processar o tenente-coronel da reserva Sebastião Rodrigues de Moura, o "Major Curió", pelo sequestro, há quarenta anos, de cinco prisioneiros na região do Araguaia. Ex-oficial do Centro de Informações do Exército, ex-agente do SNI, ex-prefeito de Curionópolis (eleito pelo PMDB) e ex-deputado federal, ele é um dos personagens emblemáticos da anarquia da ditadura. Começou sua carreira em 1973, no extermínio da Guerrilha do Araguaia, iniciativa do PC do B que começou com a fuga do chefe político e terminou com a fuga do chefe militar. Transformado em condestável da maior mina de ouro a céu aberto do mundo, em Serra Pelada, em 1984 liderou a maior revolta popular ocorrida na região. Mobilizando dezenas de milhares de garimpeiros, dobrou o governo federal.
Curió já foi comparado ao mítico Kurtz, personagem de "No Coração das Trevas", de Joseph Conrad, recriado por Francis Ford Coppola no Marlon Brando de "Apocalypse Now". Algum dia aparecerá alguém capaz de mostrar o Macunaíma que há nesse Kurtz tropical que virou nome de cidade. Ele começa participando de uma matança, torna-se monarca numa mina e, aos 78 anos, é um patriarca municipal e megalomaníaco.
Não se sabe se "Curió" participou das execuções de que é acusado, mas ele conhece como poucos a história do Araguaia. Atribuem-lhe dois valiosos vazamentos de informações sobre a ação do Exército. Curió tornou-se o mais conhecido entre os oficiais, mas nunca comandou a operação. Era detestado pelos militares, que viam nele um oportunista.
"Curió" poderia ser um precioso depoente. Os comandantes militares dizem que os documentos do Araguaia foram destruídos. Meia verdade. É possível saber quais foram os cabos, sargentos e oficiais mandados para lá. Basta requisitar a documentação das concessões de Medalhas do Pacificador entre 1973 e 1975. Nem todos aqueles que as receberam estiveram no Araguaia e muitos foram condecorados por relevantes serviços, mas todos os que lá estiveram as receberam. Nesses papéis estão registradas as épocas em que lá serviram. Quem chegou àquele fim de mundo depois de outubro de 1973 sabe que a ordem, vinda de Brasília, era de matar todo mundo. Executaram os prisioneiros, inclusive aqueles que acreditaram em folhetos que os convidavam à rendição. Foram cerca de 50 pessoas, na maioria jovens.
"Curió" pode ter executado prisioneiros, mas não foi o único a fazê-lo e quem o fez estava cumprindo ordens. De quem? Dos presidentes Emílio Médici e Ernesto Geisel, e dos ministros do Exército: Orlando Geisel, Dale Coutinho e Silvio Frota. Por terem cumprido essa e outras ordens, "Curió" e os demais combatentes do Araguaia receberam a medalha.

Araguaia

sexta-feira, 16 de março de 2012

Sem cemitério, cidade do sul da Itália proíbe morte de morador

Duas pessoas "desrespeitaram" ordem oficial desde a decisão




DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS
Na cidade italiana de Falciano del Massico, a morte pode até bater à porta, mas os moradores não podem abri-la de jeito nenhum.
Isso porque o prefeito da localidade (que fica a cerca de 50 km de Nápoles, no sul da Itália) emitiu um decreto no início deste mês que proíbe a população de "ultrapassar os limites da vida terrena para ir para a outra vida".
A proibição deve durar até a cidade de aproximadamente 4.000 habitantes construir seu cemitério próprio, afirma o prefeito Giulio Cesare Fava, que é médico.
Os moradores de Falciano del Massico dividiam o cemitério com os da vizinha Carinola (da qual se tornou autônoma em 1964), mas o local está cheio, e os dirigentes das duas cidades não conseguiram chegar a um acordo sobre a expansão.
Assim, enquanto a prefeitura não recebe a permissão para construir o cemitério, a solução foi banir a morte.
Desde que o documento foi publicado, dois moradores não respeitaram as ordens. Porém, nem eles nem seus familiares deverão ser punidos.

Nova ossada é encontrada em quartel no Uruguai

Governo busca restos de vítimas da ditadura




DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS
Autoridades do Uruguai encontraram, ontem, nova ossada em um quartel nos arredores de Montevidéu.
Nesse mesmo lugar, haviam sido encontrados no ano passado os restos de Julio Castro, vítima da ditadura uruguaia (1973-1985), desaparecido em 1977 aos 68 anos -após suposta tortura.
O governo afirma, em comunicado, que "aparentemente se trata de um esqueleto inteiro, ainda que no momento não se possa dar mais detalhes, como sexo e idade".
A busca por restos de desaparecidos se insere nas investigações sobre o desaparecimento de María Claudia García de Gelman, neta do poeta Juan Gelman. O governo uruguaio realiza na semana que vem um ato público reconhecendo a responsabilidade do Estado nesse crime.
O ato cumpre sentença dada em 2011 pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, que condenou o Uruguai pelo desaparecimento em 1976 de María Claudia.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Fé e educação

Kenneth Maxwell

Existe um velho padrão na política dos Estados Unidos. Richard Hofstadter foi professor de História na Universidade Columbia. Era um intelectual engajado e conhecido e escreveu duas obras importantes: "Anti-intelectualismo nos Estados Unidos" (1963) e "The Paranoid Style in American Politics" (1964).
Nesses livros, ele conectava o populismo antissemita dos anos 1890 à demagogia anticomunista do senador Joseph McCarthy no começo dos anos 50.
O nome de Hofstadter não é muito lembrado. Ele morreu aos 54 anos, em 1970. Tendo sofrido discriminação antissemita nos anos 40, tornou-se defensor apaixonado dos valores progressistas.
Nos anos finais de sua vida, era conhecido por sua firme oposição aos universitários radicais da Universidade Columbia, em 1968.
As universidades norte-americanas são amplamente reconhecidas hoje como as melhores do mundo. Harvard, Yale, Princeton e Stanford estão sempre entre as instituições mais bem classificadas de ensino superior.
É muito estranho, portanto, que os dois principais candidatos à indicação republicana para enfrentar o presidente Barack Obama na eleição presidencial de novembro, o ex-senador Rick Santorum e o ex-governador Mitt Romney, tenham escolhido atacar a educação universitária norte-americana.
Santorum chamou Obama de "esnobe" por advogar uma expansão no número de matriculados no ensino superior. Santorum definiu as universidades como "usinas de doutrinação" que "destroem a fé religiosa". Romney, tentando não ficar para trás, instou os universitários a "não esperar que o governo perdoe as dívidas que vocês assumirem". Ele os aconselhou a "não tentarem se matricular nas universidades de maior preço".
São opiniões compatíveis com as expressas pelos conservadores sociais e pelos cristãos evangélicos, dois componentes importantes da base do Partido Republicano. Mas existem poucas provas em apoio a esse tipo de afirmação. É verdade que, entre os cientistas dos Estados Unidos, há nove democratas para cada republicano.
Entretanto estudos recentes com as faixas etárias jovens não constataram diferenças quanto à maior parte dos indicadores de identidade, práticas religiosas e crenças entre os universitários e os que não fazem curso superior.
Os universitários não abandonam sua fé em razão da influência de professores universitários "ímpios".
Mas, como Hofstadter demonstrou muito tempo atrás, a política tem pouco em comum com os fatos.

quarta-feira, 14 de março de 2012

País vizinho se diz preocupado com armas nucleares nas ilhas Malvinas

Chanceler Timerman manifestou o temor em reunião com Patriota




ISABEL FLECK

DE SÃO PAULO

Em visita ao Brasil, o chanceler argentino, Héctor Timerman, manifestou ao governo brasileiro a preocupação de que o Reino Unido, que mantém presença militar nas ilhas Malvinas, tenha trazido "armas nucleares", como submarinos com esse tipo de propulsão, para a região.
"Conversamos sobre a preocupação de que uma potência externa se negue a informar se introduziu armas nucleares na região", disse, após encontro com o colega brasileiro, Antonio Patriota, em São Paulo. Segundo fontes diplomáticas, o governo brasileiro considera a preocupação relevante.
Timerman disse que o tema será discutido no encontro de ministros da Zoopacas (Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul) -que reúne países sul-americanos e africanos banhados pelo oceano-, em 10 e 11 de maio, em Montevidéu.
O governo argentino lançou uma cruzada contra o Reino Unido para recuperar a soberania sobre as ilhas, chamadas de Falklands pelos britânicos, às vésperas do aniversário de 30 anos da Guerra das Malvinas.
O Brasil já manifestou seu apoio ao país vizinho e, junto com os outros países do Mercosul, estabeleceu um bloqueio a navios de bandeira britânica.
Este é o primeiro encontro entre os chanceleres desde a decisão argentina de estabelecer novas regras de importação. Patriota, porém, desconversou ao ser questionado sobre as medidas protecionistas do país vizinho.
"Nossa conversa centrou-se nos desenvolvimentos positivos que movem os setores privados dos dois países e na ideia da reativação dos mecanismos de monitoramento."
Timerman e Patriota disseram esperar que a próxima Cúpula das Américas, em abril, na Colômbia, seja a última sem a participação de Cuba.

Argentina libera aborto para estuprada

Corte Suprema do país decide que interromper a gestação de mulheres que tenham sido violadas não é crime




Decisão confirma sentença do Tribunal Superior de Justiça da província de Chubut, após caso polêmico

SYLVIA COLOMBO
DE BUENOS AIRES


A Corte Suprema argentina determinou por unanimidade que abortos realizados por mulheres que tenham sido estupradas não são crime.
A Corte confirmou uma sentença do Tribunal Superior de Justiça da província patagônica de Chubut, que em 2010 validou um aborto realizado em uma jovem de 15 anos que havia sido violentada pelo padrasto. A decisão gera jurisprudência.
O caso ocorrido em Chubut foi largamente debatido na época. O aborto chegou a ser proibido por uma juíza.
A lei argentina já estabelecia que abortos no caso de violações, assim como nos realizados por haver perigo à vida da mulher, não devem ser punidos.
Porém, em geral, a Justiça apenas enquadrava nessa categoria as violações a mulheres que fossem portadoras de alguma deficiência mental.
Segundo os juízes, essa "prática fomentada por profissionais da saúde e validada por diferentes operadores dos poderes judiciais nacionais e provinciais restringiu indevidamente o acesso aos abortos não puníveis por parte das vítimas de uma violação".
Os juízes ainda reforçaram que a Constituição argentina não apenas não proíbe a realização desses abortos como também impede que eles sejam castigados.
A partir de agora, os médicos deixam de ter de pedir autorização judicial para esse tipo de aborto, devendo apenas apoiar-se na declaração da vítima ou de um responsável.
Por fim, a corte reforçou que os juízes devem garantir os direitos das mulheres nessa situação e não tornarem-se obstáculos para a execução da operação.
Para Mabel Bianco, da Fundação para Estudo e Investigação da Mulher, a decisão termina com as dúvidas de interpretação da lei. "Vai evitar o sofrimento e a morte de muitas mulheres."
Houve reação negativa por parte de alguns grupos da sociedade, em especial da igreja. O presidente da Conferência Episcopal Argentina, José María Arancedo, disse que "o aborto é a supressão de uma vida inocente, e não existe nenhum motivo que justifique a eliminação de uma vida inocente, nem sequer o caso lamentável de uma violação".
A questão da legalização do aborto divide a oposição e a base kirchnerista. Um projeto para aprová-lo ficou travado no Congresso no ano passado.
Apesar de ser ilegal no país, cifras do próprio governo admitem a prática de cerca de 500 mil abortos por ano na Argentina.

Vídeo polêmico retomou debate sobre guerrilha

DE SÃO PAULO



Um vídeo produzido pela organização não governamental americana Invisible Children para pedir a prisão de Joseph Kony, líder do Exército de Resistência do Senhor (LRA), foi acessado no YouTube mais de 75 milhões de vezes em apenas nove dias.
A produção de 30 minutos "Kony 2012", que se tornou um dos mais velozes "virais" na internet, denuncia as atrocidades cometidas por Kony, em especial o sequestro e o recrutamento de crianças para a luta armada. O grupo pede esforço mundial para que o tema não seja esquecido e que Kony seja preso até o fim deste ano.
A ONG, porém, é alvo de críticas pela falta de transparência de suas finanças.

Paz distante

Embora enfraquecido, líder rebelde Joseph Kony, protagonista de um vídeo que virou hit na internet, continua levando terror à população em uma região no norte de Uganda; milhares morreram em 25 anos




Xavier Toya/Reuters
Garota em Gulu (Uganda) recebe tratamento médico de uma ONG local
Garota em Gulu (Uganda) recebe tratamento médico de uma ONG local



MICHAEL DEIBERT
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA,
 EM GULU (UGANDA)


Em Gulu, movimentada capital provincial no norte de Uganda, alguém que passou toda sua vida na cidade aponta para as estradas de terra vermelha que partem em direção à fronteira com o Sudão do Sul.
"Antigamente nem sequer saíamos da cidade", diz John Lukwiya (não é seu nome real), que trabalha com pessoas deslocadas na região.
"Percorrer 3 km era um desafio terrível. Você talvez sobrevivesse, talvez não. Hoje, porém, há construções em andamento e as pessoas estão plantando."
O conflito na terra ancestral do grupo étnico acholi (5% dos 35 milhões de habitantes deste país no centro da África) foi travado ao longo de quase 25 anos, mas hoje a região, com dificuldade, tenta recolocar-se em pé.
É esta a área de atuação do Exército de Resistência do Senhor (LRA, na sigla em inglês) e de seu líder, Joseph Kony, desde a semana passada uma estrela on-line.
Kony, foragido e conhecido por sequestrar crianças e usá-las como soldados, era um rebelde um tanto obscuro. Até ser protagonista de um vídeo postado no YouTube por um ativista americano denunciando seus crimes.
Virou um fenômeno instantâneo. Em menos de dez dias, foi acessado mais de 75 milhões de vezes.
FOGO CRUZADO
As raízes do conflito estão na história de turbulência política de Uganda. Os acholis eram a base do ditador Milton Obote (1965-71 e 1980-85).
Quando ele foi derrubado, o novo presidente, Yoweri Museveni (no poder até hoje), lançou uma brutal missão contra esse grupo.
A reação no norte de Uganda, alimentada pela riqueza de mitos locais, adquiriu contornos místicos.
Guerrilheiros acholi diziam caminhar diretamente para o meio de tiros, cantando hinos e segurando nas mãos pedras que acreditavam que se transformariam em granadas. O LRA é um dos herdeiros dessa tradição.
Em mais de duas décadas de conflito, milhares de civis foram pegos no fogo cruzado. Estimativas de mortos variam de 10 mil a 30 mil.
CRIMES DE GUERRA
"O governo afirmava que não estava conseguindo derrotar o LRA porque a população dava informações ao grupo. O LRA dizia que não estava conseguindo sobreviver bem nem derrotar o governo porque os civis davam informações ao governo", diz Francis Odongyoo, da ONG local Human Rights Focus.
A luta entre o LRA e Museveni deixou a vida na região de cabeça para baixo, mais do que qualquer conflito anterior.
"O impacto desta guerra foi quase universal", diz Ron Atkinson, professor de história da Universidade da Carolina do Sul que estuda a região há 40 anos.
"Quase todos foram impactados diretamente pela violência aberta, não apenas do LRA ou de grupos rebeldes anteriores, mas também do Exército ugandense e do governo, em especial a política de deslocamentos forçados imposta pelo Exército."
A política do LRA de alvejar civis levou o Tribunal Penal Internacional a emitir mandados de prisão em 2005 contra Kony e outros comandantes do LRA, acusados de crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
Negociações de paz entre o LRA e o governo fracassaram em 2007. O governo fez uma nova ofensiva e, perseguido, o grupo afastou-se de Uganda. Desde então, segundo a ONU, 98% das pessoas deslocadas no país deixaram os campos em que viviam e voltaram para suas casas.
Mesmo assim, o LRA mantém seu potencial de semear o caos entre civis.
Entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, o LRA massacrou 620 civis e sequestrou mais de 160 crianças, retornando um ano depois para matar outros 321 civis e sequestrar outras 250 crianças.
Em outubro de 2011 o presidente americano, Barack Obama, anunciou o envio de cem soldados das forças especiais para ajudar Uganda a capturar Kony. Por ora, ele continua foragido em algum ponto da selva africana.
Tradução de CLARA ALLAIN

'Ato isolado' desgasta ainda mais a imagem dos estrangeiros

Análise

IGOR GIELOW
SECRETÁRIO DE REDAÇÃO 
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA


Há pouco mais de um ano, um ex-soldado a serviço da CIA matou dois homens em Lahore (Paquistão).
O que parecia um incidente isolado, para usar a retórica oficial americana na época, virou uma crise política de grandes proporções, que hoje é considerada ponto central na derrocada das relações entre Washington e seu aliado asiático.
Isso porque houve grande pressão dos EUA para libertar Raymond Davis, o matador em questão. Ele acabou pagando uma compensação financeira às famílias das vítimas e voltou para casa.
O fato de que os mortos eram agentes secretos não mudou o clamor popular contra o que foi visto como tratamento desigual para um estrangeiro hostil.
O ânimo nas ruas paquistanesas nunca foi o mesmo em relação à presença americana no país.
No Afeganistão, agora, a situação é ainda mais delicada. O militar que matou 16 civis, além do crime agravado por fatores como o assassinato de crianças e o vilipêndio de cadáver, atuava justamente em um dos pilares do esforço americano em preparação à sua retirada.
Trata-se de um programa de treinamento de líderes tribais para autodefesa -leia-se formação de milícias locais, já que o Exército afegão concentra-se em torno das poucas áreas urbanas, deixando o campo mais exposto a grupos como o Taleban.
Projeto semelhante foi medianamente bem-sucedido nas áreas tribais paquistanesas alvo de operações do Exército contra extremistas a partir de 2008. Milícias conhecidas como "lashkar" faziam as vezes dos militares para enfrentar a influência do Taleban paquistanês.
O massacre, também um "ato isolado" para a Casa Branca, não vai melhorar em nada a já péssima imagem da presença estrangeira.
O tema é muito sensível em um país acostumado a ver seus ocupantes baterem em retirada (como os britânicos, os soviéticos e, agora, o Ocidente), e iniciativas como essa tentam estabelecer pontes e garantir alguns aliados na ponta da linha no futuro.
A condução do julgamento do assassino mostrará o potencial de o incidente se tornar um novo caso Raymond Davis.

Militar do Araguaia será denunciado por crimes na ditadura

Ação criminal inédita acusa ex-oficial Sebastião Curió por sequestros de cinco integrantes da guerrilha




Ministério Público diz que crimes não são cobertos pela Lei da Anistia, porque corpos não surgiram até hoje

NÁDIA GUERLENDA
DE BRASÍLIA


O Ministério Público Federal deve ajuizar hoje uma ação contra o coronel do Exército Sebastião Curió, conhecido como Major Curió, pelo sequestro de militantes políticos durante a guerrilha do Araguaia (1972-1975), que ele ajudou a combater.
É a primeira denúncia criminal apresentada contra um oficial por crimes cometidos durante a ditadura militar no país (1964-1985).
Os procuradores da República que assinam o documento acusam Curió pelo desaparecimento de participantes da guerrilha, organizada pelo PC do B na Amazônia.
São eles: Maria Célia Corrêa (Rosinha), Hélio Luiz Navarro Magalhães (Edinho), Daniel Ribeiro Callado (Doca), Antônio de Pádua Costa (Piauí) e Telma Regina Cordeira (Lia).
Em 1979, foi editada a Lei de Anistia, que impediu o julgamento e a condenação pelos crimes cometidos durante a ditadura. A lei foi questionada em 2010 no Supremo Tribunal Federal, que reafirmou a sua validade.
No mesmo ano, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil a apurar e punir os crimes.
Os procuradores negam que a ação contrarie a decisão do Supremo. Eles consideram o crime de sequestro, pelo qual Curió é acusado, um crime permanente -ou seja, como até hoje não se sabe o paradeiro das vítimas, o crime continua acontecendo até que sejam encontrados os restos mortais.
Por esse motivo, o Ministério Público argumenta que o crime não foi abrangido pela Lei da Anistia, pois o texto anistia atos cometidos até 15 de agosto de 1979. O julgamento do STF sobre a lei não poderia ser aplicado ao caso.
De acordo com os procuradores, em dois casos de extradição de militares argentinos o STF adotou o mesmo entendimento quanto ao crime de sequestro, considerando-os permanente.
O crime permanente também não está sujeito à prescrição (prazo máximo pelo qual um acusado pode ser processado), o que também autorizaria o processo atual.
A Folha tentou ouvir o coronel Curió sobre as acusações, mas ele desligou o telefone após a reportagem se identificar e não atendeu mais as ligações.
APOIO
Ontem, a entidade Human Rights Watch afirmou que a decisão dos procuradores de ontem é um passo histórico para a responsabilização desses atos no Brasil.
"Essa é uma grande notícia para as famílias que perderam seus entes queridos na onda de repressão que se seguiu ao golpe de 1964", afirmou José Miguel Vivanco, diretor-executivo da Divisão das Américas da Human Rights Watch.
Os casos citados na denúncia contra Curió são alguns dos quais a Comissão da Verdade deve analisar. O grupo governamental investigará violações aos direitos humanos ocorridos entre 1946 e 1988 e espera apenas a nomeação de seus sete membros pela presidente Dilma para poder começar a funcionar.

Microcrédito

Antonio Delfim Netto

Talvez um dos fatos importantes a respeito da sociedade brasileira seja a afirmação de "identidade" de um enorme contingente populacional que gosta de imaginar-se como "classe média".
Isso, obviamente, não é acidente nem produto espontâneo. É consequência de um processo civilizatório recente em que as políticas sociais sujeitas a algumas condicionalidades foram mais bem focadas.
Paralelamente, houve uma "inclusão" desses cidadãos na economia de "mercado" devido ao forte aumento das oportunidades de emprego e ao acesso ao crédito.
Uma das características mais marcantes desses novos cidadãos é a "internalização" de que o fator mais importante para "subir na vida" é a conquista da educação para si e para seus filhos, ainda que lhes custe enormes sacrifícios.
Só não percebe essa ascensão social quem sofre de miopia. É tal ascensão que vai continuar a permitir a construção de um mercado interno capaz de garantir o mínimo de economicidade e "incluir" o Brasil, de forma adequada e relativamente segura, na globalização avassaladora que fragmentou o processo produtivo.
Esses fatos são visíveis na recente pesquisa feita pela Fondapol (Fondation pour l'Innovation Politique), em meados de 2011, com jovens de 25 países, em que se perguntou: 1º) Você acha seu futuro promissor ("prometteur")?; 2º) Você acha o futuro do seu país promissor?
À primeira pergunta 87% dos jovens brasileiros responderam afirmativamente, e à segunda, 72%. Isso contrasta com os EUA, onde à primeira pergunta 81% responderam afirmativamente, mas à segunda, apenas 37%. O curioso é que na China a coisa se inverte: 73% creem que têm futuro promissor, mas 82% creem no futuro promissor do seu país.
O governo decidiu estimular o Banco do Brasil -agora proprietário do Banco Postal- e a Caixa Econômica Federal -que controla as "lotéricas"- a expandirem cuidadosa e seguramente o microcrédito, com taxas de juros mais acessíveis e menor burocracia, o que deve aumentar a "inclusão" social.
É importante dizer que, para fazê-lo, não se cogita subsídio do Tesouro ou violação das garantias exigidas pelo Banco Central, mas, sim, redução da distância entre os bancos e o tomador de crédito, diminuindo o evidente constrangimento dos mais pobres de acessarem os bancos.
Isso vai ser feito aproveitando a "imagem" e a reputação secular do BB e da CEF -que, para os mais simples, significam segurança absoluta. A economia de escala deve tornar os seus "spreads" mais atrativos do que os dos bancos privados que só agora começam a "descobrir" os potenciais novos clientes e vão ter que disputá-los

terça-feira, 13 de março de 2012

Grande demais

Vladimir Safatle

"Os artistas são como os filósofos, têm frequentemente uma saúde frágil, não por causa de suas doenças ou de suas neuroses, mas porque viram na vida algo grande demais para qualquer um, grande demais para eles, e que pôs neles a marca discreta da morte." Tal afirmação de Gilles Deleuze e Félix Guattari tem o mérito de fornecer um diagnóstico de época.
Se a ideia estiver correta, então a arte e a filosofia sempre perderão força em épocas que têm medo da doença e da neurose, épocas que veem nelas apenas momentos vazios que devem ser aniquilados o mais rápido possível.
Mas, muitas vezes, a doença é, no fundo, a preservação de um futuro em suspenso. Seu trabalho consiste em lembrar-nos que nossa saúde ficou pequena demais, que a vida que se repete na saúde não consegue produzir formas para o que parece "grande demais". Por isso, a saúde que encontramos depois da doença nunca é o retorno ao estado anterior. Compreender que nunca voltaremos ao estado anterior é condição para romper com a fixação em algo que acaba apenas por nos aprisionar no que não tem mais força para perpetuar-se.
Alguns poderiam ver nesse "topos" uma recuperação da velha crença romântica tardia na "formação pelo sofrimento". Outros veriam, ao contrário, uma maneira peculiar de acreditar que a vida sempre consegue encontrar respostas para os problemas que ela mesma coloca, desde que estejamos dispostos a ouvir as perguntas.
Como bem nos mostrou um psicanalista como Jacques Lacan, as neuroses são questões, assim como a doença é um tensionamento da vida -o que talvez nos explique porque não há organismo absolutamente saudável, nem sujeito desprovido de sintoma.
Essa é uma estratégia dos que acreditam que a verdadeira perspectiva moral consiste em estar à altura do que nos ocorre. Os que sentiram com muita proximidade a neurose podem usar suas forças para esquecê-la, um pouco como gostaríamos que nosso organismo esquecesse as doenças pelas quais passou. Outros encontrarão nela suas melhores questões, de maneira distorcida e mal colocada.
Que um dos maiores artistas plásticos vivos, Anselm Kiefer, tenha construído um impressionante conjunto de obras a partir de materiais em ruínas, lembranças gastas, imagens de grandiosidade envelhecidas pelo tempo, eis algo que parece validar a afirmação de Deleuze e Guattari. Sua obra lembra como há algo que passou arruinando as formas que tínhamos, algo que deixou nossas figuras "pequenas demais", imprimindo nelas a marca discreta da morte. Tais artistas nos mostram que nossa época não desconhece o verdadeiro movimento.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Demonstração de força

Editoriais
editoriais@uol.com.br

Como esperado, o atual primeiro-ministro, Vladimir Putin, venceu a eleição presidencial na Rússia -e com 64% dos votos. Tampouco houve surpresa nas denúncias de fraudes no processo eleitoral e na contagem de votos.
Como já acontecera nas eleições parlamentares de dezembro, a oposição alega que eleitores favoráveis a Putin votaram mais de uma vez, conduzidos em grupo para diversos postos de votação. Fiscais teriam incluído cédulas falsas nas urnas.
Pesquisas independentes indicavam que Putin detinha a maioria das intenções de voto. As irregularidades podem ter servido para inflacionar sua vantagem sobre os demais candidatos -o segundo colocado não chegou a alcançar 20% do eleitorado, o que afastou a realização de um segundo turno.
Dezenas de milhares de russos protestaram nas ruas após o pleito. Centenas foram presas pela polícia, que reprimiu as manifestações.
No governo desde 1999, como presidente ou premiê, Putin concentrou poderes, reprimiu protestos, coibiu o trabalho da imprensa, prendeu opositores e manipulou processos eleitorais.
Durante a maior parte da última década, contou com expressivo apoio popular, regado com recursos advindos dos preços em alta do petróleo e do gás, principais produtos de exportação da Rússia. A bonança na economia, o crescimento da classe média e o consumo de luxo esfumaram a memória da crise econômica dos anos 1990.
As primeiras fissuras em sua popularidade e na passividade da sociedade russa diante da concentração de poder vieram com a crise de 2008. Parte da classe média agora exige respeito às regras democráticas. Pesquisas incidam que 70% dos manifestantes contra Putin cursaram o ensino superior.
Eles não são a maioria da população, mas compõem uma oposição estridente. A deterioração do cenário econômico pode engrossar as fileiras de opositores. A complexidade da sociedade e da política russas, no entanto, tornam impróprias comparações com a chamada Primavera Árabe.
Apesar de sua clara vitória, Putin terá de adaptar-se aos novos tempos e fazer escolhas que não são triviais. Poderá fazer concessões graduais aos adversários, mas não se descarta que procure conservar o poder à base de repressão.
Num país em que quase 70% da população apoia a existência de um "líder forte", segundo pesquisa da organização norte-americana Pew, Putin dificilmente abrirá mão de um discurso populista e maniqueísta, capaz de polarizar o país e tornar ainda mais conturbada e imprevisível a abertura democrática na Rússia.

terça-feira, 6 de março de 2012

A inanição não libertará o Irã

Há razões para a eleição iraniana ter ocorrido sem protesto; as sanções sufocam também aqueles que exigem mudança
  
HOOMAN, MAJD
THE NEW YORK TIMES,
É JORNALISTA IRANIANO-AMERICANO

Uma máxima antiga, atribuída ao Ministério das Relações Exteriores da Grã-Bretanha nos tempos do império, afirma: "Mantenham os persas famintos, e os árabes gordos". Era a fórmula usada pelos britânicos - na época, os guardiões do destino persa - para acalmar esses povos, e ainda é válida para os líderes da Arábia Saudita, que simplesmente distribuem grandes quantidades de dinheiro aos seus cidadãos ao primeiro sinal de agitação.

No caso do Irã, nem os EUA nem a Grã-Bretanha parecem segui-la fielmente. Manter os persas famintos era a garantia de que não se levantariam contra os seus patrões. Hoje, o desejo mais acalentado pelo Ocidente é, ao que tudo indica, que eles façam exatamente isso.

Não surpreende que a votação de sexta-feira tenha transcorrido sem agitação por parte dos eleitores da classe média ou a participação dos liberais que se opõem ao regime. Esses candidatos foram eliminados do cenário político.

As sanções ocidentais, outrora contra um alvo determinado e agora abrangentes, estão se tornando uma forma de punição coletiva. Sua finalidade, ao que nos dizem, é obrigar o governo islâmico a voltar à mesa de negociações a respeito da questão nuclear. Os políticos ocidentais parecem acreditar que punir o povo iraniano contribuirá para fazer com que esse culpe o próprio governo e force uma mudança de comportamento do regime. Mas como a antiga máxima britânica admitia, no Irã as privações são a receita do status quo.

O governo e o povo iraniano nunca foram isolacionistas. Mas à medida que as sanções cobram seu preço em vidas de cidadãos que querem continuam mantendo relações de negócios e se comunicar com o exterior, as energias para questionar a política do governo e provocar agitações para a mudança acabam.

No ano passado, enquanto morava em Teerã, conheci uma economia fragilizada e uma população faminta, não apenas de proteínas, mas de mudanças. Empresas que fecham as portas ou demitem trabalhadores pela falta de atividade comercial ou de novas oportunidades afetam todo mundo.

A mudança pela qual a maioria dos iranianos anseia é econômica. Enquanto eles se consomem na luta para empatar ganhos com gastos, em dois ou três empregos, e em alguns casos mandem crianças esmolar ou vender pequenos objetos, estão menos preocupados com sua fome secundária: a fome política.

A mudança política só ocorrerá depois que os iranianos não tiverem mais fome e o governo não tiver mais desculpas para usar, entre elas a da segurança nacional. Somente quando os iranianos com alto grau de instrução, sofisticados e talentosos tiverem "engordado" enfrentarão seus líderes e exigirão o direito de buscar uma felicidade além da vida e do estômago saciado. Os iranianos não aceitam ser mandados. Eles não culparão o seu governo pelas consequências das sanções porque dizemos a eles que o façam, nem derrubarão os aiatolás, por mais que os instiguemos a fazê-lo.

Com uma economia forte, a classe média voltará a exercer um papel político mais influente. Foi ela que, ainda bem alimentada depois de quatro anos de governo de Ahmadinejad, levantou-se em 2009, exigindo seus direitos civis. É o que restou dessa classe média que continua protestando hoje contra os abusos.

As sanções cada vez mais rigorosas impostas ao Irã também sufocam as vozes que exigem mudanças - vozes que simplesmente não podem ser ouvidas em um momento em que a população está sendo ameaçada com uma asfixia econômica ou, pior ainda, com bombas. As sanções não mudarão o comportamento do regime nem darão origem a uma Primavera Persa - pelo menos não enquanto os persas estiverem famintos, e apavorados. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

segunda-feira, 5 de março de 2012

Líder ruma para, como Brejnev, ter uma vida passada na Presidência

Análise

LUKE HARDING
DO “GUARDIAN”


A noite passada foi o momento Leonid Brejnev de Vladimir Putin. Foi quando ele deixou de ser um mero líder eleito e rumou para uma vida na Presidência.
Ao deixar engenhosamente as regras de lado atuando um período como premiê (nenhum presidente russo pode cumprir mais de dois mandatos seguidos), Putin agora pode seguir indefinidamente.
Brejnev ficou 18 anos no poder (1964-82), como chefe do Partido Comunista soviético. Apesar dos sussurros de revolução batendo nos muros do Kremlin, quem apostaria que Putin não vai se igualar a Brejnev?
Mas o Putin que volta ao Kremlin em maio vai enfrentar uma Rússia radicalmente diferente daquela silenciosa que comandou por 12 anos.
Ainda que tenha apoio nas províncias, para os manifestantes que vão se reunir aos milhares hoje em Moscou ele se tornou uma figura repugnante e de escárnio.
Putin sabe muito bem que os protestos atuais são os mais sérios desde a perestroika (abertura, nos anos 80).
São liderados por uma sofisticada classe média urbana, mas incluem todos os tipos de russo, cansados das falsidades, da condescendência feudal e do roubo galáctico que caracterizam o regime.
Tendo pela frente o fantasma de uma revolta, ele tem duas opções.
Pode acalmar os manifestantes com vagas promessas de reformas liberais ou pode recorrer às mesmas macabras táticas repressivas da KGB usadas por ele antes: prisões, propaganda negativa contra líderes oposicionistas e acusações de que são traidores a serviço do Ocidente.
Putin, aparentemente, está mais inclinado para a segunda opção.
Para aqueles que estiverem protestando hoje, a dificuldade é como derrubar o regime.
Não há resposta fácil. Putin não pretende sair e não há ninguém que possa forçá-lo.
A política russa está entrando num período de incertezas. Mas podemos presumir que Putin seguirá em frente.

Putin vence e enfrentará protestos de rua

Urnas apuradas na Rússia dão mais de 60% dos votos para primeiro-ministro, que será presidente pela terceira vez



Ex-agente da KGB chora em comício da vitória; oposição vê fraude e promete atos em Moscou a partir de hoje

Mikhail Voskresensky/Reuters
Com lágrimas nos olhos, Putin (à esquerda) festeja sua eleição, ao lado do atual presidente russo, Dmitri Medvedev
Com lágrimas nos olhos, Putin (à esquerda) festeja sua eleição, ao lado do atual presidente russo, Dmitri Medvedev

RODRIGO RUSSO
ENVIADO ESPECIAL A MOSCOU


O atual premiê Vladimir Putin, como esperado, venceu ontem as eleições presidenciais da Rússia, com grande vantagem sobre os demais quatro concorrentes e diversas acusações de fraude.
O resultado oficial só sairá em um mês, mas a Comissão Eleitoral Central, com base em 97% das cédulas apuradas, apontava 64% dos votos para Putin. Em um distante segundo lugar figurava o veterano comunista Gennady Zyuganov, com 17%.
A oposição, de imediato, convocou protestos para hoje. Espera novamente reunir milhares nas ruas, como no final do ano passado.
O empresário Mikhail Prokhorov, único candidato independente e terceiro colocado (8%), afirmou que seus observadores registraram mais de 4.000 irregularidades no pleito de ontem.
Em uma tentativa de maior transparência para evitar fraudes, a Rússia instalou pela primeira vez um sistema de transmissão ao vivo pela internet de seções eleitorais, observadas por câmeras.
Uma das falhas desse procedimento, como apontou Prokhorov, é que não há transmissão dos locais em que os votos são contados.
PUTIN CHORA
À noite, sob neve e temperaturas negativas, Putin, 59, declarou-se vitorioso em discurso na praça Manej, em frente ao Kremlin, para milhares de partidários.
Ex-agente da KGB (serviço secreto soviético) e faixa preta em judô, escolheu o vocabulário marcial para celebrar: "Nós vencemos uma luta aberta e honesta", disse, com lágrimas nos olhos.
Putin comanda a Rússia há 12 anos e chegou ao poder no fim de 1999, com a queda de Boris Ieltsin. Venceu as eleições de 2000 e de 2004 e, como o terceiro mandato consecutivo é proibido pela Constituição, fez seu sucessor, Dmitri Medvedev, conquistar a Presidência em 2008.
Medvedev então indicou Putin ao cargo de primeiro-ministro. Agora, ele tem a chance de permanecer mais 12 anos na Presidência, pois uma reforma constitucional aumentou o mandato de quatro para seis anos.
Observadores independentes disseram que seu trabalho foi cerceado.
Lilia Shibanova, diretora do Instituto Golos, a maior entidade de monitoramento das disputas eleitorais no país, disse à Folha que, pela manhã, seus telefones haviam sido bloqueados e até mesmo a senha do Skype da organização fora alterada.
Depois de depositar em uma urna transparente sua cédula de votação, em que escreveu que a Rússia precisa de eleições limpas, o ex-vice-premiê Boris Nemtsov, uma das principais vozes da oposição, afirmou que a disputa de ontem "foi uma imitação de eleição, assim como temos uma imitação de Poder Judiciário neste governo".
Questionado sobre um movimento como a Primavera Árabe, ele disse que o país precisará de "várias primaveras até ser uma democracia".

Colaborou MARINA DARMAROS

A grandeza de Eisenhower

Memorial planejado para homenagear o 34º presidente dos EUA não faz justiça a ele e dá mais destaque a aspectos de sua vida comum do que a seu heroísmo
  
ROSS, DOUTHAT,
THE NEW YORK TIMES
É ANALISTA POLÍTICO

Duas decisões serão tomadas este ano que, em longo prazo, influirão muito na maneira como entendemos a presidência. Em novembro, os eleitores decidirão se vão conceder um segundo mandato a Barack Obama. E, antes disso, em algum momento a National Capital Planning Commission decidirá se leva adiante o projeto de Frank Gehry de um Memorial a Dwight Eisenhower.

O projeto de Gehry é, bem, é típico do arquiteto: ele reelabora o modelo tradicional de um monumento usando imensas telas metálicas para retratar o ambiente da infância de Eisenhower no Kansas, ao passo que consagra um espaço muito menor às suas realizações na 2.ª Guerra e na Casa Branca. A única estátua importante vai retratar Eisenhower como um garoto de pés descalços, não um líder da guerra ou um presidente).

O projeto foi amplamente criticado - pela família de Eisenhower, por arquitetos tradicionalistas e articulistas de centro-direita como George Will e David Frum. Algumas críticas têm a ver somente com a estética, mas as mais importantes se referem à essência da obra: da forma planejada, o memorial subestima a grandeza do comandante supremo das forças aliadas.

O interessante, contudo, é que ao dar mais destaque a aspectos comuns da vida de Eisenhower do que ao seu heroísmo, Frank Gehry está sendo mais convencional do que radical. Da maneira como foi concebido, o seu monumento só vai confirmar, e não alterar, o lugar que Eisenhower ocupa hoje na memória nacional.

Como escreveu Philip Kennicott, do Washington Post, a visão de Gehry sugere que embora "Eisenhower tenha sido um grande homem, houve outros Eisenhowers por trás dele, outros homens que podiam fazer o que ele fez". Longe de uma reformulação corajosa da sua imagem, esse monumento é um resumo quase perfeito da maneira que muitos americanos veem hoje aquele que foi o 34.º presidente dos EUA.

Não quer dizer que os americanos não gostam de Eisenhower nem lembram com carinho do serviço que ele prestou. O novo livro Eisenhower in War and Peace, de Jean Edward Smith é a mais recente de uma série de biografias que se tornaram sucesso de vendas sobre Ike. Mas ele não é tão amado como muitos dos seus contemporâneos de meados do século. Como líder de guerra, ele foi ofuscado por Franklin Delano Roosevelt e por seus muitos subordinados pitorescos, e seus dois mandatos como presidente atraíram pouco daquele entusiasmo póstumo que fez do seu predecessor do "mostra para eles", um herói popular e do seu sucessor martirizado um ícone.

Numa pesquisa Gallup de 2011 sobre o maior presidente que o país já teve, Eisenhower ficou em 12.º lugar, empatado com Jimmy Carter. Ele tem um desempenho mais sólido nas pesquisas acadêmicas, mas com frequência vem sempre atrás dos seus proeminentes rivais do século 20.

Em parte, essa desvalorização resulta da persona política que Eisenhower cultivou - uma fachada simpática, de avô, que ocultava o mestre implacável da política. E em parte ela reflete o fato de a sua presidência jamais ter tido um acento fortemente ideológico. Os liberais (que preferiam Adlai Stevenson) comumente lembram o governo Eisenhower como um parêntese entre eras democratas heroicas, enquanto os conservadores (que defendem Robert Taft) sempre evocam a situação estática em que estavam antes da sua ascensão, que começou com Goldwater até Reagan.

Mas, enfim, Eisenhower é subestimado porque na Casa Branca sua liderança não se enquadrou no padrão de "grandeza" que muitos americanos esperavam dos seus presidentes. Não era um homem de grandes projetos, cruzadas corajosas ou tentativas para mudar a história do mundo. Não houve nenhuma "revolução Ike" na política americana, tampouco uma "Eisenmania" entre ativistas e intelectuais, nenhum realinhamento estilo Eisenhower.

Inversamente, sua grandeza manifestou-se nas crises que ele aplacou e nos erros que não cometeu. Não criou programas de dotações orçamentárias proibitivos, não adotou teorias econômicas implausíveis e não deixou déficits insustentáveis para seus sucessores. Ele pôs fim a um conflito paralisante na Coreia, manteve os EUA fora da guerra no Sudeste Asiático e rejeitou uma política nuclear arriscada na qual seu sucessor tropeçou. Não permitiu que uma série de crises no Oriente Médio levasse os americanos a uma intervenção ao estilo do Iraque.

Não arriscou sua presidência com roubos de terceira classe ou aventuras sexuais. Era resoluto quando necessário, mas seus sucessos - prosperidade, paz, avanços sólidos no campo dos direitos civis - foram quase sempre o fruto da precaução estratégica e inação magistral.

Talvez "outros homens" pudessem ter conseguido essa combinação de firmeza, competência e sucesso na administração de crises, como o projeto impessoal deste Memorial Eisenhower parece sugerir. Mas poucos ocuparam o Salão Oval nestes últimos 50 anos. Pelo contrário, desde a década de 60, passando pelas eras George W. Bush e Barack Obama - do "pagar qualquer preço, suportar qualquer fardo" ou o "você nunca deve desperdiçar uma crise grave" -, os vícios definidores da presidência moderna têm sido o orgulho excessivo, a irresponsabilidade e a ambição desmedida.

É por isso que a controvérsia envolvendo o memorial é de fato importante. Eisenhower merece um monumento que o coloque onde ele deve estar - na primeira fila de líderes americanos - porque é preciso lembrar a nação onde está a verdadeira grandeza de um presidente. Muitos políticos combinam a retórica exaltadora com grandes ambições. Mas são poucos o que têm os dons necessários para conduzir o navio do Estado mantendo-o longe das rochas e penhascos e, depois de oito anos, conduzi-lo indene ao porto. /
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

domingo, 4 de março de 2012

Sufocar o Irã

Hussain Ali Kalout

O estrangulamento econômico não fará o Irã desistir do seu programa nuclear, como mostra a Coreia do Norte, e cria um forte discurso interno antiocidental

O Ocidente iniciou uma guerra global econômica contra o Irã. Os resultados do bloqueio imposto pela União Europeia ao petróleo iraniano ainda são imprecisos.
Desde a Revolução Islâmica de 1979, o Irã convive incessantemente com virulentas ameaças das potências ocidentais contra a sua integridade territorial e autodeterminação.
Apesar das constantes sanções aplicadas contra o país, em diversos segmentos, os persas avançaram significativamente nos campos econômico, político, bélico e tecnológico, convertendo-se em uma potência influente em todo o Oriente Médio.
Nessa nova etapa de confrontação, o Irã tem a alternativa de diluir o excedente de um quinto de sua produção, que tinha como destino a Europa, em outros mercados.
A China e a Rússia deverão absorver parte significativa desses 20%. O restante deverá ser destinado a países asiáticos, africanos ou latino-americanos, a preço inferior ao de valor de mercado -preservando, porém, um lucro mínimo.
Para o mercado energético internacional, a alternativa para suprir esse déficit, e evitar a alta do barril do petróleo, recai sobre a Arábia Saudita, maior produtor mundial. O desafio é saber até que ponto o reino da família Al Saud terá disposição para repor essa demanda e qual será o custo para conter, no longo prazo, a elevação do preço do produto.
Na concertação estratégica americana e europeia, vislumbram-se dois objetivos de médio prazo.
O primeiro é fazer o governo Ahmadinejad sangrar até as próximas eleições, que ocorrerão em 2013, na expectativa da vitória de um líder mais pragmático e reformista. O segundo é aguardar os resultados eleitorais desse ano nos EUA e na França, protagonistas nessa nova etapa de confrontação com os iranianos.
Enquanto isso, o governo Ahmadinejad vai ganhando tempo para ampliar e diversificar as suas alternativas econômicas em outros mercados, como a América Latina, que ele recentemente visitou. Além de produzir um forte e popular discurso interno antiocidental, estratégico para se manter no poder.
O fechamento do estreito de Ormuz como medida retaliatória será uma cartada importante e complexa para o Irã. Mas o governo deixará essa opção como uma solução final nessa lógica de bate-rebate.
Lamentavelmente, o espaço para o diálogo está cada vez mais estreito diante do recrudescimento das posições dos dois lados. A proposta turco-brasileira teria sido uma alternativa viável para iniciar uma negociação satisfatória para todas as partes.
A atitude americana e europeia de repelir lideranças de países emergentes na condução de processos políticos internacionais importantes, sobretudo em zonas estratégicas sensíveis, acabou liquidando qualquer perspectiva de diálogo.
A diplomacia brasileira se demonstra cautelosa com o tema, sem apresentar a mesma retórica no que tange à questão nuclear iraniana. Hoje, uma proposta brasileira no âmbito dos Brics terá maior consistência na busca de uma alternativa mais assertiva.
Medidas de estrangulamento econômico não forçarão os iranianos a desistirem de seu programa nuclear. O exemplo da Coreia do Norte só reforça essa perspectiva. Após anos de fortes pressões e hostilidades, o país asiático renunciou ao Tratado de não Proliferação de Armas Nucleares e fabricou a bomba atômica.
O tema nuclear se tornou questão de sobrevivência e de autodeterminação para os iranianos. Há três décadas, o Irã optou por legar a sua segurança e o seu desenvolvimento à formação de uma sociedade construída por soldados e engenheiros.
Os fantasmas da década de 1950 e o espírito de Mohammad Mossadegh ainda permanecem vivos na psique iraniana.

HUSSEIN ALI KALOUT, 35, é cientista político, professor de relações internacionais e secretário de relações internacionais do Superior Tribunal de Justiça 

Transição difícil

Editoriais da Folha de São Paulo

China precisa enfrentar reformas nos próximos anos a fim de evitar desaceleração do crescimento que seria desastrosa para o mundo

A ascensão da economia chinesa não tem paralelo, em rapidez ou extensão. Em apenas dez anos, passou de uma posição secundária na ordem econômica mundial para se tornar o maior produtor e exportador global de manufaturas.
Em 2000, a produção industrial chinesa equivalia a 30% da americana. Em 2008, já a tinha suplantado. Nesse processo, retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza, acumulou US$ 3 trilhões em reservas internacionais e alcançou a posição de grande credor do mundo desenvolvido.
O sucesso recente trouxe distorções, que não são ignoradas pela ditadura chinesa. O modelo de crescimento é marcado por forte restrição ao consumo das famílias e por crédito abundante para empresas estatais, a custo subsidiado.
Tantos recursos disponíveis engendram uma tendência crônica ao investimento excessivo, em setores como construção civil e infraestrutura. Teme-se que muitos dos projetos se mostrem pouco rentáveis, o que levaria a uma montanha de créditos impagáveis.
O risco que ronda o modelo chinês é o da desaceleração abrupta, que teria consequências nefastas para a fragilizada economia global. Estudo recente do Banco Mundial aponta a urgência de realizar ajustes nos próximos anos.
Não é pequeno o desafio de reformar a economia para conter sua dependência do investimento estatal, aumentar a parcela do consumo familiar e reforçar estruturas de proteção social, como saúde e aposentadoria.
Será imperativo direcionar mais crédito para pequenas e médias empresas privadas, abrir mercados hoje fechados à concorrência e criar agências de regulação profissionalizadas -entre outras inovações. A China está cada vez mais próxima de alcançar a fronteira tecnológica e, portanto, tem menos oportunidades de crescer apoiada em mão de obra barata e dirigismo governamental. De ora em diante, o peso do Estado pode se tornar contraproducente.
A transição será difícil porque há muitos interesses estabelecidos. Uma abertura financeira, por exemplo, reduzirá o poder dos burocratas que controlam bancos oficiais. Tentativas de forçar as estatais a distribuir parcela de seus lucros também enfrentam objeções.
O novo modelo, que será desenvolvido gradualmente, implicará uma mudança qualitativa na economia chinesa. O crescimento será menos voltado para a infraestrutura consumidora de matérias-primas, como o minério de ferro, e mais concentrado em tecnologia e serviços. A renda continuará a crescer, os hábitos de consumo se sofisticarão e o país será o maior comprador mundial.
O Brasil precisa se preparar para tais mudanças. Exportações de minério perderão terreno, mas a agropecuária poderá ser ainda mais beneficiada. Para a indústria nacional, a prioridade é reconquistar o mercado interno e regional, tomado pelas crescentes importações asiáticas.

Uma voz uníssona e congelada no tempo

Desde o fim da ditadura, presidentes civis têm sido complacentes com os atos de indisciplina e com a inércia das Forças Armadas

Maria Celina D'Araujo

Na década de 1950, em plena guerra fria, o Clube Militar era tema constante nas primeiras páginas dos grandes jornais. Ali se debatiam "os grandes temas nacionais" e se organizavam chapas para a diretoria do Clube que expressavam os debates político-ideológicos da época: estatização do petróleo, guerra da Coreia, abertura da economia, nacionalismo, protecionismo, anti e pro getulismo, etc. A derrota ou a vitória de uma dessa chapas no Clube significava ganhos ou perdas para o governo ou a oposição.

Depois do golpe civil-militar de 1964, o Clube dedicou-se a manifestações "cívicas" que faziam a defesa do regime e do anticomunismo mas tudo começou a mudar com a redemocratização em 1985. O Clube transformou-se então em um espaço de defesa da ação militar durante a ditadura civil-militar e assim tem sido até hoje. Vem, desde então, praticando o discurso único: as Forças Armadas "salvaram o Brasil" e o que foi feito ou como foi feito não pode ser objeto de questionamento. A voz uníssona e congelada no tempo tem sido mantida nos comunicados do Clube ao longo de duas décadas de democratização. Parece um disco quebrado.

O Clube Militar foi fundado em 1887, dois anos antes da proclamação da República que ajudou a fundar por meio de um golpe militar, e reúne representantes das três Forças. Sintomaticamente tem ainda como sub-denominação "A Casa da República". A palavra casa remete a esfera privada, assuntos íntimos, espaço da autonomia e da soberania particular de uma família ou grupo. O Clube nasceu assim, concebendo a República como assunto privativo dos militares. A "Casa" que deveria protegê-la era a dos militares. Da mesma forma, a "Casa" deveria protegê-los.

Nas últimas semanas, temos observado uma ampla circulação de notas e pronunciamentos do Clube bem como reações da Presidência da República e do Ministério da Defesa. Resumindo, representantes da reserva das três Forças lançaram nota criticando a presidente Dilma Rousseff por ser complacente com pronunciamentos de auxiliares diretos favoráveis à punição de torturadores; a presidente pediu ao ministro da Defesa para censurar a nota; o Clube reagiu dizendo que o ministro não tinha autoridade ou legitimidade; a presidente pediu punições, etc. O que está em jogo em meio a esses atos de indisciplina, censura, indelicadeza e falta de civilidade? Vou listar algumas razões.

Em primeiro lugar, a recorrente defesa militar da Lei da Anistia na forma como foi concebida em 1979 e mantida até hoje por meio de recente decisão do STF. Ou seja, impedindo que os agentes do Estado que praticaram tortura ou outras formas de desrespeito aos direitos humanos sejam levados a julgamento.

Em segundo, a crítica à Comissão da Verdade criada em novembro do ano passado que, sem pretensão punitiva, visa identificar o destino de mortos e desaparecidos no Brasil - cerca de 370. O Clube, assim como alguns partidários da punição aos torturadores, entende que a Comissão pode ser uma brecha para possíveis ações cíveis.

Em terceiro, está claro que embora o Clube seja o porta-voz dos militares para temas corporativos, a Força mais empenhada em manter o status quo é o Exército. Os governos militares foram governos de generais. Os assinantes dos manifestos do Clube são basicamente dessa Força. Menos de 10% dos signatários pertencem à Marinha ou à Aeronáutica. O Exército foi a Força mais envolvida na política e na repressão durante a ditadura civil-militar e a que mais ecoa a ideia de que precisa ser protegida pela "Casa".

Em quarto, o episódio reflete a falta de comando político e civil dos presidentes eleitos desde o fim da ditadura sobre as Forças Armadas. Todos os presidentes civis foram complacentes com atos de indisciplina e com a inércia que marcam a instituição. Houve uma postura comodista: "Não vamos mexer com os militares porque eles podem causar problemas". Com isso, manteve-se certa autonomia nas questões militares e incentivou-se as Forças Armadas a continuarem tendo poder de veto em questões políticas.

Em quinto, observa-se que os grandes ausentes em todo esse debate são o Congresso Nacional e os partidos políticos. Os temas da verdade histórica, da possível revisão da Lei de Anistia ficaram afeitos ao Executivo e ao Judiciário. Lembre-se o óbvio: o Legislativo é único órgão que pode fazer ou refazer leis.

Finalmente, este é mais um episódio de uma história longa de déficits no controle político e democrático das Forças Armadas no País. O que está em jogo não são apenas as possíveis ações cíveis que possam advir da Comissão da Verdade, mas a autoridade dos poderes democráticos no sentido de decidir sobre temas de direitos humanos e de construção de uma visão menos arrogante, de todas as partes, sobre quem pode falar pela história.

A Comissão da Verdade propõe-se a apurar o que aconteceu com nossos mortos e desaparecidos. Este direito não pode ser negado às famílias. O que vier depois daí poderá ser objeto de novos debates e embates. Assim é a vida. Melhor debater, rever, reconstruir do que fazer a defesa inerte de um "dever envergonhado" que compromete a estatura, a imagem do País, mas principalmente, nossos valores humanos.
   
MARIA CELINA DARAUJO É DOUTORA EM CIÊNCIA POLÍTICA, PROFESSORA DA PUC-RIO

O pouso do condor

Informações sobre a colaboração entre regimes autoritários na violação de direitos humanos não podem ser sonegadas ao cidadão
  
Glenda Mezarobba

A intenção sinalizada na última semana pelo ministro das Relações Exteriores do Uruguai, Luis Almagro, de solicitar ao Brasil arquivos sobre cidadãos uruguaios mortos e desaparecidos durante a ditadura militar, de certa forma antecipa prática que já pode ser considerada imprescindível quando aqui for instalada a Comissão Nacional da Verdade. Conforme prevê a lei 12.528, sancionada pela presidente Dilma Rousseff no final do ano passado, para a execução de seus objetivos, dentre outras prerrogativas, a comissão poderá "promover parcerias com órgãos e entidades, públicos ou privados, nacionais ou internacionais, para o intercâmbio de informações, dados e documentos". Quando se trata de violações em massa de direitos humanos como as ocorridas na América do Sul, a necessidade de cooperação entre países não deve ser vista como medida exagerada, tampouco reduzida à mera tendência de internacionalização, que parece abarcar todo tipo de atividades e relações neste início de século. Deve ser pensada, isso sim, como indicativa da inevitabilidade de se recorrer a fontes múltiplas de informação para que seja possível compor para esclarecer, no limite do possível, o cenário de horror construído de forma clandestina, sob o patrocínio de operações como a Condor.

Nesse sentido, a tarefa pode envolver, além do próprio Brasil, não apenas os países diretamente comprometidos com a aliança repressiva, como Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai, mas todos aqueles que reúnam documentos do período, como os Estados Unidos, nações que integraram a URSS e Cuba. Para ativistas de direitos humanos e acadêmicos que participaram do debate que antecedeu a elaboração do projeto de lei de criação da Comissão da Verdade, se bem conduzido, o acesso a documentos produzidos pela burocracia, pela diplomacia ou pelo serviço secreto de nações que exerceram protagonismo durante a Guerra Fria, por exemplo, pode contribuir para revelar práticas do arbítrio, determinar padrões de violência, elucidar casos de desaparecimentos e mortes que seguem obscuros e indicar ou mesmo definir responsabilidades. Nesse sentido, o tempo deverá funcionar como aliado, propiciando acesso a documentos oficiais e dados de governos disponíveis em arquivos de inteligência que possivelmente não estarão mais protegidos pela quarentena imposta pelo período de sigilo legal - ou seja, já teriam sido desclassificados.

Na verdade, de forma mais discreta, e sob o patrocínio de distintas instituições, há algum tempo o Brasil está envolvido com a troca de informações relativas aos crimes do período. No início dos anos 90, por exemplo, para apurar casos abrangendo a morte e o desaparecimento de brasileiros no exterior, a Comissão de Representação Externa de Busca dos Desaparecidos Políticos, instalada na Câmara Federal, viajou à Argentina e ao Chile, onde encontrou o atestado de óbito de um paulista que havia desaparecido nos anos 70. Integrante do Partido Operário Comunista (POC), ele estava no país havia menos de um ano, quando foi sequestrado pela Força Aérea Chilena. Mais recentemente, em 2011, Ivan Marx, procurador da República no Rio Grande do Sul, obteve documentos que estavam no chamado Archivo del Terror, conservado pelo Centro de Documentación y Archivo para La Defensa de los Derechos Humanos, localizado na sede do Poder Judiciário do Paraguai. Para tanto, valeu-se da Convenção Interamericana sobre Assistência Mútua em Matéria Penal, a Convenção de Nassau, aprovada por países-membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) há cerca de 20 anos. De acordo com seu protocolo facultativo, os Estados que fazem parte da convenção "não exercerão o direito de recusar pedidos de assistência", quando o pedido for feito por outro Estado Parte no protocolo.

Se não se pode pensar em democracia sem transparência e acesso à informação e se em uma democracia a produção e o acúmulo de informações oficiais só faz sentido à luz da noção de que o poder público mantém tais informações em benefício do conjunto de cidadãos, e não como instrumento para resguardar ou atingir seus próprios interesses, Almagro está certo ao indicar, em Genebra, que chegou a hora de corrigir a rota de voo do condor: "Agora, precisamos ir no sentido inverso e usar o fato de que somos democracias para contribuir justamente na troca de informações". Na interlocução com o Brasil, isso pode significar, por exemplo, o interesse em conhecer, com mais exatidão, o papel desempenhado pelos militares nas eleições presidenciais de 1971, no Uruguai. Documentos da administração do presidente americano Richard Nixon (1969-1974), desclassificados há cerca de dez anos, indicam atuação contundente do Brasil, então comandado pelo general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), e voltada para influenciar o resultado do pleito daquele ano no país.

Em síntese, ao lidar com o passado, o Brasil tem pela frente nova oportunidade para refletir que tipo de compromisso quer estabelecer com o futuro e, quem sabe, de avançar no esforço coletivo de transformação social e institucional. Talvez ajude lembrar que, de acordo com a Constituição Federal, a cidadania e a dignidade da pessoa humana constituem importantes fundamentos do Estado brasileiro. E que, dentre outros princípios, em suas relações internacionais o País se orienta pela prevalência do respeito aos direitos humanos.

GLENDA MEZAROBBA É CIENTISTA POLÍTICA,  PESQUISADORA DA UNICAMP, DO INCT-INEU

Um aperto de mão impensável na 1ª página

Manchetes e editoriais narraram a visita do presidente Nixon à China em 1972

Lizbeth Batista
DO ARQUIVO

SÃO PAULO - Em 1970, o presidente Richard Nixon expôs ao Senado dos EUA sua estratégia de paz: reduzir a presença militar americana no mundo, começando pelo velho continente, e criar um equilíbrio entre polos globais de poder. Para pavor dos aliados europeus, que viam Moscou cada dia mais perto da supremacia nuclear, a "Doutrina Nixon" soava como a capitulação. Houve quem anunciasse o fim da Guerra Fria.

Mas os EUA, num movimento inesperado, mudaram o jogo, convidando mais jogadores ao tabuleiro. E para realizar essa difícil manobra, Nixon fez algo na categoria do inimaginável: em 1972, ele foi à China.

O encontro com Mao Tsé-tung e com o primeiro-ministro chinês, Chu En-lai, eram eventos de suma relevância mundial, acontecimentos históricos. Para registrá-los, um show midiático foi armado. Era de se prever que a cobertura jornalística fosse disputada a tapa. Jornalistas falam do frenesi das redações e da disputa por credencias.

A comitiva acertou no roteiro e na apresentação, as imagens da visita suavizaram inquietações. Fotógrafos e repórteres registraram tudo: brindes celebrando os laços refeitos; Nixon no teatro com Madame Mao; o casal presidencial americano posando para fotos na serpenteante Muralha da China; a primeira-dama dos EUA, Pat, comprando porcelana para casa e pijamas de seda para o marido, enquanto ele se deliciava almoçando pato laqueado.

No dia 22, os leitores viram na capa do Estado a cena mais ansiada: o aperto de mão de Nixon e Mao. Cada dia da viagem, cada passo da negociação foi extensivamente noticiado. Só uma tragédia tirou Nixon das manchetes: o incêndio no Edifício Andraus.

A cobertura mostrou o lado encantador e amistoso da China, exatamente como a assessoria de imprensa de Washington planejou. Mas não falhou em analisar cada movimento de Nixon, decodificando a intenção política por trás de seus passos. Oito editoriais discutiram e apontaram os diversos ângulos e revezes da aproximação entre os dois gigantes.

Dependência e rivalidade aos olhos dos EUA

Chineses são vistos em Washington como parceiro comercial, mas, ao mesmo tempo, como ameaça à economia

Gustavo Chacra
CORRESPONDENTE / NOVA YORK

NOVA YORK - Quatro décadas depois da diplomacia do pingue-pongue entre Richard Nixon e Mao Tsé-tung restabelecer os laços entre China e EUA, os chineses são vistos em Washington através de duas lentes: a do parceiro comercial e cliente fiel, mas, ao mesmo tempo, a do adversário que ameaça a economia, a segurança e mesmo os valores americanos.

No lado positivo das relações sino-americanas, as exportações dos EUA para a China cresceram 380% na primeira década deste século. Hoje, Pequim é o segundo maior parceiro comercial de Washington. Juntamente com Hong Kong, os chineses detêm mais de US$ 1 trilhão em títulos da dívida pública americana.

Os EUA, porém, também observam lados negativos na relação. Se as exportações para China quase quintuplicaram, o déficit na balança comercial cresceu 329%. O fato de os chineses possuírem tantos títulos americanos deixa Washington dependente de Pequim, na avaliação de muitos economistas.

Na política externa, os EUA e a China têm muitos objetivos em comum, embora visões de mundo largamente distintas. "Ambos concordaram na oposição aos programas nucleares do Irã e da Coreia do Norte, mas divergem sobre a tática para os reverter. Trabalharam juntos para manter a paz na Península Coreana e no Estreito de Taiwan, mas veem a Primavera Árabe de forma distinta", diz Jeffrey Bader, do Brookings Institution, de Washington.

Essa "esquizofrenia" da relação com a China, que ao mesmo tempo ajuda e ameaça a economia americana, além de adotar uma diplomacia que coincide e colide com a de Washington, leva o governo chinês a ser encarado com cautela nos EUA.

O reflexo dessa imagem perpassa dos pré-candidatos republicanos ao movimento Ocupe Wall Street. Mitt Romney, favorito para encarar o presidente Barack Obama em novembro, publicou editorial no Wall Street Journal afirmando que, se eleito, combaterá "as práticas abusivas do governo chinês no comércio, propriedade intelectual e política monetária". Rick Santorum, segundo colocado e apoiado por facções conservadoras do Tea Party, diz que "não aceitará que a China continue desrespeitando os direitos humanos".

Em Nova York, durante o acampamento do Ocupe Wall Street, que representa setores da esquerda americana, manifestantes seguiam na mesma linha dos seus adversários direitistas. A China seria cúmplice do aumento do desemprego americano ao baratear a mão de obra por meio do trabalho infantil e da fragilidade de direitos trabalhistas. Mesmo na educação, os americanos passaram a se fixar na emergência da China.

A estridência das críticas fez Henry Kissinger, secretário de Estado de Nixon e artífice da aproximação de 1972, sair das sombras. Ele recentemente publicou um livro sobre a questão - On China, ou Sobre a China, em tradução livre - e, em artigo na revista Foreign Affairs, disse que "os dois lados devem entender que as ações de cada um deles faz parte do cenário internacional e não são causa para alarme".

Jon Huntsman, republicano que foi embaixador de Obama em Pequim, lamenta o discurso anti-China.

"É muito mais fácil falar de China usando o medo do que a oportunidade. Na realidade, nos últimos 40 anos, temos sentado à mesa para negociar com Pequim e isso tem funcionado. Não devemos partir para uma relação conflituosa."

De volta ao mundo, China se modernizou

Até o encontro, a China comunista havia lutado seis guerras, uma delas contra os EUA

Cláudia Trevisan
CORRESPONDENTE / PEQUIM

PEQUIM - A mais importante relação bilateral de hoje começou a ser construída há 40 anos, quando o então presidente dos EUA, Richard Nixon, foi recebido em Pequim pelo líder comunista Mao Tsé-tung – encontro que surpreendeu o mundo e abriu caminho para a futura integração da China à economia capitalista.

A reaproximação começou com a visita da equipe americana de pingue-pongue à China, em abril de 1971. A ida de Nixon a Pequim, entre fevereiro e março de 1972, indicou que o republicano da Califórnia e o revolucionário da Província de Huan estavam mesmo determinados a encerrar uma era de silêncio.

Os dois países tinham um adversário comum, a URSS, o que facilitou a aproximação apesar das diferenças ideológicas. "Nixon deu garantias de segurança a Mao, o que permitiu que ele abandonasse sua política de confrontação", disse Jin Canrong, da Universidade do Povo da China. Ele lembrou que, até aquele momento, a China comunista havia lutado seis guerras, uma delas contra os EUA (a da Coreia).

O professor avaliou que sem essa mudança seria difícil para a China embarcar no processo de reformas que teria início alguns anos mais tarde. "Dois anos depois da visita, o premiê Zhou Enlai defendeu as chamadas Quatro Modernizações", lembrou, em referência ao slogan que englobava agricultura, indústria, defesa, ciência e tecnologia.

Em 1972, Nixon desembarcou numa China isolada, pobre e ainda imersa na turbulência da Revolução Cultural (1966-1976), cuja propaganda apresentava os americanos como odiosos imperialistas. Os dois países não tinham relações e os EUA eram – e são – os principais protetores de Taiwan, a ilha na qual se refugiou o maior inimigo de Mao, Chiang Kai-shek, depois de sua derrota para os comunistas na guerra civil encerrada em 1949.

Shi Yinhong, da Universidade do Povo da China, avalia que os dois lados conseguiram atingir seus objetivos com a visita, cuja repercussão ultrapassou o relacionamento bilateral. "A vinda de Nixon à China abriu a porta para a normalização de relações com vários países."

O Brasil, por exemplo, reconheceu a China em 1974 e os EUA, em 1979. No ano anterior à visita de Nixon, Pequim havia recuperado o assento do país na ONU, que desde 1945 era ocupado por Taiwan.

Dragão adormecido. A visita também pavimentou o caminho para o processo de reformas que decolaria em 1978 sob o comando de Deng Xiaoping e integrariam a nação comunista à globalização. Hoje a China é a segunda maior economia do mundo e a interdependência com os EUA ultrapassa o que os mais enlouquecidos otimistas poderiam imaginar há 40 anos.

Mas o tempo não foi suficiente para acabar com a desconfiança mútua, que se agravou desde a crise de 2008, o fortalecimento da China e a determinação americana de reforçar sua presença na Ásia. "O atual nível de confiança não reflete a amplitude e a profundidade da relação bilateral", observou Jia Qingguo, da Universidade de Pequim.

Muitos analistas e políticos em Washington estão convencidos de que Pequim tentará modificar a ordem internacional construída pelos EUA depois da 2.ª Guerra, da qual a China foi um dos principais beneficiários. Na mão contrária, os chineses acreditam que a maior potência global tentará impedir sua emergência e manter o status quo criado à sua imagem e semelhança.

Os anos passam, ele fica

Gilles Lapouge
O Estado de S.Paulo

A Rússia vai às urnas hoje. O país elegerá Vladimir Putin, ex-diretor da KGB soviética, que chegou ao cargo mais alto do país graças a Boris Yeltsin, em 1999. Em 2008, depois de cumprir dois mandatos presidenciais, Putin não podia voltar a se candidatar. Então cedeu o lugar à sua "criatura", Dmitri Medvedev, e tornou-se primeiro-ministro do pupilo.


Hoje, acontece o contrário: Putin pôde voltar a se candidatar e se tornará presidente. E quem ele escolherá para o cargo de premiê? Dmitri Medvedev. Seu país é bem administrado, bem programado e Putin é um homem que enxerga longe. Na manhã de quarta-feira, quando recebeu todo sorridente e afável em sua "dacha", a poucos quilômetros de Moscou, jornalistas estrangeiros perguntaram se o atual premiê se candidatará novamente à presidência em 2018. Putin respondeu com simplicidade: "Seria normal, se as coisas correrem bem e as pessoas quiserem isso. Não sei. Ainda não refleti sobre isso". Se optar pelo quarto mandato, ele comandará a Rússia por 25 anos.

Putin deve ser eleito hoje. As pesquisas atribuem-lhe 66% das intenções. Mas essa cifra não significa nada. A Rússia de Putin é uma imensa fraude. Nas últimas eleições legislativas, seu partido, Rússia Unida, obteve 49% dos votos, mas os observadores mais honestos garantem que na verdade só recebeu entre 31% e 32% dos votos. A ONG Golos, que combate as fraudes, acusa: "O Kremlin está organizando uma histeria em massa acusando as ONGs e a oposição de trabalhar para estrangeiros".

O diagnóstico está correto. Putin introduziu no seu jogo a desconfiança que os russos nutrem por todos que vêm de fora. A xenofobia, tão ardentemente encorajada nos tempos da URSS, é seu melhor trunfo. O chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov, disse: "A Rússia acabará com todas as tentativas dos Estados Unidos de influir no processo eleitoral". E acrescentou em tom ameaçador: "Os tempos em que Washington podia nos ensinar alguma coisa já passaram".

Os anos passam e Putin permanece. Poderíamos também dizer: os milênios passam, os comunistas substituem os czares, Putin substitui os comunistas e a Rússia continua sendo esmagada por autoritarismo, fraude, injustiça e resignação. Recentemente, as ruas se inflamaram contra o reinado de Putin. Aos milhares, os rebeldes assustaram o poder. Depois da longa "glaciação", estas manifestações se assemelharam a uma primavera. Mas que ninguém se iluda.

As manifestações de protesto só ocorreram em Moscou e nas grandes cidades, nas quais surgiu uma classe instruída, jovem, independente, necessitada de ar fresco.

No interior, persiste o antigo torpor russo. Ali, as pessoas votarão em Putin, principalmente porque representantes de Putin estarão agindo no meio da massa. É um fenômeno curioso: frequentemente, nas zonas rurais, as pessoas lamentam os tempos dos kolkozes, do comunismo. Todo mundo tinha trabalho, podia esperar uma aposentadoria. "Naquela época, as estradas estavam bem conservadas, os jardins cheios de flores", afirmaram ao enviado especial do Figaro os camponeses de Semiluki, ao sul de Moscou. O repórter pergunta:

"Então, vocês votarão no candidato comunista, Gennadi Ziuganov? - Ah, não, de jeito algum, ele não vai poder trazer o passado de volta.

- Então, votarão em quem?

- Em Putin".

 / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA         

A moratória norte-coreana

O Estado de São Paulo

O acordo a que os Estados Unidos e a Coreia do Norte chegaram na semana passada, em negociações secretas na China, pode ser mais do que "um primeiro passo positivo" para a desnuclearização da Península Coreana, como o qualificou um porta-voz da Casa Branca - o que já seria de bom tamanho. Pyongyang não há de ter trocado a suspensão dos seus testes nucleares e das atividades de enriquecimento de urânio na central de Yongbyon, ao norte da capital - abrindo-a, além do mais, aos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), das Nações Unidas -, apenas pelo proverbial prato de lentilhas. No caso, as 240 mil toneladas de "suplementos alimentares" que os EUA ficaram de despachar ao país pária onde 1,5 milhão de pessoas morreram de inanição na década de 1990 e a subnutrição afeta 25% dos habitantes (e 47% da população infantil).

Deve ser verdade, mas não toda a verdade, que a peculiar ditadura stalinista-monárquica norte-coreana precisa literalmente alimentar a lealdade dos seus súditos neste ano em que o regime se prepara para comemorar com eventos de massa e demonstrações de prosperidade o centenário de nascimento do fundador do país, Kim Il-sung, venerado como deus-pai. Para o seu neto de presumíveis 28 anos, Kim Jong-un, que herdou o poder em dezembro passado com a morte súbita do pai, Kim Jong-il, quase tão divinizado como o criador da dinastia, as celebrações serão o primeiro grande teste - a aparência de fartura mostrando-o em condições de seguir as pegadas de seus antecessores. É impossível saber se Jong-il já pensava no futuro do filho ou em sua própria glória quando autorizou a retomada das conversações com os americanos em julho de 2011. Mas o fato é que seu herdeiro (ou quem quer que seja o seu mentor) se apressou a levá-las a bom termo.

Com isso, emitiu um sinal suficientemente nítido para ser visto não só em Pyongyang e Washington, mas também em Seul, Pequim, Tóquio e Moscou, as capitais do sexteto diretamente envolvido com a questão coreana, de que lhe convém, pelo menos neste começo de mandato, antes a distensão do que a beligerância. São, por sinal, os polos entre os quais de há muito se move desigualmente a política externa norte-coreana. Os anos recentes, nesse sentido, foram de crispação. Em 2003, o regime abandonou o Tratado de Não Proliferação Nuclear a que havia aderido em 1985 e anunciou a sua intenção de fazer a bomba. Em 2006, contrariando promessas, explodiu o seu primeiro artefato. Repetiu a dose em 2009, depois de expulsar os fiscais da ONU, e deixou a mesa do Grupo dos Seis. Os incidentes se multiplicaram, em seguida ao afundamento de uma corveta sul-coreana em águas disputadas pelos dois países.

Pyongyang teria em estoque de seis a oito bombas de plutônio e um número não sabido de mísseis com alcance de 5 mil quilômetros. Com 1,2 milhão de soldados, o seu exército é o quarto maior do mundo. Na realidade, com atos hostis ou apaziguadores, a Coreia do Norte sempre teve um único objetivo estratégico: ser reconhecida e tratada de igual para igual pelos grandes deste mundo. Nada menos do que isso acalmará a paranoia dos dirigentes do Estado que se tornou pária por seu próprio isolacionismo e por incentivar a desestabilização da ordem internacional. Bizarra forma de buscar o respeito alheio, mas assim é que funciona o mais inescrutável e tenebroso sistema político do mundo, movido a megalomania, fanatismo e terror. Só se pode especular sobre até onde irá a elite militar do país - a sua força hegemônica - para promover a tratado de paz o armistício de 1953 com o vizinho do sul, depois da feroz guerra de três anos que envolveu tropas chinesas e americanas, e a normalização das relações com os Estados Unidos.

No entanto, nem Washington está pronto para isso nem Pyongyang pretende desativar as suas bombas. Mesmo a moratória nuclear, anunciou a Coreia do Norte, dependerá do prosseguimento de "diálogos produtivos".