quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Mídia do Equador lida com 'imperador', diz SIP

Sociedade Interamericana de Imprensa afirma que presidente Rafael Correa trata jornalistas como delinquentes ao conceder-lhes perdão

GUILHERME RUSSO
O Estado de S.Paulo

Apesar de o presidente equatoriano, Rafael Correa, ter pedido a revogação de penas contra o jornal El Universo, três de seus diretores e um ex-editor - e de a Justiça ter arquivado o caso ontem -, a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) está preocupada com as condições da liberdade de expressão no país. "Respondem aos desígnios de um imperador magnânimo", disse ontem Claudio Paolillo, do comitê executivo da entidade.

Em nome da SIP, Paolillo afirmou que "o 'perdão' de Correa foi uma resposta às entidades de defesa de liberdade de imprensa e veículos de comunicação". "Todo o mundo estava horrorizado, ele (o presidente) não tinha outra opção para remediar o ridículo que o Equador estava passando. Teve de ceder a essa pressão", disse.

O diário equatoriano havia sido multado em US$ 40 milhões e os jornalistas Carlos, César e Nicolás Pérez, que são irmãos, e o ex-editor Emilio Palacio foram condenados a 3 anos de prisão por "injúria", após a publicação de um artigo que qualificou Correa como "ditador" e acusou o presidente de crimes contra a humanidade durante a repressão a uma revolta policial, em 2010.

O líder equatoriano também suspendeu uma ação contra os dois jornalistas autores do livro O Grande Irmão, que denuncia irregularidades em contratos de Fabricio Correa, irmão do presidente, com o governo do país.

Para Paolillo, o líder "dispôs desse subterfúgio (do perdão presidencial) como se fosse um imperador romano". "A mensagem é que ele perdoou delinquentes, que agiram de maneira errada. Mas os profissionais apenas exerceram seu direito de liberdade de expressão. E não há nada de mau nisso."

Analistas afirmam que "fatores políticos internos", como a votação presidencial prevista para fevereiro de 2013, quando Correa possivelmente tentará a reeleição, também contribuíram para o perdão aos jornalistas e ao Universo. "Ele deve ter recebido sinais de que sua credibilidade estava sendo afetada", disse à France Presse Hernán Reyes, da Universidade Andina Simón Bolívar.

"O que os cidadãos equatorianos não podem perder de vista é que se mantém o precedente de que um presidente coage a imprensa de seu país com ameaças legais", afirmou o presidente da SIP, Milton Coleman, em um comunicado oficial divulgado pela entidade. "A liberdade de imprensa é um direito humano inerente e não existe simplesmente porque um presidente deseja concedê-la como um favor especial." Emilio Palacio, um dos três jornalistas envolvidos no processo, disse ontem à noite que manterá seu pedido de asilo político aos EUA porque no Equador enfrenta outras demandas por "perseguição" de Correa.

As ONGs Associação Mundial de Jornais e Editores de Notícias, Repórteres sem Fronteiras e Human Rights Watch também criticaram os processos de Correa contra o Universo e os jornalistas.

O chanceler equatoriano, Ricardo Patiño, disse que convidará a presidente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Dinah Shelton, para ir a Quito, para "que ela venha constatar que a liberdade de expressão não está em perigo" no país. / COM AFP

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Trabalho intensivo nas manufaturas irá migrar da China

Entrevista com  Michael Spence

Nobel de economia americano afirma que fenômeno já aconteceu anteriormente com países como o Japão e a Coreia do Sul

VERENA FORNETTI
DE NOVA YORK


Para o economista americano Michael Spence, ganhador do Nobel em 2001, o discurso de que a China rouba empregos dos outros países não faz sentido. Para ele, a atração de mão de obra barata não é boa estratégia econômica.
Spence ainda afirma que o país asiático está prestes a deixar de ser a fábrica barata do mundo. Segundo ele, a tendência é que outros emergentes, em fases anteriores de desenvolvimento, assumam esse papel, conforme já aconteceu com outros centros manufatureiros nas décadas passadas.
O especialista também argumenta que os países emergentes estão mais ricos e mais conectados uns com os outros e que tendem a se desassociar da crise na Europa.
Ele diz que o Brasil pode sustentar seu crescimento econômico, mas deve ficar atento à diversificação da economia.
Veja trechos da entrevista que Spence concedeu à Folha, por e-mail.
Folha - A crise econômica de 2008 se espalhou rapidamente em todo o mundo e terminou de forma relativamente rápida em países como o Brasil. O sr. acha que a crise atual será mais longa?
Michael Spence - A crise tinha uma história de alavancagem excessiva, desequilíbrios e problemas estruturais. A crise atual é em parte uma extensão das mesmas questões. Se a Europa avançar, será menos grave. Haverá apenas um período longo e difícil de ajustamento estrutural para restaurar padrões sustentáveis de crescimento e emprego. Mas outro cenário é uma grande recessão na Europa causada por uma incapacidade de lidar com as questões da zona do euro. Nesse segundo cenário, a crise será dura e de longo prazo.
Qual é o caminho para evitar esse cenário mais duro?
Não existe maneira de certamente eliminar os riscos do cenário pessimista. Se a Grécia eventualmente sair, criará riscos de contágio. Mas o fator principal para controlar o risco é conduzir reformas bem-sucedidas na Itália e na Espanha. E ter a Alemanha e o Banco Central Europeu de volta para estabilizar bancos e dívidas dos governos, com o FMI (o que significa o resto do mundo) apoiando. As reformas institucionais para a disciplina fiscal também têm que prosperar. Se todas essas coisas funcionarem, o risco permanece em nível controlável. Mas devo dizer que haverá retração econômica por um ano ou dois, mesmo no cenário mais positivo.
O senhor vê a possibilidade de diminuição no número de países que compõem a zona do euro?
Definitivamente sim. Os líderes estão tentando evitar esse desfecho, mas eu não acho que seja sábio. Nem é bom para Grécia e provavelmente tampouco para Portugal. Uma zona do euro menor e mais homogênea poderia ser um bom resultado. Ela poderia se expandir depois. Mas realmente eles têm que elaborar um mecanismo de ajuste para quando os países deixam de ser competitivos e têm problemas de produtividade. Ninguém tem uma boa resposta para essas questões ainda.
O senhor acha que os países emergentes vão repetir o desempenho que tiveram na crise passada, quando mantiveram a demanda por commodities e garantiram algum crescimento global?
Há desaceleração nas economias emergentes, mas é relativamente leve até agora. Deve haver uma espécie de repetição do desempenho pós-2008, desde que a Europa avance.
Os fatores que garantiram o crescimento de países como China, Índia e Brasil podem ser sustentados agora? E por quanto tempo?
Indefinidamente. São países saudáveis fiscalmente e geridos de forma eficaz do ponto de vista macroeconômico. Eles estão mais ricos, maiores e negociam muito uns com os outros. Estão parcialmente dissociados [da crise], embora não completamente. Ainda dependem de uma quantidade substancial de demanda agregada dos países avançados. O grau de dissociação irá aumentar gradualmente ao longo do tempo.
De que maneira o grau de dissociação aumentará? E caso a Europa não avance e o impasse político impeça a resolução dos problemas econômicos, quais seriam as principais formas de contágio para os emergentes?
Existem dois canais. Um é a economia real. Se a economia decresce, cai a demanda por importações, com consequências para os emergentes. O impacto varia entre os diferentes países porque eles sentem de modo diverso os movimentos de preço das commodities e a demanda por serviços (no caso da Índia). O segundo canal é o financeiro. Os mercados emergentes estão voláteis agora com a combinação de riscos domésticos e globais. Essa volatilidade tornará empresários e consumidores mais cautelosos, o que pode reduzir a demanda doméstica. Tendo dito isso, o nível de dissociação continua aumentando. Só não está completo.
Há rankings em que o Brasil aparece como a sexta maior economia do mundo. Como o senhor analisa a trajetória de crescimento do país?
A trajetória de crescimento do Brasil é excelente. A inclusão está aumentando e ajudando a sustentar o crescimento e a reduzir a desigualdade de renda. É um padrão sustentável. A gestão macroeconômica é muito boa. É preciso cuidado para não permitir que o aumento do preço das commodities, que beneficiou o Brasil, cause uma redução no padrão de diversificação da economia e reduza as oportunidades de emprego. Um fundo soberano bem administrado seria uma boa ideia, eu acho.
No discurso do Estado da União [em que anualmente o presidente americano presta contas ao Congresso], Barack Obama pediu a empresários para trazerem de volta os empregos que haviam deslocado para a China. Esse tipo de apelo é eficaz?
Não faz sentido trazer empregos de baixo valor agregado da China ou de outros países em desenvolvimento. O que podemos fazer é competir em empregos de maior valor agregado -mas não nos empregos muito tops, em que vamos bem de qualquer forma. Os modelos deveriam ser mais a Alemanha, o Japão e a Coreia do Sul.
A base para atrair empresas para a China tem sido a mão de obra barata. Essa situação persistirá?
Isso está prestes a mudar, tal como aconteceu na Coreia do Sul e no Japão no passado. A China irá se mover para rendimentos mais elevados e o trabalho intensivo nas manufaturas irá migrar para emergentes em fases anteriores de desenvolvimento.
A migração já começou? Para onde?
Começou, por exemplo, para o Vietnã, Bangladesh e para a Índia em alguma medida. Isso não é novo. A Coreia costumava fabricar sapatos e vestuário nos anos 1980 e 1990 e isso migrou para Vietnã, China, Indonésia etc. Hong Kong costumava fabricar vestuário e houve mudança para Cingapura e outros países.

Euro, pensar o impensável

Luiz Carlos Bresser-Pereira

É melhor que os europeus pensem seriamente na alternativa de extinguir a moeda comum de 17 países

Na China, em 1979, era "impensável" caminhar para o capitalismo, e no entanto Deng Xiaoping pensou e se antecipou à estagnação que ocorreu na União Soviética. Na Argentina, em 2001, era impensável terminar com o "plan de convertibilidad"; De La Rua curvou-se a esse impensável, e o custo foi uma crise brutal. Na zona do euro, hoje, é impensável extinguir o euro, e no entanto é melhor que os europeus pensem seriamente nessa alternativa. A criação do euro foi um erro, porque não havia um Estado por trás dele, e porque ele se transformou em uma moeda estrangeira para cada um dos 17 Estados que o adotaram -uma moeda que, nas crises, eles não podem emitir nem desvalorizar.
O impensável é muitas vezes puro medo e conservadorismo de governantes sem visão. Nesta grande crise do euro, a Grécia tornou-se um país insolvente, mas declarou-se "impensável" reestruturar sua dívida; quando a dívida foi reestruturada com um desconto de 21%, tornou-se impensável aumentar essa porcentagem; quando o desconto foi aumentado para 50%, tornou-se impensável o socorro do Banco Central Europeu a ela e aos demais países e bancos, mas um pouco depois o BCE passou a comprar de forma moderada títulos públicos e inundou o sistema bancário europeu de liquidez. O impensável revelou-se, afinal, a solução.
"Seria a desordem e o caos", gritam os defensores do impensável. Não creio. A crise dos países do sul da Europa desencadeada em 2010 é de balanço de pagamentos: foi causada pela sobrevalorização do euro implícita que se expressa em salário médio incompatível com o nível de produtividade. Teve como consequência elevados deficits em conta corrente seguidos por elevado endividamento externo, principalmente privado. A dívida pública já estava alta porque, diante da crise financeira global de 2008, todos os países haviam adotado política fiscal expansiva.
A extinção implicará alguns riscos, mas o custo de se tentar resolver uma crise causada por deficits em conta corrente através de redução dos deficits fiscais já foi muito grande, mesmo em termos de sacrifício da democracia, e continuará a sê-lo por muitos anos, para todos os países, inclusive para a Alemanha.
Do ponto de vista prático, não haveria grandes problemas. Seria naturalmente necessário imprimir novas cédulas. E, em determinado momento, em vez de retornar às antigas moedas, os países em conjunto transformariam o euro em um "euro nacional": o euro alemão, o euro francês, e assim por diante. Em seguida, os países com elevados deficits em conta corrente e altas dívidas externas desvalorizariam sua moeda. O que provocaria a queda dos salários e alguma inflação. Mas esta é uma forma muito mais humana e mais eficiente de praticar a austeridade e diminuir os salários do que aquela que está sendo praticada hoje: através da recessão e do desemprego.
No caso do euro, não é apenas o medo da inflação que torna sua extinção impensável. É também o medo que ela "desestruture" a União Europeia. Mas não há esse risco; a UE é o mais extraordinário caso de construção política e social que conheço, e só ganhará se agora der um passo atrás. Haverá espaço, no futuro, para muitos passos adiante.

Farc anunciam fim do sequestro de civis

Guerrilha, de origem comunista, afirma ainda que libertará os últimos dez militares que mantém em cativeiro



Aceno do grupo, que tem no narcotráfico grande fonte de renda, foi recebido com cautela pelo presidente



Luis Acosta/France Presse
Centenas de civis e policiais protestam em Bogotá, em dezembro, contra as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o assassinato de reféns
Centenas de civis e policiais protestam em Bogotá, em dezembro, contra as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o assassinato de reféns

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS


As Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) anunciaram o fim do sequestros de civis e a libertação dos seus dez "últimos prisioneiros de guerra" -militares e policiais mantidos como reféns há mais de dez anos.
A guerrilha fez o anúncio como uma oferta para retomar as negociações de paz com o governo. A proposta, contudo, foi recebida com cautela pelo presidente Juan Manuel Santos, que considerou, em mensagem no Twitter, "um passo importante e necessário na direção correta, mas não o suficiente".
Em comunicado em sua página na internet, a guerrilha explica que deixará de sequestrar civis como fonte de renda. Somente nos últimos oito meses, a guerrilha fez ao menos 25 civis reféns.
"Anunciamos (...) que a partir desta data, abandonaremos a prática [do sequestro extorsivo]", diz o texto, que não deixa claro se o grupo ainda mantém reféns civis.
Criada em 1964, a guerrilha -de origem comunista- tem como uma das principais fontes de renda o narcotráfico. Já chegou a contar com 17 mil membros, mas hoje tem cerca de 9.000.
O grupo perdeu força na última década diante da ofensiva militar nas áreas mais remotas, que resultou na morte de seus principais líderes.
Desde 2008, a guerrilha libertou unilateralmente 20 reféns, em uma tentativa, sem resultado, de soltar cerca de 500 de seus rebeldes.
Ontem, o grupo se comprometeu a libertar os últimos quatro oficiais reféns, além dos seis que já havia prometido em janeiro.
Santos disse estar contente pelos reféns e afirmou que o governo dará as garantias necessárias para que a libertação não se transforme em um "circo midiático".
O fim dos sequestros e a libertação de todos os reféns são apenas duas das condições do governo para o diálogo, que incluem ainda o fim do recrutamento de menores e do narcotráfico.
A própria guerrilha faz suas ressalvas a uma trégua. Ela alega que o governo aumentou o orçamento militar, um sinal de "prolongação indefinida da guerra".
"Ela trará consigo mais mortes e destruição [...] e a necessidade de recorrer a outras formas de financiamento ou pressão política por nossa parte", alerta, sem dar detalhes sobre as novas ações.
BRASIL
No comunicado, a guerrilha agradece ainda a "disposição generosa" do governo brasileiro em auxiliar nas operações de resgate.
Desde 2009, o Exército brasileiro coordenou o resgate de oito reféns, em duas operações, a pedido de Bogotá.
Este mês, Santos chegou a cobrar o país por retardar a operação de resgate dos seis reféns. A guerrilha havia anunciado a operação, mas, em janeiro, adiou, argumentando militarização da área.
Procurado pela Folha, o Itamaraty não quis se pronunciar sobre o comunicado.
Leia a íntegra do comunicado das Farc
folha.com/no1053754

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Risco de guerra regional: a Síria não é a Líbia

Marco Vicenzino
TENDÊNCIAS/DEBATES

Na Síria, há risco de um conflito por procuração entre Estados sunitas e uma coalizão xiita liderada pelo Irã; crise pode atingir Líbano, Iraque e Israel

Com a Síria já mergulhada em uma guerra civil, é necessário ter atenção para impedir um banho de sangue sectário e o transbordamento do conflito para o resto da região.
Conforme a violência aumenta dramaticamente, o passo inicial lógico é uma coalizão de atores internacionais. Apenas através de um esforço coletivo será possível enfrentar a crise de modo mais efetivo.
Tal agrupamento precisa ser cuidadoso. A realidade lamentável é que um impasse sangrento e prolongado na Síria pode se arrastar por tempo indeterminado. Especialmente se o país se converter no campo de batalha central de uma mais ampla guerra regional por procuração, entre os Estados de maioria sunita e uma coalizão de forças xiitas lideradas pelo Irã.
Francamente, a Síria não é a Líbia. Política, diplomática e militarmente, a crise síria é muito mais complexa e menos possível de ser contida que a da Líbia.
É pouco provável que mais negociações no Conselho de Segurança da ONU rendam dividendos concretos. Mesmo assim, a comunidade internacional tem a obrigação de tentar encontrar maneiras de reduzir a violência.
A dança diplomática do regime Assad praticamente já terminou. Agora, cada vez mais, o regime, que ainda conserva poder de fogo avassalador, vai contar com o impacto total de sua máquina de guerra.
A insurgência crescente vai continuar a atrair desertores do exército e cidadãos comuns, com violência crescente.
A Síria corre o risco de converter-se em uma colcha de retalhos de encraves sectários. Para sua própria sobrevivência, o regime de Assad fará uso implacável de todos os meios necessários para explorar as divisões entre seus opositores.
Voluntários e simpatizantes experientes e endurecidos na batalha, vindos de toda a região e de fora dela, vão, cada vez mais, unir-se às fileiras da oposição para proteger os seus irmãos étnicos ou religiosos. Assim como o Iraque atraiu combatentes estrangeiros, a Síria também o fará -mas em escala muito maior e mais violenta.
A Liga Árabe está desempenhando, com legitimidade, iniciativas diplomáticas cruciais durante a crise.
Ela precisa conservar seu ímpeto como voz regional representativa. Logisticamente, porém, é a Turquia que fará a maior diferença em campo na Síria. Suas dimensões, sua influência e a sua extensa fronteira com a Síria tornam isso inevitável. Na coalizão emergente de Estados que se opõem ao regime de Assad, o papel da Turquia é indispensável.
Cada um dos vizinhos da Síria enfrenta desafios semelhantes, mas diferentes. O Líbano, pousado sobre o fio de uma navalha, continua a ser um mosaico sectário frágil. É um constante barril de pólvora que pode explodir a qualquer momento. O país corre o risco de ser tragado para dentro do conflito sírio.
Dispondo de recursos limitados e desafios internos crescentes, a Jordânia pode estar sujeita a mais uma onda de refugiados. Os exilados sírios podem acabar se unindo a incontáveis palestinos e iraquianos que já se radicaram no país.
A fronteira porosa que a Síria tem com o Iraque oferece um convite aberto a forças indesejáveis de todos os tipos, que podem se juntar ao conflito. Ademais, o transbordamento da crise síria pode aumentar mais ainda as rivalidades internas do Iraque, potencialmente superando a violência de 2006 e 2007.
A estabilidade regional ficará ainda mais exposta se o regime Assad acabar precariamente equilibrado à beira do abismo.
É possível que surja o padrão clássico de atacar inimigos externos para desviar as atenções das dificuldades internas. Provocar Israel continua a ser uma carta perigosa mas potencialmente útil, especialmente se um confronto em torno do programa nuclear iraniano se aproximar.
Uma eventual mudança de regime na Síria vai redesenhar toda a paisagem geopolítica do Oriente Médio. Além disso, ela representará a mudança mais dramática em décadas no equilíbrio de poder da região. Tudo considerado, a crise real ainda não começou para valer.

MARCO VICENZINO, 41, analista político diplomado pela Universidade Oxford e pela Escola de Direito de Georgetown, é diretor do Global Strategy Project, consultoria de risco político global e negócios

Tradução de CLARA ALLAIN

De volta à ativa

Kenneth Maxwell

Estamos de volta à ativa, contudo na frente internacional as notícias nada têm de animadoras.
A zona do euro terminou por montar um segundo resgate à Grécia. O pacote aparentemente vale € 130 bilhões, cerca de € 20 mil por cidadão grego. Os bancos, fundos de hedge e seguradoras terão de aceitar prejuízos de 53%. É duvidoso que porção substancial desse dinheiro chegue ao povo grego. A maior parte dele será reciclada para pagar juros sobre passados empréstimos.
Tampouco está claro que Alemanha, Finlândia e Holanda aceitarão o acordo. Como tampouco está claro que a crise do euro tenha acabado. A ameaça de contágio continua para outros países europeus endividados, como Portugal.
A França está no meio de uma campanha presidencial, e Nicolas Sarkozy bem pode sair derrotado. A Alemanha se tornou, na prática, o relutante banco de último recurso para a zona do euro.
No Oriente Médio, o cenário é sombrio. O Egito enfrentará momentos difíceis nos próximos meses, no confronto entre as aspirações democráticas e as Forças Armadas -que continuam aferradas ao poder e temerosas de perder os privilégios especiais de que há muito desfrutam.
Na Líbia, um governo central fraco encara desafio continuado por parte de milícias armadas. O país tem, pelo menos, a vantagem de dispor de recursos naturais. Já a Síria é um caso diferente. Com as vacilações internacionais e as divisões no Conselho de Segurança da ONU, o regime de Assad mantém seu sangrento, violento e infatigável ataque contra inimigos internos.
No Bahrein, os distúrbios civis retornaram. A monarquia muçulmana sunita, com apoio militar da Arábia Saudita, está enfrentando a ira de uma população majoritariamente xiita. Mas os EUA, que têm sua Quinta Frota baseada no Bahrein, vêm demonstrando pouco entusiasmo no apoio à democracia, e, de qualquer modo, estão concentrados no programa nuclear iraniano e nas ameaças do Irã ao trânsito de petroleiros pelo estreito de Ormuz, um gargalo marítimo vulnerável. Ironicamente, esses petroleiros transportam petróleo que é vital para a China e a Índia.
Israel acredita que a janela de oportunidade para um ataque militar preventivo contra o Irã esteja se fechando rapidamente. Mas a última coisa que Obama precisa em um ano de eleição presidencial nos EUA é de um novo confronto militar no golfo Pérsico. Ele está tentando conter Israel, mas é improvável que o premiê israelense Netanyahu atenda aos pedidos de Obama caso acredite, o que pode ser verdade, que a sobrevivência de Israel está em jogo.
Talvez o Carnaval tenha acabado cedo demais.

Epopeia sem fim

Editoriais
editoriais@uol.com.br

Pacote imposto à Grécia para resolver crise da dívida pública tem poucas chances de dar certo; abandono do euro não pode ser descartado
Depois de frenética atividade nas últimas três semanas, concluiu-se finalmente o acordo que evita um calote imediato da Grécia. Longe de um desfecho para o drama, trata-se de um epílogo precário, com escassa chance de sucesso.
Além das hipóteses otimistas irreais que sustentam o programa -a começar da esperada estabilização do PIB em 2013-, a imposição de novas medidas de austeridade ameaça o já frágil equilíbrio político. Tampouco parece palatável, para a exaurida população que votará nas eleições legislativas previstas para abril, a inédita perda de soberania com o compromisso -inscrito na própria Constituição- de prioridade para o pagamento de juros da dívida pública.
O acordo imposto à Grécia se apoia sobre três esteios para reduzir sua dívida de 160% para 120% do PIB em 2020. O primeiro é o desconto de quase 75% no valor da dívida em mãos de credores privados (€ 100 bilhões de alívio). Em paralelo, haverá financiamento adicional de € 130 bilhões pela União Europeia, em troca de medidas drásticas de austeridade.
Os cortes nos dispêndios governamentais, por fim, têm como meta levar o resultado primário das contas públicas (saldo antes das despesas com juros) de um deficit de 2,4% do PIB em 2011 para um superavit permanente de 4,5% do PIB a partir de 2014.
Nada disso será fácil. O potencial para acidentes de percurso é enorme, a começar pelo risco de distúrbios civis cada vez mais violentos. O FMI estima que mesmo um crescimento negativo moderado já inviabilizaria o ajuste.
Muitos indagam abertamente se não seria mais conveniente para a Grécia dar o calote agora e abandonar o euro. A restauração da competitividade da economia poderia então ocorrer por meio da desvalorização da nova moeda, em lugar da compressão dos salários, para baratear os produtos e serviços gregos no mercado mundial.
Mas é inegável que as autoridades gregas ainda não estão dispostas a bancar essa aposta arriscada. A ruptura financeira é o temor principal. Uma saída da zona do euro causaria perda patrimonial maciça para todo o setor privado, incluindo as famílias, que teriam de converter ativos e passivos em moeda desconhecida.
Uma solução intermediária a ser considerada é a saída temporária da zona do euro, isto é, realizar um ajuste consentido que, de algum modo, evite o colapso financeiro geral e permita à Grécia retomar o crescimento com maior flexibilidade. Parece algo irrealista, mas há exemplos bem-sucedidos de mudança ordeira na denominação de contratos -um deles é a URV, que precedeu o Plano Real.
Seja como for, exigir da Grécia mais dez anos de estagnação e empobrecimento, além de inviável politicamente, é socialmente cruel. Abandonar a zona do euro sem planejamento tampouco seria trivial. Estreita-se a olhos vistos o espaço para encontrar soluções alternativas, a tempo de evitar o desenlace trágico de uma convulsão social.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Alemanha pressiona Grécia a abrir mão da sua democracia

Análise

WOLFGANG MÜNCHAU
DO “FINANCIAL TIMES”


Quando o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, propôs que a Grécia adiasse suas eleições como condição para receber nova ajuda, chegamos ao ponto em que o sucesso não é mais compatível com a democracia.
Shäuble quer prevenir uma escolha democrática "errada". Similar é a sugestão de que as eleições aconteçam, mas uma grande coalizão permaneça no poder, independentemente do resultado.
A zona do euro quer impor sua escolha de governo à Grécia, no que a transformaria em sua primeira colônia.
A origem da proposta é um dilema legítimo. Schäuble sabe que é arriscado liberar fundos antes de uma eleição. O que impede que o novo governo mude o acordo?
Não ajuda o fato da Grécia ter um histórico ruim de implementar políticas.
Mas, para superar a desconfiança, a zona do euro está procurando garantias inacreditavelmente extremas.
Uma coisa é os credores interferirem no gerenciamento de políticas de um país beneficiário. Outra é dizer a ele para suspender eleições. Na própria Alemanha, isso seria inconstitucional.
Falta de confiança é a razão pela qual o pacote grego foi adiado até o último minuto possível e porque as últimas propostas contêm pedidos tão perigosos, como a presença permanente dos credores e do FMI no país.
Logo, haverá mais austeridade e, em algum momento, alguém vai reagir.
A estratégia alemã parece ser tornar a vida na Grécia tão insuportável que os próprios gregos vão querer sair da zona do euro.
A chanceler alemã, Angela Merkel, certamente não quer ser vista com uma arma na mão.
É uma estratégia de suicídio assistido, uma tática extremamente perigosa.

Pacote para Grécia inclui mais 130 bi de euros

Acordo prevê que país terá de implantar medidas para reduzir sua dívida de 160% para 121% do PIB até 2020



Sem ajuda, os gregos se veriam forçados a dar calote em parcela de sua dívida que deve vencer no mês que vem

RODRIGO RUSSODE LONDRES
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS



Com uma crise social cada vez maior na Grécia, os ministros das Finanças da zona do euro aprovaram nesta madrugada em Bruxelas a liberação de € 130 bilhões de um segundo e decisivo pacote de resgate ao país, que corre riscos cada vez maiores de inadimplência.
Os ministros também determinaram que o governo grego deverá implantar medidas que reduzam a dívida da Grécia de 160% para 121% do PIB até 2020, segundo a agência de notícias Reuters.
Com isso, o acordo chega perto da meta anterior de 120% do PIB. Até o fechamento desta edição, os detalhes do acordo ainda não haviam sido anunciados.
Durante as negociações, que duraram mais de 12 horas, novo entrave ao empréstimo de € 130 bilhões ao país foi levantado pela Holanda.
Descrente de que os gregos cumprirão a sua parte no acordo, o ministro das Finanças holandês, Jan Kees de Jager, declarou que deseja estabelecer uma missão permanente da chamada "troica" (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI) na Grécia.
Essa missão teria a finalidade de assegurar que Atenas cumpra os ajustes impostos pelos credores públicos. As medidas de austeridade, que chegam a € 3,3 bilhões, reduzirão salários, aposentadorias e o total de empresas e empregos públicos no país.
De Jager foi firme ao dizer que "a Grécia quer o dinheiro, mas até agora não demos nada a eles. Nós podemos dizer não até que o país cumpra todas as exigências".
A exigência holandesa surge em um momento em que a Alemanha, até aqui a maior fonte de pressão sobre a Grécia, enfim dava sinais de concordância com a liberação dos recursos.
O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, se disse otimista e afirmou que seu objetivo era decidir sobre o novo plano ontem, embora ainda quisesse esclarecimentos a respeito da redução da dívida da Grécia.
O foco de Schäuble era a negociação com os credores do setor privado, que envolve o perdão de € 100 bilhões da dívida. O ministro quer que o país alcance o objetivo de reduzir sua dívida para 120% do PIB em 2020. Hoje, ela está em 160%.
O FMI, dirigido por Christine Lagarde, acredita que só o acordo com credores privados será insuficiente para esse objetivo, e pede que o Banco Central Europeu, o maior credor da Grécia, aceite deixar de lucrar € 15 bilhões para que a meta seja atingida.
Sem o empréstimo e o acordo com os credores privados, a Grécia não terá como pagar parte da dívida, de € 14,5 bilhões, que vence no dia 20 de março. Um eventual calote põe em risco a permanência do país na zona do euro.
As medidas de austeridade que o governo aprovou na semana passada geraram grandes protestos no país.

Curso superior não tem elevado renda, diz estudo do IBGE

Nos últimos 8 anos, ganho de quem fez faculdade teve 0,3% de aumento real, contra 30,6% dos com nível fundamental

Número de trabalhadores com diploma universitário cresceu 63%, o que, para economista, contribuiu para a queda na renda

MARIANA SCHREIBER
DE SÃO PAULO


O diploma de curso superior não tem assegurado, necessariamente, crescimento do poder de compra nos últimos anos, mostra recente estudo feito pelo IBGE.
Na média, a renda dos trabalhadores com diploma universitário ficou praticamente estagnada de 2003 a 2011.
Nesse período, o salário médio desse grupo teve ganho real (acima da inflação) de apenas 0,3%, indo a R$ 3.850,52.
Na outra ponta, a remuneração média dos trabalhadores que têm até oito anos de escolaridade subiu 30,6% acima da inflação nesses últimos oito anos.
O estudo do IBGE abrange as regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Salvador e Porto Alegre.
Para o economista da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) João Saboia, a estagnação da renda média entre graduados mostra que não há um apagão generalizado de profissionais qualificados.
Segundo o IBGE, o número de trabalhadores com curso superior cresceu 63% nos últimos oito anos.
O economista do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) Naércio Menezes recorre à lógica da oferta e da demanda para afirmar que o número maior de profissionais com nível superior limitou o ganho de renda nesse grupo.
Mas isso varia de acordo com as áreas de formação, dizem os dois economistas.
Saboia analisou o perfil dos cargos formais gerados para profissionais com ensino superior em 2010 e notou que a carência de mão de obra é mais concentrada em áreas de perfil técnico, como física, química, engenharia, matemática e biotecnologia.
A demanda por esses profissionais vem crescendo com a expansão dos setores de construção civil, infraestrutura e petróleo, explica.
HUMANAS X EXATAS
Segundo levantamento feito pela da Folha a partir de dados do Ministério da Educação, apenas 13,6% dos alunos que concluíram a universidade entre 2001 e 2010 se graduaram em cursos de exatas como os listados acima.
A grande maioria (67,6%) veio de áreas de humanas, como direito, educação, ciências sociais e artes. Saboia observa que parte desses profissionais não está conseguindo empregos em suas áreas.
Em seu estudo, ele descobriu também que 16% das novas vagas ocupadas em 2010 por pessoas com curso superior eram cargos de assistentes e auxiliares administrativos. Outros 4,7% eram postos técnicos de nível médio na indústria e no comércio.
"Tem muita gente se formando, mas não exatamente no que o mercado está precisando, então essas pessoas não estão sendo valorizadas", afirma Saboia.
Presidente da Asap (consultoria que faz recrutamento de profissionais com salários entre R$ 6.000 e R$ 15 mil), Carlos Eduardo Dias afirma haver um apagão de profissionais qualificados em todas as áreas.
Em algumas, segundo ele, não faltam pessoas graduadas, mas faltam profissionais com boa formação.
"O nosso ensino superior ainda não tem a qualidade que deveria ter. Falta qualidade na formação, e sobra vaga no mercado", disse.
Dias reconhece, porém, que o problema é mais grave em áreas técnicas. Segundo ele, os salários oferecidos a engenheiros cresceram entre 30% e 50% acima da inflação nos últimos cinco anos.

Escravos da modernidade

Vladimir Safatle

Na semana passada, a imprensa veiculou a notícia de que uma construtora servia-se de trabalho escravo.
A obra não era uma hidrelétrica na região Norte ou em algum lugar de difícil acesso, onde sempre é mais complicado descobrir o que se passa. Na verdade, a obra encontrava-se quase na esquina com a avenida Paulista.
Trata-se da reforma de um dos mais conhecidos hospitais da capital paulista, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Ironicamente, a empresa responsável pela obra chama-se "Racional" Engenharia.
Como não podia deixar de ser, a empresa afirmou que os trabalhadores respondiam a uma empresa terceirizada e que os dirigentes desconheciam realidade tão irracional. Este foi o mesmo argumento que a rede espanhola de roupas Zara utilizou quando foi flagrada servindo-se de mão de obra escrava boliviana empregada em oficinas terceirizadas no Bom Retiro.
É muito interessante como empresas que gastam fortunas em publicidade e propaganda institucional são tão pouco cuidadosas no que diz respeito às condições aviltantes de trabalho das quais se beneficiam por meio do truque tosco da terceirização. Quando se contrata uma empresa terceirizada, não é, de fato, complicado averiguar as reais condições a que trabalhadores estão submetidos, se seus turnos são respeitados e se seus alojamentos são decentes.
Há de se perguntar se tal desenvoltura não é resultado da crença de que ninguém nunca perceberá o curto-circuito entre imagens institucionais modernas, requintadas, "racionais", e sistemas medievais de exploração.
No fundo, essa parece ser mais uma faceta de um velho automatismo brasileiro de repetição: discursos cada vez mais elaborados e modernos, práticas cada vez mais arcaicas. Afinal, tal precariedade foi feita em nome de novas práticas trabalhistas, mais flexíveis e adaptadas aos tempos redentores que, enfim, chegaram.
Não mais a rigidez do emprego e do controle dos sindicatos, mas a leveza do paraíso da terceirização, onde todos serão, em um horizonte próximo, empresas. Cada trabalhador, um empresário de si mesmo.
Que essa flexibilidade tenha aberto as portas para uma vulnerabilidade que remete trabalhadores à pura e simples escravidão, isto não retiraria em nada o brilho da ideia. Pois apenas os que temem o risco e a inovação poderiam querer ainda as velhas práticas trabalhistas. Pena que o novo tenha uma cara tão velha.
Pena também que, como os gregos mostrem a cada dia, quem paga o verdadeiro preço do risco sejam, como dizia o velho Marx, os que já perderam tudo

Arquipélago da discórdia

Editoriais
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O marco de três décadas do início da Guerra das Malvinas ajuda a explicar, mas não justifica, a insensata escalada retórica e diplomática promovida pelos governos de Argentina e Reino Unido em torno do arquipélago do Atlântico Sul, alvo de disputa entre os dois países há 179 anos.
No início do mês, o Reino Unido deslocou um vaso de guerra para as Malvinas e enviou o príncipe William, herdeiro da Coroa, para participar de exercícios militares nas ilhas como piloto de helicóptero. A diplomacia argentina protestou nas Nações Unidas contra o que caracterizou como "militarização" da região.
Apoio popular é o que não falta, neste momento, à presidente Cristina Kirchner, recém-reeleita e aprovada por cerca de 70% da população. Já o primeiro-ministro britânico, David Cameron, enfrenta a pior crise econômica desde os anos 1930 e uma taxa de desemprego acima de 8%.
Apesar das diferenças, nenhum deles parece disposto a deixar passar a oportunidade de angariar simpatias das alas nacionalistas de seus respectivos eleitorados.
É verdade que a mordaz imagem do escritor Jorge Luis Borges para o conflito iniciado em 2 de abril de 1982 -"dois carecas brigando por um pente"- já não se aplica com a mesma precisão. Nos últimos anos, empresas petrolíferas britânicas descobriram óleo em alto-mar, próximo às ilhas.
Embora uma nova aventura militar por parte da Argentina seja impensável, a retórica da Casa Rosada dificulta a possibilidade de entendimento para uma eventual exploração conjunta das riquezas naturais da região. Um acordo de 1995, que previa o uso econômico compartilhado de uma faixa do Atlântico, foi abandonado pelos argentinos em 2007.
Algum senso de pragmatismo conviria ao governo do país vizinho. Embora seja compreensível sua reivindicação de posse do arquipélago, tomado pelo Reino Unido em 1833, não é possível ignorar o argumento de que os 3.000 habitantes das ilhas falam inglês, tomam chá às cinco da tarde e já manifestaram seu desejo de continuar súditos da rainha Elizabeth 2ª.
O Brasil aderiu recentemente ao bloqueio argentino a navios com bandeira das Falklands, nome britânico das ilhas. É de esperar-se que tal gesto não impeça o país de atuar em prol de uma distensão.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

'Fico com medo de a oposição ganhar'

Camareira venezuelana resume sentimento dos mais pobres em relação a Hugo Chávez

LOURIVAL SANTANNA
ENVIADO ESPECIAL / CARACAS - O Estado de S.Paulo

Não é preciso andar muito para encontrar a explicação do êxito de Hugo Chávez. Ela vem até o repórter, com a camareira que limpa o seu quarto, em um hotel de Caracas. Magali tem 26 anos. Chávez tem sido presidente durante a metade de sua vida. Quando ele chegou ao poder, ela era uma adolescente de 13. "Lembro até hoje a emoção que senti", recorda Magali, com os olhos marejados. "Não pude votar nele, mas gostei dele desde a primeira vez que o vi."

"Chávez se parece conosco, é um de nós. É a primeira vez que a Venezuela tem um presidente assim", continua Magali, sem parar de arrumar meticulosamente a cama. "Só que ele estudou muito, preparou-se muito. Minha irmã disse que ele lê tantos livros que se tornou uma das pessoas mais inteligentes do mundo", conta Magali, que concluiu o ensino médio.

A irmã de Magali é mãe solteira de três crianças. Por isso, recebe um benefício do governo, no valor de um salário mínimo - 1.548 bolívares, o equivalente a US$ 360, pelo câmbio oficial. Vive em um "refúgio", como são chamados os apartamentos e casas que o governo cede aos sem-teto. Ela inscreveu os filhos no programa Menino da Venezuela, que paga a ela mensalmente 400 bolívares (US$ 93) por criança.

Magali, que ganha um salário mínimo por mês ("pagam muito bem", diz ela), tinha um barraco na favela do Coche, no sul de Caracas. O local, porém, foi considerado área de risco e por isso ela também foi transferida para um refúgio, enquanto aguarda uma casa da Misión Vivienda, programa habitacional lançado por Chávez em 2011. Seu irmão comprou uma TV de LCD num mercado popular, outro programa do governo, que vende eletrodomésticos chineses a preço de custo.

"Às vezes, no metrô, ouço as pessoas dizendo que Chávez é negro, pobretão, ladrão", diz a camareira. "Mas são pessoas de classe média. Não digo que Chávez não roube. Todos roubam. Só que ele dá aos pobres." Mas ela acrescenta que viu num documentário da Telesur, TV do governo, que, quando Chávez assumiu, em 1999, foi visitar a estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) e propuseram-lhe desviar o dinheiro. "Chávez disse: 'Não estou aqui para roubar, mas para mandar'", relata, a camareira, admirada.

Magali procura não se mostrar sectária. "Eu não acho que os candidatos da oposição sejam ruins. Só acho que, se eles quiserem competir com Chávez, terão de se preparar, como ele." Além disso, analisa ela: "Os pobres são a maioria. Enquanto só a classe média gostar da oposição, ela não terá chance".

Em seguida, porém, a camareira vai descrevendo um por um os principais líderes oposicionistas de forma bastante negativa. Começa pelo governador de Miranda, Henrique Capriles Radonsky, vencedor das primárias disputadas há uma semana: "Perdão, senhor, pelo uso da palavra, mas ele é corrupto".

Ela recorda que Manuel Rosales, ex-governador de Zulia, que disputou a eleição presidencial em 2006, "teve de ir embora porque foi pego roubando". "Desculpe, mas não dá para votar nele." Rosales exilou-se no Peru declarando-se perseguido por Caracas e apoiou o atual governador de Zulia, Pablo Pérez, nas primárias do dia 12.

Mesmo sendo mulher, a camareira não simpatiza com a deputada María Corina Machado, que também disputou as prévias. "A gente percebe que ela tem um rancor contra Chávez", diz Magali. "Parece que se tornou uma coisa pessoal, ela quer derrota-lo."

Ex-dirigente da ONG Súmate, que atua na defesa da democracia, María Corina foi personagem de um desenho animado veiculado pela TV estatal, no qual aparecia de joelhos recebendo uma valise cheia de dólares do Tio Sam e dizendo: "Como é gostoso trair a pátria". A Súmate foi processada pelo governo por traição e conspiração, por ter recebido US$ 53 mil do National Endowment for Democracy, organismo suprapartidário americano que patrocina projetos pró-democracia no mundo todo.

A única vez em que Magali e sua família votaram contra Chávez foi no referendo de 2009 sobre a reforma da Constituição, que pretendeu aprofundar o "socialismo bolivariano". "A oposição espalhou que o Estado viria nas casas das pessoas buscar as crianças", lembra a camareira. "Ficamos com medo. Imagine se viessem buscar meus três sobrinhos?" Chávez foi derrotado. "O problema foi que ele não explicou direito o que queria."

O celular de Magali toca repetidas vezes. É a sua supervisora, mas a camareira não atende. Discreta e modesta, ela quer terminar de falar sobre Chávez, que chama de "meu presidente". "Quando chega o dia das eleições, parece que meu coração vai sair pela boca", conta Magali. "Fico com muito medo de a oposição ganhar."

Fidel Castro e a fé

MAC MARGOLIS 
É CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK NO BRASIL, COLUNISTA DO ESTADO, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM -

O Estado de S.Paulo

Fidel Castro logo mais estará de joelhos. Pelo menos assim garante a imprensa italiana, afirmando que o octogenário líder da Revolução Cubana está preparando seu regresso à Igreja Católica. O retorno será dramático, segundo o La Stampa, o maior jornal do país, e ocorrerá em março, durante a visita do papa Bento XVI à ilha. É que aos 85 anos e com a saúde fragilizada, o ditador comunista estaria "mais próximo à religião e a Deus", disse sua filha Alina ao jornal La Reppublica.

A "boa nova" varreu a mídia cristã. O maior ícone vivo do comunismo estará mesmo à beira da penitência? Embora distante do pai, Alina é devota e frequentemente peregrina a Roma, onde goza de trânsito fácil na Santa Sé.

Já uma fonte do Vaticano assegura que o papa terá, sim, um encontro reservado com Fidel a quem concederá a bênção. Mas o resto pode não passar de fumaça benta.

Quando ouviu a "notícia" a historiadora americana Julia Sweig, uma das maiores estudiosas de Cuba contemporânea, soltou uma gargalhada.

"É verdade que a Igreja e o Estado sempre tiveram uma relação diferenciada em Cuba", diz. "Mas isso não indica que uma conversão tardia está nas cartas." O brasileiro Frei Beto, amigo de Fidel e talvez o maior intérprete da alma do ditador, tampouco avaliza a versão italiana.

Mas o que estaria atrás da boataria e qual é a relação real do velho ditador com a fé? Em meio século de socialismo, onde o maior padroeiro usava boina e charuto, a convivência do governo e a Igreja cubanos foi frequentemente tumultuada.

Católico, protestante ou adepto de santeria, os religiosos de Cuba tinham de orar escondidos e se esquecer de Deus se quisessem servir à pátria e ao partido. Não ajudou alguns padres benzerem os rebeldes da Baía dos Porcos, na fracassada invasão apoiada pela CIA. Fidel, famosamente, chegou a cancelar o feriado de Natal de 1969.

Tamanho foi o estremecimento entre a cruz e o castrismo, que o papa João Paulo XXIII teria excomungado o líder comunista em 1962, mas há controvérsias. Quem conhece Fidel o chama de agnóstico e não ateu. "Alguns têm a fé religiosa, outros a fé de outra espécie. Sempre fui um homem de fé, confiança e otimismo", disse a Frei Betto, autor do livro Fidel e a Religião, publicado em 1985.

Com o tempo, a fé ganhou oxigênio. Desde o papado de João Paulo II, com quem Fidel gozava de "uma química fantástica", segundo Frei Betto, a repressão cedeu lugar à convivência tensa, porém pragmática. No pacto inédito, a Igreja teria compreendido que o comunismo não tinha prazo de validade iminente, enquanto a cúpula comunista se convenceu de que bater em religião era dar murro em ponta de baioneta. Pois até os ideólogos oram.

A partir de 1991, com a reforma do Partido Comunista, os devotos clandestinos no governo já podiam sair do armário. Mais recentemente, a decisão de libertar dezenas de prisioneiros políticos em 2010 foi fruto de um pacto costurado entre o presidente Raúl Castro e o cardeal arcebispo de Havana, Jaime Ortega y Alamino. O mesmo sacerdote teria persuadido o regime a conter os ataques às Damas de Branco, o grupo de parentes dos dissidentes presos.

Para quem conhece a alma castrista, nada disso surpreende. Questionado se é ateu, Fidel disse a Frei Betto: "Infelizmente, os jesuítas não me imputaram uma formação verdadeiramente da fé cristã". Essa admissão implícita, de que possa existir uma verdadeira formação da fé cristã, talvez anime a torcida cristã.

No evangelho da Igreja Católica contemporânea, que amarga escândalos e a sangria de fiéis, uma alma desviada é um convertido em potencial, mesmo que seja de um tirano. Para quem imagina a contrição do velho ditador e o perdão papal, pode esperar sentado.

Mas vale especular. Como seria a confissão do ditador mais longevo do hemisfério?

Temor de que Irã 'se blinde' de ataque leva Israel a acelerar planos de guerra

Escalada de tensão. Segundo ministro da Defesa de Tel-Aviv, quando entrar em operação a usina subterrânea de Qom, à prova de bombardeio israelense, Teerã estará em 'zona de imunidade'; nos EUA e Rússia, previsões são de que ofensiva começará em 'meses'

ROBERTO SIMON
O Estado de S.Paulo

Os tambores da guerra entre Israel e Irã nunca rufaram tão alto e, de Washington a Moscou, autoridades passaram a ver um ataque israelense como uma questão de "meses". A tensão subiu ainda mais na semana passada em meio à guerra nas sombras. Aparentemente, os ataques a alvos israelenses na Índia e na Geórgia, além de um complô desbaratado na Tailândia, eram retaliações do Irã ao assassinato de seus cientistas nucleares.

O ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, tem encampado a tese de que, quando a usina iraniana de Fordo - construída 90 metros abaixo de uma montanha perto da cidade sagrada de Qom - entrar em operação, a aviação israelense não terá mais capacidade de desferir um golpe significativo no programa iraniano. Apenas os EUA têm a tecnologia para destruir a instalação.

A partir do momento em que estocar em Fordo urânio suficiente para fazer a bomba, Teerã terá entrado no que Barak chama de "zona de imunidade" em relação a Israel. A cartada militar, então, estará apenas nas mãos dos americanos.

Diante desse cenário, o secretário da Defesa dos EUA, Leon Panetta, considera que há uma "grande chance" de Israel atacar o Irã "em abril, maio ou junho", escreveu David Ignatius, colunista do Washington Post. "O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu não quer que o futuro de Israel dependa dos EUA. Antes, uma matéria de capa da revista do New York Times também previra que um ataque israelense "não passará de 2012".

Na semana passada, o governo da Rússia publicamente engrossou o coro dos pessimistas. O número 1 das Forças Armadas de Moscou, general Nikolay Makarov, afirmou que a "decisão final (de atacar Teerã) será tomada no verão (do Hemisfério Norte)" - portanto entre junho e setembro. "O Irã está em uma posição complicada", disse o geralmente discreto chefe do estado-maior do Kremlin.

"Certamente há uma urgência que não existia antes, pois ficou claro que os iranianos estão transferindo urânio para Qom", disse ao Estado Efraim Inbar, diretor do Centro de Estudos Estratégicos Begin-Sadat. "Todos os integrantes do gabinete israelense apoiam a ideia de atacar o Irã. Uma bomba nuclear iraniana é simplesmente inaceitável para Israel. A questão é 'quando' atacar. Muitos ainda acham que é preciso dar tempo para as operações secretas em andamento", afirma.

O governo Barack Obama tem indicado que, embora a opção militar continue "sobre a mesa", os EUA não apoiam um ataque neste momento contra o Irã. A mensagem teria sido repetida nas últimas visitas a Washington não só de Netanyahu e de seu ministro da Defesa, mas também do chefe do Mossad, Tamir Pardo, que esteve nos EUA para consultas no fim de janeiro.

Inbar diz que, aos olhos dos israelenses, talvez não seja necessária uma "luz verde" de Washington. "Uma luz amarela pode ser o suficiente", afirma.

Mãos atadas. Se é praticamente consenso entre analistas que Qom realmente criaria a tal "zona de imunidade", muitos veem ainda outros motivos para a escalada nas tensões. Para Ali Vaez, pesquisador da Federação de Cientistas Americanos especializado no dossiê iraniano, no cálculo de Tel-Aviv há considerações políticas e logísticas importantes.

"Os israelenses acreditam que, se existe um momento em que os EUA não terão opção a não ser segui-los rumo à guerra, é durante a campanha presidencial americana. Não há como Obama se opor a um ataque ao Irã sem ameaçar sua reeleição", afirma Vaez.

Candidatos republicanos como Newt Gingrich e Rick Santorum apoiam abertamente um "ataque cirúrgico" às instalações iranianas e o mote do discurso republicano em política externa é que Obama virou um "apaziguador". Até novembro, quando ocorrem as eleições, será esse o clima político em Washington.

Há ainda uma razão logística para Israel agir nos próximos meses. Com a retirada americana do Iraque, abriu-se o caminho mais curto para os caças israelenses seguirem até o Irã. Extremamente frágeis, as forças iraquianas não têm controle sobre o espaço aéreo do país. "Mas isso pode mudar no médio prazo, com a reconstrução do Iraque e se Bagdá comprar equipamentos dos russos", afirma Vaez.

Ele defende que Qom não é uma "caixa preta", como afirmam os israelenses, e inspetores têm mais acesso a essa usina do que a outras instalações iranianas, como a de Natanz. Portanto, sem expulsar os funcionários da ONU, seria impossível enriquecer urânio para uso militar nas centrífugas subterrâneas.

Trita Parsi, um dos principais estudiosos da política externa do Irã, lembra que Israel já fez ameaças que, com o tempo, provaram-se blefes. "Em vez de 'zona de imunidade' da última vez o termo foi 'ponto sem volta'", disse Parsi ao Estado. "A diferença é que agora eles têm um argumento técnico e isso dá mais peso às ameaças. Os EUA estão realmente preocupados."

Rio Branco

CELSO LAFER
professor titular aposentado da Faculdade de Direito da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Brasileira de Letras; foi ministro das Relações Exteriores no governo FHC

No último dia 10 de fevereiro, sob os auspícios do chanceler Antonio Patriota, celebrou-se no Itamaraty o centenário de falecimento do barão do Rio Branco, José Maria da Silva Paranhos Júnior, que morreu no pleno exercício de suas funções de ministro das Relações Exteriores. Em 2002, na minha gestão, o Itamaraty promoveu um seminário para comemorar o primeiro centenário da posse de Rio Branco no Ministério das Relações Exteriores.

Qual o significado da obra e da ação de Rio Branco, que é um raríssimo caso de diplomata que alcançou o status de herói nacional? Rio Branco integra três vertentes da memória coletiva brasileira - a memória nacional, a memória patrimônio e a memória fundadora - que explicam a continuidade da sua ressonância.

Começo com a memória nacional, apontando que Rio Branco, na perspectiva da História, completou na República a obra do Império. Pela ação dos seus estadistas, o Império construiu, no plano interno, a unidade nacional. Rio Branco assegurou-a no plano externo por meio da conclusiva definição pacífica das fronteiras do País. Dessa maneira, resolveu o primeiro item da agenda de qualquer Estado independente, que é o de poder demarcar, com reconhecimento internacional, aquilo que é o interno de uma nação e o que é o externo, do mundo.

Com efeito, Rio Branco, como advogado do Brasil, teve sucesso nas arbitragens internacionais das Missões - 1895 - (limites com a Argentina) e do Amapá - 1900 (limites com a Guiana Francesa). Subsequentemente, como chanceler, conduziu a grande operação diplomática que, dosando poder e concessões negociadas, equacionou a questão do Acre com a Bolívia por meio do Tratado de Petrópolis (1903). Na sua gestão como chanceler, solucionou os demais itens pendentes das fronteiras nacionais (Venezuela, 1905; Guiana Holandesa, 1906; Colômbia, 1907; Peru, 1909; Uruguai, 1909) e faleceu tendo legado ao País o mapa definitivo do Estado brasileiro. Por isso é que Rui Barbosa o qualificou como um nume tutelar, um deus Terminus da nossa integridade nacional.

Lembro que o Brasil é um país com dez vizinhos e mais de 16 mil km de fronteiras terrestres. Tem, no plano internacional, escala continental, como a China, a Rússia, a Índia (que integram o Brics) e os EUA, que George Kennan qualificou como o conjunto dos países "monstros". Rússia, China e Índia são países com problemas de fronteiras que afetam, até hoje, a sua política externa e as fronteiras dos EUA são o resultado de um alargamento que se fez a expensas do México. Rio Branco contribuiu com uma política territorial pacífica e não violenta, de maneira decisiva, para moldar a personalidade internacional do Brasil como, nas suas palavras, um país "que só ambiciona engrandecer-se pelas obras fecundas da paz, com seus próprios elementos, dentro das fronteiras em que se fala a língua dos seus maiores e quer vir a ser forte entre vizinhos grandes e fortes".

Observa Rubens Ricupero que Rio Banco, ao definir o espaço territorial do Brasil, definiu também um modo de inserção do País no mundo. Por isso sua obra integra não apenas a memória nacional de suas realizações, mas a memória patrimônio de um legado diplomático que retém a atualidade da visão de um estadista empenhado em descortinar novos horizontes para o futuro do Brasil de uma maneira, ao mesmo tempo, muito firme e muito sóbria.

Esse legado provém de uma prática diplomática que leva em conta a existência dos conflitos, mas diligencia na identificação do potencial de sociabilidade que permite explorar construtivamente espaços de cooperação e abrir caminhos para uma crescente presença do Brasil no mundo. São componentes dessa prática, na atuação de Rio Branco, uma avaliação realista dos condicionantes do poder, uma compreensão precisa do papel das negociações e do Direito na vida internacional e o reconhecimento da relevância daquilo que hoje se denomina soft power. Foi na linha dessa visão que Rio Branco criticou os que se entregam à "loucura das hegemonias ou ao delírio das grandezas", defendeu a paz como "uma condição essencial ao desenvolvimento dos povos" e argumentou que "o nosso Brasil do futuro há de continuar invariavelmente a confiar acima de tudo na força do Direito e do bom senso".

Foi com essa perspectiva organizadora que buscou a convergência e o entendimento com os nossos muitos vizinhos na América do Sul e trabalhou uma aproximação com os Estados Unidos, na época da sua gestão a potência emergente, para criar espaços adicionais para o Brasil na interação com as então potências hegemônicas da Europa.

Concluo com a memória fundadora. No Império, política interna e política externa foram dois passos do mesmo processo: o da constituição e consolidação do Estado imperial, na precisa avaliação de Gabriela Nunes Ferreira. Por essa razão os grandes estadistas do Império sempre se ocuparam da política externa, chefiaram missões diplomáticas, em especial no Prata, e o processo decisório da política internacional passava pelo imperador, pelo Conselho de Estado, pelo Congresso e pelos partidos, na vigência de uma monarquia de regime parlamentar. Era dentro desse contexto circunscrito que atuava o ministro.

O sucesso de Rio Branco contribuiu para a legitimação da República, liberou os homens públicos do Brasil para se concentrarem no desenvolvimento do espaço nacional e permitiu, assim, que o barão transformasse o Itamaraty numa instituição do Estado brasileiro respeitada internacionalmente e dotada de autoridade própria na condução da política externa. É por isso mesmo que foi - e a Casa da diplomacia brasileira reconhece no seu patrono - o grande institution builder do Itamaraty, que continua haurindo força na memória fundadora da sua notável atuação.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Rafael Correa, ditador

Editoriais
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Existem diversas maneiras de aferir se existe democracia num país. A mais infalível é verificar se ali o governante se sujeita a críticas públicas -ainda que veementes, mesmo se injustas- sem que o autor seja punido por expressá-las.
Essa possibilidade não existe mais no Equador. Na quinta-feira, a Corte Nacional de Justiça daquele país confirmou sentença que condenava três diretores e um colunista do jornal "El Universo" a três anos de prisão e ao pagamento de multas que totalizam nada menos que US$ 40 milhões.
A condenação se deveu a artigo publicado em fevereiro de 2011 no qual o presidente do país, Rafael Correa, era qualificado de "ditador". O texto dizia que o autocrata incidira em crime de lesa-humanidade, por ter ordenado ataque militar a um hospital onde ele próprio se achava sitiado. Referia-se ao rocambolesco episódio da greve de policiais em Quito, que deixou dez mortos, em setembro de 2010.
Desde que se elegeu, em 2007, Correa deflagrou uma escalada de ataques à democracia. Segue os passos de outros dois presidentes populistas com quem tem afinidade ideológica, Hugo Chávez, da Venezuela, e Evo Morales, da Bolívia.
Trata-se de instalar uma democracia plebiscitária, com base nos amplos recursos de intimidação e corrupção do Executivo, destinada a eternizar o dirigente no poder. Forjam-se reformas constitucionais, coloca-se o Judiciário sob a tutela do governo, suprime-se, na prática, o direito de divergir.
Milícias organizadas pelo governo tratam de hostilizar a oposição e instalar um ambiente cada vez mais polarizado. Vultosas verbas são destinadas à assistência populista, com o propósito de comprar apoio nas parcelas mais dependentes da população.
Tudo é apresentado como revolução que libertaria o povo do jugo das elites locais e dos Estados Unidos, cuja imagem é invariavelmente usada como bode expiatório na estratégia de aglutinar adesões em torno do governo.
Mas, sob a retórica saturada de clichês passadistas e apelos emocionais, o que mal se disfarça é o empenho do presidente e de sua facção de exercer a ditadura em nome de ideais democráticos, de oprimir para "libertar".
A verdadeira sustentação desses regimes repousa nos preços do gás (Bolívia) e do petróleo (Venezuela e Equador), itens que dominam suas economias e cuja riqueza é apropriada pelo governo. Dotadas de sociedades civis débeis e pouco complexas, são nações que não se livrarão com facilidade dos algozes que elegeram.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Mulheres e o poder

Kenneth Maxwell

O primeiro ano de mandato de Dilma Rousseff viu a partida de muitos ministros -todos eles homens. Ao longo do processo, a presidente manteve -e até ampliou- sua popularidade.
Começou seu segundo ano de governo com uma indicação importante. Na segunda-feira desta semana, Graça Foster tomou posse como presidente da Petrobras.
Esta talvez venha a ser a indicação mais importante da presidente Dilma Rousseff. Representa um grande avanço para as mulheres do Brasil e mostra que Dilma pretende mesmo fazer diferença quanto à questão da diferença de tratamento entre os sexos, especialmente nos negócios, onde a resistência a que mulheres ocupem os cargos executivos mais altos continua forte.
Nos últimos anos, a igualdade entre os sexos avançou na América Latina. Hoje, há cinco mulheres chefes de governo nas Américas -no Brasil, na Argentina, na Costa
Rica, na Jamaica e em Trinidad e Tobago.
Dilma também indicou mulheres para postos importantes no seu gabinete. Mas, no mundo dos negócios, as mulheres continuam notáveis pela ausência, mesmo em comparação com os EUA, onde elas detêm mais de 16% dos postos nas diretorias de grandes empresas, número que, aliás, nada tem de espetacular. No Brasil, a presença feminina é de pouco mais de 5%.
Maria das Graças Silva Foster, 58, nasceu em Caratinga (MG), mas vive desde os dois anos de idade no Rio de Janeiro, onde cresceu em uma favela pobre e violenta que hoje é parte do Complexo do Alemão.
Começou como estagiária na Petrobras e subiu na hierarquia nos 32 anos seguintes, obtendo, ao longo do caminho, diplomas em engenharia química, engenharia nuclear e um MBA, respectivamente na Universidade Federal Fluminense, na Universidade Federal do Rio de Janeiro e na Fundação Getulio Vargas. "Sempre trabalhei para ajudar a sustentar minha mãe e meus filhos, e para pagar meus estudos. A força de vontade é tudo, e não tenho medo de trabalhar."
A Petrobras é uma das maiores companhias mundiais, ocupando a 34ª posição no ranking da revista "Forbes" sobre as 500 maiores empresas do planeta. Graça Foster foi secretária do Petróleo, Gás e Energia Renovável quando Dilma era ministra de Minas e Energia.
O desafio de Graça Foster agora é administrar e colocar em exploração os imensos ativos de petróleo offshore da Petrobras, apesar das dificuldades e das grandes despesas que sua extração acarreta.
Graça Foster subiu pelo caminho mais difícil, e por mérito próprio. Ela é uma mulher muito forte. E Dilma está lhe oferecendo a oportunidade.
KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Dinheiro e moral

Paul Krugman

Os valores tradicionais não são tão importantes quanto os conservadores gostariam que nós acreditássemos
A desigualdade se tornou assunto de debate nacional. Entre os países ricos, os Estados Unidos se destacam como aquele no qual o status social e econômico tem maior probabilidade de ser transferido de geração a geração.
E isso tornou inevitável o que aconteceu a seguir: os conservadores subitamente começaram a nos dizer que a questão real não é de dinheiro, mas sim de ordem estritamente moral.
Mas será que a questão é realmente moral? Não: ela gira principalmente em torno de dinheiro.
É justo ressaltar que "Coming Apart: The Status of White America, 1960-2010", o livro de Charles Murray que embasa o ataque conservador, ilumina algumas tendências notáveis.
Entre os norte-americanos brancos com nível educacional de segundo grau ou inferior, o número de casamentos e a participação masculina na força de trabalho estão em queda, enquanto o número de crianças nascidas fora do casamento está crescendo.
Fica claro que a classe operária branca mudou para um comportamento que não parece bom. Mas a primeira pergunta a ser feita deveria ser: as coisas vão realmente tão mal no que tange aos valores?
Murray jamais menciona a queda no número de gestações na adolescência entre todos os grupos raciais, desde 1990, ou a queda de 60% no número de crimes violentos, da metade dos anos 90 até os dias de hoje.
No entanto, para os homens com nível educacional mais baixo, tudo vem sendo negativo. Ajustado pela inflação, o salário inicial de um homem com educação de segundo grau caiu em 23%, de 1973 para cá. Enquanto isso, os benefícios dos trabalhadores despencaram.
Em 1980, 65% dos formandos recentes no segundo grau empregados pelo setor privado contavam com planos de saúde oferecidos pelos empregadores; em 2009, essa proporção havia se reduzido a somente 29%.
Assim, nos tornamos uma sociedade na qual os homens com menor nível de educação encontram grande dificuldade em encontrar empregos com salários decentes e bons benefícios.
Mas ainda assim devemos nos surpreender por esses homens se inclinarem menos a entrar na força de trabalho ou se casarem, e concluir que a causa só pode ser algum misterioso colapso moral causado por progressistas entojados.
E Murray também nos informa que os casamentos na classe trabalhadora, quando acontecem, se tornaram menos felizes. Estranho? É preciso considerar que problemas de dinheiro em geral têm essa consequência.
Assim, deveríamos rejeitar os esforços para desviar o diálogo nacional da desigualdade cada vez mais alta para as supostas deficiências morais dos norte-americanos que estão sendo deixados para trás.
Os valores tradicionais não são tão importantes quanto os conservadores gostariam que acreditássemos -e, de qualquer forma, as mudanças sociais em curso na classe trabalhadora norte-americana são fundamentalmente consequência de uma alta acentuada na desigualdade, e não sua causa.
Tradução de PAULO MIGLIACCI

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Argentina 6 x 0 Peru ainda não acabou

Ex-senador peruano diz que placar foi manipulado para atender acordo político entre ditaduras; Brasil ficou fora da final
  
JAMIL CHADE
GENEBRA , CORRESPONDENTE
O Estado de S.Paulo

A goleada da Argentina contra o Peru na Copa do Mundo de 1978 que deixou o Brasil fora da final foi sempre rodeada por rumores e acusações. Agora, denúncias feitas a um juiz sustentam a tese de que, na realidade, o resultado daquela partida foi um pacto entre os dois regimes militares de Peru e Argentina. A declaração e a notícia acabaram causando mal-estar entre os cartolas da Fifa, que sempre alegaram que as acusações de suborno faziam parte dos defensores da tese da conspiração.

Para disputar a final, os argentinos precisavam vencer o Peru por 4 x 0. Qualquer resultado inferior daria a vaga ao Brasil para enfrentar a Holanda na decisão do Mundial. Apesar da boa equipe peruana, o jogo terminou em 6 x 0 para os argentinos, o que alimentou por décadas a especulação de um acerto financeiro entre os dois times.

Mas, segundo a mais recente versão, o acordo teria sido politico. Um juiz argentino, Norberto Oyarbide, abriu no ano passado investigações sobre o ex-ditador peruano Francisco Moralez Bermudez e, na semana passada, pediu sua prisão por crimes como sequestros e assassinatos.

Segundo publicou o jornal argentino El Tiempo, uma das principais testemunhas do caso, o ex-senador peruano Genaro Ledesma, revelou ao juiz que a vitória de 6 x 0 da Argentina contra o Peru na Copa de 1978 - e que deixou o Brasil de fora da final - havia sido pactuada entre os ditadores dos dois países e fazia parte de um acordo maior de cooperação entre os dois governos

Pela versão, o ditador argentino Jorge Videla aceitou no âmbito do Plano Condor receber 13 prisioneiros peruanos que, em Lima, lideravam greves para derrubar o regime de Morales Bermudez. Em troca, porém, o argentino solicitava que os peruanos deixassem a Argentina vencer a partida no Mundial.

Detalhes da história. O ex-senador Ledesma insiste que sabe dos detalhes da história porque ele mesmo foi um dos prisioneiros alvo da troca em 1978. Naquele ano, Ledesma foi sequestrado pelo regime peruano.

Os detentos foram enviados para o norte da Argentina em um avião militar no dia 25 de maio de 1978. De lá, foram transladados para a Buenos Aires e, depois de algumas semanas, foram autorizados a viajar como exiliados para Paris. A partida entre os dois times ocorreria no dia 21 de junho daquele ano.

Com essa saída para a França, os prisioneiros evitaram serem atirados ao mar, uma prática do governo argentino.

"Videla nos aceitou como prisioneiros de guerra na condição de que o Peru permitisse o triunfo da Argentina na Copa do Mundo", disse o ex-senador ao jornal argentino. "Isso tinha importância para Videla. Ele precisava do triunfo para limpar a má imagem da Argentina no mundo", afirmou Ledesma.

O acordo não terminaria aí. No mesmo ano, Videla fez empréstimos ao governo de Morales Bermudez e enviou um carregamento de 14 mil toneladas de trigo ao Peru.

Fifa em alerta. Não é novidade que a partida foi alvo de desconfianças por anos. Mas a Fifa sempre rejeitou falar no assunto, alegando que não existiam provas. Dentro da entidade, porém, fontes admitiram ao Estado que essa é a primeira vez que uma vítima dos regimes sul-americanos denuncia o esquema do jogo a um juiz, oficialmente, o que pode não ser nada positivo para a imagem já problemática da Fifa.

Esse caso abre as portas para novas investigações sobre a polêmica partida da Copa do Mundo de 1978 e também de outros jogos, de competições internacionais importantes, que poderiam ter sido arrumados por interferência política.

As ameaças aos brasiguaios

Para o embaixador brasileiro no Paraguai, Eduardo dos Santos, a decisão da Justiça, determinando a desocupação de três propriedades de brasileiros invadidas por grupos paraguaios de sem-terra, é uma indicação de que "a normalidade está próxima" na região da fronteira entre os dois países. A situação ali, porém, continua muito tensa, e a decisão judicial não garante nada. É preciso que o governo paraguaio dê cumprimento efetivo ao que a Justiça local decidiu na sexta-feira passada, e que os invasores - que dizem formar um grupo de mais de 10 mil pessoas - respeitem a decisão. Nada disso está garantido.

Em nota longa e ambígua, o presidente Fernando Lugo garantiu que o governo cumprirá a lei, mas deu novos argumentos aos invasores - conhecidos como carperos, pois vivem em "carpas", tendas cobertas por plástico - ao dizer que "não poucas vezes se concederam imóveis rurais a pessoas favorecidas pelo poder político e econômico", com prejuízo para a reforma agrária, como alegam os invasores. Em resumo, não se sabe se o governo seguirá a lei ou se tolerará as invasões.

As fazendas invadidas ficam em Ñacunday, no departamento (Estado) de Alto Paraná, a 75 quilômetros da fronteira com o Brasil. Para o presidente do Sindicato Rural de Foz do Iguaçu, Paulo Muller, o governo paraguaio tenta justificar o atraso na desocupação, o que pode acirrar os conflitos (há tensão também na cidade de Santa Rosa del Monday, em Alto Paraná). "Há uma insatisfação com a forma como o governo está conduzindo a questão", disse ao Estado (6/2).

Talvez estimulado pela complacência do governo, o líder dos carperos, Victoriano López Cardoso, faz discursos ameaçadores. "Retroceder, jamais. Quem tem que deixar essas terras são os brasileiros", disse no fim de semana, depois de tomar conhecimento da decisão judicial. Apenas concordou em adiar a decisão de expulsar os brasileiros da região com o uso da força. "Vamos esperar mais uma semana, depois avaliamos", afirmou.

Estima-se que de 350 mil a 400 mil brasileiros vivem no Paraguai, com grande concentração na região da fronteira, onde se dedicam principalmente à agricultura. Graças, em grande medida, à presença de brasileiros, o agronegócio teve notável desenvolvimento nos últimos anos, sendo hoje responsável por 80% do PIB paraguaio e pelo rápido crescimento da economia do País (de mais de 15% em 2010). Levadas por esses emigrantes - os "brasiguaios" -, técnicas conhecidas no Brasil, mas até então pouco utilizadas no Paraguai, asseguraram mais produtividade e maior diversificação para a lavoura local. Isso exigiu investimentos e trabalho dos brasileiros. Alguns optaram pela nacionalidade paraguaia, muitos têm filhos paraguaios.

Sua presença, porém, tem sido motivo de protestos de grupos de agricultores locais. Conflitos são registrados praticamente desde que os brasileiros começaram a emigrar para o Paraguai, na década de 1960.

Nas últimas semanas, os conflitos se intensificaram por causa de uma determinação do presidente Lugo de demarcar terras de fronteira. A justificativa do governo foi a necessidade de examinar se as terras ocupadas por brasileiros eram públicas, o que tornaria ilegal seu uso e sua propriedade por estrangeiros. Foi uma espécie de senha política da qual se valeram os carperos, que convocaram seus companheiros para montar acampamentos em Alto Paraná e se preparar, com foices, facões e outros instrumentos e armas, para expulsar os brasiguaios, que chamam de "invasores".

Por motivos ideológicos ou por dificuldades para compreender a dimensão e a gravidade dos problemas, o governo do PT tem agido com tibieza quando interesses brasileiros são ameaçados por governos de tendência esquerdista e nacionalizante na América Latina. Assim agiu em relação a decisões contrárias ao interesse do Brasil tomadas pelo governo de Fernando Lugo e também pelo governo de Evo Morales, na Bolívia. Quando a segurança de brasileiros no exterior está em jogo, como neste caso, uma atitude desse tipo não tem nenhuma justificativa. O governo Dilma precisa agir com firmeza e rapidez.

O Estado de São Paulo, 08/02/2012

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O erro de Machado

O futuro mestre e o direito inalienável ao equívoco



PAULO ROBERTO PIRES


RESUMO O advento do jornal, para o jovem Machado de Assis, levaria à extinção do livro, que a seu ver não faria mais do que "trazer à raça existente o pensamento da raça aniquilada". Precipitado, profético e palavroso, "O Jornal e o Livro" (1859) lembra os atuais arautos do fim do livro impresso e da mídia "tradicional".

"O JORNAL E O LIVRO" é parte da periferia do continente Machado de Assis. Nas canônicas "obras completas" da Nova Aguilar (versões de 1959 e 2008, em três e quatro volumes, respectivamente), está perdido na genérica "Miscelânea", barafunda de gêneros à qual se relegou tudo o que na obra do escritor carioca parecia pouco definido literariamente.
Foi de lá que saiu o livrinho publicado agora na série *Grandes Ideias [Penguin Companhia, 128 págs., R$ 10,90]*, que torna acessíveis ensaios mais comentados do que lidos, como "Notícias da Atual Literatura Brasileira - Instinto de Nacionalidade" e "O Ideal do Crítico". Principalmente, dá protagonismo a um texto "menor" que, a meu ver, é importante por seu malogro em provar a superioridade do jornal sobre o livro.
Em janeiro de 1859, quando "O Jornal e o Livro" foi publicado no "Correio Mercantil", Machado de Assis tinha 19 anos e meio e, havia três meses, trabalhava na Redação como revisor. Sua vida literária começara precocemente quatro anos antes, n'"A Marmota Fluminense", jornal capitaneado pelo mítico livreiro e editor Paula Brito.
Colaborar no "Correio" era, no entanto, entrar na vida literária pela porta da frente. Em 1854, o jornal publicara "Ao Correr da Pena", célebre coluna de José de Alencar.
Entre 1852 e 1853, nasceram em suas páginas as "Memórias de um Sargento de Milícias", a obra-prima de Manuel Antônio de Almeida -de quem Machado era protegido e a quem dedica seu desassombrado ensaio, uma reflexão sobre o alcance e a velocidade da escrita e das ideias nada estranha ao que se lê hoje sobre as "novas mídias".
INFLUÊNCIA A principal referência intelectual de Machado era Eugène Pelletan (1813-84). O pensador francês, escritor, polemista e republicano ardente, exerceu considerável influência no Brasil com um discurso altissonante, que fazia do progresso um Deus no qual deveria espelhar-se o homem em busca de comunhão com seu tempo.
Um ano antes, no mesmo jornal, Machado dedicara a ele (tratado como "Sr. E. Pelletan") o poema "O Progresso -Hino da Mocidade". A mistura indigesta das ideias de Pelletan com uma eloquência "à moda" de Victor Hugo marcou, segundo o pesquisador francês Jean Michel-Massa, esse primeiríssimo Machado.
"Homem de vastas sínteses, Pelletan abarcava de um só relance o passado, o presente o futuro", comenta Massa em *"A Juventude de Machado de Assis" [Unesp, 582 págs., R$ 70]*, publicado originalmente em 1971 e reeditado em 2009.
"Seu sincretismo generoso de ideias, em que misturava tumultuosamente todos os domínios do conhecimento, seduzira então numerosos espíritos eminentes. Machado de Assis, sensível ainda a todas as correntes, encontrou nele uma fé ardente e talvez uma resposta a algumas das questões que a si mesmo colocava."
GALOPE A descrição de Massa corresponde ao peculiar "método" de exposição de Machado. Em duas partes, o ensaio do brasileiro evolui num galope, às vezes atabalhoado, para mostrar como a humanidade vem, ao longo dos séculos, "em busca de um meio de propagar e perpetuar a ideia".
Das inscrições em pedra ao primeiro livro, esses meios de escrita e reprodução técnica se sucedem vertiginosamente na narrativa do atilado polemista. Trata-se quase de um épico em que escrita, arquitetura e arte convergem como patrimônio da humanidade.
Para que se tenha uma ideia do quanto esse percurso é pontuado por saltos e conclusões precipitadas, Machado considera a arquitetura o resultado de uma progressão da comunicação primeira, nascida para "transformar em preceito, em ordem, o que eram então partos grotescos da fantasia dos povos".
Aperfeiçoando-se, a arte de construir e dar sentido a uma comunidade encontrará no livro um sucedâneo como forma de transmissão das ideias e das representações dos povos.
"O edifício, manifestando uma ideia, não passava de uma coisa local, estreita", escreve Machado, lembrando um mundo em que os referenciais eram bem definidos, estáticos e locais.
"O vivo procurava-o para ler a ideia do morto; o livro, pelo contrário, vem trazer à raça existente o pensamento da raça aniquilada. O progresso aqui é evidente".
Ocorre aí, argumenta, uma revolução sem precedentes. Já não é preciso ir ao monumento para dar conta da história, pois o livro é a forma portátil para a difusão do "pensamento da raça aniquilada".
DEMOCRATIZAÇÃO Essa passagem é o início da democratização que Machado vê se materializar plenamente no impulso que toma a imprensa.
Trata-se, no seu entender, de um processo de radical democratização do conhecimento, com consequências imediatamente políticas -aqui, a celebração dos ideais republicanos, consonante aliás com a orientação do "Correio Mercantil".
"O jornal apareceu, trazendo em si o gérmen de uma revolução", prossegue Machado. "Essa revolução não é só literária, é também social, é econômica, porque é um movimento da humanidade abalando todas as suas eminências, a reação do espírito humano sobre as fórmulas existentes do mundo literário, do mundo econômico e do mundo social."
"O Jornal e o Livro" aponta ainda para a redefinição do papel social do escritor. Até então ligada às alturas da criação artística, a literatura entra no circuito da mercadoria, e o escritor é instado por Machado a se alinhar à nova ordem, deixando de lado as inalcançáveis musas vaporosas.
"O jornal, abalando o globo, fazendo uma revolução na ordem social, tem ainda a vantagem de dar uma posição ao homem de letras; porque ele diz ao talento: 'Trabalha! Vive pela ideia e cumpres a lei da criação!'. Seria melhor a existência parasita dos tempos passados, em que a consciência sangrava quando o talento comprava uma refeição por um soneto?"
A um dado momento, Machado trai a motivação tática de seus exagerados argumentos: "Se procuro demonstrar a possibilidade do aniquilamento do livro diante do jornal, é porque o jornal é uma expressão, é um sintoma de democracia".
E termina com o ponto que, talvez, seja o mais radical do texto, derrubando a forte marca de distinção do escritor sobre os "mortais" de seu tempo:
"O talento sobe à tribuna comum; a indústria eleva-se à altura de instituição; e o titão popular, sacudindo por toda a parte os princípios inveterados das fórmulas governativas, talha com a espada da razão o manto dos dogmas novos. É a luz de uma aurora fecunda que se derrama pelo horizonte. Preparar a humanidade para saudar o sol que vai nascer -eis a obra das civilizações modernas."
PRECIPITAÇÃO Eivado de precipitação, o jovem Machado agarrava-se a certezas -moeda rara em sua obra futura. Naquele momento, porém, cumpria o que em alguma medida se espera de um intelectual em formação: curiosidade, desejo de intervenção e o direito, inalienável, ao equívoco.
É impossível não ver analogias entre esse raciocínio, que prega a rapidez de um novo meio sobre a lentidão do livro, e o que se escreve, muitas vezes vadiamente, sobre os rumos da edição e da difusão de informação.
O erro de Machado é o erro dos que tentam caminhar em areia movediça -mas o que se sucederia, em seu caso particular, de certa forma redime o equívoco e até o enobrece.
Mais de 30 anos depois, Machado recebia "com um acesso de gentilezas" o jovem Paulo Barreto, que seria conhecido como João do Rio. O futuro autor "A Alma Encantadora das Ruas" levava a ele o mesmo questionário que dirigiu a seus mais notáveis contemporâneos: afinal de contas, o jornalismo ajuda ou prejudica a literatura?
Em 1904, quando foi publicado o resultado da enquete em "O Momento Literário", Machado era uma ausência gritante. Consagrado, jamais respondeu a João do Rio, que aprofundava o debate iniciado no "Correio Mercantil".
"O fogo, a confiança, o futuro, o progresso" do jovem polemista pareciam ter dado lugar ao "tédio à controvérsia" tão caro a um certo Conselheiro Aires.
O ensaio evolui num galope, às vezes atabalhoado, para mostrar como a humanidade vem, pelos séculos, "em busca de um meio de propagar e perpetuar a ideia"
Para Machado, "a revolução [do jornal] não é só literária, é também social, é econômica, porque é um movimento da humanidade abalando todas as suas eminências"
É impossível não ver analogias entre esse raciocínio, que prega a rapidez de um novo meio sobre a lentidão do livro, e o que se escreve sobre os rumos da edição e difusão de informação

O instante decisivo


A Folha localizou o fotógrafo do cadáver de Herzog


LUCAS FERRAZ
ilustração RAFAEL CAMPOS ROCHA


RESUMO A foto de Vladimir Herzog morto nas dependências do DOI-Codi em outubro de 1975 tornou-se um símbolo da repressão promovida pela ditadura (1964-85). A tentativa falhada de simular o suicídio do jornalista enfraqueceu a linha dura. Pela primeira vez, o fotógrafo Silvaldo Leung Vieira fala à imprensa.

HENRI CARTIER-BRESSON, fundador da mítica agência Magnum e mestre francês da fotografia, definiu num célebre ensaio de 1952 a arte do fotógrafo como a capacidade de captar um instante decisivo, para o qual deve estar alerta.

"Enquanto trabalhamos, precisamos ter certeza de que não deixamos nenhum buraco, de que exprimimos tudo; depois será tarde demais, e não haverá como retomar o acontecimento às avessas", escreveu ele.
O instante decisivo na vida do fotógrafo santista Silvaldo Leung Vieira foi também um instante decisivo para a vida política brasileira. Aluno do curso de fotografia da Polícia Civil de São Paulo, Silvaldo fez em 25 de outubro de 1975, aos 22 anos, a mais importante imagem da história do Brasil naquela década: a foto do corpo do jornalista Vladimir Herzog, pendurado por uma corda no pescoço, numa cela de um dos principais órgãos da repressão, o DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna).
Publicada na imprensa, a imagem corroborou a tese de que o "suicídio" de Herzog era uma farsa. No mesmo local, três meses depois, o mesmo fotógrafo testemunharia a morte do metalúrgico Manoel Fiel Filho. Assassinado sob tortura, ele também foi apresentado pelo regime como "suicida".
Historiadores são unânimes: ambas as mortes foram decisivas para mudar os rumos da ditadura.
A Folha localizou Silvaldo em Los Angeles, onde vive desde agosto de 1979, quando saiu de férias do cargo de fotógrafo do Instituto de Criminalística para nunca mais voltar. Pela primeira vez, ele contou detalhes sobre sua atuação na polícia técnica de São Paulo. "Ainda carrego um triste sentimento de ter sido usado para montar essas mentiras", afirmou, por telefone.
Sentindo-se ameaçado e perseguido pelo regime a que serviu, ele afirma não ter tido alternativa a não ser abandonar o emprego no serviço público e também o país.
CONCURSO O "Diário Oficial" do Estado de São Paulo de 6 de junho de 1975 informou, na página 59, o nome dos 24 aprovados no concurso de fotógrafo da Polícia Civil. Silvaldo era o de número 17. As aulas preparatórias, na Academia de Polícia, no campus da USP, começaram no dia 8 de outubro. Deixou a casa da mãe, em Santos, e juntou-se aos estudantes "forasteiros" no alojamento da escola, na Cidade Universitária.
Nascido em 1953, de pai chinês e mãe paulista, Silvaldo se envolveu com fotografia ainda criança, por influência da família. Foi fotógrafo da prefeitura e atuou no jornal "Cidade de Santos". Em 1974, vislumbrou na fotografia científica a oportunidade de "desvendar crimes" e "produzir provas técnicas", além de se aprimorar usando novos equipamentos.
Dezessete dias depois de iniciar o curso, Silvaldo foi convocado para sua primeira "aula prática" no último fim de semana do mês. "Disseram apenas que era um trabalho sigiloso e que eu não deveria contar para ninguém. A requisição veio do Dops", afirma.
O Departamento de Ordem Política e Social, o principal centro de repressão da Polícia Civil, estava sob a influência do delegado Sérgio Paranhos Fleury, que tinha livre trânsito na linha dura das Forças Armadas.
Um motorista levou Silvaldo até um complexo na rua Tutoia, em São Paulo, cidade que até hoje ele diz não conhecer bem.
SUICÍDIOS No Brasil de 1975, os "suicídios" nos porões da repressão eram quase uma rotina. Um deles foi o do tenente reformado da PM paulista e militante do PCB José Ferreira de Almeida, o Piracaia, que morreu após ser detido no DOI-Codi, em agosto. Segundo o relato oficial, Piracaia se enforcou amarrando o cinto do macacão à grade da cela.
Os "suicídios" eram fonte de discussão no governo Geisel (1974-79) e de atritos entre militares e o governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins. Em 1975, segundo "Direito à Memória e à Verdade" (2007), livro editado pela Presidência da República, 14 militantes foram mortos por agentes do Estado.
A ditadura completava mais de uma década tendo aniquilado quase a totalidade da esquerda armada nas grandes cidades e engrossava a caçada aos militantes do Partido Comunista Brasileiro. Mais de 200 pessoas foram presas.
Entre os detidos na ofensiva contra o PCB estava Vladimir Herzog. Aos 38 anos, casado e pai de dois filhos, Vlado, como era conhecido, era diretor de jornalismo da TV Cultura. Profissional com experiência internacional e apaixonado por teatro, ele militava no partido, mas, segundo amigos, não exercia atividades clandestinas, nem poderia ser apontado como um quadro fixo do partido, que àquela altura já considerava a luta armada um grande erro.
Na sexta, 24 de outubro, Vlado foi procurado por agentes da repressão em casa e no trabalho. Decidiu se apresentar espontaneamente no DOI-Codi na manhã seguinte. Nas sete horas em que esteve detido na rua Tutoia, no Paraíso, onde ficava o centro do Exército, o jornalista prestou depoimento e passou por acareações. Segundo testemunhas, morreu após ser barbaramente torturado.
Quando Silvaldo chegou ao DOI-Codi para fotografar o cadáver de Herzog, a cena do "suicídio" estava montada. Numa cela, o corpo pendia de uma tira de pano atada a uma grade da janela. As pernas estavam arqueadas e os pés, no chão. Completavam o cenário papel picado (um depoimento que fora forçado a assinar) e uma carteira escolar.
Na mesma cela morrera Piracaia, segundo o livro "Dos Filhos deste Solo" (Boitempo), de Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio.
VIBRAÇÃO Silvaldo chegou ali com uma Yashica 6x6 TLR, câmera tipo caixão, biobjetiva, com visor na parte de cima, semelhante a uma Rolleiflex.
"Eu estava muito nervoso, toda a situação foi tensa. Antes de chegar na sala onde estava o corpo, passei por vários corredores", conta ele.
"Havia uma vibração muito forte, nunca senti nada igual. Mas não me deixaram circular livremente pela sala, como todo fotógrafo faz quando vai documentar uma morte. Não tive liberdade. Fiz aquela foto praticamente da porta. Não fiquei com nada, câmera, negativo ou qualquer registro. Só dias depois fui entender o que tinha acontecido."
Ele diz ter começado a montar o quebra-cabeça no domingo, quando o jornalista foi velado, ao descobrir que tinha fotografado o corpo de Vladimir Herzog. Depois, viu a foto no "Jornal do Brasil", o primeiro veículo da imprensa a publicar a imagem, ainda em 1975. No início dos anos 80, a revista "Veja" a publicaria creditando o autor: "Silvaldo Leung Vieira, Depto. de Polícia Técnica, Secretaria de Segurança Pública, São Paulo, 1975".
"Tudo foi manipulado, e infelizmente eu acabei fazendo parte dessa manipulação", lamenta-se. "Depois me dei conta que havia me metido em uma roubada. Isso aconteceu, acho, porque eles precisavam simular transparência."
NOTA OFICIAL Já antes da divulgação da foto, a versão do suicídio, dada pelos militares em nota oficial, foi recebida com suspicácia. "Cerca das 16h, ao ser procurado na sala onde fora deixado, desacompanhado, foi encontrado morto, enforcado, tendo para tanto utilizado uma tira de pano. O papel, contendo suas declarações, foi achado rasgado, em pedaços, os quais, entretanto, puderam ser recompostos para os devidos fins legais", dizia o texto do 2o Exército.
A nota não batia com o relato da mulher do jornalista, Clarice, que foi avisada por Vladimir de que se apresentaria espontaneamente para depor. Amigos dele, como os jornalistas Rodolfo Konder e Paulo Markun, presos no DOI-Codi no mesmo dia, afirmaram que era possível ouvir gritos e gemidos de Herzog enquanto era torturado.
O Exército afirmou que a tira de pano amarrada no pescoço de Vladimir Herzog, visto pela repressão como um agente da KGB, o serviço secreto da União Soviética, seria a cinta do macacão que usava. Mas os macacões do DOI-Codi não tinham cinta.
Embora o laudo do Instituto Médico Legal afirmasse que a causa mortis foi "asfixia mecânica por enforcamento", Herzog não foi sepultado na ala dos suicidas do cemitério israelita do Butantã, conforme a tradição judaica. A decisão do rabino Henry Sobel foi considerada um desafio ao regime militar.
A foto de Silvaldo mostrava que Vlado "se enforcou" atando o nó na primeira barra da janela, a 1,63 metro de altura. A imagem divulgada à época, contudo, fora cortada: descobriu-se depois, nos arquivos do SNI (Serviço Nacional de Informações), uma versão sem corte, segundo o jornalista Elio Gaspari. Essa imagem mostra a barra superior da janela, que Herzog poderia ter usado se quisesse de fato se enforcar, subindo na carteira escolar e se projetando em vão livre.
Na semana seguinte à morte do jornalista, São Paulo continuava convulsionada. Além da agitação estudantil na USP (Universidade de São Paulo) que prenunciava as manifestações de 1977, a missa de sétimo dia de Vlado, na catedral da Sé, transformou-se num ato ecumênico de repúdio à ditadura.
Silvaldo conta que "uns dez colegas" seus da Academia de Polícia foram escalados para fotografar alguns dos presentes na Sé. Eles deviam atuar "como fotógrafos de jornal", para identificar supostos subversivos.
Edson Wailemann, 57, formou-se na turma de Silvaldo. Ele ainda se lembra do colega, apesar de não conhecer a história da foto de Herzog. É fotógrafo policial há 37 anos, atuando exclusivamente em casos de homicídio. "Naqueles anos, a polícia técnica sempre atendia a esses chamados, inclusive para os trabalhos dentro das dependências do Exército", confirmou à Folha. "Era comum".
Um ex-agente do antigo SNI que atuava nessa época em São Paulo disse à Folha, sob condição de anonimato, que a história do fotógrafo não é verossímil.
Segundo ele, o DOI-Codi, sob comando do militar Audir Santos Maciel, era um dos lugares mais herméticos do aparato de repressão. Antes de Maciel, o DOI-Codi fora chefiado por Carlos Alberto Brilhante Ustra. Parentes de desaparecidos que estiveram presos lá tentam responsabilizá-los judicialmente, até agora sem sucesso. Ustra e Maciel negam participação em torturas e assassinatos.
A colaboração dos profissionais do Instituto de Criminalística com a repressão, principalmente fotógrafos e peritos, era tão comum que, na virada dos anos 70 para os 80, foi criada uma equipe especial para atender exclusivamente os crimes ou casos políticos. Até ela ser formada, no entanto, vários profissionais foram requisitados.
A conexão da Polícia Civil (Dops) com o Exército (DOI-Codi), mais do que notória, era feita por intermédio de Fleury, entre outros.
"Havia um comando paralelo no Exército, e é bem provável que houvesse também um comando anarquista na Secretaria de Segurança Pública", disse à Folha o ex-governador (1975-79) Paulo Egydio Martins, 84. "Esse era um problema absolutamente crítico, que infelizmente saiu do controle."
AULA PRÁTICA Oitenta e quatro dias depois de fotografar o cadáver de Herzog, Silvaldo foi convocado para outra "aula prática" no DOI-Codi. Era janeiro de 1976, e ele ouviu as mesmas recomendações de que não falasse nada sobre o trabalho. Novamente, a ordem partira do Dops.
O objetivo era forjar outra farsa: a morte do metalúrgico Manoel Fiel Filho, também "enforcado" nas dependências do Exército. Nas contas que Elio Gaspari faz em seu livro "A Ditadura Encurralada" (Companhia das Letras), Fiel Filho "fora o 39º suicida do regime, o 19º a se enforcar. Como Cláudio Manuel da Costa, com as meias, sem vão livre". (O poeta e inconfidente mineiro Cláudio Manuel da Costa foi o patrono dos "suicidas" nas prisões brasileiras. Morreu enforcado com uma meia comprida, em 1789.)
Segundo testemunhas Fiel Filho fora detido pelos agentes do DOI-Codi de sandálias e sem meias. "Fiz fotos do local onde o corpo foi encontrado, mas não me deixaram ver o cadáver. Antes de fotografá-lo, recebi uma ordem de que deveria deixar o local", afirma Silvaldo.
Assim como ocorreu na morte de Vlado, o 2º Exército, responsável pelo Estado de São Paulo, divulgou nota atestando o "suicídio". Mas não houve publicidade da imagem do morto no DOI-Codi.
"Eu sabia que eles tinham feito merda, mas nessa segunda vez eu estava mais relaxado, fiz até um comentário: 'Aqui acontecem coisas estranhas'", lembra Silvaldo. "Um oficial do Exército que me acompanhava, que parecia ser muito jovem, me ameaçou: 'É melhor ficar calado e não comentar nada. Se você não calar, a gente te cala'."
Não se sabe se o cadáver do metalúrgico foi fotografado dentro do DOI-Codi. "O que se conhece é uma imagem do corpo dele nu, no necrotério", conta o jornalista e cineasta Jorge Oliveira, que a expôs no documentário que produziu, "Perdão, Mr. Fiel", em que narra, como diz o subtítulo do filme, a história do "operário que derrubou a ditadura no Brasil".
Separados por poucos meses, os assassinatos de Herzog e Fiel Filho expuseram o descontrole e a anarquia dos porões. A linha dura, que não aceitava a distensão "lenta e gradual" que o presidente Ernesto Geisel pretendia levar a cabo, resistia, com o argumento de que o Brasil ainda estava ameaçado pelo comunismo.
A queda de braço da linha dura com Geisel e seu ministro Golbery do Couto e Silva (1911-87), que levou à queda do general Ednardo D'Avila Mello, chefe da Força em São Paulo, em 1976, e do ministro do Exército, Sylvio Frota, em 1977, é narrada em detalhes por Elio Gaspari em "A Ditadura Encurralada".
"Tenho para mim que esses acontecimentos foram a raiz das Diretas-Já", avalia o ex-governador Paulo Egydio Martins.
TAREFAS Em abril de 1979, quando o país discutia a Lei da Anistia, Silvaldo recusou-se a participar de uma tarefa -da qual ele diz não se lembrar. Desde julho de 1976, já estava efetivado como fotógrafo da Polícia Civil de São Paulo, segundo seu registro funcional da Secretaria de Segurança Pública.
No documento, vê-se que passou pela delegacia de Santos, a de acidentes de trânsito e, por fim, a Darc, Delegacia de Arquivos e Registros Criminais, onde era responsável por registrar os presos condenados antes que fossem transferidos para os presídios.
"Mas o trabalho ia sempre além", conta, "e muitas vezes tinha que fotografar também presos políticos, alguns que acabavam de sair das sessões de tortura. Eu não aguentava aquilo, reclamava que minha atribuição não me permitia fazer esse serviço. E quanto mais eu questionava, mais a situação ficava delicada."
Silvaldo diz que os superiores passaram a fritá-lo por sua atitude questionadora: não podia tirar férias e chegou a ser suspenso.
Segundo registro da Polícia Civil ao qual a Folha teve acesso, Silvaldo foi afastado por três dias, nos termos da lei estadual no 207, de 1979, por "descumprimento dos deveres e transgressão disciplinar". Em agosto, finalmente tirou férias e deixou o Brasil.
EUA Em Los Angeles, onde está radicado desde então, Silvaldo conta ter feito um pouco de tudo: como imigrante ilegal, ganhou dinheiro jogando xadrez e até como aprendiz de ourives, emprego que conseguiu graças a um empresário grego radicado nos EUA que era casado com uma conhecida dele de Santos.
De lá, acompanhou o apagar das luzes da ditadura e viu a União ser condenada pela morte de Manoel Fiel Filho, em 1995 -no caso Herzog, a primeira condenação da União ocorreu ainda em 1978. (Ainda assim, setores das Forças Armadas frequentemente divulgam informações dando conta que Herzog e Fiel Filho se mataram, omitindo os assassinatos. Em 1993, um relatório da Marinha dizia que Vlado se suicidou no DOI-Codi.)
Em 1986, foi favorecido pela Lei da Anistia da Imigração Americana, promovida pelo governo de Ronald Reagan (1981-89); dois anos depois, ganhou o visto de residência temporária; em 1989, veio o selo de residente permanente. Hoje trabalha no Good Shepperd Center, instituição beneficente voltada para mulheres e crianças sem-teto.
O abandono do cargo público ainda lhe traz problemas. No governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), convidado a trabalhar no setor cultural do Consulado em Los Angeles, não pôde assumir o posto: a infração administrativa até hoje o impede de voltar ao serviço público. 

Silvaldo protocolou pedido em 2008 na Comissão da Anistia do governo federal para tentar receber indenização pelo tempo de serviço como fotógrafo da Polícia Civil. Alega ter abandonado o cargo por causa da perseguição política.
"Infelizmente eu estava no meio do caldeirão, sempre foi muito difícil para mim entender todo esse processo", conta. "O único conforto é pensar que a foto que fiz do Herzog ajudou a desmontar toda a farsa". Separado e sem filhos, ele planeja voltar para o Brasil para ficar ao lado da mãe octogenária.
Ele não pretende voltar apenas para casa, mas também para a fotografia. Admirador dos fotógrafos Sebastião Salgado e Gale Tattersall (britânico que se especializou em fotos para o cinema), Silvaldo programa uma viagem ao Alasca com um grupo de Los Angeles, para registrar paisagens, em uma espécie de workshop.
"Preciso me atualizar, comecei na fotografia na era do preto e branco. Mudou muito."
Pela primeira vez, Silvaldo contou detalhes de sua atuação na polícia de São Paulo. "Ainda carrego um triste sentimento de ter sido usado para montar essas mentiras", disse
O Exército afirmou que a tira de pano amarrada no pescoço de Herzog seria a cinta do macacão que usava. Mas os macacões do DOI-Codi não tinham cinta
Silvaldo diz que os superiores passaram a fritá-lo por sua atitude questionadora: não podia tirar férias e chegou a ser suspenso. Em agosto de 1979, tirou férias e deixou o Brasil