domingo, 29 de janeiro de 2012

Expansão do extremismo preocupa europeus

Relatório divulgado por departamento da UE diz que continente precisa lidar de forma 'urgente' com fenômeno para evitar 'risco de desestabilização'

JAMIL CHADE
CORRESPONDENTE / GENEBRA  
O Estado de S.Paulo

A Europa precisa lidar de forma urgente com a expansão de movimentos extremistas - de todas as tendências - se não quiser ser confrontada com um risco real de violência e desestabilização política nos próximos anos. O alerta foi feito pelo Departamento de Coordenação da Luta Contra a Violência e o Terrorismo da União Europeia (UE).

Em um documento enviado a ministros de Justiça dos 27 países do bloco, a UE confirma que movimentos de extrema esquerda, extrema direita e vinculados ao radicalismo islâmico ganham espaço e precisam ser contidos.

"Estamos numa encruzilhada da história europeia", disse Emine Bozkurt, chefe da bancada antirracista do Parlamento Europeu. "Em pouco anos vamos descobrir se esse incremento do ódio - seja por ultranacionalistas, islamofóbicos ou antissemitas - levou a uma divisão da sociedade ou se fomos capazes de lutar contra essa tendência alarmante", disse.

Pela conclusão da UE, com base em relatórios de inteligência de vários governos, a crise econômica que assola a região há dois anos, a taxa recorde de desemprego entre jovens, a manipulação política da imigração e mesmo a Primavera Árabe criaram condições para o fortalecimento desses grupos.

Nos últimos meses, a questão envolvendo o fortalecimento do extremismo entrou na agenda política do continente, especialmente depois do massacre promovido pelo norueguês Anders Behring Breivik. Mas a constatação dos especialistas é que cada movimento que ganha espaço tem sua própria lógica e precisa ser combatido de uma forma radicalmente diferente. O principal alerta: o assassinato de 77 pessoas na Noruega não foi um fato isolado, nem limitado a uma tendência ideológica. Na Áustria, um recente relatório preparado pelo Ministério da Justiça confirmou um aumento de 31% nos incidentes registrados com grupos de extrema direita. No total, registraram-se 1040 casos em 2011, dos quais um terço foi de "violência física".

Esquerda. Para o chefe do Departamento, Gilles de Kerchove, a violência da extrema esquerda vem sendo alimentada pela proliferação de cortes de gastos sociais. "Precisamos estar conscientes de que as condições econômicas adversas na Europa poderão produzir terreno para a proliferação de ideologias violentas de esquerda e anarquistas", afirmou Kerchove.

O principal alvo desse tipo de violência seria a Grécia, justamente o país mais afetado pela crise, que conta com um dos movimentos de extrema esquerda mais bem organizados da Europa. Na Itália e na Suíça, grupos anarquistas chegaram a enviar cartas-bomba a alvos específicos, criando um temor de que esses movimentos já não estariam apenas teorizando sobre eventuais ataques, mas passando à ação.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Governo de SP trata golpe militar de 'Revolução'

Secretaria retirou texto do ar e disse que conteúdo não reflete pensamento da administração



DE SÃO PAULO


A Secretaria da Segurança Pública do governo de São Paulo tratou o golpe militar de 1964 como "Revolução de Março" e afirmou que ela foi "desencadeada para combater a política sindicalista de João Goulart".
A informação estava na página da secretaria na internet até as 19h de ontem, quando foi suprimida. A Folha havia questionado a secretaria pouco antes de o texto sair do ar.
Por meio da assessoria da pasta, o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) afirmou que "o texto relacionado ao ano de 1964 não reflete o pensamento da Secretaria da Segurança Pública e foi retirado do site". O órgão não informou desde quando o conteúdo estava no ar.
O texto aparecia na seção "Institucional - Histórico" e afirmava que "em 25 de agosto de 1961, o presidente Jânio da Silva Quadros renunciou a seu mandato. Em 31 de março de 1964 iniciou-se a revolução, desencadeada para combater a política sindicalista de João Goulart. Força Pública e Guarda Civil puseram-se solidárias às autoridades e ao povo".
O termo "revolução" é usado por militares que negam que tenha havido uma ditadura no país de 1964 a 1985.
A imagem ao lado do texto era uma ilustração de pessoas carregando uma faixa com os dizeres: "Marcha da família com Deus pela liberdade".
A marcha foi uma manifestação contra o então presidente João Goulart, que aconteceu na cidade de São Paulo 12 dias antes do golpe que o tirou do poder.
POLÍCIA MILITAR
O site da Polícia Militar de São Paulo trata o golpe de maneira semelhante. A seção sobre o brasão de armas da corporação diz que a 18ª estrela do escudo se refere a "1964, Revolução de Março".
Nos últimos dias, a corporação foi alvo de protestos que a acusam de ter cometido abusos na operação realizada na chamada cracolândia, na capital, e na reintegração de posse do Pinheirinho, em São José dos Campos. O governo diz que possíveis exageros serão punidos.

Irã votará lei que bloqueia venda de petróleo para UE

Parlamento analisa projeto que afetaria a economia da Europa ao proibir imediatamente o fornecimento do produto para o bloco

JAMIL CHADE
CORRESPONDENTE / GENEBRA

O Irã deve votar amanhã uma lei que proíbe imediatamente a exportação de petróleo para a Europa. A medida seria a resposta iraniana ao embargo do produto aprovado pela União Europeia, na segunda-feira. O bloco tem até julho para interromper totalmente a importação, tempo que seria usado para buscar novos fornecedores. Teerã, porém, acredita que a interrupção brusca deixaria a UE sem combustível e agravaria a crise do bloco.

"Estamos agindo com urgência", disse ontem à agência Fars Hossein Ibrahimi, membro do Comitê de Segurança Nacional do Parlamento do Irã. "Queremos cortar as exportações para a Europa já na próxima semana." Para Seyyed Hosseini, porta-voz da Comissão de Energia do Parlamento, a Europa não ficará imune à alta nos preços. "O Irã tem a terceira maior reserva do mundo e não pode ser eliminado da questão da energia global."

Ontem, o preço do barril do petróleo voltou a subir e executivos de multinacionais já admitem que o grande ganhador será a China, que passará a comprar o produto a preços mais baixos. A Europa é o segundo maior destino do petróleo iraniano e aprovou o embargo para pressionar o Irã a negociar uma solução para seu programa nuclear. Em 2010, Teerã vendeu US$ 73 bilhões em petróleo, 80% das exportações do país.

No entanto, para Hosseini, o Parlamento iraniano tem o poder de "paralisar" a economia de Itália, Espanha e Grécia. "As sanções só afetarão a UE", disse. Os europeus alegam que a tentativa de asfixiar o Irã vem dando resultado. A moeda local já perdeu 30% de seu valor em um mês e as taxas de juros subiram de 15% para 21%.

Em Davos, na Suíça, os sauditas garantiram que estão prontos para substituir o Irã e fornecer petróleo para a Europa. Os próprios sauditas, contudo, admitem que o Irã não sofrerá com as sanções a menos que o embargo seja mundial. Entre os maiores executivos do setor, não há dúvidas de que o petróleo iraniano acabará abastecendo a China - e por um preço mais baixo. "Nada vai mudar. Acho que esse petróleo irá para outro lugar", disse Christopher de Margerie, CEO da francesa Total.

José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobrás - que será substituído por Maria das Graças Foster - também acredita que os países da Ásia sejam os beneficiados. "Estou certo de que Moscou está observando a situação com muito interesse", disse Gabrielli em Davos.

Arkadi Dvorkovich, conselheiro do Kremlin, admitiu que a Rússia tende a ganhar com o embargo europeu ao petróleo iraniano em razão da venda de gás para a Europa e da possibilidade de obter petróleo iraniano a preços mais baixos.

Um claro recado a Cuba

Na mesma medida em que demonstra enorme dificuldade, ou falta de disposição, para corrigir os efeitos negativos provocados na gestão governamental pela política licenciosa de alianças implantada por seu antecessor, a presidente Dilma Rousseff permanece firme na clara intenção de recolocar a diplomacia brasileira no rumo da cautelosa distância dos regimes totalitários cortejados por Lula e seu séquito de denodados "anti-imperialistas". Sem alarde, Dilma e a nova equipe do Itamaraty têm agido pontualmente para corrigir a lambança lulista na política externa, por meio de manifestações explícitas e reiteradas de que agora o Brasil está atento à preservação dos princípios democráticos como parâmetro para a orientação de seu relacionamento com a comunidade internacional e que não mais transige quando estão em jogo os direitos humanos.

O mais recente e louvável exemplo dessa nova realidade é a decisão tomada pela presidente de conceder visto de entrada para que a dissidente cubana Yoani Sánchez - colaboradora do Estado - possa visitar o Brasil. A decisão de Dilma, que não significa hostilidade com o regime totalitário de Havana, mas apenas um exercício de coerência, contrasta fortemente com as atitudes assumidas pelo ex-presidente Lula em sua última visita ao domínio dos Castros, quando meteu os pés pelas mãos em manifestações explícitas de vassalagem aos ditadores que há meio século se adonaram da ilha. Entre outras barbaridades, Lula comparou a criminosos comuns um dissidente cubano que acabara de morrer em consequência de uma greve de fome.

Na segunda-feira Dilma fará sua primeira visita oficial a Cuba como chefe de Estado. Nem por isso hesitou, poucos dias antes, em conceder o visto, mesmo podendo causar constrangimento ao regime de Havana, que já negou 18 pedidos de Yoani Sánchez para viajar ao exterior.

Sánchez tentou três outras vezes visitar o País, sempre atendendo a convites. Uma delas, para o lançamento de seu livro De Cuba, com carinho. Jamais obteve permissão para sair da ilha. Desta vez, convidada para o lançamento de um documentário cinematográfico do qual participa, enviou carta a Dilma Rousseff solicitando visto de entrada, o que é uma das condições que o regime cubano impõe para conceder autorização de saída. Sua intenção clara era exercer pressão sobre Havana. É improvável que tenha êxito, até porque a presidente brasileira com toda certeza não fará pressão sobre Raúl Castro. Nem se pode exigir isso dela, em termos diplomáticos, até porque seu recado já foi claramente dado.

O mesmo comportamento observado nas relações com Havana o governo Dilma tem aplicado a outros regimes antidemocráticos antes cortejados pela diplomacia lulista. O iraniano Mahmoud Ahmadinejad não tem feito segredo de seu descontentamento com a nova postura de Brasília. Ele não engole o fato de o Brasil, logo no início do governo Dilma, ter votado na ONU a favor da resolução que abriu caminho para a investigação de casos de violação de direitos humanos pelo regime dos aiatolás. Em Caracas, Hugo Chávez remói queixas parecidas, que repercutem na órbita bolivariana.

Com todas as críticas que possam ser feitas pelo que o governo Dilma ainda não mostrou em termos de política interna, é inegável que no plano externo se registraram avanços significativos, traduzidos por esse claro rompimento com o alinhamento automático a tudo o que fosse antiamericano, adotado pelo governo Lula. Não significa, é claro, que os interesses nacionais recomendem uma política externa radicalmente oposta, de alinhamento automático com as posições de Washington. Até pelo seu expressivo desenvolvimento econômico, o Brasil assumiu um papel de potência emergente que exige, no limite do possível, um relacionamento externo pautado pela defesa aguerrida dos interesses nacionais, em frequente dissídio com os das potências estrangeiras.

É com alívio que o País acolhe mais uma demonstração de que a diplomacia brasileira deixou de estar a serviço do exibicionismo populista do amigão dos Castros, Ahmadinejad, Chávez, Morales, Correa e que tais.

O Estado de São Paulo, 28/01/2012

Oposição sem rumo

MARCO ANTONIO VILLA

Nesta semana fomos surpreendidos por uma entrevista de Fernando Henrique Cardoso. Não pela entrevista, claro, mas pela análise absolutamente equivocada da conjuntura brasileira. Esse tipo de reflexão nunca foi seu forte. Basta recordar alguns fatos.

Em 1985 iniciou a campanha para a Prefeitura paulistana tendo como aliados o governador Franco Montoro e o governo central, que era controlado pelo PMDB, além da própria Prefeitura, sob o comando de Mário Covas. Enfrentava Jânio Quadros, um candidato sem estrutura partidária, sem programa e que entrou na campanha como livre atirador. Fernando Henrique achou que ganharia fácil. Perdeu.

No ano seguinte, três meses após a eleição municipal, propôs, em entrevista, que o PMDB abandonasse o governo, dias antes da implementação do Plano Cruzado, que permitiu aos candidatos da Aliança Democrática vencer as eleições em todos os Estados. Ele, aliás, só foi eleito senador graças ao Cruzado.

Passados seis anos, lutou para que o PSDB fizesse parte do governo Fernando Collor. Ele seria o ministro das Relações Exteriores (e o PSDB receberia mais duas pastas). Graças à intransigência de Covas, o partido não aderiu. Meses depois, foi aprovado o impeachment de Collor.

Em 1993, contra a sua vontade, foi nomeado ministro da Fazenda por Itamar Franco. Não queria, de forma alguma, aceitar o cargo. Só concordou quando soube que a nomeação havia sido publicada no Diário Oficial (estava no exterior quando da designação). E chegou à Presidência justamente por esse fato - e por causa do Plano Real, claro.

Em 2005, no auge da crise do mensalão, capitaneou o movimento que impediu a abertura de processo de impeachment contra o então presidente Lula. Espalhou aos quatro ventos que Lula já era página virada na nossa História e que o PSDB deveria levá-lo, sangrando, às cordas, para vencê-lo facilmente no ano seguinte. Deu no que deu, como sabemos.

Agora resolveu defender a tese de que a oposição tenha um candidato presidencial, com uma antecedência de dois anos e meio do início efetivo do processo eleitoral. É caso único na nossa História. Nem sequer na República Velha alguém chegou a propor tal antecipação. É uma espécie de dedazo, como ocorria no México sob o domínio do PRI. Apontou o dedo e determinou que o candidato tem de ser Aécio Neves. Não apresentou nenhuma ideia, uma proposta de governo, nada. Disse, singelamente, que Aécio estaria mais de acordo com a tradição política brasileira. Convenhamos que é um argumento pobre. Ao menos deveria ter apresentado alguma proposta defendida por Aécio para poder justificar a escolha.

A ação intempestiva e equivocada de Fernando Henrique demonstra que o principal partido da oposição, o PSDB, está perdido, sem direção, não sabendo para onde ir. O partido está órfão de um ideário, de ao menos um conjunto de propostas sobre questões fundamentais do País. Projeto para o País? Bem, aí seria exigir demais. Em suma, o partido não é um partido, na acepção do termo.

Fernando Henrique falou da necessidade de alianças políticas. Está correto. Nenhum partido sobrevive sem elas. O PSDB é um bom exemplo. Está nacionalmente isolado. Por ser o maior partido oposicionista e não ter definido um rumo para a oposição, acabou estimulando um movimento de adesão ao governo. Para qualquer político fica sempre a pergunta: ser oposição para quê? Oposição precisa ter programa e perspectiva real de poder. Caso contrário, não passa de um ajuntamento de vozes proclamando críticas, como um agrupamento milenarista.

Sem apresentar nenhuma proposta ideológica, a "estratégia" apresentada por Fernando Henrique é de buscar alianças. Presume-se que seja ao estilo petista, tendo a máquina estatal como prêmio. Pois se não são apresentadas ideias, ainda que vagas, sobre o País, a aliança vai se dar com base em qual programa? E com quais partidos? Diz que pretende dividir a base parlamentar oficialista. Como? Quem pretende sair do governo? Não será mais uma das suas análises de conjuntura fadadas ao fracasso?

O medo de assumir uma postura oposicionista tem levado o partido à paralisia. É uma oposição medrosa, envergonhada. Como se a presidente Dilma Rousseff tivesse sido eleita com uma votação consagradora. E no primeiro turno. Ou porque a administração petista estivesse realizando um governo eficiente e moralizador. Nem uma coisa nem outra. As realizações administrativas são pífias e não passa uma semana sem uma acusação de corrupção nos altos escalões.

O silêncio, a incompetência política e a falta de combatividade estão levando à petrificação de um bloco que vai perpetuar-se no poder. É uma cruel associação do grande capital - apoiado pelo governo e dependente dele - com os setores miseráveis sustentados pelos programas assistencialistas. Ou seja, o grande capital se fortalece com o apoio financeiro do Estado, que o brinda com generosos empréstimos, concessões e obras públicas. É a privatização em larga escala dos recursos e bens públicos. Já na base da pirâmide a estratégia é manter milhões de famílias como dependentes de programas que eternizam a disparidade social. Deixam de ser miseráveis. Passam para a categoria da extrema pobreza, para gáudio de alguns pesquisadores. E tudo temperado pelo sufrágio universal sem política.

Em meio a este triste panorama, não temos o contradiscurso, que existe em qualquer democracia. Ao contrário, a omissão e a falta de rumo caracterizam o PSDB. Para romper este impasse é necessário discutir abertamente uma proposta para o País, não temer o debate, o questionamento interno, a polêmica, além de buscar alianças programáticas. É preciso saber o que pensam as principais lideranças. Numa democracia ninguém é líder por imposição superior. Tem de apresentar suas ideias. 

MARCO ANTONIO VILLA, HISTORIADOR, É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS (UFSCAR)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Cristina Kirchner reassume Presidência e exibe cicatriz


Mandatária estava de licença médica desde o início deste mês, após suspeita de câncer

SYLVIA COLOMBO
DE BUENOS AIRES


A presidente argentina, Cristina Kirchner, reassumiu ontem o cargo, após licença médica, exibindo a cicatriz no pescoço causada pela operação de tireoidectomia realizada no último dia 4.
Disse: "Eu ia colocar um lenço, mas aí o 'Clarín' ia dizer que eu não fui operada".
Ela referiu-se à polêmica desatada pelo jornal opositor, que questionou a necessidade da operação, uma vez que se comprovou que o primeiro diagnóstico estava errado e que Cristina não tinha um câncer, mas sim um adenoma folicular (benigno).
Comentou que ficou impressionada com a confusão que se armou após a divulgação do "falso positivo" e agradeceu à militância e aos que torceram pela recuperação.
No ato na Casa Rosada, estava vestida de negro. Aventava-se que ela poderia aproveitar a ocasião para deixar o luto, que mantém desde a morte de Néstor Kirchner, em outubro de 2010. O vestido negro, porém, tinha brilho nos braços e discreto decote.
Um pouco rouca, respondeu às críticas do premiê britânico, David Cameron, que havia acusado a Argentina de ser "colonialista" por reivindicar a soberania das ilhas Malvinas. Cristina disse que o Reino Unido não podia usar essa palavra enquanto ainda mantinha colônias de seu poderoso império do passado.

Presidente escanteia esquerda e mira quem poderá reelegê-lo

Análise

CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA
ESPECIAL PARA A FOLHA


Barack Obama usou o privilegiado espaço que só os presidentes têm de falar à nação em horário nobre nas principais redes de TV dos EUA para tentar realinhar a seu lado algumas das parcelas da sociedade que foram vitais para sua vitória na eleição de 2008.
Seu discurso ao Congresso sobre o Estado da União teve alvos claríssimos: as classes médias e os não filiados a partidos políticos.
Retoricamente, não chegou a ser brilhante, como muitas vezes foi na campanha de quatro anos atrás. Mas Obama deixou claríssima sua estratégia para se reeleger em novembro.
Ele não vai inflamar os contingentes liberais do seu partido e à esquerda dele, os mais decepcionados com o desempenho basicamente conservador na Presidência de quem eles haviam escolhido como seu campeão.
Anteontem, o presidente atacou ricos, reacionários, especuladores, mas com suavidade e com a promessa de que não irá passar da conta na regulação da economia.
Mas foi muito enfático na defesa da importância das classes médias, que sempre foram o principal esteio do tecido social americano e que vêm sendo ameaçadas há pelo menos três décadas pelo crescimento desmesurado da diferença de rendimentos entre os mais ricos e os mais pobres no país.
O presidente respondeu, sem grande ênfase mas com nitidez, tanto aos clamores do movimento "Ocupe Wall Street" quanto à biografia de seu mais possível adversário em novembro, o milionário e financista Mitt Romney.
Ao propor um aumento de 30% na taxação de renda dos que ganham mais de US$ 1 milhão por ano, ameaçar universidades que continuarem a cobrar altas anuidades com fim de ajuda federal, propor linhas de crédito especiais para renegociação de hipotecas habitacionais, o presidente escolhe um lado que é o da maioria da população.
Quando acena com doação de terras federais para empreendimentos de energia solar e eólica, faz um afago aos grupos antiestablishment que, mesmo aborrecidos com ele, jamais votarão em outro candidato -mas podem não ir votar, o que lhe seria prejudicial na disputa.
As perspectivas de reeleição para ele sempre foram boas, mas são melhores do que nunca no início de 2012.
A economia dá modestos sinais de melhora, o partido da oposição se estraçalha numa luta fratricida a que ele assiste de camarote, o mundo está relativamente em paz, embora as ameaças continuem rondando a estabilidade em várias regiões.
O ambiente está muito longe de ser compatível com os sonhos dos que elegeram o presidente em 2008. Mas é melhor do que o recebido por ele de George W. Bush. E ninguém minimamente confiável à maioria dos eleitores se apresenta para substituí-lo.

A rebelião do "precariado" europeu

Ruy Braga

O ataque aos direitos sociais na Europa defende os interesses da oligarquia financeira; estamos vendo o tempestuoso início de uma era de luta de classes

"Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo
É preciso estudar"
Deolinda, "Parva que eu sou"


Após a Segunda Guerra Mundial, o crescimento econômico europeu, associado à institucionalização de direitos sociais, pareceu eliminar a insegurança da relação salarial.
Ainda que boa parte do trabalho intermitente e sub-remunerado continuasse sendo atribuída a jovens imigrantes, a combinação da proteção do trabalhador nacional com o consumo de massas (ou seja, a promessa do Estado social) se transformou em um poderoso amortecedor da luta de classes.
No início dos anos 1980, François Mitterrand resgatou do desterro o projeto da União Europeia.
Aquela promessa ajudou uma Europa que tinha acabado de sair de ditaduras filofascistas (em países como Espanha e Portugal) e de uma experiência de luta armada (como na Itália e na Alemanha) a enfrentar a competição com o neoliberalismo estadunidense.
Mesmo refém dos limites fiscais impostos pelo Tratado de Maastricht (um teto de 3% de déficit orçamentário), um continente unificado pelo binômio "eficiência e proteção" seduziu vários países do ex-bloco soviético e também parte significativa da imaginação política progressista global.
A atual encruzilhada europeia quebrou a promessa: os ajustes baseados na eliminação de direitos e os cortes orçamentários impostos pela "Troika" -a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional- recolocaram a insegurança no coração da relação salarial.
Os alvos foram as economias mais castigadas pela crise econômica. Primeiro foi a Grécia, seguida de perto por Portugal e pela Itália.
A recente rebelião do "precariado" europeu (ou seja, aquele setor da classe trabalhadora formado por jovens à procura do primeiro emprego, imigrantes e trabalhadores temporários) representa não apenas o fim de um ciclo de expansão econômica, mas o tempestuoso início de uma era de luta de classes.
"Geração à rasca", "Movimento 15-M", "Anonymous"... Não importam os nomes, a crescente degradação da proteção aos assalariados trouxe para a cena política uma fração de classe espremida entre a ameaça da exclusão social e o incremento da exploração econômica.
A luta de classes tende a se orientar pelas características desse jovem "precariado": trata-se de uma geração mais educada e internacionalizada do que seus pais, integrada "horizontalmente" em redes informacionais, além de divorciada por completo do pacto social do pós-guerra. Isso faz com que tanto a forma como o resultado da luta se tornem menos previsíveis.
Alguns sociólogos (como Guy Standing e Robert Castel) se referem a esse jovem "precariado" como uma "nova classe perigosa".
Eles estão acompanhados pelas autoridades políticas: na semana passada, às vésperas do anúncio de mais um plano de "austeridade" e diante de uma greve nacional de taxistas e caminhoneiros que ameaçou bloquear as principais rodovias do país, o primeiro-ministro italiano, Mario Monti, um economista e dublê de político escolhido a dedo pela "Troika", fez uma exigência.
Ele queria mais empenho dos governos da Alemanha e da França para baixar os custos do endividamento italiano. (Em 2012, a Itália precisa rolar € 320 bilhões a uma taxa de 7% ao ano.)
Para fortalecer a sua reivindicação, Monti evocou o "perigo" da ação intempestiva dos trabalhadores na periferia da eurolândia.
A bravata de Monti errou o alvo. Até agora, o jovem "precariado" demandou apenas que os governos honrem a promessa feita a seus pais.
O perigo está no amplo ataque aos direitos sociais orquestrados pela "Troika" a fim de salvaguardar os interesses da oligarquia financeira. As verdadeiras "classes perigosas" não são as que combatem nas ruas e nas praças. Elas estão confortavelmente instaladas nos escritórios da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu.

Feijoada, haggis e futebol

Kenneth Maxwell

Em 25 de janeiro, acontece a noite de Burns. Ela celebra o nascimento do grande poeta escocês Robert Burns, em 1759. O ponto alto da noitada é beber um "dram" de uísque escocês e saborear um haggis, prato que foi definido por Burns como "o grande cacique na corrida dos pudins".
O haggis originalmente era um prato das classes pobres. Elaborado com as porções menos nobres da carne de carneiro -que, de outra forma, teriam sido jogadas no lixo- e envolto no estômago do animal, ele é cozido lentamente e comido acompanhado por nabos e batatas.
O poeta escocês Robert Burns escreveu "Auld Lang Syne" ["Valsa da Despedida", na versão brasileira], tradicionalmente cantada na passagem do Ano-Novo.
O haggis não é muito diferente da feijoada, também originalmente um prato consumido pelas classes pobres. A feijoada leva carne de porco, carne-seca e feijão preto, é cozida lentamente e é acompanhada por arroz, couve, farofa, laranja e um copo de cachaça ou caipirinha.
Haggis e feijoadas têm ambos raízes históricas profundas e combinam tradições culinárias do campo e, no caso brasileiro, também tradições originárias da África. Ambos se tornaram pratos que são uma referência nacional.
Burns era bastante popular na antiga União Soviética, onde era visto como um homem do povo. Trabalhou por algum tempo como agente alfandegário em Dumfries, na Escócia.
Meu tio-avô, cujo pai se transferiu de Dumfries para o sudoeste da Inglaterra, tinha um poema original de Burns enquadrado em sua casa, do qual muito se orgulhava e que, infelizmente, se perdeu. Não creio que a feijoada tenha produzido muita poesia. Posso estar errado. Certamente, mereceria tê-lo feito.
O futebol brasileiro deve muito aos escoceses. Charles William Miller nasceu em São Paulo, filho de um escocês expatriado. Foi enviado ainda bem jovem à Inglaterra para estudar e lá se tornou excelente jogador de futebol.
Quando retornou a São Paulo, trouxe duas bolas de futebol e o manual de regras
do esporte. Mais tarde, teve influência na criação do Sport Club Corinthians Paulista.
No entanto, outro escocês, Thomas Donohue, pode alegar precedência. Trabalhava como engenheiro na fábrica têxtil de Bangu, no Rio de Janeiro, e trouxe a primeira bola de futebol ao Brasil, seis meses antes de Miller.
Ele fundou o Bangu Atlético Clube, no Rio de Janeiro, o time que, até onde se sabe, colocou os primeiros jogadores negros em campo no futebol brasileiro.

Democracia islâmica

Editoriais
editoriais@uol.com.br

Os resultados da primeira eleição parlamentar após a Primavera Árabe no Egito, que completou um ano ontem, confirmaram sólida maioria para as agremiações islâmicas. A Irmandade Muçulmana obteve 47% das cadeiras da Câmara e foi secundada por um partido mais radical, o salafista Nur, que conquistou 24% das vagas.
Com os votos dados a outras pequenas legendas, os religiosos perfizeram três quartos da principal Casa do Parlamento. Os partidos laicos somaram 15%.
Até o momento, contudo, não há sinal de que o Egito vá converter-se numa teocracia. A Irmandade Muçulmana e suas franquias pelo mundo árabe são amplas coalizões, não muito radicais, com várias facções a disputar hegemonia.
O cenário mais provável, hoje, é que a Irmandade busque os grupos laicos para formar maioria, como fez na Tunísia o moderado partido religioso Nahda. A aliança serviria para diferenciar-se ainda mais dos rivais salafistas, que defendem bandeiras impopulares, como a segregação dos sexos e a proibição do álcool.
Apesar da falta de prática, a ideia de democracia vem ganhando popularidade entre os islâmicos em geral e os árabes em particular. As mudanças de mentalidade são bem analisadas no livro "Quem Fala pelo Islã?", em que John Esposito e Dalia Mogahed esquadrinham pesquisas de opinião feitas pelo Gallup em 35 países islâmicos, entre 2001 e 2007.
Nas nações pesquisadas, significativas maiorias afirmaram que tanto o islamismo quanto a democracia são essenciais. Ajudam a compor o quadro favorável o crescente apoio à liberdade de expressão e à emancipação da mulher, assim como a rejeição da violência.
Ao mesmo tempo, boa parte dos muçulmanos rejeita a adoção pura e simples do modelo ocidental. A maioria insiste em reservar papel fundamental para as tradições religiosas do islã, especialmente a "sharia", em geral traduzida no Ocidente como "lei islâmica", mas que seria mais fielmente definida como "bússola moral".
Um cenário verossímil para o Egito é que a ala moderada da Irmandade prevaleça e siga a trilha do partido AK na Turquia. Mal ou bem, desenvolve-se ali um experimento de democracia sob predomínio de partido islâmico, ainda que não isento dos inevitáveis atritos com os fundamentos seculares do Estado de Direito.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Fukuyama e o futuro da história

Roberto Abdenur

Nos EUA, em 1974, o 1% mais rico detinha 9% da riqueza nacional. Hoje, possui quase 25% dela
Em dois continentes de importância para o mundo desdobram-se neste momento crises virtualmente existenciais no que diz respeito a seus modelos econômico-sociais.
Nos EUA, a oposição republicana a Obama tenta conquistar a Casa Branca com base em postura quase religiosa em favor da redução do imenso deficit público unicamente pela via da eliminação de gastos, com a preservação e mesmo a ampliação de vantagens tributárias que só fazem privilegiar os mais ricos.
Na Europa, o Estado do bem-estar se vê questionado. Não tanto sua essência, mas sim sua extensão passa a ser objeto de reavaliação, ao impacto de crise recessiva que tende a perdurar por longo tempo.
Enquanto isso, na China e em outras partes da Ásia Oriental viceja um autoritário capitalismo de Estado que aos olhos de alguns analistas do Ocidente constituiria modelo invejável -ainda que, pensando bem, seja esse alegado "Consenso de Pequim" (fazendo jogo de contraste com o "Consenso de Washington") de indesejável e inviável implantação em países com regimes verdadeiramente democráticos, baseados no Estado de Direito, nas liberdades civis e na economia de mercado.
Nos EUA a corrida eleitoral em curso expressa sociedade inusitadamente polarizada. E, em certo sentido, espantada e desorientada diante de nova realidade pouco assimilada: a inexorável tendência à crescente desigualdade socioeconômica.
Em 1974, o 1% mais rico detinha 9% da riqueza nacional. Hoje, possui quase 25%. Desigualdade que uns desejam enfrentar pela via do assistencialismo e de medidas de sentido distributivo e outros preferem não enxergar ou acreditam ser um mal passageiro, a ser sobrepujado pelo retorno ao "laissez-faire" e a medidas regressivas, supostamente favorecedoras dos pobres e das classes médias pela via do "trickle down" (gotejamento) da riqueza acumulada pelos ricos.
Na Europa, supostamente mais organizada, falhou a regulamentação financeira, o que convergiu com a crise de 2008 nos EUA para dar origem à presente situação. Nesse erro se encontraram o capitalismo neoliberal americano e a "economia social de mercado" dos alemães.
É interessante constatar, em tal contexto, o surgimento em vários países de movimentos populistas de direita (veja-se o Tea Party nos EUA) e a ausência de um pensamento de esquerda mais amplo e integrado, capaz de colocar alternativas ao que tem sido uma globalização em importantes aspectos descontrolada, que ameaça encolher as classes médias nos países desenvolvidos, trazendo riscos à própria democracia representativa.
E, surpresa!, quem a esta altura clama pelo surgimento de um lúcido pensamento de esquerda, a contrabalançar os populismos de direita, é o famoso Francis Fukuyama. Ele, que com seu livro "O Fim da História" dera como definitivo o triunfo da democracia liberal e da economia de mercado sobre o socialismo real, expressa, em recente artigo na prestigiosa "Foreign Affairs" ("O Futuro da História"), preocupação com os riscos de que os avanços tecnológicos subjacentes à globalização enfraqueçam as classes médias nos países desenvolvidos. Critica o que chama de "ausência da esquerda" e clama por nova mobilização em favor de Estados mais fortes, de medidas redistributivas e de questionamento dos privilégios das atuais elites dominantes.

Discurso de Gingrich é o de proteger a 'América clássica' das elites pró-Obama

JULIA SWEIG
ESPECIAL PARA A FOLHA


A maioria dos americanos nunca ouviu falar de Saul Alinsky -os brasileiros, muito menos. Mas, com Newt Gingrich (possivelmente por pouco tempo) liderando a disputa pela nomeação republicana, é bom aprender.
Alinsky foi filho de judeus ortodoxos vindos da Rússia. Nascido e criado na era da depressão em Chicago, forjou uma ferramenta de participação política de grupos marginalizados, conhecida como "organização comunitária".
Seu trabalho nos bairros negros de Chicago e Oakland inspirou figuras nacionais da esquerda não comunista, como Hillary Clinton (que escreveu sua tese de graduação sobre ele) e Barack Obama.
Antes de morrer, em 1972, Alinsky disse à "Playboy": "A transformação social radical terá que ser focada na classe média branca, pela simples razão de que é nela que se encontra o verdadeiro poder".
Como seu contemporâneo Richard Nixon, para quem essa "maioria silenciosa" era capaz de formar ou quebrar o equilíbrio do poder político no país, Alinsky via a classe média relativamente nova e crescente da América do pós-guerra como a mais vulnerável à demagogia populista.
Ele queria ajudar a organizar seus membros, para fomentar seu bem-estar material e social. Hoje, proposta relativamente modesta.
No discurso de Gingrich no último fim de semana, depois de vencer a primária da Carolina do Sul, ele descreveu a eleição presidencial como uma opção entre "o radicalismo de Saul Alinsky e a excepcionalidade americana".
O subtexto de seu discurso: que apenas Gingrich poderá proteger o que chamou de "a América clássica" -o Tea Party e outros eleitores republicanos- contra os judeus, os negros e "as elites de mídia de Washington-Nova York" da América de Obama.
Embora a excepcionalidade americana seja largamente criticada fora dos EUA, para a base cristã e em grande medida branca de Gingrich, a frase evoca acordes existenciais: os americanos teriam sido escolhidos por Deus, e seu experimento nacional especial seria moralmente superior a outros países; logo, seria teologicamente necessário que os americanos funcionem como luz para iluminar outras nações.
Quer seja o destino manifesto no século 19, a indispensabilidade no século 20 ou os ataques preventivos no século 21, democratas e republicanos estão de acordo, em grande medida, quanto ao lado positivo da excepcionalidade americana.
São raros os ocupantes de cargos públicos que têm coragem de sugerir que os dois pesos, duas medidas e o desrespeito pela lei internacional que frequentemente definem a política externa podem, na realidade, prejudicar os interesses americanos.
Embora Clinton e Obama, estudante e discípulo de Alinsky, reconheçam que os EUA precisam de parceiros para fazer frente aos desafios globais múltiplos, ambos explicitamente juraram fidelidade ao cânone da excepcionalidade americana.
Alinsky é uma figura relativamente obscura na história dos EUA no século 20, consignado, até a campanha de 2008, à arqueologia de uma esquerda americana hoje em grande medida desmoronada. Entendo a atração de converter meu conterrâneo de Chicago em adjetivo.
Mas o racismo e o antissemitismo codificados na frase de outro modo risível de Gingrich são exatamente o tipo de tolerância marginal de algo impróprio que pode enfraquecer as ambições do Partido Republicano em 2012.

Capitalismo

Antonio Delfim Netto

Diante da enorme confusão sobre o diagnóstico e os tratamentos que devem ser aplicados para que sobreviva a União Europeia e sua moeda única, o euro, é importante reafirmar que a economia política, uma acumulação de conhecimentos que a história mostra, é indispensável à boa administração privada e à boa governança pública.
Ela não deve ser identificada com a fracassada engenharia financeira, que somou físicos de pouco sucesso na sua profissão a economistas mal preparados com inveja do "sucesso" da física.
A crise de 2007-09 tem pouco a ver com as flutuações ínsitas no próprio funcionamento da economia de mercado. Ela foi produto do eterno destempero do sistema financeiro quando não sujeito à mais estrita regulação. Mas não poderia ter amadurecido a não ser com a conivência dos Estados submetidos ao seu crescente poder.
O drama da eurolândia também não tem nada a ver com as crises periódicas que são um dos inconvenientes da economia de mercado. A explosão do Lehman Brothers colocou à luz do sol as patifarias do setor financeiro privado dos EUA e, logo em seguida, as velhacarias do setor público de alguns países da eurolândia que só foram possíveis com a conivência das agências de "risco".
Isso nada tem a ver com a economia que usa os mercados cujo codinome é "capitalismo" para alocar os seus recursos na produção dos bens desejados pela sociedade.
Esse foi o sistema encontrado pelo homem na sua busca de métodos mais eficientes para suprir as suas necessidades e que fossem compatíveis com sua liberdade de iniciativa.
É apenas um processo histórico apoiado em inovações tecnológicas que vai se reconstruindo a cada crise, das quais sai sempre renovado na direção da maior eficiência produtiva e na ampliação da liberdade individual. Não é eterno e tem defeitos que talvez possam ser amenizados pela ação da própria sociedade organizada no Estado.
A China é um exemplo de como regimes politicamente fechados podem usar o mercado como instrumento para aumentar a eficiência produtiva e explorar os benefícios de liberdade de iniciativa (ainda que controlada) dos cidadãos.
A revolução tecnológica da informação, que apenas estamos começando a viver, é um novo ciclo de expansão da economia de mercado. A globalização adquire novos contornos e as relações sociais (principalmente o trabalho) vão sofrer mudanças profundas. Mais uma vez, um aperfeiçoamento na direção da redução do tempo para a sobrevivência material e um enorme passo na direção da construção da humanidade do homem.

Tensão no Golfo

Editoriais
editoriais@uol.com.br

Ameaça iraniana de fechar estreito de Hormuz parece improvável, mas embargo europeu pode agravar instabilidade em Teerã

Não cabe dúvida de que um Irã armado com a bomba atômica traria ameaça adicional de conflito numa região do globo já por demais propensa à guerra.
Há boas e pragmáticas razões, portanto, para tentar dissuadir aquela teocracia de concretizar o projeto indisfarçável de adquirir capacidade nuclear para uso militar -ainda que ao preço de congelar uma situação desequilibrada, em que vários de seus vizinhos, como Israel, Paquistão, Índia e Rússia, dispõem desse armamento.
O que se acha em dúvida é se a escalada de pressões contra o Irã, acrescida agora do embargo da UE (União Europeia) à importação do petróleo iraniano, será eficaz para alcançar tal objetivo. O retrospecto indica que pressões variadas não têm surtido efeito.
O embargo europeu é uma medida extrema. Suspende o fechamento de contratos novos de fornecimento e permite o cumprimento dos já firmados só até 1º de julho.
Nada menos que um quinto das exportações petrolíferas do Irã se destinam à UE. Trata-se de um golpe nas finanças persas, ao qual se soma o banimento de transações com o Banco Central iraniano, como já fizeram os Estados Unidos. A meta é secar a fonte de recursos para Teerã levar à frente o programa nuclear que alega só ter finalidade civil (produção de energia).
A decisão de embargar as importações se fez acompanhar de amea-ça não muito velada de ação militar: "Não aceitaremos que o Irã adquira uma arma nuclear", afirmaram em comunicado líderes de Alemanha, França e Reino Unido.
A mudança de patamar nas pressões alcança uma nação já em situação de grande instabilidade interna. O presidente Mahmoud Ahmadinejad perdeu o apoio do líder supremo do país, Ali Khamenei.
A poderosa Guarda Revolucionária, controlada pelo aiatolá, possui frota própria de embarcações militares e prometeu fechar o estreito de Hormuz, no golfo Pérsico, por onde passa um sexto do petróleo global. A bravata foi atenuada nos últimos dias, mas pode ser revivida após a ação desafiadora liderada pela Marinha americana, que no final de semana fez circular vasos de guerra pelo estreito.
O modo mais benigno de encarar as investidas dos países ocidentais é atribuir-lhes significado apenas tático. Seu propósito, desse ângulo, seria forçar o Irã a reabrir negociações consequentes com a Agência Internacional de Energia Atômica e dar respostas à equipe de inspetores que chega ao país no domingo.
O único efeito indubitável do embargo, por ora, é o aumento da tensão no Oriente Médio. Crescem as chances de um incidente que transforme a escalada de pressões em crise militar -precisamente o oposto de seu objetivo inicial.

União Europeia embargará 50% do petróleo do Irã

Sanções aprovadas na segunda incluem veto a negócios de empresas europeias com regime persa

Jamil Chade, correspondente

GENEBRA - As sanções da União Europeia ao Irã, apoiadas pelos Estados Unidos, pretendem afetar metade das exportações do petróleo iraniano e fechar um cerco que isolará o país de qualquer relação com seus parceiros econômicos mais importantes. O regime persa respondeu à pressão convocando o embaixador da Dinamarca, país que preside a UE, para dar explicações, enquanto líderes europeus subiram o tom da retórica contra Teerã.
Detalhes divulgados nesta terça-feira, 24, sobre o embargo da UE aprovado na segunda-feira indicam que a retaliação é profunda. Qualquer empresa europeia que comercializar petróleo iraniano, mesmo que para um terceiro país, poderá ser punida.
Diplomatas em Bruxelas dizem que a meta do plano é afetar metade da arrecadação do Irã com o combustível por meio de uma "ação global". Além dos 400 mil barris que os países da UE importam de petróleo iraniano diariamente, a medida afetará mais 600 mil barris que empresas europeias comercializam pelo mundo. Segundo a agência de risco, Fitch, a tensão deve elevar os preços do barril.
Só a Shell tem contratos de mais de 100 mil barris por dia com o Irã e terá de suspender a operação. No caso da francesa Total, apenas um terço do petróleo importado por ela de Teerã vai a portos europeus. Ontem, a Austrália confirmou que também vai adotar as sanções contra o petróleo iraniano.
Estrangulamento
O cerco contra Teerã também inclui medidas comerciais para isolar o país. O último banco que ainda financiava exportações e importações iranianas ao mercado europeu, o Tejarat, entrou ontem na lista das onze entidades embargadas pela UE. A Europa é o maior parceiro comercial do Irã e, com a medida, a capacidade de Teerã de obter máquinas e peças para suas fábricas será afetada. O prejuízo é calculado em US$ 30 bilhões.
O Tejarat também foi alvo do governo dos Estados Unidos. Washington o acusa de ser o financiador da compra de urânio pelo Irã e a instituição que manobrava o pagamento para empresas e outros bancos já sob embargo. Com duas mil agências pelo Irã e escritório em Paris, o banco teve todos seus ativos confiscados na Europa.
A ofensiva incluiu também o embargo a cinco empresas de transporte marítimo com sede em Malta e na Alemanha de propriedade de Guarda Revolucionária. No total, são 433 empresas iranianas afetadas, além do Banco Central iraniano.
A cúpula do regime persa aposta que o embargo europeu nem mesmo entrará em vigor e, mesmo se isso ocorrer, o impacto será pequeno. Para o ministro de Inteligência, Heydar Moslehi, as sanções são "ineficientes" e o prazo até julho estabelecido pelos europeus será suficiente para o Irã encontrar novos compradores.
Retórica
Enquanto a ofensiva para asfixiar financeiramente o país continuava, o tom das ameaças iranianas voltou a subir ontem. Emad Hosseini, porta-voz do Comitê de Energia do Parlamento, ameaçou outra vez fechar o estreito de Ormuz, por onde passam 40% do petróleo mundial a cada dia. Em protesto ao embargo, o governo iraniano convocou o embaixador dinamarquês em Teerã para prestar esclarecimentos.
Em Londres, o secretário de Defesa, Philip Hammond, insinuou que o Grã-Bretanha poderia reforçar sua presença militar se as ameaças de Teerã continuassem. "Temos a capacidade de reforçar essa presença", disse. Em uma declaração conjunta, David Cameron, Nicolas Sarkozy e Angela Merkel, alertaram que o Irã havia optado por um caminho de ameaças à paz. "Nossa mensagem é clara. A liderança iraniana fracassou em garantir a confiança internacional de que seu programa nuclear é para fins pacíficos", afirmaram os três líderes.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Chávez tem um ano de vida, diz jornal ABC

Restam ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de nove a 12 meses de vida, segundo o jornal espanhol "ABC". Os médicos teriam concluído que sua "saúde está se deteriorando rapidamente e há metástase nos ossos". Chávez anunciou ter câncer em julho passado. Ele se submeteu a cirurgia em Cuba, mas estaria, segundo o "ABC", desobedecendo ordens médicas para se afastar do poder e seguir tratamento.

Europa impõe embargo a petróleo do Irã

Países do bloco também vetam transações com Banco Central iraniano; sanções vigorarão totalmente em seis meses



Objetivo é pressionar Teerã pelo fim de seu programa nuclear; medo de Irã retaliar faz preço de petróleo subir

Atta Kenare/France Presse
Iraniana faz compras no bazar Tajrish, em Teerã; país está sob pressão ocidental para abandonar programa nuclear
Iraniana faz compras no bazar Tajrish, em Teerã; país está sob pressão ocidental para abandonar programa nuclear


SAMY ADGHIRNI
DE TEERÃ


A UE (União Europeia) baniu ontem importações de petróleo do Irã e transações com o Banco Central de Teerã, aumentando a pressão do Ocidente pelo fim do programa nuclear iraniano.
Chanceleres dos 27 países do bloco adotaram as novas sanções em encontro em Bruxelas, três semanas após os EUA aplicarem medidas semelhantes, que visam paralisar a economia iraniana.
Apesar de só entrarem totalmente em vigor dentro de seis meses, as sanções aumentam a tensão entre Irã e potências ocidentais.
Teerã rejeitou novamente acusações de que busca fabricar a bomba atômica e insistiu em que sanções nunca o impedirão de enriquecer urânio para fins civis.
As punições, que agravam as já adversas condições de vida da população, levaram influentes políticos iranianos a ameaçar agir para desestabilizar o mercado de petróleo.
Mohammed Kossari, vice-presidente do Comitê de Assuntos Exteriores e Segurança Nacional do Parlamento, pediu o "fechamento definitivo" do estreito de Hormuz, no golfo Pérsico, por onde é escoado um sexto da produção global de petróleo.
Os Estados Unidos deixaram claro que usarão força militar para impedir que o Irã cumpra essa ameaça.
A perspectiva de um possível desabastecimento causado por um conflito naval no golfo Pérsico voltou a elevar o preço do petróleo.
O barril subiu US$ 1,51 ontem em Nova York, atingindo US$ 99,84. O petróleo tipo Brent, usado para fixar o valor de variedades importadas por refinarias americanas, aumentou US$ 0,94, atingindo US$ 110,80 em Londres.
Já Ali Fallahian, membro da Assembleia dos Peritos, órgão que escolhe o líder supremo, sugeriu interromper imediatamente as vendas de petróleo à UE.
Grécia e Itália, entre outros, atravessam grave crise econômica e dependem do petróleo iraniano. Atendendo a pedido dos membros em dificuldade, a UE deu até julho para que encontrem fornecedores alternativos.
Nesse período, também poderão ser executados contratos já assinados entre europeus e iranianos.
Quando implementadas, as sanções impedirão qualquer compra de petróleo iraniano na UE, assim como remessas que transitem pelo sistema bancário iraniano.
EUA e europeus pressionam países asiáticos a seguir o embargo.
Antecipando a queda de entrada de dólares e euros no país, a, moeda iraniana desvalorizou-se em 10% ontem.
As medidas surgem seis dias antes da chegada a Teerã de uma equipe de inspetores nucleares da ONU que, segundo potências ocidentais, testará a boa vontade dos iranianos em negociar "seriamente".

Prioridades

Vladimir Safatle

É consenso entre os brasileiros que os investimentos em educação, ciência e tecnologia são fundamentais para a realização das aspirações
geopolíticas brasileiras.
Nesse sentido, o governo sofre cada vez mais pressão para aumentar seus gastos com o financiamento de pesquisas universitárias.
No entanto algo de sintomático acontece na definição das prioridades de pesquisa das agências de fomento como CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e outras.
De fato, todas elas sustentam a tradição brasileira de não negligenciar nenhum setor do conhecimento, seja nas áreas de humanas, exatas ou biológicas. Esta é uma tradição louvável e importante. Mas, quando é questão de definir quais são os tópicos que, do ponto de vista governamental, devem receber prioritariamente investimentos, tudo se passa como se a área de humanas pudesse ser soberanamente negligenciada.
O CNPq, por exemplo, tem um interessante programa de financiamento de bolsas de doutorado e mestrado no exterior chamado "ciência sem fronteiras". Entre outros, um de seus objetivos é o de : "investir na formação de pessoal altamente qualificado nas competências e habilidades necessárias para o avanço da sociedade do conhecimento". Um bom objetivo que pressupõe a amplitude necessária para o país levar em conta
suas múltiplas necessidades.
Porém, quando nos voltamos para as áreas prioritárias, não encontramos nada
referente às ditas humanidades. Seriam elas menos relevantes para o desenvolvimento nacional?
Quem em sã consciência diria que o estudo sobre as causas e ações possíveis contra a violência urbana é menos prioritário do que o estudo da biotecnologia?
Ou que a reflexão sobre a natureza da noção de "sofrimento psíquico" com seus modelos de intervenção clínica é menos prioritária que pesquisas sobre fármacos?
Ou ainda que a pesquisa sobre o impacto da publicidade em nossas crianças ou sobre as violações dos direitos
humanos na ditadura militar não tem a mesma importância que estudos sobre biodiversidade e bioprospecção? No
entanto nenhum dos primeiros tópicos foi contemplado como prioridade.
Por trás disso, encontramos a crença bizarra de que as prioridades com impacto mais direto no desenvolvimento industrial são as verdadeiras prioridades. Melhor seria olhar para as limitações da vida social brasileira. Isso faria mais justiça às contribuições que as humanidades podem dar.

O Brasil dá de ombros

Eliane Cantanhêde

BRASÍLIA - Enfim todo mundo acredita que algo mudou na política externa brasileira. Quem olhava de fora achava que sim, mas o governo dizia que nem tanto, até que o porta-voz de Ahmadinejad, Ali Akbar Javanfekr, confirmou sem papas na língua que tudo está diferente.
A Samy Adghirni, da Folha, ele disse que Dilma "golpeou tudo o que Lula havia feito, destruiu anos de bom relacionamento [com o Irã]".
Está explicado, enfim, por que Ahmadinejad passou ao largo do Brasil na sua última viagem, optando pelo circuito chavista: Venezuela, Cuba, Equador e Nicarágua.
Dilma ficou melindrada? Não. Nem Patriota nem mesmo Amorim, que tinha se unido à Turquia no governo Lula para dar a mão ao Irã e tentar -sem sucesso, diga-se- contornar o isolamento iraniano e a sede do país pela energia nuclear para fins pacíficos e nem tanto.
Há um consenso em Brasília: Ahmadinejad pode ir aonde quiser e seu porta-voz pode dizer o que bem entender, pois nada disso afeta o Brasil. "Eles [o Irã] é que estão numa situação difícil e precisam do Brasil, não o Brasil deles", resume um diplomata que conhece bem a questão.
Enquanto o mundo treme diante da ameaça de o Irã ter bomba atômica, o que o Brasil lamenta neste momento são os efeitos da teimosia iraniana no comércio bilateral.
Quem paga o pato são os exportadores de carne e de frango, expostos a barreiras, demoras e excessos de burocracia para colocar seu produto no mercado iraniano.
No mais, cabe ao Conselho de Segurança da ONU negociar com o regime de Ahmadinejad e encontrar soluções. Com uma pitada de ironia, o nosso diplomata prevê: "Na falta de alternativa, pode até sair a paz".
Os arroubos de potência do Brasil passaram. Segundo Javanfekr, "Lula está fazendo muita falta"-para o Irã. Por aqui, Dilma vai muito bem, obrigada, e com 59% de aprovação, segundo o Datafolha.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Os latinos na eleição dos EUA

Mac Margolis

Uma das decepções dos latino-americanos com o governo de Barack Obama foi o pouco caso de Washington com a região. Sim, facilitou as remessas para Cuba e a vida dos viajantes à ilha, mas o embargo econômico montado na Guerra Fria permanece. Levou três anos para visitar países da América do Sul e só agora, no crepúsculo do mandato, começa a falar em reformar as leis de imigração.

Após elevar as esperanças globais, ao anunciar uma nova era de diálogo e cooperação com os aliados e vizinhos, Obama se distraiu. Seu maior feito nas Américas foi convencer o Congresso a votar os tratados de livre comércio com Panamá e Colômbia, ambos iniciativa do governo de George W. Bush.

Agora, com sua reeleição em jogo, será diferente? Pode ser que consiga a reeleição, com a ajuda, quem sabe, das poucas luzes de seus rivais republicanos. Mas, com a popularidade e a economia em baixa, não é inconcebível uma reviravolta em Washington.

E como seria a relação com os latinos sob a batuta dos republicanos? Por mais que prometam resgatar os tempos de pax americana, os presidenciáveis republicanos falam muito pouco de política externa - e da América Latina, menos ainda.

Faltam propostas coerentes e, quando se esboça alguma, soa como um filme da Guerra Fria. Do Twitter ao corpo a corpo da campanha, os candidatos soltam o verbo contra os nefastos ditadores comunistas que ainda conspiram contra os Estados Unidos e a civilização ocidental. Alertam para supostas células terroristas no seio do continente sul-americano. Esquecem-se que os mesmos líderes nefastos (honras para Hugo Chávez) mal conseguem administrar suas riquezas ou abastecer suas populações de comida.

Em recente documento de campanha, Um Século Americano: uma Estratégia para Garantir os Interesses e Ideais Americanos Duradouros, de 44 páginas, o ex-governador Mitt Romney, favorito nas pesquisas, dedica quatro parágrafos à América Latina. Neles, escancara verbetes como terrorismo, gangues, traficantes e autoritarismo. Gasta tinta com Cuba, Venezuela, Irã e até com o Hezbollah, enquanto o Brasil não merece referência nenhuma.

O alarmismo dos conservadores nasce de um desastre de percurso. O Partido Republicano chocou-se com o Tea Party, o movimento ultraconservador empenhado em afundar o "socialismo" de Obama, e adernou perigosamente à direita.

Quem perde é o povo americano, que, em vez de propostas sérias - para criar empregos e incentivar os empreendedores -, ouve brados nacionalistas e intolerância tosca.

Disputa. Logo, as eleições primárias, que indicarão o rival de Obama na eleição de novembro, viraram um concurso de radicalismos. Os presidenciáveis tratam o país como uma flora rara e frágil e brigam entre si para mostrar quem endurecerá mais contra a invasão bárbara.

Romney propõe blindar a fronteira com México com uma muralha de 2 mil quilômetros. A ex-candidata Michelle Bachman, a queridinha do Tea Party, queria duplicá-la. Já o exótico Herman Cain causou escândalo ao propor uma cerca elétrica letal.

Cain e Bachman estão fora do páreo, mas imprimiram o tom da campanha. Até Newt Gingrich e Romney, até então com posições mais moderadas, apressam-se em dar a seus discursos uma meia volta para a direita.

É uma pena. Era uma vez os republicanos, os donos das propostas econômicas mais sensatas para as Américas. Defendiam o mercado livre e denunciavam os perdulários subsídios a produtores nacionais. Exageraram, talvez, na proposta da Alca, que os latinos entenderam como um contrato leonino (a favor dos gringos). No entanto, foi republicana a convicção de que o imigrante latino não era um parasita ou marginal, como queriam boa parte dos democratas.

Sabiam, sim, que o imigrante latino quer trabalho e não confusão, uma das razões pelas quais Estados como o Arizona, com muitos latinos, viram despencar a criminalidade.

Afinal, regularizar os imigrantes de trabalho braçal poderia aumentar a renda domiciliar dos EUA em US$ 180 bilhões por ano, segundo estudo do (bastante conservador) Instituto Catho. Assim pensavam republicanos como Ronald Reagan e John McCain. Mitt Romney também entendeu assim, até que a tempestade ideológica descarrilou sua campanha.    

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Cinco mitos sobre a Primavera Árabe

Há muitos comentários sobre as causas dos levantes, em parte equivocados

FOUAD, AJAMI, THE WASHINGTON POST, É MEMBRO SÊNIOR DA HOOVER INSTITUTION DA UNIVERSIDADE DE STANFORD

Quando, há um ano, começou a Primavera Árabe, o mundo ocidental ficou chocado. Até então, superficialmente, a impressão geral era que a liberdade tinha deixado os árabes para trás e eles pareciam resignados com a tirania. Mas assim que os levantes começaram foi impossível contê-los, instalou-se a desordem e brotaram as promessas nas ruas do mundo árabe. Desde então, as rebeliões provocaram rios de comentários e lugares comuns sobre a Primavera Árabe - em parte bastante equivocados. Vejamos o que havia realmente por trás das revoltas.

1. O discurso de Barack Obama no Cairo, em 2009, foi um dos elementos que inspiraram a Primavera Árabe.

Nada poderia estar mais longe da verdade do que isso. Na época em que as rebeliões eclodiram, o romance entre árabes e muçulmanos e Obama havia se dissipado há muito tempo. O presidente americano esteve no Cairo em junho de 2009 prometendo um novo enfoque americano para o mundo árabe-muçulmano. Mas os aguerridos liberais do mundo árabe (e do Irã) não se deixaram enganar. Embora Obama prometesse "um novo começo para as relações entre os EUA e os muçulmanos em todo o mundo, com base nos interesses e no respeito mútuos", os árabes perceberam que o novo líder estava muito à vontade com a situação. Obama procurou melhorar as relações dos Estados Unidos com a Síria e o Irã, e tratou de enterrar rapidamente a "diplomacia da liberdade" de George W. Bush.

Os árabes rapidamente perceberam que o cosmopolitismo de Obama - o pai queniano, os anos passados na Indonésia - servia de disfarce para um político preocupado com os problemas internos do seu país.

2. Estas são as revoluções do Facebook e do Twitter.

O Facebook e o Twitter ofereceram aos jovens dissidentes a possibilidade de comunicar entre si para atropelar as autocracias. Quando Wolf Blitzer da CNN perguntou a Wael Ghonim, o jovem executivo do Google que simbolizava a revolta da Praça Tahrir no Cairo, o que aconteceria após a queda de Hosni Mubarak, Ghonim respondeu: "Pergunte ao Facebook". Foram homens e mulheres comuns que depuseram o faraó. Estas rebeliões foram inflamadas pelos elementos tradicionais: as multidões que saíam das mesquitas após as orações da sexta-feira nas cidades sitiadas da Síria; o teste das vontades entre regimes brutais e os indivíduos dotados de coragem suficiente para desafiar o poder; e os jovens de Deraa, Homs e Hama que venceram a cultura do medo e contestaram o despotismo.

Mohammed Bouazizi, o jovem verdureiro tunisiano que se imolou em dezembro de 2010, não tinha uma página no Facebook.

Ele tinha motivos de sobra para estar indignado e desesperado. Deveríamos deixar de valorizar tanto a tecnologia, afinal, a penetração da internet no mundo árabe ainda é modesta.

3. O governo Obama sacrificou Mubarak.

O presidente egípcio foi o responsável por sua própria queda. Washington supôs que Mubarak domaria a tempestade. O Egito, um país paciente, deu a Mubarak 30 anos. Em troca, o governante brincou com o seu povo e o menosprezou. Ele se instalou no topo de um regime sem lei e nunca designou um sucessor legítimo. (Até a pessoa mais obtusa sabia que ele pretendia transmitir o poder ao filho favorito.) Neste drama egípcio, os políticos de Washington limitaram-se ao papel de meros espectadores.

4. A queda de Saddam Hussein no Iraque inspirou a Primavera Árabe.

Por ter apoiado a guerra do Iraque, gostaria de poder fazer esta ligação. Mas o Iraque, contrariamente às esperanças e às afirmações dos conservadores que defendiam a guerra, não é relevante para a Primavera Árabe.

Quando os protestos começaram no final de 2010, o Iraque já não despertava a atenção do mundo árabe.

O sangue era derramado nas ruas do país, havia sectarismo, e poucos os árabes consideravam o primeiro-ministro Nuri al-Maliki um importante líder de uma nova cultura política.

A Praça Tahrir inspirou outros levantes, pois o Egito sempre foi um pioneiro na vida política e cultural árabe.

Ocorre que o Iraque é um lugar peculiar. São pouquíssimos os árabes de outras partes do mundo, se é que há algum, que poderiam se identificar com o levante naquele país.

5. As rebeliões comprometerão ainda mais as perspectivas do processo de paz árabe-israelense.

É verdade que baderneiros invadiram a Embaixada de Israel no Cairo depois da queda de Mubarak. Mas o entendimento árabe-israelense nunca chegou a florescer no tempo das ditaduras.

Os líderes das rebeliões árabes talvez não sejam defensores fervorosos da paz com Israel, mas hoje já reconhecem que as ditaduras usaram o conflito com Israel como um álibi conveniente para seus fracassos políticos e econômicos.

/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

domingo, 15 de janeiro de 2012

Mulher com nível superior fica mais solteira que homem

Pesquisa mostra que o número de mulheres universitárias "livres" supera em 54% o de homens



Nos demais grupos de instrução, diferença não passa de 10%, segundo as contas feitas na Pnad, do IBGE

ANTONIO GOIS
DO RIO
LUIZA BANDEIRA
DE SÃO PAULO


O mercado matrimonial não está nada favorável para as mulheres de alta escolaridade. Ao menos para aquelas que não abrem mão do casamento e insistem em procurar apenas homens de mesmo nível de instrução.
Tabulações feitas a pedido da Folha pelos demógrafos Suzana Cavenaghi e José Eustáquio Alves, da Ence (Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE), mostram que o número de mulheres com nível superior "livres" supera em 54% o de homens na mesma situação.
São 800 mil mulheres a mais solteiras, viúvas ou separadas e que não vivem com um cônjuge. Nos demais grupos de instrução, a diferença não passa de 10%, segundo as contas feitas na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2009, do IBGE.
As mulheres, neste caso, sentem a consequência de seu sucesso, por terem avançado mais do que os homens nos últimos 30 anos na educação. Em 1981, a população adulta masculina com formação universitária era 35% maior. Mas, ao final da década passada, elas já os superavam em 27%.
Segundo Eduardo Rios Neto, demógrafo do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG, essa reversão do hiato educacional já afeta o mercado de casamento, pondo em xeque o modelo tradicional de mulher casando com homem de instrução maior ou igual.
De fato, estudo feito por Aretha Lopez Soares, da Ence, mostra que hoje já é mais comum encontrar casais em que a mulher é mais escolarizada do que o inverso. No caso das com formação universitária, 52% já vivem com um cônjuge menos instruído.
"Em muitos países da Europa, casar não é tão fundamental. A mulher pode investir na carreira e não se sentir infeliz por ser solteira. Mas, no Brasil, não ter marido ainda é visto como fracasso social", afirma a antropóloga Mirian Goldenberg.
Ela diz que há o agravante de as mulheres terem sido culturalmente educadas a procurar um parceiro mais velho, rico e instruído.
"Para aquelas que chegaram ao topo, não adianta olhar só para cima. Se o casamento for tão importante, terão que olhar também para baixo", diz a antropóloga.
Para a terapeuta de família Tai Castilho, escolaridade diferente pode ser um elemento de tensão. Isso porque alguns homens lidam mal com o fato de não serem o principal provedor da casa, enquanto as mulheres que se qualificam ganham mais autonomia e tendem a aceitar menos um papel submisso.

O fim do fim da história

CLAUDIA ANTUNES
DO RIO


CIENTISTA POLÍTICO FRANCIS FUKUYAMA DEFENDE 'NOVO POPULISMO' E MAIOR REGULAÇÃO ESTATAL CONTRA PROBLEMAS DO LIBERALISMO

O cientista político americano Francis Fukuyama, que há 23 anos previu a vitória global do liberalismo econômico e político no famoso artigo sobre o "fim da história", está preocupado com o futuro dessa conquista do "século americano".
Em artigo na primeira edição de 2012 da revista "Foreign Affairs", ele afirma que a ausência de competição ideológica resultou em políticas ultraliberais regressivas, que acentuam o declínio da classe média nos países desenvolvidos, pondo em risco a própria democracia.
No texto, Fukuyama convoca agentes políticos e teóricos a desenvolverem um "novo populismo", que "reafirme a supremacia da política democrática sobre a economia". Ele explica sua proposta, decorrente da preocupação com a "latino-americanização" dos EUA.
Folha - Quando o sr. diz que preceitos do liberalismo viraram pura ideologia, está propondo que a democracia abandone o rótulo "liberal"?
Francis Fukuyama - Não é uma questão de abandonar o liberalismo, é uma questão de grau. Houve uma revolução liderada por [Ronald] Reagan e Margaret Thatcher nos anos 80 que reduziu o tamanho do Estado e aumentou a liberdade individual.
Essa correção era necessária, mas a revolução foi longe demais e aprisionou os EUA numa ideologia muito rígida.
Uma sociedade liberal será sempre necessária, mas vamos precisar de uma volta de maior regulação estatal e políticas sociais que preservem os ganhos da classe média e encorajem a ascensão dos pobres para a classe média.
O sr. diz que a social-democracia não é uma resposta adequada. Por quê?
Acho que as velhas formas social-democratas não vão funcionar porque em muitos casos o Estado é problemático e não tem a habilidade de implementar políticas.
Isso explica bastante a debilidade da esquerda nos EUA e na Europa. Só uma volta à velha social-democracia não será sustentável fiscalmente nem melhorará os serviços públicos. Esse é o dilema.
Quando o sr. propõe um novo populismo, quais são as referências históricas?
O problema com alguns movimentos populistas é que eles não são democráticos, querem mudanças tão grandes que se apoderam do Estado. Não é o tipo de populismo de que precisamos. Seja o que for, tem que ser na tradição democrática.
Acho que nos EUA há dois precedentes. Um do início do século 20, o movimento progressista liderado por Theodore Roosevelt [1901-09], que teve o objetivo de limpar a política da influência do poder econômico e aprovou leis antitruste que desmembraram o monopólio Rockefeller.
O outro foi, claro, o presidente Franklin Roosevelt [1933-45], que usou a crise dos anos 30 para criar uma coalizão em torno do New Deal que ficou no poder por 40 anos. Todo mundo esperava que Obama fizesse algo semelhante, mas por várias razões -eu acho que ele não era um político habilidoso o bastante- isso não aconteceu. Ele nunca explicou o problema que enfrentamos de maneira mais ampla; as soluções também não tinham amplitude.
O sr. vê nos EUA forças capazes de construir essa ideologia alternativa?
Não, por isso escrevi o artigo. Estamos precisando.
Por que se criou nos EUA e na Europa um fosso entre as medidas contra a crise e os sentimentos das pessoas comuns?
É um mistério. Nos EUA, em contraste com a Europa, boa parte da classe média tendeu, nos últimos 30 anos, a votar nos republicanos, em conservadores, mesmo quando as políticas implementadas por eles prejudicaram seu interesse econômico.
Há razões para isso. Uma é que esse eleitorado tende a ser culturalmente conservador e não se sente representado por democratas ou esquerda tradicional. Outra é o enfraquecimento de sindicatos e organizações sociais.
Finalmente, há na cultura política a crença de que esta é uma terra de oportunidades, de que você pode se dar bem no futuro mesmo que seja pobre agora. Então as pessoas são contra aumento de impostos para os ricos porque, se elas ficarem ricas...
Essa fatia se identificaria mais com o Tea Party do que com o "Ocupe Wall Street"?
Acho que há uma divisão. Houve grande controvérsia a respeito do "Ocupe" porque ele é formado principalmente por jovens, com uma ideologia de esquerda, que não representam os sindicatos ou a classe média trabalhadora em termos mais amplos.
Não aposto muito nas perspectivas do movimento a longo prazo. Sua base social é muito estreita. Se a classe média trabalhadora se mobilizar por políticas mais progressistas, terá a forma de um movimento populista poderoso.
Nos EUA, é a direita que tem sido populista, no ataque às elites culturais, aos poderosos. Ao mesmo tempo, se opõe à regulação financeira, a aumento de impostos. Por que os democratas resistem ao discurso populista?
É outra peculiaridade da cultura política americana. Em certo sentido, a esquerda ainda é dominante na academia, na mídia. A direita tem sido mais bem-sucedida na política, controla hoje as duas casas do Congresso, muitos governos estaduais.
Apesar disso, muita gente de direita ainda acha que os liberais [esquerda, nos EUA] controlam o establishment. Isso não reflete o balanço real de poder, mas o sentimento continua forte e alimenta o ressentimento populista contra as chamadas "elites liberais" que teriam destruído o país. Obama é parte delas.
O sr. associa a força da classe média com a consolidação da democracia, mas em países como China e Índia a nova classe média pode ser bastante conservadora.
O fortalecimento da democracia depende de que proporção da sociedade chega à classe média. Quando a classe média é pequena e parte da elite tradicional, ela vê o governo como protetor de seus interesses e teme que, se houver uma democracia integral, ela sairá perdendo.
É o que acontece na China agora. Na Índia, é mais complicado. A questão lá é que a grande massa de pobres se beneficia da democracia por meio de clientelismo, que a classe média considera como uma forma de corrupção.
Como avalia a democracia em países como Brasil, Indonésia, onde parte dos pobres está entrando no mercado?
Essas democracias estão emergindo justamente porque mais gente começa a alcançar um status de classe média. Mas a situação ainda é muito frágil; se houver uma grande recessão global e a economia brasileira voltar a ter mau desempenho, muitos vão recair na pobreza.
No passado, foi a desigualdade que provocou a polarização política no Brasil e em toda a América Latina, em que se enfrentavam uma direita autoritária e uma esquerda populista que nem sempre tinha compromisso com a democracia liberal. Para superar isso, só criando uma classe média ampla e reduzindo o fosso entre os pobres e a elite privilegiada.
O que é de fato importante no Brasil agora é que a desigualdade está diminuindo, em parte devido ao crescimento econômico, em parte a programas sociais como o Bolsa Família. Mais brasileiros poderão fazer parte da economia, ter propriedades e um maior interesse no sistema político democrático.
Os EUA estão se latino-americanizando?
Uma das coisas que me chocam é que os EUA começam a parecer a velha América Latina. Se você pedir aos ricos que paguem mais impostos, eles vão dizer que não, que o governo desperdiçará o dinheiro com corrupção e serviços de má qualidade.
O desempenho do governo não pode melhorar, já que não tem fundos suficientes, mas ninguém quer pagar mais impostos porque o desempenho é ruim. Os EUA saíram dessa armadilha nos anos 30 e agora voltam a cair.
O seu artigo é uma mudança de 180 graus em relação ao do fim da história?
Não concordo. Eu ainda acredito que a democracia liberal é o melhor sistema político. A questão é que está sob ameaça nos EUA e devemos preservá-la. Meu objetivo é o mesmo, só que em 1989 estávamos nos primeiros anos da virada conservadora e agora a realidade mudou, a desigualdade aumentou, as instituições se deterioraram.
Há um deficit democrático nos EUA e na Europa?
São situações diferentes. O deficit democrático nos EUA tem a ver com o poder do dinheiro e de grupos de interesse, de lobbies, cujo peso no sistema político é desproporcional em relação aos grupos sociais que eles representam. Na Europa em geral, o maior problema não é em cada país, mas em nível europeu, uma vez que a tentativa de integração resultou em instituições falhas, com união monetária mas sem união fiscal.

sábado, 14 de janeiro de 2012

EUA não são uma empresa

Paul Krugman

A economia é muitíssimo mais complexa do que mesmo a maior das corporações privadas

"E a cobiça -guarde bem minhas palavras- vai salvar não apenas a Teldar Paper, mas também essa outra corporação que não funciona corretamente, chamada EUA."
Foi assim que o fictício Gordon Gekko encerrou seu discurso no filme "Wall Street - Poder e Cobiça".
No filme, Gekko recebeu o castigo merecido. Na vida real, porém, a política baseada na noção de que a cobiça é uma coisa boa é a razão principal pela qual a renda dos 1% mais ricos vem crescendo tão mais rapidamente que a da classe média.
Hoje, porém, vamos voltar nossa atenção ao resto da frase, a parte que compara a América a uma corporação. Também esta é uma ideia que vem sendo amplamente aceita. E é a base principal do argumento de Mitt Romney de que ele deve ser presidente: concretamente, ele afirma que o que precisamos para consertar nossa economia é alguém que já fez sucesso nos negócios.
É claro que, com isso, Romney abriu as portas para sua carreira como empresário ser sujeita a escrutínio intenso.
Na Bain Capital, ele foi comprador e vendedor de empresas, muitas vezes em detrimento dos empregados delas, e não alguém que administrou empresas com vistas para seu sucesso no longo prazo.
Mas há um problema mais profundo em toda a noção de que aquilo de que este país precisa é um empresário de sucesso para ser seu presidente: na verdade, a América não é uma corporação.
Por que uma economia nacional não é como uma corporação? Para começo de conversa, não existe um resultado final simples. Outra coisa: a economia é muitíssimo mais complexa que mesmo a maior empresa privada.
O que é mais relevante para nossa situação atual, contudo, é que até mesmo as corporações gigantes vendem a maior parte do que produzem para outras pessoas, não para seus próprios funcionários. Enquanto isso, mesmo os países pequenos vendem a maior parte do que produzem para eles mesmos, e os grandes países, como a América, são quase completamente seus próprios maiores clientes.
Considere o que acontece quando uma empresa pratica cortes implacáveis de despesas. Desde o ponto de vista dos donos da empresa, quanto mais custos são cortados, melhor. Quaisquer dólares tirados do lado dos custos serão acrescentados ao resultado final.
Mas a história muda de figura quando um governo reduz seus gastos diante de uma economia deprimida. Veja o caso da Grécia, Espanha e Irlanda, todas as quais adotaram políticas de austeridade intransigentes. Em cada um desses casos o desemprego aumentou, porque os cortes nos gastos do governo atingiram principalmente produtores domésticos. E, em cada um desses casos, a redução dos deficits orçamentários foi muito menor que o previsto, porque a receita fiscal caiu na medida em que a produção e o desemprego desabaram.
Agora, para sermos justos, ser político de carreira não constitui necessariamente uma preparação melhor para administrar a política econômica que ter sido um empresário. Mas é Romney quem está afirmando que sua carreira anterior o torna adequado para a Presidência.
Tradução de CLARA ALLAIN

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Os mitos sobre o sonho americano

Pesquisa indica que, para muitos, dinheiro e casa própria não são tudo e o importante é ter bom emprego e felicidade

MICHAEL F., FORD

É DIRETOR FUNDADOR DO CENTER FOR THE STUDY OF THE AMERICAN DREAM DA XAVIER UNIVERSITY,THE WASHINGTON POST,

A s metas de vida de um americano médio não são aquelas que estudiosos acreditavam que fossem. Vejamos:

1. Enriquecer. Numa pesquisa de âmbito nacional, realizada entre mais de 1.300 adultos em março, apenas 6% dos americanos colocaram a "riqueza" como primeira e segunda definições do sonho americano. Quarenta e cinco por cento mencionaram em primeiro lugar "uma vida boa para a minha família", enquanto 34% citaram "segurança financeira" - o conforto material que não é necessariamente sinônimo da riqueza de Bill Gates.

Embora o dinheiro faça indubitavelmente parte de uma vida boa, o sonho americano não se refere apenas ao dinheiro em si. Trinta e dois por cento dos entrevistados indicaram como o seu sonho a "liberdade"; 29% a "oportunidade"; e 21% a "busca da felicidade". Uma gorda conta bancária pode ser um meio para atingir esses fins, mas somente uma pequena minoria acredita que o dinheiro é um fim valioso em si.

2. O sonho americano da casa própria. Em junho, uma pesquisa realizada por New York Times/CBS News concluiu que quase 90% dos americanos acham que ter uma casa é um aspecto importante do sonho americano. Mas apenas 7% dos entrevistados a colocaram como primeira e segunda definições do sonho americano. Por que tanta discrepância? Ter uma casa de fato é importante para alguns americanos, mas não tão importante como somos levados a acreditar.

O governo federal facilita a compra da casa própria supervalorizando seu significado para a vida americana. Por meio de incentivos e garantias fiscais, ele incentivou a propriedade, que chegou ao pico em 2004, quando 69% das famílias americanas tinham se tornado proprietárias de uma casa.

Os subsídios para a compra da casa chegaram a US$ 230 bilhões em 2009. Como resultado dessa orgia de gastos com imóveis residenciais, o setor imobiliário americano perdeu mais de US$ 6 trilhões do seu valor, ou quase 30%, entre 2006 e 2010. Um em cada cinco proprietários americanos está no vermelho, devendo mais em hipotecas do que o valor real da casa.

Ter uma casa é mais importante para determinados interesses do que para a maioria dos americanos, que, segundo a pesquisa, se preocupam mais com "um bom emprego", "a busca da felicidade" e a "liberdade".

3. O sonho americano é a própria América. A expressão "sonho americano" foi cunhada em 1931 por James Truslow Adams em seu livro The Epic of America. Em plena Grande Depressão, Adams descobriu o mesmo otimismo que observamos na Grande Recessão dos nossos dias, e ele o denominou "o sonho americano" - "o sonho de uma terra na qual a vida será melhor, mais rica e mais plena para todos os homens, com oportunidades para todos, segundo sua capacidade ou realização". Mas o sonho americano é anterior a 1931. Já no século 16, colonos procedentes da Europa Ocidental chegaram a essa terra vencendo grandes perigos para construir uma vida melhor. Hoje, esse sonho é alimentado pelos imigrantes de vários países do mundo que ainda vêm em busca da mesma coisa.

4. A China ameaça o sonho americano. Nossas pesquisas revelaram que 57% dos americanos acreditam que, "hoje, o mundo procura entre vários países", e não apenas o nosso, "aquele que representa o futuro". Quando pedimos aos entrevistados que indicassem qual seria esta região ou este país hoje, mais de 50% escolheram a China. Cerca de 65% acreditam equivocadamente que a economia chinesa já é maior do que a dos EUA - quando na realidade corresponde a 33%, com uma população quatro vezes maior. Mas a China possui mais de US$ 1,1 trilhão em títulos da dívida americana; é o nosso maior credor.

5. Declínio econômico e impasse político estão matando o sonho americano. Nossa pesquisa mostrou uma impressionante falta de confiança nas instituições americanas. Sessenta e cinco por cento dos entrevistados acreditam que os EUA estão em declínio; 83% disseram que confiam menos na "política em geral" do que há 10 ou 15 anos; 79% disseram que confiam menos nas grandes empresas; 78% disseram que confiam menos no governo; 72% falaram no declínio da confiança na imprensa.

Mesmo assim, 63% dos americanos disseram confiar que realizarão seu sonho americano, independentemente do que as instituições da nação fizerem ou deixarem de fazer. Embora eles possam temer pelas gerações futuras, seu sonho hoje se mantém vivo apesar de todas as dificuldades. 

/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA