quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Cristina Kirchner é diagnosticada com câncer na tireoide e será operada dia 4


Afastamento. Segundo o porta-voz Alfredo Scoccimarro, o carcinoma foi detectado durante exame de rotina e não há sinais de metástase, mas presidente argentina ficará em licença médica por 20 dias: o vice-presidente, Amado Boudou, assume o cargo

A presidente argentina, Cristina Kirchner, será submetida a uma cirurgia no dia 4 para a retirada de um tumor cancerígeno na tireoide, anunciou ontem à noite o porta-voz presidencial, Alfredo Scoccimarro, acrescentando que não foi detectada nenhuma metástase.

Segundo Scoccimarro, o carcinoma papilar no lóbulo direito da glândula tireoide foi detectado durante exames de rotina. Ele destacou, no entanto, que não há nenhum comprometimento linfático.

A presidente será submetida à cirurgia no Hospital Austral del Pilar, na Grande Buenos Aires, e ficará internada por pelo menos três dias. A partir da alta hospitalar, Cristina ficará por licença médica por 20 dias para sua total recuperação, disse o porta-voz.

Segundo ele, durante a ausência de Cristina, a chefia de Estado estará nas mãos do vice-presidente Amado Boudou, de acordo com a Constituição.

O carcinoma papilar é o mais comum tipo de câncer de tireoide e normalmente afeta pessoas com menos de 40 anos, especialmente mulheres. O tratamento geralmente é feito com a remoção cirúrgica do carcinoma e a ingestão de cápsulas com iodo radioativo que destrói as células remanescentes. Depois, os pacientes têm de tomar pelo resto de suas vidas um remédio para repor o hormônio que era produzido pela glândula.

Scoccimarro disse que a cirurgia estará a cargo do doutor Pedro Saco, chefe do Departamento de Cirurgia do Hospital Austral del Pilar e chefe do serviço de cabeça e pescoço do Instituto de Oncologia Doutor Angel Roffo.

Cristina, de 58 anos, foi reeleita em outubro, com 54,11% dos votos, um ano depois da morte do marido e antecessor, Néstor Kirchner, de ataque cardíaco aos 60 anos. Ela tomou posse para um novo mandato de quatro anos no dia 10.

Desmaios de Cristina. Em janeiro de 2009 a presidente Cristina Kirchner passou mal e cancelou todas as suas atividades durante cinco dias. Na época o governo argumentou que ela havia sofrido uma "lipotimia" (pré-desmaio), causada por "desidratação". Mas as explicações oficiais não convenceram. No dia da lipotimia de Cristina o jornalista, médico e escritor Nelson Castro recordou que em 1974, quando o presidente Juan Domingo Perón estava doente, a ponto de morrer, o governo afirmava que ele tinha "apenas uma gripe".

Outros presidentes argentinos tiveram problemas de saúde. Em 1993, o então presidente Carlos Menem (1989-99) foi internado às pressas. Nos primeiros minutos o governo sustentou que não passava de uma "gripe". Mas, na realidade, ele estava sendo operado da carótida. Em 2001, foi a vez do presidente Fernando De la Rúa. A obstrução na carótida do presidente ocorreu em meio a grave crise econômica.

Outros casos. Este é o quinto caso de câncer entre líderes da América Latina. A mesma doença já acometeu os presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, e Fernando Lugo, do Paraguai, além do ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, quando ainda não tinha sido eleita chefe de Estado (mais informações nesta página).

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Novelas brasileiras perdem espaço fora

Temas libertários talvez ajudem a diminuir impacto das produções do Brasil no Oriente Médio, diz pesquisadora



Na região, cresce audiência de novelas orientais, que tratam da mulher árabe com mais sensibilidade

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE ISTAMBUL (TURQUIA)


"A fórmula é simples: há amor e há vingança", afirma Özlem Özsümbül, do KanalD, que produz novelas turcas e com elas cresceu 40% em cinco anos, tomando o espaço das novelas brasileiras.
"Não há clones nem espíritos", diz, tirando um sarro do realismo fantástico do produto nacional brasileiro. "Nem sexo." Quer dizer, sexo até há nas novelas orientais. Mas é sempre coberto por lençol, precedido de casamento e seguido de gravidez.
"Está aí a diferença", diz a pesquisadora Isabel Cunha Ferin, da Universidade de Coimbra, "as telenovelas brasileiras são consideradas muito libertárias". "Em especial por ter mulheres sexualizadas. Talvez por isso diminua seu impacto nos países da região [Oriente Médio]."
Já as produções locais, diz a professora, têm "uma ficção com conteúdos e sensibilidades mais próximos, principalmente no que toca à condição da mulher árabe".
Tocar o público feminino foi de fato a peça-chave nessa expansão. O último capítulo de "Noor", sucesso de 2010, bateu o recorde de audiência no mundo árabe: 85 milhões de telespectadores -metade, mulheres adultas.
"É ouro! Hoje, eu compraria qualquer coisa que a Turquia produzisse. Não posso dizer mais o mesmo para o Brasil e para o México", diz o diretor de um canal egípcio, sob pedido de sigilo, em uma feira de publicidade em Istambul. Na feira, foi anunciada a vinda dos noveleiros muçulmanos para a América: "Amor Proibido" ganhará em 2013 uma adaptação latina, da mexicana Televisa.
Principal rede brasileira a exportar novelas, a Globo diz em nota que não houve diminuição nas vendas à região. "De 2000 a 2008, os negócios da emissora eram vendidos para as línguas árabe e hebraico. A partir de 2009, abrimos o mercado para o idioma farsi [falado no Irã, Afeganistão e Tadjiquistão]."
Enquanto a novela da batalha pelo mercado muçulmano é travada, Zeinep, que aprendeu português com a TV, começa a estudar turco. "Eu preciso falar a língua deles", diz. Dessa vez em árabe mesmo.
(CHICO FELITTI)

Haitianos desembolsam US$ 300 para entrar ilegalmente no Brasil


Atravessadores bolivianos, chamado de "coiotes", levam os imigrantes para cidades do Acre

Fluxo aumentou muito após o terremoto de 2010; governo do Brasil tem autorizado entrada por razões humanitárias

GUSTAVO HENNEMANN
JOEL SILVA
ENVIADOS ESPECIAIS A BRASILEIA (AC)


Os haitianos que usam o Acre como porta de entrada para o Brasil pagam até US$ 300 a bolivianos que montaram um esquema de imigração ilegal para atendê-los.
Conhecidos como "coiotes" -referência aos agentes que guiam imigrantes clandestinos na fronteira entre México e EUA-, eles buscam os haitianos em Iñapari, no Peru, e seguem até Cobija, cidade boliviana separada de Brasileia (231 km de Rio Branco) apenas pelo rio Acre.
Haitianos que entraram no país ilegalmente nos últimos dias relataram à reportagem da Folha que os coiotes bolivianos oferecem duas opções de caminho.
É possível fazer todo o percurso de carro ou pode-se tomar um atalho caminhando 22 km no meio da selva amazônica para evitar extorsões e humilhações em postos de fiscalização da Bolívia.
O preço cobrado pelos coiotes, que são geralmente taxistas, varia de acordo com o que cada haitiano tem no bolso e chega a US$ 300 (cerca de R$ 550).
Desde o Haiti, a viagem dura até seis dias e custa US$ 3.000, incluindo as passagens aéreas.
POUCA FISCALIZAÇÃO
Após chegarem a Cobija, os imigrantes -muitas vezes sujos e molhados- passam por um dos momentos mais tensos da odisseia.
Em pequenos grupos, esperam até a madrugada para cruzar a ponte sobre o rio Acre abaixados dentro do carro dos coiotes.
"Sabemos que entre 5h e 8h é mais fácil de passar, porque a fiscalização brasileira é mais flexível. Eu cruzei com minha irmã e meu namorado e não fomos parados. Abaixei a cabeça e não vi nada", diz Barbara Bellanger, 25.
Ela espera ter a situação regularizada para depois seguir de Brasileia para Manaus.
Ao cruzarem a fronteira brasileira, os haitianos são deixados em lugares escuros e afastados da cidade.
Se forem flagrados, os coiotes podem ser presos por colocar um estrangeiro no país ilegalmente.
Segundo o delegado da Polícia Federal Geraldo Sávio Pedrosa, o esquema de imigração ilegal também atraiu brasileiros inicialmente, mas eles recuaram depois de três homens serem presos transportando haitianos numa estrada perto de Brasileia.
PALAVRA MÁGICA
O delegado, que formaliza os pedidos de refúgio, diz que a entrada dos haitianos na fronteira amazônica começou de forma "tímida" em abril de 2010, três meses depois do terremoto que devastou o Haiti, deixando mais de 300 mil mortos.
No entanto, desde setembro deste ano, o fluxo cresceu exponencialmente.
"A Polícia Federal não pode deixar nenhum haitiano atravessar a fronteira sem visto prévio, mas eles aprenderam a palavrinha mágica 'refúgio'", afirma Pedrosa.
"A partir do momento em que eles se apresentam aqui [na delegacia] pedindo proteção, temos de encaminhar o pedido ao Conare [Comitê Nacional para os Refugiados] e eles não podem ser deportados", diz o delegado da Polícia Federal.
Até ontem, 853 haitianos estavam instalados em Brasileia à espera do protocolo do Conare, com o qual podem trabalhar no país.
O trâmite junto às autoridades pode demorar até três meses e não é definitivo.
O governo brasileiro entende que os haitianos não são refugiados, porque não sofrem perseguição política. Contudo, eles têm sido autorizados a ficar no país por questões humanitárias.

Exército mata o principal líder rebelde de Darfur

Sudão

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS - O Exército do Sudão matou ontem Khalil Ibrahim, líder do MJI (Movimento de Justiça e Igualdade) principal grupo insurgente da região do Darfur (oeste do país).
O Exército interceptou o comboio no qual ele viajava na província do Cordofão do Norte.
Ao menos 30 combatentes do MJI morreram nos combates que se seguiram durante o dia.

Sakineh será enforcada ou apedrejada, diz promotor

Autoridades da Justiça iraniana ainda não decidiram qual será a forma de execução



DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS


A iraniana Sakineh Ashtiani, 44, condenada à morte sob a acusação de ter cometido o crime de adultério, será executada a pedradas ou por enforcamento, afirmou Malek Ajdar Sharifi, chefe do Departamento de Justiça da província onde a mulher está detida.
Sakineh recebeu pena de morte por apedrejamento, mas sua sentença havia sido suspensa depois de uma mobilização global de reprovação à Justiça iraniana por parte de uma série de governos.
Citado pela agência semioficial de notícias Isna, Sharifi afirmou, no entanto, que as autoridades da Justiça do país ainda discutem se vão executá-la por apedrejamento ou por enforcamento.
Sakineh foi condenada por adultério em 2006 e sentenciada a morrer a pedradas, decisão que causou comoção internacional. Pouco tempo depois, ela foi considerada culpada também por ter ajudado no assassinato do marido.
Além da pena por adultério, Sakineh foi punida com 99 chibatadas pelas "relações ilícitas com estranhos", pena que lhe foi aplicada diante do seu filho, ainda em 2006.
Críticos afirmam que o julgamento que a condenou não ouviu o número mínimo de testemunhas exigidas pela lei iraniana para confirmar a prática do adultério e que júris foram feitos no idioma farsi (Sakineh fala somente azeri).
PERSEGUIÇÃO
Em maio deste ano, o advogado de Sakineh foi condenado a uma sentença de 11 anos de prisão.
Javid Houtan Kian foi preso sob a acusação de pôr em risco a segurança nacional iraniana por difundir propaganda contra o regime. Kian é o terceiro advogado a representar Sakineh.
Em 2010, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ofereceu asilo político à iraniana, mas o pedido foi rejeitado pelo regime iraniano.

Atentados matam ao menos 39 na Nigéria

No dia de Natal, grupo terrorista islâmico promove explosões que têm como alvos igrejas cristãs no país africano



Na cidade de Madalla, ao menos 35 pessoas morreram em explosão em igreja que estava lotada durante missa

Afolabi Sotunde/Reuters
Ataque à igreja de Santa Teresa em Madalla, cidade próxima à capital Abuja, deixou ao menos 35 mortos e 52 feridos
Ataque à igreja de Santa Teresa em Madalla, cidade próxima à capital Abuja, deixou ao menos 35 mortos e 52 feridos


DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS


Cinco bombas explodiram em atentados na Nigéria, matando ao menos 39 pessoas.
O maior aconteceu na igreja católica de Santa Teresa, em Madalla, próxima à capital, Abuja, pouco depois das 8h e matou 35 pessoas, ferindo 52.
O atentado aconteceu no dia de Natal, momento em que a igreja estava lotada.
Outra explosão aconteceu pouco depois próximo a uma igreja na cidade de Jos.
Em seguida, homens armados abriram fogo contra a polícia, matando um policial.
Outras três explosões aconteceram no nordeste da Nigéria. Duas na cidade de Damaturu e uma terceira, anteontem à noite, alvejou uma igreja em Gadaka.
O ataque em Madalla e a demora no resgate por parte do governo atraíram a ira da população ao redor da igreja.
A multidão inicialmente bloqueou o acesso dos grupos de emergência ao local da explosão, somente permitindo o acesso depois da chegada de soldados.
Em Damaturu, onde os embates entre forças de segurança e os terroristas já deixaram 61 mortos nos últimos dias, um ataque suicida com carro bomba próximo à sede da polícia secreta nigeriana matou ao menos três pessoas.
LIGAÇÃO COM AL QAEDA
O grupo terrorista islâmico Boko Haram, ligado à Al Qaeda, assumiu a responsabilidade pelos ataques.
"Somos os responsáveis por todos os ataques dos últimos dias, inclusive a bomba na igreja de Madalla", disse à agência de notícias France Presse Abul Qaqa, porta-voz do grupo.
Os ataques são uma tentativa de acender a guerra civil sectária entre muçulmanos e cristãos no país e uma provocação ao governo nigeriano.
Segundo a Associated Press, o grupo Boko Haram, que na língua hausa falada no norte da Nigéria significa "educação ocidental é pecaminosa", é responsável pela morte de 504 pessoas apenas neste ano.
Os radicais têm como objetivo a implantação da sharia, a lei islâmica, em toda Nigéria, e vêm efetuando ataques constantes contra as forças de segurança do país.
País mais populoso da África, com 167 milhões de habitantes, a Nigéria é dividida entre o norte muçulmano e o sul de maioria cristã.

À espera dos ianques

Vinicius Mota

SÃO PAULO - Adiada para as calendas gregas a recuperação da Europa, é dos Estados Unidos que se esperam as próximas notícias de mudanças no quadro de letargia econômica das nações desenvolvidas. Próximas? Aguardemos sentados, dizem os prognósticos das principais instituições financeiras.
O gigante de US$ 15 trilhões tomou neste ano uma segunda cacetada da crise, cuja fase aguda irrompeu em 2008. Não foi suficiente para produzir nova recessão, mas machucou. Os americanos tiveram seu ritmo de crescimento, que foi de 3% em 2010, cortado à metade. Uma reação incipiente foi abortada.
Agora, segundo a maioria dos prognósticos, o PIB dos EUA vai retomar a velocidade de cruzeiro só em 2014. Entenda-se por velocidade de cruzeiro uma alta da atividade econômica de 3% ao ano.
Para quem acha pouco, basta verificar a média anual de crescimento da economia americana nas últimas três décadas: 2,7%. Recuando-se mais 30 anos (1951-1980), o indicador sobe um pouco, para 3,6% ao ano, mas chega apenas à metade, por exemplo, da velocidade do PIB brasileiro no mesmo período.
Não há nada anômalo nessa trajetória dos EUA. Quanto maior se torna uma economia, mais difícil fica sustentar taxas elevadas de crescimento ao longo dos anos. O volume mais que compensa a redução da marcha: para gerar a mesma quantidade de produção nova que os EUA crescendo 3%, o PIB do Brasil teria de saltar 18% de um ano para o outro.
Incomum é uma economia emergente, em pleno voo para romper a barreira do subdesenvolvimento, cair numa armadilha de crescimento baixo, como ocorreu com o Brasil nas décadas de 1980 e 1990 -o PIB andou a 2,1% ao ano no período.
É normal, portanto, que os EUA tenham perdido participação no PIB mundial de 1980 para cá. Anormal é que com o Brasil tenha ocorrido o mesmo fenômeno.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Espanha diz que indulto em Cuba não é suficiente

Raúl Castro anunciou libertação de 2.900 presos antes de visita do papa



Partido conservador espanhol teme que medida seja usada para adiar transição democrática

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS


O partido conservador espanhol PP advertiu ontem que a decisão do governo cubano de libertar 2.900 prisioneiros é bem-vinda, mas não será suficiente se não for acompanhada de avanços na transição democrática. "Não nos deixaremos enganar", disse o deputado do PP Teófilo de Luis, sublinhando a necessidade de evitar que a medida anunciada por Raúl Castro "consolide a ditadura em Cuba" e confunda a comunidade internacional.
De Luis apontou para a libertação de cerca de cem presos políticos cubanos com destino à Espanha entre julho de 2010 e abril deste ano, que, a seu ver, tinha como único objetivo enganar a União Europeia. "A libertação dos presos que chegaram à Espanha era um gesto e nos permitimos nos enganar por esse gesto; com este novo indulto, não nos deixaremos enganar", disse o parlamentar. "O PP só vai relaxar no dia em que se restituírem as liberdades em Cuba."
O presidente cubano, Raúl Castro, anunciou a libertação de 2.900 presos -aqueles com mais de 60 anos, os doentes, as mulheres e jovens não reincidentes.
Castro disse que um dos motivos para a libertação dos presos é a visita do papa Bento 16, que deve ocorrer antes da Páscoa. Segundo ele, o indulto mostra "a generosidade e força da revolução".
O prisioneiro americano Alan Gross, acusado de crimes contra a segurança do Estado, não está entre os libertados. "Estamos profundamente desapontados", disse Mark Toner, porta-voz do Departamento de Estado.

Coreia for kids

Acima ou abaixo da lei?

Roberto Romano

"Em Shakespeare a imaginação e a força dos celerados acabam na dezena de cadáveres. Eles não tinham ideologia. A ideologia permitiu ao século 20 experimentar o banditismo em escala de milhões". Claude Lefort, a partir de semelhante juízo sobre os justiceiros políticos, explica o termo "libertário", que "não implica nem exclui crença alguma a priori, mas só a crença que requer adesão à ordem estabelecida, submissão à autoridade de fato, confusão entre a ideia da lei (se falta a lei, não falamos do libertário, mas de um bandido) e as leis empíricas que a pretendem encarnar. A atitude libertária foge das categorias ideológicas e não pode ser codificada em doutrinas" (Um Homem Incômodo, ensaio sobre o Gulag). Lefort tem o respeito da esquerda que pesa os valores e as palavras.

Importa muito examinar a lei nos seus elos com a ideologia. Nos últimos tempos surgiram fortes discussões sobre o tema na imprensa, na universidade e na Justiça brasileiras. Sublinho a distinção lefortiana entre a lei em sentido amplo e as leis que pretendem encarná-la. A tese platônica entra na fórmula usada por Lefort. A lei é um paradigma supremo, inalcançável nos limites do tempo e do espaço. A sua ideia relativiza os modelos políticos ou ideológicos. O libertário enfrenta uma grave aporia: segue a lei, mas não se contenta com a outorgada pelos governantes. Ele age sob vaias dos realistas, recusa o exemplo de Trasímaco e dos que julgam não existir lei além da imposta em nome dos poderosos.

Segundo Platão, Sócrates assumiu atitude correta na aporia legal. É célebre a onomatopeia figurada no diálogo Críton. Os amigos do filósofo queriam a sua fuga após a sentença de morte. "Se eu fugisse, as leis e os atenienses levantar-se-iam dizendo: 'Que fazes, Sócrates? Queres nos arruinar e, conosco, a cidade inteira? Ou pensas ser possível à polis continuar a existir se os julgamentos nela efetuados não têm força alguma e, pelo contrário, perdem toda autoridade pelo arbítrio de meros particulares?'". Leis devem ser obedecidas, mesmo quando decretam a cicuta para o seu adversário. Importa reler a passagem do Críton. Ela resume e anuncia as tragédias dos indivíduos, movimentos sociais e políticos, nos inúmeros Estados, das tiranias aos regimes de liberdade. Na República, Platão mostra que a decadência democrática surge quando os cidadãos "livres" caçoam dos que obedecem à lei, chamando-os "servos voluntários". Com tal licença, nascem os tiranos, morre a democracia.

Se a lei, em sentido absoluto, não pode ser tomada como fetiche ou, no caso oposto, desculpar a desobediência às leis, também é verdadeiro que as segundas, ao contrário da primeira, trazem marcas dos interesses defendidos por líderes ocasionais, o que sempre causou dificuldades jurídicas ao longo dos milênios. Quem deve governar, as leis ou os chefes políticos?

Marcello Gigante, estudioso da questão, anota as teses platônicas (Nomos Basileus). É preciso analisar as leis existentes, pois elas podem não corresponder à ideia da lei (unida ao Bem), mas exprimir a vontade privada dos legisladores ou governantes. Todas as constituições políticas falham, sendo preciso esquadrinhar as ordens que delas brotam para definir o seu grau de acerto. A salvação da cidade reside na obediência às mesmas leis por governantes e governados, pois ninguém está acima da norma legal. Mesmo insinuando algumas pistas falsas sobre o problema (no diálogo Político), Platão proclama que as leis devem ser soberanas, não os homens. Quem impõe ordenamentos que só beneficiam os dirigentes é rebelde, não estadista. Quem, na cidadania, só aceita leis gratas à sua opinião (hoje diríamos ideologia) age como idiota (termo que, na Grécia, identifica os que só defendem os próprios interesses).

Platão entendeu a luta política. Basta ler jornais para saber o quanto seu diagnóstico é certeiro. Parlamentares e governos do Brasil atual, na maioria das vezes, legislam em proveito próprio, agem como lobistas de interesses alheios aos da cidadania. "Na cidade em que a lei é súdita e desprovida de soberania, a destruição é iminente; naquelas, ao contrário, onde a lei é a soberana dos governantes, sendo eles escravos da lei, vejo salvação e todos os bens" (Platão). A realidade brasileira é oposta ao enunciado justo. Aqui, os donos do poder torturam a lei e a distorcem em benefício pessoal ou partidário.

Aristóteles, na Ética a Nicômaco, aprimorou a noção de lei soberana, nela harmonizando a justiça e a equidade (epikeia). O conceito foi bem definido por Leonardo Bruni, pensador e político do Renascimento. "Epikeia é a parte da justiça que os jurisconsultos nomeiam ex bono et equo (do que é bom e equânime). A lei é escrita de certo modo e deve, no entanto, ser interpretada segundo os critérios do bem e da equidade" (De Interpretatione Recta).

Voltemos à aporia inicial: o libertário busca a lei, critica as leis do Estado, mas obedece a elas no mesmo ato em que luta por sua abolição ou por seu aperfeiçoamento. Se não consegue tal coisa, tenta interpretar as leis de maneira a corrigir suas falhas, aplicando-as a pessoas e situações concretas. Ninguém está acima da lei, seja qual for a sua doutrina ideológica. Como diz Lefort, a ideologia leva, cedo ou tarde, aos milhões de assassinatos praticados por justiceiros que se imaginam libertários.

Mas, de outro lado, toda lei deve ser interpretada segundo a justiça. Nem descompromisso nem fetiche legal. A prudência indica o caminho: "Quem dá a cada um o que lhe pertence porque conhece a verdadeira e necessária razão das leis age em constante acordo consigo mesmo e por seu próprio decreto, não por decreto alheio: ele merece, pois, ser reconhecido como justo" (Baruch Spinoza, Tratado Teológico-Político).     Filosofo, professor de ética e filosofia na Unicamp, é autor, entre outros livros, de 'O Caldeira de Medeia' (Perspectiva)

sábado, 24 de dezembro de 2011

Carros-bomba deixam 40 mortos na Síria

Duas explosões ocorrem no centro de Damasco; governo acusa rede terrorista Al Qaeda e rebeldes por atentados



Oposicionistas dizem suspeitar que o regime do ditador Bashar Assad seja responsável, para jogar a culpa neles

Sana/Reuters
Delegação da Liga Árabe inspeciona o local da explosão de um carro-bomba no centro de Damasco, a capital da Síria
Delegação da Liga Árabe inspeciona o local da explosão de um carro-bomba no centro de Damasco, a capital da Síria


DE JERUSALÉM


Dois carros-bomba explodiram ontem em Damasco perto de prédios do temido aparato de segurança do governo. Pelo menos 40 pessoas morreram e 55 ficaram feridas, a maioria civis, segundo a agência de notícias estatal da Síria, Sana.
Foi o primeiro atentado suicida no país desde o início da revolta contra o regime do ditador Bashar Assad, em março, e a ação mais violenta na capital desde então.
Pouco após as explosões, em meio a imagens de corpos dilacerados, a TV estatal afirmou que "investigações preliminares" apontavam a rede terrorista Al-Qaeda como autora do ataque.
Ao contrário do vizinho Iraque, explosões como essas na Síria são raras, embora o grupo fundamentalista islâmico fosse um crítico do regime laico da Síria.
Para o governo, os ataques confirmam sua frequente acusação de que grupos armados e terroristas financiados por outros país estão por trás da insurgência contra Assad, e não pacíficos ativistas pró-democracia, como afirma a oposição.
"Dissemos desde o começo, isso é terrorismo", disse Faisal Mekdad, vice-ministro do Exterior. "Eles estão matando militares e civis".
Membros da missão de observadores da Liga Árabe, que havia chegado ao país na véspera como parte de um acordo assinado com Damasco para pôr fim à repressão do regime, foram levados ao local das explosões.
SUSPEITA
O atentado conclui uma das semanas mais sangrentas desde o início da revolta. Ativistas estimam que os mortos na repressão chegaram a 200 nos últimos dias, entre eles dezenas de militares que ousaram desertar.
Na mesma semana, centenas de milhares de pessoas foram a uma manifestação pró-regime em Damasco.
As explosões ocorreram pouco antes de manifestações convocadas pela oposição para protestar contra o acordo de Assad com a Liga Árabe que permitiu a entrada da delegação.
Para os oposicionistas, uma série de fatores levam à suspeita de que o próprio regime tramou as explosões para fortalecer as alegações de que a revolta contra Assad é um plano terrorista.
O fato de os ataques terem ocorrido numa área de extrema segurança da capital é um deles. A pressa em acusar a Al Qaeda, mesmo sem uma investigação aprofundada, é outro.
Omar Idilbi, do Conselho Nacional Sírio, uma aliança de grupos opositores, disse que as explosões ocorreram numa área da capital em que é muito difícil entrar de carro sem ser revistado.
Para ele, a chegada da Liga Árabe pode ter sido o momento escolhido. "É uma tentativa de convencer a Liga Árabe e a opinião pública internacional de que a Síria está sendo vítima de terrorismo", disse ele.
O governo americano, que defende a saída de Bashar Assad, condenou a violência e exortou os observadores a cumprir sua missão no país.
(MARCELO NINIO)

Argentina nega que lei antiterror vise a mídia

Governo desmente que jornais poderiam ser acusados de 'aterrorizar a população'
  
BUENOS AIRES - O ministro do Interior argentino, Florencio Randazzo, classificou ontem de "disparate" a afirmação do diretor da Unidade de Investigações Financeiras, José Sbatella, de que os meios de comunicação poderiam ser enquadrados na nova lei antiterrorismo do país, aprovada na quinta-feira.

"Quem disse isso está mal intencionado", declarou o ministro, segundo o La Nación. "Cada um tem dito o que quer nesse país."

Em entrevista à rádio La Red, após a aprovação do projeto que estatizou a fábrica de papel-jornal Papel Prensa, Sbatella dissera que a mídia poderia ser acusada de "aterrorizar a população", caso divulgue notícias que estimulem uma retirada em massa de depósitos bancários. "A lei antiterrorista não é para perseguir ninguém, é para evitar um golpe de mercado", disse Randazzo.

A redação da lei, uma das muitas aprovadas pelo Congresso no pacotaço de fim de ano proposto pelo kirchnerismo, é vaga, o que abre caminho para diversas interpretações. Diz que qualquer crime considerado terrorismo por tratados internacionais terá pena máxima e mínima dobrada. Além disso, a especulação financeira também pode ser enquadrada no projeto, e organizações de direitos humanos acreditam que a medida pode servir para punir movimentos sociais. em resumo, a interpretação de "aterrorizar" ficará nas mãos dos juízes argentinos.

Contestação.

Em sua edição desta sexta, o jornal Clarín, criticou com veemência a aprovação do projeto de lei que torna de "interesse público" a produção, comercialização e distribuição do papel-jornal em todo o território argentino e pode levar à estatização da empresa Papel Prensa, da qual o diário é sócio desde a ditadura (1976-1983), ao lado do Estado e seu principal concorrente, o La Nación.

Com a nova lei o Estado argentino poderá aumentar sua participação acionária, sem limites, dentro da empresa. Além disso, a norma cria um sistema que implica na fiscalização de todos os compradores de papel-jornal do país. Neste cenário, o governo - tal como faz há vários anos com as verbas de publicidade oficial - poderá determinar que jornal vai receber mais ou menos papel, condicionando a mídia não alinhada. "O governo parece disposto a ultrapassar a linha que separa o respeito pela legalidade democrática de sua utilização abusiva", diz o editorial do Clarín. "Parece tentar criar um aparato de poder coercitivo e de controle social e econômico a serviço de seus projetos políticos."

O governo vê ilegalidades na constituição societária da Papel Prensa, durante os anos de chumbo. No ano passado, a Casa Rosada denunciou na Justiça de La Plata uma suposta irregularidade na compra da empresa. Segundo o kirchnerismo, os dois jornais e o governo militar tramaram para adquirir por meio de tortura a empresa de sua ex-proprietária, a família Graivers.

Após sua reeleição, em outubro, que lhe deu folgada maioria legislativa, a presidente Cristina Kirchner decidiu submeter ao Congresso a lei regulando a produção e comercialização do papel-jornal. Para o Clarín, o projeto é inconstitucional.

"O artigo 32 da Constituição é muito claro: ‘O Congresso federal não ditará leis que restrinjam a liberdade de imprensa ou que a submetam à jurisdição federal’", publicou o jornal. "Ainda que se disfarce o projeto com a roupagem dos direitos humanos e democratização dos meios, o governo procura subordinar a imprensa escrita, como parte central de um projeto de hegemonia política e social."

Protesto. Em outro front da batalha entre o kirchnerismo e os meios de comunicação, os funcionários da operadora de TV a cabo Cablevisión, do Grupo Clarín, protestaram ontem contra a intervenção judicial na empresa. Segundo o Clarín, os empregados da Cablevisión organizaram uma paralisação de 24 horas na sede da companhia, em Buenos Aires. Houve também uma mobilização do sindicato da categoria e de sucursais no interior na Argentina. O objetivo dos protestos, dizem os organizadores, é "proteger os interesses dos trabalhadores."

‘Na luta contra a cidadania, o Estado ganha de goleada’

Ao relatar as seis constituições do Brasil, historiador vê na justiça o grande desafio nacional

Gabriel Manzano, de O Estado de S.Paulo

O mensalão que se arrasta na Justiça há anos, a Lei da Ficha Limpa que vai sendo adiada, a batalha do Conselho Nacional de Justiça pelo controle de tribunais e juízes. Esse retrato do Brasil não é só uma questão de justiça: é uma longa luta que se trava entre Estado e cidadania. "E nessa luta o Estado arbitrário prevaleceu e a cidadania perdeu de goleada", resume o historiador Marco Antonio Villa. "Como poderia ser diferente", pergunta ele, "se o próprio STF não dá exemplos de atitudes republicanas?"

A cidadania desprotegida, seja em tempos de mensalão ou, bem lá atrás, na escravidão, é o eixo central das 160 páginas de A História das Constituições Brasileiras - 200 Anos de Luta contra o Arbítrio, o livro que Villa acaba de lançar, com seis capítulos - um para cada carta - e um sétimo contendo um detalhado não-elogio ao Supremo, "porque o Judiciário é de lojnge o pior dos três Poderes".
É um relato direto, sem juridiquês e até divertido, tantos os absurdos que Villa garimpou em sua pesquisa. Para citar apenas dois: a primeira carta, de 1824, ignorou por completo a escravidão, com a qual conviveu por sete décadas. E a de 1967, no auge do regime militar, decidiu que "toda pessoa física e jurídica é responsável pela segurança nacional" - um simples truque para prender qualquer cidadão, sob qualquer pretexto, por falta gravíssima.
A goleada a que o autor se refere nasce de uma receita bem brasileira: "Leis voltadas não para o Brasil real, mas para um país imaginário. ou garantias que dependem de regulamentações jamais feitas."
O que há de comum entre as seis constituições que o sr. Estudou?
Em quase todas se percebe uma luta, que vem desde a independência, do cidadão contra o Estado arbitrário. Nessa luta, na maioria das vezes, o Estado ganhou de goleada.
De que forma?
Um truque típico é escrever uma lei no papel e imaginar que o problema está resolvido. Da primeira à última carta, determinou-se a autonomia dos poderes mas quem sempre mandou, como manda hoje, foi o Executivo. Organizavam-se eleições e elas eram fraudadas. Mulheres não votavam, não havia direito de greve. Surgem leis que dependem de regulamentação e esta nunca é feita. A atual, de 1988, um avanço em relação às outras, criou o mandado de injunção. Ele permite ao cidadão ir ao Supremo e exigir o atendimento de um direito se ele não está regulamentado.
Pode dar exemplos práticos?
A primeira constituição, de 1824, feita pelo Parlamento, foi atirada no lixo pelo imperador. No lugar dela D. Pedro I fez outra que vigorou quase sete décadas e ignorou por completo a existência da escravidão. As duas seguintes, a da República em 1891 e a de Getúlio Vargas em 1934,,deveriam depender, para serem aceitas, da confirmação popular, em um plebiscito. Nem para uma nem para outra esse plebiscito jamais se realizou. A de 1937 introduziu uma "ditadura constitucional" que delegava poderes intermináveis ao Executivo. Este tinha todos os direitos e o cidadão todas as obrigações. A de 1946, que redemocratizou o País após a ditadura varguista, recuperou as liberdades mas abriu tantos leques que a certa altura se reduziu a um edital de licitação e incluiu em um artigo a obrigatoriedade de se concluir a rodovia Rio-Bahia em dois anos...
Nessa sequência, como entra a ditadura militar de 1964?
A contribuição do regime militar de 1964 foi um nunca acabar de arbítrios, casuísmos e aberrações. A Constituição de 1967 determina que "toda pessoa natural ou jurídica é responsável pela segurança nacional, nos limites definidos em lei" - simples truque para acusar qualquer um de crimes gravíssimos. Dois anos depois, aprovou-se um artigo constitucional que obrigava o Estado a pagar as despesas médicas do já afastado presidente Costa e Silva. Esse tipo de cuidado traduzia uma curiosa obsessão dos militares: o empenho deles não era para cumprir a lei, mas por tornar legal tudo o que faziam.
O arbítrio virou um "direito constitucional’ do Estado.
Exato. As ditaduras acabaram constitucionalizando o arbítrio. Isso virou uma cultura típica do País. Um grande exemplo foi a pérola criada pelo jurista Carlos Medeiros da Silva, ao justificar o fim da eleição direta na ditadura de 1964. Ele sustentava que "o traumatismo da campanha pela eleição direta ou degenera o processo eleitoral ou impede o vencedor de governar em clima de paz e segurança". Era o retrato do regime.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O blindado e o mimeógrafo

Militarismo

A proliferação da luta contra insurgências

RICARDO BONALUME NETO



RESUMO


Negligenciados após a Guerra do Vietnã, estudos sobre contrainsurgência são reeditados e novos títulos chegam às livrarias contendo experiências de combates dos dias de hoje, como no Afeganistão e no Iraque. Com as operações militares em complexos cariocas, o tema passa a merecer atenção também no Brasil.
É difícil encontrar um equipamento militar mais especializado do que aquele blindado do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil que participou das operações policiais e militares recentemente na favela da Rocinha e -já faz mais de um ano- nos complexos da Penha e do Alemão.
O enorme veículo camuflado de 29 toneladas e oito metros de comprimento, que esteve nas primeiras páginas dos jornais, é conhecido como Carro Lagarta Anfíbio (CLAnf). A versão atual pode transportar 28 combatentes e descende de veículos semelhantes criados na Segunda Guerra Mundial para desembarcar "marines" (fuzileiros navais norte-americanos) nas ilhas do Pacífico. Foi projetado para as areias de Iwo Jima, não para o barro das favelas cariocas.
Mas equipamentos como helicópteros e blindados passaram a ser fatores de dissuasão e proteção no novo cenário. Com os blindados, os policiais e militares podem contornar as posições dos traficantes e se colocar em posição mais adequada para o confronto.
Que tenha sido empregado em área urbana, em operações contra bandos de traficantes, é uma curiosa prova de como as Forças Armadas -e não só no Brasil- estão tendo que se adaptar a um mundo em que os conflitos convencionais são raros, mas onde a chamada guerra "contra insurgência" prolifera de diversas formas, em diversos matizes. Clássicos da literatura sobre o tema voltaram a ser reeditados, e novas obras surgem com maior frequência, inclusive no Brasil.
RECEITAS IGNORADAS
"Os melhores textos sobre contrainsurgência compartilham com os melhores manuais de sexo o fato de que seus autores geralmente têm alguma experiência pessoal do seu tema", escreveu o tenente-coronel americano John A. Nagl no prefácio de "Counterinsurgency Warfare: Theory and Practice" [Praeger Security International, 128 págs., R$ 90,80], clássico do tenente-coronel francês David Galula publicado originariamente em 1964 e agora reeditado nos EUA.
Galula cursou a academia militar de Saint Cyr e se graduou oficial em 1939, no momento certo para lutar nas tropas francesas livres do general Charles de Gaulle no norte da África, Itália e França durante a Segunda Guerra. Depois, teve experiência em primeira mão em guerras irregulares na China, Grécia, Indochina e Argélia. Esse conhecimento foi destilado em seu livro, escrito durante uma temporada de estudos na Universidade Harvard (EUA).
Galula morreu pouco depois, "perdendo a chance de observar como os militares americanos ignoraram muitas das suas receitas no Vietnã", ironiza Nagl, ele próprio autor de um livro sobre o tema que a princípio também foi ignorado, mas hoje é festejado: "Learning to Eat Soup with a Knife - Counterinsurgency Lessons from Malaya and Vietnam" [The University of Chicago Press,
250 págs., R$ 42,90]. O título foi retirado de outro clássico, "Os Sete Pilares da Sabedoria", do britânico T.E. Lawrence (1888-1935), mais conhecido como Lawrence da Arábia, pela sua participação na revolta árabe contra os turcos na Primeira Guerra. "Guerrear contra uma rebelião é confuso e lento, como tomar sopa com uma faca", resumiu Lawrence.
RETORNO
"É a população, estúpido!", pode ser um curto e grosso resumo dessas obras. "Enquanto o desafio primário da guerra convencional é concentrar maciçamente o poder de fogo no local apropriado, a chave para o sucesso na contrainsurgência é coletar inteligência maciçamente derivada da população para identificar o inimigo; o contrainsurgente está literalmente morrendo por essa informação", afirma Nagl.
"Depois de ter sido negligenciado no momento que se seguiu à Guerra do Vietnã, o estudo da contrainsurgência retornou à proeminência nos primeiros anos do século 21 como resultado das guerras no Iraque e Afeganistão", afirmam Daniel Marston e Carter Malkasian, editores de um livro que descreve as principais campanhas do gênero no último século, "Counterinsurgency in Modern Warfare" [Osprey Books, 352 págs., R$ 50,30].
Marston e Malkasian afirmam que o livro de Nagl foi um dos que trouxeram o tema de volta ao discurso militar americano. Surgiu no momento certo. Foi primeiro publicado em 2002; a mais nova edição contém um revelador prefácio em que ele comenta sua subsequente experiência no Iraque.
"Autores geralmente aprendem algo sobre seu tema e depois escrevem sobre isso. Eu tomei o enfoque contrário", diz Nagl no novo prefácio. "A experiência de lutar contra insurgentes no Iraque me fez pensar de novo sobre as visões expressas neste livro -avaliações do Exército britânico na Malásia e, especialmente, do Exército americano no Vietnã. Relendo meu trabalho agora, fiquei surpreso sobre o quanto fui capaz de entender de contrainsurgência antes de eu mesmo praticá-la e simultaneamente estarrecido com alguns dos meus erros e presunções."
A doutrina de uma força armada está em permanente evolução, de acordo com novidades tecnológicas e experiência operacional; ela costuma estar expressa em manuais. O Exército americano deixou de lado a atualização de seu manual de guerra contra insurgência depois da Guerra do Vietnã e correu para publicar um novo em 2006 sintetizando a experiência no Iraque e no Afeganistão.
O coordenador do trabalho foi o general David H. Petraeus, que comandou as tropas nos dois países asiáticos. Uma novidade importante foi o fato de o manual ser uma obra conjunta entre Exército e Corpo de Fuzileiros Navais -"The U.S. Army & Marine Corps Counterinsurgency Field Manual" [The University of Chicago Press, 452 págs., R$ 37,90]. Nagl, obviamente, foi um dos convidados a participar da produção do novo manual de campo, que pode ser baixado no site da Federation of American Scientists (bit.ly/contrain).
"Coin [contrainsurgência] é uma forma extremamente complexa de guerra. No seu núcleo, a Coin é uma luta pelo apoio da população. A proteção, o bem-estar e o apoio da população são vitais para o sucesso", prescreve o manual.
O líder guerrilheiro comunista chinês Mao Tse-tung dizia que o insurgente tem que ser como um "peixe nadando no oceano do povo". Justamente porque o objetivo principal da contrainsurgência é separar o rebelde da população na qual se esconde, algumas das receitas do novo manual são "puro zen", como comentou Nagl.
Por exemplo, "às vezes, quanto mais você protege sua força, você pode ficar menos seguro". Isto é, se a tropa fica isolada em bases fechadas, perde o contato com a população que deve proteger. Ou então, "às vezes, quanto mais força é usada, menos eficaz ela é"; ou seja, aumentam os riscos de "danos colaterais" (eufemismo para morte de civis).
"Algumas das melhores armas da contrainsurgência não disparam", diz o manual, ecoando Galula, que dizia que um mimeógrafo pode ser uma arma melhor do que uma metralhadora; ou que um soldado treinado como pediatra é mais valioso que um especialista em morteiros. Adaptando ao Rio de 2011: uma linha telefônica para a população da favela revelar anonimamente os esconderijos dos traficantes é mais importante que um blindado CLAnf em cada cruzamento.
CONFIANÇA
A ocupação dos complexos da Penha e do Alemão depois dos distúrbios promovidos por criminosos no final do ano passado lembrou não só a missão de paz da ONU no Haiti, mas também teve toques claros da doutrina de contrainsurgência americana.
Eis de novo a palavra-chave: "tínhamos era que reconquistar a confiança da população", disse em palestra deste ano o general de brigada Fernando José Lavaquial Sardenberg, que comandava a Brigada de Infantaria Paraquedista e a Força de Pacificação nos complexos cariocas. Isso envolvia "uma dosagem no uso da força, só era usada em última circunstância", afirma o general, que foi membro do Estado Maior do primeiro contingente militar brasileiro no Haiti em 2004.
O "modus operandi" no Rio também lembrou as operações de pacificação em favelas do Haiti, com o estabelecimento de Pontos Fortes em áreas dominantes e o uso intensivo de patrulhas e buscas em residências.
A passagem pelo Haiti ajudou, pois muitos dos paraquedistas eram veteranos da missão caribenha. "Quem teve a experiência não vai se assustar com disparos de armas e fogo", diz Sardenberg. "Os militares que tiveram a experiência levam vantagem nesse tipo de ação."
O coronel Antonio Manoel de Barros comandava o 26º Batalhão de Infantaria Paraquedista e a Força-Tarefa Santos Dumont no Alemão. Ele relata uma sintomática frase dita por uma moradora: "O senhor vai ter que ter paciência, não estamos acostumados com a lei".
NOVOS TEMPOS
Que os militares brasileiros estão se adaptando aos novos tempos pode ser constatado em um excelente livro escrito por um oficial do Exército, Alessandro Visacro: "Guerra Irregular - Terrorismo, Guerrilha e Movimentos de Resistência ao Longo da História" [Contexto, 384 págs., R$ 49,90]. O livro é de 2009; depois dos eventos no Rio no ano seguinte, a editora acrescentou um adesivo circular na capa com a frase: "O que está acontecendo no Rio de Janeiro".
Da bibliografia de Visacro consta, obviamente, o novo manual americano. "Aos poucos, estadistas e militares vêm se mostrando mais acessíveis a novas abordagens das questões afetas à segurança e predispostos a romperem com a intransigência doutrinária que tem caracterizado o pensamento castrense conservador", diz o autor, que comandou forças especiais e de comandos.
A última frase do livro bate na tradicional tecla: "Sem o respaldo da opinião pública e o incondicional apoio da população, não se vence o combate irregular".

O caso Araguaia e o direito à informação

Peter Kornbluh

A Lei de Acesso à Informação reforça o poder da Comissão da Verdade: ordena a liberação de toda a documentação sobre violações de direitos humanos
Um ano já se passou desde que a Corte Interamericana de Direitos Humanos anunciou sua decisão sobre o caso do Brasil e a guerrilha do Araguaia. A resposta do governo a esse caso histórico encerra implicações importantes para o modo como o Brasil vai se unir ao resto da América Latina em reparar as atrocidades de direitos humanos cometidas durante a era militar e firmar-se como líder moderno do século 21 nas questões críticas de responsabilização e transparência.
A corte decretou que o governo brasileiro devia assumir a responsabilidade clara pela morte e pelo desaparecimento de mais de 60 guerrilheiros na região do Araguaia nos anos 1970 e que "deve continuar a desenvolver iniciativas para a busca, a sistematização e a divulgação de todas as informações sobre a guerrilha do Araguaia, ao lado de informações sobre as violações dos direitos humanos ocorridas durante o regime militar".
Essa cláusula na decisão sobre o Araguaia a torna histórica. É a primeira vez em que uma sentença internacional reconheceu que, para as vítimas e as suas famílias, o direito à informação é por si mesmo um dos direitos humanos.
De fato, ocultar, acobertar ou distorcer informações, como militares brasileiros vergonhosamente vêm fazendo há quase quatro décadas, é "comparável à tortura", a corte declarou claramente.
A resposta do Brasil à cláusula sobre o direito à informação vem sendo ambígua. Os militares, sempre recalcitrantes, têm-se negado a cooperar com a ordem da corte de transferir para o Arquivo Nacional todos os documentos militares e de inteligência sobre a campanha de contrainsurgência no Araguaia, reivindicando, como de praxe, que tais documentos não existem mais.
Os generais brasileiros também impediram a nova lei da Comissão da Verdade de responsabilizar legalmente quaisquer ex-oficiais pelas atrocidades que cometeram, como os massacres do Araguaia.
Contudo, em 18 de novembro, a presidente Dilma sancionou a lei sobre a Comissão da Verdade, sancionando também, e pela primeira vez, uma lei que cria um sistema de liberdade de informação. De fato, a Lei de Acesso à Informação contém cláusula especial que reforça o poder da Comissão da Verdade: ordena a liberação de toda a documentação histórica relacionada a violações dos direitos humanos.
Se a experiência dos países latino-americanos com legislação semelhante servir de indicativo, porém, será preciso a atuação dos grupos que lutam pelo acesso à informação, como a Abraji, e de outros grupos de direitos humanos, como o Cejil, o ativismo das famílias das vítimas e a autoridade dos membros da Comissão para de fato trazer esses registros para domínio público.
Com tudo o que ela precisa fazer, a Comissão também terá que assumir a responsabilidade por definir, identificar, localizar e exigir a liberação de todos os principais arquivos de documentos que tratam de violações dos direitos humanos durante a ditadura militar.
Para obter o mosaico histórico completo da repressão, a Comissão deveria também entrar em contato com outros países possuidores de arquivos relevantes, incluindo os EUA, cujos arquivos secretos podem lançar luz considerável sobre abusos no passado brasileiro.
A verdade é como um gênio da garrafa; uma vez liberada, ganha poderes mágicos. A implementação bem-sucedida da Comissão da Verdade e da Lei de Acesso à Informação é a primeira linha de ataque à imunidade que por tanto tempo escondeu os criminosos. Atenderá essencialmente às vítimas e suas famílias, que vêm lutando com tenacidade para saber a verdade.
Mas cumprir o que prevê a decisão da Corte Interamericana também fará o Brasil avançar como sociedade civil moderna e beneficiará o avanço dos direitos humanos na região como um todo. Por essas razões, a comunidade internacional de direitos humanos está observando e aguardando.

Iraque Livre

Louco por futebol, general desejava ser popular

Marcos Guterman
É HISTORIADOR, JORNALISTA DO ESTADO


O general Emílio Garrastazu Médici tinha especial preocupação com sua imagem. Ao assumir a Presidência, em outubro de 1969, ele declarou: "Espero que cada brasileiro faça justiça aos meus sinceros propósitos de servi-lo e confesso lealmente que gostaria que meu governo viesse, afinal, a receber o prêmio de popularidade".

De fato, Médici foi o único dos ditadores do governo militar a ter uma cota considerável de popularidade pessoal, cultivada cuidadosamente por ele a despeito dos esforços da máquina de propaganda do regime para evitar a personalização do poder. Ajudou muito o momento econômico do País, que caminhava para ter pleno emprego e cujo PIB se expandia em ritmo de dois dígitos.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que então era líder sindical, atestou essa qualidade em entrevista ao historiador Ronaldo Costa Couto, no livro História Indiscreta da Ditadura e da Abertura (Record, 1999). "Hoje a gente pode dizer que foi por conta da dívida externa, milagre brasileiro, e tal, mas o dado concreto é que, naquela época, se tivesse eleições diretas, o Médici ganhava. E foi no auge da repressão política mesmo, o que a gente chama de período mais duro do regime militar. A popularidade de Médici no meio da classe trabalhadora era muito grande."

Mas só o "milagre" econômico não explica essa faceta de Médici. Ele era um fanático torcedor de futebol e construiu uma identidade natural com esse esporte - que, nos anos 70, se tornou a gasolina da integração nacional, eixo do projeto desenvolvimentista dos generais. Ao festejar a conquista do tricampeonato mundial pelo Brasil na Copa do México, Médici resumiu seu desejo: "Na hora em que a seleção nacional de futebol conquista definitivamente a Copa do Mundo, após memorável campanha, na qual só enfrentou adversários do mais alto valor, desejo que todos vejam, no presidente da República, um brasileiro igual a todos os brasileiros".

Biografia de Médici vira libelo para militares

Em tempos de Comissão da Verdade, livro de general defende legado da ditadura

ROLDÃO ARRUDA
  
Apesar do título, ninguém deve esperar encontrar no livro Médici - A Verdadeira História uma biografia bem acabada do general que governou o Brasil entre 1969 e 1974. Na verdade essa nem parece ser a preocupação principal dos editores e militares que estão promovendo sua divulgação em feiras, círculos militares, na internet.

Lançado formalmente em outubro, quando o Congresso finalizava os acordos que resultariam na Comissão Nacional da Verdade, o livro destina-se sobretudo a interferir nos debates e análises dos anos da ditadura militar que serão reavivados assim que a comissão for instalada.

A escolha do tema foi precisa. Das vítimas de violações de direitos humanos a historiadores, é unânime a ideia de que os anos mais duros da ditadura foram os de Garrastazu Médici. Em nenhum outro período se encaixa melhor a expressão anos de chumbo. Na avaliação do jornalista Elio Gaspari, autor de quatro livros sobre o regime, a tortura e o extermínio dos opositores estavam entre suas características principais.

O objetivo da obra, de apresentação modesta, edição descuidada e tom militante, é tentar demolir essa ideia. Para tanto, foca dois outros aspectos marcantes daquela era: o aumento da resistência armada e o significativo crescimento econômico. No primeiro ano de Médici, o PIB cresceu 9%. No terceiro, 11,3%. Vivia-se um clima de euforia, com a conquista a Copa do Mundo em 1970,a inauguração da Ponte Rio-Niterói e a abertura da Transamazônica, entre outros feitos do chamado milagre econômico brasileiro.

'Democrata'. Na crista desse otimismo, Médici, descrito como homem "simples, carismático, dono de invulgar simpatia e franca aceitação popular", acalentava um sonho: a redemocratização. O autor, general Agnaldo Del Nero Augusto, enfatiza isso do início ao fim. Na avaliação dele, Médici só não realizou o sonho por causa da esquerda. Em outras palavras, o grande democrata do período foi o presidente, que não esmoreceu na luta para conter os grupos que tentavam à força submeter o País a uma ditadura comunista.

Com esse ponto definido, o general se dedica ao tema que realmente lhe importa: o ataque aos grupos de resistência, os terroristas. Seus integrantes são descritos como violentos no ataque, mas pusilânimes depois de presos. Segundo Del Nero, boa parte delatava os companheiros, outros se suicidavam, alguns se arrependiam, muitos inventavam histórias de torturas. Nem a presidente Dilma é poupada: por fazer parte da organização Colina, que organizou o famoso roubo do cofre do Adhemar, o autor diz que ela poderia explicar o que houve com os dólares nunca encontrados.

Na defesa escancarada do período mais duro da ditadura, o livro enfim se revela como um ataque preventivo. Contra tudo que pode revivido na Comissão da Verdade.

Duas curiosidades finais: 1) Del Nero morreu em 2009 e a finalização do texto ficou por conta de amigos e familiares. Ele integrou a comunidade militar de informações e era inimigo de Golbery do Couto e Silva, o general considerado o mago da estratéga de reabertura democrática; 2) o livro abre com uma crônica das mais elogiosas de Nelson Rodrigues, que admirava Médici, também fanático por futebol.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Boneco cego

Ruy Castro

RIO DE JANEIRO - O Oscar que Orson Welles ganhou em 1941 pelo roteiro de "Cidadão Kane" vai a leilão semana que vem em Los Angeles. O lance mínimo é de US$ 1 milhão. Para quem é rico e do ramo, deve ser barato. Foi o único Oscar que "Kane" recebeu, dos nove a que foi indicado, e o único que Orson levou por um filme, e olhe que dividido com Herman J. Mankiewicz.
Não é de hoje que o Oscar vai ao cinema e não enxerga nada. Para o boneco, o melhor filme de 1941 foi "Como Era Verde Meu Vale", de
John Ford, e o melhor ator, Gary Cooper, por "Sargento York". Com todo o respeito por Ford e Cooper, inclusive nesses filmes, hoje parece inacreditável que "Kane" e Welles não tenham ficado com os ditos Oscars.
O filme seguinte de Orson, "Soberba", também foi indicado entre os melhores de 1942, mas perdeu para o correto, quadrado e apenas oportuno "Rosa de Esperança", drama de guerra de William Wyler. Derrota discutível, embora, naquele ano, nenhum dos dois se comparasse a "Contrastes Humanos", de Preston Sturges, nem sequer cogitado. E, mais até do que o magnífico George Sanders em "A Malvada", era Orson, no papel de Harry Lime, quem merecia ser o melhor ator coadjuvante de 1950, por "O Terceiro Homem".
O caso mais escandaloso, no entanto, foi o de "A Marca da Maldade", ignorado de alto a baixo em 1958 e pelo qual Welles deveria ter ganhado, no mínimo, os Oscars de melhor filme, diretor e ator -os quais couberam, respectivamente, ao musical "Gigi", ao diretor deste, Vincente Minnelli, e a David Niven por "Vidas Separadas". E por que a estatueta de ator coadjuvante em 1959 coube a Hugh Griffith por "Ben-Hur", e não a Orson no papel do advogado em "Estranha Compulsão", de Richard Fleischer?
Pensando bem, talvez US$ 1 milhão seja muito dinheiro por um boneco cego.

Saldo desastroso

Guerra do Iraque aumentou isolamento internacional dos EUA, impulsionou extremismo islâmico e não disseminou a democracia


Ao anunciar a saída definitiva das tropas dos Estados Unidos do Iraque, o presidente Barack Obama afirmou que os militares retornam a seu país "de cabeça erguida".
Quase nove anos depois da invasão norte-americana, no entanto, mesmo os mais ardorosos "falcões" teriam dificuldades em apontar o saldo positivo do conflito. As consequências da prepotente aventura do então presidente George W. Bush revelaram-se mais desastrosas do que muitos antecipavam.
A invasão do Iraque detonou conflitos -com características de guerra civil, de um lado, e de guerrilha antiocupação, de outro- que se arrastaram por anos, provocando a morte de ao menos 104 mil civis e de 15 mil soldados de variadas nacionalidades.
A imagem que os EUA tentaram projetar de suas tropas, como forças libertadoras que seriam festejadas pelos iraquianos, não passou de miragem, assim como o pretexto utilizado por Bush para detonar a operação sem apoio das Nações Unidas -a jamais comprovada existência de armas de destruição em massa no país.
Os caóticos anos de ocupação teriam custado, segundo algumas estimativas, cerca de US$ 3 trilhões -valor que supera o PIB brasileiro de 2010, de cerca de US$ 2 trilhões.
A guerra deteriorou ainda mais o conceito dos EUA no mundo islâmico, criou fissuras nas suas relações com antigos aliados e provocou insatisfações entre seus próprios cidadãos, contribuindo para a eleição de Obama.
Não se pode ignorar o efeito positivo da derrubada do sangrento regime de Saddam Hussein, mas os caminhos trilhados para a eliminação do ditador foram abertos por uma iniciativa truculenta e unilateral, que atropelou gestões diplomáticas, impôs perdas inaceitáveis a populações civis e atraiu o terrorismo islâmico para um país no qual não estava organizado.
O que seria o ponto culminante da invasão, a propalada semeadura da democracia pelo Oriente Médio a partir de Bagdá, mostrou-se uma quimera.
A onda de revoltas contra ditadores que varreu, enfim, a região, a partir do início deste ano, não foi inspirada pelo frágil regime instalado no Iraque. Nasceu de insatisfações que se acumulavam entre as populações locais. Completa-se hoje, aliás, um ano da autoimolação do vendedor de frutas tunisiano, o episódio que ficou como uma espécie de marco simbólico do início da Primavera Árabe.
O Iraque que emerge da retirada norte-americana está longe de ser um país pacificado. O pior do conflito sectário parece ter ficado para trás, mas as tensões e a violência perduram, com registros quase diários de atentados.
É de esperar que a assustadora perda de vidas e o enorme custo financeiro, político e moral da guerra inventada por George W. Bush sirvam para desencorajar os EUA a se lançarem em novas aventuras.

Recolhendo a bandeira

Hobsbawm, o profeta de Marx


O marxismo é a chave para o entendimento e eventual superação do capitalismo, avalia historiador

Não há nenhum deus além de Karl Marx, e Eric Hobsbawm é seu profeta. Maior historiador marxista ainda em atividade, aos 94 anos, o inglês Hobsbawm dedica sua última obra - Como Mudar o Mundo - Marx e o Marxismo - a mostrar que o filósofo alemão, tido como soterrado pelos escombros do Muro de Berlim, continua a ser a chave para o entendimento do capitalismo e para sua superação, agora em tempos de aquecimento global.

Já em seu livro A Era dos Extremos, Hobsbawm colocou a Revolução Bolchevique como o principal evento do "breve século 20" - que em sua visão acaba, justamente, na implosão da URSS. "O mundo que se esfacelou no fim da década de 1980 foi o mundo formado pelo impacto da Revolução Russa de 1917", escreveu ele, para elaborar a teoria segundo a qual todos os processos históricos do período - das alianças diplomáticas aos desdobramentos econômicos globais - tiveram como eixo a instalação do comunismo na Rússia. Trata-se, obviamente, de um exagero. Mas o Marx que Hobsbawm tenta resgatar em seu novo livro não é o de Lenin e de Stalin, nem o dos marxistas contemporâneos, e sim a essência de seu pensamento.

Em Como Mudar o Mundo, reedição de textos escritos entre 1956 e 2009, Hobsbawm trata de diferenciar Marx do marxismo e de sua aplicação extrema, o comunismo - o que é conveniente, ao se observar as atrocidades cometidas em nome da igualdade. Para ele, dizer que o marxismo é responsável por essas tragédias "é o mesmo que afirmar que o cristianismo levou ao absolutismo papal".

Hobsbawm se localiza entre aqueles que veem Marx como um mapa do caminho para a revolução e os que o encaram simplesmente como teoria. Mostra a ruptura dele com os socialistas utópicos, mas deixa claro o tributo que Marx lhes paga na forma da ideia de que é "inevitável" mudança não apenas de regime de governo, mas de todo o modo de vida sobre a Terra. Nos últimos 130 anos, diz o historiador, Marx foi o tema central da paisagem intelectual e, graças à sua capacidade de mobilizar forças sociais, foi uma presença crucial na história. No entanto, o desgaste provocado pelo colapso da URSS expôs, nas palavras de Hobsbawm, o "fracasso das predições" das teorias marxistas.

De tempos em tempos, anuncia-se que o capitalismo está no fim. Como a história mostra, porém, o moribundo arruma um jeito de se recuperar, entre outras razões porque a classe trabalhadora, que seria o esteio da revolução, sofreu mudanças dramáticas no último meio século, ao ponto de se tornar irreconhecível como "proletariado". Mas Hobsbawm, em meio à crise global deflagrada em 2008, não resistiu à tentação e escreveu que, desta vez, vai: "Não podemos prever as soluções dos problemas com que se defronta o mundo no século 21, mas quem quiser solucioná-los deverá fazer as perguntas de Marx, mesmo que não queira aceitar as respostas dadas por seus vários discípulos". Para ele, o futuro do marxismo e da humanidade estão intimamente vinculados.

No entanto, convém relevar o entusiasmo de Hobsbawm. A história mostra que é prudente ler Marx mais como uma forma de entender o mundo do que de mudá-lo.

Brasil é o país mais protecionista do G-20


O Brasil é o país mais protecionista do G-20 e um dos mais fechados do mundo, com uma política comercial mais restritiva que Argentina, China ou Rússia, tradicionais alvos de queixas de exportadores brasileiro. A conclusão está em levantamento da Câmara de Comércio Internacional publicado ontem durante a conferência da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O país menos protecionista do G-20, segundo o índice de abertura de mercados, é a Alemanha, seguida pelo Reino Unido e Arábia Saudita. No ranking geral da CCI, envolvendo as 75 maiores economias do mundo, a liderança é de Hong Kong, Cingapura e Luxemburgo. Os Estados Unidos vêm apenas na 34.ª posição e o Brasil na 68.ª.

Essa é a primeira vez que o ranking é publicado pela CCI, entidade que reúne centenas de milhares de companhias e associações comerciais em 120 países. A entidade escolheu a reunião ministerial da OMC para fazer o anúncio, num encontro marcado por uma forte crítica de diversos países em relação ao posicionamento comercial do Brasil desde que a presidente Dilma Rousseff assumiu o governo.

Outros relatórios já indicaram que, em 2011, o Brasil foi o país que mais adotou medidas protecionistas.

Coincidência ou não, no dia da abertura da conferência da OMC, o decreto que favorece a produção nacional de veículos entrou em vigor. Nesta semana, o Brasil ainda se recusou a aderir a uma iniciativa de 50 países propondo o congelamento de tarifas de importação, como um sinal de incentivo à economia mundial em crise.

O País , no ranking geral e que inclui 95% do comércio mundial, aparece como sendo mais protecionistas hoje que os países europeus e os mais fechado entre os países do Brics.

O Brasil tem praticamente a mesma abertura de mercado que a Venezuela, do presidente Hugo Chávez, e está próximo dos níveis do Paquistão, Argélia e Sudão. O País foi classificado entre as nações que têm uma 'abertura muito baixa' de mercado.

Pontos observados. O ranking avalia a abertura dos mercados a produtos importados, nível tarifário, regras internas, exigências de conteúdo local, as políticas comerciais, infraestrutura para o comércio e a abertura do país a investimentos estrangeiros.

De forma geral, a CCI alerta que os países do G-20 não estão cumprindo as promessas de não recorrer a medidas protecionistas. 'A ameaça do protecionismo aumenta entre as grandes economias do mundo e a tendência é inquietante', afirmou o presidente da CCI, Gerard Worms.

Uruguai fecha portos para navios das Ilhas Malvinas


O governo do Uruguai fechou seus portos para navios com bandeira das Ilhas Malvinas e o governo britânico busca uma explicação de Montevidéu.
O presidente uruguaio, José Mujica, anunciou ontem a medida. Somente navios com bandeira das Ilhas Malvinas terão negada autorização para aportar.
De acordo com Mujica, a decisão é uma resposta à reivindicação da vizinha Argentina de soberania sobre o arquipélago controlado pelo Reino Unido.
Em Montevidéu, a embaixada britânica informou estar em busca de uma explicação por parte das autoridades uruguaias.
Buenos Aires reclama soberania sobre as ilhas, chamadas de Malvinas pelos argentinos e de Falklands pelos britânicos, desde o século 19.
Em 1982, argentinos e britânicos travaram a Guerra das Malvinas pela posse do território. Apesar da vitória britânica no conflito armado, o governo argentino mantêm até hoje a reivindicação de soberania. As informações são da Associated Press.

O abandono dos aliados iraquianos

Ameaçados por radicais em seu país, colaboradores da ocupação americana não têm respaldo para deixar o Iraque

Em de 6 de maio de 1783, Guy Carleton, o comandante britânico encarregado de encerrar a ocupação dos EUA, subiu a bordo do Perseverance e navegou pelo Rio Hudson para se encontrar com George Washington e discutir a retirada britânica. Washington ficou furioso ao saber que Carleton tinha enviado navios cheios de americanos para o Canadá, incluindo escravos libertos que haviam se colocado do lado dos britânicos durante a revolução.

A Grã-Bretanha sabia que esses legalistas eram considerados traidores e não teriam futuro nos Estados Unidos. Os britânicos cumpriram sua obrigação moral de resgatá-los enviando centenas de navios aos portos de Nova York, Charleston e Savannah. Como narrou a historiadora Maya Jasanoff, aproximadamente 30 mil foram evacuados de Nova York para o Canadá durante meses.

Duzentos e vinte e oito anos depois, o presidente Barack Obama está encerrando nossa própria guerra longa e confusa, mas não temos nenhum Guy Carleton no Iraque. Apesar de o anúncio do fim da missão militar americana no Iraque, na quinta-feira, ninguém está agindo para assegurar nossa proteção e reassentamento dos que ficaram do nosso lado.

No começo desta semana, Obama falou às tropas em Fort Bragg, Carolina do Norte, do "marco extraordinário de dar um fim à guerra no Iraque".

Foram esquecidas suas palavras da campanha em 2007, de que "intérpretes, funcionários de embaixada e fornecedores estão sendo alvos de assassinatos". Ele acrescentou: "E, no entanto, nossas portas estão fechadas. Não é assim que tratamos nossos amigos." Quatro anos depois, o governo Obama recebeu apenas uma minúscula fração de nossos aliados, apesar de haver escaneamentos de olhos, impressões digitais, detectores de mentira e cartas de soldados e diplomatas atestando por eles. Em vez disso, nós os obrigamos a se submeter a um processo bizantino que hoje demora um ano e meio ou mais.

A triste verdade é que não precisamos mais deles agora que estamos saindo, e reassentar refugiados não é um assunto vencedor em campanhas eleitorais. Durante um ano, venho pedindo a membros do governo Obama para cuidar que o ato final dessa guerra não seja manchado pela traição. Eles não escutaram, adotando uma política de pensamento positivo, na esperança de que tudo funcione da melhor maneira.

Enquanto isso, os iraquianos que nos serviram lealmente estão ameaçados. O líder extremista xiita Muqtada al-Sadr declarou que os iraquianos que ajudaram os Estados Unidos são "proscritos". Quando os britânicos saíram do Iraque, alguns anos atrás, houve uma execução pública de 17 desses proscritos - seus cadáveres largados nas ruas de Basra como advertência. Apenas algumas semanas atrás, bateram à porta de um intérprete iraquiano para o Exército dos EUA; um policial iraquiano lhe disse ameaçadoramente que ele seria decapitado em breve. Outro empregado, na base americana de Ramadi, está escondido depois de receber uma ameaça de morte da milícia de Sadr.

Não é a primeira vez que abandonamos nossos aliados. Em 1975, o presidente Gerald Ford e Henry Kissinger ignoraram os muitos vietnamitas que ajudaram tropas americanas até as semanas finais da Guerra do Vietnã. Àquela altura, era tarde demais.

A mesma história lamentável ocorreu no Laos, onde os EUA abandonaram dezenas de milhares do povo Hmong que os haviam ajudado.

Foi somente meses depois da queda de Saigon e muito sangue derramado que os EUA conduziram um enorme esforço de alívio, retirando de avião mais de 100 mil refugiados para condições seguras. Dezenas de milhares foram triados numa base em Guam, bem distante do território continental americano.

O presidente Bill Clinton usou a mesma base para salvar as vidas de quase 7 mil curdos iraquianos em 1996. Mas quem mencionar a Opção Guam para alguém em Washington, hoje em dia, receberá um olhar vazio de amnésia histórica ou ouvirá que "o 11/9 mudou tudo". E assim nossa política nas semanas finais dessa guerra é tão simples quanto vergonhosa: entregue sua papelada e espere. Se conseguir sobreviver nos próximos 18 meses, talvez o deixemos entrar.

/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Cenário faz China priorizar crescimento

Documento do Partido Comunista Chinês substitui o combate à inflação como principal preocupação de Pequim



O índice de preços ao consumidor acumulado em 12 meses caiu para 4,2%, bem abaixo do pico de 6,5% de julho

FABIANO MAISONNAVE
DE PEQUIM



Diante de um cenário internacional "severo e complicado", a China deixará o combate à inflação em segundo plano para manter o crescimento e a estabilidade no ano que vem, revela o documento oficial do mais importante encontro anual do governo sobre economia, que foi encerrado ontem.
"Estabilidade significa manter a política macroeconômica basicamente estável, crescimento econômico relativamente rápido, preços ao consumidor estáveis e estabilidade social", diz a nota, divulgada ao final do encontro de três dias, cujo objetivo era definir as diretrizes para o ano que vem.
Na avaliação do governo chinês, a recuperação da economia mundial continuará "instável e incerta" por causa da desaceleração e dos mercados financeiros "em caos". O tom do documento é bastante diferente em relação ao do ano passado, cuja prioridade foi o combate à inflação num momento em que a segunda economia mundial dava sinais claros de superaquecimento.
Por outro lado, o uso reiterado da palavra "estável" reforça a avaliação preponderante entre economistas de que a China não fará mudanças bruscas na economia durante a complexa transição política que o país terá de enfrentar em breve.
No ano que vem, a cúpula do Partido Comunista e do governo será substituída. O dirigente máximo, Hu Jintao, deixará o poder após dez anos. Para o seu lugar, deve ser nomeado Xi Jinping, hoje vice-presidente.
A economia do maior parceiro comercial do Brasil vem desacelerando ao longo deste ano, por causa das políticas restritivas do governo e da piora do cenário internacional. O crescimento do PIB desacelerou para 9,1% no terceiro trimestre deste ano, em termos anualizados, contra 9,7% no primeiro trimestre. Já a inflação dá sinais de que estar sob controle.
No mês passado, o índice de preços ao consumidor acumulado em 12 meses caiu para 4,2%, bem menor do que o pico de 6,5% de julho.
BRASIL
A China fechará 2011, pelo terceiro ano consecutivo, como o maior parceiro comercial do Brasil.
Até novembro, o intercâmbio entre os dois países chegou a US$ 70,8 bilhões, já bastante superior aos US$ 56,4 bilhões registrados em todo o ano passado.
A balança comercial continua favorável ao Brasil: um saldo de US$ 10,5 bilhões de janeiro a novembro.

Veto britânico encobre fato de zona do euro não achar solução

Análise

MARTIN WOLF
DO “FINANCIAL TIMES”



Aqueles que os deuses querem destruir eles primeiro enlouquecem. Foi essa minha reação ao resultado da reunião da semana passada do Conselho da União Europeia.
Compreensivelmente, muitas pessoas voltaram sua atenção à decisão do premiê britânico, David Cameron, de vetar um novo tratado.
Mas o comportamento do Reino Unido desviou a atenção das pessoas do fato de os líderes da zona do euro não terem conseguido propor um remédio digno de crédito para os males que atingem a união monetária.
Cameron apresentou a seus colegas uma lista de exigências que visavam proteger a City [centro financeiro de Londres] e a capacidade do governo britânico de regulamentá-la.
Ele poderia ter declarado que aceitaria um tratado que fosse aplicável apenas a membros e candidatos a membros da zona do euro. Poderia ter assinalado que submeteria a referendo no Reino Unido um tratado que fizesse mais que isso (e o texto com certeza teria sido derrotado).
Ao invés disso, terminou sem salvaguardas adicionais para a City e com um status semidesligado dentro da União Europeia, da qual, insistiu, quer que o Reino Unido continue a fazer parte.
Não foi um sucesso. Ele não realizou nada de positivo, mas vai solapar a credibilidade da participação britânica na UE. Isso terá custos substanciais.
No entanto, muito mais importante que esse ato de teatro político britânico é o que agora poderá acontecer na zona do euro. Sobre esse ponto, sou pessimista. Alemanha e França concordaram que não haverá união fiscal, financeira ou política.
A principal decisão tomada foi fortalecer a disciplina fiscal, erguendo o que a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, chamaram de uma "união de estabilidade e crescimento". Ou, a meu ver, uma "união de instabilidade e estagnação".
A zona do euro não possui um plano digno de crédito para resolver as falhas, tirando a austeridade fiscal maior.
Não haverá união fiscal, financeira ou política e não haverá mecanismo equilibrado de ajuste econômico de ambos os lados da divisão credores-devedores.
A decisão é tentar um pacto de estabilidade e crescimento cujas falhas são previsíveis. Cameron cometeu um erro grave. Mas o da zona do euro parece muito maior.