segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Otan diz ter reagido a ataque do Paquistão

Segundo fontes da aliança, ação que matou 24 paquistaneses foi autodefesa; Islamabad nega ter iniciado conflito



Incidente azedou ainda mais relação com os EUA, tensa desde ação que resultou na morte de Bin Laden, em maio

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS


As forças da Otan que mataram pelo menos 24 militares paquistaneses no sábado estavam simplesmente reagindo a um ataque, afirmaram ontem fontes afegãs e da aliança militar ocidental.
Mesmo assim, ontem, o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, prometeu uma investigação abrangente sobre o "incidente trágico e não intencional" e classificou as mortes dos militares paquistaneses de "inaceitáveis e deploráveis".
Forças da Otan, principalmente americanas, atacaram posições na fronteira entre Paquistão e Afeganistão com helicópteros e caças, causando a morte dos pelo menos 24 militares paquistaneses.
O incidente azedou ainda mais o já conturbado relacionamento entre Estados Unidos e Paquistão, que vem piorando desde que forças americanas mataram Osama bin Laden em território paquistanês, em maio, sem informar Islamabad sobre o ataque.
O Exército paquistanês reagiu com fúria ao ataque da Otan no sábado, dizendo se tratar de ação "gratuita" e "ato irresponsável". Os militares negaram ter atacado antes os postos da aliança.
Em retaliação, o Paquistão cortou as linhas de fornecimento da Otan que passam pelo país, por período indeterminado, e deu aos EUA um prazo de duas semanas para se retirar de uma base de onde Washington tem lançado seus ataques com aeronaves não tripuladas.
Segundo fontes da Otan e afegãs, militares paquistaneses ou integrantes do Taleban posicionados muito perto de bases do Exército paquistanês teriam atacado soldados afegãos, que, por sua vez, pediram reforço à aliança. Esta, então, teria reagido.
Ontem, em frente à embaixada americana em Karachi, paquistaneses queimaram bandeiras da Otan e dos EUA.

Após pelo menos 3 mortes, ONU pede calma em eleições no país

Congo

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS - A União Europeia, a União Africana e a ONU pediram ontem moderação no Congo, depois de confrontos que resultaram em ao menos três mortes e do atraso na preparação da eleição presidencial. O pleito, previsto para hoje, está mantido.
Há preocupações sobre a preparação do país para a disputa e sobre o impacto que uma votação turbulenta pode provocar nos esforços para estabilizar a nação.
A missão de observação da União Europeia acusou a polícia de negar a Etienne Tshisekedi, principal rival do presidente Joseph Kabila, o direito de fazer campanha em Kinshasa, capital do país -ele foi retido anteontem no aeroporto.
Segundo a ONU, três pessoas morreram nos confrontos, mas a organização Human Rights Watch diz que o número chega a oito, com cerca de 70 feridos.

Argentinos entram no controle da Usiminas

Ternium desbanca CSN e compra fatia da Votorantim e Camargo Corrêa na siderúrgica


DE SÃO PAULO


A Ternium, segunda maior siderúrgica da América Latina, anunciou ontem à noite a compra de 26% das ações ordinárias da Usiminas pertencentes aos grupos Votorantim e Camargo Corrêa.
A Ternium também comprou parte da fatia da Caixa dos Empregados Usiminas, fundo de pensão dos funcionários, na empresa.
Com isso, a Ternium, controlada pelo grupo argentino Techint, passa a deter 27,7% do capital votante da Usiminas e a compor o bloco de controle da siderúrgica mineira, ao lado do grupo japonês Nippon Steel.
Os argentinos pagaram
R$ 5,03 bilhões para entrar na Usiminas, ou R$ 36 por ação ordinária, o que representa um prêmio de 83% sobre o preço de mercado dos papéis -na sexta-feira, as ações ordinárias da Usiminas fecharam a R$ 19,70.
A Camargo Corrêa e a Votorantim informaram que a saída da Usiminas está relacionada à estratégia dos grupos de focar em segmentos considerados estratégicos por cada empresa.
A Camargo Corrêa informou, por meio de nota, que deve se concentrar na área de infraestrutura. Já o grupo Votorantim tem como "core business" os mercados de cimento, metais, celulose, suco de laranja e aços longos -a Usiminas é produtora de aços planos.
A saída da Camargo Corrêa e Votorantim da Usiminas ocorre em uma fase difícil para as siderúrgicas, que tentam se adaptar à forte concentração no setor de mineração, fornecedor do principal insumo para a produção de aço, o minério de ferro.
CSN DE FORA
O anúncio põe fim a uma longa negociação envolvendo as participações de Camargo Corrêa e Votorantim na Usiminas e pode ser interpretado como uma derrota da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), do empresário Benjamin Steinbruch.
Interessadas em sair do negócio, Camargo Corrêa e Votorantim chegaram a negociar a venda de suas ações na siderúrgica mineira com a CSN, segundo rumores de mercado -a empresa não confirmou oficialmente que teria apresentado a oferta.
O acordo barrou na oposição da Nippon Steel, maior acionista individual da Usiminas, ao negócio.
Diante do fracasso nas negociações, a CSN adotou uma nova estratégia: elevar a participação acionária na Usiminas por meio da compra de papéis da empresa na Bolsa de Valores.
Ao longo deste ano, a CSN emitiu quatro comunicados ao mercado informando aumento de participação acionária na empresa.
Segundo o último aviso, divulgado em 18 de novembro, a CSN detém 11,6% das ações ordinárias e 20,1% das ações preferenciais da Usiminas.
Recentemente, em entrevista na capital paulista, o presidente da CSN admitiu o esforço para aumentar a sua participação na Usiminas, mas também as dificuldades.
"Estamos tentando fazer a nossa parte, a gente tem que fazer. Agora, se vai dar certo, só Deus sabe", disse, ao final de setembro, Steinbruch.
Para barrar o avanço da CSN na siderúrgica mineira, a Nippon teria até costurado um acordo com a brasileira Gerdau, segundo informações de bastidores.
Com preferência na aquisição dos 26% da Camargo e da Votorantim, os japoneses comprariam os papéis para, depois, negociar com a Gerdau, que se tornaria acionista da Usiminas e impediria o avanço da CSN.
Nas últimas semanas, porém, ganhou força o rumor de que a Ternium estaria perto de acordo com Camargo e Votorantim, confirmado ontem.

O drama de cada um

Vinicius Mota

SÃO PAULO - A Itália está em crise. O Brasil não. A renda média de um italiano, de US$ 37 mil por ano, é quase três vezes a nossa.
Se a renda per capita brasileira crescer 3% a cada 12 meses, vai levar 35 anos para atingir o ganho de hoje dos italianos. Que tal mirar a renda dos franceses em crise? Com 3% de alta no PIB per capita, o Brasil empata o jogo perto de 2055, com meio século de atraso.
Tais dados relativizam, de um lado, o choro dos europeus por conta da crise e, de outro, os exageros sobre a ascensão do Brasil.
O mundo rico vive uma crise da maturidade. Além das travas conjunturais, como a dívida elevada, a escala a que chegou a economia e a acomodação diante dos benefícios conquistados dificultam a continuidade da evolução.
Quando o PIB da Itália aumenta 1%, coloca em média US$ 370 para cada cidadão na economia. Quando o Brasil cresce 1%, sobram US$ 130 para cada brasileiro.
A cada um o seu drama. Os europeus se digladiam porque lhes restou a opção de diminuir seus benefícios sociais invejáveis, a fim de tornarem-se mais produtivos e competitivos. Os brasileiros deveríamos estar preocupados com o fracasso do país em sustentar taxas de crescimento acima de 5%.
Rumamos para a armadilha da renda média -o risco de experimentar sintomas e limitações das economias maduras muito antes de ter chegado ao nível de renda e sofisticação industrial das nações desenvolvidas.
Para escapar da maldição, o Brasil precisa, desesperadamente, dar saltos de produtividade, eficiência, inovação e competitividade. A sociedade e, sobretudo, o governo consomem demais.
Expõem-se ao endividamento inconsequente e perigoso, enquanto o triunfo solo das atividades agrárias e extrativistas, incapazes de sustentar sozinhas um país de 190 milhões de habitantes, dá o tom do futuro.
vinimota@uol.com.br

sábado, 26 de novembro de 2011

Na estrada com Che

Amigo de infância do ícone revolucionário relembra viagem pela América do Sul com ele

(...) Depoimento aLUCAS FERRAZ
DE BUENOS AIRES


RESUMO O argentino Carlos Ferrer, 82, conviveu com Ernesto Che Guevara durante 21 anos. Em 1953, fizeram uma viagem pela América Latina passando por Bolívia, Peru e Equador. Foi a segunda e última viagem dele pela região -a primeira, anos antes, foi feita com outro amigo, Alberto Granado, retratada no cinema. No final do giro, no Equador, os amigos se separaram.
Meu nome é Carlos Ferrer, mas todos me conhecem como Calica. Tenho 82 anos e tive a honra e o privilégio de ter sido amigo de Ernesto Che Guevara.

Conheci Ernesto em Alta Gracia, na província de Córdoba, em 1932. Ele, um ano mais velho que eu, tinha 4 anos. Alta Gracia tem um excelente clima para tratar doenças pulmonares, e como Ernesto era asmático, a família Guevara se mudou para lá.
O primeiro médico que o atendeu foi meu pai, que era especialista em vias respiratórias. Ernesto era inquieto, estava sempre pensando em fazer expedições pelas serras de Córdoba. Crescemos brincando no campo, praticávamos muitos esportes. Ele nadava muito bem e era um goleiraço no futebol. Também gostava de rugby.
Ainda criança, ele já tinha um sentido de justiça muito grande. Não deixava ninguém encostar nos irmãos, nos amigos, nem nos garotos gordinhos ou menos inteligentes, que são alvos de gozação em toda turma.
Lembro que perdemos a virgindade com a mesma mulher. Mas não estávamos juntos. Era um moça que trabalhava na minha casa.
Quase todos os dias, depois das aulas, Ernesto passava na minha casa e perguntava para minha mãe o que tinha para comer. Se gostava, ficava. Senão, ia embora.
A casa dos Guevara era especial, não havia horário para nada. Sempre se discutia muito, e parecia que todos estavam a ponto de brigar. Só não era permitido falar idiotices. Quando alguém falava ficava de fora da conversa.
Quando saímos de viagem em 1953, nosso objetivo era chegar até a Venezuela. Eu ainda estudava medicina, Che já era formado e tinha uma promessa de emprego.
Nossa viagem foi incrível. Sem dinheiro, passamos por Bolívia, Peru e Equador, sempre de carona. Logo no início, quando cruzávamos o lago Titicaca com um barqueiro, passamos um aperto terrível no meio de uma tempestade.
O barqueiro e eu ficamos desesperados, começamos a remar, eu tirei até as botas para pular na água, mas Ernesto nem se mexeu. Comentou: "Calica, a água está gelada. Se cairmos, vamos congelar".
No Equador, estávamos em Guayaquil quando recebi uma proposta para jogar futebol em Quito. Resolvi ir por um trocado, não tínhamos dinheiro nem para comer.
Foi a última vez que o vi. Dividimos toda a bagagem. Ele ficou com as fotos e a câmera. Uma pena, pois logo depois ele perderia tudo em um naufrágio na Nicarágua, 95% das nossos fotos.
Havia algumas muito engraçadas, como ele fantasiado de toureiro. Eu iria voltar de Quito para encontrá-lo, mas não deu tempo, ele acabou pegando carona num barco de bananas e embarcou para o Panamá.
Depois de muito anos, quando eu morava na Venezuela, tive notícia pelo jornal, que dizia sobre uns rebeldes cubanos que estavam em Sierra Maestra, lutando contra o governo, e entre eles estava um médico argentino de nome Ernesto Guevara. Filho da puta, lá estava ele!
Tenho dois arrependimentos: não ter conseguido voltar para Guayaquil para continuar a viagem com ele, e de não ter ido depois para Cuba.
Mas destino é destino. Eu estava na Venezuela, ganhando dinheiro e me divertindo com hipódromos e as melhores mulheres do mundo. Entre mulheres rápidas e cavalos lentos, acabei ficando.

Ação da luta armada ganha livro em ritmo de 'thriller'

BERNARDO MELLO FRANCO
DE SÃO PAULO


Encantado com Che Guevara, um secundarista carioca entrega um segredo de família para tentar ajudar a esquerda armada a derrubar a ditadura militar.
Este é o enredo inicial de "O cofre do Dr. Rui", que narra uma das ações mais ousadas da guerrilha brasileira: o roubo do cofre do ex-governador paulista Adhemar de Barros, em julho de 1969.
A operação foi idealizada pela VAR-Palmares, organização à qual pertenceu a presidente Dilma Rousseff, como solução para financiar suas atividades clandestinas e ajudar militantes no exílio.
O roubo deu certo, mas as disputas pela partilha do dinheiro e a perseguição implacável do regime lançariam uma espécie de maldição sobre os envolvidos no plano, como narra o autor Tom Cardoso em ritmo de "thriller".
O "dr. Rui" do título era o codinome usado por Adhemar -um populista de direita que inaugurou o rótulo de "Rouba, mas faz"- para disfarçar a identidade da amante Ana Capriglione.
Após a morte do político, exilado em Paris, ela herdaria parte da mitológica "caixinha do Adhemar", uma fortuna de caixa dois e corrupção que chegou a ser cantada em marchinha de carnaval.
Ana escondeu quase US$ 2,6 milhões (hoje equivalentes a cerca de US$ 15 milhões) na mansão de um irmão em Santa Teresa, no Rio, onde morava o estudante afobado para acelerar a revolução.
Os tropeços já começariam na contagem das notas, quando guerrilheiros mais empolgados, como o ex-ministro Carlos Minc (Meio Ambiente), teriam sugerido uma festa regada a vinho e camarões num bar da zona sul -a ideia foi derrotada em votação.
Depois, viria uma série de prisões, mortes e exílios. Em um ano, só dois dos 11 participantes do roubo ainda resistiam na luta armada.
Dilma, que não integra esta lista, teve papel lateral. Ficou fora da ação e recebeu a tarefa de trocar US$ 1.000 numa casa de câmbio, fingindo sotaque estrangeiro. No ano seguinte, seria presa com outra quantia pequena.
O uso de sua foto na capa, como apelo comercial, é um dos pecados do livro.
Hábil na narrativa, o autor às vezes exagera nos recursos de ficção, como a "reprodução" de longas falas de personagens que não entrevistou.
Logo na abertura, põe intelectuais e diretores do cinema novo na mesa ao lado dos guerrilheiros, transformando um cenário de reunião secreta numa espécie de parque temático da boemia de Ipanema nos anos 60.
A história já despertaria interesse sem esses truques.

O COFRE DO DR. RUI
AUTOR Tom Cardoso
EDITORA Civilização Brasileira
QUANTO R$ 29,90 (176 págs.)
CLASSIFICAÇÃO Bom

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Governo argentino cria instituto para 'reescrever' história do país

Presidente Cristina vem sendo criticada por reivindicar fatos



LUCAS FERRAZ
DE BUENOS AIRES


O governo argentino anunciou ontem a criação de um instituto que terá o objetivo de reescrever a história do país. Ou, nas palavras do decreto da presidente Cristina Kirchner, o órgão vai "difundir a vida e obra de personalidades que não receberam o reconhecimento adequado".
O Instituto Nacional de Revisionismo Histórico Argentino e Ibero-americano Manuel Dorrego será dirigido pelo historiador Mario "Pacho" O'Donnell. Dorrego (1787-1828), que dá nome ao novo órgão, foi um dos próceres da independência argentina.
Uma das marcas do peronismo -em especial do kirchnerismo, subdivisão do movimento- é promover a revisão histórica de fatos.
"A história argentina é muito distorcida, e muitos feitos, como as batalhas de independência, são contados pelo relato dos vitoriosos, da oligarquia", disse O'Donnell.

Sem resposta

Vladimir Safatle

"O estilo é o próprio homem." Essa frase do conde de Buffon, enunciada à ocasião de sua entrada na Academia Francesa, merece ser levada a sério.
Ela nos lembra como determinados homens sabem que nada lhes é mais importante do que conservar um certo tom, uma forma que aparece, sobretudo, na palavra escrita. Eles sabem que, se perderem tal forma, trairão o que lhes é mais importante, a saber, um modo de ser.
Isso talvez explique porque eles nunca responderão a situações nas quais a palavra escrita resvala para o pugilato, nas quais ela flerta com as cenas da mais tosca briga de rua com seus palavrões e suas acusações "ad hominen". Seria, simplesmente, ignorar a força seletiva do estilo.
Ele aproxima certas pessoas, mesmo que suas ideias sejam radicalmente antagônicas, assim como afasta definitivamente outras.
Houve uma época, não muito distante, que o pensamento conservador teve mais estilo. Há de se reconhecer que, para alguém de esquerda,
seria uma experiência de aprimoramento discutir com conservadores como Daniel Bell, Leo Strauss, Isaiah Berlin
ou mesmo com o anarcocapitalista Robert Nozick, entre tantos outros de inegável inteligência. Ganha-se em precisão quando ouvimos oponentes sem precisar reduzi-los a caricatura.
No Brasil, atualmente somos obrigados a ter certa nostalgia da época em que o pensamento conservador nacional conseguia produzir alguém como José Guilherme Merquior, mesmo que este tenha terminado como ghost-writer de Fernando Collor. De toda forma, ao menos ele realmente lia os autores que criticava, o que parece ter se tornado algo supérfluo nos dias que correm.
Na verdade, hoje tem-se a impressão de que os conservadores rumam para transformar Glenn Beck, com sua finesse intelectual de comentarista político da Fox News e seus fieis leitores de Oklahoma (ou qualquer outra província perdida no interior dos EUA), em ideal de vida. Ou seja, seu ideal de discussão é aquele dos radialistas rasos da América profunda. O mínimo que se pode dizer é que sofrem de um problema radical de estilo.
Por sinal, que existam "fieis leitores" a validar tais procedimentos, eis algo que não deve nos estranhar. Quando um pensamento chega perto do fim, ele tende a gritar de maneira desesperada e violenta.
Ele pede adesão incondicional e tal pedido ressoa, principalmente, na mente daqueles cujo último riso é apenas o sarcasmo da autoglorificação e do ressentimento.
Tudo o que se pode desejar a esse respeito é que seu riso seja bem pago. Amém. Outros preferem ver esse espetáculo em silêncio.

Comportem-se, "Yankees"!

Eliane Cantanhêde

BRASÍLIA - Não é hora de disseminar patriotadas e resgatar o velho "fora, Yankees!". Acidentes acontecem e o vazamento de petróleo no litoral do Rio é bem menor, por exemplo, do que o da British Petroleum no golfo do México, em 2010.
Feitas as devidas ressalvas, a tragédia ambiental causada pela norte-americana Chevron na Bacia de Campos é de bom tamanho, sim, afeta gravemente a fauna e a flora marítimas brasileiras e merece uma boa reflexão sobre empresas estrangeiras que atuam em áreas tão estratégicas no país. Além de suscitar dúvidas: a Chevron do Brasil tem planos de contingência para acidentes assim?
Um dado particularmente estressante é a "coincidência" de a também estrangeira Transocean estar no centro tanto no incidente aqui, no Brasil, quanto na tragédia lá, no golfo do México. É caso de reincidência. Costuma aumentar penas e multas.
Pelo divulgado até agora, foi a Petrobras que percebeu a mancha de óleo, alertou os órgãos responsáveis, avisou a própria Chevron e, enfim, iniciou o trabalho de limpeza.
Já a Chevron errou ao calcular o risco, ao demorar a admitir o vazamento, ao não ter um plano de contingência -nem sequer um robô capaz de identificar imediatamente a origem do problema. E continua errando na operação para reduzir danos.
Aqui não é a casa da mãe Joana. Temos lá nossos escândalos e bizarrices, mas a licença pode ser cassada, o Ibama aplica a pena máxima ambiental de R$ 50 milhões, como anunciado ontem, e o governo do Rio pode cobrar a reparação de prejuízos dos pescadores lesados.
A punição é um alerta para a Chevron e para grandes empresas que são bem-vindas para parcerias no Brasil, mas com direitos e deveres, não só para sugar petróleo e lucros.
Ao reagir, o Brasil serve de padrão para países da África, do Caribe e da própria América do Sul, que as potências e suas empresas ainda tratam como suas colônias. Não são mais.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Futura secretária dos EUA não cita o Brasil como sua prioridade

Senado americano sabatinou Roberta Jacobson, que será principal diplomata do país para a América Latina

Ela se disse disposta a trabalhar mais com a sociedade civil do que com alguns governos latino-americanos

LUCIANA COELHO

DE WASHINGTON

Os EUA estão dispostos a trabalhar mais com a sociedade civil do que com os governos em "alguns países da América Latina", afirmou ontem em sabatina no Senado a futura responsável pela região no Departamento de Estado, Roberta Jacobson.
Nos 55 minutos em que a Comissão de Relações Exteriores interrogou a futura secretária-assistente de Estado para o Hemisfério Ocidental -posto-chave na diplomacia continental-, porém, o Brasil não foi citado entre as prioridades. A única menção, genérica, veio na apresentação.
Parcerias com México e Colômbia foram rapidamente abordadas, mas o que a sessão realmente focou foram os países considerados hostis pelos congressistas americanos -sobretudo Cuba.
Indagada sobre como garantiria as liberdades civis em uma região onde a mídia ou dissidentes têm entrado em embate com os governos, Jacobson afirmou que se tratava de uma prioridade.
"Todos os embaixadores dos EUA têm como mandato fortalecer a sociedade civil e trabalhar com ela assim como trabalham com os governos -ou tentam trabalhar."
"Em alguns países, trabalharemos mais com a sociedade civil que com os governos, conforme a circunstância. É prioridade importante para mim", acrescentou.
Cuidadosa, ela não citou onde isso ocorreria. Mas a pergunta do democrata Robert Menendez listou Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua, Belize e, "até certo ponto", a Argentina.
Jacobson disse monitorar com preocupação os relatos de observadores das eleições na Nicarágua, no dia 6, e estar atenta para "garantir que os venezuelanos possam expressar seu desejo político" no pleito de 2012 -tido pelo comitê como "o evento crucial da década na região".
Outras prioridades serão o combate ao crime transnacional, a redução da desigualdade, a reconstrução do Haiti, parcerias energéticas e a preservação do ambiente.
Apesar do discurso, porém, Menendez reclamou que o financiamento americano aos países vizinhos caiu 14% no último ano e questionou a eficácia da política de distensão relativa do presidente Barack Obama para Cuba.
Jacobson, interina no cargo desde julho, foi indicada por Obama para substituir Arturo Valenzuela. Ela recebeu ontem o voto da comissão e deve ser efetivada em dias.

Espanha deve eleger premiê conservador

Mariano Rajoy, 56, é favorito na eleição do próximo dia 20; crise econômica beneficia o rival do governo socialista

Tido como um político sem carisma e duas vezes derrotado em pleitos anteriores, ele é visto como 'a mudança'

LUISA BELCHIOR

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM MADRI

Ele é conservador, pouco carismático e nunca teve um cargo eleito por voto popular. Mesmo assim, Mariano Rajoy, 56, deve se tornar em breve o próximo premiê espanhol.
Pesquisas de opinião apontam Rajoy, candidato pelo conservador Partido Popular e líder da oposição, como favorito à eleição que ocorre no próximo dia 20. Seu êxito é calcado na crise econômica que afundou o governo do atual premiê, José Luis Rodríguez Zapatero, dizem especialistas ouvidos pela Folha.
Rajoy detém, segundo pesquisa divulgada pelo próprio governo, 46% das intenções de voto. O socialista Alfredo Pérez Rubalcaba, candidato de Zapatero, está com 29%.
O líder da oposição acumula duas frustradas tentativas de chegar a premiê e foi influente no governo de José Maria Aznar, antecessor de Zapatero. Ele iniciou a carreira política na Galícia (norte), onde nasceu e se formou em direito. Foi ministro de quatro diferentes pastas e se tornou vice-premiê em 2000.
Foi candidato pelo Partido Popular em 2004, perdendo para Zapatero, que o derrotou também no pleito seguinte. Na época, a escolha de Rajoy como candidato do PP, feita por Aznar, foi questionada. Seus colegas de partido o viam como pouco carismático e preferiam Rodrigo Rato, que foi diretor do FMI (Fundo Monetário Internacional).
"Acho que ele nunca tem opinião sólida sobre nada e vai sempre contra o governo. Mas passa confiança, porque já estamos descrentes deste governo, que há três anos não consegue tirar o país da crise", opina a administradora Isabel Peralta, 48.
Rajoy se favorece da crise no governo espanhol. Além de entregar o governo com um índice de desemprego recorde na história democrática do país -22%-, Zapatero passou os dois últimos anos implementando impopulares medidas de austeridade.
O voto no candidato conservador será um protesto contra o atual governo, afirma o cientista político Antonio Elorza. "Se não fosse o afundamento de Zapatero, Rajoy nunca seria premiê. É um homem medíocre, pouco imaginativo. Mas joga com o fato de ser a mudança", diz.
Rajoy também associou sua imagem à capacidade de reordenar a administração interna da Espanha, afogada em dívidas. "Para a classe empresarial, ele é a única saída para a Espanha não ter que pedir ajuda à União Europeia", afirma o economista Alberto Urrutia.
Em seu programa, ele promete cumprir as metas impostas pelo bloco e fazer reformas econômicas. Prevê ainda um plano de austeridade nas administrações regionais, mas diz que não fará mais cortes nas políticas de bem-estar social, embora seus críticos duvidem que manterá o compromisso.
Anunciou que pretende rever políticas de igualdade implementadas por Zapatero, como a lei que permite o casamento gay e a que flexibiliza a proibição do aborto.

O Brasil e a zona do euro

MARK WEISBROT




O Brasil deveria tirar uma lição do FMI -condicionar suas contribuições a uma mudança de política

FOI NOTICIADO ontem que o Brasil está mais uma vez estudando fazer uma contribuição para ajudar a Europa a sair de sua crise financeira. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou os relatos de que teriam sido oferecidos US$ 10 bilhões, mas indicou que o Brasil estaria disposto a alguma contribuição via FMI.
A renda per capita do Brasil, US$ 10,8 mil/ano, é mais ou menos um terço da renda per capita dos países da zona do euro. A Europa pode ajudar a si mesma. Na verdade, a Europa precisa realmente ajudar a si mesma, e o FMI não está ajudando a Europa agora, não mais do que ajudou o Brasil nos anos 90.
O governo Lula saldou as dívidas que ainda tinha com o FMI em 2005 por uma boa razão: para garantir que o FMI não exercesse mais influência sobre a política econômica brasileira. No caso do Brasil, o FMI era controlado pelo Departamento do Tesouro dos EUA. Hoje, no caso da maioria dos empréstimos do FMI na Europa, não é o Tesouro americano quem manda - são as autoridades europeias que estão tomando as decisões. E elas são mais ideologicamente de direita que o FMI, que é o sócio júnior na crise contínua que se desenrola na Europa.
O BCE (Banco Central Europeu) é o pior infrator nesse caso, recusando-se a cumprir suas responsabilidades como banco central. Ele se recusa a participar do fundo necessário para avalizar os títulos de dívida italianos, parte indispensável à resolução da crise.
A Itália precisa refinanciar cerca de US$ 413 milhões em títulos governamentais nos próximos 12 meses. Os mercados financeiros empurraram os custos de crédito da Itália a níveis recordes. O rendimento sobre títulos de dez anos fechou ontem em 6,77% . Essa taxa precisa ser reduzida ou ao menos impedida de subir, se quisermos que a Itália evite um calote, e o Banco Central Europeu tem o poder de fazer isso, mas até agora vem se negando.
É uma política muito diferente da do banco central dos EUA, que criou mais de US$ 2 trilhões desde a recessão nos EUA. A crise atual é fruto do medo nos mercados financeiros de que as autoridades europeias estejam começando a fazer com a Itália o que fizeram com a Grécia.
As autoridades europeias empurraram a Grécia para uma situação insustentável, ao forçá-la a restringir seu Orçamento em uma recessão. Isso levou a economia grega a encolher ainda mais; ela terá uma contração de 5,5% este ano.
A economia menor significa menos receita para o governo, o que quer dizer que a Grécia terá que reduzir seu Orçamento mais ainda para alcançar a meta, e assim por diante, numa espiral descendente.
Agora o mesmo processo começou na Itália, mas a Itália tem cinco vezes mais dívida que a Grécia.
Talvez o Brasil e outros países que queiram oferecer contribuições ao FMI devessem tirar uma lição do próprio FMI -condicionar suas contribuições a uma mudança de política. O dinheiro só deveria ser disponibilizado se as autoridades europeias cancelassem a maioria da dívida grega, reduzissem os juros de longo prazo para as economias mais fracas da região e revertessem suas políticas macroeconômicas para permitir que todas as economias da zona do euro que enfrentam problemas pudessem crescer e, crescendo, sair dessa crise.

Berlusconi aliou ações liberais à imagem de um oportunista

ANÁLISE

JOÃO BATISTA NATALI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Pode parecer estranho que a Itália de Silvio Berlusconi, 75, tenha sido a mesma em que há quatro décadas dialogavam homens com o peso doutrinário e moral de um comunista como Enrico Berlinguer (1922-1984) ou de um democrata cristão como Aldo Moro (1916-1978).
Não se argumente que ele foi na política italiana um mero acidente de percurso. Berlusconi presidiu três gabinetes após eleições democraticamente disputadas, em 1994, 2001 e 2008.
Nem por isso deixou de ser um homem "inapropriado" para governar, segundo uma capa comentadíssima, há dez anos, da revista britânica "The Economist".
O fato é que ele representou a renovação, em sentido controverso, de um país estratificado em seus mecanismos de alternância de poder durante o longo pós-Guerra.
Berlusconi trouxe para a política a imagem do empresário bem-sucedido que partiu da estaca zero, como vendedor de aspiradores de pó ou artista a bordo de navios de cruzeiro. Enriqueceu com empreendimentos imobiliários, virou magnata da edição, da mídia e do futebol.
Na cabeça de seus partidários, essa múltipla competência empresarial daria bons resultados na gestão complexa da coisa pública. Não foi bem o que aconteceu.
Ao longo dos três períodos como presidente do Conselho de Ministros -só perdeu em longevidade no último século para Giovanni Giolitti (1842-1928) e Benito Mussolini (1883-1945)-, Silvio Berlusconi associou políticas liberais que davam mais ou menos certo (educação, finanças, saúde, seguridade social) com a imagem pessoal de um oportunista, encrencado na Justiça e que manobrava por meio de projetos de lei para postergar ou inviabilizar condenações.
Tem ainda quatro processos por crimes econômicos em andamento.
É também possível que seus eleitores aplaudissem, como no show business, seus périplos amorosos e as festas com prostitutas que levaram à popularização da grotesca expressão "bunga bunga".
Reunido no último domingo com seus mais próximos confidentes, Berlusconi, que voltava do encontro do G20, em Nice, sentiu que a Itália seria a bola da vez na crise das dívidas europeias.
Segundo o "Le Monde", Roberto Maroni, ministro do Interior, disse a ele: "Acabou, Silvio, agora é inútil se agarrar [ao poder]."

Premiê disse ser 'Jesus Cristo da política'

Ao todo, Berlusconi permaneceu no poder por nove anos, marcados por acusações na Justiça e escândalos sexuais

Dono do Milan e do maior grupo privado de mídia da Itália, empresário sucumbiu à bola de neve da crise

ROGÉRIO ORTEGA

DE SÃO PAULO

A bola de neve da crise europeia conseguiu o que nem inúmeras acusações judiciais -de suborno e fraude fiscal a pagamento por sexo com uma menor- nem os escândalos das festas "bunga bunga" conseguiram: fazer Silvio Berlusconi pedir para sair.
Berlusconi é o político que por mais tempo ocupou o cargo, notoriamente instável, de primeiro-ministro na Itália desde a Segunda Guerra. Ao todo, foram cerca de nove anos, somando os seus três períodos à frente do governo.
É também um dos homens mais ricos do país, dono de seu principal conglomerado privado de comunicação, o Mediaset, e do seu time de futebol mais popular, o Milan -sem nunca ter tomado medidas para eliminar conflitos de interesse entre seus negócios e a condução do Estado.
É, ainda, autor de frases que vão do politicamente incorreto ao sexismo e à pura e simples gafe, o que ajudou a torná-lo figura tão folclórica quanto polemicamente popular -até que veio a crise.
Nascido em 29 de setembro de 1936, numa família milanesa de classe média, Berlusconi estudou direito na Universidade de Milão. Durante o período na faculdade, tocava contrabaixo acústico e trabalhava ocasionalmente como cantor em cruzeiros.
Seu primeiro grande empreendimento empresarial, no final dos anos 60, foi a construção do condomínio de luxo Milano Due, na região leste da cidade. Em 1973, para atender aos moradores do condomínio, Berlusconi comprou um canal a cabo, sua primeira aquisição na mídia.
Nos anos seguintes, seu grupo englobou canais de TV e agências de publicidade. Segundo críticos, a ascensão empresarial de Berlusconi teve ajuda decisiva de figuras influentes na política italiana, como o socialista Bettino Craxi (1934-2000), premiê na década de 80 e, anos depois, condenado por corrupção.
No final de 1993, já um dos empresários mais ricos do país, Berlusconi fundou o partido Forza Italia. Em 1994, chegaria pela primeira vez ao cargo de premiê graças à aliança com grupos como a Liga Norte, anti-imigração.
Desentendimentos na aliança e acusações de fraude fiscal derrubaram seu primeiro governo sete meses depois, em janeiro de 1995. Ele voltaria em 2001, após assinar um "contrato com os italianos" em que prometia reforma tributária e a redução do desemprego pela metade.
O empresário deixou novamente o cargo em 2006 e voltou em 2008. Nos últimos anos, porém, avolumaram-se problemas como baixo crescimento e alto desemprego entre os jovens, apontados por revistas como a britânica "The Economist", que chegou a ser processada pelo premiê.
Ao mesmo tempo, Berlusconi se mantinha em evidência de modo pouco lisonjeiro, protagonizando escândalos sexuais -como o da dançarina marroquina Ruby Rouba-Corações, que disse ter participado, aos 17 anos, de festas sexuais ("bunga bunga") na mansão do premiê.
O empresário, que já se definiu como "Jesus Cristo da política" e disse que só Napoleão havia feito mais que ele pela Europa, vinha resistindo a todas as acusações. Nem o messianismo nem o bonapartismo, porém, foram capazes de mantê-lo no poder.

Sem apoio político, Berlusconi decide sair

Premiê perde maioria no Parlamento após votação e diz que renunciará tão logo seja aprovado novo Orçamento

Nos últimos dias, Itália teve disparada dos juros dos seus títulos e passou a ser vista como novo alvo dos mercados

VAGUINALDO MARINHEIRO

DE LONDRES

O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, perdeu a maioria no Parlamento e se comprometeu a renunciar assim que for aprovado um novo Orçamento com mais medidas de austeridade.
A votação deve ocorrer na segunda quinzena do mês.
"Depois da aprovação da Lei de Estabilidade, apresentarei minha demissão, de modo a que o chefe de Estado possa abrir as consultas e decidir sobre o futuro", disse a uma TV, por telefone.
O favorito para assumir o posto é Angelino Alfano, secretário do partido do premiê.
Berlusconi é a quarta vítima da crise econômica que assola a Europa. Antes, renunciaram os premiês de Irlanda, Portugal e Grécia.
Na Espanha, José Luis Zapatero antecipou as eleições, desistiu de concorrer, e seu partido, o Socialista, deve ser derrotado no dia 20.
Todos são países com problemas de caixa e que foram obrigados a pagar juros cada vez mais altos para tomar empréstimos no mercado.
A decisão de Berlusconi aconteceu após ele aprovar as contas de 2010, por 308 dos 630 deputados, oito a menos do que a maioria absoluta. Os demais não votaram, para deixar claro que se opõem ao primeiro-ministro.
Oposição e aliados pediram sua renúncia. Mesmo Umberto Rossi, líder da Liga Norte, que compõe a coligação que governa o país, disse que era melhor ele sair.

TRAIDORES
Durante a sessão do Parlamento, Berlusconi fez várias anotações num papel. Nele, se lia: 308, 8 traidores; apresentar a demissão.
Logo após a votação, foi conversar com o presidente do país, Giorgio Napolitano. Cabe a ele conduzir o processo de sucessão.
Napolitano disse que, após a efetivação da renúncia, irá convocar os partidos para ver se é possível formar um governo de coalizão ou se será necessário convocar novas eleições, que podem acontecer no início de 2012.
Em tese, Berlusconi pode concorrer e, se seu partido vencer, voltar ao cargo.
Berlusconi, 75, é pela terceira vez premiê. No atual governo, que começou em 2008, foi acusado de corrupção e escândalos sexuais. Balançou, mas ganhou 53 votos de confiança.
Cai agora por questões econômicas, devido a pressões de investidores e dos demais líderes europeus, que não acreditam que ele tenha condições de adotar medidas de austeridade.
A Itália, terceira maior economia da zona do euro (atrás de Alemanha e França), tem uma dívida de € 1,9 trilhão -121% do PIB (conjunto de riquezas do país).
A desconfiança de que não terá como pagar essa dívida faz investidores exigirem juros cada vez mais altos para emprestar ao país.
Ontem, títulos de dez anos chegaram a ser negociados com juros de 6,77% ao ano.
Foi nesse patamar que a Irlanda e Portugal tiveram que recorrer a empréstimos do FMI e da União Europeia.
O problema é que a economia italiana é maior que as de Irlanda, Portugal e Grécia juntas.

Avanço à vista

ANTONIO DELFIM NETTO

As incertezas que dominam o cenário mundial são tantas que, mesmo já vencidos quatro quintos do ano, as previsões ainda são precárias. Na antevéspera da reunião do G-20, a OCDE divulgou os seguintes números para 2011:



O angustiante quadro mundial revela que as hipóteses da política econômica brasileira estão a confirmar-se. Mais do que isso, ele dá razão à política monetária (apoiada numa política fiscal mais austera) que tenta antecipar-se à queda da nossa taxa de crescimento reduzindo a taxa de juros real.
A "distância" entre a nossa taxa de inflação (beirando o limite superior da tolerância da "meta") com relação aos emergentes é muito menor do que a do nosso crescimento, que andará por volta de 3% (e, na margem, pode estar correndo em torno de 2,5%). Já a taxa dos emergentes do G-20 é da ordem de 6%, sem contar a China.
Isso mostra o equívoco da crítica fácil feita ao nosso BC, com a afirmação que ele teria abandonado a política de metas inflacionárias só por ter aumentado o peso dado à "distância" entre o PIB e o seu "potencial" e diminuído o peso da "distância" entre a taxa de inflação de 12 meses e a "meta".
No fundo, a inflação aceitável é a parecida com a dos nossos parceiros internacionais, com o PIB próximo do pleno uso da capacidade produtiva.
Em condições anormais de pressão e temperatura, é melhor transigir com a "meta" (no seu limite de tolerância) do que exagerar no sacrifício para atendê-la num horizonte mais curto. É claro que isso não tem a ver com a ideia primitiva de que "um pouco mais de inflação aumenta o crescimento".
Por outro lado, é óbvio que precisamos aperfeiçoar nossas políticas macro e microeconômicas, facilitar o aumento da produtividade e usar melhor os recursos de que dispomos.
Uma boa notícia foi revelada pelo ministro da Previdência, Garibaldi Alves, consagrado como bom administrador: o governo está empenhado na aprovação do projeto que cria o Fundo de Previdência dos servidores públicos, que dorme no Congresso desde 2003.
Quem o tem bloqueado? Segundo Alves, "os sindicatos e os parlamentares ligados aos servidores. Eles, que deveriam ser de esquerda, às vezes são mais conservadores que os conservadores da direita". Bingo!

domingo, 6 de novembro de 2011

AMANTES TROGLODITAS

Pesquisa usa genética para revelar novos indícios de cruzamentos entre humanos modernos e espécies arcaicas, como os denisovanos e os neandertais

RICARDO BONALUME NETO

DE SÃO PAULO

Dois estudos genéticos jogaram luz na pré-história das migrações e dos acasalamentos humanos, mostrando que esses movimentos populacionais foram mais complexos do que se imaginava.
Descobriu-se agora que os ancestrais dos povos do leste da Ásia fizeram sexo com uma antiga população arcaica da Sibéria; e que, dezenas de milhares de anos depois, durante a passagem do estilo de vida caçador-coletor para o de agricultores, eram principalmente os homens que migravam na Europa.
O cruzamento entre subespécies ou espécies diferentes de ancestrais humanos sempre foi polêmico. Mas tem sido criado um consenso de que deve ter havido dois desses "eventos" no passado.
O homem moderno surgiu na África e se disseminou pelo resto do planeta. Ao chegar à Europa, teria feito sexo com uma espécie arcaica, o homem de Neandertal.
O outro cruzamento seria entre os humanos modernos e aqueles semelhantes aos arcaicos encontrados na caverna de Denisova, na Sibéria (Rússia), e teria dado origem a populações na Oceania.
Dois pesquisadores na Suécia, Pontus Skoglund e Mattias Jakobsson, da Universidade Uppsala, compararam o material genético de mais de 1.500 seres humanos modernos com o genoma de um neandertal e um denisovano. O artigo com os resultados está na última edição da revista científica "PNAS".
Eles descobriram traços do material genético dos homens denisovanos também no genoma dos habitantes atuais do leste asiático.
De acordo com Jakobsson, podemos detectar sinais de ancestralidade arcaica nos seres humanos modernos porque a população humana anatomicamente moderna era "apenas" dez vezes maior do que a dos arcaicos com quem eles cruzaram.
"Eu não tenho uma resposta sobre o tamanho da população denisovana, mas para a população neandertal na Europa, Mellars e French estimaram que a população humana moderna era dez vezes maior", diz o pesquisador.

MAIORIA
Paul Mellars e Jennifer French, da Universidade Cambridge, publicaram artigo em julho na "Science" com estimativas das populações humanas modernas e de Neandertal na França.
Eles concluíram que entre 55.000 e 35.000 anos atrás, uma "invasão" dos modernos levou à substituição dos europeus arcaicos.
"Esses dados mostram que apenas a supremacia numérica deve ter sido um poderoso fator, se não decisivo, na competição demográfica e territorial entre humanos modernos e neandertais", afirmou a dupla de cientistas.
Outro momento decisivo na pré-história humana foi a "transição do Neolítico", com a passagem do estilo de vida caçador-coletor para a agricultura. Outra análise de DNA antigo concluiu que eram grupos masculinos que migravam, segundo dados de sítio arqueológico na Espanha de 7.000 anos de idade.
A pesquisa de Marie Lacan, da Universidade de Estrasburgo, França, está publicada na mesma edição da "PNAS". O trabalho identificou sete indivíduos na caverna de Avellaner, nordeste da Espanha, seis dos quais eram homens. Cinco deles parecem pertencer à mesma linhagem patrilinear.

Projeto já publicou 1.658 telegramas confidenciais

INTERNET

DE BRASÍLIA - Desde agosto, quando colocou no ar o transparencia.folha.com.br, o projeto Folha Transparência já disponibilizou a íntegra de 1.658 telegramas confidenciais do Itamaraty.
As buscas podem ser feitas por datas ou palavras-chave.
O fim do sigilo foi decidido pelo MRE (Ministério das Relações Exteriores), conhecido como Itamaraty, a partir de uma requisição da Folha.
O projeto consiste de iniciativas nas esferas administrativa e judicial para dar acesso a documentos que, apesar de públicos, não são de acesso livre.
O Itamaraty liberou à Folha o acesso a telegramas trocados entre Brasília e os postos diplomáticos ao redor do mundo de 1990 a 2001. Pela lei, a liberação ao público é "automática" após dez anos da classificação de um documento como confidencial.

Paraguai era alvo de críticas de brasileiros e norte-americanos

DE BRASÍLIA

Os telegramas confidenciais do Itamaraty guardam referências pouco elogiosas ao Paraguai, formuladas por diplomatas tanto brasileiros quanto norte-americanos.
Em outubro de 1997, o chanceler Luiz Felipe Lampreia e Madeleine Albright, secretária de Estado dos EUA, analisaram, em reunião em Brasília, as chances do general Lino Oviedo às vésperas da eleição presidencial.
Após lamentar a "situação embaraçosa", como descreveu uma eventual vitória de Oviedo, Lampreia disse então que o Paraguai "é uma sociedade subdesenvolvida politicamente, com uma longa história de ditaduras".
O chanceler incluiu uma ameaça indireta em sua fala: "O Brasil não pretende desempenhar um papel na política interna do Paraguai, mas estará atento a que os procedimentos constitucionais sejam cumpridos".
Os documentos mostram que o Brasil tinha dúvidas sobre como eram tratadas as invasões de terras de brasileiros por sem-terra paraguaios.
Também têm opiniões negativas dos americanos.
Em outubro de 1997, também a propósito das eleições presidenciais, funcionários do Departamento de Estado disseram a Paulo Tarso Flecha de Lima, embaixador brasileiro em Washington, que o sistema judicial paraguaio "é uma verdadeira confusão".

Brasil cedeu a pressões e não deu asilo a político paraguaio

Deputado era suspeito de ser 'autor intelectual' de morte de vice-presidente

Concessão de asilo reforça imagem de país em que instituições não funcionam, alegavam políticos paraguaios

RUBENS VALENTE
FERNANDA ODILLA

DE BRASÍLIA

Telegramas confidenciais do Itamaraty revelam que o Brasil cedeu a pressões do Paraguai e quebrou sua tradição diplomática ao recusar asilo a um deputado perseguido pelo governo que sucedeu o presidente deposto Raúl Cubas Grau, em 1999.
O projeto Folha Transparência divulga a partir de hoje, em seu site na internet (transparencia.folha.com.br), a íntegra de 187 telegramas confidenciais produzidos em 1997 e 1999 sobre as relações Brasil-Paraguai.
Em março de 1999, o Brasil deu asilo a Cubas Grau no mesmo dia em que ele deixou o governo, acossado pela oposição após o assassinato a tiros de seu vice, Luis Argaña, então um crítico de Cubas e de seu protegido, o general Lino Oviedo.
O crime desencadeou protestos sangrentos em Assunção, em que sete estudantes antioviedistas foram mortos.
Dias depois, o então deputado Conrado Pappalardo, aliado de Oviedo, passou a ser procurado pela Justiça paraguaia como um dos supostos "autores intelectuais" do assassinato de Argaña.
Ele fugiu para o Brasil e ficou escondido por anos -depois foi absolvido da acusação e voltou ao Paraguai.
A recusa do asilo contrariava a tradição brasileira. Nos anos 1980, o país acolhera até mesmo o ex-ditador paraguaio Alfredo Stroessner, de quem Pappalardo foi aliado.
Pappalardo entregou à embaixada brasileira carta em que se dizia vítima de perseguição política. Os telegramas revelam que a negativa do Brasil ocorreu após pressões do Congresso paraguaio.
O presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, Efrain Alegre, e mais dois parlamentares procuraram o então embaixador brasileiro em Assunção, Bernardo Pericás, para dizer que a eventual concessão de novos pedidos de asilo "reforçaria no exterior a imagem falsa de um país em que não funcionam as instituições".
Outro deputado, Blas Riquelme, disse ser "preocupante a imagem de impunidade projetada, interna e externamente, pelo Paraguai".
O embaixador respondeu que o Brasil examinaria o pedido de Pappalardo "com atenção e consciência das implicações mencionadas pelo presidente da Comissão de Relações Exteriores".
Em maio daquele ano, Miguel Saguier, chanceler de Luis Gonzalez Macchi, novo presidente paraguaio, foi recebido em Brasília por Fernando Henrique Cardoso.
Saguier "mostrou satisfação pela forma com que o Brasil tratou o caso Pappalardo", segundo um telegrama confidencial despachado de Brasília para Assunção.
Ele disse que "a repetição de casos de concessão de asilo depõe contra o Paraguai".

Em eleição questionada, Ortega deve ter vitória fácil na Nicarágua

Com fundos de Chávez, sandinista intensifica programas sociais

DE CARACAS

"Todas as criancinhas têm direito a aprender a patinar no gelo, ainda que estejamos no calor", disse Rosario Murillo, a primeira-dama da Nicarágua, ao inaugurar o parque de diversões Crianças Felizes, que funcionará gratuitamente até janeiro.
O parque -inaugurado mês passado em Manágua e que conta com uma seção de exibição de armas- é só a face mais chamativa do pacote de programas para os mais pobres lançados pelo governo do presidente nicaraguense, Daniel Ortega, 65.
Ortega deve ser reeleito hoje em eleições questionadas pela oposição e por ativistas internacionais.
Apesar do veto da Constituição à reeleição consecutiva, ele conseguiu da cúpula do Judiciário, alinhada ao governo, o sinal verde para buscar mais um mandato.
O líder da Revolução Sandinista, que derrubou as décadas da ditadura dos Somoza em 1979, tem quase 50% das intenções de votos.
O jornalista Fabio Gadea, 80, apoiado por intelectuais e ex-sandinistas, não deve chegar a 30%, e o ex-presidente Ricardo Alemán (1996-2001), condenado por corrupção em 2003, fechou pacto tácito com Ortega e pode capturar 10% do total.
A confortável situação de Ortega é fruto da união de fatores à primeira vista contraditórios: a proximidade com o venezuelano Hugo Chávez, uma gestão macroeconômica avalizada pelo FMI e políticas pró-empresários que fizeram dobrar o investimento privado estrangeiro no último quinquênio.
É da aliança com Chávez que vem o dinheiro para o parque de diversões e programas como "Teto de Zinco", de reforma habitacional.
Os fundos gerados pela compra de combustível pela chavista Petrocaribe geraram em 2010 US$ 500 milhões, ou 7% do PIB, para gastos de iniciativas ligadas diretamente ao casal presidencial.
Uma das marcas do governo Ortega, que voltou ao poder em 2007, é a presença da primeira-dama e a virada religiosa do discurso.
Com a reeleição ao que parece garantida, o objetivo dele hoje é conseguir maioria qualificada no Parlamento para passar reforma que permita a reeleição indefinida. (FLÁVIA MARREIRO)

O G20 e o Brasil

TENDÊNCIAS/DEBATES

BILL GATES


Bem-sucedido em seu processo de desenvolvimento, o Brasil tem compreensão sofisticada daquilo que os países pobres precisam fazer para melhorar

A estabilização da economia global e a geração de empregos estiveram, com razão, no topo da agenda da reunião do G20 na França.
Um risco real, contudo, é o de que algumas das políticas cogitadas por membros-chave do G20 corram o risco de reduzir a assistência e outros investimentos em crescimento e desenvolvimento em muitos dos países mais pobres do mundo.
Seria um erro enorme, porque é precisamente este o momento em que esses países estão preparados para acelerar os avanços da década passada e se tornarem parceiros estáveis e rapidamente crescentes na economia global.
Em vez de recuar, este é o momento de nos engajarmos mais profundamente, em mais áreas e por meio de parcerias novas e instigantes.
O presidente Sarkozy me convidou a apresentar um relatório para os líderes do G20 sobre como ampliar o financiamento para o desenvolvimento, e nesse relatório apresentei ideias muito concretas sobre como fazer isso e deitar as bases para que o mundo consiga atender as necessidades e aspirações de todos os seus 7 bilhões de cidadãos.
Uma das razões pelas quais sou otimista em relação ao futuro é o fato de que países em rápido crescimento, como o Brasil, possuem o potencial de transformar o desenvolvimento. Esse potencial enorme é a razão pela qual a Fundação Bill & Melinda Gates assinou nesta semana um acordo com o governo brasileiro para trabalharmos juntos sobre projetos de agricultura e saúde para beneficiar países pobres.
Tendo avançado com tanto êxito no processo de desenvolvimento, o Brasil tem compreensão sofisticada do que os países pobres precisam fazer para melhorar suas condições de vida. Com enormes capacidades técnicas, pode inventar ferramentas inovadoras para solucionar alguns dos problemas mais renitentes enfrentados pelos pobres.
Um exemplo disso é uma iniciativa recente para melhorar a produtividade agrícola em Moçambique, país onde uma em cada cinco crianças é malnutrida.
Graças à combinação de investimentos generosos do Japão e suporte de capacitação técnica do Brasil, Moçambique está a caminho de conquistar a segurança alimentar e, com o tempo, exportar produtos agrícolas para a região e o mundo.
Os países pobres estão usando seus próprios recursos para liderar seu próprio desenvolvimento. Líderes africanos podem levantar mais dinheiro para o desenvolvimento, com mais eficiência.
Os países do G20 podem ajudar nisso, exigindo que empresas de mineração e petróleo listadas em suas bolsas de valores divulguem o que pagam para os governos de países em desenvolvimento. Dessa maneira, os termos dos contratos envolvendo recursos naturais farão parte de registro público, e cidadãos em todos os países poderão proteger seus interesses.
Os países doadores tradicionais também têm a responsabilidade de continuar com sua generosidade assistencial. Muitos países definiram metas para assistência até 2015, e ainda têm tempo para tomar medidas para alcançar essas metas.
Para concluir, o setor privado pode aumentar seu envolvimento no desenvolvimento. O setor privado é o motor do crescimento econômico e a maior fonte de inovação no mundo, mas nem sempre investe nas necessidades dos mais pobres, porque nem sempre há incentivos para isso. Acredito que há maneiras de encorajar o investimento particular em coisas como tecnologias agrícolas e projetos infraestruturais.
Existem bilhões de dólares em mãos de instituições filantrópicas, investidores de impacto, comunidades de diáspora e fundos soberanos que poderiam ser mobilizados para ajudar os pobres.
Esse trabalho não envolve alguns poucos países ricos dando assistência à moda antiga a um mundo monolítico em desenvolvimento. Ele diz respeito a como novos parceiros podem levar energia nova e transformadora ao desenvolvimento, conservando o mundo no caminho em direção à equidade e ao crescimento econômico de longo prazo.

BILL GATES é copresidente da Fundação Bill & Melinda Gates.

Tradução de CLARA ALLAIN.  

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Morales surpreendeu Brasil ao romper contrato de US$ 98 mi

Empresário não foi avisado, e Itamaraty julga ato "inoportuno"

FLÁVIA MARREIRO
DE CARACAS

A decisão do presidente boliviano, Evo Morales, de rescindir contrato no valor de de US$ 98 milhões (R$ 170 milhões) com um consórcio boliviano-brasileiro, anunciada anteontem, foi "uma surpresa" para o empresário brasileiro Waldec Nogueira, diretor da Petra, que integra o consórcio.
Segundo Nogueira, que embarcou ontem para La Paz, Morales não avisou os envolvidos antes de anunciar publicamente a decisão de romper o negócio.
A justificativa apresentada por Morales é que há atraso nas obras. Ele também acusou o consórcio -que além da Petra (35%) inclui a Santa Cruz Engenharia (35%) e a boliviana Nubro SA (30%)- de "terceirizar" o serviço.
Nogueira admite que a obra está com o cronograma atrasado, mas nega as acusações de terceirização. Segundo ele, a Petra quer seguir no negócio, financiado pela CAF (Corporação Andina de Fomento).
O governo boliviano promete descontar um cheque-garantia de US$ 6 milhões (R$ 10,4 milhões) entregue pelas empresas e não descarta ações legais contra o grupo.
O rompimento do contrato ocorre num momento em que a Bolívia tenta renegociar com o governo brasileiro e o BNDES ajustes no financiamento para a construção de outra estrada, na Amazônia boliviana.
A empreiteira brasileira OAS é a responsável por essa obra, que suscitou manifestações contrárias de indígenas amazônicos -porque seu traçado prevê construção em área de reserva ambiental- e terá US$ 332 milhões (R$ 577 milhões) do BNDES.
O governo brasileiro também foi surpreendido com o anúncio da rescisão feito anteontem por Morales e o considera inoportuno, segundo a Folha apurou.
Uma das condições de Brasília para renegociar o contrato da estrada financiada pelo BNDES é ter gestos de "boa vontade" de La Paz em temas controversos como a devolução de carros roubados no país e evitar episódios de impacto negativo na opinião pública brasileira.

Governo de Cuba autoriza a compra e a venda de casas

Medida é parte de esforço de Castro para reformar modelo econômico

Para especialistas, a legalização do comércio de imóveis deve injetar dinheiro na economia e ajudar a criar empregos

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

O ditador Raúl Castro anunciou ontem uma reforma que permitirá que -cinco décadas após a revolução de 1959- os cidadãos cubanos possam voltar a comprar e vender casas.
A decisão valerá a partir do dia 10, segundo o jornal estatal "Granma". Faz parte de um esforço de reformas que vêm sendo colocadas em prática por Castro desde 2008 para atualizar o modelo econômico socialista de Cuba.
A transmissão da propriedade dos imóveis poderá ser feita por meio de compra, venda, permuta, doação ou concessão.
Mas o Estado imporá limites à posse de propriedades. Cubanos e estrangeiros que residem no país terão direito a ter apenas dois imóveis -um na cidade e outro de veraneio, na praia ou no campo.
Um dos objetivos do governo é reduzir o deficit habitacional do país, que, segundo o governo, é de aproximadamente 600 mil moradias.
O comércio de imóveis já vem ocorrendo há anos na ilha, porém de forma ilegal.
O governo permite que os cidadãos tenham a propriedade de suas casas, mas até então não permitia a venda.
Os cubanos faziam então "permutas", ou seja, trocas de imóveis -autorizadas pelo governo.
Mas isso criou um mercado imobiliário paralelo. Para ter uma casa melhor, era preciso pagar uma diferença em dinheiro de forma ilegal.
A partir da reforma, a comercialização será legalizada, porém um imposto de até 8% do valor do imóvel será cobrado nas transações.
"Muitas pessoas viviam com medo de perder as casas, pois elas haviam sido adquiridas ilegalmente. Agora, elas poderão legalizá-las e dormir em paz", disse Osmel Gonzales, vendedor em Havana.
Segundo Phil Peters, especialista em Cuba do Instituto Lexington, dos EUA, a reforma representará uma injeção de dinheiro na economia que favorecerá o crescimento do emprego privado.
"A possibilidade de vender casas significa formação instantânea de capital para as famílias cubanas", afirmou.
Em setembro, o governo cubano já autorizara a comercialização de carros na ilha. As reformas já cortaram empregos públicos, criaram profissões liberais e acabaram com alimentos subsidiados e certas restrições de viagens.

Latino-americanização da Europa

MOISÉS NAÍM




Qualquer sugestão de que havia lições a tirar de crises na América Latina era rejeitada pelos europeus

Algumas semanas atrás, participei de uma reunião em Bruxelas que coincidiu com a cúpula em que líderes europeus traçaram o plano para estabilizar o velho continente. Também por coincidência, muitas das delegações à cúpula estavam hospedadas no hotel em que minha reunião -que não era ligada à cúpula- estava tendo lugar.
Inevitavelmente, ao final do dia ou durante o café da manhã, vários colegas e eu conversávamos informalmente com amigos que trabalham nas equipes técnicas que dão apoio às negociações de alto nível.
As histórias, a ansiedade e a exaustão deles (trabalhavam sem parar havia vários meses) trouxeram de volta muitas memórias: numa carreira anterior, eu estive envolvido em um processo semelhante em meu próprio país, a Venezuela, e depois trabalhei no Banco Mundial e estive próximo de negociações semelhantes em outros países.
Em Bruxelas, fiquei fascinado com as semelhanças entre a crise europeia e as que testemunhei no passado. Mas fiquei ainda mais surpreso ao constatar que as autoridades europeias ignoravam as experiências de outros países com crises.
Qualquer sugestão de que poderia haver lições úteis a tirar das crises de dívida latino-americanas era rejeitada educadamente, mas com firmeza. "A Europa é diferente" foi a reação automática deles. "Temos o euro; nossas economias e sistemas financeiros são diferentes, assim como nossa política e cultura."
Isso tudo é verdade. Mas há outras realidades que também são verdade. Entre 1980 e 2003, a América Latina sofreu 38 crises econômicas, e a região -suas autoridades, os reguladores e, sim, até mesmo o público e os políticos- aprendeu com esses episódios dolorosos.
Talvez a lição principal seja o que eu chamo "o poder do pacote". O "pacote" é um conjunto abrangente, maciço, digno de crédito e sustentável de medidas, que não oferece só cortes e austeridade, mas também crescimento, redes de segurança social, reformas estruturais, empregos e esperança para o futuro.
Decisões econômicas fragmentadas, tomadas em partes e frequentemente contraditórias não funcionam. Elas são muito tentadoras, porque criam a ilusão de uma solução que evita as medidas mais impopulares. Mas, mais cedo do que tarde, a realidade teima em mostrar que as medidas parciais não estão funcionando, que se desperdiçaram tempo e dinheiro e que outra coisa se faz necessária.
E essa outra coisa é o pacote abrangente, que inclui remédios fortes para todos os males que afetam a economia: dívida demais, gastos governamentais demais, bancos insuficientemente capitalizados, supervisão ineficiente, políticas fiscal e monetária não coordenadas, baixa competitividade internacional e regras que inibem o investimento e a geração de empregos.
Quando críticos descrevem a crise europeia como sendo "semelhante à latino-americana", pensam na América Latina que sofreu as crises, não na que sabe como evitá-las.
Hoje, a maioria dos países latino-americanos tem economias em crescimento e bancos sólidos. O que desejamos para a Europa é que suas economias comecem a assemelhar-se mais às da nova América Latina e menos às da velha Europa.

@moisesnaim

Acuado, premiê da Grécia desiste de consulta popular

Papandreou queria submeter a voto o pacote europeu, mas foi pressionado a recuar até por seu próprio partido

Primeiro-ministro vai enfrentar hoje uma votação no Parlamento e poderá ser obrigado a renunciar ao cargo


John Kolesidis/Reuters
Oprimeiro-ministro George Papandreou, durante discurso a deputados do Partido Socialista no Parlamento da Grécia

CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A CANNES

O primeiro-ministro grego, George Papandreou, desmoralizado pelos líderes europeus na véspera, abandonado ontem por seus próprios ministros, inclusive o de Finanças, desistiu do plebiscito cuja convocação havia anunciado.
Nessa situação de extrema fragilidade, o premiê muito possivelmente será derrubado hoje por um voto de confiança, o que abrirá caminho para pelo menos mais alguns dias de incerteza sobre a evolução política da Grécia.
Ontem, em discurso ao Parlamento, ele disse que não quer a reeleição e que não está "amarrado à cadeira".
A mídia grega especula com a possibilidade de que, por iniciativa do próprio Papandreou (pronuncia-se "papandrêu") ou de quem vier a substitui-lo, seja formado um governo de unidade nacional de curta duração, até a convocação de novas eleições.
O principal partido de oposição, Nova Democracia, está defendendo exatamente essa saída, o que, em tese, daria legitimidade ao governo surgido das urnas para reafirmar aos sócios europeus a plena adesão da Grécia ao pacote anunciado na cúpula do dia 27 passado.
Por ele, a Grécia receberá um segundo socorro (€ 130 bilhões), terá sua dívida renegociada com os bancos, com vistas a obter uma dedução de 50%, mas, em contrapartida, implementará novos cortes de postos de trabalho no setor público e novas medidas de austeridade.
Como é óbvio, a austeridade é impopular, razão pela qual Papandreou jogou a carta do plebiscito, apenas para vê-la publicamente rasgada pelos parceiros europeus.
Estes anunciaram anteontem que, até saber o resultado do plebiscito, não liberariam os € 8 bilhões da última fatia do primeiro pacote de ajuda, sem o que a Grécia fica impossibilitada de pagar suas contas no mês que vem.
A pressão europeia funcionou sobre o Pasok (Partido Socialista Pan-Helênico, de Papandreou) e sobre o próprio ministério: os titulares de Saúde, Transportes, Educação e Agricultura dissociaram-se da iniciativa da consulta popular, acompanhados do mais importante ministro, Evangelos Venizelos, das Finanças, a quem compete executar os cortes e gerir o auxílio europeu.
Em nota, Venizelos, importante líder do Pasok, criticou o seu chefe e disse que o que importa agora "é salvar o país, por meio do único processo possível, o que inclui a decisão [da cúpula europeia]".
O recuo de Papandreou devolve a crise europeia ao momento em que estava na antevéspera do G20, iniciado ontem, mas em condições ainda piores porque o bloco do euro acabou fragilizado.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Revista francesa é atacada por publicar charge de Maomé

DO "GUARDIAN"

A sede da revista satírica francesa "Charlie Hebdo" foi incendiada depois de uma edição especial sobre a primavera árabe, intitulada "Sharia Hebdo", ter estampado na capa uma charge do profeta Maomé, descrito como "editor convidado".
O incêndio foi provocado por coquetel molotov atirado pela janela do edifício. A maior parte do que havia no escritório foi queimada.
O ataque aconteceu um dia antes da chegada às bancas da edição "sharia" (lei islâmica), prevista para ontem.
Na primeira página da edição, uma charge mostra o profeta Maomé, com a legenda: "Cem chibatadas se você não morrer de rir!".
Não é a primeira vez que o semanário publica charges de Maomé. O islã veta qualquer representação do profeta.
O jornal disse que a edição seria uma "celebração" da vitória do partido islâmico moderado Nahda nas eleições tunisianas e da possível adoção da lei islâmica pelo futuro governo líbio.
Em 2007, um tribunal de Paris arquivou uma tentativa de duas organizações muçulmanas de processar o semanário por ter reproduzido as charges do profeta Maomé publicadas por um jornal dinamarquês e que suscitaram protestos em todo o mundo.
O editor da revista, conhecido apenas como Charb, disse à rádio France Inter que, nos últimos dias, a revista recebera ameaças pelo Twitter, pelo Facebook e pelo correio. Ele disse estar enojado e furioso pelo fato de que "a violência pôde ser usada para combater desenhos".
Charb disse à agência de notícias France Presse que rejeita acusações de que estaria tentando provocar os muçulmanos com as charges.
A prefeitura socialista de Paris disse que ajudará a "Charlie Hebdo" a encontrar uma nova sede.
Mohammed Moussaoui, do CFCM (Conselho Francês da Fé Muçulmana), afirmou que "condena fortemente" o ato. Em 2006, o CFCM moveu ação contra a "Charlie Hebdo" por publicar caricaturas do profeta que, segundo ele, foram "bem mais violentas".

Tradução de CLARA ALLAIN  

Argentina anuncia retirada parcial de subsídio a serviços

É a segunda medida de ajuste econômico anunciada depois da reeleição de Cristina Kirchner, dez dias atrás

Governo diz que ainda vai analisar subsídios a transporte e energia, mas nega alta de tarifa para os consumidores

LUCAS FERRAZ
SYLVIA COLOMBO

DE BUENOS AIRES

Dez dias depois da reeleição de Cristina Kirchner, o governo argentino anunciou ontem a segunda medida de ajuste econômico.
Após anunciar o controle da compra e venda do dólar, para evitar fuga de capitais, agora a Casa Rosada quer reduzir substancialmente o pagamento dos subsídios que destina a serviços públicos.
O dólar estável e os subsídios contribuíram para a releeição de Cristina, mas eram insustentáveis a longo prazo, apesar de o governo ter negado a necessidade de reajuste durante toda a campanha.
Os subsídios são um dos pilares econômicos do kirchnerismo e vinham aumentando desde 2003, quando Néstor Kirchner, marido e antecessor de Cristina, foi eleito.
Para que a população não sinta o impacto da inflação (25% segundo estimativas privadas, 9% segundo o governo), o Estado custeia parcialmente muitos serviços. O governo arca com a diferença entre o que o consumidor paga e o real custo do serviço.
Um mês antes da eleição, o governo autorizou novo aumento do Orçamento para esse fim, chegando a R$ 27,8 bilhões, o equivalente a 4,5% do PIB argentino. Com a redução dos subsídios, a Casa Rosada espera economizar no mínimo R$ 250 milhões.
Entre os serviços mais defasados está a tarifa de ônibus, que custa 1,25 peso -se seguisse a inflação dos últimos anos, deveria valer 6,80.
Recentemente, tem havido críticas à qualidade de alguns serviços, principalmente na área de transportes. Falta de manutenção e estrutura estão por trás de alguns acidentes graves, como o choque que matou 11 pessoas no bairro de Flores, em setembro.
O vice-presidente eleito e atual ministro da Economia, Amado Boudou, apresentou ontem resolução que elimina os subsídios para entidades financeiras, jogos de azar, aeroportos, extração mineral, portos e telefonia móvel.
Sobre os subsídios destinados aos serviços de água, gás, eletricidade e transportes, os ministros disseram que será formada comissão para analisar custos e a necessidade de suspender esses pagamentos.
Eles, contudo, negaram alta de tarifa para o consumidor -o que parece pouco provável, já que os preços estavam quase congelados graças aos incentivos estatais.

Presidente Morales rompe contrato com empresas do Brasil

BOLÍVIA

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS - O presidente da Bolívia, Evo Morales, anunciou ontem a rescisão de um contrato com o consórcio Brabol, de nacionalidades brasileira e boliviana, para a construção de uma rodovia.
A estrada deve ligar as cidades de La Paz e Oruro.
O consórcio -formado pelas construtoras brasileiras Petra e Santa Cruz Engenharia e pela boliviana Nubro- era responsável pela construção de 77 dos 203 quilômetros da rodovia.
O governo da Bolívia diz que o consórcio não cumpriu regras do contrato.
Há menos de dez dias, Morales havia decidido manter o contrato com a brasileira OAS para fazer outra rodovia, cuja construção desencadeou protestos indígenas no país.

União Europeia ameaça sufocar a Grécia

Premiê Papandreou, porém, ignora pressão contra consulta popular e diz que pode antecipá-la para 4 ou 5 de dezembro

Em entrevista após reunião, Sarkozy diz que pergunta deve ser sobre os gregos ficarem ou não na zona do euro

Michel Euler/Associated Press
Premiê grego, George Papandreou, chega a Cannes para a reunião do G20, onde foi pressionado a desistir do plebiscito

CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A CANNES

O premiê grego, George Papandreou, anunciou ontem a seus parceiros europeus que poderá antecipar para o dia 4 ou 5 de dezembro o plebiscito que estava previsto inicialmente para janeiro.
Foi após ouvir a informação de que nem a União Europeia nem o Fundo Monetário Internacional liberarão os € 8 bilhões finais do primeiro pacote de socorro enquanto a Grécia não se comprometer a aceitar o conjunto de medidas decididas na cúpula europeia do dia 27 passado.
Sem esses recursos, a Grécia não poderá pagar suas contas, inclusive a dívida -o que levará o país ao colapso.
As duas informações foram divulgadas em entrevista coletiva do presidente francês, Nicolas Sarkozy, e da chanceler alemã, Angela Merkel, já no fim da noite em Cannes, após dura reunião entre eles, Papandreou (pronuncia-se "papandrêu"), a chefe do FMI, Christine Lagarde, e integrantes da cúpula da UE.
Para Sarkozy, o plebiscito deve dizer "se a Grécia quer ou não permanecer na eurozona" (os 17 países que adotam o euro). Ou seja, parece não haver a hipótese de que a pergunta seja sobre aceitar ou rejeitar o pacote de 27 de outubro, que prevê, entre outros pontos, novo programa de ajuda à Grécia, corte de 50% na dívida do país e mais medidas de austeridade.
"Nossos amigos gregos têm de decidir se querem continuar a jornada conosco", disse Sarkozy. Merkel, por sua vez, afirmou que é preferível estabilizar o euro com a Grécia a fazer isso sem ela -mas a prioridade é a moeda.
Para o presidente francês, a convocação do plebiscito tem "toda a legitimidade", mas "a Europa não pode ficar na incerteza e quer uma resposta o mais cedo possível".
É justamente para obter a resposta o mais cedo possível que França e Alemanha informaram Papandreou de que não será liberado o dinheiro, que é a linha da vida para a economia grega. Como dezembro é o prazo para que a Grécia fique sem recursos para operar até o pagamento de salários dos servidores, o premiê se viu forçado a prometer antecipar o plebiscito.
Há duas versões circulando sobre a pergunta do plebiscito: uma diz que ele terá que decidir, tal como sugerido por Sarkozy, entre ficar ou não no euro. A outra é a de que a pergunta seria sobre a aceitação do pacote, hipótese que parece ter sido vetada durante a reunião de ontem.
A diferença é importante: pesquisa recente mostra que 60% dos gregos rejeitam o pacote de ajuda amarrado a um duro ajuste, mas 72% querem que o país fique no euro.
Se a pergunta for essa e os eleitores confirmarem a disposição na urna, Papandreou ganha o plebiscito e a legitimidade de que hoje carece para implementar as duras medidas de ajuste, que têm causado retração, alta do desemprego e até dos suicídios.
O imbróglio grego eclipsou quase totalmente a cúpula do G20 propriamente dito. Os parceiros da Europa queriam certificar-se de que o plano da cúpula da semana passada era de fato suficiente para conter o eventual contágio do "default" parcial da Grécia.
Agora que o plano está suspenso no ar, à espera do plebiscito grego, criou-se o que um negociador técnico chamou modestamente de "obstáculo importante" para a redação do comunicado final, a ser emitido amanhã.
Para o jornal grego "Eleftherotypia", é bem mais do que isso: Papandreou foi definido como "Lorde do Caos". Os líderes europeus mostraram ontem estar de acordo.

Com agências de notícias 

Brasil avança menos que outros Brics em desenvolvimento humano

Segundo indicador da ONU, melhorias são mais rápidas em emergentes como China, Índia e Rússia

O Brasil progrediu em expectativa de vida, escolaridade e renda, e alcançou nível que os EUA tinham há 40 anos

ÉRICA FRAGA

DE SÃO PAULO

LARISSA GUIMARÃES
DE BRASÍLIA

O Brasil tem avançado em alguns pontos nas áreas de saúde, escolaridade e renda, mas a passos mais lentos do que outros emergentes, como Rússia, Índia e China.
É o que mostra relatório divulgado ontem pela ONU sobre o Índice de Desenvolvimento Humano de 187 países.
O chamado IDH tenta medir e comparar o nível de desenvolvimento das nações com base em indicadores de expectativa de vida, escolaridade e renda per capita.
Pode variar de 0 a 1 _quanto mais alto, maior o nível de desenvolvimento do país.
Em 2011, o IDH brasileiro atingiu 0,718, e o país avançou uma posição no ranking da ONU, para o 84º lugar.
O resultado reflete expectativa de vida de 73,5 anos; 7,2 anos de estudo em média (para os com 25 anos); 13,8 anos de escolaridade esperados para mais jovens e renda per capita anual de US$ 10.162 (ajustada pelo custo de vida).
Segundo relatório divulgado pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), o IDH brasileiro cresceu a uma média anual de 0,69% de 2000 a 2011. O resultado está ligeiramente abaixo da expansão de 0,70% de países de desenvolvimento humano elevado, grupo ao qual pertence o Brasil.
Esse desempenho relativo é, no entanto, inferior ao dos demais Brics (acrônimo para Brasil, Rússia, Índia e China). Os IDHs de Rússia, China e Índia subiram a uma velocidade bem maior que a da média dos grupos dos quais fazem parte, na última década.
O relatório da ONU não detalha o período em questão, mas um dos fatores que pode ter influenciado na diferença entre ritmos é o crescimento econômico nos últimos 11 anos, bem menor no Brasil.
"Esses países são os verdadeiros emergentes. O nível de água está subindo, mas eles sobem com velocidade ainda maior", afirma o economista Marcelo Neri, da FGV-Rio.
Quanto maior o nível de desenvolvimento de um país, mais lento tende a ser o ritmo de avanço do seu IDH porque a base de comparação vai se tornando mais elevada.
Por isso o ideal é que as comparações sejam feitas entre países do mesmo grupo. As divisões são: muito elevado; elevado; médio e baixo.

COMPARAÇÕES
Rússia e Brasil fazem parte do grupo de nações de desenvolvimento humano elevado. Já China e Índia são de desenvolvimento médio.
Apesar do avanço recente, o nível de desenvolvimento do Brasil no ano passado é inferior ao que países avançados como Noruega, EUA e Japão possuíam há 40 anos.
Milorad Kovacevic, chefe de estatísticas do Relatório de Desenvolvimento Humano 2011, ressalta que "é mais difícil para países grandes como China e Brasil atingirem padrão de vida mais alto do que para países pequenos".
Dez nações da América Latina (Chile, Argentina, Uruguai, Cuba, México, Panamá, Costa Rica, Venezuela, Peru e Equador) têm posições melhores que a do Brasil e indicadores de expectativa de vida e escolaridade mais altos.
O Brasil registra progresso nos dados de expectativa de vida, escolaridade média e renda. Já o número de anos esperados de estudo recua.
Técnicos do PNUD não sabem a causa, mas pode estar associada à maior oferta de trabalhos que não exigem escolaridade avançada.

Proximidade

KENNETH MAXWELL

Os manifestantes anticapitalistas em Londres tomaram por alvo a Bolsa de Valores da capital britânica. Mas, em lugar disso, terminaram por causar problemas para a Igreja Anglicana. Foi um estranho resultado causado por um acidente de proximidade.
Em Londres, os manifestantes tentaram imitar o ocorrido em Nova York e protestar diante da sede da Bolsa de Valores. Entretanto a polícia impediu seu ingresso.
Desviados de seu objetivo original, eles montaram seu acampamento de protesto na praça adjacente, que fica diante da catedral de St. Paul.
No começo, foram recebidos cordialmente. O reverendo Giles Fraser, cônego da catedral, persuadiu a polícia a não expulsá-los. Por isso, os manifestantes montaram suas barracas em terrenos que são, em parte, propriedade da igreja.
A catedral de St. Paul é uma igreja de forte simbolismo. Sua grande cúpula domina o panorama de Londres há muito tempo. Suas portas nunca se fecharam. Nem mesmo durante os bombardeios aéreos nazistas da Segunda Guerra Mundial (1939-45).
A grande igreja foi projetada por sir Christopher Wren depois do grande incêndio de Londres em 1666, e construída entre 1675 e 1710.
A catedral serviu de cenário a muitas ocasiões de Estado. O funeral de lorde Nelson, o heroico almirante inglês, aconteceu lá. Como o de sir Winston Churchill. A catedral foi também o cenário do glamouroso, mas malfadado, casamento entre o príncipe Charles e lady Diana Spencer.
Mas a hospitalidade do cônego Fraser durou pouco. Enquanto os manifestantes expandiam seu acampamento, o reverendo Graeme Knowles, deão de St. Paul, anunciou que as portas da catedral seriam fechadas por motivos de "saúde e segurança".
A Igreja Anglicana solicitou uma liminar para expulsar os manifestantes, seguindo o exemplo da City de Londres, também proprietária de parte do terreno.
O reverendo Fraser renunciou. O bispo de Buckingham classificou o fechamento das portas da catedral como "reação histericamente exagerada". Na terça-feira, a Igreja Anglicana voltou atrás. As portas da catedral foram abertas de novo. O deão se demitiu.
O cabido da catedral revogou "unanimemente" a tentativa de obter uma liminar de expulsão. A City de Londres fez o mesmo.
Até mesmo o arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, primaz da Igreja Anglicana, escreveu uma coluna para o jornal britânico "Financial Times" declarando que era hora de "desafiarmos os ídolos das finanças".
Os manifestantes acampados diante da catedral mal conseguiam acreditar em sua sorte. A proximidade, evidentemente, tem suas vantagens.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Drama grego

Editoriais

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A inoportuna iniciativa grega de convocar um referendo sobre o pacote de ajuda causa turbulência e pode agravar ainda mais a crise europeia

É potencialmente explosiva a decisão do primeiro-ministro grego, George Papandreou, de convocar um referendo sobre o pacote de socorro ao país aprovado pelas principais lideranças da zona do euro.
O plano, embora não resolva de forma imediata e definitiva a insolvência do país, o que seria impossível, pode pelo menos salvá-lo de um calote desordenado, com graves consequências para a economia europeia e mundial.
Essa perspectiva, auspiciosa às vésperas da reunião do G20, que ocorre hoje e amanhã em Cannes, foi abalada pelo inesperado anúncio, responsável por novas turbulências nos mercados financeiros.
Embora não se questione o direito soberano do governo grego de promover a consulta -que poderá acontecer antes do final do ano-, a presumível rejeição da proposta desde já vai dissipando as expectativas de controle da situação.
Depois de meses de convulsão social, e de uma pesquisa mostrar que 60% dos gregos são contra as medidas, é difícil crer na aprovação do pacote -que prevê corte de ao menos 100 mil empregos públicos, privatizações e perda de 50% do valor da dívida do governo.
Especialistas estimam que o resultado desse ajuste, que no futuro poderá tornar a economia grega mais competitiva, será uma recessão ao menos até 2013 e taxa de desemprego acima de 20%.
A decisão de convocar o referendo parece ser, antes de tudo, um golpe político, uma tentativa do primeiro-ministro Papandreou de se fortalecer. Ele conta com uma maioria mínima, e volátil, de 152 dos 300 parlamentares gregos e enfrenta insatisfações dentro de seu próprio partido, o Pasok (Partido Socialista Pan-Helênico).
Parte de seus correligionários considera má a condução das medidas de combate à crise -e essa opinião apenas se agravou com a atabalhoada iniciativa da consulta popular.
Está prevista para amanhã uma votação do Parlamento para reafirmar ou não a confiança no premiê. Caso Papandreou não sobreviva, o governo grego será obrigado a antecipar as eleições, que só deveriam ocorrer em 2013. O referendo, assim, iria para as calendas.
Se vencer a votação de amanhã -e levar adiante a ideia, que ainda precisa do aval do presidente-, o premiê grego poderá levar a crise a uma nova e perigosa fase.
A rejeição ao pacote provocaria a suspensão do empréstimo de € 110 bilhões, que tem permitido à Grécia pagar suas contas e dívidas. A mera ideia do referendo, aliás, já levou à suspensão do repasse da próxima parcela do socorro. O inevitável calote imporia perdas enormes a bancos, corporações e, consequentemente, à população. Nesse quadro, seria muito difícil o país prosseguir na zona do euro.
O desfecho do drama grego terá consequências profundas para a economia mundial -e o Brasil não sairia ileso do pior cenário.

Grécia e o pacote anticrise

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Primaveras e inverno grego

VINICIUS TORRES FREIRE




Não é Wall Street, Londres ou Madri; os revoltados da Grécia é que podem balançar a finança global

OCUPAM Wall Street, ocupam o pátio da catedral em Londres, acampam praças em Madri etc. Mas a refrega séria acontece em Atenas. Tenha razão ou sentido, tanto faz, o protesto grego está escaldado em ampla fúria social, leva tumulto à rua e ao Parlamento; em suma, pretende derrubar a presente ordem. Isto é, o governo grego, de fato sob intervenção europeia. Mais importante ainda, os revoltados gregos têm algum poder de levar à breca a finança e a economia mundiais. É o que se tem visto nesta semana, com a piora da crise política no país.
George Papandreou, o primeiro-ministro socialista, pode ter parecido tresloucado ao propor referendo para aprovação do plano europeu. Mas, embora esteja à beira de um colapso político-nervoso, o premiê não é doido nem nasceu ontem. Papandreou lançou uma carta aparentemente desatinada porque está à beira de ser defenestrado. Está para cair, é óbvio, porque estão no fim seu apoio e legitimidade políticos, na rua, no seu Pasok e no establishment gregos.
A Grécia está em recessão faz uns quatro anos. Ficará pelo menos estagnada outros tantos. Todo o modelo de vida dos gregos, seus arranjos políticos e socioeconômicos, decerto absurdos, vão para o vinagre.
Em suma, voltando aos miúdos da vaca fria, Papandreou está para cair ou temia cair em breve. Queria evitar eleições antecipadas, demanda da oposição e até de parte de seus correligionários. O premiê ou queria se legitimar com um plebiscito ou assustar a oposição dentro e fora de seu partido. Pelo jeito, não deu certo o seu golpe -ou gambito.
Mas o que virá agora? A crise política continua. Papandreou parece um morto-vivo. Alemanha e França apenas não querem a sua cabeça porque temem qualquer marola nova. Os socialistas gregos estão à beira de dizer "fora" para o premiê, mas ainda não sabem o que botar no lugar. A oposição de "centro-direita" diz ser contra os planos europeus para a Grécia Alguns dos socialistas adversários de Papandreou estão sugerindo uma espécie de "governo de união nacional". Mas precisam combinar o plano com seus confrades de partido e com a oposição.
Mais ou menos metade dos gregos, a depender da pesquisa, se diz farta dos "socorros" europeus. Quase metade deles votaria "não" ao pacote de União Europeia, Banco Central Europeu e FMI. Cansaram ainda da "intervenção estrangeira". O resumo da ópera é que a revolta nas ruas contagiou a política parlamentar. O tumulto político grego pode até não derrubar sem mais o pacote europeu. Mas os donos do dinheiro grosso no mundo estão à beira de outro ataque de pânico.
Os ditos "mercados" podem de repente "antecipar" o fracasso da tramitação política do pacote na Grécia. Nessa hipótese terminal, os gregos dariam o tal "calote desorganizado", Portugal e talvez Irlanda e Bélgica perderiam o crédito e os juros iriam à lua da falência para Itália e Espanha.
Não, não se trata de dizer que vai acontecer. Mas de ressaltar que a situação é delicada: marolas extras podem afogar todo mundo. A gente viu isso ontem: a mera ameaça distante de um referendo grego sobre o pacote europeu já levou os mercados a "precificar" o tumulto.

China multa artista dissidente alegando impostos atrasados

Ativistas veem a ação como tentativa de amordaçar Ai Weiwei; governo pede que ele pague R$ 4 milhões

O artista, famoso crítico do governo chinês, já havia sido detido sem acusação por 81 dias neste mesmo ano
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

A China ordenou, ontem, que o artista Ai Weiwei, 54, pague 15 milhões de yuan (R$ 4 milhões) devido a impostos atrasados e multas.
Ativistas veem o caso como uma tentativa do governo de amordaçar seus críticos.
O artista é conhecido pelo desenho do estádio olímpico de Pequim, conhecido como "Ninho de Pássaro". Ele é, também, um dos maiores opositores do regime chinês.
Em abril, Ai foi detido no aeroporto de Pequim pela polícia, antes de embarcar para Hong Kong. Ele foi levado a um local desconhecido em que permaneceu por 81 dias.
A China foi duramente criticada devido à prisão do artista. Ele não havia sido acusado pelo país, na ocasião.

SOLITÁRIA
Solto em junho, Ai descreveu sua detenção como uma "tortura mental", afirmando ter sido mantido em confinamento solitário, vigiado por um par de soldados. As luzes, diz, nunca se apagavam.
Ai diz ter recebido a notícia da multa por meio de autoridades fiscais. O motivo seria seu trabalho na empresa Beijing Fake Cultural Development, na qual ele se projetou. O nome, em português, significa "desenvolvimento cultural falso de Pequim".
A empresa é de propriedade de Lu Qing, sua mulher. Ai afirma ter apenas o cargo de designer dentro da firma.

RAZÃO
O artista diz que o governo não mostrou as contas que provam que há impostos evadidos. Ele tem 15 dias para fazer o pagamento -o que afirma que só fará quando tiver de volta os livros contáveis apreendidos pela polícia.
"Podemos pagar esse dinheiro, mas precisamos saber por que temos de fazê-lo", afirmou Ai.
O artista diz, ainda, que a acusação de atraso nos impostos é uma maneira de o governo prejudicá-lo.
Durante o tempo em que ficou detido, aponta, nunca foi interrogado a respeito de suas finanças. As perguntas eram voltadas à sua participação em atos vistos como subversivos, como a organização de protestos no país.

INVESTIGAÇÃO
O artista escreveu ontem no Twitter que o contador da empresa foi ameaçado pelas autoridades chinesas.
Desde que foi solto sob fiança, em junho, Ai é investigado por "crimes econômicos" -que ele diz desconhecer. Ele foi proibido, na ocasião, de falar com a imprensa, escrever no Twitter ou deixar Pequim por um ano.
Logo em seguida, porém, ele violou a proibição e publicou um ensaio na "Newsweek". Sua conta no Twitter tem cerca de 100 mil seguidores, aos quais ele frequentemente critica o governo chinês.
Ai expôs em capitais como Londres, Nova York e Berlim, e arrecadou altas somas por meio de leilão de suas obras e de vendas em galerias.

Olho por olho

Na Albânia, mais de 140 famílias vivem sob ameaça de vingança; prática é autorizada pelo código de conduta conhecido como Kanun

JERONIMO GIORGI
ANGELO ATTANASIO

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, NA ALBÂNIA

"Durante 35 anos fui livre, e agora vivo encarcerado", afirma Bardhyl, um dos 26 homens da família Kola que há mais de um ano não saem de casa, ameaçados pela vingança de sangue.
Na Albânia, sobretudo na montanhosa região norte, a mais pobre do país, assassinatos por vingança ainda são comuns. Trata-se de um direito historicamente regulamentado pelo Kanun -código de conduta transmitido oralmente há mais de 500 anos e que hoje já não é cumprido ao pé da letra.
O Kanun de Lek Dukagjini, o mais difundido entre os cinco existentes, compõe-se de 12 livros que regulamentavam a vida albanesa -da família e trabalho às questões de honra. Durante o regime comunista, o código foi proibido. Com a democracia e a catástrofe econômica de 1996, que causou guerra civil e um longo vácuo de poder, a vingança ressuscitou.
"O Kanun foi mantido na geladeira durante o comunismo, mas o povo não o esqueceu", afirma Luigi Mila, secretário da Associação Justiça e Paz, que em 2010 publicou um estudo que trazia entre suas constatações o fato de que 80% da população albanesa não confia na Justiça.
"A desonra não pode ser vingada por meio de uma indenização, mas sim pelo derramamento de sangue ou por um perdão generoso", dispõe o oitavo livro do Kanun.
O código estabelece três casos nos quais uma família tem direito a se vingar: se um parente for assassinado, se a mulher de alguém for violentada ou se um amigo for assassinado na casa de alguém.
No caso dos Kola, um primo de Bardhyl -com a cumplicidade de três outros familiares, entre os quais seu irmão- assassinou um jovem que o criticava por a família não ter vingado o assassinato de um Kola mais de 15 anos antes. Com a morte do jovem, todos os Kola, ou seja, o pai de Bardhyl, seus seis irmãos e todos os seus descendentes, estão sob ameaça.
Segundo o estudo de Mila, na Albânia existem mais de 140 famílias vivendo sob esse tipo de ameaça, e o motivo é que, de acordo com o Kanun, "a casa do albanês pertence a Deus e ao hóspede", e vinganças não podem ser realizadas em seu interior.
O número ainda assim não reflete a realidade, porque a perda das tradições faz com que muitas famílias ameaçadas optem por não viver trancafiadas. "A lei da vingança de sangue se aplica a todos os varões da família do homicida, mesmo que ainda usem fraldas", dispõe outro artigo do Kanun, mas o medo afeta a todos. Faz um ano que os Kola permanecem encerrados, e não voltarão a viver em liberdade a menos que sejam perdoados ou vingados.
Enquanto isso, Bardhyl e seu filho Ermal, 2, não podem sair de casa. Além disso, Yasmil, 6, a outra filha de Bardhyl, "tampouco queria sair ao jardim, nos 10 primeiros meses, e ficava chorando por trás da cortina", diz Bardhyl, com tristeza.

RECONCILIAÇÃO
"O mediador de sangue é quem se esforça por induzir a família de um assassinado a se reconciliar com a do assassino", dispõe o artigo 134 do Kanun. O envio de um mediador é um direito, e recebê-lo é um dever.
Perdido entre as montanhas do norte da Albânia vive Sokol Dalja, um bajraktari, ou mediador, que, em seus 78 anos de vida, reconciliou cem famílias. "Quando caiu a ditadura, comecei a reconciliar; era necessário, dado o aumento no número de casos de vingança", ele afirma, tirando de uma gaveta em um velho móvel de madeira os certificados dos casos que mediou.
Sokol é um bajraktari porque herdou a profissão do pai, assassinado quando ele tinha apenas dois anos. Aos 17, Sokol promoveu a reconciliação entre sua família e a dos assassinos de seu pai.
"Quando você interioriza a dor, é capaz de reconhecer a dor alheia. Quem não sofre não é capaz de julgar".
Para se aproximar de uma família, "é preciso chegar aos poucos, conhecê-la bem, fazer mil visitas", disse Sokol, enquanto Alexander Kola, também mediador na cidade de Shkoder, afirma que "não há prazo definido; podem se passar seis meses como seis anos". De fato, em 1996 ele promoveu a reconciliação de duas famílias que eram inimigas havia 83 anos.
Mas, para que a reconciliação seja válida, é preciso realizar o "banquete do sangue", na casa do chefe de família do assassino, com a participação de mediadores, parentes e amigos.
O ritual exige que o bajraktari pique o dedo médio dos dois chefes de família, lance um punhado de açúcar sobre as gotas de sangue e veja que os dois envolvidos bebam o sangue um do outro.
Mesmo assim, é difícil promover uma reconciliação, ainda que, como dispõe o artigo 122 do Kanun, "conceder trégua seja um dever digno dos homens fortes".

Tradução de PAULO MIGLIACCI