segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Com aumento dos preços, EUA têm maior 'índice de miséria' em 28 anos

DE SÃO PAULO

O aumento não só dos preços, mas também do desemprego fez os EUA resgatarem o "índice de miséria", termo que tinha caído em desuso nos últimos 20 anos.
O índice é bastante simples (a soma da taxa de inflação com a de desemprego) e atingiu no mês passado o maior patamar desde 1983.
Ainda que a inflação tenha dado grande contribuição para ele chegar a 13 pontos (estava em 9 pontos no fim de 2007, antes de a crise começar), o grande vilão da alta é o mercado de trabalho.
A taxa de desemprego nos EUA ficou em 9,1% em setembro e não dá sinais de ceder, o que promete ser um dos grandes empecilhos para a reeleição do presidente Barack Obama no ano que vem.
O "índice de miséria" médio do governo Obama é similar ao de George Bush (1989-92), o último presidente a não conseguir reeleição.

Ação na Síria causará 'terremoto', diz Assad

Em rara entrevista, ditador diz que eventual intervenção militar de países ocidentais vai gerar 'dez Afeganistões'

Segundo a Otan, porém, a possibilidade de uma zona de exclusão aérea no país, como ocorreu na Líbia, é muito baixa


Ibraheem Abu Mustafa/Reuters
Militantes da Jihad Islâmica no funeral de colegas em Gaza; conflito matou 11 na região

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

O ditador da Síria, Bashar Assad, subiu o tom e advertiu ontem que uma eventual intervenção das potências ocidentais em seu país poderá transformar a região em "dez Afeganistões".
Pressionado por sua violenta repressão aos protestos que tomaram conta do país nos últimos sete meses, Assad afirmou ao jornal britânico "Sunday Telegraph", em rara entrevista, que "um terremoto" vai varrer o Oriente Médio se houver alguma ação contra a Síria.
Foram as declarações mais severas do ditador sírio até agora. "Neste momento, a Síria é o ponto central da região; é a falha geológica. Se você mexer no terreno, vai causar um terremoto", disse. "Você quer ver outro Afeganistão, ou dez Afeganistões?"
Os protestos contra o governo sírio começaram com a Primavera Árabe, que derrubou autocratas na Tunísia, no Egito e na Líbia. Segundo a ONU, a repressão de Assad contra manifestantes deixou mais de 3.000 mortos desde março. Ativistas dizem que as forças sírias mataram mais de 50 civis nas últimas 48 horas. Ontem, autoridades da Otan (aliança militar ocidental) afirmaram que é muito pouco provável o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea na Síria, semelhante à que foi implantada na Líbia, porque uma intervenção em território sírio não obteve consenso internacional nem apoio regional.
Por enquanto, os EUA e seus aliados têm mostrado pouca disposição em intervir, mas propuseram uma resolução na ONU para impor sanções contra o regime. China, Rússia e Brasil se opuseram.
Os países ocidentais "definitivamente vão aumentar a pressão", disse Assad. "Mas a Síria é diferente do Egito, da Tunísia e do Iêmen em todos os aspectos. A história é diferente, a política é diferente."
Ao contrário de Gaddafi, Assad tem vários aliados na região. Um conflito na Síria poderia desencadear turbulência mais ampla no Oriente Médio, envolvendo Irã e Israel. A Síria é o maior aliado do Irã e tem ligações com o Hizbollah, do Líbano, e o Hamas, que controla Gaza.

Subsídio secular

Prorrogar isenções da Zona Franca de Manaus até 2050 só atende a políticos locais e a empresários acostumados com os favores estatais

O melhor destino da Zona Franca de Manaus seria o seu fim. É desejável que a economia do Amazonas possa caminhar com as suas próprias pernas, independente do artifício custoso e ineficaz das isenções de impostos. Sem tais subsídios, as indústrias se distribuiriam em regiões mais próximas dos centros de consumo, com melhor infraestrutura e mão de obra.
Tão evidente como esse imperativo teórico é o fato de que será impossível, ainda por muitos anos, desmontar tal arranjo sem provocar um imediato desastre humano e ambiental na região, pois a economia local praticamente sobrevive à base de incentivos estatais.
Mas prorrogar a existência da Zona Franca de Manaus (ZFM) até 2050, como quer a presidente da República, cria um incentivo para que se procrastinem outra vez mais as mudanças necessárias à autonomia econômica da região.
A ZFM foi criada em 1957, mas se tornou viável com as isenções fiscais de 1967, que deveriam durar 30 anos. Sua sobrevida foi decretada em 1986 (para 2007), incluída na Carta em 1998 e de novo em 2003 (para 2013).
Houve alguma melhora no projeto inicial, decerto. Passou-se a exigir grau mínimo de nacionalização de mercadorias, a criação de cadeias produtivas locais e o investimento em pesquisa. Nos governos FHC e Lula, buscou-se o desenvolvimento de centros de pesquisa e de formação técnica voltados a uma possível vocação regional, a indústria biotecnológica.
Mas são muito insatisfatórios os resultados desses esforços de décadas, que podem durar um século, até 2050, agora com o apoio de Dilma Rousseff, que subscreveu projeto de emenda constitucional com esse fim. Mesmo com todos os incentivos e políticas industriais, a ZFM exporta apenas 3% do seu faturamento -não é, portanto, competitiva.
Dados fatores como câmbio, recessão mundial e disputas com outros Estados, o deficit comercial externo do Amazonas cresce velozmente. Dos cerca de US$ 2,5 bilhões da primeira metade da década de 2000, foi a US$ 9,9 bilhões em 2010 e deve passar de US$ 11 bilhões neste ano.
É preciso estabelecer metas de melhorias e prazos mais curtos para a vigência dos subsídios, além de um plano de apoio ao desenvolvimento local. A região de Manaus padece da carência de vias de transporte, de fornecimento precário (e aliás subsidiado) de energia, segurança e saneamento.
Os avanços da região deveriam ser medidos, no máximo, aos quinquênios. Prorrogar simplesmente a Zona Franca de Manaus até 2050 não passa de um favor aos políticos locais e aos empresários que se beneficiam das benesses tributárias.

Comissão da Verdade

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Projeto que cria a Comissão da Verdade avança no Senado

DITADURA

DE BRASÍLIA - Após acordo entre governo e oposição, a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado aprovou, por unanimidade, o projeto que cria a Comissão da Verdade. O texto deve ser votado em plenário até semana que vem.
O órgão terá dois anos para formular uma narrativa oficial das violações aos direitos humanos entre 1946 e 1988, o que inclui as perseguições da ditadura militar (1964-1985).
Os senadores aprovaram parecer do oposicionista Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), ex-guerrilheiro de esquerda. Ele atendeu ao governo e não alterou o conteúdo do texto aprovado na Câmara, em setembro. Os senadores Pedro Taques (PDT-MT), Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) e Ana Rita (PT-ES) criticaram o projeto e podem propor mudanças em plenário.
Taques quer que a comissão tenha o poder de punir ex-torturadores. Aloysio disse que o texto não impede futuras punições. "A comissão não é tribunal. Se alguém quiser utilizar o trabalho como base e acionar o Judiciário, o Judiciário não pode ser impedido de avaliar."
O ex-deputado José Genoino (PT-SP), que também foi guerrilheiro e negocia em nome do governo, defendeu a participação de militares na comissão.
"A comissão não é palco de enfrentamento do passado. É a memória olhando para o futuro", disse.

99%

KENNETH MAXWELL

Joseph Stiglitz, economista ganhador do Nobel, recebeu o crédito pelo título "99%", que foi assumido pelo Ocupe Wall Street e que faz referência à sua afirmação de que 1% dos cidadãos dos EUA controlam 40% da riqueza do país.
Faz apenas um mês que mil manifestantes se instalaram em Wall Street para expressar sua indignação diante da cobiça das grandes empresas e da desigualdade social. Montaram acampamento no Zuccotti Park, no centro financeiro de Manhattan.
O protesto se espalhou para 900 cidades de todo o planeta no final de semana passado. Muitas das manifestações foram inspiradas e coordenadas pela campanha do Ocupe Wall Street.
Em Londres, um acampamento foi montado pelos manifestantes no pátio diante da catedral de St. Paul, cujo grande domo domina o panorama da cidade desde que o edifício foi construído, depois do grande incêndio londrino de 1675.
Os manifestantes foram impedidos pela polícia de ocupar a praça Paternoster, ao lado da catedral, onde há um empreendimento imobiliário controlado pela Mitsubishi Estate Co. e que abriga a Bolsa de Valores de Londres e a sede britânica do banco Goldman Sachs. Mas as autoridades eclesiásticas intercederam e anunciaram que os manifestantes estavam autorizados a se acomodar nos terrenos da igreja, que abarcam boa parte da praça diante da catedral.
Os atos em Londres vêm sendo, em geral, pacíficos, o que contrasta fortemente com os violentos tumultos de agosto. O presidente da Federação Alemã dos Bancos disse ao jornal "Financial Times" que os protestos "desviam a atenção do problema fundamental: o fato de que já não temos como bancar nossos Estados de Bem-Estar Social".
Não foi exatamente uma declaração conciliadora. Nova York e Londres estão longe de ser as primeiras cidades a abrigar protestos contra a cobiça das grandes empresas e bancos, tampouco podem ser consideradas como exemplos desse tipo de manifestação.
Na Grécia, violentos confrontos de rua vêm ocorrendo há meses. Em Madri, os "indignados" estão acampados na praça Porta do Sol desde maio, e suas manifestações inspiraram protestos em outros lugares da Espanha.
Em Santiago (Chile), milhares de estudantes secundaristas e universitários vêm exigindo uma grande reforma no sistema educacional, entrando em choque com a polícia repetidamente. Em Roma, 200 mil pessoas se manifestaram, com violência generalizada.
Mesmo em Chicago, 175 pessoas foram detidas no Grant Park, local de notórios confrontos entre manifestantes e policiais na infame convenção presidencial do Partido Democrata em 1968. Não é uma lembrança auspiciosa.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras na Folha de São Paulo

Tradução de PAULO MIGLIACCI 

O destino do chavismo

Editoriais

editoriais@uol.com.br

A um ano da eleição presidencial na Venezuela, em outubro de 2012, a maior incógnita é o estado de saúde do presidente Hugo Chávez, que enfrenta um câncer.
Passados quatro meses desde que a doença do caudilho se tornou pública, as informações permanecem escassas. Depois de sustentar por quase um mês que havia operado um abcesso pélvico, Chávez admitiu tratar-se de câncer.
Desde então, viaja com frequência a Cuba, onde se trata. Passou por uma bateria de exames no início da semana, cujos resultados não foram divulgados -ainda que o tivessem sido, seria difícil confiar na sua veracidade, dado o histórico do regime chavista.
A evolução do quadro de saúde do líder venezuelano terá grande influência na disputa. Se conseguir vencer a doença, sua imagem de político que enfrenta e ganha todos os embates -do golpe em 2002 ao câncer de agora- sairá fortalecida. Na hipótese de chegar combalido, o mito se enfraquece.
Prevalece por ora a empatia do eleitorado com o político que luta pela vida. Pesquisas mostram alta de dez pontos na avaliação do governo, para perto de 60%, desde que a doença foi revelada. A intenção de voto em Chávez também aumentou, de 30% para 40%.
O mandatário enfrentará, contudo, sua mais difícil eleição desde que chegou ao poder, há 12 anos. Está distante o auge do chavismo, de meados da década passada, quando o boom do petróleo impulsionou a economia de um produto só e a retórica populista espraiou-se por países vizinhos.
A Venezuela registrou recessão por dois anos seguidos -o PIB recuou 3,2% em 2009 e 1,5% em 2010. A expectativa é que cresça menos de 3% neste ano, com inflação anual de 30% e apagões de energia elétrica quase diários.
A oposição, de seu lado, deixou de ser irrelevante. O governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles, considerado "centrista", aparece empatado com Chávez em algumas pesquisas. Ainda barrado na Justiça aparelhada pelo chavismo, Leopoldo López, ex-prefeito de Caracas, é outro nome forte.
O regime de Hugo Chávez parece mais vulnerável do que nunca esteve em uma década.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

PIB volta a desacelerar na China para um 'pouso suave'

Crescimento de julho a setembro foi de 9,1%

FABIANO MAISONNAVE
DE PEQUIM

A economia da China registrou ligeira desaceleração no trimestre passado, reforçando a avaliação de que o governo está conseguindo posicionar o país para um "pouso suave".
O PIB do principal parceiro comercial do Brasil aumentou 9,1% de julho a setembro em relação ao mesmo período do ano anterior. É o terceiro trimestre consecutivo em que o avanço do PIB chinês diminui o ritmo. De abril a junho, o crescimento foi de 9,5%, enquanto no primeiro trimestre deste ano a taxa foi de 9,7%.
O desempenho abaixo do esperado (previsões apontavam 9,2%) teve impacto negativo nas Bolsas da região. O comportamento da economia chinesa tem sido acompanhado em Brasília. Na semana passada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o maior risco externo para o Brasil é a desaceleração do gigante asiático, que é desde 2009 o maior comprador das exportações brasileiras.

PIB volta a desacelerar na China para um 'pouso suave'

Crescimento de julho a setembro foi de 9,1%

FABIANO MAISONNAVE
DE PEQUIM

A economia da China registrou ligeira desaceleração no trimestre passado, reforçando a avaliação de que o governo está conseguindo posicionar o país para um "pouso suave".
O PIB do principal parceiro comercial do Brasil aumentou 9,1% de julho a setembro em relação ao mesmo período do ano anterior. É o terceiro trimestre consecutivo em que o avanço do PIB chinês diminui o ritmo. De abril a junho, o crescimento foi de 9,5%, enquanto no primeiro trimestre deste ano a taxa foi de 9,7%.
O desempenho abaixo do esperado (previsões apontavam 9,2%) teve impacto negativo nas Bolsas da região. O comportamento da economia chinesa tem sido acompanhado em Brasília. Na semana passada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o maior risco externo para o Brasil é a desaceleração do gigante asiático, que é desde 2009 o maior comprador das exportações brasileiras.

Venezuela multa emissora de oposição por cobertura de motim

Globovisión terá de pagar R$ 3,8 milhões; SIP condena medida

FERNANDO RODRIGUES
FLÁVIA MARREIRO

ENVIADOS ESPECIAIS A LIMA

A Conatel (Comissão Nacional de Telecomunicações) da Venezuela impôs ontem multa equivalente a R$ 3,8 milhões à TV oposicionista Globovisión como pena por supostamente ter feito "apologia ao crime" e incitado "à agitação civil" durante a cobertura da rebelião do presídio Rodeo 2, em junho.
O presidente da Conatel, Pedro Maldonado, afirmou que a multa equivale a 7,5% do faturamento bruto da emissora em 2010 e que a sanção é executável de forma imediata. A TV pode recorrer da medida na Justiça.
A vice-presidente da Globovisión, María Fernanda Flores, afirmou que a multa é "impagável" e acusou o governo de querer "quebrar moralmente" o canal, um dos mais ferrenhos críticos do presidente Hugo Chávez e alvo de várias sanções. Segundo a Conatel, a Globovisión exibiu mais de 300 vezes depoimentos dramáticos de familiares dos detidos no Rodeo 2. O governo perdeu o controle do presídio no começo de junho e a rebelião se arrastou por um mês. A SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa) criticou duramente a decisão.
"É uma medida para estrangular financeiramente [a TV]", afirmou Milton Coleman, do "Washington Post", eleito novo presidente da entidade durante a 67ª Assembleia Geral da SIP encerrada ontem, em Lima, no Peru. A organização, que representa jornais e revistas do continente, aprovou 14 resoluções, entre elas um texto que cobra o fim da impunidade de crimes contra jornalistas no Brasil e na região.
Cinco páginas são dedicadas a 19 casos de assassinatos de jornalistas brasileiros nas últimas décadas. De acordo com o levantamento da SIP, 24 jornalistas foram assassinados na região em 2011 -4 no Brasil. A SIP também exigiu o fim da censura ao "O Estado de S. Paulo", proibido de publicar reportagens sobre operação da PF que cita familiares de José Sarney (PMDB-AP).

Chile invocará lei mais rígida contra protesto estudantil

Governo pede que responsáveis por incendiar ônibus na capital sejam julgados pela Lei de Segurança do Estado

É a primeira vez que Sebastián Piñera usa legislação da ditadura contra manifestações; paralisação segue hoje

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

O governo chileno decidiu invocar a Lei de Segurança do Estado contra os manifestantes que incendiaram ontem um ônibus em Santiago, no início da jornada de 48 horas de protestos convocada por líderes estudantis.
A lei de caráter excepcional, que remete à ditadura, criminaliza situações que, normalmente, não teriam caráter de delito -como greve de servidores. No caso dos responsáveis por incendiar o ônibus, ela deverá amplificar a gravidade da ação.
"Não estaríamos cumprindo nossa obrigação se, ao apresentar uma ação judicial, não invocássemos essa lei", afirmou o ministro do Interior, Rodrigo Hinzpeter.
Segundo ele, o fato de os envolvidos terem "interceptado e ateado fogo ao ônibus para aterrorizar os passageiros" já faz com que o crime seja considerado pelo artigo 6º da lei extraordinária.
O ônibus da Transantiago foi incendiado nas proximidades da Faculdade de Humanidades da Universidade do Chile. Apenas o motorista teve ferimentos leves.
Os manifestantes ainda armaram barricadas em mais de dez pontos da capital, o que paralisou o trânsito. Houve confrontos com a polícia e um fotógrafo da France Presse foi detido ao registrar a prisão de um manifestante. Esta será a primeira vez que o governo Piñera invoca a Lei de Segurança contra os protestos estudantis, que já duram cinco meses. Em janeiro, porém, a decisão foi tomada contra manifestantes que bloquearam estradas na região de Magalhães, por uma semana devido ao aumento no preço do gás natural.
A paralisação e os protestos seguem hoje na capital.

Os doidos sábios e os sábios doidos

ELIO GASPARI




Como sempre, o ronco da rua parece desconexo, coisa de quem persegue causas perdidas


O ZUCCOTTI Park, a dois quarteirões de Wall Street, é pouco menor que um campo de futebol. Há três semanas, quem passava por lá, via a fauna das causas perdidas.
Colchões no chão, batuque e até uma vuvuzela. Um cabeludo flanava no seu skate e uma jovem vestia camiseta e calcinha de flores (um biquíni de vovó, se comparado aos fios dentais). Havia uma estranha ordem naquele caos. Os canteiros de flores, intocados, e jovens (uma de luvas) recolhiam o lixo.
Os doidos do "Ocupe Wall Street" espalharam-se por 82 países, de Roma a Taiwan. Em todos os lugares, a pergunta é uma só: qual é a agenda dessa gente?
Nesta semana o ilustrador Barry Blitt (aquele que durante a campanha eleitoral de 2008 desenhou um Obama muçulmano e Michelle com uma metralhadora a tiracolo) matou a charada na capa da revista "The New Yorker". Cinco banqueiros de cartola empunham cartazes, e um deles pede: "Deixe as coisas precisamente como estão".
E elas estão assim: com o país tecnicamente fora da recessão, a taxa de desemprego americana está em 9%, a maior desde os anos 40, excetuado um breve repique nos anos 80. Os lucros das corporações estão no maior nível dos últimos 70 anos, mas os salários bateram no mais baixo patamar desde 1960.
Todos os indicadores de renda do andar de cima vão bem, mas querem mandar a conta da ruína para o andar de baixo, cortando políticas sociais, tanto nos Estados Unidos como na Europa.
A patuleia do parque é o novo personagem da crise. Não tem agenda? Em 1967, numa marcha contra a Guerra do Vietnã, o poeta Allen Guinsberg propôs que as energias dos manifestantes fossem concentradas para fazer levitar o prédio do Pentágono. O Pentágono não levitou, mas o presidente Lyndon Johnson desistiu de concorrer à reeleição. Em 1989, os tchecos manifestavam-se chacoalhando chaveiros.
Nem os doidos do parque acham que o companheiro Obama desistirá da reeleição, mas ele parece não ter entendido o ronco da rua.
No domingo, inaugurando o monumento a Martin Luther King (outro doido), disse que não se deve satanizar "todos aqueles que trabalham" em Wall Street. Blá-blá-blá, pois ninguém está protestando contra todos os operadores do papelório, mas contra o que a turma do papelório fez à economia mundial, emprestando dinheiro a quem não podia pagar, na certeza de que a parolagem do "risco sistêmico" impediria que fossem à garra. Nos anos 80, salvou-se a ciranda dos sábios da banca quebrando-se a América Latina, inclusive o Brasil.
Agora os Estados Unidos e a Europa estão provando o velho veneno e não gostam dos seus efeitos. À época, a mágica foi praticada por Paul Volcker, o presidente do Banco Central americano.
Em 2008, aos 81 anos, ele assessorava Obama. Não havia por que passar a conta adiante, e ele propunha que se baixasse o chanfalho na banca. A certa altura, tratava-se de deixar que o Citibank quebrasse. Obama vacilou, Volcker foi-se embora, e o resultado está aí. A sabedoria dos sábios tornou-se maluquice e entraram em cena os doidos, como sábios.




Serviço: saiu nos Estados Unidos um excelente livro expondo as brigas e a falta de rumo da Casa Branca durante o governo Obama. Chama-se "Confidence Men" ("Homens de Confiança - Wall Street, Washington e a Educação de um Presidente"). Seu autor é o premiado jornalista Ron Suskind. O e-book, em inglês, custa US$ 12,99.

Trabalho

ANTONIO DELFIM NETTO

O principal divisor de águas entre os economistas reside nas suas "crenças" sobre o problema do desemprego involuntário. De um lado, estão os que acreditam que, deixado este a si mesmo, os mecanismos de mercado, com tempo suficiente, tendem a eliminá-lo. De outro, os que não acreditam nessa tendência natural: deixado a si mesmo, sem a intervenção do Estado, ele pode perpetuar-se por falta de demanda efetiva.
A experiência que estamos vivenciando sugere que os fatos recusam muito mais a primeira hipótese que a segunda.
Nossa atual organização social é produto de um processo histórico. O homem, ao construir o mundo, com seu trabalho, exerce uma pressão seletiva no sentido de aumentar a sua liberdade de expressão, o que exige cada vez mais eficácia produtiva.
Há uma evolução simultânea, civilizatória e quase biológica que amplia o altruísmo e a solidariedade social exatamente porque a cooperação é mais "produtiva" e libera mais tempo para a expressão criativa do homem.
Uma das construções mais impressionantes de Marx é a sua leitura do papel do trabalho nos "Manuscritos", de 1844, antes de ele ter sido seduzido por Ricardo. O trabalho é o processo pelo qual o homem se produz e projeta para fora de si as condições de sua existência e a sua capacidade de transformar o mundo.
No atual estágio evolutivo, a sociedade se divide entre os que têm capital (e "empregam" o trabalho em troca de salário) e os que detêm a força de trabalho (e só podem utilizá-la "alugando-a" ao capital em troca de salário).
Com as políticas sociais, o Estado do Bem-Estar transformou (transitoriamente!) o sistema salarial alienante de Marx no símbolo da segurança do trabalho. Ele dá, por sua vez, a garantia para o funcionamento das instituições da nossa organização social, particularmente os mercados e a propriedade privada.
Os economistas precisam incorporar, como disse Mauss ("Sociologie et Anthropologie", 1950), que o trabalho é o "fato global". O desemprego involuntário é o impedimento insuperável de o cidadão incorporar-se à sociedade. Por motivos que independem de sua vontade, ele não pode sustentar honestamente a si e à sua família. O desemprego involuntário é o "mal social global".
Não importam filosofia ou ideologia. No presente estágio evolutivo da organização social, que o homem ainda procura fazer florescer plenamente a sua humanidade, é a natureza e a qualidade do seu trabalho que o colocam na sua posição social e econômica, que afetam sua situação física e emocional e que determinam o nível do seu bem-estar.
É por isso que o desemprego involuntário é o problema contra o qual os economistas têm que lutar.

Democracias disfuncionais

FERNANDO RODRIGUES

LIMA - O presidente do Peru, Ollanta Humala, disse nesta semana que "a democracia não é incompatível com a liberdade de expressão". O conceito é curioso.
Equivale a dizer que "a democracia não é incompatível com a justiça". É um truque. Pronuncia-se um truísmo de maneira enviesada para ressaltar a pouca convicção de quem o exprime. Justiça e liberdade de expressão são partes integrantes da democracia. Incompatibilidade não está em questão.
Humala falou aqui em Lima na abertura da 67ª Assembleia Geral da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa). Estava à frente de dezenas de donos de jornais e revistas do continente, muitos ultraconservadores. A presença do presidente peruano foi logo interpretada como uma demonstração de boa vontade. Um sinal de que o Peru não seguirá o caminho de confrontação como o de alguns países vizinhos.
Mas havia um ar de ressentimento na cerimônia. Além de sua curiosa definição sobre liberdade de expressão, Humala estava na defensiva. Ao seu lado, o presidente da SIP, Gonzalo Marroquín, acusou os governos da Argentina, da Bolívia, do Equador e da Venezuela de "trair" os "princípios democráticos e a liberdade de expressão". Todos são aliados de Humala.
A América Latina passa por um momento paradoxal. Depois de vários ajustes econômicos nos anos 80 e 90, vários países (Peru incluso) estão, em tese, prontos para desempenhar um papel decisivo neste momento de incertezas financeiras no mundo desenvolvido.
Ainda assim, a aversão em promover um ambiente de mais liberdade confere uma imagem disfuncional a certas democracias latinas.
O Peru é um desses casos e não está sozinho. Ollanta Humala tem tentado emular um pouco a travessia empreendida por Lula, da esquerda para o centro. A conversão parece estar em curso. Só que o processo ainda não se consumou por completo.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Cristina tenta reaver maioria no Congresso

A ARGENTINA VOTA

No domingo, além da Presidência, eleição incluirá metade da Câmara, um terço do Senado e nove governadores

Governo quer aprovar leis com mais folga; aliados já falam em derrubar o limite à reeleição da presidente

LUCAS FERRAZ
SYLVIA COLOMBO

DE BUENOS AIRES

Além de confirmar a provável reeleição de Cristina Kirchner, os argentinos irão às urnas no domingo (23) para renovar metade da Câmara e um terço do Senado -além de eleger os governadores de nove das 23 províncias. O novo Congresso tomará posse em dezembro.
A votação definirá a formação do novo Congresso e o poder da base kirchnerista para promover reformas como uma alteração na Constituição para instituir a reeleição indefinida, proposta defendida por alguns aliados.
O governo busca reverter o revés das eleições legislativas de 2009, quando perdeu a maioria no Congresso após a crise com produtores rurais por causa da alta nos tributos de exportação. O episódio levou ao rompimento de Cristina com seu vice, Julio Cobos, que preside o Senado.
O primeiro objetivo de Cristina na eleição legislativa é comum: não ter dificuldade para aprovar projetos do Executivo. De 2005 a 2009, o kirchnerismo tinha maioria no Legislativo e uma certa tranquilidade para aprovar leis da sua agenda, como a que prevê acabar com o que considera monopólio da mídia.
Segundo as projeções mais conservadoras, o governo deve obter cerca de 132 das 257 cadeiras da Câmara e 38 das 72 vagas do Senado -aumento total estimado em 40%.
Os candidatos da oposição à Presidência, conformados com a derrota prevista, fazem campanha pedindo votos para seus candidatos ao Congresso, como forma de limitar o poder de Cristina em um eventual segundo mandato.
Com a possível adesão de outros congressistas, como os peronistas dissidentes (atualmente não alinhados com a Casa Rosada), a base kirchnerista poderia superar os dois terços dos membros do Congresso, obtendo uma "maioria qualificada" que permitiria, por exemplo, reformar a Constituição.
Ministros e a presidente ainda não se manifestaram sobre o tema, mas muitos deputados aliados já defendem abertamente reforma para permitir a reeleição indefinida -quando governou a província de Santa Cruz, nos anos 90, o kirchnerismo mudou duas vezes a Constituição local com esse fim.
"Alterar a Constituição é um assunto que sempre aparece. O governo, ao ficar calado, incentiva esse debate, que é ótimo para eles", diz o analista Sergio Berensztein.
"Sugerir a reeleição neste momento seria afastar alguns apoios importantes, principalmente de eventuais candidatos a sucedê-la, como Daniel Scioli (atual governador da província de Buenos Aires) ou Rodriguez Sáa (governador de San Luis)", afirma o sociólogo Marcos Novaro.

Tribunal da Venezuela barra rival de Chávez

Leopoldo López havia se lançado candidato à Presidência em 2012

Tribunal Supremo de Justiça rejeita decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos de permitir candidatura

FLÁVIA MARREIRO

ENVIADA ESPECIAL A LIMA

O Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela considerou ontem "inexequível" a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos que obriga o Estado venezuelano a permitir a candidatura a cargos públicos do presidenciável oposicionista Leopoldo López.
A posição praticamente liquida as esperanças de López de concorrer à sucessão de Hugo Chávez, em 7 de outubro de 2012.
Ex-prefeito de Chacao, um dos municípios que formam Caracas, López lançou no mês passado sua candidatura para disputar as primárias da coalizão oposicionista, previstas para fevereiro.
De acordo com as pesquisas de opinião, López, 40, aparece em terceiro lugar.
Em setembro, uma decisão inédita da CIDH, corte independente ligada à OEA (Organização dos Estados Americanos), afirmou que a inabilitação política do ex-prefeito foi ilegal por se basear numa decisão administrativa, e não em uma sentença judicial definitiva.
Ontem, o TSJ afirmou que López mantém seus direitos políticos mesmo estando proibido de concorrer a cargos públicos. Só em 2014 o oposicionista, acusado de corrupção, poderia ser candidato.
A Venezuela reconhece na Constituição a existência do sistema interamericano, mas tem dito que a CIDH é um instrumento da oposição política internacional.
López não havia feito declarações sobre o tema até o fechamento desta edição.
Em entrevista recente à Folha, ele rejeitou a ideia de desistir da pré-candidatura: "Como vou liderar os venezuelanos em direção às mudanças, propor 'levantem-se, vamos lutar por nossos direitos', se eu não defendo meus próprios direitos?"

Voto nulo lidera, e Evo perde na Bolívia

Números extraoficiais apontam anulação de 45% em pleito para o Judiciário, na maior derrota eleitoral do presidente

Votação é novo capítulo de crise governista, que inclui protestos contra estrada financiada pelo Brasil dentro de reserva
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

Números extraoficiais da inédita eleição para o Judiciário na Bolívia, realizada anteontem, apontam que 62% dos eleitores anularam o voto (45%) ou votaram em branco (17%), recorde no país.
O resultado é a primeira grande derrota política de Evo Morales desde que assumiu a Presidência, em 2006, embora não invalide o pleito.
Os índices, baseados em pesquisa do instituto Ipsos Apoyo, foram divulgados pela ATB, rede de TV privada. O Tribunal Eleitoral boliviano informou que não divulgará resultados oficiais antes do próximo fim de semana.
A oposição boliviana, que contesta o pleito, reivindicou a sua anulação, devido ao total de votos não válidos -pedido rechaçado pelo governo, que considera o comparecimento representativo.
Segundo o ministro do Interior, Wilfredo Chávez, muitos candidatos obtiveram "dezenas de milhares de votos", o que, segundo ele, dá legitimidade à votação e é mais democrático que o sistema anterior, em que os juízes eram escolhidos diretamente pelos congressistas.
A votação para o Judiciário, sem precedente na história do país, tem o objetivo de escolher numa lista de 116 candidatos 28 integrantes de altos cargos nas cortes.
Metade dos candidatos é mulher, e muitos são de origem indígena. Evo classificou a votação como "fundamental para a refundação da Bolívia". Os oposicionistas defenderam o voto nulo porque a lista de candidatos foi elaborada pelo Congresso, controlado pelo governo.
Anteontem à noite, o presidente disse que "o boicote às eleições falhou" e destacou o comparecimento do eleitorado -que, na verdade, é sempre elevado, já que o voto é obrigatório. A Bolívia tem 5,2 milhões de eleitores.

CRISE GOVERNISTA
O revés na eleição de domingo é mais um capítulo da crise no governo Evo Morales -que, reeleito em 2009 com 64% dos votos, hoje tem o apoio de metade desse percentual, segundo sondagens.
No final do ano passado, o anúncio de que o governo aumentaria em até 84% os preços dos combustíveis provocou reclamações em todo o país e obrigou Evo a desistir de fazer o reajuste.
No mês passado, a violenta repressão policial ao protesto indígena contra a construção de uma estrada -financiada pelo Brasil- no meio de uma reserva ecológica resultou na renúncia de ministros e em insatisfação na base de apoio do governo.

Quênia invade Somália em ofensiva contra extremistas

Tropas do país africano foram enviadas para combater grupo Al Shabab

Organização radical, ligada à Al Qaeda, é acusada de estar por trás de sequestros de estrangeiros na região
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

O Quênia lançou uma ofensiva militar sem precedentes ao grupo extremista Al Shabab, ligado à rede Al Qaeda. Dezenas de tanques, veículos militares e helicópteros carregados de soldados ocuparam o sul da Somália, no fim de semana.
A ordem é expulsar as forças rebeldes dentro de 100 km de distância da fronteira.
"Se você é atacado por um inimigo, você tem o direito de persegui-lo. Vamos expulsá-los para longe de nossa fronteira", disse ontem o ministro da Defesa Yusuf Haji ao jornal local "Daily Nation".
As autoridades quenianas acusam o Al Shabab por uma série de recentes sequestros no norte do Quênia. Na última quinta-feira (13), duas funcionárias da ONG Médicos Sem Fronteiras foram sequestradas no campo de refugiados de Dadaab.
É o terceiro sequestro de estrangeiros no Quênia em um mês. O Al Shabab, porém, nega envolvimento nos casos.
O grupo divulgou nota ameaçando ataques de retaliação se as tropas não se retirarem da Somália. "A vida de milhares de quenianos corre perigo", declarou.
O número de quenianos enviados é mantido em sigilo. Mas o Quênia não descarta acionar a Força Aérea e a Marinha. A operação é apoiada pelas tropas da UA (União Africana) e do GFT (Governo Federal Transitório) da Somália, que controla Mogadício.

China pede uma 'reflexão' sobre 'Ocupe Wall Street'

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

O Ministério das Relações Exteriores da China disse que os protestos mundiais em apoio ao movimento "Ocupe Wall Street" geraram uma "reflexão" importante.
"Acreditamos que há muitas questões aí sobre as quais as pessoas deveriam pensar", disse o porta-voz do ministério chinês, Liu Weimin.
A China é uma ditadura que não permite protestos, mas está em guerra verbal com os EUA por conta da cotação de sua moeda.
Weimin ponderou, porém, que a reflexão deve ser focada para garantir a continuidade do crescimento econômico mundial.
Apesar das declarações favoráveis das autoridades e da mobilização de militantes em redes sociais, não aconteceram manifestações em solidariedade ao "Ocupe Wall Street" em território chinês, com exceção de Hong Kong.
Os "indignados" de Wall Street estão acampados há um mês no parque Zuccotti, em Nova York. O movimento já conseguiu mobilizar a opinião pública mundial e angariar US$ 300 mil, apesar de não ter uma demanda específica. No último fim de semana, atos de apoio foram registrados em 82 países.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu aos líderes políticos que escutem a mensagem propagada pelos manifestantes.

Cabo Anselmo diz que revelaria nomes à Comissão da Verdade

Na TV, ele se dispõe a falar 'tudo' se forem ouvidos os dois lados

DE SÃO PAULO

Mais célebre agente duplo a serviço da ditadura (1964-1985), José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo, abriu caminho para revelar nomes de colaboradores da repressão militar em uma futura Comissão da Verdade.
Em entrevista ontem na reestreia do programa "Roda Viva", da TV Cultura, agora sob o comando do jornalista Mario Sergio Conti, cabo Anselmo impôs apenas uma condição: que a comissão não seja apenas "de um lado".
"Estou disposto a contar tudo desde que a Comissão da Verdade seja composta por gente tanto da direita quanto da esquerda", disse o ex-militar, que estima ter contribuído para a morte de até 200 pessoas durante o período do regime militar.
"Se querem saber alguns detalhes operacionais, seria muito interessante buscar nos agentes do Dops [Departamento de Ordem Política e Social] que ainda estão vivos", disse, no programa.
Ele ainda sugeriu que a comissão investigue auxiliares diretos do ex-delegado do Dops Romeu Tuma, morto no ano passado.
Anselmo, que em outras ocasiões disse ter colaborado com o governo militar apenas a partir da década de 70, voltou a cobrar anistia do governo federal e um ressarcimento pelo tempo que ficou fora da Marinha.
"Se houve uma anistia, a expulsão deixou de existir. Logo, esse tempo que deixei de ficar na Marinha deveria ser ressarcido", disse Anselmo, que vive sem identidade desde que foi expulso da Marinha por liderar uma rebelião em 1964.
Isento de arrependimento por colaborar com a ditadura, ele diz que pensava contribuir "para abreviar a insanidade da luta armada".
Anselmo conta que "havia toda uma trama política entre os marinheiros" para que chegassem àquela situação, e diz que não tinha consciência do que representava o motim na época.
O movimento precipitou a queda do presidente João Goulart e o golpe militar.
Sem citar nomes, o ex-militar disse que hoje em dia vive graças a recursos que recebe de três empresários.

Inflação de prestígio

VLADIMIR SAFATLE

"Enquanto eu cobrava R$ 100 por sessão, tinha poucos pacientes. Quando comecei a cobrar R$ 200, por incrível que pareça, os pacientes afloraram." Esta afirmação de um amigo psicanalista talvez valha um capítulo na teoria geral da formação de preços, ao menos no Brasil.
A mudança no preço de sua sessão não foi o resultado de alguma nova conformação das dinâmicas de oferta e de procura. Ela foi, na verdade, a descoberta de que, em países com alta concentração de renda, certas pessoas estão dispostas a pagar mais simplesmente devido à crença de que as coisas caras foram feitas para ela.
Por mais que economistas gostem de dizer o contrário, a ação econômica é baseada em sistemas de crenças e expectativas cuja racionalidade é fundada em fortes disposições psicológicas "irracionais"-pois estão ligadas a fantasias.
Atualmente, alguns dos aluguéis mais caros do mundo podem ser encontrados em cidades improváveis como, São Paulo, Moscou e Luanda (capital angolana).
A razão é que tais sociedades emergentes crescem com alta desigualdade de renda, o que faz com que uma parcela mínima da população, com poder aquisitivo exorbitante, puxe para cima a cadeia de preços. Para o resto da população, melhor seria que essa parcela simplesmente não existisse.
Qualquer pessoa que frequenta restaurantes nessas cidades percebe que a disparada de preços pouco tem a ver com a flutuação do valor dos alimentos. Nossos agricultores continuam recebendo, em larga medida, valores irrisórios. Tal disparada vem da existência de pessoas que não sentem diferença entre pagar R$ 30 ou R$ 70 por um prato. Mobilizando a crença de que as coisas caras são exclusivas, elas geram, assim, um forte problema econômico.
Há de perguntar-se por que, sendo a inflação uma questão tão premente na vida nacional, nunca encontramos reflexões sobre a relação, aparentemente tão evidente, entre pressão inflacionária e desigualdade social.
Ao contrário, vê-se apenas pessoas dispostas a falar contra os "gastos públicos", isto em um país onde, vejam só vocês, escolas e saúde pública são subfinanciadas e grandes investimentos públicos em infraestrutura são urgentes.
Talvez um dia descobriremos que a economia brasileira só estará mais bem defendida contra a inflação quando a desigualdade e o consumo conspícuos que ela gera forem realmente combatidos.
O que é melhor do que reduzir os mecanismos de controle da pressão inflacionária à definição de taxas de juros, pois a disparidade de renda, além de gerar fratura social e conflito de classe, é fator de instabilidade econômica.

VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras nesta coluna.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Cristina constrói 'brigada' na imprensa

Presidente argentina, que deve ser reeleita domingo, conta com mais de 30 veículos defendendo o seu governo

Maioria é beneficiada por publicidade oficial; Casa Rosada, enquanto isso, acusa existência de monopólio privado


Leo La Valle - 7.out.2011/Efe
Apresidente da Argentina, Cristina Kirchner, em campanha na Grande Buenos Aires

LUCAS FERRAZ
SYLVIA COLOMBO

DE BUENOS AIRES

Enquanto o governo de Cristina Kirchner prega o fim do que considera ser um monopólio da mídia, não para de crescer o número de veículos, públicos e privados, que, favorecidos por publicidade oficial, apoiam editorialmente os atos dela.
Ao mesmo tempo em que elaborou uma lei contra a acumulação de meios, centrando sua ações sobretudo contra o Grupo Clarín, maior conglomerado de comunicações do país, seguiu-se um movimento de direcionamento de publicidade para veículos amigos ou alinhados. Essa ação favoreceu a criação de uma grande "brigada kirchnerista", que reúne atualmente mais de 30 publicações (revistas e jornais) e programas de rádios e TV, que defendem os atos do governo e criticam jornalistas contrários à Casa Rosada.
Essa atuação ostensiva ficou mais evidente nas últimas semanas, com a proximidade das eleições presidenciais de domingo, quando ela deverá ser reeleita.

6, 7, 8
Na TV pública, é exibido o "6, 7, 8", o mais ácido programa dedicado à cobertura dos grandes meios. Na prática, a pauta é atacar o "Clarín".
"É um absurdo. Feito com o dinheiro do Estado, constrói um discurso de resistência militante que surge a partir do próprio poder", diz María O'Donnell, autora do livro "El Aparato", sobre as máquinas de propaganda e comunicação do kirchnerismo.
Intelectuais que apoiam o governo, como os do grupo Carta Abierta, e professores das universidades públicas onde se ensina jornalismo defendem o que chamam de "jornalismo militante", pró-governo, que se contraporia ao "jornalismo independente", a serviço de monopólios.
Em debate realizado pelo canal Todo Notícias (pertencente ao Grupo Clarín), na semana passada, a socióloga María Pía Lopez e a professora da Universidade de La Plata Florencia Saintout disseram que foi por meio da militância que se deram algumas conquistas do governo, como julgamento de militares e a aprovação do casamento gay.
Além de cortar a verba publicitária de jornais críticos -o grupo "Perfil" foi à Justiça e ela exigiu que o governo mantivesse equilíbrio em sua distribuição, decisão não cumprida-, a Casa Rosada, segundo jornalistas, também pressiona diretamente empresários para não anunciarem nesses veículos.
O jornalista Nelson Castro, hoje na Rádio Mitre, trabalhava na Rádio del Plata quando, em 2008, foi comprada pela empresa Electroinginiería, próxima ao governo.
"Um dia fizemos uma denúncia contra a empresa no ar. Quinze dias depois, cancelaram meu contrato. Depois soube que o próprio Néstor [Kirchner] havia entrado em contato com os donos da empresa e pediu para eu sair." Procurada, a assessoria do governo não deu declarações.

Turquia versus Brics

RUBENS RICUPERO




Após revoltas árabes, Brasil troca risco da parceria com a Turquia pelo conforto do alinhamento aos Brics


O recrudescimento da crise financeira e a Primavera Árabe são as principais mudanças do quadro externo desde a posse do governo Dilma. A primeira é vital e ameaça o crescimento nos três primeiros anos do mandato.
Ao reagir adotando política intervencionista em juros, câmbio e comércio, Dilma muda as condições de inserção do Brasil no mundo de forma mais decisiva do que qualquer ação diplomática estrita.
A outra mudança, a árabe, não tem para nós a mesma importância. Essa é a explicação da troca do risco da parceria com a Turquia pelo conforto do alinhamento aos Brics.
No final do governo, Lula tinha escolhido como cenário de projeção o Oriente Médio, entrando pesado num ambiente onde os anjos têm até medo de encostar o pé. Foi chamuscado no acordo sobre o urânio do Irã que tentou mediar com a Turquia. Escaldado, o governo Dilma vem revelando invariável atração pela abstenção nos dilemas da Líbia e Síria. É aí que se vê melhor o contraste com nossa antiga parceira.
A diplomacia turca, conduzida pelo audacioso ministro Davutoglu, apostou tudo na Primavera Árabe. O primeiro ministro Erdogan aplica sanções à Síria, desembarca no Cairo e Trípoli, propõe o modelo turco de democracia e Estado secular.
Os turcos têm razões de sobra para isso. Esnobados pela Europa, machucados por Israel na morte de nove cidadãos na frota de Gaza, desiludidos da liderança americana, fingem dar as costas ao Ocidente e voltar às paragens onde reinou por séculos o império otomano. Não têm o que perder. Se os árabes adotam o modelo turco, aumentam o prestígio.
Se a primavera desembocar em instabilidade e perigo islamista, cresce a imprescindibilidade da Turquia graças à sua privilegiada situação geoestratégica de ponte entre Europa, Ásia, África e condição de único membro muçulmano da Aliança Atlântica desde 1952. Não partilhando de nenhum desses motivos e vantagens, faz bem o Brasil em não exagerar no ativismo.
O problema não é a abstenção, mas seus motivos. China e Rússia são autocracias vulneráveis em direitos humanos e suspeitam que mudanças na Líbia e Síria apenas favoreçam os EUA e aliados.
Apesar de democracia, a Índia tem incontáveis problemas na Caxemira, rebeliões e tensões religiosas. Quais seriam as razões brasileiras? Não deve ser o cálculo de que nossos fracos interesses e meios de ação na região aconselham a abstenção. Era assim que agíamos no Conselho da Liga das Nações onde a abstenção sistemática nas questões das minorias tornou o Brasil prescindível, desmoralizando a candidatura a um posto permanente.
Se o motivo é a interpretação restritiva do princípio da não ingerência, temos de explicar como nos situamos ante o parágrafo 139 da Declaração de Chefes de Estado na ONU em 2005.
Nesse documento, os governos reconheceram o dever, não o direito, de proteger as populações contra suas próprias autoridades em casos de genocídio, crimes de guerra, contra a humanidade e limpeza étnica.
Repudiamos a declaração que assinamos? Ou temos motivos para sustentar que ela não se aplica aos casos atuais? Ser ou não ser? Falta explicar com clareza nossas hamléticas vacilações.

Três grandes democracias unidas

MARIA EDILEUZA FONTENELE REIS




A presente crise econômico-financeira global também será discutida durante a 5ª Cúpula do Fórum de Diálogo Índia, Brasil e África do Sul

Há oito anos, nascia o Fórum de Diálogo Índia, Brasil e África do Sul - Ibas. Três democracias multiétnicas e plurais, somando 1,25 bilhão de pessoas, de três diferentes regiões do mundo em desenvolvimento, decidiram unir seu crescente peso global num fórum de diálogo e de cooperação, visando contribuir, sob uma perspectiva inovadora, para a construção de uma nova arquitetura internacional.
Ciente de sua crescente importância como mecanismo de cooperação Sul-Sul, a presidenta Dilma Rousseff atribuiu prioridade ao Ibas. É com esse espírito que a presidenta participará, no dia 18 de outubro, em Pretória, da 5ª Reunião de Cúpula do Fórum Ibas. A 5ª Cúpula constituirá ocasião para que os chefes de Estado e de governo avaliem as possibilidades de ação conjunta nas três vertentes de atuação do mecanismo: diálogo e coordenação política; cooperação setorial entre os três países; e cooperação em benefício de terceiros países, por meio do Fundo Ibas para o Alívio da Fome e da Pobreza.
Realizaram-se, nos últimos dias, reuniões de vários dos 16 frupos de trabalho do Fórum, que desenvolvem projetos e iniciativas em áreas como administração pública, agricultura, assentamentos humanos, ciência e tecnologia, cultura, desenvolvimento social, energia, meio ambiente, saúde, turismo e comércio e investimentos, entre outras.
O Ibas inclui, também, foros da sociedade civil em diversos domínios, a exemplo do acadêmico; de mulheres; de governança local; empresarial; e cortes constitucionais.
O fluxo de comércio entre os países do Ibas quadruplicou entre 2003 e 2010, elevando-se de US$ 4,38 bilhões para US$ 16,1 bilhões, superando, assim, a meta fixada para aquele ano (US$ 15 bilhões).
Será igualmente avaliado na ocasião o trabalho desenvolvido pelo Fundo Ibas para o Alívio da Fome e da Pobreza. Desde sua instituição, em 2004, o Fundo realiza nove projetos em seis países (Burundi, Cabo Verde, Camboja, Guiné-Bissau, Haiti e Palestina), para os quais foram alocados US$ 17 milhões.
Preveem-se ainda projetos em Laos, Serra Leoa, Sudão, Sudão do Sul e Timor Leste. Em 2006, o Fundo foi premiado pela ONU como modelo de cooperação entre países em desenvolvimento; em 2010, foi agraciado com o prêmio Metas de Desenvolvimento do Milênio.
No Conselho de Segurança da ONU em 2011, os três países coordenaram posições e realizaram gestão conjunta em torno dos acontecimentos políticos recentes no Oriente Médio e no Norte da África.
A presente crise econômico-financeira será avaliada durante a 5ª Cúpula, a partir da perspectiva de três membros do G20, representantes do mundo em desenvolvimento. Especial atenção será também conferida à agenda ambiental, à luz da realização da COP-17 na África do Sul e da Rio+20, no Brasil.

MARIA EDILEUZA FONTENELE REIS, embaixadora, é subsecretária-geral para Ásia, Oceania e mecanismos inter-regionais do Ministério das Relações Exteriores.

Ferramentas do Comunismo

domingo, 16 de outubro de 2011

Eleição direta para Judiciário põe à prova base de apoio de Morales

DE CARACAS - A inédita eleição direta que escolherá hoje os mais altos cargos do Judiciário da Bolívia será um termômetro para medir a crise no governo Evo Morales desatada pelos protestos contra uma estrada a ser construída com recursos brasileiros. Os cerca de 5,2 milhões de bolivianos devem votar entre 116 candidatos -pré-selecionados pela Assembleia Nacional de maioria governista- para escolher os 56 magistrados dos tribunais superiores.
O formato é uma inovação da Constituição promovida por Morales e aprovada em referendo em 2009. A oposição conservadora e os centro-esquerdistas recém-desgarrados da base aliada fazem campanha pelo voto nulo e esperam ter adesão dos descontentes com o governo. Argumentam que é preciso deslegitimar a eleição porque ela dará ao governo controle total do Judiciário. (FM)

Fiéis veneram Simón Bolívar em "montanha mágica" venezuelana

Rituais têm adoração à 'mulher nua', dona da montanha, e dança sobre brasas; presidente Chávez faz referência ao culto à deusa

FLÁVIA MARREIRO
ENVIADA ESPECIAL A CHIVACOA

Uma guerreira viking e uma mulher de seios à mostra jazem ao lado de um busto do herói Simón Bolívar num altar de Sorte, a montanha mágica da Venezuela.
Soam tambores e os observadores consomem charutos em baforadas espessas.
As honras, na última terça, eram loas à mulher nua, a rainha indígena María Lionza, "dona da montanha" e matrona da religião que mistura crenças autóctones, as trazidas pelos escravos, personalidades políticas e até criminosos célebres.
Os marialionceros se reúnem em Chivacoa, a 300 km de Caracas, e somam 12 mil entre 11/10 e 12/10, quando os mais valentes provam sua fé dançando sobre brasa.
Enquanto o devoto se prepara para atravessar mais uma fogueira, o locutor pede palmas à plateia. O espetáculo, antes improvisado, ganhou apoio estatal: há bombeiros, policiais. Quem quer participar, avisa o cartaz, tem de trazer duas fotos 3x4.
A institucionalização não incomoda os fiéis. Nisso a religião que incorpora novas deidades -inclusive vikings, provavelmente vistos na TV- também é aberta. "Excelente. Temos segurança", diz Emiglia Marin, 62.
Emiglia foi a Sorte pedir a Bolívar (1783-1830), prócer da Independência e referência para Hugo Chávez, que retire o filho dela da cadeia.
O herói e outros nomes da luta contra os espanhóis são divindades. As cores pátrias -vermelho, amarelo e azul- são os emblemas. A simbiose entre nacionalismo e religião é uma peculiaridade da Venezuela, explica Elías Pino Iturrieta, autor de "El Divino Bolívar" (o divino Bolívar, 2003).
Ele conta que a Igreja Católica declarou Bolívar semideus, abrindo caminho para o herói nos altares.
Chávez, doente de câncer, costuma rogar saúde "aos espíritos da savana", em referência ao culto. "Ele diz representar a leitura oficial dos evangelhos bolivarianos. É fácil caminhar entre María Lionza e a quimioterapia para pedir", diz o historiador.

Brasil ajudou 'Anjo da Morte' argentino

Itamaraty pressionou britânicos a repatriar Alfredo Astiz, em 82; hoje, ele é julgado por crimes da época da ditadura

Militar, símbolo das violações do regime, havia se rendido ao Reino Unido durante a Guerra das Malvinas

JOÃO CARLOS MAGALHÃES
RUBENS VALENTE

DE BRASÍLIA

O Brasil pressionou o Reino Unido, durante a Guerra das Malvinas, em 1982, pela repatriação de um acusado de crimes contra os direitos humanos na ditadura militar argentina (1976-1983).
É o que revelam telegramas confidenciais assinados pelo então embaixador brasileiro em Londres, Roberto Campos (1917-2001), ex-ministro do Planejamento após o golpe militar de 1964.
A íntegra dos 110 telegramas produzidos no auge da guerra está disponível a partir de hoje no Folha Transparência (www.transparencia.folha.com.br), que já colocou na internet 1.361 telegramas cujo sigilo foi retirado pelo Itamaraty a pedido da Folha.
O maior conflito armado entre um país da América do Sul e outro da Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial, que deixou cerca de mil mortos nos dois lados, completará 30 anos em abril.
Assim que a guerra começou, em 1982, Argentina e Reino Unido romperam relações diplomáticas. Acolhendo um pedido da junta militar que governava a Argentina, o Brasil -na época governado por um ditador, o general João Figueiredo (1918-1999)- orientou sua embaixada em Londres a atuar na proteção de interesses da Argentina em solo britânico.
Uma das principais funções da embaixada foi zelar pela volta à Argentina do capitão-de-fragata Alfredo Astiz, um símbolo da repressão argentina, apelidado de "Anjo Louro da Morte".
Atualmente, Astiz está sendo julgado na Argentina por alguns dos crimes que teria cometido na ditadura.
Há quase 30 anos, após ter-se rendido aos britânicos perto das Malvinas, ele foi levado ao Reino Unido. Como ocorreu com outros 150 argentinos nos primeiros dias da guerra, poderia ter sido repatriado após sua prisão.
Mas França e Suécia manifestaram interesse em processar Astiz em seus países, o que levou o Reino Unido a retardar a entrega do prisioneiro. A Argentina acionou o Brasil, que passou a pressionar os britânicos.
No final de maio, por exemplo, Campos escreveu que o Ministério das Relações Exteriores britânico ainda não havia respondido ao pedido brasileiro de "pronto repatriamento" do militar.
Astiz era suspeito do assassinato de duas religiosas francesas e uma estudante sueca em 1977, além de ser suspeito de assassinatos e torturas de presos políticos.
A ele também foi atribuída participação no sequestro e morte de três líderes do movimento das Mães da Praça de Maio, no qual Astiz teria se infiltrado em 1977. Essas acusações já eram conhecidas desde, pelo menos, 1979.
Contudo, o Brasil fez grande esforço para obter a devolução de Astiz a Buenos Aires. O que de fato ocorreu, em junho de 1982. Escoltado por um oficial britânico, funcionários do Itamaraty e um agente do centro de inteligência da Aeronáutica brasileira, Astiz passou pelo Rio antes de parar em Buenos Aires.
A França, contudo, manteve o processo contra Astiz, condenando-o à prisão perpétua em 1990, à revelia. Astiz só seria preso na Argentina, a pedido da França e da Suécia, no final dos anos 90. Foi solto e novamente preso, em 2003, pelo caso francês.

Republicanos tomam bênção de eleitorado conservador em feira

Entre bancas antiaborto e pró-armas, candidatos que tentam bater Obama buscam respaldo de alas à direita

Numa eleição que promete ser polarizada, conservadores tendem a comparecer em um maior número em 2012

LUCIANA COELHO
DE WASHINGTON

A poucos passos do estande que vende camisetas e bottons com dizeres como "Antiaborto, pró-armas, direitista e cristão, e daí?" um panfleto promete a suposta conversão: "É OK ser ex-gay".
Adiante, assinaturas são colhidas para exigir do governo o fim do financiamento ao planejamento familiar. Do outro lado do corredor, defensores da Ciência Criacionista explicam suas teses.
Entre as banquinhas, circulam sujeitos paramentados como americanos do século 18, peruca inclusa, e casais com crianças que esperam pelo Jantar de Gala da Fé, Família e Liberdade.
Estamos na Cúpula dos Eleitores pelos Valores Morais, que teve sua sexta edição anual na semana passada, em Washington.
À primeira vista, o circo em um grande hotel parece uma coleção de grupos radicais que atrai uma parcela marginal do eleitorado. Com o acirramento da polarização eleitoral nos EUA e o espectro político recalibrado para a direita, porém, ele se tornou uma escala inevitável para os pré-candidatos republicanos.
Neste ano, 7 dos 8 possíveis adversários de Barack Obama que pontuam nas pesquisas discursaram ali (a exceção foi Jon Huntsman). "Com uma lutadora na Casa Branca, finalmente venceremos em questões como aborto, casamento, família e liberdade religiosa", disse Michele Bachmann, deputada.
Sem a ex-governadora do Alasca Sarah Palin na disputa, a direita cristã ainda não se comprometeu com nenhum candidato.
Bachmann foi recebida aos gritos de "te amamos". O empresário Herman Cain, novo líder das pesquisas, foi o mais aplaudido. Já o governador do Texas, Rick Perry, corteja esse público como um bote salva-vidas para sua campanha, enquanto Mitt Romney, favorito entre os moderados, tenta contornar a rejeição ao fato de ser mórmon.
Com isso em vista, parábolas envolvendo Deus e profissões de fé não faltaram em nenhum dos discursos à cobiçada plateia de cerca de mil pessoas que pagou US$ 99 (R$ 174) para estar ali.
Segundo a pesquisa mais recente do Gallup, feita no meio do ano, apenas 4% do eleitorado coloca as questões comportamentais e morais como sua maior prioridade na hora de votar.
O poder do grupo, porém, não se ampara em números, mas nos decibéis de uma mensagem amplificada por radialistas conservadores e na exposição na mídia que a polêmica lhe garante.
Além disso, em um país onde o voto não é obrigatório, a história mostra que eleitores que defendem uma certa causa com afinco têm mais motivação (portanto, probabilidade) de irem às urnas.

Populismo é marca em berço dos Kirchner

Na Patagônia, ex-presidente argentino Néstor e sua mulher, Cristina, que busca reeleger-se no domingo, são cultuados

Província de Santa Cruz é a base do apoio ao casal, que domina a política argentina desde o início da década

LUCAS FERRAZ
ENVIADO ESPECIAL A RÍO GALLEGOS

O cenário é praticamente o mesmo de rincões conhecidos no Brasil: o nome do chefe local batiza ruas, avenidas, escolas e praças; a política ainda gira em torno dele, e a família e amigos são donos de inúmeros e milionários negócios, muitos sob suspeita.
Ele é o ex-presidente Néstor Kirchner, morto há um ano, e a província em questão é Santa Cruz, na Patagônia, que foi o laboratório do kirchnerismo, no poder na Argentina desde 2003. Cristina Kirchner, que sucedeu o marido na Presidência do país, deverá ser reeleita no próximo domingo.
Diferentemente de Néstor, ela não nasceu em Río Gallegos, capital de Santa Cruz, mas fez de lá o seu "lugar no mundo". Em 1970, recém-casada, trocou La Plata, capital da província de Buenos Aires, pela Patagônia, onde iniciou sua carreira política.
A pobreza em Santa Cruz não se equipara aos piores índices brasileiros, mas é gerida de modo semelhante: a política é populista, clientelista e personalista, há muitas denúncias de corrupção e pouca transparência.
Esse modelo começou a ser formado em 1987, quando Néstor foi eleito prefeito de Río Gallegos e se expandiu a partir de 1991, quando ele se torna governador -foram 12 anos no cargo, até a eleição presidencial de 2003.
Em Santa Cruz, Néstor alterou a Constituição duas vezes (a última para reeleger-se indefinidamente); fortaleceu o poder do Estado, empregando mais de 50 mil entre os 273 mil habitantes da província; criou uma teia de órgãos de mídia favoráveis ao seu governo e travou duro embate com a oposição -que seria uma de suas marcas.
"Sempre achei que era impossível repetir no país o que fizeram aqui", afirma o deputado em Santa Cruz Omar Hallar, da oposicionista UCR (União Cívica Radical).
Apesar das fortes reações despertadas na população local por "Ele e Ela" (como são denominados Néstor e Cristina em Santa Cruz), há certa paranoia em Río Gallegos quando o assunto são eles.
Muitos moradores não quiseram falar à Folha, temendo que o repórter fosse um agente da Side (a agência de serviço secreto argentino), conforme relato posterior de dois habitantes do local.
"Isso virou uma fazenda com o nome do capataz por todos os lados", diz o empresário Juan José Anglesio, 70. Desde a morte do ex-presidente, vítima de infarto, em outubro de 2010, Santa Cruz vive em comoção quase permanente, inaugurando obras e parques com seu nome.
Agora, abrindo nova polêmica, querem trocar na praça central a estátua de Julio Roca, que foi presidente no século 19, por uma de Néstor.
"Éramos um povo esquecido, isso aqui não era nada. Néstor levantou a província, deu infraestrutura e condições mais dignas, colocou Santa Cruz no mapa da Argentina", diz o amigo Pablo González, chefe de gabinete do governo local e candidato ao Senado nessas eleições.
"Apesar de ele ter me dito uma vez que não gostaria que seu nome ficasse batizando ruas e avenidas, ele merece toda a veneração."

Manifestações espalham-se por 82 países

Roma registrou os maiores protestos contra o capitalismo, com 200 mil presentes, e houve confrontos com polícia

Inspirados pelo 'Ocupe Wall Street', atos chegam a 950 cidades; SP, Rio, Porto Alegre e Curitiba têm protestos


Max Rossi/Reuters
Itália: Manifestantes encapuzados atiram pedras e coquetéis molotov contra a polícia em Roma

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

De Wall Street para as ruas de 950 cidades de 82 países em todos os continentes.
Dezenas de milhares de manifestantes, inspirados pelo movimento que há quase um mês protesta contra a crise econômica mundial em Nova York, espalharam-se ontem pelo mundo ao pedir "união por uma mudança global".
A maioria das manifestações foi pacífica, com exceção da Itália, onde 200 mil pessoas foram às ruas de Roma estimuladas também pela decisão do Parlamento, anteontem, de manter o premiê Silvio Berlusconi no poder.
Em Roma, vários carros foram incendiados e manifestantes encapuzados destruíram agências de bancos. A polícia tentou conter os protestos com gás lacrimogêneo. Cerca de 70 pessoas ficaram feridas, três com seriedade. Todos os museus da capital foram fechados.
Berlusconi disse que os autores da violência serão "identificados e punidos". Em Nova York, onde tudo começou, 5.000 pessoas marcharam pelo distrito financeiro de Manhattan e ocuparam a Times Square. Ao menos 20 delas foram presas em um banco quando fechavam suas contas para protestar.
Sem agenda específica, a não ser uma crítica difusa ao grande capital, os manifestantes pelo mundo se organizam em grande medida por redes sociais como Facebook.
Além dos jovens dos EUA, tomam como modelo a Primavera Árabe e os "indignados" europeus. Ontem, Barcelona, na Espanha, um dos berços dos "indignados", foi a segunda cidade que registrou mais manifestantes, 60 mil. Em Madri, a Porta do Sol recebeu mais de 40 mil pessoas.
Em Portugal, os manifestantes de Lisboa e Porto também somaram 40 mil. As alemãs Berlim e Frankfurt registraram passeatas com 5.000 participantes.

ASSANGE
Em Londres, os protestos reuniram 2.000 pessoas em frente à Catedral de St. Paul. Nas escadarias da igreja, um manifestante chamou especial atenção: Julian Assange, do site WikiLeaks.
Ovacionado pelo público, ele foi depois abordado por policiais que o obrigaram a tirar uma máscara que usava. Os protestos se espalharam ainda por Ásia, Austrália e África, mas em menor escala.
Em Tóquio, 200 manifestantes se reuniram em frente à Tokyo Electric Power, operadora da central atômica de Fukushima, epicentro da catástrofe nuclear de março.
No Brasil, São Paulo, Rio, Porto Alegre e Curitiba tiveram manifestações. Na capital paulista, 200 jovens armaram barracas no Vale do Anhangabaú para passar uma semana, mas o acampamento foi desmontado a pedido de guardas civis.
No Rio, 150 pessoas se reuniram na Cinelândia, exibindo faixas contra a corrupção.

De véu, muçulmana é impedida de fazer prova do Detran

DE SÃO PAULO

Uma muçulmana foi impedida ontem de fazer uma prova do Detran em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, por se negar a retirar seu véu -usado por mulheres islâmicas por motivo religioso.
A dona de casa Ahlam Abdul El Saifi, 29, teve seu exame para renovar a CNH bloqueado, chamou a PM e registrou queixa na delegacia. "Houve discriminação religiosa", protestou Jihad Hassan Hammadeh, xeque da União Nacional das Entidades Islâmicas no Brasil. O caso ocorreu às 8h30 no CFC (Centro de Formação de Condutores) São Bernardo.
Ahlam, cuja foto da CNH foi tirada de véu, estava no meio da prova teórica, diante do computador, quando foi informada pela autoescola que precisaria tirar seu véu.
O CFC diz que a ordem foi dada pelo provedor responsável por monitorar os exames do Detran (que são vigiados por câmeras na sala). Como não é permitido fazer prova com boné e gorro, por atrapalhar a identificação, a alegação era que a regra também valeria para véu.
O Detran diz que repudia qualquer preconceito, que não houve orientação do órgão para proibir o véu e que tomará medidas administrativas cabíveis.
(ALENCAR IZIDORO) 

O silêncio do cardeal

Recolhido em SP, dom Paulo Evaristo Arns, que enfrentou a ditadura para defender direitos humanos, faz 90 anos


Luciney Martins - 14.set.11/Divulgação
D. Paulo, durante missa por seus 90 anos celebrada na chácara onde mora

BERNARDO MELLO FRANCO
DE SÃO PAULO

Um dos brasileiros mais homenageados em 2011 abandonou a vida pública por opção, vive recolhido numa chácara em Taboão da Serra, nos arredores da capital paulista, e se negou a romper o isolamento para comemorar seus 90 anos de idade.
Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo e maior ícone vivo da Igreja Católica no país, fez aniversário em 14 de setembro.
Apesar da insistência de amigos e religiosos, o cardeal que enfrentou a ditadura militar (1964-1985) em defesa dos direitos humanos recusou todos os convites para celebrar a data fora do retiro.
A atitude alimentou a volta de rumores sobre sua saúde, mas os poucos que convivem com ele asseguram que sua forma física e mental é invejável para a idade.
"Ninguém entende esta opção de se recolher, mas dom Paulo está muito bem. Suas graves doenças não estão nele, estão na cabeça das pessoas", brinca a franciscana Devani de Jesus, espécie de anjo da guarda do religioso.
Na lista de comemorações frustradas, estavam uma missa solene na catedral da Sé, um ato com discurso e plantio de árvore no largo de São Francisco e a entrega de uma placa comemorativa na Câmara Municipal. As duas últimas chegaram a acontecer, mesmo sem a presença dele.
"O pessoal fica meio decepcionado, mas compreende", conforma-se o coordenador da Pastoral Operária Metropolitana, Paulo Pedrini. Ao justificar a opção pelo silêncio, há quatro anos, ele disse a amigos que sairia de cena para não fazer sombra aos sucessores na igreja.
"Se eu continuar dando entrevistas, vou tirar o espaço de quem está em meu lugar", afirmou à jornalista Angélica Rittes, que passou 34 anos a seu lado na Arquidiocese.
O cardeal foi substituído pelo amigo dom Cláudio Hummes em 1998, mas continuava a aparecer em público, no rádio e nos jornais. Escreveu uma autobiografia e manteve a exposição dos tempos de arcebispo, quando desafiou generais em nome de bandeiras como o voto direto e a reforma agrária.
Na crise do mensalão, em 2005, declarou sua decepção com o ex-metalúrgico Lula, a quem visitou na cadeia e apoiou nas greves do ABC. A decisão de se retirar coincidiu com a ascensão de dom Odilo Pedro Scherer, da ala mais conservadora do catolicismo. O novo arcebispo assumiu em abril de 2007. Em dezembro, dom Paulo deixou a casa na zona norte de SP e foi para o "exílio" em Taboão.
Por escrito, dom Odilo afirmou não ver relação entre o afastamento e as mudanças na igreja. "Tenho grande apreço e relacionamento fraterno com dom Paulo", disse.
Ele sustentou que o recolhimento "é uma decisão de dom Paulo, que é arcebispo emérito e, portanto, não está mais diante de responsabilidades diretas na igreja". "Mesmo assim, ele tem toda a liberdade de se expressar, se achar que deve fazer isso." O teólogo Leonardo Boff, amigo desde os anos 50, vê outra razão. "Se ele se manifestasse, criaria conflitos. Acredito que ele decidiu se calar por isso", afirma.

OS EMBATES
As discordâncias com colegas de batina não são novidade na trajetória do cardeal, que fez críticas públicas a João Paulo 2º e travou embates com o colega Joseph Ratzinger, hoje papa Bento 16.
Em 1973, ele surpreendeu a igreja ao vender o Palácio Episcopal por US$ 5 milhões para financiar núcleos comunitários na periferia. Na cruzada contra a repressão, denunciou a tortura, visitou presos políticos e foi a Brasília protestar com o presidente Emilio Garrastazu Medici. Segundo o relato do cardeal, o general deu um murro na mesa e o enxotou gritando que seu lugar era "na sacristia". Em 31 de outubro de 1975, dom Paulo abriu a Sé para um culto multirreligioso em memória do jornalista Vladimir Herzog, morto nos porões. O ato entrou para a história como marco inicial da luta pela redemocratização do país.
O engajamento político rendeu retaliações do Vaticano. Em 1989, sua diocese foi dividida em cinco, numa medida para esvaziar seu poder.
O cardeal não se fez de rogado. Três anos depois, estava na linha de frente pelo impeachment de Fernando Collor, acusado de corrupção.
Criado numa família de 14 irmãos em Santa Catarina, dom Paulo leva vida metódica e de hábitos franciscanos. Acorda antes das 6h30, reza missa às 7h, lê dois jornais e sai para caminhar. Toma um copo de suco de lima da pérsia às 10h, faz sua oração pessoal e almoça ao meio-dia.
À tarde, divide-se entre leituras em vários idiomas -ele prefere a Bíblia em grego. Faz novas caminhadas, brinca com sua pastora-alemã e encerra o dia com rezas e música clássica. O próprio cardeal escolhe os CDs; seu compositor predileto é Mozart. Em janeiro, dom Paulo precisou extrair a vesícula. Teve infecção pulmonar e passou 19 dias internado. No hospital, chamou o bispo emérito de Blumenau, dom Angélico Bernardino, e repetiu seu lema: "Esperança sempre!"
Foi só mais um susto para quem já sofreu um infarto, retirou a próstata, venceu um câncer no olho esquerdo e sobreviveu a um grave acidente de carro aos 71 anos.
No dia em que chegou aos 90, ele voltou a exibir disposição e bom humor ao receber convidados para sua missa na chácara, única celebração da qual aceitou participar.
Lá, arrancou risadas ao contar como virou arcebispo, após recusar três convites do papa Paulo 6º. "Fui chorar junto a São Pedro, em Roma, e [depois] comecei a ser bispo em São Paulo. E não sabia que era tão bom!", disse.
Em outra ocasião, emocionou o jornalista e amigo Ricardo Carvalho ao descrever sua fase atual: "Estou preparando minha passagem". O religioso, que perdeu a irmã Zilda Arns no terremoto que devastou o Haiti em 2010, voltou a conviver com a morte semana passada, quando a irmã Olivia faleceu aos 91 anos. "Estou conformado porque é a vontade de Deus", disse a freiras que o consolaram.
Ao ser questionado sobre o assunto, dom Paulo gosta de responder de forma leve, porém espirituosa: "Estou preparado. Não tenho medo, mas também não tenho pressa."

Ainda atual

Passados 40 anos de sua estreia, o filme "Laranja Mecânica", de Stanley Kubrick, certamente perdeu muito da capacidade de chocar. Cenas de violência consideradas quase insuportáveis em 1971 hoje pertencem ao cotidiano visual do público pré-adolescente.
Nem por esse motivo "Laranja Mecânica", que volta aos cinemas em versão restaurada, perdeu sua atualidade.
Baseada num romance distópico de Anthony Burgess (1917-1993), a história da gangue de adolescentes liderada por Alex (Malcolm McDowell) não se limitava a enunciar com especial vivacidade, e certo humor esportivo e negro, o problema da violência juvenil gratuita.
Problematizava-se, também, o modo de extirpá-lo. Na sociedade ultratecnológica imaginada pelo filme, formas tradicionais de prevenção do crime, como reformatórios e prisões, já tinham sua ineficácia reconhecida.
Em tese, nada haveria de especialmente abusivo no tratamento experimental a que Alex é submetido, depois das agressões bárbaras que comete. Na melhor tradição da psicologia behaviorista, ele é condicionado quimicamente a manifestar reações de repugnância física a qualquer violência.
Por acaso, o tratamento elimina também da mente de Alex o que ele possuía, talvez, de melhor: um gosto autêntico pela música de Beethoven.
Na metáfora do filme, coloca-se a opção extrema: ao extinguir-se de um ser humano toda sua capacidade de fazer o mal, não se estaria também extinguindo o seu livre-arbítrio e, com isso, sua própria humanidade?
Hoje, a questão renasce em outros termos. Não mais se trata das perspectivas, afinal limitadas, das técnicas de condicionamento psicológico, mas, sim, das pesquisas em torno de novos medicamentos psiquiátricos e da própria subsistência da ideia do livre-arbítrio diante dos avanços da genética.
Dificilmente uma questão metafísica e moral mais ampla pode ser respondida nos termos de uma pesquisa científica -e vice-versa: dificilmente uma descoberta científica poderá resolver contradições arraigadas na natureza humana.
A desumanização do homem, entretanto, era (e é) o que de mais assustador se pode reconhecer no comportamento de Alex. Da mesma síndrome poderia ser acusado o cientista responsável por seu tratamento, e a sociedade que produziu a ambos. Precisamente isto é o que faz de "Laranja Mecânica" um filme tão atual quanto há 40 anos.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Socialista surpreende e cresce na Argentina

Hermes Binner, apesar de ainda não ameaçar reeleição de Cristina no dia 23, já aparece em segundo nas pesquisas

Governador de rica província recebe apoio de intelectuais e está à frente de nomes de tradição na política
DE BUENOS AIRES

Cristina Kirchner deve ser reeleita na Argentina no próximo dia 23 com 52% a 57% dos votos, segundo pesquisas mais recentes. Numa eleição sem surpresas, uma novidade tem animado a reta final da campanha.
Trata-se do súbito crescimento do socialista Hermes Binner (Frente Amplio Progresista), que desbancou nomes de partidos tradicionais, como Ricardo Alfonsín, da União Cívica Radical, e o ex-presidente peronista Eduardo Duhalde (União Popular).
Binner, 68, alçou o disputado segundo lugar em meio a uma oposição pulverizada. Segundo pesquisas, obterá entre 14% e 16% dos votos, enquanto Alfonsín terá entre 9% e 12% e Duhalde pode despencar para o quinto lugar (com apenas 6% a 10%).
Hoje, os principais jornais argentinos, "Clarín" e "La Nación", devem publicar um abaixo-assinado de mais de cem intelectuais em apoio a Binner. Participam acadêmicos, artistas e jornalistas.
Atual governador da próspera província de Santa Fé, ele surge como opção com imagem de político honesto, embora pouco carismático.
Não são conhecidos casos de corrupção graves em seu governo. Sua administração é aprovada pela população, tanto que acaba de fazer o seu sucessor.
Médico, tem um passado de militância que começou durante a ditadura de Juan Carlos Onganía (1966-70).
O nome de Binner chegou a ser cogitado para ser vice de Alfonsín. Mas não houve acordo, e o candidato da UCR preferiu fazer uma aliança com a centro-direita.
O partido socialista, embora pequeno, tem tradição na Argentina. Nos anos 30 foi influente. A partir da década de 40, com o peronismo cooptando os sindicatos, perdeu importância.
Para Beatriz Sarlo, que integra o grupo de intelectuais que apoiam Binner, um bom resultado dele "pode significar uma alternativa futura para setores progressistas da oposição".
Sarlo crê que o fracasso de Alfonsín se deu porque este "acreditou que juntaria votos com um discurso institucionalista, sem levar em conta que as pessoas votam por conta do presente econômico, que é bom para a classe média e também para os muito pobres, que recebem subsídios e planos do Estado".
A socióloga Claudia Hilb diz que o abaixo-assinado começou "quase como uma piada". "Mas quando começamos a perceber que entre nós, acadêmicos, Binner teria uns 90% dos votos, pensamos que havia aí uma brecha para a construção de uma opção política." (SYLVIA COLOMBO)

Empresários fazem planos para o fim da moeda europeia

ANÁLISE EUROPA

Resposta lenta de líderes do continente para a crise do euro irrita industriais e leva a mudanças de projetos



A ZONA DO EURO DEVE ORGANIZAR UM PROGRAMA PARA REDUZIR A DÍVIDA GREGA? EMPRESÁRIOS E POLÍTICOS ESTÃO DIVIDIDOS

TONY BARBER
DO "FINANCIAL TIMES"

Embora os empresários não tenham opinião unânime quanto a uma moratória da dívida grega ou sobre a emissão de títulos unificados da zona do euro e a criação de um Ministério das Finanças do bloco, todos os presidentes de companhias dos 17 países da União Europeia e de outras nações que conversaram com o "Financial Times" concordaram em que a resposta dos líderes políticos à crise foi perigosamente lenta e hesitante.
Quanto mais longa for a crise, mais difícil o acesso a crédito. Mais companhias buscam proteger suas posições financeiras e fluxos de caixa por meio de cortes de pessoal ou congelamento de contratações, corte de investimentos de capital e reduções nas despesas opcionais.
Alguns dos empresários entrevistados, poucos, admitem até estar preparando planos de contingência para uma possível dissolução da zona do euro, ainda que esperem que esse deslocamento não venha a acontecer.
O problema de encontrar crédito a juros menos que extorsivos é mais agudo em alguns países que em outros. Banqueiros e empresários italianos dizem que os termos de crédito se tornaram mais severos nos últimos meses, com a alta no rendimento de títulos de dívida nacional.
A Alemanha, motor da indústria europeia, não ficará imune. A indústria do país emergiu com força da recessão de 2009, graças à demanda robusta nos mercados emergentes.
As exportações à China quase dobraram desde 2008. Ainda assim, a zona do euro responde por mais de 40% das vendas internacionais.
Também podem surgir oportunidades para companhias de fora da União Europeia. Entre os interessados estão investidores como Metin Air, presidente-executivo do Garanti Securities, um banco de investimento de Istambul: "Se a Grécia afundar e a Itália enfrentar problemas graves, isso influenciará a capacidade de exportação das empresas turcas, o que pode criar problemas para a economia turca de modo geral".
Esse otimismo subjacente ilustra como os empresários são capazes de encontrar algo de positivo em qualquer crise. O que desejam é não tanto um futuro no qual estejam imunes a prejuízos financeiros mas um futuro livre da debilitante incerteza atual.
Os executivos europeus, como os líderes do continente, estão divididos quanto a um calote.
A zona do euro deveria organizar um programa abrangente para reduzir a dívida grega? Os empresários estão tão divididos quanto as classes políticas a esse respeito.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

O vácuo

KENNETH MAXWELL

Ainda que os mercados financeiros tenham expressado alívio nesta semana pelo fato de os líderes europeus parecerem, enfim, estar avançando rumo a uma política que ajudaria a conter o quase pânico quanto à busca de uma solução ordeira para a crise da dívida da Grécia, e que os governos europeus estejam mais perto de aprovar leis que permitiriam capitalizar um fundo europeu de estabilização e resgatar os bancos afetados de maneira adversa pelo passivo grego, é cedo demais para afirmar que a crise passou ou que o contágio foi detido.
Portugal, por exemplo, que, como a Grécia, assinou um acordo com a União Europeia, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Central Europeu (BCE), descobriu que seus cálculos orçamentários subestimavam gravemente os deficits ocultos da ilha da Madeira, há muito controlada por um líder político populista da velha guarda, Alberto João Jardim, também conhecido como "o rei da Madeira", que voltou a ser reeleito no domingo para o governo da ilha, posto que detém desde 1977.
E isso a despeito da revelação de que o governo autônomo da Madeira não havia informado às autoridades portuguesas sobre custos não reportados de € 571 milhões em 2010 e quanto a € 290 milhões em juros sobre dívidas atrasadas, além de € 109 milhões em custos de saúde referentes aos três últimos anos.
Enquanto isso, no Reino Unido, o Instituto Independente de Estudos Fiscais reportou, na terça-feira, que uma família típica, com dois filhos, da chamada "classe média comprimida" -formada pelas famílias britânicas de renda média-, estava enfrentando um colapso em sua renda domiciliar que não apresenta precedentes nas últimas três décadas.
O instituto também estimou que 600 mil crianças a mais passariam a viver em pobreza absoluta. É evidente, de fato, que o impacto em longo prazo da crise bancária de 2009 só agora começa a ser sentido plenamente pela comunidade mais ampla.
O quadro nos Estados Unidos não é muito melhor. Existe um vácuo semelhante.
Os protestos nas ruas de Nova York e nas ruas de Boston continuam a ser, em larga medida, incoerentes, embora a resposta dos banqueiros de Wall Street, da polícia e dos líderes políticos na capital norte-americana tenha chegado perto da histeria.
É duvidoso que, no atual clima político, esses protestos tenham algum efeito. Mas o problema permanece: como fazer com que a economia volte a crescer? E como garantir que, quando o fizer, os benefícios sejam distribuídos de maneira mais equitativa?
Os plutocratas, por enquanto, continuam bem. A questão é definir por quanto tempo.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Mineiros planejavam canibalismo, relata novo documentário

Em "17 Dias Enterrados Vivos", exibido no Chile, sobrevivente fala sobre o incidente

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

O grupo de mineiros chilenos aprisionados em 2010 dentro de uma mina planejava, durante as semanas em que estiveram incomunicáveis, praticar o canibalismo.
A dieta deles, rigorosamente racionada, se restringiu durante esse período a duas colheradas de atum em conserva, meio copo de leite e meia bolacha a cada 48 horas.
As informações constam do documentário "17 Dias Enterrados Vivos", exibido anteontem na Televisão Nacional do Chile -que rodou o filme em parceria com a BBC.
O grupo ficou enclausurado por dois meses a 700 metros de profundidade. "Íamos fazer isso com quem caísse primeiro", afirma o mineiro Samuel Ávalos, em trecho do documentário.

DATA
O resgate dos mineiros chilenos, que atraiu a atenção em todo o mundo, completará um ano nesta quinta-feira.
No documentário divulgado dias antes da data, são lembradas as primeiras semanas após o acidente na mina San José. Nesse período, os trabalhadores permaneceram sem contato com o mundo exterior. Não era sabido se estavam vivos ou mortos. Os relatos incluem, também, as brigas entre os mineiros aprisionados no local.
Procurado ontem pela agência de notícias Efe, o mineiro Ávalos se recusou a comentar as declarações que deu durante o documentário. A possibilidade de os mineiros terem cogitado recorrer ao canibalismo já havia sido levantada em fevereiro, quando o repórter Jonathan Franklin, do "Guardian", discorreu sobre essa ideia. Ele é autor do livro "33 Homens", sobre o caso dos chilenos. Em 1972, após um acidente aéreo na cordilheira dos Andes, um grupo de jogadores de rúgbi uruguaios sobreviveu após praticar o canibalismo, enquanto aguardavam pelo resgate.

China toma medidas para fortalecer bancos

Por meio de seu fundo soberano, governo anuncia a compra de ações das quatro maiores instituições do país

Medida, 1ª do tipo desde 2008, tenta levantar ações dos bancos, em queda com risco de contaminação por crise


David Gray - 18.mar.11/Reuters
Policial paramilitar fica de guarda em frente à fachada da principal sede do Banco da China, em Pequim, capital do país

FABIANO MAISONNAVE
DE PEQUIM

A China anunciou ontem a compra de ações dos quatro maiores bancos do país. A medida, que visa estancar a tendência de queda nas Bolsas locais, é a primeira ação do tipo de Pequim desde setembro de 2008, quando estourou a crise mundial.
A compra ocorreu por meio da Central Huijin Investment, controlada pelo fundo soberano da China. Não foi revelada a quantidade de ações negociadas. O anúncio da transação, feito pela agência estatal Xinhua, ocorreu logo após o fechamento das Bolsas da China continental.
Todos os quatro bancos envolvidos já têm controle acionário estatal. São eles: Banco Industrial e Comercial da China, Banco Agrícola da China, Banco da China e Banco da Construção da China.
"A ação tem o objetivo de apoiar a operação estável e o desenvolvimento das principais instituições financeiras e estabilizar os preços de suas ações", afirmou a Xinhua.
O anúncio ocorre num momento em que as Bolsas chinesas vêm batendo recordes negativos. Ontem, a de Xangai, a mais importante do país, atingiu o índice de referência mais baixo em 30 meses.
A expectativa é que haja alguma recuperação hoje. Na Bolsa de Hong Kong, que fechou meia hora depois do anúncio da compra, as ações dos quatro bancos se recuperaram no final do dia.

SINAL POSITIVO
O desempenho das ações de bancos chineses tem sido especialmente fraco, devido principalmente às medidas de contenção de crédito adotadas ao longo dos últimos meses pelo Banco Central. O objetivo é combater a inflação, prioridade máxima da China neste ano.
"A compra de ações é principalmente o envio de um sinal positivo para o mercado com o fim de impedir flutuações voláteis num momento de várias incertezas", disse Yin Zhongli, analista financeiro do prestigiado centro de estudos estatal Academia Chinesa de Ciências Sociais, em declarações à Xinhua.
Ele ressalva, porém, que a compra das ações não terá impacto caso o governo continue apertando os bancos.
Até agora, as dificuldades econômicas da Europa e dos EUA tiveram pouco impacto na China, o maior parceiro comercial econômico do Brasil. O crescimento econômico chinês neste ano deve chegar a cerca de 9,5% do PIB, segundo o FMI (Fundo Monetário Internacional). A grande maioria dos analistas concorda em que há poucas possibilidades de a China repetir uma medida semelhante ao megapacote de estímulo do final de 2008. A injeção de US$ 586 bilhões na economia foi a maior da história do país.

Após polêmica, Caixa troca ator que interpreta Machado de Assis



Reprodução
Comercial da Caixa com o ator branco, e agora com o negro

DE SÃO PAULO

A Caixa Econômica Federal começou a veicular ontem uma nova peça publicitária em que mostra Machado de Assis (1839-1908) interpretado por um ator negro.
O comercial foi "corrigido" após a polêmica gerada por um versão anterior, retirada do ar em setembro, em que o escritor era interpretado por um ator branco.
O fato havia sido alvo de protestos e reclamações entre telespectadores, pois o escritor não era branco.
A campanha publicitária comemora os 150 anos da Caixa e mostra a história de Machado, que teria sido correntista do banco. O comercial original foi criticado até mesmo dentro do governo.
De acordo com a Caixa, a nova peça publicitária foi encomendada assim que se detectou o erro. Na ocasião, o banco afirmou que não haveria custo extra pela correção.
A Seppir (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), quando soube do erro no comercial, redigiu um comunicado em que se referiu à propaganda como uma "uma solução publicitária de todo inadequada".
"A Seppir entende que, em respeito a sua contribuição na valorização da diversidade brasileira, a Caixa deve corrigir a produção deste vídeo, reconhecendo o equívoco", informou, em nota.
Após a retificação da Caixa, a Seppir afirmou que o banco se desculpou pela "caracterização inadequada" e informou que retirou a peça do ar e do site da instituição.

Adeus, Obama

VLADIMIR SAFATLE

Há alguns anos, o presidente dos EUA, Barack Obama, parecia ser a encarnação de uma nova política. O fato de ser negro em um país que conhecera leis segregacionistas, de ter nome árabe, ser inteligente e ter passado a infância em outros países parecia a coroação perfeita do ideal multicultural e tolerante.
Ele era a representação perfeita desses novos atores que sobem à cena sempre que vemos os momentos de crise das antigas elites atingirem o ápice. Agora que falta um ano para o fim de seu primeiro mandato, percebe-se o quanto essas esperanças passaram ao largo da história real. Em todas as áreas, seu governo tem resultados pífios.
Sua política econômica perdeu, logo na entrada, a coragem de confrontar-se com o sistema financeiro, de arrancar uma nova versão de um "New Deal" à la Franklin Roosevelt. Isto a ponto de o mundo ver a situação patética de uma das maiores fortunas dos EUA (Warren Buffett) lembrar o óbvio: que o sistema tributário norte-americano é completamente distorcido, beneficia só os mais ricos e de que o governo Obama nada fez para combater tal aberração.
Sua política social poderia ser marcada pela criação de um verdadeiro sistema público de saúde capaz de, enfim, livrar os mais vulneráveis da sanha draconiana das grandes seguradoras. No entanto o resultado final de seu projeto foi algo mais próximo de uma declaração de fracasso. Seu sistema conseguiu a proeza de desagradar todo mundo.
Por sua vez, o maior feito de sua política externa foi o assassinato de Bin Laden. Não precisávamos de Obama para este serviço. George W. Bush o faria com o maior prazer.
Fora isso, Obama não ofereceu nada de novo, a não ser uma patética coreografia de idas e vindas. Condenou o golpe militar de Honduras e depois voltou atrás. Defendeu as fronteiras de 1967 para o Estado palestino e depois voltou atrás. Prometeu diálogo com o Irã e depois voltou atrás.
Diz-se normalmente que a política é a arte da negociação e do consenso. Nada mais errado. A política é, em seu fundamento, a decisão a respeito do que será visto como inegociável. Ela é a afirmação taxativa daquilo que não estamos dispostos a colocar na balança. Se Obama tivesse compreendido isso, talvez ele teria ao menos uma importante parcela da população disposta a defender suas conquistas.
Mesmo os jovens que ocupam Wall Street não estão lutando apenas contra os detentores das rédeas do sistema econômico. Eles mostram, com isso, seu profundo desencanto com Barack Obama.
Agora, mesmo que ganhe um segundo mandato no ano que vem, ele nunca mais encarnará a esperança que, em um curto dia, representou.