quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Paquistão eleva o tom contra os EUA e se aproxima dos chineses

TENSÃO DIPLOMÁTICA



Nadeem Khawer/Efe
Em Hyderabad, boneco com retrato de Obama é queimado

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS - Estados Unidos e Paquistão elevaram o tom na troca de acusações ontem, em uma demonstração do abalo por que passa a relação bilateral desde a operação que matou o terrorista Osama bin Laden em solo paquistanês, no início de maio.
O Paquistão rechaçou as acusações dos americanos de que faria jogo duplo com militantes da rede Haqqani, ligada aos extremistas do Taleban. Além disso, Raza Gilani, premiê paquistanês, afirmou que ações militares unilaterais dos EUA dentro do país são uma violência à sua soberania.
Já a Casa Branca insistiu em que o governo paquistanês corte laços com o Taleban. "O Paquistão deve tomar uma atitude para lidar com essas ligações", disse o porta-voz Jay Carney. "Estamos sempre revisando nossos programas de ajuda", afirmou, em referência ao auxílio militar aos paquistaneses.
Enquanto se afasta dos americanos, Islamabad aproxima-se de Pequim. "Somos verdadeiros amigos e contamos um com o outro", disse ontem Gilani após conversas com Meng Jianzhu, ministro da Segurança Pública chinês.
"Os paquistaneses tentam usar todas as suas opções diplomáticas para desarmar a pressão sobre eles e esperam que a China possa ajudá-los nessa crise", disse o analista Hasan Askari Rizvi. Um ponto de descontentamento do lado paquistanês é o acordo nuclear entre EUA e Índia.

Brics podem (não) ajudar a Europa

MARK WEISBROT




Os Brics podem oferecer empréstimos com juros baixos ou zero, em divisas, para países com problemas


Na semana passada, o ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega, propôs que os países Brics (Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul) ofereçam ajuda à Europa, ou por meio do FMI (Fundo Monetário Internacional) ou comprando títulos de dívida europeus.
Compreendo o sentimento: as autoridades europeias criaram uma crise financeira que já está desacelerando a economia mundial e pode ter efeitos ainda piores. Isso prejudica os Brics, incluindo o Brasil.
Mas os Brics não vão necessariamente ajudar a Europa se derem dinheiro a ela. Se você tem uma pessoa na família que é viciada em heroína, dar heroína a ela não é a melhor solução. Seria melhor levá-la para um tratamento antidrogas.
Os responsáveis pela política econômica na Europa -a chamada "troika" formada por Comissão Europeia, BCE (Banco Central Europeu) e o FMI- têm um hábito prejudicial que precisa ser mudado. É sua dependência da austeridade. É claro que a dívida grega não é pagável e precisa ser reestruturada de maneira ordenada.
Mas as políticas de austeridade da troika fizeram a dívida grega subir de 11% do PIB, quando feito o primeiro acordo com o FMI (maio de 2010), para os 189% projetados para o próximo ano.
A crise mais recente foi desencadeada pela recusa do FMI em liberar uma parcela de 8 bilhões do empréstimo enquanto o governo grego não tivesse implementado mais endurecimento orçamentário doloroso e contraproducente. Isso levantou a possibilidade de um calote caótico e unilateral da Grécia, se essas medidas não forem aprovadas pelo Parlamento grego.
As autoridades europeias têm a capacidade de convocar todos os recursos financeiros de que podem precisar para resolver a crise atual. Elas podem reestruturar a dívida grega e empurrar para baixo os juros sobre os papéis de países com problemas, como Itália, Espanha, Portugal e Irlanda. Logo, não é primordialmente uma crise de dívida que a Europa enfrenta, mas uma crise de fracasso de uma política.
Eles não precisam de dinheiro do exterior. Podem criar o dinheiro necessário -por exemplo, para recapitalizar seu sistema bancário. O Federal Reserve dos EUA já criou mais de US$ 2 trilhões desde o começo da recessão americana, sem nenhum efeito sobre a inflação. O BCE pode fazer igual: o FMI prevê que a inflação na zona do euro caia de 2,5% neste ano para 1,5% em 2012.
Se os Brics quiserem realmente ajudar a Europa, podem oferecer empréstimos com juros baixos ou zero, em divisas, para os países com problemas que queiram seguir uma política fiscal expansionista. Isso lhes permitiria escapar das condições prejudiciais que as autoridades europeias lhes estão impondo e superar seus problemas de dívida, graças ao crescimento.
É claro que a Grécia teria que dar o calote sobre uma parte grande de sua dívida para poder aproveitar essa alternativa; mas os outros países não precisariam fazer isso. Se tivessem uma fonte alternativa de empréstimos, as autoridades europeias teriam que repensar sua estratégia fracassada. Desse modo, os Brics poderiam ajudar a salvar a Europa da incompetência de seus responsáveis políticos.


Tradução de CLARA ALLAIN 

Câmbio

ANTONIO DELFIM NETTO

O comportamento dos bancos centrais dos EUA e da Eurolândia são preocupantes. Nos EUA, Obama não conseguiu sequer nomear os dois diretores faltantes do Fed.
A repetição da "operação Twist" (vender títulos de curto prazo e comprar de longo), usada nos anos 60 do século passado com resultado pífio, sugere que o Fed esgotou o seu estoque de mágicas.
Inundou a economia de liquidez, mas não conseguiu induzir nem os consumidores a aumentar seus dispêndios (por temor do desemprego e pela tremenda queda do valor de seus ativos, qualquer coisa como US$ 7 trilhões), nem os empresários a aumentar seus investimentos (por falta de perspectiva de demanda), nem restabelecer plenamente o financiamento interbancário.
Na Eurolândia, a situação não é melhor. Seu Banco Central parece paralisado à espera da substituição do seu presidente, Jean-Claude Trichet, pelo já escolhido, Mario Draghi, um competente, experiente e pragmático economista italiano que desperta as maiores desconfianças dos puristas monetários alemães...
É hora, portanto, de insistirmos num programa social e econômico capaz de, em 2030, dar emprego de boa qualidade para 150 milhões de cidadãos que terão entre 15 e 65 anos de idade.
O cabo de guerra entre os analistas financeiros e a administração econômica do país vai continuar enquanto o poder incumbente não convencê-los de que o programa está, e vai continuar, a ser promovido sob a égide de um controle fiscal calibrado, sem exageros nem leniência, perseguido tenazmente, ano após ano, sem fantasias contábeis.
Não há razão objetiva para imaginar que esteja acontecendo no Brasil uma mudança no famoso tripé da política econômica canônica.
Se existe ainda alguma dúvida de que ele deve ser condicionado pelo pragmático e pelo oportunismo conjuntural, basta olhar para o que fez a Suíça com a sua moeda nas últimas semanas.
A propósito, seria a recente desvalorização do real só consequência das medidas de restrição cambial adotadas recentemente no Brasil? Certamente, não! Todas as moedas do mundo (menos o yen) se desvalorizaram frente ao dólar.
O dólar americano se fortaleceu porque continua, na opinião dos investidores mundiais e a despeito de ter perdido um "A", o refúgio mais seguro para seu capital.
O efeito inflacionário dela decorrente deve ser amenizado devido à relação inversa entre o valor do dólar e o preço das commodities: quando o dólar sobe seus preços caem. O efeito final será, talvez, positivo e de magnitude incerta, mas provavelmente menor do que sugerem os "terroristas" que apanharam no câmbio...


ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras na Folha de São Paulo



contatodelfimnetto@terra.com.br

terça-feira, 27 de setembro de 2011

ONU inicia debate sobre adesão da Palestina

Na primeira reunião a respeito do tema, Conselho de Segurança decidiu encaminhar pedido a Comitê de Adesão

Demanda para ser incorporada como membro pleno foi entregue na sexta-feira ao secretário-geral

DE NOVA YORK

Em reunião ontem, o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) decidiu que o pedido de adesão da Palestina como membro pleno deve começar a tramitar no órgão a partir de amanhã, quando a solicitação será encaminhada ao Comitê de Adesão.
É o primeiro passo para que a demanda do presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, apresentada na sexta-feira passada ao plenário da Assembleia-Geral, seja analisada pelo órgão. Mas o processo deve levar semanas.
O recebimento do pedido pelo Comitê de Adesão tem efeito mais simbólico que prático, uma vez que os Estados Unidos, que têm poder de veto no Conselho de Segurança, já declararam que não devem aprovar a adesão plena da Palestina. Porém a tática atual da Casa Branca é tentar convencer os membros do conselho a não apressar sua decisão.
A ideia é ganhar tempo para que o Quarteto para o Oriente Médio (EUA, Rússia, União Europeia e ONU) consiga retomar negociações diretas de paz entre palestinos e israelenses.
Em tese, se essa estratégia der certo, os EUA não terão que usar seu poder de veto e se desgastar politicamente. Ontem, o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, afirmou que o Brasil deve trabalhar para que o Quarteto execute procedimentos e prazos já tornados públicos.
"Nós consideramos que o Conselho de Segurança deve também acompanhar o trabalho do Quarteto e ver em que medida os prazos sinalizados são cumpridos."

Fidel volta a publicar reflexões e critica discurso de Obama na ONU

CUBA

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS - O ex-ditador cubano Fidel Castro afirmou em um artigo publicado ontem em site governamental que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez um discurso "confuso" na semana passada, na Assembleia-Geral da ONU, ocasião em que a Palestina pleiteou seu ingresso como Estado-membro da instituição.
Desde julho, Fidel, 85, não escrevia, o que alimentou rumores de que sua saúde estaria deteriorada. No texto publicado na página www.cubadebate.cu ele diz que fez uma pausa nas atividades que nesses dias ocupavam a "totalidade" de seu tempo para dedicar umas palavras à "singular oportunidade que oferece à ciência política" a reunião das Nações Unidas.
Fidel se referiu a Obama ironicamente como "ilustre Prêmio Nobel da Paz", por suas palavras sobre o Oriente Médio. "Apesar dos métodos fascistas dos EUA para enganar a opinião mundial, a resistência dos povos cresce", afirmou. A intervenção da Otan na Líbia foi classificada por ele como "genocídio" realizado pelos EUA e seus aliados.
O cubano ainda elogiou os discursos dos presidentes venezuelano, Hugo Chávez, e boliviano, Evo Morales. E prometeu novas colunas.

Evo Morales susta obra financiada pelo Brasil

Estrada da OAS teria um crédito do BNDES no valor de US$ 322 milhões

Governo promete debate sobre obra que cortaria parque nacional após série de protestos e renúncia de ministra

FLÁVIA MARREIRO
DE CARACAS

O presidente da Bolívia, Evo Morales, anunciou ontem a suspensão da construção de uma estrada financiada pelo Brasil que cortará um parque nacional, em resposta à crise provocada pela repressão a indígenas mobilizados contra a obra. Morales prometeu realizar um debate nacional e um referendo sobre a rodovia.
A ação violenta de policiais para dissolver uma marcha de grupos amazônicos anteontem, num acampamento a 300 km de La Paz, já provocara a renúncia da ministra da Defesa, Cecilia Chacón, e protestos em várias cidades. Em breve pronunciamento, Morales chamou de imperdoáveis os excessos da operação policial. Prometeu que o episódio será investigado por organizações internacionais e órgãos independentes.
Não há números oficiais de feridos, e as autoridades negam que haja mortos. A Igreja Católica e ONGs, porém, dizem que ao menos duas pessoas, entre elas um bebê, morreram na ação.

CUSTO POLÍTICO
O recuo de Morales ocorre após mais de 40 dias de mobilização contra a rodovia, que está sendo construída pela brasileira OAS -80% do financiamento é do BNDES (US$ 322 milhões).
O foco do conflito é o trecho que, pelo projeto original, cortará um território indígena e parque nacional de 1,1 milhão de hectares. Em nota, ontem, o Itamaraty disse que o governo brasileiro estava preocupado com a repressão policial. O texto reafirmava o apoio à estrada, mas argumentava que a obra deve contribuir para o "desenvolvimento e a estabilidade" da Bolívia.
Nos bastidores, a avaliação brasileira era a de que a operação de anteontem foi truculenta e com um custo político alto demais. Imagens de policiais usando gás lacrimogêneo para dissolver a marcha, composta também por mulheres e crianças, povoaram as TVs na Bolívia ontem. Manifestastes foram amordaçados e levados à força em ônibus para municípios vizinhos. Na capital, La Paz, e em Cochabamba, a terceira cidade do país, estudantes e ambientalistas promoveram grandes passeatas em protesto contra a repressão.

AEROPORTOS FECHADOS
Grupos pró-marcha também fecharam três aeroportos no norte do país, segundo rádio local. Na cidade de Rurrenabaque, manifestantes obrigaram a polícia a liberar indígenas detidos durante a dissolução da marcha. A decisão de dissolver a marcha indígena anteontem foi tomada pelo governo após um fim de semana de tensão na região de Yucumo, concentração do protesto.
No sábado, o chanceler do país, David Choquehuanca, que é um dos líderes indígenas mais reconhecidos do governo, foi obrigado a encabeçar a marcha e ajudou os manifestantes a furarem um bloqueio policial.

Crise faz União Europeia discutir o impensável

ANÁLISE ECONOMIA EUROPEIA

Bloco já debate seriamente temas árduos como união fiscal e responsabilidade compartilhada sobre dívidas nacionais



A CÚPULA VAI DEBATER CRIAR UMA AUTORIDADE CENTRALIZADA DA UE SOBRE AS ECONOMIAS NACIONAIS


PETER SPIEGEL
DO "FINANCIAL TIMES"

O tempo para resolver a crise das dívidas nacionais da zona do euro está se esgotando mais rápido do que as autoridades imaginavam. Escolhas sobre a Grécia e o futuro do euro terão de ser feitas em semanas.
Propostas antes consideradas impensáveis -tais como uma união fiscal ou responsabilidade compartilhada pelas dívidas nacionais- estão sendo preparadas para discussão entre os ministros.
Os governos deverão resolver três questões para responder à crise antes da conferência de cúpula da UE (União Europeia), em outubro. São elas: definir os poderes do fundo de resgate à zona do euro (no valor de € 44 bilhões), chegar a acordo sobre a necessidade de expandir esse fundo e apresentar planos para uma integração econômica aprofundada.

FUNDO DE RESGATE
A tarefa imediata é conseguir que os 17 Legislativos da zona do euro aprovem a reforma do mecanismo europeu de estabilidade financeira (EFSF), o fundo de resgate aos integrantes do bloco.
Até recentemente encarada como inaceitável por Alemanha e Holanda, essa tarefa agora é vista como essencial para resolver os dois problemas que mais ameaçam a zona do euro: um colapso do sistema bancário e uma corrida aos títulos públicos espanhóis e italianos. Para que o EFSF execute suas novas funções, os líderes da zona do euro reconheceram que o fundo já não tem as dimensões necessárias para suas novas tarefas.
Os resgates a Grécia, Irlanda e Portugal reduziram o montante disponível para garantias no EFSF a € 250 bilhões (R$ 615 bilhões). Muitos dos países que contribuíram para o fundo não têm mais capacidade de elevar sua participação. Os líderes europeus estão agora debatendo pelo menos cinco propostas diferentes sobre como fazer com que o capital do EFSF renda mais.

INTEGRAÇÃO ECONÔMICA
A cúpula da zona do euro debaterá reformas amplas para estabelecer uma autoridade centralizada da UE sobre as economias nacionais. Algumas das ideias são um Ministério das Finanças europeu e novos títulos garantidos coletivamente por todos os países da zona do euro.
Mas os debates mais recentes tratam da necessidade de uma revisão de tratados para implementar as reformas. Diversos países estão preocupados com a possibilidade de que um debate mais amplo sobre os tratados da União Europeia cause disputas políticas ferozes dentro de cada país.
Já a Alemanha está pressionando por novos tratados, que contenham normas severas para impedir países-membros perdulários de solapar a moeda comum.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Anticapitalistas acampam em Wall Street

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

Um parque próximo a Wall Street, em Nova York, transformou-se em acampamento para dezenas de americanos que têm protestado no local há uma semana.
Eles reclamam do sistema capitalista que, afirmam, privilegia ricos em detrimento dos pobres, segundo organizadores ouvidos pelo jornal "New York Times".
Manifestantes acusam a polícia de ter utilizado spray de pimenta para contê-los. Cerca de 80 deles foram detidos no sábado passado. Os organizadores do protesto montaram cozinha e biblioteca improvisadas.
Os participantes têm, também, coletado e divulgado fotos e vídeos do movimento. Há um centro para o uso de computadores. Médicos identificados com cruzes vermelhas na roupa cuidam da saúde de quem está acampado. A organização diz que há sempre ao menos cinco deles de prontidão no local. Em um canto, um cartaz diz "Wall Street is War Street" (War Street é rua de guerra, em tradução livre).

Senado dos EUA aprova verba para desastre

Democratas e republicanos viveram impasse similar ao do teto da dívida, em julho

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

Por 79 votos a 12, o Senado dos EUA, onde o presidente democrata Barack Obama tem maioria, aprovou ontem à noite um acordo que permitirá à Fema (Federal Emergency Management Agency), órgão responsável pela ajuda financeira em caso de desastres, continuar funcionando até o dia 18 de novembro.
A expectativa é que o acordo também seja aprovado pela Câmara, de maioria republicana -mas a votação foi mais um capítulo da disputa entre o governo americano e a oposição que, neste ano, já levou o país à beira do calote diante do impasse sobre o aumento do teto da sua dívida.
Os deputados estão em recesso nesta semana, mas é possível que a medida seja aprovada apenas com os votos dos líderes partidários. Atualmente, a Fema gasta estimados US$ 40 milhões diários para ajudar vítimas de desastres naturais nos EUA, como o furacão Irene, além de incêndios e inundações.
Republicanos e democratas vinham discutindo se o dinheiro destinado a emergências deveria vir de cortes em outros programas federais. A oposição defendia uma redução da ordem de US$ 1,5 bilhão nos programas de incentivo a veículos com maior eficiência energética; o governo argumentava que esses programas são necessários para gerar empregos no setor automobilístico.
"Evitamos um desastre, pelo menos até o próximo", afirmou o senador Ben Nelson, democrata, após o acordo. Em 31 de julho, depois de quase um mês de impasse e discussões acirradas entre democratas e republicanos, Obama anunciou acordo bipartidário para enxugar US$ 1 trilhão do Orçamento dos EUA nos próximos dez anos e elevar o teto do endividamento público do país.
O desgaste político resultante dessa disputa, segundo analistas, influiu decisivamente para que a agência de classificação de risco Standard and Poor's rebaixasse a nota dos títulos da dívida norte-americana pela primeira vez na história, o que ocorreu pouco tempo depois.

Otimismo sobre solução de crise na Grécia eleva Bolsas europeias

Expectativa que animou os mercados é de aumento do Fundo de Estabilização Financeira

Embora medida tenha sido insinuada por comissário europeu, ministro alemão negou que esteja em estudo

VAGUINALDO MARINHEIRO
DE LONDRES

A expectativa de que os políticos europeus vão enfim tomar medidas concretas para enfrentar a crise grega e dos bancos do continente fez as Bolsas da Europa terem ganhos ontem, após uma semana de perdas recordes.
A Bolsa alemã subiu 2,87%; a francesa, 1,75%. Em Londres, o índice subiu 0,47%, puxado pelas ações de bancos. O presidente dos EUA, Barack Obama, disse que a crise europeia assusta o mundo todo e que os líderes estão demorando a agir. A crise da Grécia (cujas dívidas representam mais de 140% de seu PIB) se arrasta desde maio de 2010.
A União Europeia e o FMI (Fundo Monetário Internacional) concordaram em conceder um empréstimo, mas exigiram cortes de gastos que afundaram ainda mais a economia do país.
Está claro que a Grécia não conseguirá pagar sua dívida. Há duas dúvidas: se o calote será organizado e quanto será perdoado pelos detentores dos títulos. Uma cifra que se especula é 50% de redução.
É nisso que trabalham os ministros de finanças da União Europeia: numa forma de organizar o calote e proteger os bancos da quebra, com injeção de capitais.
Outra medida é a elevação do Fundo de Estabilização Financeira, que tem de ser aprovada pelos Parlamentos dos países-membros e socorreria países em dificuldades. Há informações de que o fundo passaria de 400 bilhões (R$ 1 trilhão) para até 2 trilhões (R$ 5 trilhões).
A dificuldade está em encontrar um consenso. De manhã, Olli Rehn, comissário de Finanças da União Europeia, afirmou que o aumento do fundo estava em estudo. À noite, o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, disse que não.

Luzes sobre a história

TENDÊNCIAS/DEBATES
EDINHO ARAÚJO



A Comissão da Verdade, recém-aprovada na Câmara, não terá caráter punitivo, mas abrirá os arquivos secretos onde estiverem


O dia 21 de setembro de 2011 entra para a história como aquele em que os deputados deram ao país a chance de investigar episódios de um período obscuro da vida nacional, em que as restrições às liberdades individuais e coletivas constituíam regra.
A aprovação do projeto que cria a Comissão Nacional da Verdade, do qual fui escolhido relator, é uma demonstração de maturidade do Parlamento brasileiro e reforça o compromisso com o restabelecimento da verdade histórica, sem ódio nem revanchismo.
Reabrir antigas feridas, sabemos, exacerba sentimentos, seja da parte de quem violou os direitos humanos, seja da parte de quem sofreu a dor da injustiça.
Reconheço os esforços iniciados pelo ex-presidente Lula e concluídos pela presidente Dilma Rousseff na busca de consenso sobre tema tão embaraçoso. Louvo, sobretudo, a boa vontade e o espírito cívico das lideranças partidárias, permitindo que a Câmara dos Deputados obtivesse, em uma única noite, o entendimento que por anos a fio não se imaginava alcançar.
Com essa votação, a Câmara permite jogar luzes sobre fatos que ainda não foram escritos por nossos historiadores. Casos sobre os quais vamos nos debruçar a partir de agora, com o intento de entregar ao país os esclarecimentos que a sociedade espera e merece.
Os sete integrantes da Comissão da Verdade serão escolhidos pela presidente Dilma. A tarefa que lhes cabe é examinar as violações de direitos humanos praticadas no Brasil de 1946 a 1988, ano da promulgação da atual Constituição.
O período investigado abarca longos anos de instabilidade política e institucional. É essencial apurar não apenas as violações perpetradas durante a ditadura militar mas também as tensões que precederam o golpe militar de 1964, como a saída de João Goulart e a cassação de parlamentares que resistiam à ruptura institucional.
A comissão não terá caráter punitivo, mas abrirá os arquivos secretos onde quer que estejam. Terá poderes para requisitar documentos públicos ou privados e prover meios e recursos para localizar desaparecidos políticos -a fim de que suas famílias possam enterrá-los e fazer o rito de passagem.
A Justiça brasileira dará a palavra final sobre o que vier à luz.
O número de sete membros é suficiente para a comissão. O grupo terá suporte da Casa Civil e de funcionários comissionados. Comissões similares instaladas em outros países tiveram estrutura parecida.
No Chile, foram oito membros; na Argentina, onde ocorreram mais de 30 mil violações, 13 membros; na Guatemala e em El Salvador, três; e no Peru, 12.
A Comissão da Verdade consolida o processo democrático iniciado com a Lei da Anistia, com o movimento que levou às eleições livres e diretas e desaguou na Constituinte de 1988, e que avançou ainda mais com a constituição da Comissão de Mortos e Desaparecidos e da Comissão de Anistia.
O velho MDB de Ulysses Guimarães e de tantos outros guerreiros esteve à frente da luta contra a ditadura e pelo restabelecimento da liberdade e da democracia em nosso país. Agora, anos depois, o PMDB foi o fiador do acordo que permitiu criar a comissão.
A resistência às injustiças foi construída por meio de passos firmes, que mudaram nossa caminhada e o nosso jeito de caminhar de agora em diante.
Seria emblemático homenagear a coragem e a ousadia do deputado Rubens Paiva, desaparecido em 1971 durante o regime militar, dando seu nome ao projeto que acabamos de aprovar. É o que proponho.
Em uma nação grande e livre, nunca é tarde para reescrever a história, fazer justiça e restabelecer a verdade.


EDINHO ARAÚJO é deputado federal pelo PMDB-SP e relator do projeto que cria a Comissão da Verdade

Teológico-político

VLADIMIR SAFATLE

"Pense globalmente, aja localmente." Este era um dos slogans mais repetidos por qualquer manual de administração de empresas nos anos 90. O filósofo Slavoj Zizek demonstrou como a política externa dos EUA na primeira década do século 21 seguiu um imperativo inverso: "Pense localmente, aja globalmente".
De fato, boa parte das intervenções norte-americanas na política mundial parece ser orientada por problemas domésticos. Um exemplo trágico é o conflito Israel-Palestina.
Desde que assumiu o poder, Obama reiterou sua disposição em lutar por um Estado palestino. Logo nos primeiros meses de seu governo, ouvimos suas exigências claras sobre o congelamento da política de construção de assentamentos na Cisjordânia. Meses atrás, ele afirmou que a negociação sobre tal Estado deveria partir das fronteiras definidas pela ONU em 1967.
Tudo isso não passou de palavras vazias. Agora, Obama vetará pateticamente uma proposta de reconhecimento do Estado palestino que ele mesmo havia enunciado, na ONU, como objetivo a ser alcançado neste ano. O argumento é que as condições ainda não estariam dadas, já que, para Obama, um Estado não pode ser reconhecido se não for fruto de negociação com a potência que ocupa seu território.
Seguindo tal argumento inacreditável, o Kosovo nunca seria reconhecido como país. Mas os EUA foram um dos primeiros a reconhecê-lo.
O governo Netanyahu disse claramente que um Estado palestino nas fronteiras de 1967 é inaceitável. Ele não afirmou algo como: só aceitamos se houver garantias substantivas de completo desarmamento do Hamas, se pudermos operar conjuntamente a segurança de zonas sensíveis do novo Estado etc. A posição foi simplesmente: não há negociação sobre este ponto. Depois disso, há de se perguntar o que resta a negociar.
A posição dos EUA nessa questão, na contramão de praticamente todo o resto do mundo, só é explicável pelas idiossincrasias de sua política interna. Se Obama é incapaz de pressionar seu aliado a encarar o caráter insustentável da situação, isto não se deve só à influência dos grupos norte-americanos de pressão ligados à comunidade judaica.
O problema é mais espinhoso. Sua raiz deve ser procurada no terreno teológico e na aliança entre os messianismos evangélicos e judaicos. Faz parte da mentalidade evangélica hegemônica no chamado "Bible Belt" a crença em uma certa "comunidade de destino" entre os representantes do Velho e do Novo Testamento.
Algo que o Partido Republicano sabe muito bem e não tem medo de instrumentalizar. Triste é pensar que tópicos sensíveis da política internacional estejam à mercê de influências dessa natureza.


VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras na Folha de São Paulo

sábado, 24 de setembro de 2011

O contrato social

PAUL KRUGMAN




A questão é que todos vivemos em uma sociedade maior e nos beneficiamos por fazer parte dela

NESTA SEMANA, o presidente Barack Obama disse o óbvio: que os americanos ricos, muitos dos quais pagam muito pouco em impostos, deveriam arcar com parte do custo da redução do deficit orçamentário de longo prazo. E republicanos como o deputado Paul Ryan responderam com gritos de "guerra de classes!".
Estimativas mostram que, entre 1979 e 2005, a receita (já contabilizada a inflação) das famílias na faixa do meio da distribuição de renda subiu 21%. Enquanto isso, no mesmo período, a receita dos muito ricos subiu 480%.
Os ricos lhe parecem ser vítimas de uma guerra de classes?
Para sermos justos, discute-se até que ponto políticas governamentais foram responsáveis pela espetacular disparidade de aumento de renda. O que sabemos ao certo, no entanto, é que essa política tem consistentemente beneficiado os ricos em oposição à classe média.
Alguns dos aspectos mais importantes desse viés envolveram coisas como o ataque sustentado ao movimento sindical organizado e a desregulamentação financeira, que criou fortunas enormes ao mesmo tempo em que abriu caminho para o desastre econômico. Mas foquemos hoje apenas sobre os impostos.
Uma consequência da cobrança de menos impostos sobre a riqueza e mais sobre o trabalho é a criação de muitas situações em que pessoas com rendas multimilionárias, que normalmente recebem boa parte dessa renda em ganhos de capital e outras fontes que são pouco taxadas, acabam pagando uma parcela total de impostos mais baixa que os trabalhadores de classe média.
De acordo com novas estimativas feitas pelo Centro de Política Tributária, não partidário, um quarto das pessoas com receita superior a US$ 1 milhão por ano pagam imposto de renda e salarial de 12,6% ou menos de sua receita -menos do que a porcentagem paga por muitas pessoas da classe média.
Eu sei como a direita vai responder a esses dados, oferecendo estatísticas enganosas e fazendo afirmações morais dúbias. Por outro lado, temos a alegação de que os ricos têm o direito de ficar com seu dinheiro. A questão é que todos vivemos em uma sociedade maior e nos beneficiamos por fazer parte dela.
Elizabeth Warren, a reformadora financeira que está concorrendo a uma vaga no Senado por Massachusetts, recentemente deu algumas declarações eloquentes que vêm chamando muita atenção, e com razão.
"Não há ninguém neste país que tenha enriquecido sozinho, ninguém", ela declarou, observando que os ricos só podem enriquecer graças ao "contrato social" que garante uma sociedade decente e funcional no qual possam prosperar.
Isso nos traz de volta àqueles gritos de "guerra de classes".
Os republicanos alegam estar profundamente preocupados com o deficit orçamentário. Mas eles insistem que os ricos não sejam chamados a exercer qualquer papel na defesa do país contra essa ameaça existencial.
Isso equivale a exigir que algumas poucas pessoas de muita sorte sejam isentas do contrato social que se aplica a todo o resto.
E isso, caso você esteja se perguntando, é exatamente a cara que tem a guerra de classes real.

Tradução de CLARA ALLAIN

Palestinos pedem Estado e ONU sedia duelo com Israel

Abbas apresenta pedido de reconhecimento e diz ser 'momento da verdade'

Netanyahu reage e diz que para haver Estado é necessário primeiro que sejam concluídas as negociações de paz

ÁLVARO FAGUNDES
VERENA FORNETTI

DE NOVA YORK

Após meses de negociação, o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, apresentou ontem o pedido para que a ONU reconheça o Estado palestino como membro pleno, em um dia marcado pela disputa verbal entre ele e o premiê israelense, Binyamin Netanyahu.
Logo após entregar o documento para o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, Abbas discursou à Assembleia-Geral, onde foi recebido com um longo aplauso.
A delegação do Brasil foi uma das que aplaudiram de pé ao final do discurso.
"É o momento da verdade e o meu povo está esperando para ouvir do mundo: vão permitir que Israel continue a sua ocupação, a única ocupação do mundo?"
Já Netanyahu rebateu dizendo que a ONU não é o melhor caminho para que as duas partes cheguem a um acordo de paz e que é necessária a negociação direta.
"Nós viajamos milhares de milhas até Nova York, então vamos nos encontrar hoje [ontem] na ONU. O que nos impede?", disse o israelense.
Netanyahu discursou depois de Abbas e para um público menor porque vários diplomatas deixaram a sala em boicote. O aplauso foi tímido e puxados por israelenses.
Ele também contestou a versão do palestino de que a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia é o centro da falta de acordo.
Para o premiê, a paz precisa ser ancorada pela segurança. Ele disse que a saída de Israel do Líbano e da faixa de Gaza "não acalmou a tempestade militante islâmica" (referência a foguetes do Hizbollah e ao Hamas), só a trouxe "para mais perto de nós".
"Israel está preparado para ter um Estado palestino na Cisjordânia, mas não para ter uma nova Gaza."
Já Abbas disse que a "ocupação está correndo contra o tempo para redesenhar as fronteiras da nossa terra de acordo com o que deseja impondo um fato consumado".
O líder palestino disse que Israel tem uma "política multifacetada de limpeza étnica que visa retirá-los [os palestinos] da sua terra ancestral".
Para Netanyahu, "limpeza étnica" é pregar a criação de um Estado sem judeus.

PRÓXIMOS PASSOS
O Conselho de Segurança começa a discutir depois de amanhã a proposta da Palestina. A votação, no entanto, pode demorar porque os palestinos buscam o apoio de ao menos 9 dos 15 membros. Têm garantido ao menos seis até agora, entre eles, o Brasil.
A vitória seria simbólica, porque os EUA já disseram que vão vetar a proposta.
O Quarteto (ONU, EUA, UE e Rússia) propôs ontem a retomada das negociações para que um acordo seja finalizado até o fim de 2012.
O chanceler brasileiro, Antonio Patriota, elogiou a ação. "Não tínhamos essa manifestação do Quarteto tão firme em favor da retomada das negociações, estabelecendo inclusive prazos".

Duas palavrinhas

RUY CASTRO

RIO DE JANEIRO - Outro dia, numa eloquente demonstração da nova pujança nacional, o Brasil sediou um concurso de Miss Universo. Não ria. Como dizia o outro, nunca antes na história desse país etc. E a plateia reagir com indiferença ao fato de a Miss Brasil, mesmo desfilando em casa, ter chegado em terceiro lugar, revela também a nossa súbita maturidade. De novo, não ria. Se não se abala com as grandes questões, por que o Brasil se abalaria com as pequenas?
Em 1954, quando Martha Rocha ficou em segundo no Miss Universo, em Miami, foi um problema. Quatro anos antes, em 1950, o Brasil já fora vice ao perder a Copa para o Uruguai. Era como se estivéssemos condenados ao segundo lugar entre as nações -o que, como se sabe, equivalia ao último lugar.
O pior é que, no caso de Martha Rocha, correu pela imprensa que havíamos sido garfados. O júri alegara que Martha tinha duas polegadas -5 cm- a mais nos quadris do que no busto e dera o título à lambisgoia americana. Enfim, o que para nós era uma qualidade -cadeiras anchas e busto delicado- para eles era um defeito.
E se soubéssemos na época que as duas polegadas foram uma invenção do repórter João Martins, enviado especial de "O Cruzeiro" a Miami, em conluio com os outros enviados brasileiros, logo após o desfile?
Que o júri só elegeu a Miss EUA porque o concurso precisava conquistar o público americano?
A revelação de que as duas polegadas eram uma farsa foi feita pelo próprio João Martins à "Manchete" em 1979 e confirmada pelo ex-diretor de "O Cruzeiro", Accioly Netto, em suas memórias, "O Império de Papel", em 1998. Ou seja, num Brasil jovem e ingênuo, com duas palavrinhas um repórter safo manipulou a psique de milhões.

Lenta, gradual e restrita

FERNANDO DE BARROS E SILVA

SÃO PAULO - A Comissão da Verdade, enfim aprovada pela Câmara, é uma espécie de epílogo melancólico, mas bem brasileiro, da nossa abertura, muito mais lenta, gradual e segura, como diziam os militares, do que ampla, geral e irrestrita, como reivindicava a esquerda.
A despeito das boas intenções de Dilma, essa comissão, limitada e tardia, exprime, paradoxalmente, o descaso do país -aí, sim, quase irrestrito- pelo direitos humanos e pelo Estado democrático de Direito.
Não estamos discutindo se os que torturaram e mataram em nome do Estado devem ser julgados e punidos.
Transcorridos 40 anos, o país ainda resiste a esclarecer as circunstâncias e a identificar os responsáveis pelas mortes e "desaparecimentos" dos adversários da ditadura.
Esse é o pano de fundo substantivo, ou a "verdade" da exigência um tanto bizantina do DEM, para que a comissão não tenha entre seus participantes pessoas sem condições de "atuar com imparcialidade".
Na Argentina, a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas foi criada em 1984, um ano depois da ditadura. Lá, os responsáveis pelos crimes estão sendo julgados. Jorge Videla foi condenado à prisão perpétua no final do ano passado.
Por aqui, em sintonia com a tradição do jeitinho, o STF chancelou a impunidade dos torturadores ao decidir, em 2010, que não iria examinar se a Lei da Anistia, de 1979, era compatível com a Constituição de 1988. Não é -como parece óbvio.
Nessas condições, se tudo correr bem, a nova comissão irá concluir o trabalho da Comissão de Mortos e Desaparecidos, criada por FHC em 1995, quando o Estado, enfim, admitiu a responsabilidade pelos crimes, fez uma lista oficial das vítimas e indenizou diversas famílias.
Há ainda pelo menos 140 pessoas mortas cujo paradeiro não se conhece. Como estamos no Brasil, é provável que nem essa satisfação elementar às famílias e à história a comissão "da verdade" seja capaz de dar.

Democracia maquiada

Seria apenas patética, se não atropelasse os direitos fundamentais, a mais recente investida do governo argentino contra jornalistas e economistas que divulgam dados inconvenientes à gestão de Cristina Kirchner.
Incomodada com a publicação frequente, pela imprensa do país, de cifras de inflação muito superiores aos números maquiados oficialmente, a Casa Rosada move na Justiça um processo contra analistas e consultorias que elaboram índices próprios de preços.
Como desdobramento do processo, o juiz do caso exigiu dos principais jornais do país o envio à corte dos dados de repórteres, editores e redatores que escrevam ou tenham escrito sobre o assunto. O magistrado requereu, de início, "nomes, endereços e telefones". Agora diz que algumas informações pessoais dos jornalistas, como o e-mail privado, não precisam ser repassadas.
É como tentar barrar a divulgação de que o céu é azul. Até fervorosos aliados da presidente Kirchner sabem que sua administração manipula os dados oficiais de inflação. A carestia corre a um ritmo quase três vezes mais alto que a taxa do governo, em torno de 9%.
Trata-se, portanto, de mais uma tentativa grosseira de intimidação por parte de um governo que elegeu a imprensa local como inimiga. Teme-se que os profissionais relacionados possam vir a ser chamados a depor como testemunhas, no que seria uma clara violação do sigilo de fonte jornalística, garantido pela Constituição argentina -e por tantas outras em regimes democráticos- a fim de assegurar o direito da sociedade à informação.
Não é apenas o direito à crítica que vem sendo desrespeitado no país vizinho, mas a simples possibilidade de expressar opiniões divergentes e de publicar informações que desagradem ao Executivo.
Desta feita, o ataque à imprensa carrega o ingrediente novo de atingir também outras empresas privadas, as consultorias, que já foram multadas (em um total de mais de R$ 200 mil desde o início do ano) por divulgarem o óbvio. Intimidação desse porte do governo contra profissionais liberais só encontra paralelo em ditaduras.
Insuflada por alta aprovação popular e pela perspectiva de vitória nas próximas eleições presidenciais, no mês que vem, a presidente Cristina Kirchner ganha confiança para suas investidas autoritárias e segue os passos de seu colega venezuelano, Hugo Chávez. É a democracia nesses países que, como seus índices de inflação, aparece cada vez mais maquiada.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Justiça argentina exige fontes de jornalistas

Juiz determina que diários entreguem ainda dados de repórteres econômicos, em uma ação movida pelo governo

Origem da disputa é a disparidade entre o índice oficial de inflação e as estimativas de consultorias privadas

LUCAS FERRAZ
SYLVIA COLOMBO

DE BUENOS AIRES

A Justiça argentina enviou aos principais jornais do país uma notificação solicitando dados dos jornalistas responsáveis por escrever sobre inflação e a revelação das fontes consultadas por eles.
A medida é consequência de uma ação aberta a pedido do governo Cristina Kirchner contra economistas e consultorias que elaboram índice próprio de preços -paralelo ao oficial, sobre o qual pesa suspeita de manipulação por parte da Casa Rosada. Os diários "Clarín", "La Nación", "Página/12", "El Cronista Comercial" e "Ámbito Financiero" receberam nesta semana a notificação do Juizado Nacional Penal.
O juiz Alejandro Catania pede aos jornais que forneçam "nomes, endereços, telefones e os contatos dos jornalistas -editores, redatores- que tenham publicado notícias sobre índices de inflação" desde 2006.
No documento, a Justiça também pergunta aos órgãos de imprensa se receberam publicidade da M&S Consultores, uma das consultorias investigadas. O pedido gerou forte rechaço da oposição e das empresas jornalísticas.
"É mais uma ação do governo contra a liberdade de imprensa, para intimidar os jornalistas e tentar impor um relato único", disse à Folha Daniel Dessein, presidente da Adepa (Associação de Entendidas Jornalísticas Argentinas). "O pedido viola ainda a preservação da fonte, um preceito de nossa Constituição."
Assim como no Brasil, o sigilo da fonte é garantia constitucional no país vizinho. Um integrante do Juizado disse que o pedido é para jornalistas serem ouvidos como testemunhas, não como réus.
Autor da ação contra as consultorias, Guillermo Moreno, secretário de Comércio Interior do governo, diz que elas atuam com viés político e infringem um artigo do código penal, cometendo "fraudes de comércio e indústria" ao publicar índices de preços sem rigor científico. Desde o início do ano, oito consultorias receberam multas (que somam R$ 205 mil) por infrações. A Casa Rosada não se manifestou sobre o caso até a conclusão desta edição.
"Não faz nenhum sentido a Justiça pedir dados pessoais dos jornalistas e, principalmente, informações sobre as fontes. Como se trata de uma briga política, tudo isso pode ser usado politicamente", afirmou Fernando González, diretor de redação do "El Cronista Comercial".
A alta da inflação é um ponto fraco do governo Cristina e um dos temas que lideram as preocupações da opinião pública. No entanto, a presidente se mantém como favorita na disputa presidencial do mês que vem.
Consultorias privadas estimam que a inflação anual é, em média, de 25%. O índice oficial calculado pelo Indec (o IBGE argentino) é de 9%. O órgão sofreu reformulação de pessoal e método de cálculos em 2007, no que é considerada uma "intervenção" federal para manipular estatísticas a seu favor.

Arquivo sigiloso de órgão da Presidência tem 70 mil papéis

LEI DE INFORMAÇÕES

DE BRASÍLIA - O GSI (Gabinete de Segurança Institucional) da Presidência revelou que guarda mais de 69 mil documentos sigilosos, incluindo os produzidos pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência).
Esses arquivos se dividem em quatro tipos: dois ultrassecretos, 4.116 secretos, 56.644 confidenciais e 8.344 reservados. Eles são classificados de acordo a necessidade de sigilo.
Os números foram revelados ao Senado depois de o presidente da Comissão de Relações Exteriores, Fernando Collor (PTB-AL), solicitar informações ao órgão.
É na comissão que está em debate a Lei de Acesso às Informações Oficiais, que define que nenhum documento pode ser mantido em segredo por mais de 50 anos.
O ex-presidente e hoje senador defende o sigilo eterno para alguns papéis. Como presidente da comissão, Collor tem dificultado a votação do projeto, que muda a classificação e os prazos de armazenamento de documentos oficiais.
Na resposta ao Senado, o ministro José Elito Siqueira (GSI) não informou o período em que a documentação arquivada foi produzida.
Pela lei, documentos confidenciais e reservados devem tornar-se públicos após dez e cinco anos, respectivamente. Já os secretos devem ter acesso liberado após 20 anos.
Os prazos para liberação podem ser prorrogados por uma vez, conforme decreto presidencial de 2004, mas o material ultrassecreto pode ser mantido em sigilo eterno.

Ahmadinejad na ONU

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Palestinos buscam 3 votos para 'vitória moral' em Conselho

Líderes dizem ter o apoio de 6 dos 15 membros do órgão para reconhecimento como Estado pelas Nações Unidas

Se chegarem a 9 votos, obrigarão os EUA a exercer poder de veto; Mahmoud Abbas se reúne hoje com Obama

ÁLVARO FAGUNDES
VERENA FORNETTI

DE NOVA YORK

Faltando três dias para a Palestina apresentar o pedido para ser reconhecida como Estado membro da ONU, as negociações se intensificavam para conquistar apoio no Conselho de Segurança.
Os palestinos dizem que têm ao menos 6 dos 9 votos necessários.
Hoje, o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, se reunirá com o presidente dos EUA, Barack Obama, que já deixou claro que vetará o pedido no Conselho de Segurança. Obama também receberá o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu.
"Elas [autoridades palestinas] estão tentando convencer dois ou três membros do Conselho de Segurança a votar a favor de aceitar a Palestina como Estado membro da ONU", afirmou, em Nova York, o ministro das Relações Exteriores palestino, Riad Malki.
Para que seu pedido seja aceito, os palestinos precisam do apoio de 9 dos 15 países que integram o Conselho e que nenhum dos cinco membros permanentes (EUA, China, Rússia, França e Reino Unido) vetem a proposta.
Os palestinos contam atualmente com os votos de Brasil, China, Índia, Rússia, África do Sul e Líbano. Além dos EUA, os votos contrários dados como certos são os de Colômbia e Alemanha.
O chanceler brasileiro Antonio Patriota disse que a presidente Dilma Rousseff e o colega americano, Barack Obama, não discutiram o assunto na reunião que tiveram ontem em Nova York.
A dúvida ainda paira em relação a França, Reino Unido, Bósnia, Nigéria, Gabão e Portugal.
O presidente israelense, Shimon Peres, conversou ontem com o colega da Bósnia e deveria fazer o mesmo com os líderes de Gabão e Nigéria, buscando apoio contra o projeto palestino.
Já o premiê Binyamin Netanyahu viajou ontem para Nova York, onde disse não esperar recepção "calorosa".
"Exatamente por isso que acredito que devamos ir lá [Assembleia Geral da ONU] e apresentar a nossa verdade, de um povo que foi atacado seguidamente por aqueles que eram contra a nossa própria existência."
No cenário em que a proposta passe pelo Conselho de Segurança, ela precisa ser aprovada ainda por dois terços dos 193 países que integram a Assembleia Geral da ONU -o que seria praticamente certo.
O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, disse que vai entregar na sexta-feira ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, o pedido, que, assim, será encaminhado ao Conselho de Segurança.
Segundo o chanceler francês, Alain Juppé, pode levar "semanas" para que a votação ocorra no Conselho.
"Não parece que a votação vai acontecer nesta sexta-feira, porque não vai dar tempo para que a diplomacia retome as negociações de paz."
A outra alternativa para os palestinos é encaminhar o assunto diretamente à Assembleia Geral para reconhecê-los como Estado observador, o que exigiria a aprovação por 97 países.

Tribunal do Equador mantém multa a jornal

"El Universo" precisará pagar US$ 40 mi por ter feito acusação a presidente Correa

DE CARACAS

Um tribunal de apelações no Equador confirmou ontem sentença penal e multa contra um jornalista e três diretores do jornal "El Universo" por crime de injúria contra o presidente Rafael Correa. O jornal terá de pagar multa de US$ 40 milhões.
Foi mantida a pena de três anos de prisão para o ex-editor de opinião, Emilio Palacios, e os demais. A defesa ainda pode recorrer.
Correa comemorou o resultado e cogitou "perdoar" os envolvidos caso peçam desculpas ao país e admitam que cometeram injúria.
O presidente resolveu processar o jornal em reação a uma coluna em que Palacios o chamava de ditador.
O jornalista também o acusava de haver ordenado "disparar à discrição e sem aviso contra um hospital cheio de civis" durante rebelião policial em setembro de 2010.
A ratificação da decisão provocou nova onda de críticas contra o governo Correa.
A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) disse que a sentença é "desproporcional" e "burlesca" e visa impor autocensura aos demais meios de comunicação.

Novo conflito no Oriente Médio?

ROBERTO ABDENUR




A ausência de atitudes flexíveis de Israel e dos EUA traz risco de nova "intifada" nos territórios ocupados

MANTIVE, DURANTE minha gestão como embaixador em Washington, cordiais relações com o então embaixador da Arábia Saudita, Turki al Faisal, um influente membro da família real, ex-chefe do Serviço de Inteligência e ocupante de altos cargos governamentais.
Reencontro seu nome, agora, como assinante de um inusitado e insólito artigo publicado na imprensa dos EUA e outros países, inclusive o Brasil.
O artigo, intitulado "Se vetarem um Estado, perdem um aliado", chama a atenção por ser um verdadeiro ultimato, redigido em termos enfáticos, agressivos e até ameaçadores, ao governo norte-americano.
Turki afirma que os EUA "têm a obrigação" de apoiar o pleito palestino pelo reconhecimento como Estado. Que em caso contrário a Arábia Saudita não mais poderá manter sua "histórica relação especial" com os EUA.
Depois de lamentar que a administração Obama tenha deixado de oferecer "novas propostas viáveis" para a solução da questão palestina, reitera ser "crucial" o endosso americano ao Estado palestino, sob risco de que um veto norte-americano no Conselho de Segurança da ONU provoque "profundas consequências negativas [...] levando a uma grita geral entre os muçulmanos no mundo inteiro".
Termina por dizer, brutalmente, que se os EUA não quiserem apoiar o pleito palestino, pelo menos "saiam da frente" e não atrapalhem os esforços da Arábia Saudita e de outros países árabes moderados.
O artigo, saído antes da sessão da Assembleia Geral da ONU, não fica só na hipótese de um sério abalo no relacionamento dos EUA com um de seus principais aliados no mundo árabe -surge quando nuvens negras pairam sobre o Oriente Médio a propósito da questão palestina e no contexto da crescente instabilidade e imprevisibilidade acarretadas pela Primavera Árabe e a deterioração das relações entre Israel e países como Egito e Turquia.
Quando a agora liberada opinião pública nos países árabes dá vezo a seus -compreensíveis- sentimentos negativos em relação a Israel, por conta de sua política expansionista e intransigente. E quando a moderada democracia islâmica na Turquia passa a projetar uma renovada influência sobre a região.
Ancara chega a acenar com o recurso a medidas como a mobilização de sua Marinha para proteger barcos dirigidos a Gaza.
As crises no Iraque, Síria, Iêmen, Líbia, somadas à inquietação popular nos países do Golfo -inclusive na própria Arábia Saudita- podem levar a um ponto de ebulição as tensões na região. A gravidade da situação não pode ser subestimada.
Na provável ausência de posturas mais flexíveis da parte de Israel e dos EUA, há risco de que se precipite uma nova "intifada", a rebelião civil nos territórios ocupados. Ou mesmo de choques militares.
Por indesejável ou impensável que seja, se apresenta nesse contexto o risco de um novo conflito no Oriente Médio. O incêndio que lá lavra precisa com urgência ser contido, com mais razão pelos efeitos devastadores que teria sobre uma já combalida economia internacional.
Bem faz o governo brasileiro em apoiar a causa palestina, sem prejuízo de seu compromisso com a sobrevivência e bem-estar de Israel.

Concurso premia crianças com armas na Somália

DA BBC BRASIL



Uma estação de rádio na Somália controlada pelo grupo extremista islâmico Al-Shabab premiou com armas crianças que participavam de um concurso de declamação do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos.
A competição da rádio Andulus também avaliou conhecimentos gerais.
O grupo que venceu a competição recebeu um fuzil AK-47 e o equivalente a US$ 700. O segundo colocado recebeu um AK-47 e US$ 500 e terceiro, duas granadas de mão e US$ 400.
O grupo Al-Shabab, que teria ligações com a Al-Qaeda, controla grande parte do sul e do centro da Somália. Recentemente o grupo saiu da capital Mogadício, onde o fraco governo apoiado pela ONU está no comando.
GRANADAS
Quatro crianças, de idades entre 10 e 17 anos, foram escolhidas para representar cada distrito na competição realizada durante o Ramadã, o mês sagrado dos muçulmanos, que terminou em agosto.
"Os jovens devem usar uma mão para educação e com a outra segurar uma arma para defender o Islã", disse o comandante do Al-Shabab Mukhtar Robow aos vencedores da competição em Elasha, cerca de 20 km da capital.
Os vencedores também receberam livros religiosos.
Mohamed Moalimu, repórter da BBC em Mogadício, disse que o concurso vem ocorrendo há três anos. Em edições anteriores, a primeira colocação era premiada com um lançador de granadas.
A Somália atravessa uma severa seca e muitas áreas controladas pelo grupo sofrem com fome.

Garantia legal

ANTONIO DELFIM NETTO

O "capitalismo" não foi inventado: é um processo de organização social e produtiva que os homens foram "descobrindo" ao longo de sua trajetória. Ele é sujeito a crises porque: 1º) O próprio comportamento do homem oscila entre o entusiasmo e a depressão e 2º) As "respostas" do sistema produtivo (variações da oferta) aos estímulos da demanda são, simultaneamente, condicionadas pelas incertezas do futuro opaco e pela natureza do avanço da tecnologia.
Ele sobreviveu porque, de cada crise, saiu mais ajustado ao processo civilizatório. A história mostra, sem nenhuma possibilidade de contradita, que a permanente elevação da produtividade do trabalho e a imensa elevação do padrão de vida que o acompanhou, com a liberdade individual que permite, são um enorme sucesso.
Obviamente ele tem muito a caminhar na direção de uma sociedade mais "justa" na qual prevaleça uma efetiva igualdade de oportunidade para todo cidadão, não importa o ambiente em que tenha sido gerado. O que justifica a nossa esperança é que a combinação de uma democracia liberal (urna) com o capitalismo (mercado) tende a se autocorrigir na direção daquele objetivo.
As duas instituições (a democracia liberal e o mercado) dependem de um Estado constitucionalmente limitado que dê garantias legais para que elas possam produzir o resultado desejado.
Talvez o exemplo mais palpável dessa simbiose seja o enorme crescimento da Inglaterra após a "Revolução Gloriosa de 1688", que eliminou o "poder do soberano" que podia mudar a regra à sua vontade; comprometeu o Estado com o respeito aos direitos da propriedade privada e tomou-lhe o poder de confiscá-la.
Talvez não seja exagerado dizer que foram essas mudanças e o desenvolvimento tecnológico (ele mesmo, talvez, estimulado por elas) que deram origem à primeira Revolução Industrial (1760-1830), que mudou o mundo.
A história econômica dos últimos 300 anos é pouco mais do que a descrição do aperfeiçoamento dos dispositivos legais de imposição do cumprimento dos contratos que obrigam ainda o poder incumbente.
Esse assunto é do maior interesse no estágio de desenvolvimento em que se encontra o Brasil, onde a "segurança jurídica" é ainda precária.
Como disse o ilustre ex-ministro Pedro Malan, "no Brasil até o passado é incerto". Isso é muito prejudicial ao desenvolvimento de longo prazo. Infelizmente, não vamos muito bem nesse quesito, como mostram o "Rule of Law Index" de 2011 e os dados do Economic Forum de 2011-2012.
Amanhã, por estímulo de um prêmio oferecido pela Fundação Getúlio Vargas, haverá uma discussão do assunto, no ambiente Leopoldo, a partir das 12 horas.

ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras nesta coluna
contatodelfimnetto@terra.com.br

Três portas

RUY CASTRO

RIO DE JANEIRO - Antes que você comece a ler, devo adverti-lo: sou ignorante a respeito de carros. Nunca dirigi, não distingo um fusca de uma jamanta, e o único equipamento de bordo que, como copiloto, já manobrei foi o isqueiro do carro.
Páginas e páginas na mídia estão anunciando que "finalmente chegou o lançamento mais espetacular de todos os tempos": o carro de três portas. Embatuquei: por que "finalmente"? Não sabia que a humanidade estava paralisada, sôfrega e expectante por essa novidade que vem alterar a ordem do universo. E o que impedia que tal maravilha fosse inventada antes? Também não sei. Mas, e daí? O fato é que finalmente temos o carro de três portas.
Virando a página do anúncio, leio que o carro de três portas é "simplesmente genial". Exceto pelo apreço do redator por advérbios de modo, o texto informa pouco a respeito das vantagens de um carro ter três portas, e não duas ou quatro como de praxe desde 1900. Tirando os óculos para ler melhor, descubro em letras miúdas: "Total segurança para desembarque de passageiros somente pelo lado direito".
Ah, bom. Significa que, a partir de hoje, ninguém será abalroado por outro veículo ao sair de forma atabalhoada de um carro pelo lado esquerdo -porque não existe mais a porta traseira esquerda. Mas, pelo visto, o motorista continuará correndo esse risco. Por que não eliminar também a sua porta, mantendo apenas as duas do lado direito?
Para o Rio, o carro de três portas chega em má hora. Com as pistas da direita reservadas agora somente aos ônibus e táxis em Copacabana, em Ipanema e no Leblon, os particulares são obrigados a trafegar, embarcar e desembarcar pela esquerda. Donde o carro de três portas nasceu impraticável em três dos bairros mais abonados do Brasil.

Dançando na crise

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Brasil inaugura Assembleia da ONU desde 1947

DE SÃO PAULO

A presidente Dilma fará amanhã o discurso de abertura da 66ª Assembleia Geral da ONU, perpetuando a tradição pela qual o Brasil é responsável pela fala inaugural do evento. A tradição remonta aos primórdios da ONU, quando o então chanceler brasileiro, Oswaldo Aranha, foi convidado para abrir a 1ª Sessão Especial da Assembleia, em 1947. O Brasil foi escolhido como alternativa a EUA e a então URSS, que disputavam o direito da primeira fala.

ONU deve protelar decisão sobre Palestina

Diplomata do Conselho de Segurança diz à Folha que ideia é frear criação de Estado palestino, para reduzir tensão

Palestino Mahmoud Abbas queixa-se de "forte pressão" imposta por adversários de declaração de soberania

ÁLVARO FAGUNDES
VERENA FORNETTI

DE NOVA YORK

As intenções palestinas de conseguir que a sua soberania seja discutida pelo Conselho de Segurança da ONU devem levar bastante tempo até serem concretizadas.
Segundo um diplomata de um dos países que têm poder de veto no organismo da ONU, a pretensão é que o assunto seja levado de forma lenta dentro do CS, sem, no entanto, dizer quando poderia ocorrer a votação.
O motivo, explica, é que é preciso esperar a situação se acalmar para as negociações avançarem.
Ainda de acordo com o diplomata, o fato de o Líbano (que apoia o plano palestino) estar na presidência do Conselho de Segurança neste mês não altera a procrastinação da votação, porque os países buscam um consenso para as decisões no organismo.
Os EUA e alguns países europeus ainda buscam negociar para que a Palestina não apresente na sexta-feira o pedido para que os territórios se tornem membro pleno das Nações Unidas.
O argumento americano é de que a paz só pode ser alcançada pela negociação, não por atos unilaterais.
Nos corredores da ONU, onde ocorre a Assembleia Geral, havia ontem um lobby da comunidade judaico-americana junto à imprensa e representantes de países buscando apoio para Israel.
Em declarações citadas ontem pela imprensa palestina, o presidente Mahmoud Abbas reclamou da "forte pressão" imposta pelos adversários do projeto de criação do Estado palestino dentro das fronteiras anteriores à ocupação israelense de 1967.
Mas, logo após desembarcar em Nova York ontem, Abbas reiterou, em encontro com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que mantém pretensões de buscar o reconhecimento por um Estado palestino, apesar de os EUA terem deixado claro que usarão seu poder de veto contra a proposta.
Uma alternativa que não passa pelo CS é a Assembleia Geral aprovar a Palestina como Estado observador, o que não lhe dá voto no organismo, mas permite participar de órgãos como a Unicef.

EUA é 'cachorro', mas cinema passa 'Capitão América'

DIÁRIO DE DAMASCO

DO ENVIADO A DAMASCO

O embaixador dos EUA em Damasco é chamado de "cachorro" pela TV estatal síria, mas a principal atração de um dos cinemas centrais da cidade é o filme "Capitão América".
A Síria é um dos únicos países do mundo que não tem filiais do McDonald's, mas uma rede de sanduíches da capital usa o "M" amarelo como logotipo.
Enquanto as relações entre Síria e EUA azedam, o fascínio pela cultura americana permanece inabalado, embora nunca admitido às claras. A relação de amor e ódio pode variar radicalmente de acordo com o interlocutor.
Se ele for um simpatizante do regime, sobram xingamentos ao "imperialismo" americano e à "submissão" da Casa Branca ao lobby sionista.
Mas entre os manifestantes que enfrentam a polícia, a admiração é aberta, ainda mais depois do apoio dos EUA.
Rompida a barreira do medo, o levante contra o regime também começa a quebrar o tabu do antiamericanismo. (MARCELO NINIO)

Israel tem que sair de Masada

CLÓVIS ROSSI




País revive complexo cujo nome deriva de resistência de judeus a ataque dos romanos, há dois milênios

ISRAEL REVIVE o complexo de Masada, a fortaleza em que 960 judeus resistiram até a morte às hordas romanas, vitoriosas no ano 73.
Complexo de Masada é um tema frequente no léxico político-diplomático de Israel, por designar a sensação de que o mundo inteiro está contra os judeus.
Nos últimos anos, a expressão caíra em desuso mas reapareceu ontem na mídia, explicitamente, e no Parlamento, indiretamente.
Carlo Strenger, chefe do Departamento de Psicologia da Universidade de Tel Aviv, escreveu no jornal "Haaretz" que o governo israelense "continua a ser guiado pelo mito de Masada, em vez de [adotar] uma avaliação realista da realidade internacional".
No Parlamento, a líder oposicionista Tzipi Livni afirmou que o governo está contando a história do momento como se "todos fossem contra nós", como se "todo o mundo fosse antissemita".
A líder oposicionista acrescentou que Israel não tem apenas inimigos, mas também um grande amigo, os Estados Unidos, que, no entanto, estão sendo colocados contra as cordas pelo que chama de "estupidez diplomática" do governo: "Eles [os EUA] não entendem a teimosia sobre os assentamentos, eles não acreditam no primeiro-ministro de Israel quando ele diz 'dois Estados' mas não faz nada para isso".
Essa sensação de isolamento -uma característica relativamente permanente da psique coletiva de Israel- tem até motivos objetivos para ressurgir. Escreve, por exemplo, Bradley Burston, colunista do "Haaretz": "É a primeira vez desde a fundação de Israel, em 1948, que o Estado não tem como aliada nenhuma das três potências regionais, Egito, Turquia e Irã".
Para fechar o cerco, vem o pedido da Autoridade Palestina de reconhecimento do Estado palestino, o que, qualquer que seja a fórmula afinal aprovada, colocará o que boa parte dos israelenses veem como inimigo em pleno território que esses mesmos israelenses consideram seu (a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, para não falar da faixa de Gaza), mas que a legalidade internacional atribui aos palestinos faz 64 anos.
Refugiar-se de novo nessa Masada muito ampliada que é o território hoje ocupado por Israel e colonos não vai resolver o problema.
Nem os palestinos conseguirão jogar os judeus ao mar, como muitos de fato gostariam, nem Israel vai conseguir empurrar os palestinos para a Jordânia, uma limpeza étnica que aparece e desaparece em segmentos radicais da sociedade israelense.
Resta, pois, negociar a solução dos dois Estados, para o que Netanyahu terá que ceder territórios, já que a Autoridade Palestina calcula que seu pedido de Estado cobre apenas 22% do território originalmente destinado a ele pela ONU.
É penoso, mas, como escreve o ex-chanceler israelense Shlomo Ben Ami, "enquanto não terminar a ocupação [dos territórios palestinos], enquanto Israel não viver em fronteiras internacionalmente reconhecidas e os palestinos não recuperarem sua dignidade como nação, a existência do Estado judeu não estará assegurada".
Masada, pois, continuará assombrando Israel.

crossi@uol.com.br

Para uma paz duradoura

TENDÊNCIAS/DEBATES
O ESTADO PALESTINO EM QUESTÃO

RAFAEL ELDAD

A partir de amanhã, a direção palestina pretende apresentar às Nações Unidas, durante a Assembleia Geral dessa instituição, seu pedido de adesão à ONU e de reconhecimento do Estado palestino.
Conforme atestam declarações do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em diversas ocasiões, Israel é a favor de uma solução pacífica para o conflito na região, com a formação de dois Estados: um judeu para os israelenses e um árabe para os palestinos. O que Israel não vê de maneira positiva, além de saber ser perigosa para a região, é uma declaração prematura e unilateral de um Estado palestino.
Os palestinos buscam o resultado de um processo de paz sem passar por esse processo e sem negociar com Israel. Se buscam uma solução sem dialogar ou negociar, então com quem querem fazer a paz? Israel continua engajado na possibilidade de negociações bilaterais para resolver o conflito.
Por outro lado, a liderança palestina decidiu não estar mais interessada nas negociações diretas. A história tem mostrado que os tratados de paz entre Israel e seus vizinhos tornaram-se possíveis por meio de negociações entre as partes envolvidas, como nos acordos com o Egito e com a Jordânia.
Além disso, mesmo que uma resolução a respeito de um Estado palestino seja obtida na ONU, ela violaria os acordos bilaterais já existentes entre israelenses e palestinos, prejudicando os esforços para a paz. Não será possível evitar negociações com Israel se se quiser alcançar essa paz.
É também importante lembrar que a Autoridade Palestina assinou um acordo de reconciliação com o Hamas, grupo considerado internacionalmente como terrorista, que continua seu chamado à destruição de Israel e rejeita as condições mais básicas da comunidade internacional para ser reconhecido como um ator legítimo na região.
O apoio a esse acordo, sem qualquer alteração da posição do Hamas, serviria como um reconhecimento internacional da legitimidade do Hamas.
O Oriente Médio atravessa um período de muitas mudanças, que podem levar aos países árabes resultados como o avanço da liberdade individual, da democracia, do direito da mulher, entre outros. Mas existe também um aspecto perigoso vindo de elementos fundamentalistas islâmicos que podem chegar ao poder nesses países. Israel e o mundo não querem que os extremistas usem essa oportunidade para assumir um novo Estado.
Israel, como único país verdadeiramente democrático no Oriente Médio, deseja que sua vizinhança siga o mesmo caminho. Os palestinos têm uma oportunidade de negociar um Estado próprio, que conviva pacificamente com Israel, gozando de paz e prosperidade. Acreditamos que o único caminho para chegar a essa meta seja a aceitação, o diálogo e a negociação direta entre israelenses e palestinos.
Do mesmo modo, esperamos que os palestinos vejam esse fato em uma perspectiva de longo prazo e não somente tratem de conseguir uma satisfação superficial, passageira e sem valor real.
Israel, como único país no mundo ameaçado constante e abertamente em sua existência, tem a obrigação de tomar precauções para garantir sua segurança e sua sobrevivência. Devemos ter em conta que o conflito do Oriente Médio não é só entre israelenses e palestinos; Israel está ameaçado também pelo Irã, pelo Hamas, pelo Hezbollah e por tantos outros elementos.
A situação no Oriente Médio é muito sensível e pode facilmente gerar outra onda de violência. Temos todos, israelenses, palestinos e o mundo, a responsabilidade de empreender um esforço para evitar essa situação.

RAFAEL ELDAD é embaixador de Israel no Brasil

É a ONU que deve agir agora

TENDÊNCIAS/DEBATES
O ESTADO PALESTINO EM QUESTÃO

IBRAHIM M. K. ALZEBEN

Chegou o momento em que a comunidade internacional, representada pelo Conselho de Segurança da ONU, vai anunciar seu veredicto e pôr fim a seis décadas de violência na Palestina histórica, entre Israel e o povo palestino. Entre o Golias e o Davi contemporâneos.
Não se pode perder mais tempo em sessões de discussão. O conflito contabiliza centenas de resoluções não acatadas por Israel e bilhões de dólares gastos em missões para a região. Ninguém pode dizer que não sabia. A Palestina reivindica justiça, liberdade e independência há seis décadas. Exige o fim da ocupação colonial.
É o momento de invocar o espírito conciliador e pacifista de Enrique R. Fabrigat e de Oswaldo Aranha, cuja intenção verdadeira, ao recomendar a partilha da Palestina, era alcançar a "paz entre povos irmãos" e ver criados dois Estados.
Palestinos e israelenses somos as principais vítimas da violência decorrente dessa negligência das superpotências e de seus interesses geopolíticos e petrolíferos, que condenam novas gerações ao atraso, ao fanatismo e à violência.
Israel e Palestina, como existem hoje, não são os que desejamos para nossos filhos e para as gerações seguintes, muito menos para a região, berço de civilizações milenares, que tanto contribuíram para o patrimônio da humanidade.
É a ONU que deve agir, e agora, após 18 anos de negociações estéreis que consolidaram a ocupação israelense de nosso território.
A negociação com Israel, desde a conferência de Madri (1991) até hoje, resultou na quadruplicação do número de assentamentos e colonos em terras palestinas, na criação do muro da vergonha, no assassinato de milhares de líderes e cidadãos, na judaização de Jerusalém, capital ocupada do Estado da Palestina, no bloqueio de Gaza e em milhares de presos políticos.
É precisamente em função desses fatos flagrantes que estamos recorrendo à ONU, ao Conselho de Segurança: para buscar proteção e o direito legítimo negado.
O direito internacional, não a força, é a garantia de paz para essa Palestina apreciada e bendita, mil vezes ultrajada em nome de Deus. O mundo responsável é convocado a ajudar-nos a conviver sem medo do futuro. A comunidade internacional pode monitorar tanto as negociações futuras quanto as relações entre as duas partes, seja mediante capacetes azuis da ONU, seja por meio de organismos regionais.
O mundo está mudando. É preciso fazer uma leitura correta das primaveras populares. Os povos estão mais conscientes e participativos.
Os israelenses são convocados a rever seu pacto sociopolítico, para se abrirem ao mundo de hoje, em transformação. As reconhecidas conquistas técnico-científicas devem levá-los a se conciliarem com seus vizinhos, não a colonizá-los.
Estamos preparados para nos governarmos de modo autônomo. O maciço reconhecimento mundial é a prova. Estamos prontos e nos comprometemos a observar e cumprir o direito internacional, com todos os seus detalhes e exigências.
Não existe outra saída civilizada para o conflito a não ser a de compartilhar o território da Palestina histórica, sua capital e água; definir fronteiras, solucionar com dignidade a questão dos refugiados e depositar a página de ódio e violência em algum museu. É hora de fazer florescer nossa criatividade.
Israel deve renascer fortalecendo a tendência existente em sua sociedade de convivência pacífica com os vizinhos. Isso para que a Palestina possa existir em paz.
Exigimos o fim da ocupação e o reconhecimento do Estado da Palestina. Já.

IBRAHIM M. K. ALZEBEN é embaixador da Palestina no Brasil.

Tradução de CLARA ALLAIN

Suportar a verdade

VLADIMIR SAFATLE

Nos próximos dias, o governo deve conseguir aprovar, no Congresso, seu projeto para a constituição de uma Comissão da Verdade. O que deveria ser motivo de comemoração para aqueles realmente preocupados com o legado da ditadura militar e com os crimes contra a humanidade cometidos neste período será, no entanto, razão para profundo sentimento de vergonha.
Pressionado pela Corte Interamericana de Justiça, que denunciou a situação aberrante do Brasil quanto à elucidação e punição dos crimes de tortura, sequestro, assassinato, estupro e ocultação de cadáveres perpetrados pelo Estado ilegal que vigorou durante a ditadura militar, o governo brasileiro precisava mostrar que fizera algo.
No caso, "algo" significa uma Comissão da Verdade aprovada a toque de caixa, sem autonomia orçamentária, sem poder de julgar, com apenas sete membros que devem trabalhar por dois anos, sendo que comissões similares chegam a ter 200 pessoas.
Tal comissão terá representantes dos militares, ou seja, daqueles que serão investigados. Como se isso não bastasse, a fim de tirar o foco e não melindrar os que se locupletaram com a ditadura e que ainda dão o ar de sua graça na política nacional, ela investigará também crimes que porventura teriam ocorrido no período 1946-64. Algo mais próximo de uma piada de mau gosto.
Um país que, na contramão do resto do mundo, tende a compreender exigências amplas de justiça como "revanchismo" não tem o direito de se indignar com a impunidade que se dissemina em vários setores da vida nacional.
Aqueles que preferem nada saber sobre os crimes do passado ainda estão intelectualmente associados ao espírito do que procuram esquecer.
O povo brasileiro tem o direito de saber, por exemplo, que os aparelhos de tortura e assassinato foram pagos com dinheiro de empresas privadas, empreiteiras e multinacionais que hoje gastam fortunas em publicidade para falar de ética. Ele tem o direito de saber quem pagou e quanto.
Esta é, sem dúvida, a parte mais obscura da ditadura militar. Ou seja, espera-se de uma Comissão da Verdade que ela exponha, além dos crimes citados, o vínculo incestuoso entre militares e empresariado. Vínculo este que ajuda a explicar o fato da ditadura militar ter sido um dos momentos de alta corrupção na história brasileira (basta lembrar casos como Capemi, Coroa Brastel, Lutfalla, Baumgarten, Tucuruí, Banco Econômico, Transamazônica, ponte Rio-Niterói, relatório Saraiva acusando de corrupção Delfim Netto, entre tantos outros).
Está na hora de perguntar, como faz um seminário hoje no Departamento de Filosofia da USP: Quanta verdade o Brasil suporta?

VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras nesta coluna.

Dilma nos EUA

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Americanos não querem ser mudados, mas consertados




UM DIA OBAMA TENTA FAZER O CONGRESSO ENXERGAR O BOM SENSO. NO DIA SEGUINTE, É O PROGRESSISTA QUE RECLAMA DA INJUSTIÇA SOCIAL


CLIVE CROOK
DO "FINANCIAL TIMES"

A tentativa de um segundo estímulo fiscal tem apenas uma semana de idade e, no momento em que Obama se prepara para fazer um segundo anúncio sobre o assunto, hoje, já enfrenta problemas.
As esperanças de aprovação de uma lei dos empregos americanos diminuíram quando a Casa Branca começou a explicar como quer pagar por ela: elevando impostos pagos pelos mais ricos.
Um dia Obama é o outsider pragmático que tenta fazer o Congresso enxergar o bom senso. No dia seguinte, ele é o progressista ardente que reclama da injustiça social.
Na semana passada, ele foi criticado não apenas por progressistas decepcionados e centristas idem, mas por profissionais de seu partido.
Por que os republicanos ganharam por maioria avassaladora em 2010? Por que o apoio a Obama continua a cair? Por que sua reeleição no próximo ano está em dúvida?
Os analistas progressistas têm duas teorias principais. Uma delas é que o Partido Democrata foi tímido demais em 2008-10, de modo que partidários estão se desligando.
Essa primeira teoria deixa implícito que muitos dos eleitores do partido são estúpidos. A segunda, pelo contrário, é que o resto do país é estúpido: os americanos se esqueceram de como a recessão começou, não conseguem enxergar o que é o Partido Republicano e querem punir os políticos em exercício.
Minha teoria é que a América média se interessa pela visão progressista de atuação maior do governo e impostos mais altos não mais do que se interessa pela visão republicana do Estado mínimo.
O país não quer ser transformado em uma direção ou outra: quer ser consertado.
Tradução de CLARA ALLAIN

Marrocos tenta ganhar com revoltas

País, praticamente poupado pela onda de protestos, busca ser modelo de transição

CLAUDIA ANTUNES
ENVIADA ESPECIAL AO MARROCOS

As rebeliões nos países árabes favoreceram a posição do Marrocos no norte da África, ao provocar a queda de um inimigo da monarquia marroquina, Muammar Gaddafi, e o enfraquecimento de sua rival histórica, a Argélia.
Sem o peso da Turquia, que investe na liderança regional, o Marrocos busca aumentar sua influência, o que inclui o fortalecimento do Acordo de Agadir, que visa criar área de livre comércio com Jordânia, Egito, Tunísia e Mauritânia. O CNT (órgão dos rebeldes líbios) foi convidado.
"Queremos que estejam conosco, e não em visões de fragmentação", disse o ministro do Exterior marroquino, Taib Fassi Fihri, ao receber anteontem o ministro da Justiça do CNT, Mohammed Alagi, em conferência em que a reforma constitucional marroquina foi apresentada como referência para a "evolução" democrática árabe.
Antigo aliado dos EUA e bem relacionado com Israel (700 mil judeus israelenses têm origem marroquina), o Marrocos teve por décadas relação difícil com os vizinhos.
O país e a Argélia se enfrentaram por terras, em 1963. Na Guerra Fria, abraçaram diferentes ideologias, com a República argelina professando o socialismo.
Quando o Marrocos ocupou em 1975 o Saara Ocidental -antiga colônia espanhola-, a Argélia apoiou a guerrilha independentista Frente Polisário.
Gaddafi também financiou os polisários, uma das razões por que o Marrocos foi um dos primeiros a reconhecer os rebeldes líbios.
O Marrocos organizou a conferência para detalhar a estrangeiros a decisão do rei Mohammed 6º de reformar sua Carta, em resposta a manifestações pró-democracia que cresciam e eram reprimidas, provocando críticas de ONGs como a Anistia.
Escrita por uma comissão técnica e outra política, a nova Constituição foi aprovada em referendo em julho. Ela amplia direitos civis e o poder do Parlamento, mas mantém o veto real a decisões do premiê. O Movimento pela Mudança pedia a convocação de uma Constituinte.
A reforma ganhou elogio do representante da União Europeia para as transições árabes, Bernardino León, que disse que a "evolução" marroquina é "tão espetacular" quanto as revoluções.
O gradualismo também foi defendido pelo ministro de Comunicações da Jordânia, Nabil Sharif. "O rei Abudullah 2º disse que a Primavera Árabe deu capacidade de fazer a reforma que queria."
O ministro Fihri negou competição com os turcos: "Não esqueça do que aconteceu com a Turquia, em termos de ditadura militar."
A jornalista CLAUDIA ANTUNES viajou a convite da Chancelaria do Marrocos

Israel prepara pacote de leis de emergência

Regras aumentam tempo de detenção e serão aplicadas se Palestina for aprovada como Estado membro da ONU

Potências se reuniram ontem em Nova York para tentar encontrar forma de convencer Abbas a voltar atrás


Majdi Mohammed/Associated Press
Manifestante palestino joga pedra emtorre de controle militar israelense, em protesto pelo Estado palestino na ONU

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

Israel prepara um pacote de leis de emergência que podem ser aplicadas para conter manifestações se for aprovado o reconhecimento da Palestina como Estado membro das Nações Unidas.
O pedido será apresentado pelo presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, sexta-feira, na Assembleia Geral da ONU.
O plano de Israel, elaborado pelo ministério da Segurança Pública e divulgado ontem pelo jornal israelense "Haaretz", aumenta de três para nove horas o tempo máximo de detenção de suspeitos e duplica para 48 horas o prazo que a polícia tem para apresentar os detidos ao juiz.
O conselheiro da Associação de Direitos Civis de Israel, Dan Yakir, considerou a medida "um exemplo real do potencial de ferir seriamente os direitos".
Negociadores do Quarteto do Oriente Médio -União Europeia, Estados Unidos, Rússia e ONU- se reuniram ontem em Nova York, em uma última tentativa de convencer Abbas a desistir do plano.

ENCONTRO
Também se reuniram ontem Salam Fayyad, premiê palestino, e Ehud Barak, ministro da Defesa israelense.
Segundo diplomatas que não quiseram se identificar, a conversa foi breve e abordou a disputa na ONU.
Ontem, o embaixador palestino na Alemanha, Salah Abdelshafi, disse que a iniciativa pode ser revertida. "Estaremos dispostos a abrir mão do pedido ao Conselho de Segurança se, em troca, os países europeus nos apoiarem na Assembleia Geral."
O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu desacreditou a iniciativa. "Estou convencido de que, como resultado da ação dos EUA em estreita colaboração com outros governos, a tentativa fracassará", disse em reunião do conselho de ministros antes de partir para Nova York.
Os EUA já anunciaram o veto na votação do pedido no Conselho de Segurança.
Ontem, o primeiro-ministro do Hamas, que faz oposição a Abbas, Ismail Haniyeh, declarou que só concordará com a iniciativa se não houver concessões territoriais, se Israel não for reconhecido como Estado e se os acordos com o país forem desfeitos.

Ninguém está imune ao racismo

NAVI PILLAY



Vemos a intolerância emergir em novas formas, como o tráfico humano; o estigma sobre os refugiados é cada vez maior, e a xenofobia ascende

Na cidade americana de Jackson, em junho, adolescentes brancos espancaram, atropelaram e mataram um negro de 49 anos. A razão para tamanha brutalidade? De acordo com os promotores, o grupo estava em missão para "encontrar e ferir uma pessoa negra". Câmeras registraram o incidente assustador.
Esse é apenas um dos muitos casos de violência racista cometidos diariamente. Apesar de décadas de luta, dos esforços de diversos grupos e nações e da evidência do terrível custo do racismo, ele persiste. Nenhuma sociedade está imune.
Nesta quinta-feira, líderes mundiais terão a oportunidade de estimular o combate ao racismo ao comemorar o décimo aniversário da adoção da Declaração e Programa de Ação de Durban (DDPA), aprovada por consenso na Conferência Mundial Contra o Racismo, em 2001. Os Estados-membros concordaram em combater a xenofobia, a discriminação contra imigrantes, povos indígenas, ciganos e afrodescendentes, além daquela baseada na ascendência.
Em 2009, os países reavaliaram o caminho estabelecido pela DDPA, revigoraram e expandiram suas promessas em um documento que fortalecia a agenda antirracismo e reafirmaram a necessidade de situar a discussão dentro do contexto da lei internacional dos direitos humanos.
Em muitos países, o quadro e o processo estabelecidos pela DDPA têm sido fundamentais para a melhoria das condições de muitos grupos vulneráveis. Mas a implementação dos compromissos ainda é irregular e insatisfatória.
Hoje, vemos a intolerância emergindo em novas formas, como o tráfico humano. Refugiados, solicitantes de asilo, trabalhadores migrantes e imigrantes sem documento são cada vez mais estigmatizados, quando não criminalizados. A xenofobia está em ascensão.
Em sua pior faceta, a manipulação da diversidade tem alimentado conflitos armados, bem como o surgimento de enfrentamentos comunais violentos.
Na condição de ex-juíza e presidente do Tribunal Penal Internacional para Ruanda, vi como comunidades podem ser aniquiladas pelo ódio. Mas também me deparei com magníficos atos de bravura.
Um episódio está profundamente gravado em minha memória. Ele ocorreu no noroeste de Ruanda, quando hutus atacaram uma escola e ordenaram aos alunos que se separassem em grupos de etnia hutu e tutsi. Os estudantes se recusaram a identificar sua etnia para não trair seus colegas. Dezessete meninas foram mortas como resultado de sua corajosa atitude.
Como podemos ser dignos dessas crianças? Acredito que precisamos trabalhar juntos para alcançar um ambiente de respeito e promoção da igualdade, da justiça e da não discriminação.
Esses imperativos estavam em minha mente quando fui a Yad Vashem durante minha passagem por Israel, em fevereiro. Essa visita ofereceu um lembrete poderoso de que o ódio racial, os crimes contra a humanidade e o genocídio nunca devem ser tolerados, e que o Holocausto nunca deve ser esquecido. A DDPA contém tal apelo. Ela exorta ao uso da memória do Holocausto como força transformadora e a colocar seu legado a serviço de um futuro livre do racismo.
Um mês depois, visitei a ilha Goree, no Senegal. Trata-se da infame "porta sem retorno" pela qual inúmeros africanos foram enviados acorrentados às Américas. A ONU dedica o presente ano à população afrodescendente, mas nunca poderemos fazer plena justiça aos milhões de vítimas do preconceito e da intolerância -e a seus descendentes, que ainda enfrentam o legado da discriminação. O que podemos é assegurar que seu sofrimento seja um apelo para enfrentar o sofrimento dos outros, hoje e no futuro.
NAVI PILLAY é alta comissária das Nações Unidas para os direitos humanos

Equilíbrio ameaçado

Editoriais

editoriais@uol.com.br

Israel aparece cada vez mais isolado no Oriente Médio, e voto na ONU sobre a criação, legítima, do Estado palestino pode agravar a situação

O cenário geopolítico do Oriente Médio alterou-se de forma notável nos últimos meses. O isolamento de Israel atingiu novo patamar, com a recente deterioração das relações com os outrora aliados Turquia e Egito.
O movimento só pode ser compreendido dentro do contexto da Primavera Árabe, mas não se explica somente pela onda de revoltas que chacoalha a região.
O afastamento da Turquia remonta a 2009, quando uma ofensiva de Israel para barrar ataques terroristas deixou 1.300 mortos na faixa de Gaza. A interceptação de uma flotilha que visava a furar o bloqueio ao território palestino no ano seguinte, que acabou com oito ativistas turcos mortos, acentuou as divergências.
As revoltas no norte da África e no Oriente Médio, por seu turno, removeram ditadores que mantinham sob controle, à custa de repressão, o caldeirão de insatisfação popular. Em meio a demandas por emprego, liberdade de expressão e outros valores "ocidentais", emergem também rancores contra o vizinho impopular -adversário em guerras até os anos 1970.
A morte de soldados egípcios no mês passado, em meio à resposta de Israel a um ataque terrorista de extremistas palestinos, ajudou a inflamar o ambiente. A invasão da embaixada israelense no Cairo na semana passada revela quão tensa está a situação.
O primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, tem se aproveitado da conjuntura para reposicionar seu país como potência regional. Seu giro pelas nações sublevadas -Egito, Tunísia e Líbia- explicita esse objetivo.
A situação tende a se tornar ainda mais delicada nesta semana, com a votação sobre a criação de um Estado palestino na reunião anual das Nações Unidas.
O governo brasileiro é favorável à iniciativa, uma posição correta. A paz no Oriente Médio passa pela criação de um Estado para os palestinos, nas fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias (1967), com eventuais ajustes territoriais. Jerusalém não pode, como defende Israel, ser a "capital indivisível" de seu Estado. Deve-se buscar acordo sobre seu status partilhado.
O reconhecimento do Estado palestino é provável na Assembleia Geral, composta por todos os países, mas não passará no Conselho de Segurança. Os EUA deverão usar seu poder de veto em apoio ao aliado histórico, Israel.
A votação da ONU terá um efeito acima de tudo simbólico, uma vez que a concretização do novo Estado está muito distante -em boa medita também devido à fratura na liderança palestina entre o extremismo do Hamas e o desgaste do hoje moderado Fatah. Ainda assim, a proclamação nas Nações Unidas deverá reacender protestos no mundo árabe.
Numa região instável como o Oriente Médio, a distância entre manifestações legítimas e violência em larga escala pode encurtar-se rapidamente, como prova o episódio do ataque à embaixada israelense no Cairo.

domingo, 18 de setembro de 2011

O sonho de Descartes

Por que somos todos cartesianos

RESUMO
Se a história da ciência não trilhou o caminho proposto pelo pensador -a matemática já não é fonte de certezas; tanto a física newtoniana e quântica como a biologia darwiniana escapam a seu sistema-, sua obra mostra um notável esforço científico e filosófico, que permitiu, por exemplo, a tradução algébrica da geometria.

CÉSAR BENJAMIN

DEZ DE NOVEMBRO de 1619. Trancado sozinho em um quatro aquecido, que ele chama de "estufa", sentindo a chegada do inverno alemão, um homem vive intensa excitação intelectual. "Fatigou-se de tal maneira", conta Adrien Baillet, seu primeiro biógrafo, "que seu cérebro se incendiou, entregando-se a uma espécie de frenesi". Deita-se e tem três sonhos em sequência, nos quais, ao acordar, reconhece uma missão. Implora a Deus e à Virgem que o mantenham no reto caminho para realizar a descoberta que havia antevisto.
O homem é René Descartes, então com 23 anos. Recebe em sonhos a missão de bem conduzir sua razão, e o que pede aos céus é confiança em si mesmo.
Começa então uma jornada que podemos acompanhar em detalhes, pois toda a sua obra e grande parte de sua prolífica correspondência foram preservadas. Para quem quiser conhecê-las, é leitura imprescindível a ótima edição das "Obras Escolhidas" [Perspectiva, trad. Bento Prado Júnior, 752 págs., R$ 110] que acaba de ser reimpressa, ampliada, com organização de J. Guinsburg, Roberto Romano e Newton Cunha.

FORMAÇÃO Filho de uma família ilustrada, Descartes passou nove anos no colégio jesuíta de La Flèche, onde teve boa formação intelectual. Mas saiu insatisfeito, em busca de novos caminhos: "Embora a filosofia tenha sido cultivada pelos espíritos mais excelentes que já viveram, nada há que não seja objeto de disputa e duvidoso". A busca do conhecimento certo exigia "destruir tudo e começar de novo dos fundamentos, [...] uma tarefa interminável, muito além da capacidade de uma só pessoa".
Sabe disso, mas se lança: desliga-se aos poucos das obrigações do mundo, adota comportamento prudente e reservado, concentra-se nos pensamentos, decide viver na Holanda, relativamente isolado. Escreve vasta obra que não separa metafísica, filosofia e ciência. Morre em 1667, aos 53 anos.
John Cottingam, no "Dicionário Descartes" [Zahar, trad. Helena Martins, 177 págs., 1995, esgotado], apresenta um resumo do que ele fez: "Tentou resolver os grandes problemas estruturais da metafísica e da epistemologia, criou uma teoria geral sobre a natureza e as origens do mundo físico, elaborou um trabalho detalhado em matemática pura e aplicada, escreveu tratados em mecânica e em fisiologia, investigou a natureza do homem e as relações entre mente e corpo, e publicou reflexões abrangentes em psicologia e em ética".
Esforço semelhante para criar um sistema tão completo de conhecimento não se via desde Aristóteles. Tentemos acompanhá-lo.

DÚVIDA Para não correr o risco de se enganar, Descartes decide considerar falso o que é só verossímil. Começa, pois, por submeter tudo à dúvida: "Suponho que todas as coisas que vejo são falsas. Fixo-me bem que nada existiu de tudo o que minha memória me representa. Penso não ter nenhum órgão de sentidos. Creio que o corpo, a figura, a extensão, o movimento e o lugar são invenções do meu espírito. Então, o que posso considerar verdadeiro?".
Não é uma dúvida psicológica, nem a dúvida dos céticos. Ao contrário. Essa dúvida hiperbólica está a serviço de fortalecer um espírito que busca a certeza.
Eis o que resta: "Embora eu quisesse pensar que tudo era falso, era preciso necessariamente que eu, que assim pensava, fosse alguma coisa. Observando que essa verdade, 'penso, logo sou', era tão firme e sólida que nenhuma das mais extravagantes hipóteses dos céticos seria capaz de abalá-la, julguei que podia aceitá-la como o princípio primeiro da filosofia que procurava".
O ponto de partida firme, pois, é a consciência de si como ser pensante, o famoso "cogito" que santo Agostinho propusera bem antes, na "Cidade de Deus". Como sair dele? Como estabelecer, seguramente, que o mundo exterior também existe e não é apenas uma ilusão desse eu? É um salto muito difíc+il. Descartes, como Agostinho, só consegue realizá-lo passando pela ideia de Deus.
Pois esse eu que existe é um ser finito, imperfeito e, acima de tudo, contingente, como contingente é tudo o que o cerca: eu existo porque meus pais existiram e se conheceram, essa mesa de madeira existe porque existiu uma árvore, que por sua vez nasceu de uma semente, e assim por diante.
Não adianta caminhar para trás, nessa via, se quisermos encontrar a explicação última do mundo: realidades contingentes sempre dependem de outras realidades contingentes, em regressão infinita. Nossa mente só encontra repouso quando propõe a existência de um ser de outro tipo: infinito, perfeito e necessário. Existe esse ser? Sim, por definição, pois a existência é um atributo da perfeição: um ser perfeito inexistente é uma contradição em termos. É o argumento ontológico de santo Anselmo.

RAZÃO No ato de criar o mundo, esse ser necessário fixou as leis de seu funcionamento, para que a criação perdurasse. Com o uso da razão, que nos deu, podemos descobri-las. A razão pressupõe a liberdade, pois o sujeito só pode atingir a verdade se o esforço de conhecimento não for constrangido por nenhuma autoridade externa que lhe imponha limites, e a liberdade pressupõe a razão, pois ser livre é poder agir de acordo com o conhecimento da verdade.
É uma reviravolta: em nome de Deus, por muito tempo, tentou-se bloquear o desenvolvimento da ciência; agora ele aparece como fiador dessa empreitada. Sendo nosso criador, assegura que a razão e nossas demais faculdades podem cumprir suas funções; sendo perfeito, não nos engana. Ele é a garantia suprema da correspondência entre realidade e razão, pois fundou e sustenta a racionalidade do mundo.
Contrariando o atual senso comum, Descartes conclui que não é possível que um ateu seja homem de ciência, pois não deve confiar na razão quem não crê na realidade última que a legitima.
Poderia a razão assumir tão elevado papel? O pensamento tradicional, ancorado na revelação, era seguro de si. Faltava demonstrar que um novo pensamento sistemático poderia encontrar um caminho próprio para descobrir a verdade, construindo uma consistente teia de conceitos, com princípios e normas universais que não fossem mera opinião. Imensa tarefa.
O simples acúmulo de evidências empíricas jamais poderia estruturar um conhecimento alternativo e firme. Quem poderia fazê-lo era o método. Era preciso trabalhar com ideias claras e distintas, articuladas segundo regras igualmente claras de análise e de síntese, "graças às quais todos quanto as observem jamais possam supor verdadeiro o que é falso e cheguem ao conhecimento sem se fatigar com esforços inúteis".
A matemática mostrava o caminho: "As longas cadeias de raciocínios simples e fáceis, que os geômetras usam para chegar às suas demonstrações mais difíceis, me fazem supor que todas as coisas que caem no escopo do conhecimento humano interligam-se da mesma maneira."

CERA Seguro da própria existência, confiante na racionalidade do mundo e na capacidade do homem, Descartes pode agora tentar conhecer os objetos naturais. Avança com prudência para evitar o erro. Pega um pedaço de cera: "Aproximo-o do fogo e mudo sua consistência. Mantenho-o aquecido até ver desaparecer cor e odor. Transforma-se em fumaça. A mesma cera permanece após as mudanças? Cumpre reconhecer que permanece".
Mas o que permanece? Não cor, sabor, consistência e demais propriedades qualitativas, que se mostraram transitórias. Só permanece uma forma indeterminada que contém todas as formas possíveis. A única propriedade objetiva das coisas é serem extensas, propriedade que se conserva mesmo nas deformações.
Se matéria é extensão, conhecê-la é medi-la para ordená-la. Deve ser possível construir uma ciência pura das relações e das proporções que independa das peculiaridades de cada objeto. É a "mathesis universalis", que Descartes então procura. A geometria e o manejo dos números, que aprendeu e tanto admira, devem ser só expressões dessa ciência geral e desconhecida. Para encontrá-la, é preciso unificar a matemática, superando a dicotomia entre forma e quantidade, entre grandeza contínua e grandeza discreta. Mas, como?

GEOMETRIA O elemento último e indivisível da extensão é o ponto, que, sendo adimensional, pode ser associado ao número. O deslocamento do ponto produz a linha; o deslocamento da linha produz a superfície; o deslocamento da superfície produz o sólido. Assim, a diversidade das formas geométricas pode ser reduzida à diversidade de movimentos de pontos. Tais movimentos, por sua vez, podem ser descritos por meio de equações algébricas.
Eureka! Os problemas da geometria podem ser traduzidos em problemas de álgebra, assumindo formas muito mais manejáveis. Nasce a geometria analítica, uma das maiores descobertas da matemática, que liberta a geometria da dependência das figuras (e portanto do limite da tridimensionalidade) e confere significado espacial às operações da álgebra.
Em seguida, a descoberta da lei da refração, ou lei do seno, reforça a ideia de que sempre há uma estrutura matemática sob as aparências das coisas.
Descartes está a um passo da física: se o mundo físico é extensão e movimento, então é uma realidade mecânica, sujeita a leis quantificáveis. É a pá de cal no mundo animista, permeado de espíritos, e no mundo aristotélico das substâncias. O Deus cartesiano criou e conserva um mundo sem qualidades, aberto à razão e ao cálculo. O último resíduo da análise é o puro espaço geométrico no qual as coisas existem e se movem.
Porém, cuidado! É preciso não esquecer que no universo também há algo inextenso e capaz de pensar o espaço. Pois o eu do "cogito", ponto de partida de toda a construção, é só coisa pensante.
Extensão e pensamento são irredutíveis entre si. Eis, portanto, as duas realidades primárias do mundo. Elas se encontram no homem, só no homem, ser ambíguo, dotado de corpo, mas capaz de pensar. Fiel ao método, que exige ideias claras e distintas, avesso a conceitos mistos, Descartes constrói sua imagem dualista do homem, separado em alma pensante e corpo extenso. Corpos são máquinas, animais são autômatos. Eis o ponto de partida de seus amplos estudos em fisiologia.

RIGOR MATEMÁTICO Ao longo da vida, como se vê, Descartes buscou um conhecimento unitário, sem transições bruscas entre os diferentes domínios. Desde a dúvida hiperbólica até a fisiologia animal, passando por Deus, o homem e o mundo, cada grupo de problemas se desdobra em um grupo de problemas afins, buscando-se garantir sempre a coerência do conjunto. O objetivo final desse esforço era estender o rigor matemático a todos os domínios.
A ideia não era descabida: durante séculos a física fora uma disciplina qualitativa, dominada por categorias vagas. Por que não se devia imaginar a possibilidade de replicar em outras áreas o espetacular êxito da física matemática recém-proposta por Galileu?
Era plausível, mas se revelou impossível. O avanço do conhecimento frustrou o sonho de Descartes. Com mais de 350 anos de distância é fácil criticá-lo, a começar por sua fé mística na razão, revelada em sonho, que gerou nele uma postura estreita e sectária. Na busca da verdade, os antigos colocavam em pé de igualdade a demonstração analítica, fundada na lógica formal, e a argumentação dialética, que se move no campo do que é meramente provável e extrai conclusões verossímeis, tentando persuadir.
Descartes rompe essa longa tradição. Sua obsessão com a certeza e sua confiança no método o conduzem à armadilha minimalista do "cogito", da qual, realisticamente, não se pode sair. O argumento ontológico de santo Anselmo, que constrói a ponte entre eu e mundo, passando por Deus, não satisfaz: ele só garante que o conceito de existência é inseparável do conceito de perfeição, mas não que o ser perfeito exista de fato. Quem percebeu isso foi ninguém menos que santo Tomás de Aquino.

INCERTEZAS Creio que duas coisas deixariam Descartes especialmente chocado, se pudesse nos visitar. Ambas atingem o cerne de sua formulação. A primeira é que, em vez de a matemática eliminar as nossas incertezas, tornando tudo previsível, ela mesma foi penetrada por incertezas crescentes: trabalhamos cada vez mais com sistemas não lineares intrinsecamente imprevisíveis, descobrimos que muitas sentenças lógicas não são nem verdadeiras nem falsas, sabemos que não podemos medir todas as grandezas físicas e assim por diante. O zoológico atual das ciências exatas abriga animais bem estranhos, que Descartes nunca pôde imaginar.
O segundo desdobramento chocante ocorreu no terreno do método, que ele considerava sua maior descoberta. Ele usa conceitos -como infinito, contínuo e perfeição- que estão longe de ser claros e distintos, uma exigência sua. Mas o mais importante é que a ideia de um método científico positivo tem sido cada vez mais questionada.
Gaston Bachelard sugere que não há métodos perenes, pois todos envelhecem: "Chega sempre a hora em que o espírito científico só pode progredir se criar métodos novos" ("O Novo Espírito Científico", Tempo Brasileiro, 2000). Paul Feyrabend radicaliza essa ideia e propõe uma espécie de anarquismo metodológico: "O único princípio que não inibe o progresso é: tudo vale" ("Contra o Método", Editora Unesp, 2007).
Karl Popper também se afasta da abordagem cartesiana. Para ele, a procura de um método é um problema sem solução, pois, quando buscamos um critério para distinguir o que é certo e o que não é, somos remetidos à questão de saber se esse critério é certo ou não, e assim indefinidamente. Nenhum critério -nem mesmo êxitos técnicos ou previsões acertadas- permite demonstrar a veracidade de nenhuma teoria sobre o mundo real. Todas as teorias são conjecturas. O que diferencia as teorias científicas das demais é tão-somente que as primeiras são formuladas de maneiras que as deixam expostas à refutação.
Contra o programa de Descartes, Popper afirma que o conhecimento científico não acumula um estoque crescente de verdades irrefutáveis, pois vive imerso na dialética de conjecturas e refutações. As teorias válidas, em cada momento, são as que ainda não foram refutadas. Teorias incertas, ideias injustificadas e antecipações ousadas são essenciais ao progresso da ciência, pois desempenham o papel de programas de pesquisa. Sem elas, não há mutações.

ESPECULAÇÃO A história da ciência, nos últimos séculos, mostra bem isso. Nenhuma das grandes teorias científicas que aceitamos hoje surgiu ao modo cartesiano. Ao descrever a gravitação, Newton admitiu a ação à distância, que ele mesmo não sabia explicar (e que se mostrou inexplicável). Darwin propôs a evolução das espécies, mas não podia descrever como os organismos mantinham, herdavam e alteravam suas características.
A geração que criou a mecânica quântica tateou, literalmente, no escuro, mas mesmo assim não deixou de avançar. O cientista trabalha com dúvidas, lacunas e ambiguidades. A boa ciência contém um componente especulativo.
O programa de Descartes, é claro, não é o programa da filosofia e da ciência atuais. Ninguém mais se considera cartesiano. Mas talvez seja mais justo dizer que, de alguma forma, todos somos cartesianos. Descartes é um desses pensadores inescapáveis, cuja obra penetrou profundamente no espírito de nossa época e se confunde com ele, para o bem e para o mal. Não seríamos o que somos, sem ele.

Para não correr o risco de se enganar, decide considerar falso o que é só verossímil. Começa, pois, por submeter tudo à duvida. "Então, o que posso considerar verdadeiro?"

Faltava demonstrar que um novo pensamento sistemático poderia encontrar um aminho próprio para descobrir a verdade, construindo uma consistente teia de conceitos

O Deus cartesiano criou e conserva um mundo sem qualidades, aberto a razão e cálculo. O último resíduo da análise é o puro espaço geométrico no qual as coisas existem e se movem

O avanço do conhecimento frustrou o sonho de Descartes. Com mais de 350 anos de distância é fácil criticá-lo, a começar pela fé mística na razão, revelada em sonho

Teorias incertas e ideias injustificadas são essenciais ao progresso da ciência. Nenhuma das grandes teorias científicas que aceitamos hoje surgiu ao modo cartesiano