sexta-feira, 26 de agosto de 2011

As cidades: problema ou solução?

MOISÉS NAÍM



As maiores cidades latino-americanas poderiam ser motor de desenvolvimento, mas ainda não o são


Dentro de alguns meses vai nascer um bebê histórico. Será o 7.000.000.000º habitante do planeta. E provavelmente nascerá em uma cidade, já que hoje mais de metade da população mundial vive em cidades, algo que também é novo.
Em 2008 o número de habitantes urbanos superou a população rural pela primeira vez.
Esse processo de urbanização vem sendo muito rápido. De acordo com a ONU, a população urbana passou de 13% do total mundial em 1900 (220 milhões de pessoas) para 29% (732 milhões) em 1950, saltando em seguida para 49% (3,2 bilhões) em 2005. Até 2030, estima-se que alcance 60% (4,9 bilhões).
A América Latina é campeã do mundo nesse quesito: com 80% de sua população vivendo em cidades, é a região mais urbanizada do planeta. Esta realidade tem implicações econômicas e políticas enormes. O Instituto Global McKinsey (MGI) acaba de publicar um excelente estudo sobre esse tema. Sua conclusão principal é que as maiores cidades da América Latina poderiam ser um potente motor de desenvolvimento e prosperidade.
Poderiam. Mas não o são, e seu desempenho econômico e social está abaixo do de seus países e de outras cidades do mundo. As cifras do relatório do MGI são impressionantes. Na América Latina há 198 cidades com mais de 200 mil habitantes, em que vivem 260 milhões de pessoas e nas quais se geram 60% de toda a atividade econômica da região, o que equivale ao PIB de Índia e Polônia juntos. Estima-se que em 2025 essas 198 urbes vão gerar um PIB igual ao da Espanha hoje.
Como sabemos, contudo, as grandes cidades latino-americanas estão repletas de problemas: tráfico, criminalidade, deficits, corrupção e o eterno atraso da oferta de serviços públicos, em relação às necessidades de transportes, água, saúde, eletricidade, habitação, etc.
Esses problemas crônicos explicam por que o índice de crescimento econômico das dez cidades maiores vem sendo menor que o de seus países. De acordo com o MGI, desde 1970 os índices de crescimento econômico de São Paulo e Rio de Janeiro vêm caindo, estando hoje inferiores ao crescimento do Brasil.
A Cidade do México também vem apresentando desempenho pior que o das 45 cidades mais populosas do país. Das dez maiores cidades da América Latina, apenas Lima e Monterrey vêm tendo desempenho melhor que seu país.
Em vista da velocidade com que se movem as variáveis associadas à urbanização, é urgente agir para que as grandes cidades não se transformem em uma carga pesada que afunde seus países.
Os desafios são muitos, e o MGI agrupa as soluções em quatro grandes categorias: elevar o desempenho econômico das grandes cidades, melhorar a qualidade de vida de seus habitantes, utilizar recursos naturais de maneira sustentável e melhorar suas finanças e a maneira como são governadas.
É fácil sorrir cinicamente e pensar que nada disso será possível. Quem sabe. Mas, se não tentarmos, a catástrofe urbana da América Latina poderá anular a possibilidade de os latino-americanos terem um futuro melhor que seu passado.

@moisesnaim

Tradução de CLARA ALLAIN

Peru cobrará imposto extra de mineradoras privadas

FLÁVIA MARREIRO
DE CARACAS

O governo do peruano Ollanta Humala disse ontem ter chegado a um acordo para cobrar um imposto extra de mineradoras privadas, incluindo as brasileiras Vale do Rio Doce e Votorantim, que darão ao caixa estatal um reforço anual de US$ 1,1 bilhão (equivalente a R$ 1,76 bilhão).
O anúncio foi feito pelo primeiro-ministro Salomon Lerner, na apresentação do plano de governo ao Congresso. Lerner não detalhou a fórmula do imposto extra, mas a notícia foi bem recebida pelo setor mineiro.
Na prática, o Peru é o último país minerador a aplicar tributo por lucro extraordinário de mineradoras que aumentaram faturamento em virtude do boom dos preços.
O governo anterior argumentava que a mudança afugentaria os US$ 30 bilhões em investimentos esperados para o setor nos próximos anos. A gestão Humala, porém, diz que a alta não afetará a competitividade e que o dinheiro extra é necessário para a redução da pobreza. A Votorantim, quinta produtora mundial de zinco, opera uma mina em Cajamarquilla e é acionista majoritária da mineradora Milpo. Já a Vale explora fosfato.
Roque Benavides, presidente-executivo da Buenaventura, saudou o acordo com o governo. "É saudável que tenhamos chegado a um bom porto, já que as empresas têm lucros adicionais", disse à emissora de rádio RPP.

CONSULTA A ÍNDIOS
Na terça, o Congresso peruano aprovou lei que determina que comunidades indígenas devem ser consultadas antes da instalação de projetos em seus territórios, como os de mineração, exploração de petróleo ou hidrelétricos.
Lideranças indígenas comemoraram como "sinal de boa vontade". O nó da questão estará na regulamentação da lei, que determinará se os resultados das consultas com as comunidades serão vinculantes ou não.
Estatais e privadas brasileiras esperam construir no Peru ao menos seis grandes hidrelétricas. Um dos projetos é alvo de protestos de comunidades de Puno (sul).

Greve geral no Chile tem saques e série de detenções

456 são presos e 78 ficam feridos em paralisação de 48 horas, diz governo

Choques com a polícia foram violentos em Santiago e em outras cidades; prejuízo seria de US$ 200 milhões

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

O segundo dia de greve geral no Chile foi marcado, ontem, por saques e enfrentamentos com a polícia. O governo diz que 456 foram presos e 78 ficaram feridos desde anteontem. A organização das manifestações estima que 600 mil foram às ruas em todo o país, ontem.
Sebastián Piñera tem a menor popularidade de um presidente chileno desde a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) -26%. Jovens bloquearam estradas, atiraram pedras e puseram fogo em ônibus e pilhas de lixo em cruzamentos de Santiago e de outras cidades. A polícia, por sua vez, usou água e gás lacrimogêneo para dispersar as multidões.
A reivindicação original dos manifestantes é a reforma do sistema de educação.
O governo afirma que apenas 10% dos funcionários públicos se uniram à greve convocada pela CUT (Central Única dos Trabalhadores), maior união sindical do país. A organização fala em 80%.
O transporte público funcionava ontem, ainda que com restrições de horários, e a mineração de cobre não foi interrompida pela greve -a distribuição do lucro do setor é outra demanda no país.
Apesar de o Chile ter expectativa de crescer mais de 6% neste ano, o país tem tido seguidos protestos.

CUSTO
Segundo o governo, a greve custa US$ 200 milhões (R$ 320 milhões) por dia.
A artista plástica brasileira Carolina Dalgalarrondo, 31, diz que não participou das manifestações -mas deixou de trabalhar ontem, para evitar o centro de Santiago.
"Eu apoio a mobilização dos estudantes", diz. "Mas esta greve pode tirar a força do movimento, por misturar muitas reivindicações."

Colaborou DIOGO BERCITO, de São Paulo 

Sinais de execução sumária surgem na capital da Líbia

Cadáveres com as mãos amarradas são encontrados, de rebeldes e pró-Gaddafi; caos aumenta na cidade


Youssef Boudlal/Reuters
Corpos com sinais de execução sumária perto do complexo de Gaddafi

DE SÃO PAULO

Sinais de execução sumária, por parte de rebeldes e de gaddafistas, surgiram ontem em Trípoli, demonstração de que aumenta o caos na cidade.
Mesmo assim, os rebeldes anunciaram a transferência de sua "capital" de Benghazi (no leste) para Trípoli, num sinal de que controlam o país.
Ontem, eles chegaram a anunciar que encurralaram Muammar Gaddafi, mas o ditador escapou. Em Nova York, o Conselho de Segurança da ONU desbloqueou US$ 1,5 bilhão (R$ 2,4 bi) em bens líbios congelados nos EUA, para serem utilizados pelos rebeldes na reconstrução da Líbia.
Em Buenos Aires, o chanceler brasileiro, Antonio Patriota, disse que o país é solidário com as aspirações do povo líbio de derrubar a "autocracia" representada por Gaddafi.

Líbia

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Outro jogo

VLADIMIR SAFATLE

À medida que o tempo passa, ficam mais claras algumas linhas hegemônicas da chamada Primavera Árabe. Agora que a Líbia junta-se ao Egito e à Tunísia como o terceiro país a ter seu governo derrubado por levantes populares, notam-se duas coisas.
Primeira, quando começa um processo de negação política posta em circulação por massas descontentes, não há governo, por maior que seja seu aparato repressivo, que esteja seguro. Gaddafi fez apelo até a mercenários, mas nada disso foi suficiente. Quem imaginava em sã consciência, há um ano, que escreveríamos hoje sobre sua deposição?
Maquiavel costumava dizer que o objetivo do povo era "não ser oprimido". Ou seja, um objetivo meramente negativo, uma recusa que não enuncia necessariamente algum novo princípio de organização social.
Ao que parece, os árabes deram razão a Maquiavel.
Seus levantes não foram em nome de uma nova forma de organização (embora seja sintomático que a palavra mais usada seja "respeito"). Foram em nome do fim de uma mistura entre opressão política e desencanto econômico.
Por serem objetivos eminentemente negativos, muitas possibilidades estão postas na mesa para o dia seguinte. Certo é apenas que tais regimes, como o de Gaddafi, há muito deveriam ter desaparecido.
Deve-se notar ainda como aqueles que diziam temer a instalação de teocracias na região passaram, até agora, ao largo de tudo o que ocorreu.
Não são fundamentalistas que pegaram em armas para derrubar Gaddafi, muito menos "antiocidentalistas", nem são eles que definiram os rumos na Tunísia e no Egito.
O que vemos é uma população disposta a acreditar que o futuro está aberto para ela. E da mesma forma que não é possível dissociar a dor que sinto da crença de que sinto dor, não é possível dissociar o futuro que se abre da crença de que o futuro está aberto.
O segundo ponto é como a queda de Gaddafi pode reanimar o ímpeto popular na região. Vemos os massacres na Síria, mas não sabemos mais o que ocorre no Iêmen, no Bahrein e no Marrocos.
Para variar, temos prazer em mostrar as barbaridades contra os direitos humanos perpetradas por nossos inimigos, mas somos complacentes com as ditaduras amigas.
Por enquanto, a Arábia Saudita, a pior ditadura da região e o país mais fechado do mundo, passa, mais uma vez, incólume. Esperemos que os povos árabes percebam que, após Gaddafi, nada mais é impossível e que os levantes sejam amplos, gerais e irrestritos.
Mais uma vez, fica claro como as dicotomias herdadas do século passado (abertura política ou a luta contra o fundamentalismo, o nacionalismo ou o apoio a potências coloniais) deixaram de ter relevância. Agora, joga-se outro jogo.


VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras na Folha de São Paulo

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Após 1 ano, mineiros chilenos afirmam que 'não estão bem'


LUCAS FERRAZ
ENVIADO ESPECIAL A SANTIAGO

No dia 22 de agosto de 2010, um bilhete amassado que subiu 700 m pregado a uma sonda que foi até o fundo da mina San José, no norte do Chile, avisou: "Estamos todos bem no refúgio, os 33".
Era o primeiro sinal dos mineiros soterrados em uma mina no deserto do Atacama. Marcou o início de uma operação de resgate que comoveu o mundo.
Um ano depois, José Ojeda, 47, autor das sete palavras do bilhete, decidiu parafraseá-lo, num ato de protesto: "Não estamos bem, os 33".
Assim como Ojeda, a maioria dos mineiros não conseguiu se reabilitar após o acidente na mina, quando passaram 70 dias enclausurados sob toneladas de terra, com comida escassa, nenhuma luz, submetidos a alta umidade e a temperatura de 38ºC.
As queixas são coincidentes a quase todos: pesadelos à noite, angústia, debilidades físicas, falta de trabalho e descaso das autoridades.
"As coisas não vão bem", disse à Folha Omar Reygadas, 57. "Com as lembranças, minha cabeça voltou para dentro da mina."
Ainda vivendo em Copiapó, cidade no norte do Chile onde está a mina San José, Reygadas conta que sofre de "angústia". Também não aguenta ficar em locais fechados e diz chorar muito.
"Algumas pessoas acham que ficamos ricos, mas até agora não recebemos nenhum peso", conta o mineiro, que sonha em voltar a trabalhar numa mina.
Os 33 mineiros não receberam a ajuda prometida. Muitos, como Reygadas, ficaram indignados com o uso indevido de suas imagens. Neste mês, no Chile, uma empresa lançou uma série de brinquedos de plástico deles, o que inclui até a mítica cápsula Fênix 2, que os resgatou da mina.
"O governo prometeu ajuda, trabalho, mas até agora não fizeram nada", disse à reportagem Jimmy Sánchez, hoje com 20 anos, o mais novo dos 33 mineiros.

Familiares dos estudantes se unem a protestos no Chile

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS - Pelo menos 100 mil pessoas, entre professores, estudantes e seus familiares protestaram ontem em Santiago, capital do Chile, no "domingo familiar pela educação". A estimativa é dos organizadores.
"Estamos animados porque estamos alcançando mais chilenos", disse Camilo Vallesteros, líder estudantil.
Há três meses, acontecem no Chile mobilizações de estudantes e professores que reivindicam educação de qualidade, gratuita e o fim do lucro nas universidades.
O presidente chileno, Sebastián Piñera, cuja popularidade caiu para 26%, disse que os estudantes "não são os únicos cidadãos no país" que o governo deve atender.

Jovens raspam a cabeça em tributo a Hugo Chávez

VENEZUELA

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS - O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que está sem cabelo por conta da quimioterapia que faz contra um câncer, presenciou ontem um gesto de solidariedade de cerca de cem católicos e evangélicos que rasparam seus próprios cabelos.
Antes que os jovens raspassem sua cabeça, Chávez congratulou dez religiosos dominicanos que viajaram a Caracas na quinta passado -já com as cabeças raspadas em homenagem ao venezuelano-, para participar de uma "oração ecumênica de cura e ação de graças".
Eles foram recebidos no Palácio Miraflores.
Chávez, que se operou em Cuba para a retirada de tumor canceroso, anunciou que usaria um "new look"de estilo militar quando seu cabelo começou a cair.

A última sessão de cinema na Síria

sábado, 20 de agosto de 2011

Médico falava sobre injeções no Araguaia, diz ex-combatente

JOÃO CARLOS MAGALHÃES

DE BRASÍLIA

Um ex-policial militar que combateu na Guerrilha do Araguaia (1972-1974) afirmou que ouviu de Walter da Silva Monteiro, um médico militar aposentado de Belém (PA), que a aplicação de injeções letais era um golpe de misericórdia em guerrilheiros comunistas combalidos pela tortura e maus tratos.
É o quinto ex-combatente do conflito que reconhece, à Folha, o coronel da reserva do Exército como sendo o "capitão Walter", médico que atuou na guerrilha.
No domingo passado, a Folha publicou os relatos de outros quatro ex-soldados que reconheceram por meio de fotografia Monteiro, que chegou a dirigir dois dos principais hospitais de Belém.
Dois ex-combatentes, em gravação feita pelo grupo do governo federal que procura ossadas do conflito, levantaram a hipótese do envolvimento do médico com as injeções.
Mas esses dois diziam que só tinham ouvido falar na relação entre Monteiro e as mortes pelo método químico. Já Josias Souza, 59, afirmou que o próprio coronel comentava sobre a vantagem das injeções.
"Ele próprio [dizia]: "Vamos evitar uma bala, que custa mais", e aí acho que tinha um tom de brincadeira com vidas humanas, "e vamos fazer isso de forma mais suave"", disse o ex-soldado Souza --que aceitou dar seu nome, mas não mostrar seu rosto em vídeo gravado pela reportagem.
Souza estava no final de sua adolescência quando chegou na região do Araguaia, onde passou ao menos 60 dias.
Segundo ele, ao ser levado para o local, junto a outros policiais militares de Goiás, não sabia do que se tratava a missão.
Após mais de um mês combatendo na selva, passou a trabalhar na base de Xambioá (TO), onde conviveu com o "capitão Walter".
Lá, afirmou, ajudou a retirar da enfermaria 17 cadáveres de guerrilheiros.
Os corpos eram enterrados em covas verticais, cavados pelos próprios presos, ou jogados, de helicóptero, em uma cachoeira no meio da mata, disse.
Ele afirmou acreditar que ao menos parte dessas pessoas foram mortas com as injeções, chamada de "mercadoria", segundo o ex-policial militar.
Souza disse não ter presenciado as aplicações, mas chegado "no final do capítulo", "porque não se ouvia naquele momento tiro, e o comentário dos oficiais e a ordem [era] de conduzi-los [os cadáveres] a um local para que fossem colocados outros [guerrilheiros]" na enfermaria da base.
O ex-combatente hoje sofre de depressão, e diz ser incapaz de esquecer os gritos dados por guerrilheiros que eram torturados --alguns deles ficavam em um poço, onde lixo, fezes e urina eram jogados, segundo ele.
"Até hoje isso me machuca muito. Eu tenho sofrido muito nas minhas noites, porque fica arquivado. O pior juiz fica dentro da nossa própria cabeça."
Procurado pela Folha duas vezes, Walter da Silva Monteiro negou ter participado da guerrilha. Afirmou que, no período, estava em Belém, e não na região do Araguaia.

Ex-combatente confirma injeção letal no Araguaia

Segundo testemunha, recurso era utilizado por médicocomo "golpe de misericórdia" em guerrilheiros torturados

Ex-policial é a 5ª pessoa a afirmar que o "capitão Walter", médico que atuou na guerrilha, era um coronel do Exército

JOÃO CARLOS MAGALHÃES
DE BRASÍLIA

Um ex-policial militar que combateu na Guerrilha do Araguaia (1972-1974) afirmou que ouviu de Walter da Silva Monteiro, um médico militar aposentado de Belém (PA), que a aplicação de injeções letais era um "golpe de misericórdia" em guerrilheiros comunistas combalidos pela tortura e maus tratos.
É o quinto ex-combatente do conflito que reconhece, à Folha, o coronel da reserva do Exército como sendo o "capitão Walter", médico que atuou na guerrilha.
No domingo passado, a Folha publicou os relatos de outros quatro ex-soldados que reconheceram Monteiro por meio de foto.
Dois ex-combatentes, em gravação feita pelo grupo do governo federal que procura ossadas do conflito, levantaram a hipótese do uso das injeções pelo médico.
Eles diziam, no entanto, que só tinham ouvido falar na relação entre Monteiro e as mortes pelo método químico. Já Josias Souza, 59, afirmou que o próprio coronel comentava sobre a vantagem das injeções.
"Ele próprio [dizia]: "Vamos evitar uma bala, que custa mais", e aí acho que tinha um tom de brincadeira com vidas humanas, "e vamos fazer isso de forma mais suave'", disse o ex-soldado.
Procurado pela Folha, Walter da Silva Monteiro negou ter participado da guerrilha. Afirmou que, no período, estava em Belém.
Souza -que aceitou dar seu nome, mas não mostrar seu rosto em vídeo gravado pela reportagem- estava no final de sua adolescência quando chegou, em 1974, na região do Araguaia.
Após mais de um mês combatendo na selva, passou a trabalhar na base de Xambioá (TO), onde conviveu com o "capitão Walter".
Lá, afirmou, ajudou a retirar da enfermaria 17 cadáveres de guerrilheiros. Os corpos eram enterrados em covas verticais, cavadas pelos próprios presos, ou jogados, de helicóptero, em uma cachoeira no meio da mata.
Ele acredita que ao menos parte dessas pessoas foi morta com as injeções, chamadas de "mercadoria".
Souza disse não ter presenciado as aplicações, mas chegado "no final do capítulo", "porque não se ouvia naquele momento tiro, e o comentário dos oficiais e a ordem [era] de conduzi-los [os cadáveres] a um local para que fossem colocados outros [guerrilheiros]" na enfermaria da base.
O ex-combatente hoje sofre de depressão, e diz ser incapaz de esquecer os gritos dados por guerrilheiros que eram torturados. "Até hoje isso me machuca muito. Eu tenho sofrido muito nas minhas noites, porque fica arquivado. O pior juiz fica dentro da nossa própria cabeça."

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Zonas de perigo

KENNETH MAXWELL

Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, alertou que muitos investidores estão perdendo a confiança na liderança econômica de alguns dos países mais importantes do mundo. Falando em Sydney, Austrália, no começo da semana, ele disse que a consequência disso era que estávamos entrando em uma "nova zona de perigo".
Os comentários de Zoellick refletem as preocupações de comentaristas econômicos importantes, como o administrador bilionário de fundos de investimento e filantropo George Soros e o lendário Warren Buffett, conhecido como "o sábio de Omaha".
Buffett desafiou a ortodoxia do Partido Republicano no que tange a rejeitar aumentos de impostos. Ele acredita que os mais ricos nos EUA foram mimados por um regime tributário muito generoso e que não fazem contribuição justa para as finanças do país. Buffett, cujo patrimônio é estimado em US$ 50 bilhões pela revista "Forbes", é a terceira pessoa mais rica do mundo, depois do mexicano Carlos Slim e de Bill Gates. "Essas bênçãos nos são conferidas por legisladores em Washington que se sentem compelidos a nos proteger, como se fôssemos corujas raras ou outra espécie ameaçada". Buffett definiu as transações econômicas exóticas cuja popularidade causou a crise de 2008 como "instrumentos de destruição financeira em massa".
Soros atacou os líderes da zona do euro de modo não menos enfático. Propôs, no "Financial Times", três passos para uma solução abrangente da crise do euro: reforma e recapitalização do sistema bancário; criação de títulos de dívida da zona do euro; e um mecanismo para saída.
Os bancos da zona do euro, diz, elevaram seus passivos de maneira absurda, alimentando booms imobiliários na Irlanda e na Espanha, e agora requerem fiscalização severa.
A zona do euro precisa emitir títulos comuns, garantidos em conjunto por todos os seus integrantes. Sem eles, acredita Soros, o euro implodirá.
Alguém ouvirá Zoellick, Buffett e Soros? Aparentemente não a chanceler alemã, Angela Merkel, ou o presidente francês, Nicolas Sarkozy, que rejeitaram a ideia de títulos unificados para o euro em reunião de cúpula em Paris. O BCE interveio precocemente, adquirindo títulos espanhóis e italianos. Mas o crescimento da economia alemã estancou e a francesa está estagnada. A timidez política continuada da zona do euro pode provar que Soros está certo.
Enquanto isso, o novo astro na disputa pela indicação presidencial republicana, o governador do Texas, Rick Perry, atacou o presidente do Fed, Ben Bernanke. Ele seria "quase um traidor" se imprimisse mais dinheiro antes da eleição de 2012, disse o governador.


KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras na Folha de São Paulo

Tradução de PAULO MIGLIACCI

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Retirada do Haiti -mas quando?

MARK WEISBROT



A ocupação terminará quando os governos estrangeiros constatarem que é um ônus político grande demais


Um mês atrás eu argumentei neste espaço que o Brasil deveria definir um cronograma para tirar suas tropas do Haiti, já que não há guerra em curso nesse país e nenhuma razão -nem justificativa- legítima para a força militar da ONU (a Minustah) estar ali. Agora, o novo ministro da Defesa brasileiro, Celso Amorim (que tomou posse em 8 de agosto), disse à imprensa brasileira ser "a favor da retirada das tropas brasileiras do Haiti". É uma notícia importante.
De acordo com o artigo do "Globo", "o assunto foi discutido na primeira reunião entre o ministro e os comandantes das Forças Armadas, no Palácio do Planalto, no sábado. [...] Houve 'convergência de opinião', ou seja, a cúpula militar também concorda com o retorno das tropas".
Mas quando elas vão partir? O presidente Obama vem falando de as tropas americanas deixarem o Afeganistão, mas elas estão no país há quase uma década, e agora o Pentágono está falando em 2014, ou, ainda pior, em manter uma presença militar permanente ali.
Mesmo no Iraque, onde em 2008 o presidente Bush assinou um acordo prevendo a retirada das tropas de combate americanas, a administração Obama vem tentando manter 10 mil soldados e milhares de funcionários civis no país por tempo indeterminado. As tropas dos EUA vão sair do Afeganistão quando a opinião pública dos EUA -que, por maioria avassaladora, é contra a ocupação e a guerra- e a pressão se tornarem fortes demais para que os políticos as ignorem.
É devido à oposição política em seus países que os governos do Canadá e da Holanda retiraram suas forças de combate das forças "da coalizão", que, na realidade, fazem parte de uma ocupação americana.
O mesmo se aplica à ocupação do Haiti. Ela é também uma ocupação americana, dessa vez sob o disfarce da ONU. As tropas foram levadas para "manter a ordem" depois de Washington e seus aliados terem derrubado o governo haitiano democraticamente eleito, em 2004.
A ocupação vai terminar quando os governos estrangeiros que têm soldados ali constatarem que é um ônus político grande demais. É bem possível que outros países latino-americanos saiam do Haiti antes do Brasil, aumentando a pressão sobre o Brasil para encontrar o que Amorim descreveu como "uma estratégia de saída".
Dentro do Brasil existe oposição significativa à ocupação do Haiti. Carta recente à presidente Dilma foi assinada por vários legisladores do PT, por Markus Sokol, do Diretório Nacional do PT, representantes da CUT, do MST e muitos outros. Ela dizia: "É preciso terminar com a participação do Brasil numa operação militar que é repudiada pela grande maioria do povo haitiano [...] essa ocupação só fez aprofundar a situação dramática do povo e negar a sua soberania".
Esses brasileiros estão atuando como a consciência da nação -estão se manifestando porque se preocupam com o povo do Haiti, e não com ganho político próprio.
A administração Dilma deveria dar ouvidos a eles e sair do Haiti mais cedo, ao invés de mais tarde.

Tradução de CLARA ALLAIN

EUA e a crise

ANTONIO DELFIM NETTO

Acabam de ser publicadas as estimativas corrigidas do crescimento real do PIB dos EUA (medido a preços constantes de 2005) e que dão uma visão mais realista do que aconteceu à economia americana nos últimos quatro anos (2º trim. 2011/2º trim. 2008).
Ela apenas retornou ao nível em que se encontrava no 2º trimestre de 2007! Há quatro anos o PIB está estagnado. Como a população cresceu, isso significa que o PIB per capita diminuiu. Considerando que em condições normais de pressão e temperatura o PIB real americano cresce à taxa de 2% ao ano, a flutuação dos últimos quatro anos representa qualquer coisa entre 10% e 15% de um PIB anual (mais ou menos um PIB anual do Brasil) que potencialmente deixou de ser produzido pela disfuncionalidade do sistema financeiro.
As consequências sobre o endividamento interno foram importantes. De um lado, pela redução da receita e, de outro, pelo aumento das despesas com o desemprego. Paralelamente, aumentou a desigualdade na distribuição de renda, o que acentuou o mal-estar da sociedade com relação ao presidente Obama.
É cada vez mais evidente que as políticas monetária e fiscal foram incapazes de cooptar a confiança do setor privado, de forma que seus efeitos sobre a recuperação do consumo e ampliação dos investimentos têm sido pífios.
Basta dizer que as empresas não financeiras têm em caixa qualquer coisa como US$ 1,5 trilhão a US$ 2 trilhões aplicados em papéis do Tesouro americano. Por que não investem? Porque continuam a desconfiar do presidente Obama e não têm certeza de que encontrarão demanda no futuro.
Enquanto isso, o crescimento do consumo é inibido por um desemprego total ou parcial de mais de 25 milhões de pessoas, que continuam assustadas com o comportamento do mercado de trabalho, especialmente na construção civil.
Deveria ser claro que o problema só poderá ser resolvido com um aumento da demanda privada que até agora não tem respondido aos imensos estímulos monetários e fiscais.
A resposta não é "mais do mesmo", mas entender por que não funcionou. Em nossa opinião, porque: 1º) o comportamento de Obama foi hostil com o setor real da economia no início de sua administração; 2º) ele foi submisso e leniente em relação ao setor financeiro, que precisava mesmo ser preservado, mas não os seus agentes mais conspícuos e 3º) gastou o enorme patrimônio político do "we can" com programas necessários, mas discutíveis, em lugar de utilizá-lo cooptando e dando confiança ao setor privado para reduzir o desemprego.
O problema dos EUA não é econômico: é a falta de confiança da sociedade na ação do Executivo e do Legislativo.


ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras na Folha de São Paulo
contatodelfimnetto@terra.com.br

A onda Kirchner

Editoriais

editoriais@uol.com.br

A trajetória de Cristina Kirchner rumo à reeleição presidencial na Argentina ganhou contornos de inevitabilidade depois de sua vitória esmagadora nas primárias.
Foi a primeira vez que primárias na Argentina se deram pelo voto direto. Nenhum candidato do fracionado sistema partidário do país fica alijado, e a votação funciona como uma imensa pesquisa eleitoral (o voto é obrigatório).
A vitória de Cristina nessas prévias é ainda mais expressiva se comparada com eleições anteriores. Só Raúl Alfonsín, no pleito de 1983, conseguiu 50% dos votos, como fez agora a presidente. Nunca, desde a redemocratização ali iniciada, um postulante havia sido derrotado em apenas uma das 24 províncias do país.
A dez semanas do pleito de 23 de outubro, Cristina deve vencer no primeiro turno. Bastam 45% dos votos, ou mesmo 40%, se abrir vantagem de dez pontos sobre o segundo colocado.
A oposição está rachada. Os principais oponentes -Ricardo Alfonsín (filho do ex-presidente), Eduardo Duhalde (ex-presidente) e Hermes Binner (governador da província de Santa Fé)- obtiveram entre 10% e 12% cada.
A maior fraqueza de Cristina -a morte, há dez meses, do marido, principal estrategista e ex-presidente Néstor Kirchner- tornou-se, paradoxalmente, um trunfo. Uma imagem de viúva fragilizada amenizou o desgaste pelos frequentes conflitos com vários setores, da mídia ao empresariado.
A pujança econômica, com crescimento de 8,4% em 2010 e previsão de ao menos 5% em 2011, completa o quadro de harmonia entre Cristina e o eleitorado. Deficiências graves, como a inflação maquiada (estima-se que a taxa seja o triplo da oficial, de 8% ao ano), não devem redundar em crises capazes de alterar o quadro eleitoral nos próximos meses.
A grande incógnita passa a ser a capacidade de Cristina de criar uma "onda K" que lhe garanta maioria consistente no Congresso, nos moldes da "onda vermelha" da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil em 2002. Nas eleições municipais de julho, os kirchneristas se saíram mal em cidades importantes.
Mais que a reeleição, de resto muito próxima, a presidente almejará retomar o controle do Parlamento, origem de boa parte de seus problemas nos últimos anos.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Colapso moral

VLADIMIR SAFATLE

Aqueles que se veem como excluídos da sociedade não têm razão alguma para obedecer às suas normas.
Eis uma colocação trivial que qualquer habitante de metrópoles brasileiras aceitaria. Conhecemos bem tal situação social onde a exclusão e a falta de perspectiva gera a descrença (no melhor cenário) ou a violência (no pior) contra o império das normas sociais.
Muitos gostariam de chamar isso de "sociologismo vulgar", como se fosse questão de afirmar que onde há pauperização sempre haverá crime.
Talvez seja o caso de simplesmente dizer que a pauperização e o sentimento de ter sido deixado de lado pelo Estado gera, de maneira forte, a desagregação do laço social.
Quando não há nada que sirva de contrapeso a tal processo, é fácil começar a ver carros queimados, lojas quebradas e outros atos de vandalismo.
Nesse sentido, há algo de profundamente cômico em ouvir o premiê britânico, David Cameron, afirmar que a Inglaterra está vivendo um "colapso moral" e que devemos colocar os confrontos em Londres e em outras cidades na conta da ausência de valores como "espírito de equipe, decência, dever e disciplina".
Sim, as escolas e as famílias não ensinam mais esses grandes valores, mas, segundo o primeiro-ministro, em seu papel de último esteio moral da ilha, "desencorajam o trabalho" e fornecem "direitos sem responsabilidade". Por muito pouco, não fomos brindados com a ideia inovadora de que as altas taxas de desemprego eram fruto da "preguiça".
Alguém deveria ter dito a Cameron que ele não é exatamente um bom enunciador contra o colapso moral britânico, ainda mais depois de um de seus principais assessores ser pego envolvido no escândalo que expôs as relações incestuosas entre a política britânica e o magnata da mídia Rupert Murdoch.
Da mesma forma, quando seu governo destrói todo o resto de sistema público de educação e de assistência social após ter pago (com o beneplácito de seu partido) a conta de bancos responsáveis pela crise de 2008, há de se perguntar se o colapso moral vem da City ou de Tottenham.
Pelo menos Cameron mostrou o que o pensamento conservador pode nos oferecer hoje: ladainhas morais em vez de ações enérgicas contra os verdadeiros arruaceiros, ou seja, esses que operam no sistema financeiro internacional.
Enquanto isso não ocorrer, jovens roubando lojas de iPads e tênis continuarão dizendo: não aceitaremos estar fora do universo de consumo e sucesso individual que vocês mesmos inventaram. Nós entraremos nele, nem que seja saqueando.
Por isso, antes de cobrar responsabilidades de setores desfavorecidos da população, Cameron deve parar de tentar escapar de suas próprias.


VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras na Folha

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Explode o fluxo de refugiados da Somália para o vizinho Quênia

Cerca de 1.500 cruzam a fronteira por dia, afirma ONU, que prevê aumento do índice

CAROLINA MONTENEGRO

DE SÃO PAULO

Com o avanço da crise de fome na Somália, o Quênia está entre o receio e a solidariedade. O motivo é o fluxo de refugiados do país vizinho, que não para de aumentar.
Até o começo de agosto, a ONU registrava a entrada de 1.500 refugiados por dia, no campo de Dadaab, na fronteira norte do país. Outros milhares seguem para a Etiópia, fugindo da fome e da seca.
"Há mais de duas décadas o Quênia recebe somalis. A maioria se estabelece e fica no país como ilegal, porque a situação na Somália continua ruim. Eles vêm para ficar", diz à Folha Jane Some, analista da ONU em Nairóbi.
Cerca de 116 mil refugiados somalis chegaram a Dadaab este ano, 76 mil apenas nos últimos dois meses. O Quênia recebe, mas não integra ou dá cidadania aos somalis.
Estima-se que 1 milhão de somalis expatriados vivam em território queniano, a maior parte refugiados. Em Nairóbi quase 60 mil vivem em Eastleigh (subúrbio chamado de "Little Mogadiscio"), onde são alvo de discriminação e abuso policial.
Ontem, a ONU alertou para o aumento de refugiados nas próximas semanas. O presidente queniano, Mwai Kibaki, disse que os somalis "precisavam ser assistidos dentro de seu próprio país" e que vai financiar um centro de alimentos em Mogadício.
Por trás da política de "morde e assopra" está a preocupação com a segurança e a política interna. Só dentro do Quênia são 3,5 milhões de famintos. "O governo também teme que o Al Shabab amplie sua atuação", afirma Some. Em 2010, a milícia somali explodiu uma bomba em Campala, Uganda -país que mantém tropas na Somália.

Procuradoria quer chamar Dilma para falar de tortura

Presidente pode ser ouvida em ação contra ex-agentes do regime militar

Testemunho poderá ser por escrito; quando foi presa, em 1970, Dilma acusou ex-militar da Oban de tê-la torturado

BERNARDO MELLO FRANCO
DE SÃO PAULO

O Ministério Público Federal estuda pedir o depoimento da presidente Dilma Rousseff em ação contra quatro ex-agentes da ditadura militar acusados de torturar presos políticos na Oban (Operação Bandeirantes).
Ela pode ser ouvida como testemunha de acusação contra Maurício Lopes Lima, capitão reformado do Exército que atuou no órgão.
Em audiência na Justiça Militar quando estava presa pelo regime, em 1970, a presidente o apontou como "um dos torturadores da Oban".
"O testemunho de Dilma pode ser relevante, porque ela é uma das vítimas que reconheceram os réus como torturadores", diz a procuradora Eugênia Gonzaga.
Na segunda-feira, a juíza federal Taís Gurgel, da 4ª Vara Cível de São Paulo, deu ao Ministério Público 15 dias para informar as provas que pretende colher na ação.
Os procuradores querem chamar ex-presos para reforçar o envolvimento dos acusados em sessões de tortura.
"Se for o caso, não teremos nenhum constrangimento em pedir o depoimento da presidente, que poderá responder por escrito", disse o procurador regional da República Marlon Weichert.

TORTURAEx-militante da VAR-Palmares, uma das principais organizações da luta armada, Dilma ficou presa de 1970 a 1972. Ela relatou ter sofrido maus-tratos na Oban. "Fui barbaramente torturada, ou seja, choques elétricos, pau de arara e palmatória."
Em 2009, Dilma afirmou que Lima não a agrediu, mas "entrava na sala e via tortura". No ano passado, ele negou a acusação e disse à Folha não ter "nenhum remorso" pelo que fez na Oban.
No processo, o militar usou uma entrevista em que a presidente contou que "mentia muito" durante a ditadura. Ela já esclareceu, porém, que se referia a interrogatórios sob tortura, e não a audiências judiciais.
A Oban foi o mais famoso centro de torturas do regime. Foi instalada em 1969 na rua Tutóia, no Paraíso (zona sul de SP), de forma clandestina e sob o comando do Exército. No ano seguinte, entrou para o aparato oficial da repressão como DOI-Codi.
Além de Lima, são réus na ação os militares Homero Cesar Machado e Innocencio Beltrão e o ex-capitão da PM João Thomaz. Todos negam ter participado de torturas.
A Procuradoria pede que eles sejam declarados responsáveis por torturas, percam as aposentadorias e sejam obrigados a indenizar a União e o governo paulista.

Histórias e tradições das Arcadas


EDUARDO CESAR SILVEIRA VITA MARCHI



Aos poucos, o canto do "pic-pic", que surgiu nas Arcadas, foi-se difundindo pelas festas de aniversário, primeiro em São Paulo, depois no país

Histórias da São Francisco,
Que eu canto com emoção,
Em cada canto do largo,
Eu largo meu coração.
(Trova do poeta Paulo Bomfim).

Neste texto contaremos a surpreendente origem histórica do canto do "pic-pic", famoso nas festas brasileiras de aniversários, e sua vinculação com a vida acadêmica da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (da Universidade de São Paulo) -as Arcadas.
Como se sabe, em muitos lares do país, durante as comemorações familiares de aniversários, cantam-se, em seu ápice, os parabéns com a versão brasileira da famosa melodia do "Happy Birthday".
Terminada a canção, surge de repente um grito de evocação: "E pro Fulano, nada! Tudo! E então como é que é? É". Segue-se o conhecido e enigmático canto do "pic-pic": "É pic, é pic, é pic, é pic, é pic! É hora, é hora, é hora, é hora, é hora! Rá, tim, bum! Fulano, Fulano, Fulano!".
Na verdade, estamos diante de brincadeira e de gritos de guerra surgidos nos corredores e no pátio das Arcadas, entre os estudantes das primeiras décadas do século passado. A princípio, não apresentavam vinculação com festas de aniversários. Eram gritos de pilhéria, regozijo e canções de evocação.
"Pic-pic" era o apelido de um dos líderes das "estudantadas" em sua época, década de 1920, Ubirajara Martins de Souza. Bacharelou-se pela nossa faculdade em 1927.
Era figura conhecida entre os colegas. Portava barba imponente, acompanhada de bigodinhos de pontas aguçadas. Vaidoso, aparava constantemente tais bigodes, servindo-se de uma tesourinha cujo peculiar som de corte sempre ecoava: "pic, pic, pic, pic".
Não tardou para que tal característica lhe rendesse o apelido de "Pic-pic"! Quando aparecia, seus colegas o saudavam entusiasticamente: "É o Pic-pic, é o Pic-pic!".
Já naquela época era costume entre os estudantes dirigir-se ao seu principal bar de encontro: o Ponto Chic, que segue funcionando no largo do Paissandu.
Ali, consumiam rapidamente as cervejas geladas disponíveis. Era preciso aguardar um tempo até que novas garrafas fossem refrigeradas, o que durava em média meia hora.
Os estudantes, acompanhando ansiosamente o avanço do relógio, alvoroçavam-se diante da proximidade do grande momento e punham-se em coro a cantar, clamando de modo desesperado pelas cervejas geladas: "Meia hora, meia hora, é hora, é hora, é hora"!
Por fim, ainda naquele período, recebeu a faculdade uma insólita visita: um rajá indiano, chamado Timbum, proveniente da região de Kapurtala. O acontecimento inusitado, aliado à sonoridade do nome, deu chance aos alunos de incorporar, ao final dos seus cantos, novo grito de guerra: "Ra-já-Tim-bum!".
Geração após geração, foram sendo passados esses cantos e gritos de guerra, sobrepostos uns aos outros, entre os estudantes do largo: "É Pic, é Pic, é Pic, é Pic, é Pic!; meia hora, meia hora, é hora, é hora, é hora!; Rá-já-tim-bum!".
Naquela época, os estudantes do largo eram figuras bastante conhecidas na sociedade paulistana. Por isso, as importantes famílias da cidade, principalmente quando das festas de aniversário de suas filhas casadouras, honravam-se em recebê-los. Aos poucos, o canto do "pic-pic" foi-se difundindo pelas festas de aniversário em São Paulo, mesmo sem os estudantes, e depois estendeu-se para todo o país.
As Arcadas são assim: passado mas também futuro. Olha-se para trás enquanto mira-se o porvir.


EDUARDO CESAR SILVEIRA VITA MARCHI é professor titular de direito romano da Faculdade de Direito da USP, da qual foi diretor (2002-2006).

Londres está queimando

KENNETH MAXWELL

A faísca foi a morte de Mark Duggan, causada por disparos da polícia, em Tottenham, Londres. No sábado, amigos e parentes dele foram até a delegacia local para protestar.
Não receberam qualquer resposta das autoridades, a despeito de garantias de que seriam atendidos por um oficial de alta patente. Na mesma noite, começaram os tumultos, que cresceriam pelos quatro dias seguintes.
Não demorou para que certas áreas da capital britânica fossem tomadas pelas chamas. Foram os piores incêndios em Londres desde os bombardeios da Segunda Guerra. Centenas de jovens enfrentaram a polícia em batalhas campais. Muitos outros participaram de saques.
Os lojistas ficaram sem proteção. Até a noite de terça, quando a polícia colocou mais de 15 mil homens nas ruas, muitos trazidos de fora da cidade, as batalhas de rua eram vencidas pelos arruaceiros.
O levante ocorreu no início de agosto, quando os políticos britânicos tradicionalmente tiram férias. O premiê David Cameron e sua mulher estavam na Itália. O prefeito de Londres, Boris Johnson, no Canadá. A secretária do Interior, Theresa May, na Suíça.
Quando os tumultos começaram a se espalhar pela capital, May retornou ao Reino Unido. Na terça, Cameron estava de volta ao nº 10 de Downing Street, a sede do governo britânico. Boris Johnson também retornou de Calgary. Mas, àquela altura, os tumultos tinham se espalhado por outras grandes cidades inglesas, como Birmingham, Liverpool, Bristol e Nottingham.
O Parlamento retornará mais cedo do recesso para discutir a crise. Mas os políticos estão reagindo com atraso. A resposta imediata deles foi prometer ação punitiva e condenar os participantes dos tumultos como "arruaceiros irresponsáveis".
Nick Clegg, o vice-primeiro-ministro, foi apupado ao visitar Birmingham. Boris Johnson, que brandia uma vassoura ao estilo de Jânio Quadros, também foi vaiado por lojistas atacados na confusão, ao tentar confortá-los.
O problema é que Mark Duggan aparentemente não estava armado quando foi morto a tiros pela polícia.
Os jovens que participaram dos tumultos vêm, em geral, de áreas pobres da cidade. Foram as mais prejudicadas pelo corte de verbas governamentais para os serviços municipais e centros de juventude.
A polícia de Londres, em clara inferioridade numérica diante dos manifestantes, também está enfrentando corte de verbas de 20%, para não mencionar as investigações em curso sobre o escândalo das escutas telefônicas.
A verdade é que estamos apenas começando a ver as consequências dos tumultos de agosto em Londres.


KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Abbey road 2011

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Maria Antonieta

VLADIMIR SAFATLE

Em 2006, a cineasta Sofia Coppola lançou um filme sobre Maria Antonieta. Ao contar a história da rainha juvenil que vivia de festa em festa enquanto o mundo desabava em silêncio, Coppola acabou por falar de sua própria geração.
Esta mesma que cresceu nos anos 1990.
No filme, há uma cena premonitória sobre nosso destino. Após acompanharmos a jovem Maria por festas que duravam até a manhã com trilhas de Siouxsie and the Ban- shees, depois de vermos sua felicidade pela descoberta do "glamour" do consumo conspícuo, algo estranho ocorre.
Maria Antonieta está agora em um balcão diante de uma massa que nunca aparece, da qual apenas ouvimos os gritos confusos. Uma massa sem representação, mas que agora clama por sua cabeça.
Maria Antonieta está diante do que não deveria ter lugar no filme, ou seja, da Revolução Francesa. Essa massa sem rosto e lugar é normalmente quem faz a história. Ela não estava nas raves, não entrou em nenhuma concept store para procurar o tênis mais stylish.
Porém ela tem a força de, com seus gritos surdos, fazer todo esse mundo desabar.
Talvez valha a pena lembrar disso agora porque quem cresceu nos anos 1990 foi doutrinado para repetir compulsivamente que tal massa não existia mais, que seus gritos nunca seriam mais ouvidos, que estávamos seguros entre uma rave, uma escapada em uma concept store e um emprego de "criativo" na publicidade.
Para quem cresceu com tal ideia na cabeça, é difícil entender o que 400 mil pessoas fazem nas ruas de Santiago, o que 300 mil pessoas gritam atualmente em Tel Aviv.
Por trás de palavras de ordem como "educação pública de qualidade e gratuita", "nós queremos justiça social e um Estado-providência", "democracia real" ou o impressionante "aqui é o Egito" ouvido (vejam só) em Israel, eles dizem simplesmente: o mundo que conhecemos acabou.
Enganam-se aqueles que veem em tais palavras apenas a nostalgia de um Estado de bem-estar social que morreu exatamente na passagem dos anos 1980 para 1990.
Essas milhares de pessoas dizem algo muito mais irrepresentável, a saber, todas as respostas são de novo possíveis, nada tem a garantia de que ficará de pé, estamos dispostos a experimentar algo que ainda não tem nome.
Nessas horas, vale a lição de Maria Antonieta: aqueles que não percebem o fim de um mundo são destruídos com ele. Há momentos na história em que tudo parece acontecer de maneira muito acelerada.
Já temos sinais demais de que nosso presente caminha nessa direção. Nada pior do que continuar a agir como se nada de decisivo e novo estivesse acontecendo.


VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras na Folha de São Paulo

Tempestade perfeita

Editoriais

editoriais@uol.com.br

Rebaixamento da nota dos EUA dá pretexto para capital fugir das bolsas e buscar um refúgio paradoxal nos títulos desqualificados por agência

A canhestra decisão da agência de avaliação de risco Standard & Poor's (S&P) de rebaixar a nota de crédito dos EUA pôs as Bolsas de Valores do mundo em queda livre. A Bovespa, novamente, executou o mergulho mais espetacular.
É assustador que a decisão burocrática de uma consultoria com péssimo retrospecto possa precipitar a economia global no vazio. Abalam-se até nações que ainda se julgavam imunes, temerariamente, como China e Brasil.
Não é a primeira vez que a S&P erra. Sua falha mais escandalosa foi não ter captado nem sombra de risco em bancos como o Lehman Brothers, semanas antes da quebra que deflagrou a crise de 2008.
A S&P não poderia ter escolhido pior momento para tentar expiar suas culpas e inaugurar outro tipo de equívoco. Se antes reduzia avaliações de países e empresas sempre com atraso, elegeu agora como alvo aquilo que os analistas ainda percebem como o grande reduto de segurança, títulos do Tesouro norte-americano.
O efeito paradoxal do rebaixamento -segundo o governo dos EUA, baseado num erro de US$ 2 trilhões nas contas da S&P- foi empurrar os investidores para aqueles títulos. A agência providenciou o sinal que faltava para todos concluírem que a possibilidade de recessão se tornou mais concreta e que era hora de desinvestir em empresas e refugiar-se na aplicação financeira mais sólida do mundo -ainda que portadora da nota AA+, não mais AAA.
Seria correto dizer que o deslize da S&P não ocasionou a corrida às Bolsas, só lhe serviu de gatilho. Na raiz da crise que ameaça degenerar em pânico está a dupla incapacidade -na Europa e nos Estados Unidos- de o mundo desenvolvido retomar o crescimento. Isso a um tempo em que suas taxas de juros tendem a zero, trilhões já foram empregados para manter economias à tona e se torna patente o impasse político, dos dois lados do Atlântico Norte.
Nos EUA, republicanos mesmerizados pelo extremismo do Tea Party acuam democratas e Barack Obama. Um bipartidarismo mais sectário faz temer pela sobrevivência do frágil acordo que levou à elevação do limite de endividamento do Estado. A 15 meses da eleição, a instabilidade política e fiscal parece fadada a crescer.
Na União Europeia, governos relutam em caminhar para uma maior integração também no plano fiscal. Tal passo implicaria fornecer socorro mais decidido para a solvência não só de Irlanda, Portugal e Grécia, mas também de Itália e Espanha (socorridos ontem pelo Banco Central Europeu), medida impopular entre eleitores.
Não há soluções à vista para tamanhos embaraços. Hora de guarnecer a embarcação para a tormenta, como ainda relutam em reconhecer os pilotos do Planalto.

domingo, 7 de agosto de 2011

Barricadas radiofônicas

HISTÓRIA
Brizola e os 50 anos da Campanha da Legalidade

RESUMO
A crise que se sucedeu à renúncia de Jânio Quadros, em 1961, levou o então governador gaúcho, Leonel Brizola, a liderar a Campanha da Legalidade, mobilização que pretendia garantir a posse do vice, João Goulart. Difundida pelo rádio e com forte participação popular, a campanha adiou um golpe militar até 1964.

ELEONORA DE LUCENA

A RENÚNCIA DE JÂNIO Quadros, em 25 de agosto de 1961, deixa o país perplexo. João Goulart, o vice-presidente eleito, está em viagem oficial à China. Os militares não aceitam a posse do vice e anunciam que prenderiam Goulart quando desembarcasse no Brasil. O golpe está armado.
Em Porto Alegre, o governador Leonel Brizola (1922-2004) resolve resistir. Com metralhadora e microfone em mãos, passa a transmitir pelo rádio discursos contra os golpistas e pela legalidade da posse de Jango. O comandante do 3º Exército, do Sul, recebe ordem para bombardear o Palácio Piratini -e não a cumpre.
Uma multidão vai para a praça da Matriz, onde fica a sede do governo estadual. Estudantes arrancam bancos de cimento e fazem barricadas. Sargentos se rebelam. Armas são distribuídas a voluntários civis. O Exército no Sul apoia a campanha. O golpe é contido -ou, melhor, adiado.
Jango volta e toma posse em 7 de setembro, sob um recém-implantado parlamentarismo.

REBORDOSA A história completa 50 anos e ainda está viva na memória de Carlos Bastos, 77, então repórter da "Última Hora". Lembra que a renúncia provocou uma "rebordosa": "Fiquei morando no palácio por 12 dias. Só ia para casa para tomar banho e trocar de roupa. Recebi um revólver".
A 2.000 km dali, Almino Affonso, 32 anos, líder do PTB (partido de Jango) na Câmara dos Deputados, discursou logo após a renúncia -que, diz à Folha, "na minha opinião, de forma intuitiva, era um golpe que Jânio tinha tentado fazer através do gesto" (leia a íntegra em folha.com/ilustrissima).
A mesma visão tem Luiz Alberto Moniz Bandeira, autor de livros sobre o período. Na época repórter do "Diário de Notícias" carioca, cobriu a campanha eleitoral de Jânio. "Ele manifestava inconformismo por ter de governar dentro dos marcos legais; queria poderes extraordinários", avalia, em entrevista à Folha (leia a íntegra em folha.com/ilustrissima).
Jânio não obteve apoio para voltar com poderes ditatoriais. Desagradava à direita, em razão de sua política externa independente, e à esquerda, que protestava contra a sua política econômica. Autor de "Raízes do Golpe" [Marco Zero, 1988], Almino recorda que a Campanha da Legalidade "levantou o Rio Grande do Sul, com Brizola tendo um apoio fantástico, com o povo nas ruas. O país inteiro acompanhava. Meus pais moravam em Porto Velho e ouviam pelo rádio e me narravam depois".

ONDAS CURTAS O governo federal tinha fechado três rádios por divulgarem os manifestos de Brizola. O governador então mandou transferir para os porões do Piratini os estúdios da rádio Guaíba, com os transmissores protegidos pela Brigada Militar (a PM gaúcha). Outras 15 rádios do país e do exterior se incorporaram à Cadeia da Legalidade. Por ondas curtas, os discursos e despachos eram traduzidos para várias línguas.
No "porão da legalidade" do Piratini, Erika Kramer era uma das poucas mulheres. Tinha 23 anos e estudava jornalismo. Conta que foi incumbida de fazer a redação e a locução em alemão das transmissões da rádio. Filha de imigrantes de Hamburgo, ela aprendera a língua com os pais, que produziam aspargos e frutas em Pelotas. "Fiquei 12 dias fazendo noticiário, na base de cafezinho e sanduíche. Fazíamos pelo civismo", afirma.
A situação ficou mais tensa quando um radioamador interceptou uma mensagem com a ordem de que a Força Aérea e o 3º Exército bombardeassem o Piratini. Ninhos de metralhadoras foram instalados no alto do palácio e na vizinha catedral. Carros, jipes, sacos de areia e bancos defendiam o lugar. O comandante militar da região, general José Machado Lopes, pediu um encontro com Brizola, que de metralhadora em punho, pegou o microfone no porão do palácio e fez um célebre discurso. Alguns trechos:
"Não nos submeteremos a nenhum golpe. Que nos esmaguem. Que nos destruam. Que nos chacinem nesse palácio. Chacinado estará o Brasil com a imposição de uma ditadura contra a vontade de seu povo. Esta rádio será silenciada. O certo é que não será silenciada sem balas. Resistiremos até o fim. A morte é melhor do que a vida sem honra, sem dignidade e sem glória. Podem atirar. Que decolem os jatos. Que atirem os armamentos que tiverem comprado à custa da fome e do sacrifício do povo. Joguem essas armas contra este povo. Já fomos dominados pelos trustes e monopólios norte-americanos. Estaremos aqui para morrer, se necessário. Um dia, nossos filhos e irmãos farão a independência de nosso povo."
O jornalista Bastos, que estava no Piratini, afirma: "Quando Brizola começou a falar, havia umas 5.000 pessoas na praça da Matriz. Cinquenta minutos depois, quando ele acabou, eram mais de 50 mil". A massa esperava a chegada do comandante do 3º Exército.

BRIZOLA Leonel Brizola era filho de pequenos agricultores do interior gaúcho. Seu pai tinha morrido na guerra civil gaúcha de 1923. Pobre, foi engraxate, vendedor de jornais, operário. Chegou a Porto Alegre só com o dinheiro da passagem. Formou-se engenheiro e entrou para a política.
Governador a partir de 1959, ampliou a rede de escolas, fez um programa de moradias populares, encampou empresas estrangeiras (telefonia e eletricidade). Joaquim Felizardo, no seu sintético "A Legalidade, Último Levante Gaúcho" [UFRGS, 1988], chama a atenção para o fato de Brizola ser, naquele momento, um tipo novo de liderança, deixando para trás os tradicionais grandes proprietários de terras e superando o legado de Getulio Vargas.
"O governador era uma espécie de tribuno da plebe", escreve o historiador, ao explicar as razões da adesão popular à Campanha da Legalidade. Citando o historiador Décio Freitas, Felizardo ressalta que os gaúchos estavam incomodados também pelo rearranjo de poder no país: "A crescente hegemonia do capital monopolista instalado no Sudeste solapava as bases tradicionais da economia sul-riograndense e acentuava a desigualdade do desenvolvimento econômico". Alguns mais radicais previam que o Estado viraria um "outro Nordeste".
Nesse contexto, crescia o movimento tradicionalista e a proverbial valentia gaúcha era acalentada. O lema da Revolução de 30 ("Rio Grande, de pé pelo Brasil") valia em 61. Bombachas e chimarrão eram os símbolos daqueles "indignados" de 50 anos atrás. "Brizola foi o último porta-voz dessa referência cultural. Soube apelar para os valores do inconsciente coletivo", analisa Felizardo. Anos mais tarde, Moacyr Scliar captaria as contradições do momento no romance "Mês de Cães Danados - Uma Aventura nos Tempos da Legalidade" [L&PM, 1977]. Na trama vigorosa, a tradicional família gaúcha encara a miséria e a sarjeta. Naquele 61, Erico Verissimo finalizara o seu épico "O Tempo e o Vento".

MILITARES
Na Matriz, os militares chegam para falar com Brizola no palácio. Há quem ache que o governador pode ser preso. O historiador Jorge Ferreira, autor de "João Goulart, uma Biografia" [Civilização Brasileira, 2011], em entrevista à Folha, relata: "Machado Lopes e os generais chegaram num jipe. Nas escadarias do palácio, diante deles, havia cerca de 100 mil pessoas. O silêncio era enorme. Quando eles subiram as escadas (permitindo que a população os visse), alguém começou a cantar o Hino Nacional. Machado Lopes e os generais pararam, viraram-se para o povo, botaram a mão no peito e também cantam o hino. Milhares de pessoas choraram nesse momento" (leia a íntegra em folha.com/ilustrissima).
No palácio, Machado Lopes comunica oficialmente a Brizola que os generais do 3º Exército "decidiram, por maioria de votos, que só aceitam a solução para a crise dentro da Constituição; por conseguinte, com a posse do vice-presidente". O 3º Exército aderia à legalidade e desafiava a junta militar golpista. Lá fora, a multidão festeja.
Aos 61 anos, Machado Lopes comandava a maior força militar brasileira: 120 mil homens no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, anotam os jornalistas Paulo Markun e Duda Hamilton na detalhada narrativa de "61, Que As Armas Não Falem" [Senac, 2001]. O general não era um esquerdista infiltrado: ao contrário, foi um opositor do tenentismo, da Coluna Prestes e lutara contra os comunistas em 1935.
Moniz Bandeira aponta a existência de distintas tendências nas Forças Armadas, com maioria para os legalistas. Para ele, a Guerra Fria alterou o quadro: "Os EUA modificaram sua estratégia e passaram a incentivar a participação dos militares na política interna de seus países." O objetivo era conter o avanço do comunismo. "Na Campanha da Legalidade, pela primeira vez a cisão nas Forças Armadas se expressou publicamente".
"1961 foi um desastre para o Exército", resumiu Golbery do Couto e Silva, ideólogo da ditadura, citado por Amir Labaki em "1961, A Crise da Renúncia e A Solução Parlamentarista" [Brasiliense, 1986].
Nelson Werneck Sodré, no seu "História Militar do Brasil" [Expressão Popular, 2010], enfatiza o ineditismo da resistência de Brizola. "Pela primeira vez, pagava-se para ver. Os golpistas precisavam enveredar para a luta ou recuar. Ora, golpe em recuo não existe", constata. A junta tentou começar a armar o seu esquema, mas a coisa degringolou. "Começaram a surgir as resistências, as dissensões, as negativas, culminando com generalizada desobediência."
AVIÕES Foi o que aconteceu na Base Aérea de Canoas, nos arredores de Porto Alegre, cujo comandante era fiel à junta golpista. Lá, os sargentos se rebelaram, esvaziaram os pneus dos jatos, desarmaram os aviões e se deram as mãos na pista de decolagem, formando uma barreira humana a impedir a saída dos voos para o bombardeio ao palácio.
Porto Alegre tinha 635 mil habitantes; em apenas cinco dias, 45 mil deles se inscreveram para participar da resistência e entraram em filas para receber armas e treinamento. Um antigo arsenal da Brigada, comprado no início dos anos 30 para um eventual confronto com Getulio, foi distribuído. "Brizola armou a população em Porto Alegre. No interior, o trabalho foi feito pelos Centros de Tradições Gaúchas, com armas artesanais, como lanças e facões", diz o historiador Ferreira, emendando: "É interessante que, ao final da crise, todos os que receberam as armas as devolveram".
Emílio Neme, 85, que era então subchefe da casa militar de Brizola, fala à Folha. "Fui à fábrica da Taurus e requisitei 300 revólveres para distribuir para os que estavam no palácio." Hoje, reconhece: "Fiz coisa errada. Não pedi os revólveres de volta. Ficaram de recordação para as pessoas".
Havia comitês de apoio de estudantes, bancários, intelectuais, ferroviários, artistas. Tradicionais rivais, Grêmio e Internacional suspenderam o jogo de domingo e declararam apoio à campanha. Para Sereno Chaise, 83, que era líder do PTB na Assembleia Legislativa, a legalidade foi o movimento cívico que produziu a maior unidade na história do Sul.
Em "Vozes da Legalidade" [Sulina, 2011], Juremir Machado da Silva mostra que a campanha até hino teve, composto "no improviso, no calor do combate" pelo ator Paulo César Pereio e pela escritora Lara de Lemos, com melodia que misturava a Marselhesa e o hino brasileiro. A inspiração não foi intencional, lembra ele, que na época tinha 20 anos e fazia parte do comitê de resistência democrática do grupo Teatro de Equipe. "Era muito heroísmo", disse Pereio à Folha.

JANGO Enquanto isso, Goulart fazia sua viagem de volta da China, passando por Paris, Nova York, Lima, Buenos Aires, Montevidéu. "Jango", filme de 1984 de Silvio Tendler, começa com imagens curiosas da visita ao presidente Mao e mostra o desenrolar da crise, que desaguaria no golpe de 64.
Em 61, no epicentro das negociações em torno do parlamentarismo, estava Almino Affonso, contrário à mudança. "Chamei de golpe branco, porque a Constituição não poderia ser emendada num clima de convulsão política. Era ilegal." Mas, no próprio PTB, surgiram os apoiadores à tese de acomodação. A saída negociada foi acertada por Tancredo Neves, futuro primeiro-ministro, conversando com Jango em Montevidéu.
Para a capital uruguaia, com um grupo de jornalistas, foi Lucídio Castelo Branco. Tinha 23 anos e queria entrevistar Jango. "Ele me chamou por volta da meia-noite e disse que, a partir daquele momento, eu ia ser o seu secretário de imprensa e que precisava comunicar que não haveria entrevista. Quase apanho dos colegas", diz.
Com Jango, embarcou para Porto Alegre num Caravelle da Varig e viveu momentos de pavor. "O comandante disse que o voo era de emergência, viajava na escuridão completa. Na descida, embicou de um jeito que eu morri de medo. Fiquei apalermado. Só consegui sair do avião 15 minutos depois do pouso."
No Piratini, por imposição de Tancredo, Jango não discursa. Como faria em 1964, evita o confronto e o risco de guerra civil. Num misto de vitória e frustração, a multidão vaia um Jango silencioso.
Brizola ainda pede que Jango não aceite o parlamentarismo e marche com o 3º Exército até Brasília. Em entrevista a Markun e Hamilton, em 2001, Brizola asseverou: "Nós venceríamos facilmente. Tropas do Sul se juntariam a outras por toda parte. A resistência seria localizada num nucleozinho. Seria uma marcha vitoriosa para uma mudança no país".
Moniz Bandeira discorda: "A marcha sobre Brasília não seria simples passeata. Haveria luta armada. Carlos Lacerda, governador [do então Estado] da Guanabara, tinha apoio militar e estava envolvido no golpe". Almino, que agora escreve outro livro sobre o período ("João Goulart, Uma Revisão da História"), defendeu, naquele momento, a marcha, assim como Brizola. Hoje, pensa diferente. "Acho que Jango teve um gesto de grandeza. Tinha legitimidade para assumir, mas não queria sangue. Acho isso nobre."
O jornalista Jayme Keunecke, então com 26 anos, acompanhou Goulart na volta a Brasília. À Folha, recorda o temor de que uma chamada "operação mosquito", de militares golpistas, derrubasse o Caravelle da Varig. Mas o voo foi tranquilo. "Jango fumava muito e tomava muito chimarrão", lembra o repórter.

LEGADO Ministro da Defesa do governo Lula, Waldir Pires, 84, era deputado naqueles tempos tumultuados. Para ele, "o grande legado da legalidade foi o impedimento do golpe. Mas a lição não foi aprendida, porque depois houve 1964. O golpe foi simplesmente adiado".Pires conecta a tentativa de golpe de 61 com a de 55, uma tentativa de impedir a posse de JK. "Brizola foi em 61 o que [Henrique] Lott foi em 55", compara.
Já Almino pensa que não se deve avaliar o episódio como apenas um veto dos militares a Jango. Para ele, Goulart no poder significava "a volta do Getulio de 1950", e "muitas lideranças militares eram contra o monopólio estatal do petróleo e queriam maior participação do capital internacional".
"Ainda estávamos numa etapa democrática muito pobre", afirma Almino. Em contraponto, Ferreira argumenta que o legado do movimento foi mostrar que a sociedade era apegada à democracia. "A junta militar apertou o botão do golpe, mas a sociedade reagiu e não concordou. Golpes não dependem da vontade de generais; exigem apoio social", declara.
Naqueles dias, o governador de Goiás, Mauro Borges, aderiu à campanha. Várias entidades civis pelo Brasil também apoiaram. Uma mobilização que, para Almino, reapareceu nas "Diretas-Já", em 1984. Mas ele desabafa: "Minha tristeza é que não acho que tenhamos evoluído tanto. Apesar da retomada democrática, os partidos, sem exceção, não têm democracia interna e militância política. São caudilhos com nomes diferentes".
Na praça da Matriz, em setembro de 61, a chuva dispersou a multidão. O "porão da legalidade" foi desativado. Agora, 50 anos depois, vai virar museu.

No RS, Brizola resiste à investida militar com metralhadora e microfone em mãos, transmitindo pelo rádio discursos contra os golpistas

A situação ficou mais tensa quando um radioamador interceptou uma mensagem com a ordem de bombardear o Palácio Piratini

"Pela primeira vez, pagava-se para ver. Os golpistas precisavam enveredar para a luta ou recuar", observou em livro Nelson Werneck Sodré

"Apesar da retomada democrática, os partidos não têm democracia interna e militância política. São caudilhos com nomes diferentes" - Almino Affonso

Time quer ter todos os títulos em tablet

MÍDIA
O grupo quer lançar as versões adaptadas para as 21 publicações até o fim de 2011. A empresa seria a primeira a colocar todo o portfólio disponível para usuários dos aparelhos móveis. Até hoje, o grupo Time já registrou 11 milhões de downloads das revistas digitais e outros aplicativos.

Ícone da direita americana aumentou gasto

Presidência de Obama tem percentual de despesas do PIB similar ao do ex-presidente republicano Ronald Reagan

Gasto alto é praticado por presidentes dos dois partidos que se alternam no poder; deficit é raiz de crise


LUCIANA COELHO
DE WASHINGTON
CLAUDIA ANTUNES
DO RIO

Evocar Ronald Reagan (1911-2004) é o grande clichê do debate da dívida americana -tanto pré-pacote fiscal, quando o medo era um calote, quanto hoje, quando se teme a recessão. Nem Reagan, porém, encolheu tanto o Estado como o atual movimento conservador defende.
O ex-presidente republicano -que deu nome a um modelo de governo fiscalmente enxuto e socialmente conservador- chegou a gastar 23,5% do PIB no auge da crise do início dos anos 80.
É mais do que qualquer outro presidente pós-Segunda Guerra e próximo dos gastos do governo Barack Obama em 2009 e 2010, quando o democrata foi obrigado a socorrer instituições financeiras.
"Boa parte do movimento conservador e o partido republicano hoje se moveram significativamente à direita de Reagan", disse a Folha Alexander Keyssar, historiador em Harvard.
Foi essa transição gradual, iniciada nos anos 1970, que pariu neste século o Tea Party, grupo que obstruiu a elevação do teto da dívida em nome do combate ao gasto público e aos impostos.
Na encarnação original, o movimento conservador se apoiou em mudanças socioeconômicas e numa bem articulada batalha ideológica, alimentada pelo clima de mal-estar que tomava o país: derrota no Vietnã, impeachment de Richard Nixon e surtos recessivos com choques do petróleo em 1973 e 1979.
A disseminar suas ideias estava uma rede de novos centros de estudos, entre eles a Fundação Heritage (1973) e o Cato Institute (1977), até hoje influentes na política e no embate retórico.
Essa onda impulsionou a eleição, em 1980, de Reagan. O republicano, contudo, é visto como moderado diante da atual bancada do partido no Congresso -embora esta o evoque como padrinho.
Eleito aos 69 anos, Reagan "era velho o suficiente para ter memória da Grande Depressão dos anos 30 e do papel central que o governo tinha a desempenhar", afirma Keyssar.

CORTES PARA RICOS
Sem reduzir significativamente a carga tributária, Reagan de fato a tornou menos progressiva, cortando impostos dos mais ricos e de empresas, alegando que isso beneficiaria, na forma de investimentos, camadas menos afluentes -lógica evocada por Bush filho em 2001.
Ao mesmo tempo, porém, aumentou o gasto público para conter a recessão (quedas do PIB de 0,3% em 1980 e 1,9% em 1982) e para relançar a corrida armamentista contra a União Soviética.
Sob Reagan, o deficit orçamentário foi a 6% em 1983, outro recorde em 37 anos (hoje está em quase 9%). Além disso, sua agenda inicial acabou matizada pela falta de maioria na Câmara dos Deputados, dominada na época pelos democratas.
Embora tenha chegado, em sua carreira pregressa em Hollywood, a presidir o sindicato dos atores, Reagan deixou na esquerda o trauma de derrotar a greve dos controladores de voo, em 1981.
Estudiosos como Joseph McCartin, da Universidade de Georgetown, afirmam que o episódio contribuiu para acentuar a queda da sindicalização nos EUA, provocada também pela diminuição do emprego industrial.
A proporção de sindicalizados entre os trabalhadores foi de 20,1% em 1983 para 11,9% -redução associada a estagnação da renda familiar e concentração da riqueza. Em 2008, a concentração foi a níveis pré-New Deal (plano anticrise dos anos 30), com o 0,1% no topo acumulando 10,4% da riqueza, quatro vezes mais do que há 40 anos.
O resultado foi a bolha de crédito podre que estourou com a falência do banco Lehman Brothers, como explica o economista Robert Wade, da London School of Economics: "A tendência de subconsumo foi contrabalançada por uma grande expansão do crédito, gestada pelos sistemas financeiros doméstico e internacional".

Credora, China cobra a 'cura' dos EUA

Um dia depois do rebaixamento da dívida americana pela S&P, Pequim pede que Washington se 'livre da bagunça'

País possui US$ 1,2 trilhão em títulos da dívida americana e teme que investimento seja desvalorizado


ÁLVARO FAGUNDES
DE NOVA YORK

Maior credor externo dos EUA, a China disse que o governo americano deve "curar seu vício em dívida" depois que a agência Standard & Poor's rebaixou, anteontem, a nota dos títulos da maior economia global.
"Os EUA precisam aprender a conviver com o fato doloroso de que chegaram ao fim os velhos bons tempos em que podiam pegar dinheiro emprestado para se livrar da própria bagunça", diz o editorial da agência oficial Xinhua, em recado acima do tom normal na relação.
A China tem US$ 1,2 trilhão em títulos da dívida americana e teme que seu investimento se desvalorize com a perda do grau máximo de segurança dos papéis pela Standard & Poor's. As outras duas grandes agências de avaliação, Fitch e Moody's, mantêm os EUA no degrau mais alto.
Os chineses também defenderam "supervisão internacional" do dólar e a opção de uma "nova e estável moeda global", sem citar qual seria, para evitar "catástrofes causadas por um só país".
Apesar do tom, é improvável que a China se desfaça fortemente dos papéis americanos porque não há outra alternativa tão líquida na economia mundial e outras grandes economias que poderiam receber o investimento também estão com problemas.
A medida da agência não só afeta a China como eleva os temores de que os EUA mergulhem em nova dose de recessão, num momento em que sua retomada dá claros sinais de enfraquecimento.
"A consequência da decisão da S&P é que ela vai forçar o sistema político a gastar menos e antecipar a austeridade fiscal. A recessão vai se tornar mais provável e mais severa", disse o economista Nouriel Roubini na TV.
Antes mesmo do corte da nota, Roubini, um dos primeiros a prever a atual crise, disse que os EUA têm mais de 50% de chance de entrar novamente em recessão. Segundo ele, os problemas também se acumulam na Europa e, em menor grau, nos emergentes.
Para Mohamed El-Erian, presidente-executivo da Pimco (um dos maiores fundos globais), os custos do crédito para o consumidor americano vão subir. "O espírito animal, já ferido pelo desastre do teto da dívida, será machucado novamente, constituindo mais uma dificuldade para a geração de investimentos e empregos", escreveu em artigo no "Financial Times".
Além disso, os investidores podem derrubar ainda mais os papéis amanhã, quando as Bolsas reabrirem (a de Nova York acabou de ter a pior semana desde outubro de 2008). Consequentemente, retiram confiança e poder de compra do consumidor americano, o principal motor da economia, que é responsável por cerca de 70% do PIB.
A economia também é um problema para os planos de reeleição do presidente Barack Obama em 2012. Em seu programa semanal, ontem, Obama cobrou que o Congresso deixe as diferenças de lado e aprove medidas para acelerar a criação de empregos. O programa foi gravado antes do rebaixamento.
O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, respondeu ontem ao anúncio da S&P dizendo que os congressistas precisam se unir para fortalecer a economia e melhorar a situação fiscal dos EUA.

Funai pressiona e Câmara esvazia projeto de combate ao infanticídio

Mudança elimina possibilidade de processar servidores por omissão de socorro em aldeias

Prática de abandonar ou enterrar bebês resistiria em cerca de 20 etnias; governo federal não se manifesta sobre o tema


Fotos Lula Marques/Folhapress
A índia Iganani, que virou símbolo da disputa no Congresso

BERNARDO MELLO FRANCO
ENVIADO ESPECIAL A BRASÍLIA

Sob pressão do governo, a Câmara esvaziou um projeto de lei que previa levar ao banco dos réus agentes de saúde e da Funai (Fundação Nacional do Índio) considerados "omissos" em casos de infanticídio em aldeias.
A prática de enterrar crianças vivas, ou abandoná-las na floresta, persistiria até hoje em cerca de 20 etnias brasileiras. Os bebês são escolhidos para morrer por diversos motivos, desde nascer com deficiência física a ser gêmeo ou filho de mãe solteira.
A Funai se nega a comentar o assunto. Nos bastidores, operou para enfraquecer o texto com o argumento de que ele criaria uma interferência indevida e reforçaria o preconceito contra os índios.
Do outro lado da discussão, ONGs e deputados evangélicos acusam o governo de cruzar os braços diante da morte de crianças e defendem que o Estado seja obrigado por lei a protegê-las.
A polêmica chegou ao Congresso em 2007, quando o deputado Henrique Afonso (PV-AC) apresentou projeto que previa punir servidores que não tomem "medidas cabíveis" para impedir o ritual.
Eles responderiam por crime de omissão de socorro, cuja pena varia de multa a prisão por até um ano. O texto ainda classificava o "homicídio de recém-nascidos" como uma "prática nociva".
Antropólogos, indigenistas e assessores da Funai pressionaram a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, que adiou a votação da proposta por quatro anos.
Em junho, os deputados decidiram substitui-la por uma versão alternativa da relatora Janete Pietá (PT-SP), que seguiu para a Comissão de Constituição e Justiça e pode ser transformada em lei até o fim do ano.
O novo projeto elimina todos os pontos controversos e descarta a possibilidade de processar autoridades ou servidores pela morte de crianças nas aldeias.
Em lugar de punições, diz que o governo deve oferecer "oportunidades adequadas aos povos indígenas de adquirir conhecimento sobre a sociedade em seu conjunto" em casos de infanticídio, estupro e maus-tratos.
"O texto ficou muito fraco. Vai permitir que o governo continue omisso diante dessas mortes", diz Márcia Suzuki, da ONG Atini, que acolhe mães que fugiram de suas aldeias para proteger os filhos (leia texto abaixo).
"As tradições dos povos indígenas devem ser respeitadas, mas o direito à vida é um valor universal e garantido pela Constituição", afirma o deputado Henrique Afonso.

AUTONOMIAResponsável pelas mudanças, Janete Pietá diz ter atuado em defesa da autonomia dos povos indígenas.
"Não precisamos de lei, e sim de convencimento. Em vez de penalizar, devemos conversar com as mulheres e fazer campanhas educativas", afirma a deputada.
"A tradição de sacrificar crianças é mantida por poucas comunidades. O Brasil tem mais de 200 povos indígenas. Se isso ainda ocorrer em 20, são apenas 10%."
O Conselho Indigenista Missionário, da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), também pressionou contra o projeto original.
Segundo o secretário-adjunto do órgão, Saulo Feitosa, a prática seria "residual".
"Ninguém defende o infanticídio, mas não podemos aceitar que vendam uma imagem de que todos os índios são selvagens e sacrificam suas crianças."
As autoridades evitam emitir posição oficial ou mesmo divulgar dados sobre o infanticídio nas aldeias.
A Funai informou que não se manifestaria e negou pedido de entrevista com o presidente Márcio Meira.
A Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde, criada em outubro de 2010, respondeu que o tema não cabe a ela e afirmou não ter nenhum levantamento sobre as causas da mortalidade infantil de índios.

ONG acolhe índias que fugiram para poupar crianças

DO ENVIADO A BRASÍLIA

Muwaji Suruwahá, 33, fala poucas palavras em português e vive alheia à discussão sobre o infanticídio em aldeias indígenas. Mesmo assim, foi transformada em símbolo da disputa que, há quatro anos, opõe evangélicos e governo no Congresso.
Chamado de lei Muwaji, o projeto que responsabiliza agentes públicos pela morte de recém-nascidos é inspirado na história dela e da filha Iganani, 8, que nasceu com paralisia cerebral.
Em 2005, a índia deixou sua tribo para evitar que a menina fosse sacrificada, como prevê a tradição de sua comunidade.
Elas vivem hoje na sede da ONG Atini, nos arredores de Brasília. A organização foi fundada por Márcia Suzuki, uma missionária metodista que acusa o governo de negligência com a prática.
"A Funai afirma que a interferência é sempre negativa, mesmo que as crianças estejam em risco. Nós acreditamos que respeitar os índios também significa respeitar e proteger a vida deles", diz.
A tese é contestada pela Associação Brasileira de Antropologia, que acusa os ativistas de repetir métodos dos colonizadores portugueses.
"Tirar índios de suas aldeias para criá-los sob a ética cristã é uma interferência violenta, não um projeto humanitário", diz João Pacheco de Oliveira, dirigente da entidade e professor da UFRJ.
A Atini abriga 12 famílias, que recebem mantimentos e cuidados médicos, e diz ser mantida por doações. A ONG nega vinculação a igrejas, embora os evangélicos sejam maioria entre os voluntários.
Em 2010, a Funai processou outra entidade evangélica, a Jocum (Jovens Com Uma Missão), pela exibição de um suposto documentário sobre o infanticídio.
A Justiça Federal determinou a retirada do vídeo do YouTube por entender que ele incitava o preconceito e causava dano à imagem dos índios sem provar as mortes.

Marcha a ré do MST

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Um sinal inquestionável do declínio político do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da perda de sua capacidade de mobilização está nas cifras que antes eram o orgulho da organização: entre 2003 e 2010, o número de acampados passou de 59 mil famílias para cerca de 3.500.
Nos termos do vocabulário leninista que alimenta o delírio autoritário de seus líderes, é possível dizer que a "vanguarda de luta" do MST corre risco de fenecer.
Arauto de uma utopia regressiva, inimigo do agronegócio e da geração de riqueza no campo, o MST vem sendo derrotado por avanços simultâneos na economia, na sociedade e na política.
Apesar de tentativas frustradas, na década de 1990, de cooptar desempregados urbanos, a principal fonte de recrutas nunca deixou de estar no meio rural, entre os trabalhadores pobres do campo.
Para esse grupo, entretanto, a simples migração para a cidade continuou a representar alternativa mais promissora do que a adesão a uma organização semiclandestina. Entre os que permaneceram ligados à terra, contínuas conquistas sociais contribuíram para mantê-los afastados do MST.
À aposentadoria rural, que garantiu renda aos mais pobres, somaram-se, na última década, as transferências do Bolsa Família. O aumento do emprego, no campo e na cidade, ampliou-lhes a perspectiva de melhoria de vida, mas conquistada de forma autônoma, não pelos currais de esquerda.
Enfrentando dificuldades para arregimentar novos militantes, o MST se viu ainda esvaziado, paradoxalmente, pelo assentamento de famílias e pela regularização fundiária nos governos de Fernando Henrique Cardoso e de Luiz Inácio Lula da Silva.
As consequências políticas da conquista de alguma estabilidade econômica pela população mais pobre do meio rural e de sua inclusão no universo do consumo reforçaram o vínculo desses cidadãos com o status quo e os afastaram de alternativas autoritárias.
Em marcha inexorável, o movimento encolhe. Reverte ao núcleo do que nunca deixou de ser: um grupo de cristãos de esquerda adepto de ações criminosas, como invasão e destruição de propriedades, e hábil na mobilização de excluídos para exercer pressão sobre o Estado e extorquir-lhe os recursos -desapropriações e verbas- que mantêm o movimento artificialmente vivo.

Relaxamento nos EUA

Editoriais
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Risco de tombo da economia americana em nova recessão reacende especulações sobre terceira rodada de injeção de dinheiro público nos bancos

Na semana em que governo e Congresso dos EUA chegaram a um acordo a respeito da dívida, soube-se que o ritmo da economia era bem menor que o imaginado, no entanto já medíocre. A Europa nublou ainda mais o ambiente com notícias do risco de insolvência da Itália e de crise bancária.
O acordo sobre a dívida americana consolidou a percepção de que não haverá novo estímulo na forma de mais gastos. Em breve, virão cortes de despesas.
Previa-se até junho que os EUA cresceriam 2,5% neste ano; agora, estima-se que o PIB subirá apenas 1,5%. Um choque adverso pode lançar o país em nova recessão.
Dado tal cenário, renova-se a especulação sobre nova rodada de estímulo econômico pela via monetária, a cargo do banco central dos EUA, o Fed. O mais recente programa de relaxamento monetário começou em novembro de 2010. Era resposta à desaceleração de meados do ano passado. O programa, "quantitative easing 2" (QE2), acabou em junho passado.
Por meio desses programas, o Fed compra títulos de dívida privada ou da dívida pública americana. Grosso modo, injeta dinheiro nos bancos e, assim, procura reduzir as taxas de juros. No QE2, o Fed comprou títulos da dívida de longo prazo a fim de baixar seus juros (a taxa de curto prazo já é zero, ou negativa, em termos reais).
Os juros de longo prazo baixaram, de fato. Embora possa ter evitado dano maior, o QE2 mal estimulou empréstimos. Bancos relutam em emprestar; famílias endividadas ou receosas evitam tomar emprestado; as empresas estão com os caixas cheios.
Em junho, integrantes do Fed chegaram a aventar a possibilidade de um QE3, caso a lentidão econômica impedisse a queda do desemprego e a inflação baixasse.
Números do desemprego divulgados na sexta-feira indicam que a economia nem está em colapso, como se temia semana passada, nem é capaz de criar empregos.
Um QE3 seria útil? Em primeiro lugar, demoraria meses para fazer efeito, se algum. Tende a elevar a inflação, o que não é tão ruim, dado o risco ainda pior de deflação.
Mas pode contribuir para elevar o preço de ativos de risco e commodities (petróleo e recursos naturais, alimentos inclusive). Deve incrementar o risco de criação de bolhas e desordem econômica (como a alta do real, no Brasil).
O Fed ainda parece esperar para ver se a desaceleração deveu-se mais a fatores transitórios (terremoto no Japão, combustíveis caros, Europa) do que a uma deterioração fundamental da economia, que, em parte, de fato ocorreu.
O rebaixamento da nota de crédito nos EUA e o risco de novos choques, como o colapso na Europa, podem exigir ação mais imediata. O país está à beira de perder o equilíbrio e tombar de novo na recessão.

EUA WASP

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Obama aos 50 anos

KENNETH MAXWELL

Hoje é o 50º aniversário de Barack Obama. A comemoração foi iniciada na noite de ontem, com concerto, jantar e evento de arrecadação de fundos, no histórico salão Aragon, em Chicago.
O Aragon Ballroom foi construído em 1926, com arquitetura no estilo mourisco. Seu interior lembrava uma aldeia espanhola, e o salão cujo nome celebra uma região da Espanha foi um grande sucesso no início dos anos 1930.
Reza a lenda que túneis secretos o conectavam ao Green Mill Bar, um reduto alcoólico da era da Lei Seca frequentado por Al Capone, o mais famoso gângster de Chicago.
No final dos anos 1960, quando morei em Chicago, o Aragon Ballroom havia-se tornado local dos maiores shows de rock, e era notório pelos frequentadores desordeiros.
Nos anos 1970, sob novos proprietários de etnia latina, a casa passou a promover shows e bailes para hispânicos, bem como ocasionais lutas de boxe.
Para Obama, uma festa de aniversário no Aragon Ballroom representa um retorno às "raízes". Mas a história de Obama em Chicago é, de certa maneira, problemática.
Em larga medida, ignora seus anos de infância passados no Havaí e na Indonésia, o papel de seus avós brancos e seus anos de estudo no Occidental College, em Los Angeles, e na Universidade Columbia, em Nova York.
Mas, então, o que Obama decide enfatizar sobre seu passado tende a ser político. Seus anos de trabalho em Chicago como ativista social e, depois, professor de direito e político, assim como suas atividades na Escola de Direito da Universidade Harvard e o papel de sua mulher e filhas, receberam muito mais ênfase.
Mas a verdade é que a semana não foi boa para Obama.
Seu 50º aniversário vem logo depois de um acordo de último minuto no Congresso para elevar o limite da dívida federal norte-americana, ou seja, o montante máximo de dívida que o governo pode acumular para pagar suas contas.
Mas o acordo surgiu à custa de grandes cortes futuros no deficit e sem aumento concomitante de impostos, e veio com a criação de uma comissão legislativa, formada por membros da Câmara e do Senado, que recomendará novos cortes de gastos antes do final deste ano, que terão de ser votados sem emendas.
Quase todos os pré-candidatos republicanos à Presidência norte-americana se opuseram ao acordo. Mesmo os democratas que votaram a favor acreditam que representa grande derrota para Obama.
Na verdade, o acordo foi uma vitória para os membros da direita mais extrema do movimento Tea Party, que se mostraram completamente indispostos a aceitar compromissos. Não é o mais feliz dos aniversários para Obama.


KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.
Tradução de PAULO MIGLIACCI

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Sarney agora defende fim de sigilo eterno

DITADURA

Depois de defender o sigilo eterno sobre documentos ultrassecretos do governo, o senador José Sarney (PMDB-AP) disse ontem ser favorável ao prazo de 50 anos para o fim do sigilo. O presidente do Senado afirmou que apoia o projeto aprovado pela Câmara, mas que deve ser prerrogativa de uma comissão especial determinar quando os documentos vão ser abertos.
"Sigilo eterno não existe. Essa limitação vai a 50 anos, é um prazo razoável", afirmou.

Brasil é o 2º país com mais mortes de jornalistas na América Latina

IMPRENSA

DE SÃO PAULO - O Brasil está em segundo lugar, empatado com Honduras, no ranking de jornalistas assassinados na América Latina neste ano, divulgado pela SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa).
A cinco meses do fim do ano, 2011 tem mais mortes de jornalistas no continente em duas décadas, diz a SIP. Foram 19 nesse período.
Os quatro jornalistas brasileiros citados no relatório são Luciano Leitão Pedrosa (morto em Pernambuco, em abril), Valério Nascimento (interior do Rio, em maio), Edinaldo Filgueira (Rio Grande do Norte, em junho) e Auro Ida (Mato Grosso, no mês passado).
Os números levam em conta só os crimes ligados ao exercício da atividade jornalística.
O líder na lista de homicídios é o México, onde houve cinco assassinatos de jornalistas neste ano em meio a violentos conflitos nas regiões dominadas pelo tráfico.
Em entrevista em Miami (EUA), os diretores da SIP expressaram "estado de alerta e preocupação" pelas mortes. A entidade criticou a "perseguição judicial" aos jornalistas e citou o Brasil como um dos países em que a prática ocorre.

Os EUA iam acabar em 1861

ELIO GASPARI




Há mais de 200 anos, quem acaba são seus adversários, como a escravidão, o fascismo e o comunismo


Os Estados Unidos iam acabar. Não nesta semana, mas há exatos 150 anos, depois que as tropas do Sul venceram em Manassas a primeira grande batalha da Guerra Civil. Grandes políticos ingleses, bem como "The Economist" e "The Times" (pré-Murdoch), achavam que o presidente Lincoln forçara a mão com o Sul. Quatro anos e 620 mil mortos depois, a União foi preservada e acabou-se a escravidão.
Passou pouco mais de meio século e, de novo, os Estados Unidos iam acabar. A Depressão desempregou 25% de sua mão de obra e contraiu a produção do país em 47%. A crise transformou fascismo e nazismo em poderosas utopias reacionárias. De Henry Ford a Cole Porter, muita gente se encantou com o ditador italiano Benito Mussolini. Dezesseis anos depois, as tropas americanas entraram em Roma, Berlim e Tóquio.
Em 1961, quando os soviéticos mostraram Yuri Gagarin voando em órbita sobre a Terra, voltou-se a pensar que os Estados Unidos iam se acabar. Em 1989, acabou-se o comunismo.
A decadência americana foi decretada novamente em 1971, quando Richard Nixon desvalorizou o dólar, ou em 1975, quando suas tropas deixaram o Vietnã. O dólar continua sendo a moeda do mundo, inclusive para os vietnamitas.
A última agonia, provocada pela exigência constitucional da aprovação, pelo Congresso, do teto da dívida do país, foi uma crise séria, porém apenas uma crise parlamentar. Para o bem de todos e felicidade geral das nações, não só os Estados Unidos não se acabam, mas o que se acaba são os modelos que se opõem ao seu sistema de organização social e política.
No cenário de hoje, o ocaso americano coincidiria com a alvorada de progresso e eficácia da China. Lá, o teto da dívida jamais será um problema. Basta que o governo decida. Como lá quem decide é o governo, nos últimos cem anos o Império do Meio passou por dois períodos de fome que geraram episódios de antropofagia. Hoje a China não tem os problemas dos Estados Unidos, afinal, nem desastre de trem pode ser discutido pela população.
Guardadas as proporções, o sistema político brasileiro seria melhor que o americano, porque não haveria aqui a crise parlamentar provocada pelo teto da dívida. Se houvesse, o Brasil não teria quebrado nos anos 80 por ter tomado empréstimos dos banqueiros que ajudaram a criar a encrenca que hoje atormenta Washington.
Aquilo que parece uma crise da decadência é uma simples e saudável manifestação do regime democrático. Quando os negros americanos foram para as ruas, marchando em paz ou queimando quarteirões, também temeu-se pelo futuro do país. O que acabou foi a segregação racial.
Se hoje há uma crise nos Estados Unidos, ela não está nas bancadas republicanas ou mesmo na influência parlamentar do movimento Tea Party. Eles defendem o que julgam ser o melhor caminho para o país. A crise está em outro lugar, na negação, por um tipo de conservadorismo extremado, dos valores que fizeram da nação americana o que ela é. Quando o governo Bush sequestrou suspeitos pelo mundo afora, levando-os para centros de tortura, e viu-se obrigado a soltar alguns deles porque não eram o que se pensava, aí sim, os Estados Unidos estavam em perigo.