domingo, 31 de julho de 2011

O negreiro e a letra morta

HISTÓRIA

Como a lei que tentou proibir o tráfico, há 180 anos, foi só "para inglês ver"

RESUMO

Em 1831, sob pressão inglesa, o Brasil aprovou lei para proibir o tráfico negreiro, que, no entanto, ainda vicejou por décadas no país, sob os auspícios de cafeicultores, traficantes e do Estado. No Brasil, em Cuba, nos EUA e no Haiti, o comércio de escravos prosperou, simbolizado pelo navio negreiro, misto de feitoria e prisão.





ELEONORA DE LUCENA
ilustração BRUNO DUNLEY

O Brasil foi o campeão mundial da escravidão moderna, a dolorosa base de construção do capitalismo. Na véspera da Independência, em 1820, dois terços da população eram de escravos; de 1790 a 1830, eles representaram dois terços de todas as importações brasileiras.
Só nesse período, desembarcaram no Rio 700 mil africanos. Em 1840, mais escravos foram traficados no mercado do Valongo --cujas ruínas foram descobertas no início deste ano, durante as obras no porto carioca-- do que em todos os mercados de Nova Orleans juntos. O Rio de Janeiro foi a maior cidade escravista do mundo desde a Roma antiga.
Neste ano se completam 180 anos da lei que proibiu o tráfico de escravos. Letra morta, ela passou para os livros como a que foi feita para "inglês ver" e virou expressão nacional.
Quatro novos livros, de historiadores brasileiros e norte-americanos, cruzam as histórias de Brasil, EUA e Cuba para dissecar essa história violenta. Mostram um mundo em transformação, no qual os interesses da acumulação capitalista entram em conflito com as insurreições e as contradições da formação do mercado consumidor.
As batalhas ocorreram nos mares, nos rios africanos, nos parlamentos, nas senzalas e nos jornais; entre seus pontos cruciais estão o movimento abolicionista, a revolta que criou o Haiti, os canhões ingleses e a guerra civil nos EUA.

NAVIO Um dos lançamentos mais interessantes é "O Navio Negreiro - Uma História Humana", de Marcus Rediker [trad. Luciano Machado, Companhia das Letras, 464 págs., R$ 64]. Professor de história marítima da Universidade de Pittsburg (EUA), Rediker mescla cifras, análise política e depoimentos de atores do que foi a maior migração forçada da história.
Nos 400 anos de história do tráfico (do fim do século 15 ao fim do século 19), Rediker contabiliza 12,4 milhões de embarcados em navios negreiros. Destes, 1,8 milhão morreu durante a viagem e foi jogado ao mar.
O rigor com as estatísticas não esconde os dramas por trás delas, como o caso do navio Zong, que, em 1781, levava 470 escravos para a Jamaica quando uma doença se espalhou, matando 60 africanos e sete tripulantes.
O capitão Luke Collingwood calculou: se os escravos tivessem morte natural, a perda seria dos traficantes; se fossem jogados ao mar, o prejuízo seria da seguradora. Não hesitou: atirou ao mar 122 cativos; dez se suicidaram. O caso foi parar na Justiça e atiçou o abolicionismo.
Rediker ancora a narrativa no navio: sua construção (por mãos escravas), sua tecnologia (das mais avançadas), sua tripulação (jovens pobres endividados), seu comando (despótico e cruel), sua carga (amontoada), sua rotina (doenças, motins, estupros, suicídios, assassinatos). Não raro, tubarões seguiam as embarcações atrás de cadáveres.
Não é uma leitura leve, admite o próprio autor. Às vezes faz lembrar "Coração das Trevas", de Joseph Conrad (1857-1924), ou evoca a imagem da instalação de Emanoel Araújo sobre um navio negreiro exposta no Museu AfroBrasil, em São Paulo.

DESESPERO Dicky Sam, pseudônimo de um escritor de Liverpool --base britânica do tráfico e palco de revoltas--, descreveu assim o negreiro: "O capitão brutaliza os homens, os homens torturam os escravos, o coração dos escravos se afoga em desespero".
Rediker enfatiza que o navio negreiro foi uma peça fundamental para a ascensão do capitalismo. Ajudou a tomar terras e a expropriar milhares de pessoas, deslocando-as para explorar minas de ouro e prata, cultivar tabaco e cana-de-açúcar. Também foi vital para o desenvolvimento do comércio de longa distância e para a acumulação de riquezas e de capitais de forma inédita.
O barco era uma feitoria e uma prisão. A violência estava no seu cerne. As mortes faziam parte de um negócio que, se tudo corresse bem, podia garantir aos traficantes um lucro de 100%.
Outro estudioso do tráfico, Gerald Horne, cita uma estimativa de Henry Wise (1806-76), que foi governador da Virgínia e atuou como principal diplomata dos EUA no Brasil: o lucro com o tráfico de escravos variava de 600% a 1.200%.
O destino mais lucrativo para os negreiros era o Brasil, diz Horne, que teve seu "O Sul Mais Distante - Os Estados Unidos, o Brasil e o Tráfico de Escravos Africanos" [trad. Berilo Vargas, Companhia das Letras, 488 págs., R$ 59,50] incluído na recente fornada de livros sobre o assunto.
Professor da Universidade de Houston, Texas, Horne lembra que, de 1500 a 1800, chegaram às Américas mais africanos do que europeus. De 1600 a 1850, 4,5 milhões de escravos desembarcam no Brasil, dez vezes a quantidade levada para a América do Norte.
O autor enfatiza que a maior parte da riqueza dos grandes países da Europa e da América do Norte foi acumulada graças à escravidão: a fase mais intensa e lucrativa do tráfico foi financiada por capitais dos EUA, em navios norte-americanos, com tripulação e bandeira ianques.

BRASIL E EUA O grande mérito do livro de Horne é descrever como as relações diplomáticas, comerciais e políticas entre Brasil e EUA se entrelaçavam e aproximavam escravocratas de lá e de cá. Juntos, os dois países chegaram a abrigar 67% dos escravos das Américas.
Os EUA eram o principal mercado para os cafeicultores brasileiros, que, por sua vez, eram os maiores compradores de escravos. Se o norte dos EUA lucrava com a construção de navios e com o tráfico, o sul via no Brasil uma possível válvula de escape para a economia escravocrata.
Mesmo antes da eclosão da Guerra Civil Americana (1861-65), uma parcela mais conservadora dos confederados acalentou planos de transferência de proprietários sulistas (e de sua escravaria) para a Amazônia e outras regiões do Brasil. Enxergavam em d. Pedro 2º um aliado, mas não conseguiram um esperado engajamento brasileiro na guerra contra o norte.
Grupos de derrotados da Guerra de Secessão chegaram a aportar por aqui; a maioria voltou desiludida. No entanto, em Santa Bárbara do Oeste e Americana, ambas no interior paulista, os confederados ficaram.
Horne traz relatos pavorosos da vida no Brasil escravocrata. Durante a corrida do ouro para a Califórnia, os navios contornavam o cabo Horn, no extremo sul da América, e chegavam ao Rio, onde os viajantes viam corpos pelo chão, sangue no porto, escravos sujos, maltrapilhos, doentes.
Numa época em que abolição era palavra maldita, foram os estrangeiros que verbalizaram os temores de revoltas. O reverendo Robert Walsh, impressionado, achava que os africanos "descobrirão a força que têm". Previa que o Brasil viraria um Haiti, palco de radical revolta escrava.
Walsh descrevia a situação dos cativos como "revoltante para a humanidade". Andavam nus, com a pele criando cascas "como as do elefante"; até cavalos e mulas desfrutavam de "situação muito superior à dos negros".

CAFÉ Os lucros do café, porém, ainda justificavam para a elite brasileira da época todo o horror da escravidão. A ação dos cafeicultores na política brasileira que a respaldava é o tema de Tâmis Parron no seu "A Política da Escravidão no Império do Brasil - 1826-1865" [Civilização Brasileira, 374 págs., R$ 49,90].
Mestre em história social pela USP, Parron mostra como a expansão do cativeiro foi simultânea à formação do Estado nacional. O dinheiro do tráfico e dos senhores de escravos nutria o orçamento estatal e formatava a política. Foi com esse suporte que Pedro 2º, por exemplo, conseguiu abafar as revoltas regionais que eclodiram no século 19 (Farroupilha, Sabinada, Balaiada, Cabanagem).
O historiador busca nos documentos a retórica que fundamentou a escravidão. Avalia que, de início, a norma de 1831 ("para inglês ver"), que tentou proibir o tráfico --atividade que chegou a estar concentrada em 29 famílias--, não foi tão inócua como se imagina: muitos a abandonaram para investir em imóveis no Rio.
Montados em negócio tão lucrativo e central para o país, os escravocratas conseguiram bloquear a implantação da lei, que previa a libertação de escravos trazidos ilegalmente e punia fazendeiros e traficantes.
O Estado incorporou a defesa dos interesses dos senhores de escravos, especialmente os do eixo Rio de Janeiro-vale do Paraíba-Minas Gerais, que, entre 1831 e 1850, concentrou 78% do contrabando negreiro.
A percentagem é idêntica ao rol de petições no Congresso a favor do tráfico procedente de Minas e do Rio (87%, se somadas às do vale do Paraíba, que chegou a ser o maior produtor mundial de café). Um "caso bem raro em que a matemática da política coincide com a matemática do crime", escreve Parron, ao apontar como os interesses regionais do contrabando tomaram conta do Estado.
Parron descreve as articulações políticas e as reações às revoltas escravas. Uma das mais importantes foi a dos malês, na Bahia, em 1835, quando cerca de 600 cativos se rebelaram: quase 70 foram fuzilados imediatamente. João José Reis, no seu "A Rebelião Escrava no Brasil" (Companhia das Letras), conta a história em detalhes.
Antes dela, em 1833, em Carrancas (comarca do Rio das Mortes, MG), os cativos mataram nove membros da família do deputado e fazendeiro Gabriel Junqueira. Cinco escravos foram mortos de pronto e 12 foram enforcados na praça de São João Del-Rei.
Houve ainda a rebelião de Vassouras (RJ), onde 70% da população era de africanos. Lá, em 1838, centenas de escravos fugiram para formar um quilombo. Foram caçados, e o líder, Manoel Congo, acabou enforcado. Parron mostra como os silêncios e os discursos no parlamento tentavam manipular os efeitos das revoltas.

GRÃ-BRETANHA No front externo, a Grã-Bretanha fazia mais pressão. Eric Williams, no seu clássico "Capitalismo e Escravidão" (1964), explica as razões da potência escravista que se tornou abolicionista: a dinâmica da revolução industrial capitalista.
Em 1850, o Brasil sucumbiu ao poder bélico britânico, aceitando interromper oficialmente o tráfico. Aprovou a Lei Eusébio de Queirós, parlamentar que manobrou para esconder a pressão externa, como mostra Parron.
Os senhores de escravos tentaram resistir ao vendaval abolicionista criando novas fontes de abastecimento de mão de obra --escrava ou não. O fim do contrabando liberou capitais para investimento e provocou especulação com os preços das commodities.
Reproduzindo debates parlamentares, às vezes de forma caudalosa, Parron relata como o país conviveu com a escravidão num contexto em que o liberalismo avançava no mundo inteiro. Ou como as ideias de liberdade e de soberania nacional foram usadas pelos escravocratas para rechaçar os abolicionistas, apontados como advogados de interesses externos, especialmente britânicos.
O livro de Parron poderia ter a preocupação de proporcionar uma leitura mais fluida e didática. Mas acerta ao apontar a participação direta do Estado brasileiro, com seu arcabouço político e jurídico, no "mais volumoso contrabando ilegal de seres humanos de que se tem notícia na história ocidental".

HAITI Com uma contextualização mais abrangente, o mesmo Tâmis Parron, com Márcia Berbel e Rafael Marquese, escreveu "Escravidão e Política - Brasil e Cuba, 1790-1850" [Hucitec, 396 págs., R$ 47]. Berbel e Marquese são professores da USP: ela, de história ibérica; ele, de história da América colonial.
Os autores descrevem como os senhores de escravos impuseram seu projeto em meio ao colapso do sistema colonial, ao avanço do "internacionalismo abolicionista" e à expansão do mercado mundial decorrente da industrialização.
A revolução escrava na colônia francesa de Santo Domingo, que resultou na criação do Haiti, Estado controlado por ex-escravos --"variável histórica inédita", ressaltam os historiadores--, é um ponto de virada nessa história.
A colônia, que chegou a abastecer mais da metade do açúcar consumido na Europa, foi tomada por uma revolta iniciada em 1791. Os rebelados derrotaram as tropas de Napoleão e criaram um Estado independente, em 1804. O cubano Alejo Carpentier (1904-1980) escreveu um memorável romance inspirado nesses fatos: "O Reino Deste Mundo" (1948). A revolta haitiana foi o modelo para diversas rebeliões nas colônias britânicas, provocando a abolição na década de 1830.

CUBA No Brasil e em Cuba, no entanto, "a ganância superou o medo", notam os historiadores. Ambos passaram a investir mais na escravaria para aumentar a produção, abocanhar o mercado deixado pela ex-colônia francesa e obter vantagens competitivas em relação às colônias britânicas. De 1820 a 1835, Cuba duplicou sua oferta de açúcar ao mercado, enquanto a produção de café brasileiro cresceu mais de 4,5 vezes.
Os autores reconstituem o jogo parlamentar que, no Brasil e na Espanha, sustentava a escravidão. No caso brasileiro, enfatizam como alterações no sistema judiciário asseguraram a traficantes e escravocratas que o Estado jamais atentaria contra aquela propriedade "ilegal, fruto da pirataria, nascida do roubo mesmo".
O núcleo da obra é a construção de paralelos entre Brasil e Cuba, mostrando como a Grã-Bretanha atuou nos dois casos. Se o império britânico jogou duro com o Brasil, levando a questão do tráfico à beira de um confronto militar aberto, em relação a Cuba houve suavidade.
Para os historiadores, a hipótese de Cuba ser anexada aos EUA segurou o ímpeto inglês. Diferente era o caso brasileiro: "Para manter sua soberania política, o Estado imperial precisou repelir de modo terminante e irrevogável o contrabando negreiro".

BASES FILOSÓFICAS Os historiadores também se debruçam sobre as bases filosóficas que tentavam justificar a escravidão, com argumentos como: a escravidão existe desde a Antiguidade e não é condenada pela Bíblia; era preciso converter os cativos ao cristianismo; era imperioso libertá-los de seus senhores africanos; a escravidão na América era melhor do que a vida na África; os negros seriam mais adaptados ao trabalho no clima dos trópicos etc.
As ideias foram se modificando e surgiram até os que defendiam que os tipos humanos eram hierarquizáveis conforme características físicas e socioculturais. Basta assistir ao perturbador e intenso "Vênus Negra", filme de Abdellatif Kechiche, para começar a entender a que ponto chegou o preconceito travestido de ciência.
Como no livro de Parron, "Escravidão e Política" poderia contextualizar melhor os discursos e documentos que reproduz. A leitura de defesas da escravidão, no entanto, não deixa de ter interesse.
A mais curiosa talvez seja a do parlamentar e ministro Bernardo Pereira de Vasconcelos (1795-1850). Ao argumentar, em 1843, que "os africanos têm contribuído para o aumento ou têm feito a riqueza da América" e que "a riqueza é sinônimo de civilização no século em que vivemos", declarou: "A África tem civilizado a América". Para ele, a diminuição do número de escravos levaria os brasileiros à barbárie.
Barbárie foi o termo que os abolicionistas usaram para descrever, já no final do século 18, a realidade do tráfico. Em panfletos, usaram o didático desenho do interior do negreiro Brooks, onde se espremiam 482 escravos. Eles eram amontoados "como colheres", nas palavras do médico Thomas Trotter, que viajou na embarcação.
A imagem, que passou para os livros de história, mostra "o moderno sistema econômico em toda a sua terrível nudez, o capitalismo sem tanga", afirma Rediker.
O historiador alerta para o silêncio sobre o tema. "O navio negreiro é um navio que viaja nas fímbrias da consciência moderna". Para ele, é preciso debater o legado da escravidão: "A reparação está na ordem do dia".
Gerald Horne também se preocupa com o que chama de amnésia em torno de uma espécie de "genocídio insuspeitado e escondido". Pior: a questão continua.
"Mesmo no século 21, existem alegações persistentes que indicam que não apenas o tráfico de escravos ainda existe mas que há mais escravos hoje do que havia no auge do tráfico de escravos africanos", afirma Horne.

"No Brasil e em Cuba, "a ganância superou o medo", notam os historiadores. Ambos passaram a investir mais na escravaria"
"De 1600 a 1850, 4,5 milhões de escravos desembarcam no Brasil, dez vezes a quantidade levada à América do Norte"
"Alterações no sistema judiciário asseguraram a traficantes e escravocratas que o Estado não atentaria contra sua propriedade"
"Numa época em que abolição era palavra maldita, foram os estrangeiros que verbalizaram os temores de revoltas"
"O navio negreiro viaja nas fímbrias da consciência moderna", diz Rediker. Para ele, é preciso debater o legado da escravidão"

A Bolsa Ditadura não chegou ao Araguaia

ELIO GASPARI


44 camponeses velhos e pobres comeram o pão que Asmodeu amassou, mas até hoje só ganharam discursos


EM ABRIL DO ANO que vem completam-se 40 anos do início das operações do Exército contra os militantes do PC do B que se internaram nas matas do Araguaia com o intuito de iniciar uma guerrilha contra a ditadura. Será a triste lembrança de um massacre no qual morreram cerca de 60 pessoas, na maioria jovens estudantes. Poucos pereceram em combate. Quase todos foram executados, muitos deles depois de terem se rendido à tropa do Exército. Foram execuções frias, praticadas mesmo depois de alguns presos serem usados até para pequenos serviços. Ordens de Brasília.
Foi uma guerrilha que começou com a fuga do chefe político, João Amazonas, que foi-se embora em abril de 1972 para não mais voltar, e terminou com a fuga do chefe militar, Angelo Arroyo, que abandonou a área em janeiro de 1974.
Quarenta anos depois, a tragédia do Araguaia sobrevive como amostra da capacidade do Estado brasileiro de proteger o andar de cima, mostrando-se incapaz de olhar para o de baixo.
Os comandantes militares encobriram os crimes praticados por ordem dos chefes da ocasião. Os poucos sobreviventes do PC do B e algo como 50 famílias de militantes assassinados foram indenizados.
Até hoje, 44 pobres camponeses que viviam na região esperam algum tipo de ressarcimento. Eles não queriam instalar uma república comunista moldada no modelo albanês. Quando muito, ajudaram os "homens da mata". Tiveram as roças e criações destruídas. Pelo menos um pequeno vilarejo foi incendiado. Toda a população masculina de outro foi presa. Cavavam-se enormes buracos no chão, onde colocaram-se centenas de pais de família, nus. Era uma gente pobre que foi lançada na humilhação e na miséria. Para eles, não houve "Bolsa Ditadura", como a que Lula e Fernando Henrique Cardoso recebem. Em 2010 ela valia R$ 4,2 mil mensais para Nosso Guia e uns R$ 8.000 para FHC.
Quarenta anos depois, restam poucos camponeses vivos. O governo reconheceu o direito dos 44 sobreviventes, mas uma liminar da Justiça suspendeu o pagamento. Periodicamente, hierarcas visitam o Araguaia, fazem discursos, exaltam os mortos e, aos vivos que restam, dão apenas promessas. Na semana passada a ministra Maria do Rosário, dos Direitos Humanos, repetiu esse roteiro. A justificativa tem a idade do Brasil: "O que se pode fazer?". Em tese, pouco, porque a Justiça que barrou a indenização dos miseráveis é a mesma que confirmou créditos de R$ 2,5 bilhões para um plantel de beneficiados onde reluzem indenizações milionárias de aproveitadores endinheirados.
Antes que o último camponês do Araguaia morra sem receber um tostão, aqui vão quatro sugestões de providências capazes de atenuar o problema:
1) Lula e Fernando Henrique Cardoso doam à Viúva seus cheques do Bolsa Ditadura, ou separam 10% do que arrecadam com palestras e passam o dinheiro para os 44 camponeses do Araguaia. Por baixo, podem comparecer com R$ 12 mil mensais.
2) Cada um dos 5.000 beneficiados pelo Bolsa Ditadura doa R$ 10 mensais. Arrecadam-se R$ 50 mil.
3) O PT e o PC do B doam 5% dos R$ 30 milhões que recebem do Fundo Partidário (dinheiro da Viúva) para os 44 do Araguaia. Nesse caso, cada um deles poderá receber R$ 1 mil mensais durante três anos.
4) Com a mesma malandragem que o governo pratica para beneficiar sonegadores de impostos, enfia numa medida provisória um contrabando que cria um fundo de R$ 10 milhões para que os juros da Bolsa Copom remunerem com R$ 1,2 milhão anuais os camponeses. Isso dá R$ 2.300 por mês para cada um deles.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Ustra afirma que não participou de atos de violência

OUTRO LADO

DE SÃO PAULO

A defesa do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra afirmou que o militar não participou de atos de tortura quando chefiou o DOI-Codi.
Segundo advogado de Ustra, Paulo Esteves, o coronel sustenta que "jamais praticou qualquer tipo de violência contra pessoas tanto nas atividades civis como profissionais" no Exército.
Esteves disse que o principal argumento da defesa do ex-chefe do órgão repressor na ação é que, caso tivessem ocorrido de fato os crimes, eles já estariam prescritos e, por isso, Ustra não poderia ser punido.

Ex-presos reforçam tese de que jornalista morreu após tortura

Depoimentos de vítimas da ditadura responsabilizam coronel Ustra pela morte de Luiz Merlino, em 1971

Militar reformado é acusado de comandar torturas; defesa pediu testemunho de Sarney, que declinou convite

FLÁVIO FERREIRA
DE SÃO PAULO

Seis presos políticos da ditadura militar (1964-1985) apresentaram à Justiça relatos que reforçam a tese de que o jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino foi torturado e morto quando estava sob custódia do DOI-Codi de São Paulo -órgão repressor do regime- em 1971.
Os depoimentos foram feitos ontem na audiência da ação de indenização por danos morais movida pela família de Merlino contra o ex-comandante do DOI-Codi, o coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de chefiar sessões de tortura no local.
Merlino militava no POC (Partido Operário Comunista) quando foi preso por agentes do órgão repressor, em 15 de julho de 1971. No dia 20 de julho, a família do jornalista recebeu a notícia de que ele estava morto.
Documento oficial apontou que Merlino, no dia anterior, "ao fugir da escolta que o levava para Porto Alegre (RS) na estrada BR-116, foi atropelado e, em consequência dos ferimentos, faleceu", versão contestada por familiares do jornalista.
Ontem, em São Paulo, foram ouvidas seis testemunhas de acusação.
Segundo o advogado da família de Merlino, Fábio Konder Comparato, os depoimentos permitiram concluir que o jornalista "foi torturado até aparecer uma gangrena nas duas pernas".
"Ele estava absolutamente sem condições de locomoção quando foi transferido e, a partir dessa transferência, para não se sabe onde, talvez o hospital militar, ele veio a falecer", disse Comparato.
Segundo o advogado, os relatos indicaram que Ustra "provavelmente torturou em pessoa Merlino".
Um dos depoentes afirmou que ouviu de um policial que "passaram por cima do cadáver de Merlino com um caminhão várias vezes até decepar vários membros dele", disse o advogado.
O ex-ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos Paulo Vanucchi foi um dos ouvidos ontem.
Agora serão convocadas as testemunhas de defesa. Os advogados de Ustra pediram o testemunho do senador José Sarney (PMDB-AP) para falar sobre a Lei de Anistia.
A assessoria do senador disse, porém, que o pedido é uma "farsa" da defesa para atrasar o processo.

Grupo analisa se ossada é de guerrilheiro

ARAGUAIA
O grupo do governo federal responsável por procurar desaparecidos da Guerrilha do Araguaia vai analisar se ossos encontrados ontem em Xambioá (TO) são restos mortais de um guerrilheiro.
Os peritos ainda não identificaram se a ossada é de homem ou de mulher. Caso a perícia identifique indícios, os ossos serão recolhidos para estudos mais aprofundados.
As escavações começaram nesta semana no cemitério da cidade, em áreas com corpos enterrados sem identificação.
Relatos de moradores indicam que integrantes da guerrilha foram enterrados ali após serem mortos pelo regime militar, na década de 1970.

A velhice dos tempos modernos

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS



A expressão "conservadores" seria mais aplicável aos que repetem "costumes flexíveis", e não os valores abraçados pelos construtores das civilizações


O desconhecimento da história e a pouca atenção que, nas grades escolares, principalmente universitárias, se dá à importância do estudo de toda espécie de acontecimentos passados, principalmente na política e nos costumes, faz com que aquele que vive o momento presente termine por repetir os mesmos erros, vícios e "novidades" pretéritas.
Na política, como procurei demonstrar em meu livro "Uma Breve Teoria do Poder", o homem pouco evoluiu. Se uma democracia formal foi conquistada a duras penas, a verdade é que nem por isso a sociedade consegue controlar a figura do detentor do poder, que quer o poder pelo poder, sendo a prestação de serviços públicos apenas efeito colateral de seu exercício.
A corrupção endêmica nas entidades estatais, nos tempos modernos, é tão velha quanto a dos primeiros tempos. Apenas mais sofisticada. Carl Schmitt ("O Conceito do Político") e Maquiavel ("O Príncipe") continuam atualíssimos.
Nos costumes, a denominada liberdade sexual, em que dar vazão aos instintos é modelo da modernidade, remonta, pelo menos, ao tempo da decadência babilônica, quando as mulheres conseguiam seus dotes para o casamento entregando-se livremente no templo, ou à decadência do Império Romano.
Políbio ("História"), este historiador grego que viveu em Roma, demonstrou que tal liberdade estava desfazendo as famílias romanas, prevendo o fim do Império pela deterioração dos costumes.
É de se lembrar que, no período anterior, quando da República, as famílias respeitavam valores e a sociedade se representava perante o Senado e os cônsules por meio do Tribunato da Plebe (Fustel de Coulanges, "A Cidade Antiga"). A cidadania romana tornou-se um bem que protegia não só os romanos, mas aqueles que a conquistavam dentro de suas fronteiras.
É de se lembrar que, antes da queda de Esparta, a liberdade sexual das mulheres espartanas faria inveja às mais desinibidas senhoras da atualidade. O próprio homossexualismo, praticado em Atenas, tornou-se bem evidente quando do início de sua decadência, que termina, de rigor, com a derrota na Guerra do Peloponeso, tão bem narrada por Tucídides.
Tais breves e perfunctórias reminiscências históricas sobre costumes e política objetivaram apenas mostrar que as denominadas conquistas dos tempos modernos são muito velhas e, quase sempre, coincidem com a decadência de civilizações formadas, como o Império Romano, à luz de valores diferentes.
Parece-me, portanto, que a denominação "conservadores" seria mais aplicável àqueles que repetem, através da história, "costumes flexíveis" -para adotar uma terminologia politicamente correta-, e não os valores abraçados pelos verdadeiros construtores das civilizações, que, como Toynbee afirma ("Um Estudo da História"), nasceram, fundamentalmente, dos preservados pelas grandes religiões.
Uma última observação, de caráter apenas explicativo.
Nos tempos de costumes condenáveis, em que as mulheres, em algumas nações, tinham um estatuto inferior, foi Cristo que abriu a perspectiva da igualdade entre o homem e a mulher, ao dar ao matrimônio a dignidade de Estado, com obrigações e direitos mútuos rigorosamente idênticos, com deveres de lealdade e fidelidade necessários para criar os valores próprios para a correta educação da prole que geravam. E elevou uma mulher à condição de mais importante figura da humanidade, para os católicos, acima de todos os homens, ou seja, santa Maria.
Política e costumes merecem sempre uma reflexão histórica.
Pouco comum, mas necessária.


IVES GANDRA DA SILVA MARTINS, 76, advogado, professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra, é membro das Academias Paulista de História e de Letras, da Academia Brasileira de Filosofia e da Academia Internacional de Cultura Portuguesa (Lisboa).

Notícias demais

KENNETH MAXWELL

É difícil compreender a conjunção de desastres naturais e os causados pelo homem que marcaram o ano até agora. O atentado a bomba de Anders Behring Breivik em Oslo e as dezenas de pessoas que ele matou na ilha de Utoeya, a maioria adolescentes, são só a tragédia mais recente.
Em janeiro, o levante tunisiano forçou o ditador Zine el Abidine Ben Ali a fugir do país. Depois, em fevereiro, veio o terremoto de Christchurch, na Nova Zelândia.
Em março, houve um terremoto e um tsunami no Japão, o maior e mais custoso desastre para o país desde Hiroshima e Nagasaki. Como consequência do abalo, surgiu o risco de desastre nuclear na usina Fukushima Daiichi.
Em seguida aconteceu a Primavera Árabe, com multidões mobilizadas nas ruas de Alexandria e do Cairo. Hosni Mubarak, que governou o Egito por décadas, foi derrubado.
França e Reino Unido antecipavam que Muammar Gaddafi caísse rapidamente na Líbia, e a Otan interveio em apoio aos rebeldes do leste do país. Mas o coronel Gaddafi resistiu e continua no poder em Trípoli, a despeito do bombardeio continuado de aviões aliados contra suas forças.
A oposição no Bahrein foi brutalmente reprimida, e com assistência militar saudita. Os EUA, preocupados simultaneamente com a base de sua Quinta Frota no Bahrein e com o Irã, aceitaram a repressão aos revoltosos do emirado.
Bashar Assad, na Síria, também resistiu à Primavera Árabe. Como Gaddafi, continua a fazê-lo, usando a força bruta, mas sem qualquer assistência externa aos seus oponentes.
Em abril, tornados varreram o sul e o centro-oeste dos EUA. Em maio, Osama bin Laden foi assassinado por forças especiais norte-americanas em um ataque audacioso no interior do Paquistão.
No mesmo mês, Dominique Strauss-Kahn, então chefe do FMI, foi forçado a desembarcar no aeroporto JFK, em Nova York, de um avião da Air France que decolaria para Paris e preso. Foi acusado de agressão sexual a uma camareira em um hotel de Nova York.
Depois, porém, que os promotores nos EUA admitiram que a história da vítima não se sustentava, e com o ataque da dispendiosa equipe legal de Strauss-Kahn aos princípios morais da acusadora, Nafissatou Diallo, a camareira decidiu revelar sua identidade e declarou à rede de TV ABC que queria que Strauss-Kahn "soubesse que há lugares em que não pode usar seu poder, não pode usar seu dinheiro".
Enquanto isso, a fome ronda a Somália. A saga de Rupert Murdoch e a crise da dívida grega continuam. Nos EUA, o presidente Barack Obama e o Congresso tentam evitar um calote nos pagamentos do governo. E ainda nem chegamos ao fim de julho.


KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras na Folha de São Paulo
Tradução de PAULO MIGLIACCI

A esfinge peruana

Editoriais
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A transição do peruano Ollanta Humala do esquerdismo chavista para o pragmatismo lulista só poderá ser confirmada com o tempo. Mas tudo indica, até agora, que sua conversão é verdadeira.
O sinal mais saliente vem do gabinete escolhido por Humala para governar o Peru a partir de hoje. O economista Julio Velarde, um liberal, foi mantido à frente do Banco Central. O atual vice-ministro de Finanças, Luis Miguel Castilla, assumirá o comando da pasta.
À esquerda couberam os ministérios das Relações Exteriores, da Educação e da Cultura. Tal divisão espelha o equilíbrio que Humala precisará demonstrar no governo.
A economia teve o melhor desempenho da América do Sul em cinco anos. Nos primeiros meses de 2011, crescia à taxa anualizada de 8%. Mas há insatisfação nas camadas mais pobres, menos beneficiadas pelo "milagre".
Questões ambientais, como a construção de hidrelétricas na selva, também levam água ao moinho da insatisfação.
O novo presidente sofreu brutal queda de popularidade desde a eleição, de 70% para 41%. Um de seus irmãos, empresário, viajou à Rússia, onde se apresentava como seu "enviado especial". Ollanta Humala negou a missão, mas os russos confirmaram que receberam Alexis Humala em tal condição. Sob a suspeita de tráfico de influência, a avaliação do presidente se assemelha à de Alan García ao assumir em 2006, de 45%.
O resultado da eleição -sua adversária no segundo turno, Keiko Fujimori, teve 48,5% dos votos- e a divisão do Congresso ajudam a empurrar Humala para o centro. Seu partido tem apenas 47 de 130 cadeiras. Mesmo com os prometidos 21 votos dos aliados do ex-presidente Alejandro Toledo, sua maioria parece um tanto frágil.
Humala prometeu, na campanha eleitoral, emular a estratégia de Luiz Inácio Lula da Silva: ortodoxia na área econômica e ampliação dos benefícios sociais. O cenário na Venezuela de Hugo Chávez, com inflação alta e crescimento pífio, reforça a tendência a afastar-se do antigo mentor.
O novo presidente caminhou bem até a posse. Terá agora de provar, no governo de cada dia, sua capacidade de contemplar tanto as demandas sociais quanto as do crescimento econômico.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A xenofobia europeia criou Breivik

ELIO GASPARI



O manifesto do assassino de Oslo mostra que ele não cabe na galeria dos simples desequilibrados


DURANTE ALGUMAS HORAS o mundo teve uma espécie de alívio intelectual ao saber que o massacre de Oslo fora reivindicado por radicais islâmicos. Ocorrera uma desgraça, mas prevalecera a sabedoria convencional. O assassino, contudo, é um viking, cristão.
Até a divulgação de seu manifesto, "2083, uma declaração de independência europeia", Anders Breivik seria facilmente encaixado na categoria dos desequilibrados, onde estão Lee Oswald, o assassino de John Kennedy, ou John Hinckley Jr., que por pouco não matou Ronald Reagan em 1981 e está guardado num hospício. Breivik não cabe nessa categoria. Seu radicalismo é articulado, como o de Hitler no "Mein Kampf", terrível por não ser original. Está no ar. Suas referências ao Brasil e aos seus costumes também não são originais. Estão no ar.
Olhada pelo retrovisor, a última grande guerra europeia (50 milhões de mortos) foi um capítulo da luta do bem contra o mal e terminou com a vitória do bem. Olhada a partir da década de 20 do século passado, foi bem outra coisa. Como sempre, quando se vive a véspera não se sabe o que acontecerá no dia seguinte. Em 1930, quando o Congresso americano jogou para cima as tarifas de importação do país, não se acreditava que dera um passo para internacionalizar a depressão econômica.
Em 1923, quando o partido nacional-socialista alemão tentou um golpe em Munique, um jovem diplomata americano, surpreendido pelos acontecimentos, procurou o núncio apostólico, Eugenio Pacelli, um sacerdote fluente em alemão, conhecedor da política do país.
O monsenhor disse-lhe o que informara à Santa Sé: a carreira política de Hitler estava encerrada. Anos depois, Robert Murphy relembrou o episódio num encontro com o ex-núncio, àquela altura feito Pio 12, e ele explicou: "Eu sei do que você está falando, da infalibilidade do papa, mas não esqueça que eu era um monsenhor". (Nove anos depois, com Hitler no poder, o embaixador americano William Dodd achava que o chanceler seria contido pelos conservadores moderados.)
O monsenhor Pacelli fez uma previsão errada para o destino da árvore, mas Pio 12 olhava mal para a floresta. Felizmente, a carreira de Breivik terminará numa cela, mas, assim como grandes políticos ingleses, americanos e europeus se enganaram ao olhar o ovo da serpente do fascismo, Pacelli não podia supor o que vinha pela frente. Nem ele nem o soldado Joe Vanacore, em abril de 1945, quando entrou com seu tanque num dos campos de Buchenwald.
Crise econômica, desemprego, nacionalismo, xenofobia, antiliberalismo, antimarxismo e anti-intelectualismo eram parte do cotidiano de uma forma de pensamento político na primeira metade do século passado e ressurgiram, tanto na Europa como nos Estados Unidos. (Os brasileiros estão no topo da lista de viajantes impedidos de entrar em países europeus pelos serviços policiais dos aeroportos.) Onde havia antissemitismo, está hoje o anti-islamismo e a estigmatização dos imigrantes, extensiva aos descendentes.
Lido há um mês, o manifesto de Breivik seria apenas a manifestação de um radical capaz de pesquisar com algum método a literatura política de sua preferência. Hoje, pode levar à ideia de que ele é doido. Doido ele não é, é assassino.

O islamofóbico Breivik odeia... noruegueses

TENDÊNCIAS/DEBATES

ARLENE E. CLEMESHA



O discurso racial, seja ele antissemita ou islamofóbico, possui relação mais estreita com o grupo que o professa do que com a sua vítima


Algumas horas antes de realizar os ataques que massacraram pelo menos 93 pessoas na Noruega, Anders Behring Breivik, 32, publicou um horripilante manifesto anti-islâmico de 1.500 páginas.
Intitulado "2083 - Uma Declaração de Independência da Europa", o documento transborda de ódio e denuncia a "islamização da Europa Ocidental". Mas os alvos do ataque cuidadosamente selecionados foram edifícios do governo trabalhista e um grupo de jovens noruegueses da mesma filiação partidária.
No dia 11 de junho, o terrorista Anders registrou em seu diário: "Rezei pela primeira vez em muito tempo. Expliquei a Deus que, a não ser que ele quisesse que a aliança marxista-islâmica e a tomada islâmica da Europa aniquilassem completamente a Cristandade Europeia nos próximos cem anos, Ele deveria assegurar a vitória dos guerreiros pela preservação da Cristandade Europeia".
O que seria a "aliança marxista-islâmica" senão a fantasia criada para tentar incitar medo na população em um contexto de crise, recessão e perda de empregos, principalmente entre a classe média?
Uma comparação histórica é tão reveladora quanto alarmante. Se substituirmos a expressão fantasiosa da "aliança marxista-islâmica" pela velha expressão igualmente imaginativa de "aliança marxista-judaica", teríamos a impressão de estar revivendo os anos 1930, quando o nazismo culpava os judeus de se aliarem ao marxismo para tentar dominar a Europa e o mundo.
Ao mesmo tempo, acusavam os judeus de manipularem o grande capital especulador e não produtivo, não obstante a clara contradição de discurso e o fato de os judeus simplesmente não controlarem nem o capital bancário mundial nem o marxismo internacional.
Outro paralelo importante de se notar é que tanto o ódio anti-islâmico contemporâneo como o antijudaísmo nazista prescindem de um grande número de judeus ou de islâmicos para se manifestar.
De fato, na Alemanha, Hitler construiu todo seu discurso sobre o "perigo que os judeus representavam à raça ariana" na quase ausência de judeus, que somavam 0,75% da população daquele país. Os milhões de judeus que o nazismo encarcerou e aniquilou, junto com vários outros grupos minoritários, eram cidadãos dos países invadidos da Europa Oriental.
Da mesma forma, o Partido Progressista populista e de extrema-direita ao qual Breivik pertence critica enfaticamente a política de aceitação e de integração de imigrantes da Noruega. Mas as estatísticas do governo indicam que os oriundos de países islâmicos representam grupo mínimo, isto é, aproximadamente 0,87% da população do pequeno país nórdico. Cerca de 65% dos imigrantes na Noruega são europeus, a maioria poloneses.
Para se ter uma ideia, em janeiro de 2010 a população da Noruega somava 4,86 milhões de habitantes, dos quais 334 mil eram estrangeiros. Desses, 42.410 vinham de países islâmicos na Ásia e na África, além da Turquia. O relatório do governo afirma que "a porção de residentes oriundos de países asiáticos [incluindo a maioria dos países islâmicos] está decrescendo gradualmente há vários anos".
Quer dizer, o discurso racial, seja ele antissemita ou islamofóbico, possui uma relação mais estreita com o grupo que o professa do que com a sua vítima.
Chega, em alguns casos, a prescindir da vítima, sendo capaz de criá-la à sua conveniência como a imagem oposta de tudo aquilo que ele mesmo deseja ser, o espelho invertido da fantasia de si mesmo. É claramente no racista que devemos buscar a explicação do racismo.
A imagem que ele faz do suposto "perigo islâmico" cumpre função central ao transformar os imigrantes islâmicos em bodes expiatórios dos males europeus, com o desemprego encabeçando a longa lista.


ARLENE E. CLEMESHA é professora de história e cultura árabe na USP e diretora do Centro de Estudos Árabes da mesma universidade.

Semana feliz

ANTONIO DELFIM NETTO

A última semana foi marcada por alguns fatos da maior importância:
1º) A decidida aplicação (com amplo apoio da sociedade) de um aditivo anticorrupção no combustível do Ministério dos Transportes;
2º) A forte indução do governo para que a Petrobras e a Vale enfrentem com determinação o problema do potássio;
3º) E, não menos importante, a adequação do orçamento da Petrobras nos termos da sugestão do ministro da Fazenda, Guido Mantega, à presidente Dilma Rousseff. Isso reduzirá a pressão inflacionária no curto prazo e dará tempo para melhorar as condições de competição do equipamento nacional na exploração do pré-sal.
Os três fatos revelam a recuperação de uma visão de longo prazo absolutamente necessária para que o Brasil possa resolver o seu verdadeiro problema: construir uma estrutura produtiva eficiente capaz de gerar bons empregos aos quase 150 milhões de brasileiros que, em 2030, terão entre 15 e 65 anos. Isso deve ser feito com equilíbrio interno e externo.
Não faremos isso com o modelo agromineral-exportador energizado pelo desenvolvimento da China. Para tal modelo fomos descuidadamente empurrados.
Sua justificativa é a míope construção teórica que afirma que caminhamos para a "harmonia universal" produzida pelo funcionamento de uma natural "divisão do trabalho" construída pela globalização.
Teremos a paz perpétua: para uns (EUA, Alemanha, China...), a indústria; para outros (Reino Unido, Índia...), os serviços; e para os demais (Brasil, Canadá, Austrália...), a agricultura e a mineração.
Para alguns países, isso talvez seja uma fatalidade. Não é, seguramente, o caso brasileiro. Sua aceitação não levará à estrutura produtiva que precisaremos até 2030. Para nós, só a ação de um Estado indutor inteligente (e eficiente!) estimulará a sua construção.
A regra de ouro da sua ação deve ser: forte estímulo à competição doméstica entre as empresas, com adequadas medidas microeconômicas que permitam-nas disputar com eficiência nosso crescente mercado interno. E mais: condições macroeconômicas que lhes deem isonomia para complementar na margem, com decrescente proteção, os ganhos de dimensão necessários para enfrentar a competição do mercado externo.
Atrair a montadora chinesa Chery, que começa a se instalar em Jacareí (SP) e vai ampliar a competição também no setor de autopeças e ajustar a velocidade dos investimentos da Petrobras de forma a criar a capacidade para atendê-los (com indústrias nacionais ou estrangeiras aqui instaladas), é um exemplo da política que temos de praticar: concorrência interna impiedosa e proteção externa inteligente.


ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras na Folha de São Paulo
contatodelfimnetto@terra.com.br

Sem idade para morrer

RUY CASTRO

RIO DE JANEIRO - Está bem, Amy Winehouse morreu com 27 anos, assim como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Brian Jones, Kurt Cobain e outros que ficam na geladeira, todos por problemas relacionados ao uso de substâncias. Os 27 anos são coincidência. Mas há quem veja nisto um significado transcendental, como se esta fosse uma idade fatal para roqueiros.
Vejamos. Elvis Presley morreu aos 42, em 1977; Michael Jackson, aos 50, em 2009; Jerry Garcia, do Grateful Dead, aos 53, em 1995; John Phillips, do The Mamas and the Papas, aos 65, em 2001. E há outros que, com um inacreditável passado de drogas, estão milagrosamente vivos: Ron Wood, aos 64 anos; Eric Clapton, aos 66; Keith Richards, aos 67 -periga se tornarem bisavôs antes de morrer.
No jazz, a droga também ceifou gente de todas as idades. O trompetista Fats Navarro morreu aos 26 anos, em 1950; Charlie Parker, aos 34, em 1955; Billie Holiday, aos 44, em 1959. Mas Miles Davis, bem ou mal, conseguiu chegar aos 65 anos, em 1991, e Chet Baker, muito mal, aos 58, em 1988. Sem falar em Ray Charles, que usou heroína durante décadas e morreu aos 73, em 2004, de causas naturais.
No Brasil, Cazuza se foi aos 32 anos, em 1990; Elis Regina, aos 36, em 1982; Cássia Eller, aos 39, em 2001; Raul Seixas, aos 44, em 1989; e Carmen Miranda, aos 46, em 1955. Mas o incrível foi Garrincha ter chegado aos 49, em 1983, e Tim Maia, aos 55, em 1998, pelo que abusaram de si mesmos.
Todos os citados tiveram a vida ou a carreira alterada por álcool, maconha, cocaína, heroína, ácido ou remédios "controlados" -alguns, por uma dessas especialidades; outros, por várias; e ainda outros, por todas juntas. E isso não aconteceu por eles serem artistas, mais "rebeldes" ou "sensíveis" que a média. Mas por serem humanos, famosos, e por não faltar combustível para sua morte.

Mistura de menos

FERNANDO DE BARROS E SILVA

SÃO PAULO - Diante da atrocidade que foi capaz de cometer, as idiotices que o psicopata norueguês diz sobre o Brasil são só um detalhe.
No manifesto que publicou, o assassino atribui à miscigenação a desigualdade social e os "altos níveis de corrupção" do país. Diz que a mistura de raças impede a coesão interna e transforma o Brasil numa nação de segunda classe. As "subtribos" nos impediriam de alcançar o "grau de produtividade e harmonia" verificados na Escandinávia, na Alemanha, no Japão.
Já foi dito que a cabeça deste fascista é, também, a expressão de uma demência coletiva de extrema direita que vem ganhando certo relevo social e político na Europa.
Sem desconhecer que este é o xis dessa questão, ficarei hoje no Brasil. O problema é que somos miscigenados de menos, e não demais. Ou melhor: a miscigenação brasileira convive com uma enorme desigualdade racial -e ambas as coisas nos definem como sociedade.
Entre os 10% mais ricos da população, há 78% de brancos e 20% de pretos e pardos -praticamente 4 para 1. Entre os 10% mais pobres, há 27% de brancos e 73% de pretos e pardos -1 branco para cada 3 negros. São dados do "Relatório das Desigualdades Raciais no Brasil (2007-08)", coordenado pelo professor Marcelo Paixão, da UFRJ.
Há mais de dois pretos ou pardos analfabetos para cada branco analfabeto no país. Qualquer indicador social reflete essa segregação dentro da miscigenação. A desigualdade entre nós tem cor -herança perversa de séculos de escravidão, ainda muito longe de ser superada.
Ao mesmo tempo em que produz delícias e maravilhas, a civilização mestiça mitiga a dinâmica da Casa-Grande & Senzala, ainda tão decisiva nas relações cotidianas do país.
"Madame diz que a raça não melhora/ que a vida piora/ por causa do samba", canta João Gilberto. Não vamos discutir com o fascista. Mas ainda precisamos muito discutir com madame para democratizar a boa mistura brasileira

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Prebisch e Furtado

RUBENS RICUPERO

Economistas foram os únicos latino-americanos capazes de elaborar pensamentos originais sobre o desenvolvimento


Morto há 25 anos, Prebisch continua atual no cenário de retrocesso da industrialização no Brasil e na América Latina, da dependência das commodities e da volta do debate sobre a "questão nacional". Nada melhor assim do que ler a magistral biografia sobre Raul Prebisch e seu tempo, do professor canadense Edgar J. Dosman, traduzida por iniciativa do Centro Celso Furtado (em coedição com a Contraponto, a ser lançada em São Paulo em 15 de agosto).
A relação fecunda, às vezes conflitiva entre Celso Furtado e Prebisch recebe no livro o relevo que merece. O autor reconhece como decisiva a contribuição intelectual do jovem ex-expedicionário brasileiro na edificação do arcabouço teórico da CEPAL, a Comissão Econômica da ONU para a América Latina, liderada pelo economista argentino.
A infeliz decisão de impedir a divulgação do estudo da economia mexicana dirigido por Furtado levou este último a romper em 1957 com Prebisch, do qual era considerado o natural sucessor. Na descrição do episódio, Dosman não esconde os erros e fraquezas de seu biografado. Sertanejo destemido, Celso perde no terreno do poder, mas sai vitorioso no da coerência e integridade moral.
Reconciliados mais tarde, os dois se tornariam os únicos latino-americanos capazes de criar pensamento original sobre o desenvolvimento com profunda e duradoura influência no mundo. Mais do que simples biografia, o livro traz de volta as grandes discussões no Brasil do após-guerra sobre a "questão nacional", isto é, a passagem definitiva do estágio herdado da economia colonial e dependente para o de um desenvolvimento voltado à integração do mercado nacional.
Ressoam na obra os ecos da polêmica provocada pelas conferências ortodoxas de Jacob Viner, a defesa por Gudin e Bulhões da opção pelas vantagens comparativas do Brasil em agricultura, contrapostas aos partidários da criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e da implantação de indústria de bens de capital.
À luz de hoje é curioso ler sobre as ameaças de Roberto Campos e do governo Castelo Branco ao instituto de pesquisas criado por Prebisch por ter este abrigado em Santiago "esquerdistas" conspícuos como Fernando Henrique Cardoso e Francisco Weffort...
Fica da leitura o sabor melancólico de que, como todo profeta, Prebisch foi mais seguido pela China e países asiáticos do que em sua própria terra. A industrialização que ele pregava não era a mera substituição de importações com protecionismo. Essa não passava da etapa inicial da conquista de competitividade mediante a exportação de manufaturas a mercados externos.
Quem aplicou de modo correto a estratégia foram os chineses. Lograram, por isso, escapar da periferia e se converterem no centro da nova distribuição internacional do trabalho. Enquanto isso, o Brasil e a América Latina continuam a gravitar na periferia. Só mudaram, uma vez mais, de centro de dependência.
As commodities latinas não são muito diversas das do passado. Apenas voltaram aos bons preços que durante décadas criaram a prosperidade ilusória da Argentina. Até a crise de 1930 acarretar o colapso que marcou para sempre a vida de Prebisch. Será diferente esta vez?

domingo, 24 de julho de 2011

O ‘momento de Munique’ de Obama será na Ásia?

Discussões sobre o Mar do Sul da China podem ser vitais para o desenvolvimento das relações entre Washington e Pequim.

O Estado de São Paulo, 23/07/2011

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Um legado de poder para fazer e destruir premiês

No Parlamento, Murdoch lembrou seu pai, a quem procurou vingar no establishment britânico.

O Estado de São Paulo, 23/07/2011

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Façanha ditatorial no Equador.

O Estado de São Paulo, 23/07/2011

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Pinturas de Dalí podem ajudar a ‘prever’ surto

Pinturas de Dalí podem ajudar a ‘prever’ surto

Pesquisadores utilizaram obras para verificar alterações na percepção de tamanho e formas que ocorrem antes de esquizofrênicos entrarem em crise.

O Estado de São Paulo, 21/07/2011

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Risco de guerra na Venezuela sem Chávez

Uma coisa que a doença do presidente sublinhou é a profundidade da divisão no país.

O Estado de São Paulo, 20/07/2011

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O povo versus Murdoch

Magnata australiano ignorou o direito à privacidade e colocou os que desfrutam da liberdade de expressão em grave risco

O Estado de São Paulo, 19/07/2011

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A VOLTA DE MARX

O cineasta alemão Alexander Kluge realiza o sonho de Eisenstein de filmar O Capital.

O Estado de São Paulo, 18/07/2011

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O poder da internet contra o último ditador da Europa

Milhares de pessoas tomam ruas da Bielo-Rússia pedindo a saída de Lukashenko do poder.

O Estado de São Paulo, 18/07/2011

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Morre aos 83 anos o ex-ditador uruguaio Juan María Bordaberry.

Ele foi o responsável pelo golpe de Estado de 27 de junho de 1973, que abriu caminho
para a ditadura militar.

O Estado de São Paulo, 18/07/2011

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A doença infantil do consumismo

O Estado de São Paulo, 17/07/2011

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Em defesa de Rupert Murdoch

Paixão de magnata pelo jornalismo salvou do marasmo a imprensa da Grã-Bretanha

O Estado de São Paulo, 17/07/2011

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Abusos no Paquistão e os interesses americanos.

Grandes nações democráticas, como os EUA, não podem ignorar os fracos e violentados.

O Estado de São Paulo, 15/07/2011

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Caso das escutas chega aos EUA e FBI apura grampos de vítimas do 11/9.

Investigação. Em carta a diretor da polícia federal americana, congressistas exigem apuração de denúncia de que o News of the World teria espionado parentes de mortos nos ataques de 2001; família de Jean Charles também teme ter sido ‘grampeada’.

O Estado de São Paulo, 15/07/2011

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Inovação na América Latina

Ao avaliar de acordo com novos critérios a evolução do processo de inovação na América Latina, o Insead, uma das principais escolas de negócios da Europa, chegou a conclusões animadoras e até surpreendentes.

O Estado de São Paulo, 15/07/2011

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Conselho dos EUA vê o Brasil como potência global

Para Council of Foreign Relations, Casa Branca deveria apoiar vaga permanente do País no Conselho de Segurança da ONU.

O Estado de São Paulo, 13/07/2011

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NAS TERRASDA DITADURA

Romance de Oliverio Coelho reflete a Argentina de muitos traumas

O Estado de São Paulo, 12/07/2011

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Crise chega à Itália e derruba bolsas

Ameaça à estabilidade do governo de Silvio Berlusconi, atingido por novo escândalo de corrupção, provoca pânico entre investidores.

O Estado de São Paulo, 12/07/2011

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Brasil fica mais caro que na época do real a US$ 1

Valorização do real e inflação do período fazem com que andar de táxi ou de metrô em São Paulo seja hoje mais caro do que em NY

O Estado de São Paulo, 11/07/2011

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Para os mexicanos, o norte está cada vez menos atraente

Estudos mostram que o fluxo de imigração ilegal para os EUA vem diminuindo, contido pela melhora das condições de vida no México.

O Estado de São Paulo, 10/07/2011

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Os Estados Unidos devem conter a China?

Embora o renascimento da Ásia e a evolução econômica chinesa sejam bem-vindos, há temores de que  Pequim se torne uma ameaça para Washington.

O Estado de São Paulo, 10/07/2011

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Dólar no Brasil preocupa, diz Lagarde

Em sua primeira entrevista como diretora do FMI, Lagarde afirma que há excesso de fluxo de capitais para países emergentes.

O Estado de São Paulo, 07/07/2011

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Dinamarca abala alicerce da UE

Por conta própria, país cria postos de controle em suas fronteiras; o fato é sério e faz parte de uma tendência.

O Estado de São Paulo, 07/07/2011

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Corte culpa força da ONU por massacre na Bósnia

Juízes condenam governo holandês após considerar que seus capacetes azuis não evitaram ataque sérvio que matou 8 mil em Srebrenica.

Jamil Chade
CORRESPONDENTE / GENEBRA

O Estado holandês foi condenado ontem pela Justiça do país pela morte de três bósnios
muçulmanos no massacre de Srebrenica, durante a Guerra da Bósnia (1992-1995). Um tribunal local decidiu que a missão da paz da ONU que defendia o local, composta por soldados holandeses, falhou em evitar as mortes. A responsabilidade do Ocidente no massacre ainda é um tema delicado para a ONU e para a Holanda.

O Estado de São Paulo, 06/07/2011

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Brasil e Argentina, cooperação nuclear.

O Estado de São Paulo, 05/07/2011

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‘O mundo pode achar que EUA estão loucos’

ENTREVISTA

Alan Blinder, economista e professor da Universidade Princeton

Economista vê risco no teto da dívida americana, e faz alerta para exuberância irracional no Brasil.

O Estado de São Paulo, 05/07/2011

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Obama decide deixar o Afeganistão e reconstruir os EUA

GERHARD
SPÖRL
DER SPIEGEL

Estradas no Kentucky, não em Cabul. Com a profunda crise econômica nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama começa a mudar as prioridades, do envolvimento dispendioso em guerras externas ao desenvolvimento do país. O ex-secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, não hesitava em admitir que estava cansado da função para a qual foi chamado no fim de 2006.

O Estado de São Paulo, 04/07/2011

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‘Enfrentamos a privatização da censura’

Representante do site afirma que o governo dos EUA quer sufocá-los pressionando grandes empresas e nos tribunais.

Kristinn Hrafnsson, Porta-voz do WikiLeaks

O Estado de São Paulo, 04/07/2011

Leia a reportagem completa: http://www.megaupload.com/?d=GSXL6UZC 

Apologia da preguiça

ENSAIO

O sequestro do nosso tempo pelo trabalho


RESUMO

Em tempos de tecnociência, permanece irrealizada a utopia da libertação do homem pelas máquinas: nunca se trabalhou tanto, e o tempo livre jamais esteve tão fora da pauta. Ora estigmatizado na ordem produtiva, ora exaltado na tradição filosófica, o preguiçoso é hoje o símbolo do tempo livre para o pensamento.

ADAUTO NOVAES


O trabalho deve ser maldito, como ensinam as lendas sobre o paraíso, enquanto a preguiça deve ser o objetivo essencial do homem. Mas foi o inverso que aconteceu. É esta inversão que gostaria de passar a limpo.
Malevitch, "A Preguiça como Verdade Definitiva do Homem"

SABE-SE QUE uma única palavra é suficiente para arruinar reputações e, entre todas, preguiça é uma das mais suspeitas e perigosas. Ao longo dos séculos, foi carregada de significações contraditórias e impressionantes variações.
Dela decorre longo cortejo de acusações bizarras, mas também sabe ser tema de obras de arte, poesia, romance, pinturas, reflexões filosóficas: o preguiçoso é indolente, improdutivo, nostálgico, melancólico, indiferente, distraído, voluptuoso, incompetente, ineficaz, lento, sonolento, silencioso. Preguiça e trabalho guardam um misterioso parentesco, quase simétrico e especular.
Para o preguiçoso, "é preciso ser distraído para viver" (Paul Valéry), afastar-se do mundo sem se perder dele; exatamente por isso, é acusado de não contribuir para o progresso.
Além de praticar crime contra a sociedade do trabalho, o preguiçoso comete pecado capital. Pela lógica do mundo do trabalho e da igreja, ele deve sentir-se culpado, pagar pelo que não faz.
Mais: pensadores como Lafargue, Stevenson, Bertrand Russell, Jerome K. Jerome, Marx e Samuel Johnson apostaram no desenvolvimento técnico como possibilidade de liberação do trabalho. Erraram: na era da tecnociência, nunca se trabalhou tanto e nunca se pensou tão pouco. Assim, o espírito tende a se tornar coisa supérflua.

O QUE FAZER Ao pensar sobre o fazer, o ocioso pode prestar um grande serviço e ajudar a responder à velha questão moral: o que devo fazer? Dependendo da resposta, teremos diferentes definições do que seja o homem, a política, as crenças, o saber, nossa relação com o mundo, e, principalmente, nossa relação com o trabalho. A resposta pode nos dizer não apenas o que fazemos mas também o que o trabalho faz em nós.
Hoje, maravilhosas máquinas "economizam" o trabalho mecânico, mas criam novos problemas: primeiro, uma espécie de intoxicação voluntária, isto é, "mais a máquina nos parece útil, mais ela nos torna incompletos" (Valéry).
A máquina governa quem a devia governar; daí decorre o segundo problema, bem mais complexo: tantas potências auxiliares mecânicas tendem a reduzir "nossas forças de atenção e de capacidade de trabalho mental", o que se relaciona à impaciência, à rapidez e à volatilidade nunca antes vistas.
Assim escreveu Paul Valéry (1871-1945): "Adeus, trabalhos infinitamente lentos, catedrais de 300 anos cuja construção interminável acomodava curiosas variações e enriquecimentos sucessivos... Adeus, perfeições da linguagem, meditações literárias e buscas que tornavam as obras ao mesmo tempo comparáveis a objetos preciosos e a instrumentos de precisão!
[...] Eis-nos no instante, voltados aos efeitos de choque e contraste, quase obrigados a querer apenas o que ilumina uma excitação de acaso. Buscamos e apreciamos apenas o esboço, os rascunhos. A própria noção de acabamento está quase apagada".

MONTAIGNE Valéry retoma uma tradição. Lemos em Montaigne (1533-92) que "a alma que não tem um fim estabelecido perde-se. Porque, como se diz, estar em toda parte é não estar em lugar algum". Aqui, entendemos por alma o "trabalho teórico do espírito", potência de transformação. O que leva a alma (espírito) a se perder é o trabalho desordenado.
Habitar o próprio eu, comenta Bernard Sève, é o projeto de Montaigne: viver em repouso, longe das agitações do mundo, retirar-se da pressa do mundo "para se conquistar, passar do negotium ao otium", do negócio ao ócio.
É isso que podemos ler na inscrição que Montaigne mandou pintar nas paredes da sua torre: "No ano de Cristo de 1571, aos 38 anos, vésperas das calendas de março, dia de aniversário de seu nascimento, depois de exercer longamente serviços na Corte (Parlamento de Bordeaux) e nos negócios públicos [...] Michel de Montaigne consagrou este domicílio, este tranquilo lugar vindo de seus ancestrais, à sua própria liberdade, à sua tranquilidade, ao seu 'loisir' (otium)".
Eis que Montaigne recolhe-se ao ócio reflexivo, com um espírito criativo leve e vagabundo. Como escreve Sève, um Montaigne distante das pressões políticas e das injunções do trabalho burocrático, com o espírito já amadurecido, "construído pela vida, espírito prestes ao fecundo exercício de uma ociosidade inteligente e feliz". Mas interpretemos com cuidado esse afastamento do mundo.
Se a vida teórica aparece mais compensadora, é porque Montaigne não encontrou na vida prática -social e política-, no Parlamento de Bordeaux, aquilo que buscava. À diferença dos comuns, Montaigne não procurava satisfação no reconhecimento social e político. No ócio, preferiu a busca da verdade às coisas da política.
Sua "contemplação" teórica é discursiva, isto é, transforma-se em atos de pensamento e, portanto, em atividade prática. Nascem aí os monumentais "Ensaios".

FOUCAULT A aliança entre capital, igreja e disciplina militar para regular o trabalho tem história. Em um curso de 1973, ainda não publicado, Michel Foucault (1926-84) narra a institucionalização do trabalho através da "fábrica-caserna-convento" no final do século 19. Ele descreve as regras de uma comunidade fechada de até 400 trabalhadores: acordar às 5h, 50 minutos para toalete e café, trabalho nas oficinas das 6h10 às 20h15, com uma hora para as refeições. À noite, jantar, reza e cama às 21h. Só no sul da França, 40 mil operárias trabalhavam nessas condições.
O trabalhador é fixado no aparelho produtivo, no qual "o tempo da vida está submetido ao tempo da produção". Vemos nessa experiência uma mudança essencial que nos interessa porque se torna mais aguda e determinante no trabalho hoje: "da fixação local a um sequestro temporal". Ou melhor, da ideia de controle do espaço no trabalho à ideia de controle do tempo.
O trabalho sequestrou o tempo. Se, no século 19, o controle do tempo era apresentado ao operário como um "aprendizado de qualidades morais" que, na realidade, significava a integração da vida operária ao processo de produção, hoje o controle é aceito com naturalidade, e até mesmo desejado.
O homem se integra voluntariamente "a um tempo que não é mais o da existência, de seus prazeres, de seus desejos e de seu corpo, mas a um tempo que é o da continuidade da produção, do lucro".
A reivindicação de tempo livre tornou-se quase que palavra de ordem subversiva: "Preciso tanto de nada fazer que não me resta tempo para trabalhar", conclama Pierre Reverdy, citado no prefácio ao livro de Denis Grozdanovitch "A Difícil Arte de Quase Nada Fazer".

TRABALHO CEGO A mobilização veloz e incessante do trabalho cego não permite ao homem dizer qual é o seu destino e muito menos o que acontece. Ele não dispõe de tempo para pensar e muito menos tem consciência de que seus gestos, no trabalho, produzem muito mais do que os objetos que fabrica.
Há um excedente invisível, entendendo-se por "excedente" tudo o que não é mensurável, que produz catástrofes através do trabalho "normal e produtivo" e se manifesta na poluição, nos desastres ecológicos, no esquecimento e na desconstrução de si.
Como nos lembra Robert Musil em "O Homem sem Qualidades", foi preciso muita virtude, engenho e trabalho para tornar possíveis as grandes descobertas científicas e técnicas, graças aos sucessos dos "homens de guerra, caçadores e mercadores". Tudo isso fundado na disciplina, no senso de organização e na eficácia do trabalho, o que talvez pudesse ser resumido assim: o trabalho mecânico da produção de mercadorias pretende tomar o mundo de assalto, produzindo agitação social e frenesi econômico e consumista, dada a multiplicação de objetos "não naturais e não necessários".
Já o preguiçoso põe-se na escuta de si e do mundo que o cerca.

PENSAMENTO Talvez o mais danoso de todo esse legado para o espírito humano seja a criação de um mundo vazio de pensamento que o ocioso procura preencher. Guardo uma imagem que o poeta e filósofo Michel Deguy me fez ver à janela de seu apartamento, em Paris: um mendigo que dormia 20 horas por dia na escadaria da igreja Saint-Jacques.
Deguy narra essa experiência em um pequeno ensaio com o título "Do Paradoxo": em imagem semelhante, diz ele, também nas escadarias de uma igreja, "a 'Derelitta' de Botticelli está pelo menos sentada, parecendo meditar. Hoje, ninguém medita, como dizia Valéry na figura de M. Teste. Portanto, o mendigo talvez não esteja errado, uma vez que o fato de estar deitado nada muda [...] E quando lembro que Pascal era o pároco da igreja e cuidava dos abandonados, a comparação me perturba: os 'pobres' não são mais como eram -mas os pensadores também não. Portanto, o 'despertar do pensamento'? Nós, você e eu, não queremos dormir. Mas estamos acordados?"
O trabalho técnico, mecânico e acelerado abole o tempo do pensamento, que exige virtudes atribuídas ao preguiçoso: paciência, lentidão, devaneio, acaso -o imprevisto. Em um texto célebre, Valéry nota: "O futuro não é mais como era". Isto é, não há mais o tempo lento do pensamento, momento em que o tempo não contava. Sabemos que é na vida meditativa e lenta que o homem toma consciência da sua condição.

SERES OCULTOS Ora, como escreveu ainda Valéry, o amanhã é uma potência oculta, e o homem age muitas vezes sem o objeto visível de sua ação, como se outro mundo estivesse presente, "como se ele obedecesse a ações de coisas invisíveis ou de seres ocultos".
Essa poderia ser uma boa definição do ocioso. Coisas invisíveis e seres ocultos participando do mundo do devaneio e do pensamento. Mundo do trabalho do espírito, em contraposição ao trabalho mecânico.
As ideias e os valores, lembra-nos Maurice Merleau-Ponty (1908-61), não faltam a quem soube, na sua vida meditativa, liberar a fonte espontânea, não deliberadamente, em direção a fins predeterminados por cálculos técnicos e produtivos. Todo trabalho finito e alienado é pura perda.
Através de uma admirável reversão, o meditativo transforma a desrazão do mundo do trabalho alienado em fonte de razão. Isso porque o trabalho meditativo do ocioso é um trabalho sem finalidade, sem "telos", um trabalho sem fim. O trabalho meditante do ocioso exige muito mais trabalho do que o trabalho mecânico. O trabalho da obra de arte e da obra de pensamento pede um tempo que não pode ser medido pelo relógio.

PREGUIÇOSO Como se pode, então, pensar essa figura que sempre teve péssima reputação? Talvez uma boa definição seja a de um autor inglês, Jerome K. Jerome (1859-1927), em seu livro "Pensamentos Preguiçosos de um Preguiçoso" (1886): "O que melhor caracteriza um verdadeiro preguiçoso é o fato de ele estar sempre intensamente ocupado. De início, é impossível apreciar a preguiça se não há uma massa de trabalho diante de si. Não é nada interessante nada fazer quando não se tem nada a fazer! [...] Perder seu tempo é uma verdadeira ocupação, e uma das mais fatigantes. A preguiça, como um beijo, para ser agradável, deve ser roubada".
Jerome K. Jerome leva-nos a pensar que a preguiça não é coisa passiva. Perder o tempo mecânico dá trabalho e exige enorme atividade do espírito.
O egípcio Albert Cossery é apresentado pela revista francesa "Magazine Littéraire" como o escritor contemporâneo que celebra a preguiça como uma arma de subversão política e como um modo de resistir à impostura das potências. Para Cossery, o exercício da preguiça tem o valor da arte de viver. Mas ele distingue dois tipos de preguiçosos: os idiotas e os reflexivos.
"Um idiota preguiçoso permanece idiota!", escreve. "E um preguiçoso inteligente é quem reflete sobre o mundo no qual vive. Mais você é ocioso, mais tempo você tem tempo para refletir... Esses são os valores da preguiça, que supõe, pois, dupla recusa: nosso mundo imediato e a triste realidade."
Mas o mais radical dos libelos contra o trabalho alienado continua a ser o pequeno ensaio de Paul Lafargue (1842-1911), "O Direito à Preguiça" (1880). "Trabalhem, trabalhem, proletários, para aumentar a fortuna social e suas misérias individuais; trabalhem, trabalhem, para que, tornados mais pobres, tenham mais razões ainda para trabalhar e tornarem-se miseráveis. Essa é a lei inexorável da produção capitalista".
Para Lafargue, o trabalho é invenção relativamente recente, uma vez que os antigos gregos desprezavam o trabalho e deliciavam-se com os "exercícios corporais" e os "jogos de inteligência". Ele critica a moral cristã ao proclamar o "ganharás o pão com o suor do rosto" e ao lembrar que Jeová, "depois de seis dias de trabalho, repousou por toda a eternidade".
Robert Louis Stevenson (1850-94), na "Apologia dos Ociosos" (1877), mostra que o ócio "não consiste em nada fazer, mas em fazer muitas coisas que escapem aos dogmas da classe dominante".

MELANCOLIA A tradição relaciona a melancolia e o devaneio à preguiça. Nisso, mais uma vez, igreja e capital estão juntos. O trabalho é o grande meio que a igreja encontrou para lutar contra a melancolia e a vertigem do tempo livre. Seu lema sempre foi "Rezai e trabalhai", ou seja, só abandonar a oração quando as mãos estiverem ocupadas.
Lemos em um ensaio de Jean Starobinski sobre a melancolia -"A Erupção do Diabo-" que o trabalho tem por efeito ocupar inteiramente o tempo que não pode ser dado à oração e aos atos de devoção: "Sua função", escreve ele, "consiste em fechar as brechas por onde o demônio poderia entrar, por onde também o pensamento preguiçoso poderia escapar". Assim, o trabalho interrompe o "vertiginoso diálogo da consciência com seu próprio vazio".
A crítica que Jean-Jacques Rousseau (1712-78) faz ao trabalho não é diferente. Na sétima caminhada dos "Devaneios de um Caminhante Solitário" (1782), ele busca a solidão, mas procura trabalhar tudo o que o cerca, escolhendo o mais agradável. Não escolhe os minerais porque, escondidos no fundo da terra "para não tentar a cupidez", exigem indústria, trabalho, pena e exploração dos miseráveis nas minas.
As plantas não. A botânica é o estudo de um "ocioso e preguiçoso solitário": "Ele passeia, erra livremente de um objeto a outro, passa em revista cada flor... Há, nesta ociosa ocupação, um charme que só se sente na plena calma das paixões, o que basta para tornar a vida feliz e tranquila. Mas, quando se mistura aí um motivo de interesse ou vaidade, seja para ocupar espaços, seja para escrever livros, ou quando se quer aprender apenas para se instruir ou pesquisar as plantas apenas para se tornar professor, todo o charme da tranquilidade se desfaz; [...] no lugar de observar os vegetais na natureza, ocupa-se apenas com sistemas e métodos".
O que importa hoje, talvez, é propor a luta do progresso contra o progresso; isto é, a valorização do progresso do espírito, a valorização dos valores contra o progresso técnico, esta "ilusão que nos cega". Eleger a quietude, o silêncio e a paciência para conhecer e aprofundar indefinidamente as coisas dadas.
Eis o ócio que Karl Kraus (1874-1936) nos propõe: "Se o lugar aonde quero chegar só puder ser alcançado subindo uma escada, eu me recusarei a fazê-lo. Porque lá aonde eu quero realmente ir, na realidade já devo estar nele. Aquilo que devo alcançar servindo-me de uma escada não me interessa".

"O que importa hoje, talvez, é propor a luta do progresso contra o progresso; isto é, a valorização do progresso do espírito, a valorização dos valores"
"Além de praticar crime contra a sociedade do trabalho, o preguiçoso comete pecado capital. Pela lógica do mundo do trabalho e da igreja, deve sentir-se culpado"
"O trabalho meditativo do ocioso é sem finalidade, sem "telos", um trabalho sem fim; exige muito mais trabalho do que o trabalho mecânico"
"O trabalhador é fixado no aparelho produtivo, no qual "o tempo da vida está submetido ao tempo da produção". O trabalho sequestrou o tempo"

Imigração traz prosperidade

IAN GOLDFIN E GEOFFREY CAMERON

Imigração traz prosperidade



Limitar a imigração cria um mundo menos próspero, mais desigual e mais compartimentado


Em quase todos os países ricos, há entusiasmo febril por medidas anti-imigração. Mas essa é uma doença contra a qual é necessário resistir.
Um aumento na imigração, no mundo inteiro, é desejável por quatro motivos: é uma fonte de inovação e dinamismo; responde à escassez de mão de obra; ajuda a enfrentar o desafio de populações que envelhecem rapidamente; e oferece uma fuga da pobreza e das perseguições. Limitar a imigração cria um mundo menos próspero, mais desigual e mais compartimentado.
A despeito da oposição política interna nos países destinatários, o número de migrantes internacionais dobrou nos últimos 25 anos e duplicará de novo até 2030.
Diante de uma globalização acelerada, a combinação entre aumento estimado na população mundial, custos mais baixos para o transporte, melhor conectividade e redes sociais e econômicas ligando diferentes nações deve conduzir a um movimento ampliado de pessoas.
E, no entanto, embora a redução gradual das barreiras aos fluxos internacionais de capital, bens e serviços tenha sido uma grande realização recente, a migração internacional jamais foi tão controlada. Economistas clássicos como John Stuart Mill achavam que isso fosse tanto economicamente ilógico como eticamente inaceitável. Adam Smith objetava a tudo que obstruísse "a livre circulação de mão de obra de um emprego a outro".
Quando veio o século 19, os motores a vapor e outros meios de transporte permitiram que um terço da população da Escandinávia, da Irlanda e de partes da Itália emigrasse. Milhões de europeus fugiram da pobreza e da perseguição, além de alimentar o desenvolvimento de EUA e o Reino Unido.
A ascensão do nacionalismo antes da Primeira Guerra Mundial gerou a adoção generalizada de um sistema de passaportes e deu início a um regime de controle mais severo do movimento internacional de pessoas. Um século mais tarde, a despeito da queda nas barreiras ao comércio, ao financiamento e ao fluxo de informações entre os países, as barreiras à mobilidade pessoal se tornaram ainda maiores.
Cerca de 200 milhões de pessoas, ou 3% da população mundial, vivem hoje em países diferentes daqueles em que nasceram. Em nosso livro "Exceptional People", demonstramos que elas propiciam benefícios às sociedades que as recebem.
Nos EUA, por exemplo, os imigrantes contribuem com mais de metade dos pedidos de patentes e em igual proporção para criar novas empresas no Vale do Silício. Além de pagar mais impostos do que recebem em benefícios do governo.
Avanços na medicina e na saúde pública elevaram a longevidade nos países desenvolvidos, mas os níveis de natalidade persistentemente baixos e o fim do baby boom posterior à Segunda Guerra Mundial significam que o número de trabalhadores nascidos nessas nações cairá nos próximos anos.
Os efeitos da queda na força de trabalho serão agravados pelos avanços em realizações educacionais dos países desenvolvidos, que farão o número interessados em empregos de baixa capacitação no setor de serviços ou em setores como a construção civil se reduzir.
Para os países que eles deixam, os emigrantes muitas vezes representam uma fuga de cérebros. Mesmo assim, contribuem de forma significativa para suas terras natais. Taiwan e Israel são prova do papel que emigrantes podem desempenhar, com suas diásporas desempenhando papel vital em termos de apoio político, fluxos de investimento e transferência de tecnologia.
Além disso, a emigração muitas vezes serve como forma mais efetiva de combater a pobreza. As remessas de dinheiro de emigrantes a seus países natais excederam os US$ 440 bilhões em 2010, e mais de dois terços desse total se destinou a países em desenvolvimento.
Hoje, países poderosos argumentam contra a reforma nas leis de imigração e o desenvolvimento de uma organização mundial que desenvolva normas unificadas para o assunto. Mas um aumento na imigração interessa a todos, e o debate público sobre isso é importante demais para ser deixado aos políticos. Uma reflexão profunda precisa ser acompanhada por ações audaciosas.


IAN GOLDIN é diretor da Martin School, na Universidade Oxford e pesquisador catedrático no Balliol College.
GEOFFREY CAMERON é pesquisador associado na instituição. Este artigo foi distribuído pelo Project Syndicate.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Conversa sobre o nada

MARCELO GLEISER


A física quântica leva à conclusão de que o nada, no sentido de ausência de tudo, não existe

O nada, por incrível que pareça,vem ocupando a imaginação de filósofos e cientistas há milênios. Coisa simples, não é? Imaginar a ausência de tudo, o vazio absoluto, não deve ser tão complicado. Grande engano. Se a ideia do nada como a ausência total de matéria é trivial, quando pensamos um pouco mais sobre o assunto, a coisa complica.
Foram os atomistas Leucipo e Demócrito, na Grécia do século 5 a.C., que tiveram uma grande sacada: e se o cosmo contivesse duas coisas, os átomos que constituem a matéria e o vazio onde se movem? Com isso, na ausência de um átomo, existe apenas o espaço vazio.
Aristóteles, um século mais tarde, descartou a ideia. Para ele,o espaço vazio era uma impossibilidade. Existe sempre algo preenchendo o vazio, que ele chamou de "éter". Caso contrário, ponderou, objetos poderiam atingir velocidades infinitas, algo que não parecia possível.
As ideias sobre o vazio de Aristóteles, Mesmo que transformadas, retomaram força com o francês René Descartes no século 18. Para ele, o vazio também não existia. Uma forma de matéria fluida preenchia o espaço.
Para explicar as órbitas dos planetas em torno do Sol ou da Lua em torno da Terra, descartes supôs que esse fluido, ao girar, criava uma espécie de redemoinho que levava os planetas em suas órbitas.
Newton, um pouco mais tarde, demonstrou matematicamente que o espaço não pode ser preenchido por um fluido: sua viscosidade faria com que os planetas espiralassem sobre o Sol. O nada voltou a existir.
Quando, no século 19, foi descoberto que a luz é uma onda eletromagnética, a questão do meio material em que essa onda se propagava veio à tona. Afinal, ondas de água se propagam na água, ondas de som no ar. Qual o meio em que as ondas de luz viajavam? Foi sugerido que o espaço, afinal, não era vazio; existia uma espécie de fluido que permitia a propagação das ondas de luz. Em 1887, porém, um experimento que visava confirmar a existência do éter falhou. A luz e a sua propagação se tornaram um grande mistério, que só foi resolvido em 1905, quando Einstein propôs que a luz não precisava de meio algum para se propagar. O nada voltou, triunfante. Mas não por muito tempo.
Na década de 1920, com a mecânica quântica, a física que estuda os átomos e partículas, ficou claro que conceitos do nosso dia a dia precisavam ser revisados radicalmente. Entre eles, a noção de que objetos podem ficar parados.
No mundo dos átomos, tudo vibra incessantemente. Com isso, sempre existe uma energia residual, cujo valor flutua aleatoriamente. Juntando isso ao fato de que a energia e a matéria estão intimamente relacionadas, flutuações de energia são convertidas em partículas de matéria.
Dadas as flutuações de energia,partículas de matéria podem surgir do nada. A física quântica leva à conclusão de que o nada, no sentido de ausência de tudo, não existe.
Em1998, essa história ganhou um novo capítulo. Foi descoberto que o Universo está em expansão acelerada.
Entre as explicações sugeridas para isso, a mais plausível é que o efeito seja gerado pela energia do vazio, as tais flutuações quânticas.
Nesse o caso, o nada, ou sua versão quântica, é responsável pelo destino do nosso Universo.

MARCELO GLEISER éprofessor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"

A primavera delas

Mulheres árabes retratam a pedido da Folha a situação feminina após revoltas

DIOGO BERCITO
DE SÃO PAULO

Elas estão nas ruas. De cabelo solto ou escondido pelo véu, as mulheres participaram ao lado dos homens dos protestos que derrubaram ditadores no Egito e na Tunísia.
E é na rua que elas devem seguir, manifestando-se, para garantir que a Primavera Árabe -que está completando seis meses- ajude-as a conquistar seus direitos.
"Podemos ter a impressão de que as revoltas representam avanços para as mulheres, mas isso depende do sistema político que virá", diz à Folha Adel Abdellatif, chefe do programa de desenvolvimento da ONU no escritório regional para países árabes. "No caso do Iraque, a invasão americana não deu poderes às mulheres", exemplifica. "A questão é se elas terão voz na hora de escrever as novas Constituições."
A egípcia Fatemah Khafagy, da ONG Alliance for Arab Women, concorda -e aponta que o momento é propício para progressos, mas também traz o risco de retrocessos.
A ativista teme que, com a ascensão de grupos radicais islâmicos, as mulheres percam direitos na região. "A junta militar quer revisar leis sobre o casamento e a guarda de filhos", diz. "Eles alegam que foram aprovadas por um governo corrupto."
Para Khafagy, a participação política tem de ser, por enquanto, a prioridade da luta das mulheres na região.
"A mutilação genital [problema grave no Egito] não é o nosso foco agora. Se não formos representadas politicamente, não conseguiremos garantir os outros direitos."
As violações às mulheres variam conforme a região, com Tunísia e Egito como exemplo de avanços e a Arábia Saudita, de retrocessos. A luta, para Abdellatif, não está no uso ou não do véu, "mas em direito ao trabalho, igualdade na família, acesso a serviços públicos", afirma.
Arlene Clemesha, coordenadora do Centro de Estudos Árabes da USP, soma a divisão de tarefas domésticas e a escolha do marido à lista. As mudanças, diz, têm de vir de dentro, e não ser impostas.
"Pensam que as mulheres têm de ser defendidas. Mas o que elas precisam é de solidariedade para poderem se proteger sozinhas", diz. "A situação das mulheres serve para justificar intervenções."
A opinião dá pistas sobre a demora dos EUA em criticar o governo da Arábia Saudita, onde, em junho, mulheres foram presas por dirigir.
"Eles não podem reclamar, por causa do nosso petróleo", diz o saudita Zaki Safar, organizador do movimento Women2Drive -que organiza manifestações pelo país.
A entidade pediu publicamente que Hillary Clinton, secretária de Estado dos EUA, se pronunciasse a favor das mulheres sauditas. Ela levou semanas para isso.
"Não acho que foi sincero", diz Safar. "Além de ter sido inútil, porque ela só se posicionou quando não tinha nada a perder -ao contrário de nossas mulheres, que foram presas."