quinta-feira, 30 de junho de 2011

Reunião de textos ilustra tradição de polêmicas

ANÁLISE

LUIZ FERNANDO RAMOS
CRÍTICO DA FOLHA

O inesgotável Nelson Rodrigues. Às vésperas do centenário, sua obra dramática segue sendo posta à prova.
A reunião de quase todas as críticas publicadas sobre suas encenações insere-se numa tradição de polêmicas que o autor foi amealhando ao longo de sua jornada como dramaturgo.
Em 1943, foi o espanto com a montagem de "Vestido de Noiva" pelo recém-chegado encenador polonês Ziembinski (1908-1978). Em seguida, a náusea causada pelo seu "teatro desagradável" que o afastou do grande público e revoltou os críticos.
Já nos anos 1950, a reconciliação parcial com a crítica e a volta aos braços do povo. O tom sociológico de "Boca de Ouro", de José Renato Pécora (1926-2011), em 1961, marca o flerte da esquerda com ele, que se transformaria em ódio ao reacionário aliado à ditadura militar.
Nos 1980, Antunes Filho resgata-o do ostracismo e inventa um Nelson mítico, na ótica da psicanálise junguiana e encenado em bases não naturalistas. Começa um longo período de resgate que eleva o autor aos píncaros da glória. Nove entre dez encenadores passam a montá-lo.
Mais recentemente, "Memória da Cana" criou mais uma pele nesse Nelson múltiplo que veio sendo lapidado pelo tempo. Desta vez foi sua condição pernambucana e o seu diálogo com Gilberto Freyre o mote da revisão.
Obras são medidas pela capacidade de provocar a cada época. Até aqui, seu teatro vem se provando eterno.

Arqueólogos acham 'caixão' de família que julgou Jesus Cristo

Ossuário encontrado em Israel é de parente do sacerdote Caifás

Sebastian Scheiner/Associated Press
Funcionário da Autoridade Israelense de Antiguidades mostra inscrição em ossuário

REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE CIÊNCIA E SAÚDE

Arqueólogos israelenses confirmaram a autenticidade de um ossuário (caixa usada para guardar ossos depois da fase inicial de sepultamento) pertencente à família do sacerdote que teria conduzido o julgamento de Jesus.
A peça, feita em pedra e decorada com motivos florais estilizados, data provavelmente do primeiro século da Era Cristã -tem, portanto, uns 2.000 anos.
A inscrição no ossuário, em aramaico ("primo" do hebraico, língua do cotidiano na região durante a época de Cristo), diz: "Miriam [Maria], filha de Yeshua [Jesus], filho de Caifás, sacerdote de Maazias de Beth Imri".
O nome "Caifás" é a pista crucial, afirmam os arqueólogos Boaz Zissu, da Universidade Bar-Ilan, e Yuval Goren, da Universidade de Tel-Aviv, que estudaram a peça.
Afinal, José Caifás é o nome do sumo sacerdote do Templo de Jerusalém que, segundo os Evangelhos, participou do interrogatório que levaria à morte de Jesus junto com seu sogro, Anás.
Não se sabe se Miriam seria neta do próprio Caifás bíblico ou de algum outro membro da família sacerdotal. O ossuário, no entanto, liga a parentela à casta de Maazias, um dos 24 grupos sacerdotais que serviam no Templo.
O governo israelense diz que o ossuário estava nas mãos de traficantes de antiguidades, impedindo o estudo de seu contexto original.

Grécia evita "suicídio", mas fica na UTI

Governo consegue aprovação apertada no Parlamento de pacote de austeridade de € 78 bilhões para 2012-2015

Programa era condição de europeus e do FMI para liberar próxima parcela de resgate e um segundo socorro ao país

CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A ATENAS

O Parlamento grego evitou ontem o "suicídio" do país, termo usado pelo presidente do Banco Central, George Provopoulos, para designar a eventual rejeição do programa de austeridade 2012/15, imposto pela União Europeia e pelo Fundo Monetário e encampado, por falta de alternativas, pelo primeiro-ministro George Papandreou.
O duro pacote -€ 78 bilhões, que, no Brasil, como idêntica proporção do PIB, corresponderiam a inacreditáveis R$ 900 bilhões- foi aprovado por 155 votos contra 138 e cinco abstenções.
Com isso, a Grécia se habilita não só a receber uma cota de € 12 bilhões relativa ao primeiro socorro da UE/FMI, mas também a uma segunda ajuda, maior ainda, que lhe permita evitar algum tipo de calote de sua imponente dívida de € 355 bilhões -o que significa que cada grego, até os que nasceram ontem, deve € 30 mil.
Se evitou o suposto suicídio que seria o calote, a Grécia nem remotamente saiu da UTI.
A melhor avaliação do quadro é feita exatamente por um ícone dos mercados -os grandes responsáveis pela crise, na visão dos "indignados" que acampam há três semanas na praça Syntagma, coração de Atenas, e na qual fica o Parlamento.
Mohamed El-Erian, do fundo Pimco de investimentos, afirma:
"O problema da Grécia se deve a dois problemas interrelacionados: a economia é incapaz de crescer e o peso da dívida é enorme. Não obstante, nem um fator nem o outro tiveram influência suficiente no enfoque da coalizão de gerenciamento da crise" (alusão à "troika" UE/FMI/Banco Central Europeu).
Desde a introdução, há um ano, do primeiro programa de auxílio, acoplado ao primeiro plano de ajuste, os indicadores gregos só fizeram piorar: a retração no crescimento, originalmente estimada em 2,6% para este ano, acaba de ser revista para 3%.
A taxa de desemprego alcançou 15,9% no primeiro trimestre, quase 50% acima dos 11,7% do primeiro trimestre de 2010. Entre os jovens de 15 a 29 anos, é pior: 30,9% de desemprego.

INSATISFAÇÃO
É ilógico supor que um novo corte de gastos, com demissão de funcionários públicos, mais aumento de impostos tenha efeito positivo sobre o crescimento.
Daí à insatisfação generalizada é um passo: pesquisa do jornal "Kathimerini" ("O Diário") mostrou que 87% dos gregos acham que o país adotou rumo errado.
É só a fatia mais mobilizada dessa maioria que acampa há três semanas na praça Syntagma, em protesto espontâneo e que deveria ser pacífico. Mas, ontem e anteontem, grupos de radicais invadiram também a praça e provocaram uma batalha campal com a polícia. Também se juntaram aos "indignados" os militantes sindicais que promoveram uma greve geral de 48 horas, a terceira neste ano.
Aos "indignados" que se concentram na Syntagma junta-se um grupo de grosso calibre de "desconfiados": temerosos de um calote, cujas vítimas principais seriam exatamente os bancos gregos, promovem silenciosa fuga de divisas, à razão de € 2,8 bilhões por mês no primeiro quadrimestre.
A aprovação do pacote pode ter evitado o "suicídio" pelo calote, mas será insuficiente para tirar a palavra de circulação, a julgar pela avaliação de Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group, consultoria de risco político, em "blog" na edição eletrônica do "Financial Times":
"Com o voto de hoje [ontem] a favor de um plano fiscal de médio prazo, a Grécia escapou por pouco do perigo imediato de colapso financeiro. Mas será uma vitória de curta vida para o governo grego: nos próximos dias e meses, uma série de decisões cruciais estará pendente. A perspectiva tanto de um 'default' fiscal como de uma crise política raramente estará longe das manchetes".

Polícia religiosa saudita detém cinco mulheres por dirigir

ARÁBIA SAUDITA

DE SÃO PAULO - Cinco sauditas foram detidas nesta semana por desafiar a norma que proíbe mulheres de dirigir nas ruas do país.
As informações foram divulgadas pela ativista Eman al Nafjan. Ela diz que as prisões ocorreram anteontem em Jidda, no mar Vermelho. É a primeira grande represália do governo desde 17 de junho, quando dezenas de mulheres dirigiram no país.
A Folha entrou em contato com a organização do Women2Drive, que esteve por trás dos protestos de meados do mês na Arábia Saudita. O engenheiro Zaki Safar, 26, um dos responsáveis pelo grupo, confirmou as cinco prisões.
"Elas foram detidas pela polícia religiosa durante duas horas e tiveram de ser buscadas quase à força por suas famílias", disse.
Elas terão de retornar para prestar esclarecimentos sobre o assunto.

Filha de Che diz temer reformas em Cuba

Aleida Guevara nega que regime mantenha presos políticos e diz não respeitar as 'damas de branco' oposicionistas

Médica afirma que as mudanças econômicas em curso na ilha podem modificar a consciência social da população

ELEONORA DE LUCENA
ENVIADA ESPECIAL AO RIO

Ela se declara apenas uma militante da base do Partido Comunista Cubano, mas carrega o sobrenome de um mito da esquerda. Aos 50 anos, a pediatra Aleida Guevara se ocupa em cuidar da memória do pai e faz uma defesa inflamada do modelo da ilha.
Nesta entrevista, ela expressa seu temor de que as reformas em curso na ilha -que permitiram a venda de imóveis e carros- afetem a consciência social da população. No Brasil para dar palestras, ela fala de política e da herança de Che Guevara.



Folha - Como vão as coisas em Cuba?
Aleida Guevara -
Buscamos solucionar problemas. O Estado não pode seguir sustentando quem trabalha sem produzir. Quando perdemos o campo socialista europeu, Cuba sofreu uma crise brutal, e o Estado amparou todos por todo esse tempo. A situação da economia interna melhorou -logo, há possibilidades para que essas pessoas trabalhem independentemente.

Foi aberta a possibilidade da propriedade privada de imóveis e carros.
Digamos que não é propriedade privada. Se eu tivesse pago por um carro, era meu, mas eu não podia vendê-lo. Agora posso, legalmente.

Não acha que isso conflita com o princípio socialista?
Não. O Estado segue sendo socialista porque não há privatização nos grandes meios de produção. Nisso não se tocou e não se vai tocar. O povo cubano segue sendo dono de tudo o que se produz no país.
A questão não está em vender a tua casa ou o teu carro, o que é bom que possamos fazer livremente. A questão está em que agora há trabalhadores por conta própria. Esses vão buscar seu benefício pessoal. Meu temor pessoal como cidadã -não tenho nada a ver com a direção do governo cubano; sou uma médica- é que as pessoas que comecem a trabalhar para si mesmas percam um pouco a consciência social. O homem pensa segundo vive. Se você só vive interessado em melhorar sua casa, a vestimenta, em ter dinheiro no bolso, esquece que a escola infantil da esquina, dos seus filhos, precisa de uma mão de pintura.

Como a sra. responde à afirmação de que Cuba é uma ditadura?
É total falta de conhecimento da realidade cubana. Temos eleições populares, muito mais democráticas que as de qualquer outro país. O povo elege diretamente seus candidatos, desde a base.

Mas o partido é único.
O partido não tem nada que ver com as eleições. O partido é o dirigente. As eleições são de baixo, do povo.

Não há problema de renovação de lideranças?
O povo cubano conhece a sua gente. Querem que sigam dirigindo. Se fizeram bem até agora, por que mudar? Estamos seguros com Raúl.

Como justificar a oposição, os presos políticos?
Presos políticos são presos por ideias. Em Cuba, não existem. Há presos por ações contra o povo, como pôr veneno na água de uma escola, tentar incendiar a telefonia. É terrorismo. Há mercenários pagos por EUA e europeus por passar ao FBI informações que prejudicam o país.

E as damas de branco?
São uma vergonha para mim como mulher. O que pedem? Que se deixem livres assassinos, terroristas, pessoas que atacaram a economia de seu próprio povo, mercenários que se venderam aos interesses de EUA e Europa?
Por que não valorizam a sociedade que cuida da pessoa desde que nasce até o fim da vida? Onde a educação é gratuita, não importa se és dama de branco, preto ou verde? Não posso respeitá-las.

Há democracia em Cuba?
A democracia é o poder do povo. E um Estado de direitos para todos os cidadãos. Isso em Cuba existe. O que o povo diz é o que se faz. O povo tem sempre a última palavra.

O embargo não mudou com Obama?
O bloqueio. Os EUA têm o direito de embargar suas relações com Cuba. Não protestamos contra isso. Protestamos quando os EUA têm o propósito de que nenhum outro país comercialize livremente com Cuba. Isso é o bloqueio.
Acreditávamos que Obama teria outras perspectivas, mas nos equivocamos. Ele responde aos interesses da grande indústria. Prometeu que fecharia a base de Guantánamo e isso não ocorreu até agora. Seguem tendo presos ilegais em nosso território. Essa base é roubada de Cuba.

Há quem diga que a Primavera Árabe pode chegar a Cuba. A sra. teme isso?
É muito diferente. A Revolução Cubana é de base, do povo. No mundo árabe, não houve revoluções desde as bases. Hoje, há muita manipulação de grupos incomodados por falta de poder.

Como é lidar com o mito Che?
Mito, não. Quando se fala de Cristo, ele é muito distante do ser humano, não se sabe se existiu ou não. Che não pode se converter em um mito. Era um homem como qualquer um de nós. Isso é o que o faz bonito, completo: sendo humano, com todos os problemas e deficiências, soube ser um ser humano melhor. O que queremos é seguir esse exemplo de vida, de ação, de honestidade, de integridade.

A sra. quase não conviveu com ele.
Tinha quatro anos e meio quando ele partiu para o Congo. Lembro dos últimos momentos antes da viagem. Meu irmão Ernesto tinha só um mês. Tenho uma imagem de minha mãe, com meu irmão apoiado em seu ombro. Eu estou embaixo, olhando a cena. Meu pai está vestido como militar e tocando com uma mão muito grande a cabecinha do bebê.
Essa imagem sempre me ficou na retina. Sou mãe e me ponho a pensar naquele momento, quem sabe de despedida. Quanta preocupação ele poderia estar tendo com esse bebê, se quando crescer ele iria entender por que ele não estava. [Chora, tentando conter as lágrimas.]
E esse momento me faz pensar em meu pai com muito amor, com muita força. Era um homem capaz de amar com tanta ternura e, ao mesmo tempo, de seguir seu caminho, de saber que era mais útil noutro lugar. É o melhor exemplo de um verdadeiro homem e verdadeiro comunista: oferecer o melhor da sua vida apesar de si mesmo.
Depois, houve outro momento quando ele regressou do Congo, já disfarçado. Não sabia que era papai. Nessa noite eu caí, bati forte a cabeça. Ele me tomou nos seus braços, me protegeu. No fim, eu disse alto: mamãe, acho que esse homem está apaixonado por mim.
Deve ter sido muito duro para ele -não pôde me explicar porque me queria de maneira especial. Mas para mim foi ótimo. Quando soube que era meu pai, senti que me amava de uma maneira muito especial, e isso é bonito para qualquer filho.

Esse momento do disfarce está no filme de Steven Soderbergh. A sra. gostou do filme?
Não, porque não se vê meu pai como formador de homens. O filme de Walter Salles [Diários de Motocicleta] é muito melhor, mais real.

Como avalia a manutenção da memória sobre o seu pai?
Muitas coisas faltam. Uma das mais importantes é que não há publicações suficientes para os jovens. Fazê-las é um dos objetivos do Centro de Estudos Che Guevara.

FOLHA.com
Leia a íntegra da entrevista
www.folha.com/mu936644

Acordo antidroga entre Brasil, EUA e Bolívia não sai do papel

Governos Dilma e Evo dão explicações distintas para demora em executar o plano de cooperação
Brasília vê 'ajustes' necessários e La Paz dá tarefa como 'pronta'; entrave seria receio boliviano com os EUA

ANDREA MURTA
DE WASHINGTON

A demora na assinatura de um acordo pronto há mais de um mês entre Brasil, Bolívia e EUA para monitoramento de drogas no país andino suscita desde cobranças a Brasília até sugestões de novo racha interno em La Paz quanto à inclusão de Washington.
Posições oficiais sobre a razão do atraso são conflitantes. O vice-ministro boliviano da Defesa Social, Felipe Cáceres, diz que tudo está pronto e só "depende do Brasil".
Analistas estranham a lentidão brasileira em rever o acordo. À Folha, o governo brasileiro negou que ele esteja emperrado.
Segundo o Ministério da Justiça, ele segue o seu "trâmite normal" e passa por "alguns ajustes jurídicos e financeiros".
Contudo, o governo não detalhou se os ajustes são parte do processo ou foram pedidos por uma das partes.
Há suspeitas de que a revisão do texto visa amainar desconfianças dos bolivianos.
O objetivo declarado do acordo é "desenvolver um sistema integrado de controle da redução de cultivos ilícitos de coca e identificar novas zonas onde esses cultivos tenham sido expandidos".
A função dos EUA, segundo rascunho do memorando a que a Folha teve acesso, é fornecer equipamento de GPS e aparelhos de medição a laser, além de treinamento dos seus operadores.
O Brasil oferecerá "imagens [de satélite] e capacitação", além de fundos de valor não revelado. O país tenta incluir os EUA em um pacto trilateral dessa natureza há anos e luta contra a desconfiança da Bolívia.
Funcionários do governo local indicaram aumento das diferenças internas em La Paz quanto ao texto do memorando. O possível envio de especialistas americanos ao país preocupa setores de La Paz.
"Enquanto o Ministério de Governo e o Vice-Ministério de Segurança Social apoiam, outros creem que será aberta brecha para retorno da presença física de agentes da DEA [agência antidrogas americana, expulsa em 2008] à Bolívia", disse à Folha um analista local que acompanha de perto as negociações.
"Se voltarão não é certo, mas terão acesso às imagens de monitoramento via satélite, e isso incomoda por aqui. Há dúvidas de segurança nacional e até filosóficas."
A DEA foi expulsa após acusação de espionagem e apoio à oposição ao presidente Evo Morales. Washington manteve cooperação por meio de assistência financeira, mas o volume dos aportes vem caindo.
Negociadores brasileiros sabem que o Brasil será usado como espécie de "garantia" pelos bolivianos contra os americanos, mas acham que contar com suporte político e financeiro dos EUA em um país cuja política antidrogas é questionada internacionalmente compensa o risco.

Colaborou ISABEL FLECK, de São Paulo

Dilma quer proteger Mercosul de "invasão"

DO ENVIADO A ASSUNÇÃO

A presidente Dilma Rousseff defendeu ontem em Assunção, no Paraguai, uma regulação dos mercados do Cone Sul que os preserve de invasão estrangeira.
Em cúpula dos países do bloco, Dilma repisou proposta apresentada pelo ministro Guido Mantega (Fazenda), afirmando que o Mercosul precisa reequilibrar o atual cenário comercial, marcado cada vez mais pela presença de produtos chineses.
A presidente defendeu a adoção de medidas protecionistas contra a invasão não apenas de mercadorias da China, mas também dos EUA.
Segundo ela, produtos estrangeiros que não ocupam espaço nos mercados de seus próprios países vêm para a América do Sul, prejudicando a indústria local.
"Temos que cuidar dos mercados que servem de estímulo para o nosso crescimento e agregar valor aos nossos produtos", disse.
A proposta apresentada pelo Brasil ainda será discutida. Segundo Mantega disse à Folha, a ideia é aumentar o número de produtos não tarifados no Mercosul, com o objetivo de encarecer a importação estrangeira, favorecendo, assim, o comércio dentro do bloco.
No encerramento da 41º cúpula de presidentes do Mercosul, ontem, o Paraguai transferiu para o Uruguai a presidência temporária do bloco comercial.
A adoção de barreiras comerciais, um dos maiores entraves do Mercosul e causa de recente atrito entre Brasil e Argentina, não foi discutida.
"As pessoas ficam doentes", limitou-se a responder Dilma sobre a ausência de Cristina Kirchner, com quem iria se encontrar para tratar do tema. A presidente argentina cancelou a viagem para o Paraguai por causa de uma lesão na testa. (LUCAS FERRAZ)

Saúde de Chávez leva a cancelamento de cúpula regional

Adiamento alimenta especulações sobre estado do líder venezuelano, que se recupera em Cuba de cirurgia

Encontro seria também para marcar os 200 anos da independência da Venezuela; retorno de presidente é incerto

Juan Barreto/France Presse
Homem lê jornal que mostra foto de Hugo Chávez com o ex-ditador cubano Fidel Castro

FLÁVIA MARREIRO
DE CARACAS

LUCAS FERRAZ
ENVIADO ESPECIAL A ASSUNÇÃO

ISABEL FLECK
DE SÃO PAULO

O governo da Venezuela cancelou ontem a cúpula dos países da América Latina e do Caribe marcada para a próxima terça-feira, em comemoração ao bicentenário do país, dando como razão o estado de saúde do presidente Hugo Chávez.
O comunicado de que Chávez está em "tratamento sumamente [altamente] estrito" em Cuba, feito na TV estatal venezuelana, dá fôlego aos rumores sobre o quadro clínico dele.
Chávez se recupera de uma cirurgia feita no último dia 10. A versão oficial é que ele operou um abcesso (acúmulo de pus resultante de uma infecção) na região da pélvis. A imprensa local especula que teria câncer.
Momentos antes, ministros e apoiadores do governo haviam comemorado a exibição de um vídeo pela TV estatal em que Chávez conversa com seu mentor e maior aliado político, o ex-ditador cubano Fidel Castro.
Bastante mais magro, o presidente venezuelano aparece de pé e caminhando.
As imagens provariam, segundo o vice-presidente Elias Jaua, os anúncios do governo de que o presidente está "em franca recuperação".

DÚVIDAS
Além da Calc (Cúpula da América Latina e do Caribe), que oficialmente foi adiada para o segundo semestre, o principal evento do bicentenário da Venezuela é uma parada militar, também terça.
Uma dúvida agora é se Chávez conseguirá participar deste evento, de simbolismo único para ele, que se diz herdeiro do herói da independência, Simón Bolívar.
A embaixada da Venezuela em Brasília afirmou que não há alteração prevista para as comemorações. No entanto, a presença de Chávez não está confirmada.
O Planalto está aguardando uma confirmação oficial de que as comemorações vão, de fato, ocorrer para designar quem representará a presidente Dilma na cerimônia.
Também não se sabe que dia Chávez retornará de Cuba, de onde vem governando à distância.
No último dia 22, o irmão do presidente, Adán Chávez, disse que ele deveria voltar "em 10 ou 12 dias" _ou seja, até a próxima segunda-feira.
Oficialmente, o Itamaraty não demonstra preocupação com a saúde de Chávez.
O chanceler Antônio Patriota, contudo, telefonou para o embaixador da Venezuela no Brasil, Maximilien Sanchez, na última segunda-feira, para obter informações sobre a saúde dele e desejar rápida recuperação.
O adiamento foi um dos temas da cúpula do Mercosul, em Assunção.
"[O cancelamento] foi recomendação médica. Nicolas Maduro [chanceler da Venezuela] teve a delicadeza de me ligar e avisar", disse Patriota.
Ontem, antes de o governo brasileiro ser avisado do cancelamento, Marco Aurélio Garcia, assessor de política externa da Presidência, havia dito que Chávez voltaria ao seu país na próxima semana.
Folha de São Paulo, 30/06/2011
"A informação que recebemos da Venezuela é que está tudo mantido", disse.

Casamento gay

KENNETH MAXWELL


No final de semana passado, paradas do orgulho gay foram realizadas em São Paulo bem como em outras grandes cidades do planeta. Em Nova York, a parada anual tinha um motivo adicional para orgulho: o Senado estadual de Nova York, com apoio do governador Andrew Cuomo, havia acabado de votar pela legalização do casamento gay.
No Brasil, o STF (Supremo Tribunal Federal), em 5 de maio, reconheceu casais homossexuais como unidades familiares. Nesta semana, o juiz Fernando Henrique Pinto, de Jacareí (SP), converteu a união estável de Luiz André Moresi, 37, e José Sérgio Souza, 29, em casamento.
A opinião pública mudou dramaticamente em relação ao casamento gay, no Brasil como nos Estados Unidos, onde pesquisas feitas em maio demonstravam que 53% dos norte-americanos agora apoiam o casamento gay.
Em dezembro do ano passado, o presidente Barack Obama assinou uma lei que revoga as restrições ao serviço de pessoas abertamente homossexuais nas Forças Armadas, pondo fim ao regime de "não pergunte, não revele".
Andrew Cuomo é filho de Mario Cuomo, que também foi governador de Nova York. Serviu como secretário da Habitação e Desenvolvimento Urbano na presidência de Bill Clinton, mas se desentendeu com as lideranças negras e hispânicas do Partido Democrata.
Passou por um divórcio conflituoso de Kerry Kennedy, filha do senador Robert Kennedy, morto em 1968. Mas, mesmo assim, tornou-se secretário da Justiça em Nova York, e reconstruiu sua base política ao investigar, de modo agressivo, Wall Street depois da crise de 2008/09.
Sua vitória com a aprovação do casamento gay, como governador, só serve para aprimorar sua reputação. Mas a euforia é prematura.
A despeito da decisão do STF, o juiz Jerônymo Villas Boas, em Goiás, cancelou a união civil de um casal gay. A Igreja Católica se opõe ao casamento gay. O mesmo vale para os evangélicos. O Grupo Gay da Bahia calcula que 260 homossexuais tenham sido assassinados no Brasil no ano passado, ante 113 cinco anos antes.
A deputada federal americana Michele Bachmann, de Minnesota, que é ferozmente conservadora, inimiga da homossexualidade e uma das líderes do Tea Party, acaba de lançar sua campanha pela indicação presidencial republicana, em Waterloo, Iowa.
Ela declarou que, "como John Wayne, sou de Waterloo, Iowa, e tenho o mesmo espírito que ele". Mas o ator John Wayne, "The Duke", na verdade não era de Waterloo.
O John Wayne a quem Bachmann se referia era John Wayne Gacy, que morou em Waterloo. Gacy conquistou infâmia como assassino serial que estuprou e matou 33 gays adolescentes nos anos 70.


KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras na Folha de São Paulo

Tradução de PAULO MIGLIACCI

FMI

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Brasil quer mercado do Cone Sul só para a região

Tema será discutido na estreia de Dilma no bloco

LUCAS FERRAZ
ENVIADO ESPECIAL A ASSUNÇÃO

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, defendeu ontem, no Paraguai, que o mercado do Mercosul seja preservado para os países da própria América Latina. O objetivo é protegê-los contra a invasão de produtos chineses, americanos e europeus.
"Não é porque nossos países crescem mais que eles devem ser invadidos por produtos de quem não tem para onde vender", disse em Assunção, onde tem início hoje a 41º cúpula de presidentes do Mercosul.
Segundo o ministro, há um desespero generalizado das economias "dos EUA, dos países europeus e até dos asiáticos" em busca de clientes fora de seus mercados.
"Devemos cuidar para que nossos mercados sirvam para estimular o nosso crescimento, não o dos outros países", completou ele.
Segundo Mantega, a ideia de proteger o mercado do Cone Sul ainda depende de aprovação dos presidentes dos países-membros. O assunto será tratado hoje.

ESTREIA DE DILMA

Em sua estreia em cúpulas do Mercosul, a presidente Dilma Rousseff deveria se reunir hoje com a colega argentina, Cristina Kirchner, para discutir a crise causada por adoção de barreiras comerciais. Cristina, no entanto, cancelou sua presença por causa de uma lesão na testa.
O tema das barreiras é um dos principais problemas do Mercosul. Paraguaios e uruguaios também reclamam sobre as medidas protecionistas de Brasil e Argentina.
Dilma ainda terá uma reunião com o presidente Fernando Lugo. Um diplomata paraguaio disse à Folha que, além de agradecer pelo aumento da tarifa paga pela energia de Itaipu, Lugo quer do Brasil o compromisso de negociar uma nova alta.

Folha de São Paulo, 29/06/2011

Casa Branca anuncia acordo para votar 3 tratados de livre comércio

EUA

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS - A Casa Branca anunciou ontem ter chegado a acordo com o Congresso para votar tratados de livre-comércio com a Colômbia, a Coreia do Sul e o Panamá. A data da votação ainda não está definida.
O acordo incluirá o financiamento, até 2013, de um programa de benefícios para trabalhadores cujas vagas sejam transferidas a outros países.
A gestão Barack Obama vinha se recusando a submeter os tratados ao Congresso até que os parlamentares aceitassem estender o plano de benefícios. Segundo o governo, os acordos vão gerar dezenas de milhares de empregos.

Folha de São Paulo, 29/06/2011

Após escândalo sexual, FMI escolhe mulher

Francesa Christine Lagarde vence mexicano e dirigirá órgão após afastamento de Strauss-Kahn, acusado de estupro

Brasil apoia na última hora a candidatura e pede reformas no órgão; mudança vem em momento-chave

Gonzalo Fuentes/Reuters
A nova diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, deixa emissora de TV

LUCIANA COELHO
DE WASHINGTON

O FMI (Fundo Monetário Internacional) terá pela primeira vez uma mulher no comando, depois de seu último diretor-gerente ter sido acusado de estupro.
A francesa Christine Lagarde assumirá na próxima terça-feira seu mandato de cinco anos em um momento-chave da instituição.
No posto, terá de lidar com a resiliente crise na Europa, reformar o sistema de cotas do órgão multilateral de empréstimos e polir a imagem do fundo após um escândalo e a miopia ante o colapso econômico global.
Ela sucede a seu compatriota Dominique Strauss-Kahn, que renunciou depois de ser preso por suspeita de estupro e de atrair para o fundo a sombra do sexismo.
Os dois, porém, estão de lados opostos na política. Enquanto Strauss-Kahn era um peso-pesado do Partido Socialista, Lagarde é uma conservadora fiscal que se projetou no governo Sarkozy.
"Queridos amigos, é uma honra e uma alegria anunciar-lhes que o conselho administrativo do FMI me designou como diretora-gerente!", postou ela no Facebook.

VOTO EMERGENTE

Lagarde fez uma campanha intensa na mídia e rodou o mundo por apoio. O semanário francês "Le Canard Enchaîné" estima que a ex-ministra das Finanças tenha despendido desse modo ? 150 mil do governo.
O alvo maior foram os países emergentes -Brasil, China e Índia são críticos ao acordo tácito que divide os comandos do FMI e do Banco Mundial entre a Europa e os Estados Unidos.
Só a horas do anúncio o ministro brasileiro da Fazenda, Guido Mantega, chancelou Lagarde, condicionando o voto ao compromisso assumido por ela de ampliar o peso dos emergentes no fundo, não condizente com o porte econômico deles hoje.
Em nota, o ministério cobrou que o próximo diretor-gerente não seja "obrigatoriamente europeu".
Pouco antes, havia vindo o apoio de outros emergentes, como China e Rússia, e o protelado endosso dos EUA, por meio do secretário do Tesouro, Timothy Geithner, que enfatizou o aval emergente.
O diretor-gerente do FMI é escolhido pelo voto dos 24 membros do conselho administrativo, que falam pelos 187 países-membros, após entrevistas com candidatos indicados pelo primeiro escalão do fundo.
Para o brasileiro Paulo Nogueira Batista Jr., que vota pelo Brasil e por outros oito países, o tempo da seleção -cinco semanas- foi apertado.
"A decisão de voto só veio ontem [anteontem] à noite, após muita discussão", disse à Folha. "A consulta foi prejudicada pelo processo curto. Faltaram considerações."
Lagarde venceu o presidente do Banco Central do México, Agustín Carstens.

Folha de São Paulo, 29/06/2011

A pergunta

ANTONIO DELFIM NETTO
A grande pergunta a ser feita à sociedade brasileira (e, em particular, ao poder incumbente de plantão) é: como vamos proporcionar empregos de boa qualidade a quase 150 milhões de cidadãos com idade entre 15 e 65 anos que viverão em 2030?
Talvez seja bom recordar alguns preliminares:
1) Nossa memória é curta e nosso entusiasmo é grande. Esquecemos que "quebramos" duas vezes nos últimos 16 anos (1998 e 2002) e fomos socorridos pelo FMI para honrar nossos compromissos externos, o que garantiu a continuidade de nossa democracia;
2) Todas as crises que abortaram o crescimento do Brasil nos últimos 50 anos foram produzidas por dificuldades no financiamento do deficit em conta-corrente ou por uma crise de energia;
3) A grande mudança da situação externa não foi resultado de particular melhoria na política macroeconômica. Foi consequência da expansão mundial (da China, especialmente), que aumentou a demanda dos produtos que estávamos preparados para exportar (alimentos e minérios), cujos preços beneficiaram-se, adicionalmente, de um fantástico aumento. Parte importante de tal aumento deve-se à desvalorização do dólar promovida pela política monetária americana.
Tais setores são poupadores de mão de obra. Suas cadeias de serviços são suscetíveis de serem ampliadas, mas absolutamente incapazes de dar resposta à grande pergunta.
É uma grave ilusão supor que nada vai mudar nos próximos 20 anos. A "oferta" de alimentos e minérios está sendo estimulada em quase todos os países, inclusive pela própria China. Não existe, portanto, razão para acreditar que o nosso modelo agromineral-exportador induzido seja bem sucedido no longo prazo.
Além do mais, quem pode garantir que a China manterá, por mais 20 anos, a estrutura política atual (que já dá alguns sinais de fadiga)?
A alegre aceitação dessa "nova" divisão internacional do trabalho (para a China a indústria, para a Índia os serviços e para o Brasil alimentos e minérios) põe em risco o futuro da economia brasileira como necessário instrumento de construção de uma sociedade mais justa, com pequeno desemprego e suficiente emprego de boa qualidade em 2030.
Precisamos aproveitar a oportunidade (os bônus!) dos setores agrícola e mineral (o pré-sal) para nos livrar da trágica dependência externa e impedir que o pré-sal nos leve a outra dependência.
O que precisamos mesmo para responder à grande pergunta é continuar a aproveitar com inteligência os dois "bônus" e dar condições isonômicas a nossos empresários e trabalhadores para que construam o mercado interno que vai assegurar os bons empregos para nossos filhos e netos.


ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras na Folha de São Paulo
contatodelfimnetto@terra.com.br

Documentos Secretos

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Americanos querem ação para conter imigração

Vencedor do Pulitzer revela ser ilegal no país

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

Pela primeira vez desde 2006, a maioria dos americanos acredita ser "extremamente importante" uma ação do governo para deter o fluxo ilegal de imigrantes na fronteira do país.
A pesquisa do instituto Gallup mostra que 53% dos entrevistados colocaram essa preocupação no topo da agenda.
Outros 29% consideram o assunto "muito importante" e apenas 7% acreditam que o controle das fronteiras não deve receber tanta energia do governo Obama.
A sondagem, realizada entre os dias 9 e 12 últimos, mostra um aumento de 11 pontos na classificação "extremamente importante", em comparação com maio de 2010.
A preocupação, no entanto, é ligeiramente maior entre os mais velhos, homens e brancos.
Os republicanos são os mais envolvidos com o tema -68% o classificam como "extremamente importante", contra 42% dos democratas.
A percentagem de americanos que querem urgência nas ações também aumentou. Hoje, 43% deles querem uma solução comece a ser tomada neste ano, contra 36%, em 2010.
A maioria (55%), no entanto, prefere que a solução tenha como foco um maior rigor na fronteira, e não um plano para os imigrantes ilegais que já estão no país.

EXAUSTO DE SER ILEGAL

Em meio a uma crescente demanda por soluções para o problema da imigração nos Estados Unidos, um ex-repórter do "Washington Post" e vencedor do Pulitzer revelou que faz parte da imensa massa de ilegais no país.
Em artigo na versão on-line da revista do "New York Times", Jose Antonio Vargas disse estar "exausto" de esconder seu segredo.
Ele aproveitou o desabafo para fazer campanha pela aprovação, pelo Congresso, do "Dream Act", lei que prevê a cidadania a imigrantes que chegaram ao país com menos de 16 anos de idade e estudaram ou se alistaram para o serviço militar.
Vargas saiu das Filipinas com 12 anos para morar com os avós na Califórnia, mas disse só ter descoberto seu "status" quatro anos depois.
"Lembro que a minha primeira reação foi: 'Ok, é isso: [devo] me livrar do sotaque'", disse, em entrevista à ABC News. "Só pensava que não podia dar motivos para duvidarem que sou americano."
No artigo publicado pela revista, o jornalista contou os obstáculos que enfrentou para não ter seu segredo revelado. E admitiu que usava uma credencial falsa para cobrir eventos para o "Washington Post", inclusive um jantar na Casa Branca.
Folha de São Paulo, 23/06/2011

Militares são os grandes derrotados em decisão que privilegiou política e dinheiro

ANÁLISE
PATRÍCIA CAMPOS MELLO
DE SÃO PAULO

Ao anunciar uma retirada do Afeganistão mais rápida do que o esperado, o presidente Barack Obama se rendeu à pressão da população americana e do Orçamento dos EUA.
De olho na campanha para reeleição em 2012, ele decidiu ouvir as pesquisas de opinião e a gritaria sobre o tamanho do deficit americano, em vez de acolher as recomendações dos militares.
Segundo uma pesquisa do Pew Research Institute divulgada na segunda-feira, 56% dos americanos "acham que os EUA devem retirar suas tropas do Afeganistão o mais rápido possível."
Com a morte do líder da Al Qaeda, Osama bin Laden, no dia 1º de maio, a guerra ficou ainda mais difícil de ser justificada. Até os republicanos, para os quais uma retirada rápida do Afeganistão sempre foi anátema, mudaram de lado.
Fora falcões como o senador John McCain, a maioria dos republicanos questiona os gastos do governo na guerra. Mitt Romney, presidenciável republicano que lidera as pesquisas, afirmou: "Nossas tropas não deveriam ficar travando uma luta pela independência de outro país".
Para completar, Obama está de olho na saúde da economia americana, o tema que realmente deve decidir a eleição de 2012.
O déficit público dos EUA está estimado em US$ 1,6 trilhão neste ano. A guerra no Afeganistão se tornou um alvo óbvio para cortes -ela custa US$ 110 bilhões por ano.
Os militares foram os grandes perdedores na decisão de Obama. O general David Petraeus, responsável pelas operações no Afeganistão, havia recomendado uma retirada muito mais gradual.
E, mesmo assim, a retirada mais acelerada não vai contentar muita gente.
Até o fim de setembro do ano que vem, sairão 33 mil soldados -o contingente que foi enviado por Obama durante a escalada de tropas ordenada por ele em 2009.
Restarão 68 mil militares no país. Isso é quase o dobro de soldados americanos que estavam no Afeganistão quando George W. Bush deixou o governo (36 mil).
O senador republicano Richard Lugar fustigou: deveríamos ter só operações de contraterrorismo na região e, para isso, não mais de 20 a 30 mil soldados são necessários.

Folha de São Paulo, 23/06/2011

Obama acelera a retirada do Afeganistão

Presidente anunciou ontem saída de 10 mil homens neste ano; ao menos 20 mil devem voltar aos EUA no ano que vem

Pressão democrata e crise fiscal americana influenciaram decisão; guerra custa cerca de US$ 10 bilhões por mês

ALVARO FAGUNDES
DE NOVA YORK

O presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou ontem a retirada de 10 mil militares americanos do Afeganistão já neste ano e de mais 23 mil até setembro do ano que vem.
A decisão representa a saída dos 33 mil oficiais que foram enviados no fim de 2009, quando a administração decidiu mudar o foco do Iraque para o Afeganistão, e vai ocorrer em um ritmo mais rápido que o desejado pelo comando militar dos EUA.
Segundo Obama, a maior parte das tropas americanas (hoje em cerca de 100 mil) deve deixar o país até 2014, entregando o comando das forças de segurança para o governo afegão.
"Os desafios persistem. Este é o começo, mas não o fim, dos nossos esforços para encerrar essa guerra", disse Obama ao anunciar o plano, ressaltando que a Al Qaeda nunca enfrentou tanta pressão como agora.
Os militares, entre eles, o general David Petraeus (comandante das forças dos EUA e da Otan no Afeganistão e que vai assumir a CIA), queriam que a maioria desse pessoal que vai voltar continuasse até o fim de 2012.
Obama, no entanto, sofre a pressão do seu partido, que cobra a retirada de uma guerra impopular (em que mais de 1.600 americanos morreram) e que consome bilhões de dólares quando os EUA vivem uma crise fiscal.
Segundo pesquisa divulgada nesta semana, 56% dos americanos querem a retirada das tropas do Afeganistão o mais "rápido possível" -patamar recorde desde que o levantamento teve início e que cresceu após a morte de Osama bin Laden, em 1º de maio.
Obama entrará em campanha pela reeleição no ano que vem, quando também será pressionado pelo mau momento da economia.

GASTOS

Os EUA devem gastar US$ 118 bilhões com a guerra do Afeganistão neste ano e mais US$ 113 bilhões em 2012. Segundo dados de março do Serviço de Pesquisa do Congresso, os EUA já gastaram US$ 444 bilhões com as operações desde 2001.
"Agora temos que investir no principal recurso dos EUA: o seu povo", disse Obama. "É a hora de priorizar a construção da nação aqui em casa."
A retirada de pelo menos 30 mil militares pode significar que o governo americano está recuando das suas ambições na região.
Em 2009, Obama disse que as prioridades dos EUA eram não só o combate à Al Qaeda e ao Taleban, mas também permitir que o Afeganistão pudesse organizar seu governo e sua segurança.
Ao chegar ao poder, há dois anos, Obama priorizou a guerra no país em relação à do Iraque. Mesmo com a retirada, os EUA terão 68 mil soldados no Afeganistão em 2012, quase o dobro do que havia no fim da gestão George W. Bush (2001-2009).

Folha de São Paulo, 23/06/2011

Grupos de ativistas atacam sites do governo na internet

Hackers tiram do ar Presidência e Receita Federal, no maior ataque já registrado por autoridades brasileiras

Seguidores dizem que objetivo é protestar contra "manipulação de informação" e falta de "transparência"


NELSON DE SÁ
ARTICULISTA DA FOLHA

Grupos de ativistas responsáveis pelos maiores ataques a redes de computador registrados no mundo neste ano elegeram ontem o governo brasileiro como alvo.
Os ataques tiraram do ar os sites da Presidência da República e da Receita Federal e o Portal Brasil por meia hora na madrugada de ontem, congestionando as redes do governo e impedindo o acesso a suas informações.
O Serpro (Serviço de Processamento de Dados), que hospeda os sites do governo federal, classificou o ataque como o maior já enfrentado pelo governo brasileiro. Segundo o Serpro, não houve vazamento de informações.
Um dos grupos responsáveis pelos ataques convocou seus seguidores no Twitter a atacar a Petrobras também. O site da estatal ficou fora do ar à tarde, mas a empresa atribuiu o evento à "instabilidade" na sua rede.
O grupo que assumiu a autoria dos ataques aos sites do governo se apresenta como LulzSecBrazil e atua como célula do LulzSec, grupo que na semana passada atacou o site da CIA, a agência de espionagem americana.
Os ativistas do LulzSecBrazil atuaram junto a um grupo chamado AnonBrazil, associado ao Anonymous, a quem é atribuído um ataque que há duas semanas derrubou o site do FMI (Fundo Monetário Internacional).
LulzSec e Anonymous são os dois maiores grupos de hackers do mundo. Hackers são pessoas que invadem computadores para protestar ou furtar informações.
Eles lançaram nesta semana a Operação AntiSec, declarando agir "contra a censura" e com o objetivo de retaliar governos que tentam impor controles à internet.
Os ataques de ontem foram precedidos por uma mensagem ao "povo brasileiro", divulgada no YouTube. Os ativistas dizem não querer "aterrorizar a população", mas acham que "chegou a hora de tomar uma atitude" contra "a manipulação de informação e o governo sem transparência".
Depois dos ataques, o LulzSecBrazil postou mensagem dizendo que seu "alvo é atingir 100 mil seguidores no Twitter para ter condição de fazer manifestações pelas ruas de todo o Brasil".
Os ataques são realizados por robôs eletrônicos acionados pelos hackers, que fazem grande número de solicitações simultâneas aos sites eleitos como alvos, tornando impossível que outras pessoas acessem suas páginas.
Segundo o Serpro, foi o terceiro ataque sofrido pelo governo brasileiro na internet neste ano. Os anteriores visaram o site da Presidência, no início de janeiro, e o site do Exército, no sábado. Foram assumidos por outro grupo de hackers, FatalErrorCrew.
O Exército começou a implantar neste ano o CDCiber (Centro de Defesa Cibernética) para proteger as redes governamentais e outras que interessem à segurança nacional. EUA e China anunciaram, na última semana, esforços semelhantes para se defender contra os hackers.
Além da CIA e do FMI, também foram atingidos neste mês o Departamento de Comércio dos EUA e empresas como a Lockheed Martin, fornecedora de armamentos.

SAIBA MAIS

Grupo é o mesmo que invadiu rede da Sony e vazou dados


DO ARTICULISTA DA FOLHA

O grupo de hackers LulzSec (Lulz Security) chamou a atenção mundial pela primeira vez há dois meses, com a invasão da rede on-line do PlayStation, da Sony, e o vazamento dos dados de milhões de usuários. O game, de alcance global, passou dias fora do ar.
Na semana passada, o grupo assumiu um ataque ao site da CIA. Anteontem, o FBI invadiu e confiscou equipamentos de um servidor de internet no Estado de Virgínia, parte de uma investigação dos membros do LulzSec realizada junto com a própria CIA e agências europeias, segundo o "New York Times". Um membro do LulzSec foi preso no Reino Unido.
O nome Lulz vem de LOL ("laugh out loud", rir alto), uma gíria de internet usada, em geral, após brincadeiras on-line e pegadinhas.
Anterior e mais conhecido, o grupo Anonymous nasceu como coletivo hacker há cerca de três anos.
A exemplo do LulzSec, começou com brincadeiras on-line, até realizar uma série de ataques em defesa do WikiLeaks, em dezembro do ano passado.
Conseguiu afetar a operação de sites globais como Visa, MasterCard e PayPal, por terem suspendido contas da organização de Julian Assange, que expôs segredos americanos. (NS)
Folha de São Paulo, 23/06/2011

"Beautiful People"

KENNETH MAXWELL


Há perigo em misturar sites e beleza, ao menos para aqueles que não são considerados bonitos por um site dedicado às pessoas belas.
O jornal "The Guardian" informou, nesta semana, que um site de encontros que se descrevia como de uso exclusivo para homens e mulheres bonitos havia impiedosamente excluído 30 mil pessoas que aderiram a ele como resultado de um vírus de computador, o qual teria adulterado o processo de seleção -que consiste em notas dadas pelos participantes aos novos candidatos a admissão, de acordo com sua aparência física.
Greg Hodge, diretor-executivo do site "Beautiful People", disse ao "Guardian" que muitas das pessoas inicialmente aceitas pelo site e depois excluídas "não eram dignas de um quadro".
Hodge comentou que "não se pode simplesmente varrer 30 mil pessoas feias para debaixo do tapete".
O site conta com 700 mil membros em todo o mundo.
Os membros classificam os novos candidatos de acordo com uma escala baseada no semáforo. Vermelho quer dizer "de jeito nenhum" e verde brilhante significa "bonita/o".
De acordo com o "Beautiful People", os homens irlandeses são os mais feios do mundo, com aceitação de apenas 9% dos inscritos. Das mulheres da Irlanda, somente 20% conseguiram ser aprovadas no processo seletivo.
Rússia, Polônia e Reino Unido também apresentam altos índices de rejeição. Os homens de mais sucesso são os da Suécia e do Brasil. As mulheres de mais sucesso são as da Noruega, da Suécia, da Islândia e do Brasil. Os homens de Portugal ficam em quinto lugar. As mulheres portuguesas não estão no ranking.
Mas Graham Cluley, consultor de tecnologia da Sophos, uma produtora de software antivírus e de segurança que conta com 200 milhões de usuários em 150 países, suspeita bastante das alegações do "Beautiful People" quanto à atividade de um vírus.
Ele diz que a ideia de que o chamado vírus "Shrek", que leva esse nome devido ao desenho animado cuja ideia central é a de que a aparência não importa, teria infectado o site lhe parece absolutamente inverídica. "Se a história do "Beautiful People" sobre o vírus Shrek é verdade, sou a cara do Brad Pitt." Cluley sugeriu que tudo não passa de um truque publicitário.
Difícil dizer. No entanto o site restituiu US$ 112 mil a 4,5 mil aspirantes a admissão que haviam pago sua taxa mensal de US$ 25, e agora estão apopléticos por terem sido rejeitados devido à feiura. Em última análise, o melhor é ser um homem brasileiro.
Ou uma mulher norueguesa ou sueca.


KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras na Folha de São Paulo

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Cristina tenta a reeleição

Editoriais
editoriais@uol.com.br

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, larga na disputa eleitoral com uma enorme vantagem sobre seus adversários.
A impopularidade decorrente dos constantes atritos de sua gestão -com a imprensa, com os agricultores, com os empresários, com antigos aliados- diminuiu do final do ano passado para cá. E o principal impulso da recém-adquirida aprovação de Cristina vem, paradoxalmente, da maior perda de seu governo.
A morte súbita de Néstor Kirchner, em outubro, privou a presidente do marido, do companheiro de uma longa jornada política e do principal estrategista por trás de seu governo. Por outro lado, a ausência do popular ex-presidente rendeu-lhe uma simpatia recorde, com uma escalada de 25 pontos nas pesquisas de opinião.
Levantamento recente dava à atual presidente 47% das intenções de voto na eleição de outubro próximo, contra 15% do deputado oposicionista Ricardo Alfonsín, filho do ex-presidente Raul Alfonsín, e 7% do ex-presidente Eduardo Duhalde.
Cristina soube aproveitar a compaixão despertada por sua perda. Passou a vestir-se de preto. Escolheu para o anúncio de que decidira se candidatar o mesmo local onde o marido fora velado, menos de oito meses atrás.
Só isso não explica, decerto, seu favoritismo. A economia do país cresceu à média anual de 9% desde a hecatombe financeira de 2001, quando a Argentina chegou a ter três presidentes em duas semanas. O PIB do país registrou expansão de 8,4% em 2010, e a previsão é de ao menos 5% para 2011.
A ampliação de programas sociais, como o pagamento de benefícios a desempregados em troca de manter os filhos na escola, também contribui para as chances da presidente na eleição de outubro.
A conjuntura favorável tem mascarado, até agora, deficiências importantes na Argentina. A inflação oficial, maquiada pelo governo, está entre 7% e 8%, mas as estimativas são que a alta real de preços esteja em cerca de 25%.
Os embates com diversos setores, em especial com a imprensa, não dão sinal de arrefecer. A extensão do dano causado pelo recente escândalo de corrupção na organização social das Mães da Praça de Maio, uma entidade de direitos humanos com fortes laços no governo, ainda é incerta.
O próximo passo da candidatura da presidente será a escolha do vice em sua chapa, que precisa ocorrer até sábado. O atual, Julio Cobos, tornou-se inimigo do governo. Será um importante indicador dos rumos que Cristina pretende imprimir ao kirchnerismo.
Folha de São Paulo, 23/06/2011

Cuidado ao abrir um arquivo da ditadura

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Governo do Chile decide monitorar redes sociais

Para oposição, medida viola direito à intimidade e liberdade de expressão

Presidência diz querer saber o que a população pensa; gestão de Piñera perde popularidade e é alvo de manifestações

DE BUENOS AIRES

O governo do Chile contratou uma empresa de mídia para monitorar o que a população do país comenta em redes sociais como Twitter e Facebook, além de blogs.
A medida integra um novo plano de comunicações do governo. Segundo explicou a porta-voz da Presidência chilena, Ena Von Baer, monitorar o que as pessoas dizem na internet é a "única maneira de saber o que elas pensam".
Para executar a medida, o governo do conservador Sebástian Piñera contratou a empresa BrandMetric, que se apresenta na internet como uma companhia capaz de "monitorar, escutar, medir e participar das conversas sobre sua marca". O serviço contratado custará por ano quase US$ 3 milhões.
A medida, que a oposição tem chamado de orwelliana (de George Orwell, escritor inglês, autor de "1984"), causou polêmica. Há mais de um ano no cargo, Sebástian Piñera vem perdendo popularidade e seu governo é alvo de constantes manifestações sociais.
No final de maio e no início deste mês, estudantes e professores entraram em confronto com a polícia após manifestação que cobrou melhorias nas universidades públicas do Chile. Os distúrbios ocorreram em frente ao Palácio La Moneda, sede do governo, no centro de Santiago.
"Não há nada que justifique tal medida, e o governo tampouco deixou claro como vai monitorar os comentários", disse à Folha Lorena Donoso, advogada e pesquisadora da Fucatel (Fundação de Capacitação Audiovisual), ligada à Unesco, que acompanha a situação da liberdade de expressão no país.
O que preocupa os críticos da medida é que a empresa BrandMetric poderá identificar onde está o autor de cada comentário. Para eles, funcionários públicos poderão sofrer perseguição pelo que dizem nas redes sociais.
"Todo governo busca saber o que pensa a população, mas o problema é como utilizar essas informações. O problema aqui no Chile é que a Presidência decidiu monitorar as redes sociais, medida que afeta os direitos coletivos, sem nenhum tipo de consulta prévia à população", ressaltou Donoso.
Oposicionistas acusam o governo Piñera de ferir a liberdade de expressão e o direito à intimidade.
"Os cidadãos financiam o Estado para que ele proteja nossas liberdades, não para vigiar as formas legítimas com que as exercemos", disse Carolina Tohá, presidente do opositor PPD (Partido para a Democracia).
Von Baer, a porta-voz da Presidência do Chile, argumentou que as redes sociais são um "sistema de comunicação público".
(LUCAS FERRAZ)

Folha de São Paulo, 22/06/2011

Coreano é eleito para mais 5 anos à frente da ONU

DIPLOMACIA
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS -

O secretário-geral das Nações Unidas, o coreano Ban Ki-moon, 67, foi eleito ontem por unanimidade para mais um período de cinco anos no comando da organização, a partir de 1º de janeiro de 2012.
Candidato único, Ban, que sucedeu ao ganense Kofi Annan em 2007, agradeceu aos 192 Estados-membros da ONU pela "grande honra" e pela "confiança" depositada nele.
Normalmente, os secretários-gerais da ONU cumprem dois mandatos de cinco anos. A exceção recente é o egípcio Boutros Boutros-Ghali, que ficou no cargo por apenas um período, até 1996, e saiu dele por pressão dos EUA, que criticaram sua atuação durante a Guerra da Bósnia.
Ban é visto por Washington como aliado. A embaixadora norte-americana na ONU, Susan Rice, elogiou a reeleição: "É um dos empregos mais difíceis do mundo, e ninguém entende o peso do cargo melhor do que ele", comentou.

Folha de São Paulo, 22/06/2011

Violência faz a América Central perder 8% do PIB

Estudo do Banco Mundial radiografia os efeitos do narcotráfico na região

Relatório é o ponto de partida para uma conferência hoje na Guatemala com presença de Hillary

FLÁVIA MARREIRO
DE CARACAS

O Banco Mundial calcula que a América Central perde 8% de seu PIB em razão dos custos ligados à violência.
Diz também que 5% da riqueza da região já provém, de uma maneira ou de outra, do traslado de 90% da cocaína que chega aos EUA.
Para a DEA, a agência antidrogas americana, o negócio da droga e a ofensiva dos cartéis mexicanos para controlar rotas de tráfico solapam a estabilidade política e jurídica dos países recordistas em cifras de homicídio da América Latina, como Guatemala, Honduras, El Salvador.
Esse quadro será o ponto de partida da conferência de segurança do Sistema de Integração Centro-Americano (SICA) que começa hoje na Guatemala.
Participam presidentes da América Central, Colômbia e México, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, e a chanceler espanhola, Trinidad Jiménez.
Para o país anfitrião, o ponto-chave é cobrar dos maiores consumidores de drogas -EUA e União Europeia- recursos para uma estratégia regional conjunta de combate às drogas, espécie de "Plano Colômbia" transnacional com foco em prevenção e melhora institucional, em especial da Justiça.
Estima-se que o plano custe de US$ 900 milhões (R$ 1,4 bilhão) a US$ 1,2 bilhão (R$ 1,9 bilhão)em três anos.
Por meio da Iniciativa Regional de Segurança para América Central, os EUA aprovaram US$ 260 milhões para a região.
Antes da conferência, as autoridades americanas se esquivaram da cobrança. Frisaram que não se tratava de um encontro de doadores, mas de uma discussão sobre a efetividade das políticas.
O número 2 do Departamento de Estado para a América Latina, Arturo Valenzuela, disse que, no máximo, espera-se que Hillary anuncie um "rearranjo" de prioridades para a verba já aprovada.
No estudo "Crime e violência na América Central: o desafio do desenvolvimento", lançado neste ano, o Banco Mundial estimou tanto as perdas da região com a violência como o ganho potencial para a economia em caso de redução do problema.
Queda de 10% nos índices de criminalidade em El Salvador, por exemplo, se reverteria num acréscimo de 1% na renda per capita média do país, na simulação.

PROBLEMA COMPLEXO

O informe reconhece, porém, a complexidade do problema em países com Justiça e sistema carcerários vulneráveis e uma herança macabra das guerras civis encerradas nos anos 1980 e 1990: uma enorme quantidade de armas em circulação.
A presença dos poderosos cartéis mexicanos, que travam disputa sangrenta com gangues locais pelas rotas de exportação de drogas, é outro problema em escalada.
A fronteira entre o México e a Guatemala, com patrulhagem mínima, é considerada o "ponto quente" da rota, com índices de homicídios iguais aos de Ciudad Juárez, na divisa com os Estados Unidos.
No mês passado, 26 pessoas foram mortas e decapitadas numa fazenda da zona guatemalteca, no maior massacre recente da história do país. O crime foi atribuído ao cartel mexicano Zetas.
Folha de São Paulo, 22/06/2011

Senado aprova nomeação de chefe da CIA como secretário de Defesa

EUA
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS - Por unanimidade, o Senado americano confirmou ontem a nomeação de Leon Panetta, chefe da CIA [agência de inteligência americana], como novo secretário da Defesa do presidente Barack Obama, substituindo Robert Gates. Gates, que já ocupava o cargo no governo do republicano George W. Bush, anunciara no ano passado sua intenção de se aposentar.
Panetta deve assumir o cargo no dia 1º de julho. Ele terá de lidar com pressões por corte de gastos das Forças Armadas e a retirada do Afeganistão.

Cristina anuncia candidatura à reeleição


Presidente argentina encerra suspense e diz que se lança candidata em homenagem ao marido, Néstor, morto em 2010


Durante seu mandato, a líder comprou briga com produtores rurais e com grandes grupos de comunicação social

LUCAS FERRAZ
DE BUENOS AIRES

Após alimentar dúvidas sobre seu futuro político, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, 58, anunciou ontem que será candidata à reeleição em outubro.
Ao apresentar na Casa Rosada o programa "LCD para Todos", que vai oferecer à população facilidades para comprar TV de tela plana, a mandatária confirmou que será candidata.
"Vou me submeter uma vez mais", declarou a presidente durante o evento.
"Soube o que deveria fazer em 28 de outubro [data do funeral de seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner], quando as pessoas gritavam 'força, Cristina!'. Meu compromisso é irrevogável. Espero ser uma ponte entre as novas e as velhas gerações, essa deve ser minha função", afirmou.
Havia grande expectativa no país sobre o que iria decidir a presidente. No sábado termina o prazo da Justiça eleitoral para o registro dos candidatos que vão disputar a eleição presidencial, cujo primeiro turno será em 23 de outubro.
Cristina, até o fim de semana, terá que escolher o vice que vai compor sua chapa.
Nas últimas semanas, a presidente deu declarações em que demonstrava dúvida se tentaria novo mandato.
Ela disse que não aceitaria pressões e inclusive chegou a fazer referências à fragilidade de sua saúde.
Eleita em 2007, após uma surpreendente decisão de Néstor de não tentar a reeleição, Cristina seguiu a cartilha do ex-marido.
Enfrentou logo nos primeiros meses de governo um duro embate contra produtores agropecuários, que levou a um racha com o seu vice, Julio Cobos, que preside o Senado.
O episódio foi o estopim para a guerra hoje declarada entre a Casa Rosada e a imprensa, considerada inimiga.
Desde então, o governo impulsionou uma série de medidas contra a imprensa, como uma lei contra o monopólio da mídia que afetou diretamente o Grupo Clarín, maior conglomerado de comunicação da Argentina -antes aliado dos Kirchner.

Folha de São Paulo, 22/06/2011

Protestos são corajosos, diz Hillary Clinton


DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, manifestou ontem seu apoio às ªcorajosasº mulheres da Arábia Saudita, que recentemente lançaram um protesto para terem direito a dirigir.
É o primeiro comentário público de Hillary sobre o assunto, tido como delicado por causa dos complexos laços entre os governos saudita e dos Estados Unidos.
Um dia depois do Departamento de Estado ter dito que estava lidando com o assunto de forma discreta e diplomática e não por pronunciamentos públicos, Hillary defendeu os protestos.
No entanto, a secretária de Estado destacou que as mulheres sauditas estão agindo por conta própria, em defesa de seus direitos, e não sob os auspícios de estrangeiros, como ela própria.
As declarações de Hillary foram feitas depois que ativistas pediram que ela usasse sua posição como líder da diplomacia americana e defensora dos direitos das mulheres para apoiar publicamente a causa das sauditas.
ªO que essas mulheres estão fazendo é corajoso e o que buscam é direito, mas os esforços pertencem a elasº, afirmou Hillary a repórteres, durante entrevista coletiva do Departamento de Estado.
"Estou comovida com a iniciativa e apoio as mulheres, mas quero enfatizar o fato de que isso não está vindo de fora do país delas. Isso são as mulheres, elas próprias, buscando ser reconhecidas."
Na semana passada, 40 sauditas desafiaram as leis de seu país e saíram às ruas dirigindo carros.
O protesto pretende contestar a situação de limbo jurídico em que vivem as mulheres. Apesar de não serem proibidas de dirigir, o governo saudita expede habilitações apenas para homens.
Hillary afirmou que ela mesma e outras autoridades americanas levaram a questão das manifestações para debate ªno mais alto nível do governo sauditaº. As ativistas sauditas agradeceram as palavras da secretária de Estado em um comunicado.
Folha de São Paulo, 22/06/2011

Vida na contramão

MINHA HISTÓRIA RAINYA ALMAHOZI, 24

Saudita de 24 anos incentiva outras mulheres a dirigir no país, contrariando veto; ela conseguiu a habilitação no Bahrein, onde cursou comunicação


Arquivo Pessoal
A saudita Raniya Almahozi, 24, que postou vídeo dirigindo um carro na Arábia Saudita

RESUMO A saudita Raniya Almahozi, 24, tirou a carteira de habilitação no Bahrein, onde cursou a faculdade de comunicação e relações públicas. Porém, na Arábia Saudita, ela tem de pedir que o pai ou o motorista guiem por ela, porque mulheres não podem assumir o volante no país. Ela conta que foi interrogada e teme ser presa pela polícia, depois de postar vídeo no YouTube dentro de um carro. Para ela, dirigir é mais seguro do que ter motoristas.

DIOGO BERCITO
DE SÃO PAULO

Meu nome é Raniya Almahozi e tenho 24 anos. Eu me formei na universidade em 2009, no Bahrein, nos cursos de comunicação de massa e relações públicas. Não tenho um emprego até hoje.
Sou solteira e tirei a carteira de habilitação no Bahrein. Aqui na Arábia Saudita, dependo dos homens da minha família para andar de carro, principalmente de meu pai e de um motorista particular estrangeiro que contratamos.
Não dirigi durante o protesto de 17 de junho porque eu acho que já expressei minha opinião ao me filmar ao volante em 20 de maio, logo após a prisão de Manal al-Sharif, a líder do movimento.
Eu tenho medo de ser presa, mas acho que tenho de defender o nosso direito, que vejo como um direito bastante básico e simples. Porém, Manal foi quem sofreu mais.
A polícia saudita estava procurando por mim por um mês inteiro. Eles sabiam quem eu era. Na semana passada, eles me interrogaram. Antes de 17 de junho, havia muito perigo. Agora, a situação está um pouco mais segura. A investigação não foi tão ruim, graças a Deus e à cobertura da mídia sobre o que ocorreu com Manal.

RAZÕES
O intuito de me filmar dirigindo um carro e colocar no YouTube foi mostrar às pessoas no comando que mulheres podem, sim, guiar sem problemas.
Não é o fim do mundo. As mulheres precisam dirigir. É muito mais seguro do que estar com motoristas desconhecidos.
É claro que eu apoio Manal e todas as mulheres da Arábia Saudita a agir pelo menos uma vez. Cada movimento tem seu próprio impacto. Não vou fazer comentários a respeito das outras revoluções árabes. Acho que o que fizemos foi apenas dar um passo pelo direito de dirigir.
Sobre [a secretária de Estado dos EUA] Hillary Clinton, eu agradeço por falar sobre isso. O governo saudita tem de resolver essa questão internamente pelo bem da liberdade do povo deste país.
Eu não estava ansiosa por uma declaração dela, mas queria que os EUA não demorassem tanto para se pronunciar sobre esse problema. Não sou a favor de que os Estados Unidos intervenham como um governo, mas gostaria de ver o apoio das pessoas como um todo. Nós todos temos os mesmos direitos e necessidades básicas.
Gostaria de relembrar que sou apenas uma simpatizante dessa causa e dizer que a energia das mulheres é suprimida de muitas maneiras. Eu, como muçulmana, vejo toda a liberdade dos ensinamentos do islã, mas algumas pessoas entendem a religião de um jeito completamente errado.

FOLHA.com

Veja vídeo de Raniya dirigindo
folha.com/mu933253

Formação de grupo é conta a ser paga pela sociedade por transição pacífica para a democracia

ANÁLISE



COM A DEMOCRACIA CONSOLIDADA, HOJE NÃO HÁ MAIS AMEAÇA POLÍTICA E, NESSE SENTIDO, O PREÇO DEVIDO PELA SOCIEDADE PODE SER CONSIDERADO RAZOÁVEL

OSCAR PILAGALLO
ESPECIAL PARA A FOLHA

A criação da Comissão da Verdade, qualquer que seja seu alcance na prática, é a conta que a sociedade brasileira pagará por ter desfrutado de uma transição pacífica do regime militar (1964-85) para a democracia.
Ao contrário da Argentina -que experimentou uma ruptura violenta e prendeu a cúpula militar-, o Brasil viveu uma distensão lenta e gradual que, ainda sob o regime militar, desaguou na abertura política.
O processo começou em 1974, com o então presidente Ernesto Geisel, e ganhou impulso com a derrota que o general impôs à linha-dura do regime em 1977.
Grande parte da oposição viu nesse desdobramento uma perspectiva para o fim da ditadura. Mas, para tanto, seria preciso caminhar com os militares, não contra eles.
O passo seguinte foi a anistia, em 1979, já no governo João Figueiredo.
A anistia resultou da pressão de duas forças. De baixo para cima, a sociedade brasileira fazia campanha por uma anistia "ampla, geral e irrestrita". De cima para baixo, o governo incluiu o perdão aos torturadores.
Embora não haja na lei menção direta a eles, estão perfeitamente identificados pelo eufemismo "acusados de crimes conexos aos crimes políticos".

INSATISFAÇÃO
Na época, houve críticas à direita e à esquerda. Para a linha-dura militar, que ainda tinha voz, apesar de afastada do centro decisório, o presidente fizera concessões.
Para parte da esquerda, tratou-se sobretudo de uma jogada para implodir a frente oposicionista, o que ocorreria com a volta dos exilados. A maioria, no entanto, entendeu que, dadas as circunstâncias, em que a possibilidade de um retrocesso político não era carta fora do baralho, uma anistia que zerasse o saldo de ressentimentos de ambos os lados favoreceria a abertura que levaria à democracia.
É tarefa quase impossível discutir esse passado sem reabrir feridas que um hiato de mais de três décadas não cicatrizou.
Hoje, no entanto, com a democracia consolidada, não há mais ameaça política e, nesse sentido, o preço devido pela sociedade pode ser considerado razoável.

Folha de São Paulo, 22/06/2011


OSCAR PILAGALLO, jornalista, é autor de "A História do Brasil no Século 20" (Publifolha).

De Gaulle espionou JK

TENDÊNCIAS/DEBATES


RONALDO COSTA COUTO



Juscelino, em 1964, na cidade de Paris, vivia preocupado com espiões, microfones ocultos, fotos, grampos e violação de correspondência

Paris, 1964, escritório de Juscelino Kubitschek de Oliveira, referência democrática do Brasil, ex-presidente da República, exilado. Ele trabalha em suas memórias.
Ama a França, mas está triste e decepcionado. Sabe que é espionado pelo governo do general Charles de Gaulle. Teme ser ouvido e gravado. Veio em busca de liberdade, respeito e paz. Mas vive preocupado com espiões, microfones ocultos, grampos, fotos, violação de correspondência.
Um suplício! Levanta-se, abre a janela, pega o rádio, liga, sintoniza, aumenta o som e diz: "Preciso contar algumas coisas, Maria Alice".
A doce e culta Maria Alice Gomes Berengas, pequenina carioca da gema, hoje com 88 anos, foi amiga e secretária de JK no exílio. É testemunha e vítima da intromissão francesa, que atribui ao "Deuxième Bureau", serviço de inteligência.
Delírios anticomunistas da Guerra Fria? Conivência com a ditadura brasileira? Durante 46 anos ela guardou segredo do que viu, ouviu e sofreu ao lado de JK e depois.
No ano passado, em Paris, abriu a alma ao professor Carlos Alberto Antunes Maciel, da Universidade de Nantes, para um documentário sobre JK no exílio. Trecho: "Havia um prédio em frente, onde ficava um pessoal espiando a gente. Eram sempre os mesmos".
Infernizaram a vida de JK. Dele: "Era voltar ao Brasil ou meter uma bala no peito". Fecha o escritório, manda queimar os arquivos. Chega ao Rio logo depois das eleições de 3 de outubro de 1965, com a mulher, Sarah, e Maria Alice. Traz esperança na democratização.
Bem recebido pelo povo, é hostilizado pela ditadura. Policiado, perseguido e ameaçado, volta ao exílio no mês seguinte. Mas nunca mais Paris. Primeiro Nova York, em seguida Lisboa.
Maria Estela Kubitschek, em 25 de janeiro passado: "Papai nunca nos falou que era vigiado pelo "Deuxième Bureau". Quis poupar a família de mais sofrimentos". E a fiel Maria Alice?
Avisada de risco de prisão, recorre à Embaixada da França. Resultado: retêm seu passaporte francês.
Frustrada e assustada, consegue ajuda para se esconder no transatlântico Federico C e nele viajar.
Chegando à França, duros interrogatórios. Pergunto, em 2 de março de 2011: "O que queriam saber?".
Ela: "Coisas muito pessoais do presidente. Quem o visitara, o que dissera fulano ou beltrana. Eu dizia que não sabia, que não prestava atenção". Insinuaram que sua única filha, Nicole, de 9 anos, poderia sofrer um acidente.
Desesperada, levou-a de carro para Portugal. "Era muito mais importante a lealdade do que dar satisfação a essa gente. Depois de muito tempo, sumiram".
JK recebia figuras internacionais graúdas, como o argentino Juan Perón, o socialista francês François Mitterrand e líderes brasileiros como Miguel Arraes.
Prossigo: "Ele nunca foi envolvido em conspiração?".
Ela, veemente: "Nada! Dizia que revolução não é solução. Não admitia que se derramasse uma gota de sangue". Maria Alice vive perto de Lisboa. Tem muita saudade de dona Sarah e de JK.

Folha de São Paulo, 22/06/2011


RONALDO COSTA COUTO, escritor, doutor em história pela Sorbonne (França), foi ministro do Interior e ministro-chefe da Casa Civil (governo Sarney). É autor, entre outras obras, de "História Indiscreta da Ditadura e da Abertura" e de "Brasília Kubitschek de Oliveira".

Melhor gestão

ANTONIO DELFIM NETTO


Temos insistido, nesta coluna, que a ideia ingênua e simplista de que todos os nossos problemas seriam resolvidos com a redução da carga tributária é irrealista. Pela simples e boa razão que ela contraria a preferência "revelada" na Constituição de 1988.
Gostemos ou não, na Assembleia Nacional Constituinte, por seus representantes livremente escolhidos, a sociedade brasileira "revelou" o seu desejo de construir um processo civilizatório apoiado em três pilares:
1º) Um regime republicano onde todos, inclusive o poder incumbente, devem estar sujeitos à mesma lei;
2º) Um sistema de escolha democrático, em que o poder incumbente deve ser submetido, de maneira periódica, ao voto universal absolutamente desimpedido;
3º) Um processo de construção paulatina de uma sociedade razoavelmente justa que amplie, continuamente, a igualdade de oportunidades para todo cidadão pela universalização gratuita do direito à saúde e à educação, sem distinção de qualquer natureza (origem, etnia, religião etc.).
Trata-se de um projeto grandioso (envolve uma necessária dose de utopia) que vale a pena perseguir.
Como é evidente, ele exige uma carga tributária maior que a dos países com o nosso mesmo nível de renda per capita, mas que têm objetivos menos ambiciosos.
Em compensação, tal construção precisa de um Estado enxuto preocupado prioritariamente com:
1º) A eficiência de seus agentes;
2º) O controle rigoroso e exigente das políticas públicas de transferência de renda.
O problema não é a alta tributação, mas o lamentável nível de sua devolução à sociedade com serviços públicos oferecidos em pequena quantidade e baixa qualidade, que salta aos olhos nas comparações internacionais.
A complicação -nos três níveis de governo- não é propriamente a carga tributária, e sim a tragédia com os recursos que são dissipados pela ineficiência dos serviços públicos.
O grave é que esse desperdício é mais manifesto na prestação de serviços de má qualidade na saúde e na educação, exatamente os setores críticos para o aumento da igualdade de oportunidades necessária para acelerar o desenvolvimento sustentável e inclusivo que o país mostrou desejar na Constituição de 1988.
A boa notícia é que a presidente Dilma Rousseff montou uma nova estrutura de apoio externo para tentar fazer mais e melhor com os recursos de que já dispõe o setor da saúde.
É o primeiro passo para a melhoria da gestão dos recursos públicos, exatamente no setor que o Brasil mais precisa.


ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras na Folha de São Paulo
contatodelfimnetto@terra.com.br

terça-feira, 21 de junho de 2011

Democracia real

VLADIMIR SAFATLE


As atuais manifestações que sacodem a Europa trouxeram uma reivindicação que há muito não se ouvia em países como Reino Unido, Espanha, França: democracia real. Há algo de importante aqui.
Pois poderíamos nos perguntar o que haveria de fictício na democracia de países que aprendemos a ver como exemplos de sistemas políticos consolidados. Por que largas parcelas de sua população compreendem que há algo no jogo democrático que parece ter se reduzido exatamente à condição de mero jogo?
Talvez tais manifestantes entenderam que a democracia parlamentar é incapaz de impor limites e de resistir aos interesses do sistema financeiro. Ela é incapaz de defender as populações quando os agentes financeiros começam a operar, de modo cinicamente claro, a partir dos princípios de um capitalismo de espoliação dos recursos públicos.
Não é por outra razão que se ouve, cada vez mais, a afirmação de que a alternância de partidos no poder não implica mais alternativas de modelos de compreensão dos conflitos e políticas sociais. Por isso, o cansaço em relação aos partidos tradicionais não é sinal do esgotamento da política. Na verdade, ele é o sintoma mais evidente de uma demanda de política, de uma demanda de politização da economia.
Em momentos assim, devemos lembrar que a democracia parlamentar não é o último capítulo da democracia efetiva. A Islândia tem algo a nos ensinar sobre isso.
Um dos primeiros países atingidos pela crise econômica de 2008, a Islândia decidiu que o uso de dinheiro público para indenizar bancos seria objeto de plebiscito. Maneira de recuperar um conceito decisivo, mas bem esquecido, da democracia, a saber, a soberania popular. O resultado foi o apoio massivo ao calote.
Mesmo sabendo dos riscos de tal decisão, o povo islandês preferiu realizar um princípio básico da soberania popular: quem paga a orquestra, escolhe a música.
Se a conta vai para a população, é ela quem deve decidir o que fazer, e não um conjunto de tecnocratas que terão seus empregos garantidos nos bancos ou de parlamentares cujas campanhas são financiadas por esses bancos. Como disse o presidente islandês, Ólafur Ragnar Grímsson: "A Islândia é uma democracia, não um sistema financeiro".
O interessante é que, com isso, saímos dos impasses da democracia parlamentar para dar um passo decisivo em direção a uma democracia plebiscitária capaz de institucionalizar a manifestação necessária da soberania popular.
É tal processo que nos coloca nas vias de uma democracia real. Ele é a condição primeira para sair da crise. Pois a verdadeira questão que tal crise nos coloca é política: que regime político é este que permitiu um descalabro deste tamanho na calada da noite?


VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras na Folha de São Paulo

O nó da questão

CARLOS HEITOR CONY


RIO DE JANEIRO - Considero um saco abordar assunto que é comentado por toda a mídia. Talvez seja uma expressão do espírito de porco do qual a natureza me dotou, desde o berço distante até o túmulo próximo. Mas vamos lá.
No momento, discute-se em vários níveis a questão do sigilo ou do segredo de documentos oficiais ou oficiosos. Como bem lembrou a Eliane Cantanhêde, há coisas do arco da velha na anexação do Acre e na Guerra do Paraguai que podem comprometer a glória de alguns vultos do panteão nacional, como o barão do Rio Branco e o duque de Caxias. Não são temas da atualidade, mas de interesse dos historiadores profissionais e pesquisadores especializados.
O clamor da sociedade neste início de século, o nó da questão é contra o sigilo (ou o segredo) dos documentos relativos aos anos de repressão do regime militar (1964-85), dos quais a nação não tem conhecimento. Há pouco, tivemos uma polêmica entre o Persio Arida e o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro revelando as torturas que sofreu, o segundo negando-as. Esta é uma questão que não diz respeito apenas aos dois, mas a todos os que precisam conhecer como as coisas se passavam entre nós, contemporâneos. Uma questão que servirá de exemplo e advertência aos nossos descendentes.
Bem ou mal, a anistia que tivemos foi um acordo que possibilitou o fim da ditadura e o regime democrático em que vivemos. Não entrou em jogo a punição de culpados que hoje é reclamada por diversos escalões da vida pública. Mas há a necessidade de todos conhecermos o que realmente se passava nos chamados "porões da ditadura".
JK reclamava que os diversos inquéritos e depoimentos prestados por ele às autoridades militares não fossem divulgados. No mesmo caso estão milhares de brasileiros que sofreram e morreram nas mãos de assassinos e torturadores.

Folha de São Paulo, 21/06/2011

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Desafio de sucessor de Hu é definir nova identidade política

ANÁLISE

Hoje em dia, as discussões não são sobre quem ocupa o poder. Elas são sobre quem vai comandar quais políticas

RUSSELL MOSES ESPECIAL
PARA A FOLHA

O ano que vem marcará o término do período de Hu Jintao na liderança do Partido Comunista chinês.
Embora Hu vá conservar seu cargo de presidente da China até 2013 e seu papel de chefe das Forças Armadas até renunciar, o próximo ano mostra o fim de uma era política na China. A agenda e as realizações de Hu Jintao são muitas, mas diferem das expectativas de muitos analistas ocidentais.
Hu e seus aliados chegaram ao topo porque eram conservadores, evitavam o diálogo com qualquer pessoa que pensasse que a sociedade chinesa deveria ser reformada de baixo para cima. Ele ascendeu porque era alguém que apertaria o controle do Estado sobre a sociedade, e não o afrouxaria.
E Hu contou com muito apoio para isso. A visão dos poderosos no partido era que, embora o crescimento econômico fosse bom, várias Províncias eram independentes demais e desenvolviam-se com pouca atenção ao que Pequim queria; que os empreendedores ameaçavam solapar o partido, e que o socialismo começava a se enfraquecer. O que queriam era alguém que pusesse fim aos excessos e gastos exagerados da reforma econômica e que impedisse que a reforma política ganhasse força.
Em relação à política externa, a abordagem de Hu Jintao era menos clara. Ele herdou uma China em ascensão, mas ninguém na burocracia tinha uma visão clara sobre o que Pequim faria. Diferentemente de sua política doméstica, a diplomacia da China visava evitar problemas, mais do que propor soluções. Os assessores de Hu queriam ampliar o alcance comercial das empresas chinesas, impedir Taiwan de tornar-se centro de uma disputa e tentar deslocar o foco da política externa de Pequim dos Estados Unidos para a Europa.
Hu e seus colegas têm se saído bem. Seu legado de um modelo desenvolvimentista mais equitativo tem tido problemas, mas há poucas chances de qualquer setor contestar os esforços do governo para combater a pobreza, construir uma nova zona rural, buscar urbanizar o país ou fazê-lo avançar nas pesquisas tecnológicas. A política externa é um campo um pouco mais incerto, na medida em que não existe uma estratégia ou um slogan dominante vinculados à diplomacia de Pequim. O problema de Taiwan vem sendo protelado com sucesso. Mas, à medida que cresce a influência internacional da China, cresce também seu potencial de provocar mal-entendidos e tentar exercer controle fora de suas fronteiras.
O que, então, podemos esperar da sucessão?
Com a morte de Mao, a ideia era que a liderança chinesa fosse tornar-se mais coletiva. Coalizões de dirigentes guiariam o país. Mas isso não impediu as disputas, nem fez com que fosse mais fácil chegar ao consenso.
De fato, o esforço para limitar o poder individual no topo do sistema político vem significando que boa parte das medidas políticas é criada nos municípios e Províncias, não em Pequim.
Quem vai suceder a Hu como líder é uma questão crucial. Mas ainda mais importante é o que a nova coalizão representará, especialmente na medida em que a política chinesa vem mudando.
Hoje em dia as discussões não são sobre quem ocupa o poder, mas quem vai comandar quais políticas. O controle monetário é muito mais importante que a manufatura. Uma reestruturação administrativa substancial vem ocorrendo. O partido vem tentando tornar-se mais responsável, especialmente na era da internet e das mídias sociais.
Ficam sem resposta por parte de qualquer um dos pretendentes ao trono da China quais são seus planos de reforma política. Essa é uma questão por muito tempo adiada, e por mais que integrantes da próxima liderança desejem que ela seja colocada de escanteio, a China é um país diferente desde a última sucessão. A tranquilidade daquela transição será uma memória distante, a não ser que alguém apareça para mostrar o tipo de política diferente que a China vai necessitar. A questão não será que Hu se foi ou quem vai liderar. A questão será o tipo de novo país que a China realmente planeja ser, politicamente.

RUSSELL LEIGH MOSES é americano, vive e leciona em Pequim e escreve sobre política chinesa para o "Wall Street Journal"
Folha de São Paulo, 20/06/2011

Líder maoísta catalisa as atenções na sucessão chinesa


Adepto da "cultura vermelha" se destaca em processo de troca de dirigente


Chefe do Partido Comunista em Chongqing ganhou fama combatendo crime e erguendo casas

FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL A CHONGQING

A pouco mais de um ano da troca da dirigência máxima, o processo de sucessão chinês tem dois nomes certos ""o atual vice-presidente Xi Jinping como dirigente máximo e o vice-premiê Li Keqiang no cargo de premiê"" e um grande personagem: o "maoísta" Bo Xilai.
Chefe do Partido Comunista em Chongqing (1.450 km a sudoeste de Pequim), Bo Xilai, 61, ganhou enorme fama nos últimos anos no país pelo combate ao crime organizado (prendeu mais de 1.500 pessoas em quatro meses de 2009), pelo bom desempenho econômico, por investir em moradia e, principalmente, por promover um renascimento de práticas maoístas. A "cultura vermelha" de Bo inclui o trabalho "voluntário" de altos dirigentes do seu governo no campo, envios de slogans maoístas por celular e até um coro de crianças cantando músicas revolucionárias.
Em abril, Bo também demonstrou ser adepto de outra prática da era maoísta. O blogueiro Fang Hong, 45, um ex-membro do governo local, foi condenado a um ano de trabalho no campo três dias depois de ter publicado um comentário ironizando sua luta contra o crime organizado.
No campo econômico, Bo Xilai, ex-ministro do Comércio, fez Chongqing, a maior metrópole chinesa, com cerca de 30 milhões de habitantes, crescer 15% ao ano, acima da média do país. Principal pólo econômico longe da costa, tem atraído empresas como a Ford e a Foxconn por ter salários mais baixos.
"Chongqing é uma cidade enfocada em performance, não como outras cidades, que enfocam apenas em número do PIB. Chongqing tem velocidade e boa qualidade", disse Bo anteontem, na abertura de um fórum econômico.
A visibilidade de Bo Xilai reverte a tradição de políticos discretos que tem marcado a China desde a saída de cena de Deng Xiaoping. Para analistas, sua estratégia também pode lhe ser desfavorável.
"Ele administra Chongqing e projeta seu perfil de uma forma bem populista. Mas isso também tem feito as pessoas olharem para ele como alguém oportunista", afirma David Shambaugh, especialista em China da Universidade George Washington.
Dos nove membros do Comitê Permanente, ao menos cinco devem se aposentar por terem 70 anos ou mais. As substituições ocorrerão no 18º Congresso Nacional do PC, marcado para o outono (do hemisfério Norte) do ano que vem, com a presença de cerca de 2.000 delegados.
Desde que o PC assumiu o poder, em 1949, apenas a transição mais recente, a de Jiang Zemin para Hu Jintao, em 2002, não foi turbulenta.

Folha de São Paulo, 20/06/2011

Desemprego americano é 'estrutural'

Analistas avaliam que taxa atual de 9,1% resistiria até a retomada da economia, dificultando reeleição de Obama

EUA terão de investir mais em treinamento de desempregados para que eles possam se recolocar no mercado

PATRÍCIA CAMPOS MELLO
DE SÃO PAULO

Desde Franklin Delano Roosevelt, nenhum presidente americano conseguiu se reeleger quando a taxa de desemprego estava acima de 7,2% no dia da eleição. Isso é péssima notícia para o presidente Barack Obama.
A taxa de desemprego americana está em 9,1% e teima em não cair. E um número crescente de economistas fala em desemprego estrutural. Ou seja, mesmo se a economia reaquecer, a taxa não irá cair muito, porque parte desse desemprego se deve a causas estruturais.
Economistas mais ortodoxos acham que o desemprego não é cíclico, vinculado à desaceleração da economia. Estaria ligado ao descasamento de qualificações ""os desempregados não têm as qualificações que os empregadores querem; e não podem migrar para regiões onde há mais emprego, porque estão presos a suas hipotecas.
Até o ex-presidente Bill Clinton se juntou ao coro. "As pessoas não têm as qualificações exigidas nas vagas que estão se abrindo", disse.
Mark Lapolla, estrategista da Knight Capital Group, aponta para um fenômeno de mais longo prazo. Os setores que mais empregam, como manufatura, migraram para a China e outros países de mão-de-obra barata. Nos EUA, o que cresce são os setores calcados em propriedade intelectual, que empregam menos. A demanda por trabalhadores com menos qualificação vem caindo nos EUA há anos. "Vai levar mais de uma década para que consigamos reintegrar essas pessoas ao mercado de trabalho; para isso, alguma nova revolução, como foi a internet, terá de balançar a economia", disse Lapolla à Folha.
Para completar, a produtividade de vários setores cresce muito, então embora algumas empresas tenham voltado a crescer, não precisaram contratar na mesmo ritmo. Os economistas mais à direita vêm usando o desemprego estrutural como mais um argumento para pressionar o governo a cortar gastos.
A ala mais à esquerda, capitaneada pelo economista Paul Krugman, defende novos programas de estímulo. "Desemprego estrutural é um falso problema", disse Krugman. "O alto desemprego nos EUA é resultado de falta de demanda."
"Krugman acha que todo o problema pode ser resolvido com mais gastos do governo, mas os programas de estímulo que nós tivemos não ajudaram os desempregados", disse à Folha Tyler Cowen, autor do influente blog "Marginal revolution".
Cowen acha que o desemprego alto veio para ficar. Para ele, a nova taxa normal, que anteriormente era de cerca de 5% , será de 7% a 8%.
À esquerda e à direita, os economistas se unem em um diagnóstico: os EUA terão de investir mais em treinamento de desempregados, para que eles possam se recolocar. "O governo precisa adotar programas de vários anos para reestruturar o ensino e requalificar os trabalhadores", escreveu Mohamed El Erian, presidente do Pimco, um dos maiores administradores de fundos do mundo.
Folha de São Paulo, 20/09/2011

Manifestações reúnem 150 mil na Espanha


PEDRO ARMESTRE/FRANCE PRESSE
Milhares protestam em frente ao Parlamento espanhol, no centro de Madrid

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

Ao menos 150 mil manifestantes tomaram ruas de várias cidades da Espanha ontem em protestos demonstraram a insatisfação da população com o índice de desemprego, as perspectivas econômicas e os políticos.
Calcula-se que na capital, Madri, o número de manifestantes tenha chegado a 35 mil, enquanto em Barcelona até 50 mil tenham caminhado no centro da cidade, segundo estimativas da polícia.
Quase dois anos de recessão deixaram a Espanha com um índice de desemprego de 21,3% ""o mais alto entre os 17 países da zona do euro"" e fortemente endividada. Os protestos começaram em 15 de maio e encontraram eco entre espanhóis cansados das reduções salariais e dos aumentos de impostos necessários para resolver a crise financeira que, segundo eles, foi criada pelos bancos e por grandes empresas.
O manifestante Antonio Cortes, 58, disse que os trabalhadores espanhóis arcam com o maior peso da crise financeira: "Esses cortes todos não deveriam ser voltados à classe trabalhadora."
Para enfrentar a pressão, o governo, socialista, vem reduzindo os gastos públicos, congelando pensões e elevando a idade mínima da aposentadoria.
Também vem tomando medidas para que empresas privadas possam demitir funcionários de maneira mais fácil e mais barata.
A Espanha mergulhou em recessão em 2008, depois do estouro de uma bolha imobiliária. Com isso, os gastos de consumidores, movidos pelo crédito, foram interrompidos.
Até agora, o país não precisou nem buscou um resgate internacional, como fizeram Grécia, Irlanda e Portugal, que também são membros da zona do euro.
Mesmo assim, seus problemas econômicos estão assustando outras capitais europeias, em função das dimensões e da importância da economia espanhola.
Folha de São Paulo, 20/06/2011