quinta-feira, 28 de abril de 2011

França lança operação contra ilegais

Imigrantes do Norte da África são caçados pela polícia nas principais cidades francesas; objetivo é mandá-los de volta a seus países de origem.

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O WikiLeaks e seus ‘sócios’

Concorrência acompanha o crescimento do site e consegue publicar seus segredos antes que a própria fonte

BRIAN SHELTER
NOAM COHEN
THE NEW YORK TIMES

O WikiLeaks, site responsável  pela divulgação  de milhões de  segredos de Estado no ano passado, procura escolher cuidadosamente seus sócios na mídia.
Entretanto, ele se tornou um componente tão grande no jornalismo que alguns de seus segredos – que já não lhe pertencem – não podem mais ser controlados.

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"The Busby Babes"

KENNETH MAXWELL

Em 6 de fevereiro de 1958, o voo da British European Airways que transportava o time do Manchester United para a disputa das semifinais da Copa Europeia de Futebol contra o Estrela Vermelha de Belgrado caiu em sua terceira tentativa de decolagem, depois de um pouso para reabastecimento em Munique.
A queda teve 28 vítimas fatais, entre as quais oito jogadores e três dirigentes do Manchester United. Matt Busby, o lendário técnico da equipe, sofreu sérios ferimentos. Ele só voltaria a Manchester de trem e via balsa, 71 dias depois.
Matt Busby assumiu o comando do Manchester United em 1945, depois de servir na Segunda Guerra. Recrutou Jimmy Murphy como seu assistente técnico depois de ouvi-lo fazer uma preleção a um time de futebol formado por soldados ingleses na Itália.
Na década de 50, Busby e Murphy montaram um time de adolescentes, conhecidos afetuosamente como "Busby Babes". Em 1956-57, o Manchester United chegou à semifinal da Copa Europeia, e foi derrotado pelo Real Madrid.
Após o desastre em Munique, Jimmy Murphy, que não havia acompanhado a equipe porque estava dirigindo a seleção do País de Gales em uma partida contra Israel pela classificação à Copa do Mundo, em Cardiff, convenceu a diretoria do Manchester United a não suspender temporariamente as atividades do clube.
Ele escalou uma equipe improvisada com dois sobreviventes da queda, sete reservas e dois jogadores contratados às pressas e, em 19 de fevereiro, derrotou o Sheffield United por três a zero em uma partida pela quinta rodada da FA Cup (Copa da Inglaterra).
Em 3 de maio, 85 dias depois do desastre em Munique, o Manchester United superou todas as adversidades e chegou à final da FA Cup, em Wembley, perdendo por dois a zero para o Bolton Wanderers.
Bobby Charlton, um dos "Busby Babes" e sobrevivente da queda em Munique, descreveu Jimmy Murphy como "o maior professor de futebol que conheci". O Brasil, então campeão mundial, tentou, sem sucesso, contratá-lo.
Nesta semana, a BBC contou a história daquele período heroico num filme evocativo, intitulado "United", recordando uma época em que os garotos locais de classe operária se davam bem no Old Trafford.
Hoje, o Manchester United é controlado pelo empresário americano Malcom Glaser. O futebol está a anos-luz de distância dos dias difíceis da década de 50 e se tornou um grande negócio internacional.
A Argentina tem 1,8 mil jogadores na Europa; o Brasil tem 1,44 mil. No Manchester United, atual líder da Premier League, há jogadores de 11 nacionalidades. Sir Alex Ferguson, o escocês que treina o Manchester United, é o técnico de maior sucesso na história do futebol britânico.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras na Folha de São Paulo
Tradução de PAULO MIGLIACCI

quarta-feira, 27 de abril de 2011

China diz que construirá estação espacial em 10 anos

Ida à Lua em 2025 também está nos planos da potência comunista, anunciou agência estatal chinesa Xinhua

GIULIANA MIRANDA
DE SÃO PAULO

Menos de uma década após levar o primeiro taikonauta (como são chamados os astronautas chineses) ao espaço, a China anunciou um ambicioso plano de construir uma estação espacial.
O projeto, divulgado anteontem, deve ficar pronto em cerca de dez anos.
Com aproximadamente 60 toneladas, a nova estação será bem menor que a ISS (Estação Espacial Internacional), que tem 419 toneladas, e que a já desativada Mir, construída pela Rússia, que tinha 137 toneladas.
Segundo a agência de notícias estatal da China, a Xinhua, a nave será composta de um módulo principal e de dois anexos, projetados para receber diferentes tipos de experimentos científicos.
O governo chinês agora quer que o público envie sugestões de nome para o projeto. A China costuma dar nomes poéticos a suas investidas espaciais. Suas sondas lunares, por exemplos, são batizadas de Chang'e em homenagem à deusa que representa o satélite.

MISSÃO LUNAR
O satélite, aliás, é um dos maiores alvos da investida espacial chinesa.
O país asiático espera fazer sua primeira viagem ao satélite da Terra em até dois anos. Uma missão tripulada também está programada para acontecer até 2025.
Os planos chineses também incluem o desenvolvimento de uma nave de carga, um passo importante para o transporte de suprimentos e equipamentos para sua futura estação espacial.
A nova nave deve pesar pouco menos de 13 toneladas, com um diâmetro máximo de 3,35 metros.

POLÍTICA
Para analistas, apesar do rápido crescimento, o programa espacial chinês é sobretudo uma questão política, voltado principalmente para mostrar o poder do Estado.

Com o "Guardian"

Indexação

ANTONIO DELFIM NETTO


Desde a Constituição de 1988, em que -gostem ou não alguns fundamentalistas- a sociedade brasileira revelou suas preferências sobre a forma com que desejava organizar-se, o Brasil tem feito imenso progresso civilizatório. Ele não só se deve a eventuais virtudes pessoais de seus governantes mas também, e de forma decisiva, ao aperfeiçoamento de nossas instituições.
Temos uma nova presidente, Dilma Rousseff, tecnocrata moderna, gestora sofisticada, pragmática e com sensibilidade social, definição que, para alguns, pode soar como oxímoro. Ela tem que lidar com: 1º) As naturais dificuldades políticas que existem em todo Estado de Direito republicano e democrático e 2º) os condicionantes físicos (internos e externos) e humanos que limitam a continuação de um projeto de desenvolvimento com inclusão social de longo prazo que parece muito conveniente para o país.
A verdade é que o Brasil livrou-se rapidamente da crise mundial de 2007-2009 e terminou 2010 em condições econômicas e financeiras razoáveis e progressos sociais visíveis, dentre os quais o "sentimento" de que aumentou a igualdade de oportunidades para todos os seus cidadãos.
Após as trapalhadas financeiras do mundo desenvolvido, é difícil deixar de reconhecer que, a despeito de alguns pecados veniais, nossa situação fiscal não tem a dramaticidade que querem atribuir-lhe alguns analistas engajados.
Temos, sim, graves problemas a ser enfrentados: a desestabilização das expectativas inflacionárias, resultado de pressões internas e das altas dos preços internacionais das commodities; a teratológica taxa de juro real, produto dos antigos equívocos no financiamento da dívida interna; a supervalorização do real, consequência da própria desvalorização do dólar que estimula a especulação nos mercados de commodities.
Isso sem falar no longo prazo (infraestrutura, previdência, gestão etc.) e na "praga" da indexação monetária legal, que está na hora de acabar.
O ponto importante e para o qual a presidente tem chamado atenção é que a melhor contribuição que o governo pode dar para ajudar a resolver essas questões é cumprir a proposta de reduzir a taxa de crescimento das despesas de custeio e melhorar a qualidade da gestão pública. Se tal programa for cumprido, dará apoio não desprezível à política monetária.
Vai doer executá-lo, mas ele é necessário e devemos apoiá-lo. Talvez a medida mais eficiente para combater a inflação seja complementar o esforço fiscal com a eliminação do resíduo de indexação que sobrou do Plano Real. Isso exige um duro trabalho de convencimento da sociedade para dar conforto ao Congresso na sua aprovação.


ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras na Folha de São Paulo

contatodelfimnetto@terra.com.br

terça-feira, 26 de abril de 2011

Tchernobil faz 25 anos em meio à volta do temor nuclear

Presidentes ucraniano e russo irão ao local; para especialista, tragédia se agravou quando a URSS escondeu informações
 
SABINE RIGHETTI
DE SÃO PAULO

Em meio a protestos de países como a Alemanha e o Japão contra a energia nuclear, o acidente da usina de Tchernobil -no norte da Ucrânia, região pertencente à então União Soviética- completa hoje 25 anos.
O desastre já havia voltado à mídia após o vazamento na usina de Fukushima, no Japão, atingida pela combinação de terremoto e tsunami que devastou o nordeste japonês em 11 de março.
Mas a data está sendo lembrada sem muito "alvoroço" na Ucrânia. O presidente do país, Viktor Yanukovich, deve visitar hoje a usina de Tchernobil em memória das vítimas. O presidente russo, Dmitri Medvedev, também deve comparecer.
"Lembro das pessoas chorando nas ruas. No dia seguinte ao acidente, ônibus começaram a sair da cidade", conta a professora Svetlana Nycolayevna Dygun.
O relato dela é uma das 25 histórias publicadas no site da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), em homenagem às vítimas.
Até hoje não se sabe com precisão a quantidade de mortos e de contaminados pela radiação da usina.
Estima-se que cerca de 50 pessoas tenham morrido diretamente pelos efeitos das partículas radioativas emitidas com a explosão do reator 4 da usina de Tchernobil.
"O problema foi que o governo soviético tentou esconder o acidente e a população ficou muito exposta", diz o engenheiro nuclear Leonam Guimarães, da Eletrobras.
O reator 4 da usina de Tchernobil, construída pela União Soviética na década de 70, explodiu em 26 de abril de 1986. O acidente é considerado o pior do mundo pela classificação da AIEA.
Hoje, os destroços da usina -incluindo reatores ainda com combustível nuclear e o sarcófago de concreto e chumbo que cobriu o reator 4- são pontos turísticos.
Uma nova catacumba, financiada pela União Europeia, deve começar a ser construída até 2012.

FANTASMAS
Até hoje, Tchernobil e vizinhança ainda têm regiões "fantasmas". Segundo a AIEA, pelo menos cem vilarejos foram abandonados com o acidente: cerca de 100 mil pessoas deixaram a área.
Cientistas seguem estudando os efeitos da radiação de Tchernobil. O Unscear, uma espécie de "IPCC da radiação", divulgou relatório mostrando, por exemplo, que a incidência de câncer de tireoide em crianças aumentou sete vezes em Belarus.
Para Guimarães, é "infeliz coincidência" que os 25 anos de Tchernobil aconteçam quando o mundo está atento a Fukushima. "Criou-se uma ideologia antinuclear."Desastre em Fukushima, no Japão, reaviva desconfianças provocadas pelo acidente na usina da Ucrânia, em 1986

As roupas do Estado

VLADIMIR SAFATLE
Há algo de profundamente cínico na lei francesa que proíbe mulheres de portar indumentárias como a burca e o niqab. Primeiro, essa lei nada tem a ver com a laicidade do Estado. Um Estado laico não pode crer que sua realização esteja ligada à construção de uma sociedade laica.
Na verdade, o Estado laico é aquele indiferente à religiosidade da sociedade. Essa indiferença implica distância do ordenamento jurídico estatal em relação aos dogmas e costumes religiosos.
Tal distância significa duas coisas: as leis não serão influenciadas pela religião e o Estado não legisla sobre práticas e costumes religiosos.
Pode-se argumentar que, porém, o Estado deve fornecer as garantias institucionais para o reconhecimento da dignidade dos sujeitos, mesmo no interior de práticas religiosas.
No caso, a lei contra o uso da burca e do niqab seria legítima, já que as indumentárias ferem tal dignidade, na medida em que seriam um signo de opressão contra as mulheres.
No entanto não cabe ao Estado dizer que um roupa é signo de opressão. Até porque, a opressão é algo que só pode ser enunciado na primeira pessoa do singular ("Eu me sinto oprimido"), e não na terceira pessoa ("Você está oprimido, mesmo que não saiba ou não tenha coragem de dizer. Vim libertá-lo").
Se houver ao menos uma pessoa que compreende a burca como expressão autêntica de si, então a opressão virá da própria lei do Estado. Há pouco tempo, sutiãs eram signos de opressão e ninguém teve a ideia de pedir ao Estado para proibir garotas de usá-los.
Vejam como o argumento é falho. Se o governo francês estivesse preocupado com a opressão religiosa das mulheres, ele deveria, ao mesmo tempo, propor o fechamento dos conventos para freiras com suas práticas de mortificação da carne, assim como a abolição do uso de suas indumentárias no espaço público.
Não é difícil imaginar as roupas de freiras como uma burca cristã. De toda forma, uma das características maiores do cinismo é a aplicação parcial dos princípios. Cabe ao poder soberano decidir em que condições e para quais povos eles serão aplicados.
Mas, como se não bastasse, veio-se com o argumento de que há uma peculiaridade na burca e no niqab, já que encobrir o rosto seria contra a transparência do modo de vida democrático.
Melhor seria dizer que, no modo de vida realmente democrático, cada um faz o que quiser com seu rosto. Mesmo o argumento sobre a segurança social de ter rostos identificados é falho. Se este fosse o real problema, então precisaríamos de uma cômica lei geral contra velar o rosto.
Isso mostra como a melhor coisa que o Estado faz nesses casos é ficar longe dos corpos e dos guarda-roupas de seus cidadãos.

VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras na Folha de São Paulo.

Tchernobil, 25 anos

Editoriais
editoriais@uol.com.br


Máximo de 45 mortes pode ser atribuído com segurança ao maior desastre nuclear da história; Fukushima também encarecerá energia atômica

Completa hoje um quarto de século o maior acidente nuclear da história, na central atômica de Tchernobil, Ucrânia (em 1986, parte da extinta URSS). Um desastre muito mais grave que o de Fukushima, Japão, há um mês e meio. As lições deixadas pelos dois episódios criam dificuldades para o uso pacífico da energia do átomo, mas não a ponto de afastá-la como alternativa para a produção de eletricidade.
Há mais diferenças que semelhanças entre Tchernobil e Fukushima. O primeiro acidente decorreu de imperícia na operação do reator número 4 da central, que o tornou instável. O aumento descontrolado da temperatura provocou explosões que destruíram o vaso do reator e parte do prédio.
Dois funcionários morreram na hora. Outros 134 sofreram contaminação aguda por radiação, dos quais 28 morreriam nos quatro meses seguintes. Grande quantidade de substâncias radioativas foi lançada no ar por dez dias e se espalhou pelo hemisfério Norte.
Apesar da contaminação de 150 mil km2, poucas mortes na população do entorno -5 milhões de pessoas, 220 mil reassentadas- podem ser atribuídas com segurança a Tchernobil. O último relatório da ONU a respeito lhe credita "parte substancial" de 6.000 casos de câncer de tireoide entre crianças e jovens, 15 fatais.
Em que pese ter sido classificado na mesma escala de gravidade de Tchernobil, o desastre de Fukushima -causado por forte terremoto seguido de tsunami- até agora teve impacto menor. Morreram dois trabalhadores da usina, mas ao que se sabe por ferimentos, não por radiação.
Dezenas de funcionários sofreram contaminação, mas só três em doses capazes de originar sintomas graves (queimaduras nas pernas). Dezenas de milhares de habitantes foram evacuados, porém serão necessários alguns anos para avaliar o eventual aumento na incidência de tumores.
O balanço deverá ser menos maligno que o de Tchernobil. O Japão proibiu a venda de alimentos produzidos na região. A URSS demorou a fazer o mesmo com o leite, fonte da contaminação com iodo radioativo que levou ao pico de casos de tumores da tireoide entre crianças e jovens.
Após Tchernobil, várias medidas de segurança foram adotadas no plano internacional para prevenir novos desastres. O mesmo deverá ocorrer em decorrência de Fukushima. Isso encarecerá a construção de novas usinas, como Angra 3 e as outras quatro planejadas pelo governo brasileiro.
Nem por isso a eletricidade de fonte termonuclear deixará de ser atraente, avaliam especialistas, sobretudo aqueles preocupados com alternativas à queima de combustíveis fósseis e com o aquecimento global. O custo total de cada forma de energia, presente e futuro, precisa ser calculado e refletido no preço final -seja o da segurança ampliada, no caso nuclear, seja o da mudança climática, no caso do petróleo. É a precondição para decisões racionais.
Folha de São Paulo, 26/04/2011

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Cidade brasileira registra um número recorde de gêmeos


Por ALEXEI BARRIONUEVO e MYRNA DOMIT


SANTIAGO, Chile - Tantos gêmeos vêm nascendo há anos na cidadezinha de Cândido Godói, no sul do Brasil, que os moradores se indagam se haverá algo de misterioso na água ou até mesmo se Josef Mengele, o médico nazista conhecido como o Anjo da Morte, teria feito experimentos na região.
Agora, porém, um grupo de cientistas diz que uma série de exames de DNA feitos com cerca de 30 famílias constatou que um gene específico presente na população de Cândido Godói aparece com mais frequência nas mães de gêmeos que nas mulheres que não os têm. O fenômeno é intensificado pelo alto grau de casamentos consanguíneos entre a população da cidade, composta de descendentes de imigrantes que falam alemão.
"Analisamos seis genes e encontramos um gene que confirma a predisposição ao nascimento de gêmeos nesta população", disse a geneticista Ursula Matte. Matte foi a primeira a documentar o fato de que o índice de nascimentos de gêmeos em Cândido Godói é excepcionalmente alto. Ele é especialmente alto em São Pedro, povoado de cerca de 350 moradores que faz parte de Cândido Godói. Matte constatou que, entre 1990 e 1994, 10% dos partos em São Pedro foram de gêmeos, contra menos de 1% no Brasil como um todo.
A concentração de gêmeos na cidade levou ao surgimento de teorias. Residentes dizem que Mengele percorreu o sul do Brasil na década de 1960, fazendo-se passar por veterinário, quando se acreditava que nascimentos de gêmeos tivessem começado a aumentar.
Mengele, que morreu no Brasil em 1979, foi notório por seus experimentos -muitos deles fatais- com gêmeos em Auschwitz, ostensivamente em um esforço para produzir raça mestre ariana.
Mas o estudo comandado por Matte analisou 6.615 certidões de batismo que datam de até 80 anos atrás e constatou que o fenômeno dos gêmeos já estava presente na década de 1930, "muito antes de Mengele", disse a pesquisadora.
A equipe de Matte também analisou a fonte de água da cidade -os moradores acreditam que um mineral misterioso possa ser responsável pela alta incidência de gêmeos- e não constatou nenhuma anormalidade. Daniela Junzvier, coordenadora cultural da Prefeitura de Cândido Godói, disse que a prefeitura apoiou. "Eles têm grandes esperanças de descobrir porque têm tantos gêmeos e entender melhor o que está por trás de sua história".
Os cientistas confirmaram que a maior concentração de gêmeos tem ocorrido em São Pedro, com 33 pares de gêmeos nascidos em 436 nascimentos entre 1959 e 2008, todos vivendo em uma área de 2,4 quilômetros quadrados. Em São Pedro, a equipe analisou os sobrenomes e conduziu exames. "Com uma população pequena de cerca de 80 famílias, foi um desafio encontrar mulheres que não tivessem gêmeos em grau de parentesco de primeiro grau", disse Matte.
Os cientistas acreditam que o pequeno número de famílias imigrantes que vive em São Pedro pode ter trazido o gene variante para a região.


ALEXEI BARRIONUEVO em Santiago, no Chile, e MYRNA DOMIT em São Paulo

A burca

LUIZ FELIPE PONDÉ


Você é contra ou a favor da lei francesa que proíbe o uso de burca e niqab em público? Eu sou a favor!

VOCÊ É contra ou a favor da nova lei francesa que proíbe o uso da burca e niqab (véu que só deixa os olhos de fora) em espaços públicos?
Alguns consideram essa lei parte da islamofobia. Outros, manipulação demagógica de Nicolas Sarkozy para ganhar votos da direita xenófoba. Outros ainda fazem "conta" de quantas muçulmanas usam burca ou niqab hoje na França, como se a questão fosse parada no tempo e não implicasse a mobilidade de hábitos privados e públicos que se dá ao longo do tempo e não numa estatística congelada.
Outros veem nesta lei um ato de intolerância com hábitos religiosos e opinam que as pessoas devem ter o direito a seus hábitos religiosos. Eu também acho que devemos ter direito a nossos hábitos religiosos, mas a coisa é mais complexa do que simplesmente "eu acredito em Jesus, você em Elvis, ela em ET, ele em Maomé, mas podemos ser amigos, tá?"
Outra coisa que me chama atenção é que muita gente, que é contra a lei porque a considera um preconceito contra o islamismo, não teria pruridos em defender a retirada do crucifixo dos prédios públicos ou mesmo de criticar duramente hábitos cristãos no ocidente. Qualquer um pode falar mal do cristianismo e do judaísmo porque pega bem, mas emitir qualquer juízo com relação às outras religiões fica parecendo preconceito.
De minha parte, sou a favor da lei francesa e acho que, sim, não se deve permitir o uso de burcas e niqab (e orações no meio da rua) em países que buscam o convívio secular como modo de vida legítima.
A "substância" que sustenta minha simpatia pela lei francesa vem de longe. Vem de Israel e da experiência razoável que tenho por conta de ter vivido naquele país por duas vezes e de ter ido lá desde 1980 inúmeras outras, além de conhecer muita gente de lá, e de parte dessa gente ser de profissionais da área acadêmica e intelectual.
Há um significativo crescimento da população ortodoxa em Israel nos últimos anos. Digo "ortodoxa" de maneira genérica para falar de pessoas que pressionam a sociedade como um todo no sentido de aceitar preceitos religiosos como leis e regras de conduta social. Ortodoxia aqui é sinônimo de radical.
A luta em Israel contra as pressões dos religiosos radicais sobre o cotidiano dos não religiosos (seculares) tem sido árdua. Sempre fui um fiel defensor de uma Israel secular, com todas as contradições que isso implica. Adoro Israel e não quero vê-la na pele de uma horrorosa teocracia.
Além do ódio que os árabes nutrem contra Israel (mesmo que ingênuos achem que não), há mais um agravante no caso israelense porque sua fundação como Estado judeu implica uma identidade que sempre resvala em crenças religiosas.
Não há nenhuma forma fácil de sustentar a identidade judaica ao longo dos séculos sem o amparo da crença religiosa como critério de convivência, de casamento e de criação dos filhos.
Sem a crença religiosa, qualquer "limite" imposto ao critério de escolha para uma "convivência judaica" resvala no risco de mera discriminação cultural ou racial.
E o que isto tem a ver com minha simpatia pela lei francesa? Tudo a ver.
Grande parte dos muçulmanos não pratica bem a separação entre religião e sociedade ou Estado, assim como "seus irmãos" ortodoxos em Israel. E esses caras não valorizam em nada a ideia de "tolerância". O que os mantém "quietos" é ser minoria.
O crescimento da população islâmica na França tem que ser pautado por um "limite prático" contra a invasão do espaço público por regras religiosas.
Recentemente, uma jovem muçulmana francesa, citada nesta Folha, criticou a lei porque "confundia coisas do governo com coisas de Alá". É uma prova cabal de que essa moça não sabe o que é secularismo e precisa aprender: não há "coisas de Alá" quando falamos de leis ou regras públicas na França.
Não se trata apenas de mal-estar com o crescimento do islamismo na Europa, se trata de mal-estar com a presença pública de formas do fundamentalismo religioso.
O problema não é a mulher sob a burca, mas o forte viés teocrático que cobre essa mulher com a burca.

ponde.folha@uol.com.br

China prende 36 fiéis de igrejas "subterrâneas"


DA FRANCE PRESSE

Na terceira semana da caça aberta a igrejas cristãs clandestinas, autoridades chinesas invadiram ontem dezenas de casas e prenderam ao menos 36 pessoas em Pequim.
Os fiéis estavam prestes a celebrar a Páscoa em uma praça pública ao noroeste da capital chinesa.
Os detidos integram a Shouwang, uma das maiores "igrejas subterrâneas" de Pequim -nome dado às igrejas que se recusam a deixar o Partido Comunista controlar a sua crença, e, por isso, são consideradas ilegais e caçadas.
O governo alega que no país há liberdade de religião, garantida pela Constituição chinesa.
Mas a lei só permite o credo em igrejas registradas oficialmente. As igrejas oficiais do país têm cerca de 20 milhões de fiéis, mas calcula-se que haja 50 milhões de fieis em "igrejas subterrâneas".

Folha de São Paulo, 25/04/2011

Estados Unidos versus WikiLeaks

TENDÊNCIAS/DEBATES

JOAQUIM FALCÃO


O que está realmente em jogo nessa disputa são valores: os EUA continuam dispostos a defender a liberdade de expressão na era da internet?

A guerra jurídica que mal começou entre o governo americano e WikiLeaks se desenvolve em duas arenas principais. Primeiro, como os documentos foram retirados dos arquivos do governo? Houve ilícito? Quem é o responsável?
Segundo, o WikiLeaks tem o direito de divulgar os documentos?
Qual é a estratégia americana para essa guerra? O governo tem promovido ataques pessoais aos prováveis envolvidos.
O soldado Bradley Manning, acusado de ter acessado e transmitido os documentos para o WikiLeaks, está preso sem julgamento há mais de nove meses. É obrigado a dormir nu. Fica também nu diante da inspeção dos guardas. Passa 23 horas por dia numa pequena cela.
Só tem uma hora para andar. Esse tratamento é humilhante. Ofende dois valores constitucionais americanos e universais: o da presunção de inocência e o que proíbe castigo cruel e não usual.
O ataque pessoal a Julian Assange é mais visível. Trata-se de extraditá-lo para a Suécia. E de lá, provavelmente, para os Estados Unidos.
Sob um controverso caso sexual.
Não é ataque frontal contra a divulgação de documentos. É sinuoso.
Trata-se de, paralisando o chefe, paralisar a operação WikiLeaks. Essa tática já pressionou as empresas de cartão de crédito a não intermediarem recursos que as pessoas do mundo inteiro doavam ao WikiLeaks. Deixando claro que o atual governo americano não hesita em pressionar suas empresas e a liberdade de contratar com terceiros quando julga de seu interesse.
O ataque pessoal pretende repercussão intimidatória global. Não importa se há ou não o direito de publicar documentos não publicáveis. Importa aumentar os custos da liberdade futura. Se publicar, a perseguição jurídica do governo será pessoal. Com incríveis custos econômicos, psicológicos e físicos para o adversário.
Essa estratégia governamental enfrenta hoje três obstáculos. Primeiro, a incerteza sobre se a Suprema Corte daria ganho de causa ao governo. A jurisprudência é de proteção total à liberdade de expressão. Assim foi nos casos da publicação da fórmula da bomba atômica e dos papéis do Pentágono. Por isso, o governo ainda não peticionou à Suprema Corte. Mas correrá esse risco, um dia, se for necessário.
Segundo, somente em caso extremo, quando está em jogo a segurança nacional, a Suprema Corte poderia sustar e punir o WikiLeaks.
Teria que haver evidência absoluta do dano. Os fatos mostram que os documentos divulgados não afetaram a segurança nacional. Causaram mais medo à burocracia que dano ao país.
Terceiro, a divulgação não foi feita pelo WikiLeaks sozinho, mas pelos maiores jornais do mundo também: "The Guardian", "The New York Times", Folha, entre outros.
Eles também serão censurados?
Punidos? Como? Será difícil dizer ao mundo que o país campeão da liberdade de expressão realiza ataque coletivo e global à mídia livre.
Alguns juristas orgânicos tentam elaborar a teoria de que divulgação em internet não é mídia, e, portanto, o WikiLeaks não goza da mesma liberdade de expressão que "Times", "Guardian" ou Folha.
Em EUA versus WikiLeaks, o que está realmente em jogo são valores.
Os Estados Unidos continuam dispostos a defender a liberdade de expressão na era da internet? Qual o impacto de coibir internamente essa liberdade, sobretudo quando ela tem sido vital para a democratização dos países orientais?

JOAQUIM FALCÃO, mestre em direito pela Universidade Harvard (EUA) e doutor em educação pela Universidade de Genebra (Suíça), é professor de direito constitucional e diretor da Escola de Direito da FGV-RJ. Foi membro do Conselho Nacional de Justiça.
Folha de São Paulo, 25/04/2011

domingo, 24 de abril de 2011

China, 32 anos depois

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA



Povo nenhum viveu período de progresso tão acelerado; 600 milhões deixaram a pobreza


DE VOLTA à China, 32 anos depois da minha primeira e única visita, pude ver em Pequim o incrível progresso que houve aqui.
Nenhum país passou antes por um período de progresso tão acelerado: em média, seu PIB cresceu cerca de 9% ao ano, e cerca de 600 milhões de chineses já saíram da pobreza. Qual o segredo desse "milagre" duradouro?
No plano político, foi a força do nacionalismo em um tempo neoliberal em que todo nacionalismo econômico estava "condenado"; no plano econômico, foi a abertura da conta comercial enquanto se mantinha fechada a conta financeira, foi a liberação do fluxo de mercadorias, mas mantendo o fluxo de capitais sob severo controle.
Na China, não existe complexo de inferioridade colonial. Os intelectuais chineses que encontro em seminários internacionais sempre me impressionam porque, ao invés de olhar os EUA como nós, latino-americanos, de maneira agressiva ou então subordinada, os olham amavelmente, mas como iguais.
Não passa pela cabeça dos chineses "reconhecer" a superioridade intelectual do "Ocidente", e, a partir daí, aceitar suas recomendações de política econômica -recomendações que nós aceitamos, e que estão transformando o Brasil em uma grande fazenda.
A China foi, no passado, um grande império; depois que a Europa se industrializou, sofreu 100 anos de decadência econômica sob o jugo do Ocidente, porém, desde 1949, desenvolveu-se de maneira independente: primeiro, como sempre acontece nos países retardatários, com base no Estado, e, a partir de 1980, com base no mercado.
O segundo segredo da China é ter aberto a conta de mercadorias, enquanto rejeitava a abertura financeira.
O velho desenvolvimentismo defendia a proteção alfandegária que é útil na fase inicial do desenvolvimento, mas, como a China cedo compreendeu, o que interessa é competir com os países ricos na exportação de bens industriais, aproveitando-se de sua mão de obra mais barata.
Mas os chineses não querem saber de abertura financeira. Embora não esteja claro para eles que, nos países em desenvolvimento, há uma tendência cíclica à sobreapreciação da taxa de câmbio, sabem que mantê-la competitiva é essencial. Porque, para aumentar a taxa de investimento e de poupança interna, é fundamental que existam boas oportunidades de investimentos lucrativos para as empresas -e, para isso, a principal condição é uma taxa de câmbio equilibrada.
Para eles a abertura financeira não é uma fatalidade, algo para o qual "não há alternativa", como é para nós. É claro que é possível controlar as entradas de capital e manter a taxa de câmbio competitiva.
Eu sabia da força da nação chinesa, mas, desta vez, foi fascinante ver os milhares de chineses que todos dias enchem a praça Tiananmen para ver o corpo embalsamado do líder de sua revolução nacional, Mao Tse-Tung. Há 32 anos, não era assim; eles não tinham dinheiro para fazer esse turismo cívico que, para nós, é estranho.
Não há, porém, nada de estranho na capacidade da China de competir com o resto do mundo. Terá o Brasil capacidade de reagir e também competir? Ou vamos nos conformar em ser um país agropecuário moderno que cresce, mas com instabilidade e a taxas muito menores do que as chinesas?
Folha de São Paulo, 24/04/2011

Governo buscou o apoio do "New York Times" ao golpe

DE WASHINGTON
DE BRASÍLIA


A Casa Branca tentou fazer com que os maiores jornais americanos publicassem textos críticos a João Goulart e favoráveis aos militares antes do golpe de 1964.
Memorando que resume reunião de integrantes do governo Lyndon Johnson em 28 de março de 1964 mostra intenção de pedir ao "New York Times" e ao "Washington Post" apoio à saída de Jango em "editoriais satisfatórios, chamando a atenção para a situação no Brasil".
Temia-se, porém, o risco de os jornais não seguirem a linha desejada: "Isso teria de ser gerenciado com cuidado, pois o editorial poderia facilmente sair insatisfatório".
A estratégia é comum nos EUA e foi usada pelo então presidente George W. Bush (2001-2009) para obter apoio à Guerra do Iraque. Boa parte dos jornais fez posteriormente mea-culpa por ter cedido à pressão da Casa Branca.
Em 1964, o plano só funcionou em parte. Instados ou não pelo governo americano, os jornais criticaram Jango. Em 3 de abril, o "New York Times" publicou editorial dizendo que "Goulart era um general sem regimento" e, no dia 7, que sua gestão era ruim de todos os pontos de vista.
O "Post" disse em 3 de abril que Jango era um oportunista errático "com poucos talentos". Mas eles também criticaram os golpistas.
"A impressão é que, para defender o país da subversão totalitária, os novos governantes estão usando métodos totalitários", escreveu o "Post". "A saída [de Jango], ainda que desejável, não precisa e não deve levar a uma ditadura", afirmou o "NYT".
Consultado sobre a pressão da Casa Branca em 1964, o "New York Times" disse não ter dados tão antigos, mas que seu "conselho editorial se reúne com integrantes de governos do mundo todo há mais de cem anos". (ANDREA MURTA e FELIPE SELIGMAN)
Folha de São Paulo, 24/04/2011

EUA queriam rever negócios com Brasil para ajudar a depor Jango

Três dias antes do golpe, Casa Branca pediu orientação sobre quais medidas deveria tomar

Governo questionava embaixador se deveria "segurar a aprovação" de empréstimos para enfraquecer presidente

FELIPE SELIGMAN
DE BRASÍLIA
ANDREA MURTA
DE WASHINGTON

Em apoio ao golpe de 1964, a Casa Branca estava decidida a rever as relações econômicas com o Brasil para enfraquecer o governo do presidente João Goulart.
A informação consta de documentos secretos liberados pelo governo norte-americano e obtidos pela Folha.
Os papéis relatam uma reunião na Casa Branca em 28 de março de 1964, três dias antes do golpe, com conselheiros diretos do presidente Lyndon Johnson e agentes de alto escalão da CIA.
Esse encontro ocorreu após o recebimento de mensagem do então embaixador dos EUA no Brasil, Lincoln Gordon, com detalhes e pedidos para possível participação norte-americana no golpe para derrubar Jango.
Essa participação ficou conhecida como "Operação Brother Sam": o governo dos EUA discutiu a possibilidade de enviar navios, combustíveis e armamentos para auxiliar os militares golpistas.
Novos documentos mostram que os planos dos EUA não tratavam só de apoio militar. Um dos textos, que resume a reunião do dia 28, diz que a Casa Branca deveria telegrafar a Gordon: "Queremos que o embaixador reveja nossas relações econômicas e financeiras com o Brasil e nos recomende quais ações devemos tomar".
No mesmo dia, esse telegrama é enviado ao Brasil e fala em medidas concretas, como abandonar ou modificar negociação sobre a dívida brasileira e repensar as taxas de importação de café.
A Casa Branca questiona se deveria "abandonar, reduzir ou modificar de alguma forma a estratégia de negociação da dívida para evitar fortalecer o prestígio de Goulart". E mais: "Devemos segurar a aprovação ou o anúncio de empréstimos assistenciais? Outras medidas não militares são desejáveis para polarizar mais a situação em detrimento de Goulart?"
Gordon pediu o envio de armas sem identificação serial ou fabricadas fora dos EUA. A Casa Branca, porém, viu dificuldades em fornecer armamento "que não fosse depois atribuído a uma operação secreta dos EUA".
Um dos memorandos do Estado-Maior americano, datado de 31 de março, detalha ordens de envio de força-tarefa naval para a região de Santos para "estabelecer presença dos EUA nesta área".
Também neste caso aparece a preocupação de não expor os EUA: "Não sabemos se podemos oferecer disfarce plausível para a força naval".
As medidas não chegaram a ser executadas, porque Jango não resistiu ao golpe.
Folha de São Paulo, 24/04/2011

sábado, 23 de abril de 2011

 
 

Deposição de ditador sírio não interessa nem a países ocidentais nem a vizinhos

ANÁLISE

SIMON TISDALL
DO "GUARDIAN"

Em um momento em que a turbulência na Síria foca cada vez mais não só o regime mas também seu líder enfraquecido, a grande dúvida para os sírios é se o presidente Bashar Assad será deposto, como aconteceu com seus colegas egípcio e tunisiano.
Para governos ocidentais e vizinhos, entretanto, a questão afeta seus interesses: a queda de Assad é desejável? A resposta não verbalizada é, principalmente, "não".
É bem verdade que os EUA e seus aliados europeus já expressaram preocupação com a violência na Síria.
Mas, diferente do Egito, onde, após hesitação inicial, tomaram partido claro, exortando Hosni Mubarak a sair; e da Líbia, onde intervieram pelos rebeldes, Washington e Londres até agora não tomaram medidas para apoiar os manifestantes sírios ou para punir o regime.
Uma razão para explicar a passividade é que EUA, em especial, dispõem de comparativamente pouca alavancagem. A Síria já está sujeita a sanções americanas, e suas relações diplomáticas com os EUA são tênues.
Também cabe o receio de que a queda de Assad e uma instabilidade solapariam o esforço de paz entre israelenses e palestinos; atrapalhariam o delicado equilíbrio no Líbano e no Iraque; e dariam abertura a extremistas.
Os países da região também são a favor do status quo. A Turquia acredita que, se a situação descambar, poderia reavivar o clima separatista na minoria curda nacional, com impacto no sudeste.
Israel receia que um novo governo sírio pudesse fazer pressão mais agressiva pela devolução das colinas de Golã. A Arábia Saudita se opõe por princípio a tudo que recenda a democracia.
E a Europa tampouco lidera a torcida por mudanças. O fato de a União Europeia ser a maior parceira comercial da Síria e de comprar petróleo sírio pode ter alguma relação com isso.
Naturalmente, este consenso repulsivo não é aventado ou divulgado. Na teoria, todos esses governos são a favor de reformas.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

"The Donald"

KENNETH MAXWELL

A agência de classificação de crédito Standard & Poor's rebaixou as perspectivas dos títulos de longo prazo do Tesouro norte-americano de "estáveis" para "negativas".
A classificação geral dos títulos públicos dos EUA não mudou. Continua a ser AAA, a mais elevada, atribuída também aos títulos britânicos, alemães e franceses.
Mas a perspectiva "negativa" representa um disparo de advertência cujo alvo evidente são os políticos em Washington, que continuam brigando quanto à política fiscal e não exibem, ao menos de acordo com a opinião da Standard & Poor's, intenções de lidar seriamente com o crescente deficit norte-americano.
Os mercados de ações foram apanhados de surpresa pelo alerta. E o mesmo se aplica aos políticos. Wall Street registrou queda de 140 pontos.
Os mercados de ações britânico, alemão e francês também caíram pelo menos 2%.
O FMI alertou na semana passada que as dimensões do deficit americano estavam criando "instabilidade".
Em 2010, o deficit foi de US$ 1,4 trilhão e deve atingir US$ 1,5 trilhão neste ano. Para fins de comparação, a classificação dos títulos de longo prazo brasileiros é BBB, segundo a Standard & Poor's, e o deficit do país equivale a 66,1% do Produto Interno Bruto.
Será que a Standard & Poor's tem razão quanto à capacidade (ou incapacidade) de agir dos EUA? O surgimento do mais recente candidato potencial do Partido Republicano para a eleição presidencial do ano que vem pode oferecer uma resposta. Donald Trump vem sendo alardeado (e se alardeando) como o mais efetivo adversário contra Obama.
"The Donald", apelido que lhe foi dado pela ex-mulher Ivana Trump, é um magnata dos imóveis de Nova York, proprietário de cassinos e apresentador de TV famoso pelo ego superdimensionado, personalidade exuberante, penteado extravagante e o bordão "you're fired", que ele usa em "Celebrity Apprentice", o programa de TV de grande sucesso que comanda na rede NBC.
O nome de Trump ocupa lugar de destaque em muitos dos edifícios conhecidos dos quais ele é dono em Nova York. Sua atual campanha pretende provar que Obama não nasceu nos EUA.
Trump já ocupa o topo da lista de favoritos entre os pré-candidatos republicanos. Está cortejando os evangélicos e os eleitores do Tea Party, e agora se opõe ao aborto, bem como ao controle de armas.
Alguma dessas coisas tem relação com o deficit? A Standard & Poor's diz: "Acreditamos que haja risco substancial de que as negociações no Congresso não resultem em acordo quanto a uma estratégia fiscal de médio prazo, antes da eleição presidencial e legislativa de 2012". Tem razão.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras na Folha de São Paulo

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Renovação em Cuba

quarta-feira, 20 de abril de 2011

 
 

Opção pela velha guarda indica aversão de Raúl por correr riscos

DA ENVIADA A HAVANA

A escolha de Ramón Machado Ventura, 80, como o novo número 2 do Partido Comunista de Cuba sinaliza que o ditador Raúl Castro preferiu não correr riscos.
"Não é nenhuma surpresa", disse Raúl, ao anunciar o nome de Ventura, um veterano da guerrilha, médico de formação e um dos primeiros ministros da Saúde do regime instalado em 1959.
O novo segundo-secretário do Partido Comunista tem ainda outra característica valorizada: relativa desenvoltura para viagens internacionais às quais Raúl é muito menos afeito que Fidel.
No passado, especulou-se que esse cargo estratégico -é quem substitui o chefe de Estado em caso de morte ou doença- iria para Carlos Lage, então vice-presidente e uma das caras internacionais do regime.
Lage seria expurgado ao lado de outra estrela da nova geração, o ex-chanceler Felipe Pérez Roque, um ano depois -ambos acusados de traição à pátria.
Lá, como agora, ganhou a "aliança entre militares e históricos" que sustenta o governo Raúl, nas palavras do sociólogo cubano Haroldo Dilla, há anos estudioso da elite política cubana.
A idade dos chefes máximos da ilha limita o período deles no poder. Raúl mesmo disse que, "por lei da vida", o congresso encerrado ontem era o último dos quais os históricos participariam.
O ditador também anunciou que se trata de uma espécie de cúpula de transição, já que em janeiro uma conferência do partido terá o poder de renovar mais uma vez os quadros de comando.
No período, as atenções interna e externa devem se voltar para a atuação de Marino Murillo, que ascendeu ao birô, o núcleo duro da legenda, e é o "czar" das reformas econômicas.
O economista de 50 anos foi nomeado como o chefe de uma comissão que deverá cuidar da implementação das mudanças econômicas, como a promoção de produção agrícola privada.
Tem aparecido muito na TV, como "explicador" das novas medidas. (FM)
Folha de São Paulo, 20/04/2011

Cuba aposta em líder de 80 anos para renovar Partido Comunista

Ex-guerrilheiro Ramón Ventura será número 2; Fidel deixa cargo no partido após 5 décadas

Raúl Castro passa a ser primeiro-secretário e indica que velha guarda comandará processo de reformas econômicas

FLÁVIA MARREIRO
ENVIADA ESPECIAL A HAVANA

"Não é o perfeito, mas é o que podemos fazer por enquanto", disse ontem o ditador de Cuba, Raúl Castro, 79, ao ser confirmado como chefe máximo do Partido Comunista e informar que o novo número 2 da legenda é o também líder histórico Ramón Machado Ventura, 80.
O tom de justificativa de Raúl, no encerramento do 6º Congresso do PC, tinha um motivo: o anúncio de que será a "velha guarda" que comandará as reformas econômicas anunciadas para a ilha contrasta com a promessa de promover um "rejuvenescimento sistemático" do PC feita dias antes por ele mesmo.
O encontro histórico marcou a exclusão formal do líder da Revolução de 1959, Fidel Castro, do cargo que ocupava há décadas e que agora é de seu irmão Raúl: o de primeiro-secretário da legenda.
Veterano da guerrilha de Sierra Maestra, Ventura, que já era desde 2008 vice-presidente do país, é o segundo-secretário.
Fidel, 84, fez uma aparição surpresa na cerimônia. De abrigo esportivo, o ex-ditador -que, doente, deixou o poder em 2006- caminhou devagar até a mesa principal do encontro. Foi ovacionado, enquanto a TV estatal focava militantes às lágrimas. Não disse uma palavra.
Os delegados do PC ratificaram a escolha do novo núcleo duro do partido -o birô, com 15 membros- e da cúpula ampliada, o chamado Comitê Central, de 115.
Três novos nomes ascenderam ao birô, com destaque para Marino Murillo, 50, espécie de czar das reformas econômicas, e o novo ministro da Economia, Adel Izquierdo, 65.
Já no Comitê Central, a renovação foi maior: 59 dos 115 nomes. Raúl frisou o esforço de aumentar a representação de mulheres (de 41%) e de negros e mestiços (31%).
A força dos militares no governo do general e ex-ministro da Defesa Raúl sobressaiu nas listas das duas instâncias. No birô, nada menos que 40% são militares, e são eles que controlam as maiores holdings estatais, como a de turismo Gaesa. Também estão à frente de joint-ventures com capital estrangeiro em mineração.

REELEIÇÃO
O encontro do PC, o primeiro em 14 anos, foi convocado para discutir como salvar a ilha da crise econômica, mas ganhou relevância política com a renovação da legenda e a proposta de Raúl de limitar a dez anos o período de um dirigente no poder.
Um dos mais longevos ditadores da história latino-americana, Fidel Castro escreveu ontem que a ideia de limitar a reeleição lhe "agradou". Disse que nunca se preocupou pelo tempo que permaneceria no comando -47 anos- e que aceitou a posição "quase obrigado".
O Congresso do PC fez uma deferência ao maior aliado econômico e político de Fidel, Hugo Chávez.
Um texto do presidente venezuelano, que obteve aprovação popular para instituir a reeleição indefinida em seu país, abriu a cerimônia de ontem.

Justiça da Argentina identifica mais cinco vítimas da ditadura

Mortos e desaparecidos no último regime somam quase 30 mil

LUCAS FERRAZ
DE BUENOS AIRES

A Justiça da Argentina anunciou nesta semana a identificação dos restos mortais de outros cinco militantes de esquerda mortos durante a última ditadura militar (1976-83).
Com os novos resultados, chega agora a 444 o número total de corpos identificados entre quase 30 mil mortos e desaparecidos no período, segundo estimativas feitas pelas entidades de direitos humanos.
As análises foram realizadas pela Equipe Argentina de Antropólogos Forenses, que atua na identificação de desaparecidos desde a redemocratização do país. O grupo já esteve no Brasil, empreendendo várias buscas na região onde ocorreu a guerrilha do Araguaia.
"Ainda temos mais de 500 corpos em análise. Ao todo, já fizemos mais de mil exumações", contou à Folha Luis Fondebrider, diretor da Equipe Argentina de Antropologia Forense.
Os cinco corpos agora identificados (quatro mulheres e um homem) foram recuperados em 1984 de um cemitério municipal de San Martín, na região metropolitana de Buenos Aires. À época, todos foram periciados por uma entidade de La Plata, sem êxito.
Em 2006, a Justiça reordenou nova análise em várias ossadas, trabalho que ficou sob a responsabilidade da Equipe Argentina de Antropologia Forense. A análise desses cinco corpos foi concluída no final de março.
De acordo com a perícia, que se somou à investigação judicial, as vítimas foram sequestradas em cidades da grande Buenos Aires em 1976, ano do golpe, e assassinadas por armas de fogo no início de 1977.
Os corpos serão entregues às famílias.
O número de vítimas identificadas até agora -baixo em relação ao total de mortos e desaparecidos- revela a sistemática do terrorismo de Estado que vigorou na Argentina: voos da morte, quando militantes eram jogados vivos de aviões sobre o rio da Prata, além da prática de queimá-los ou enterrá-los em covas coletivas.
Várias foram descobertas nos últimos anos, as duas maiores em Buenos Aires e Córdoba. A maioria dos restos encontrados nessas fossas está em análise.
Folha de São Paulo, 20/04/2011

Gradualismo

ANTONIO DELFIM NETTO
Estamos num momento interessante. De um lado, existe um otimismo moderado do governo com relação à possibilidade de manter a inflação sob controle, fazê-la retornar a 4,5% no final de 2012 e conseguir um crescimento médio do PIB em torno de 4,5% no biênio 2011-12. De outro, há um pessimismo exagerado de alguns analistas do mercado financeiro. Estaríamos às portas de um profundo desarranjo fiscal e de perda completa da ancoragem da expectativa da taxa de inflação.
O primeiro diagnóstico sugere uma política econômica cuidadosa e vigilante para acomodar um razoável crescimento com aumento da inclusão social.
O segundo diagnóstico prescreve uma ação drástica: um choque monetário para recuperar a "credibilidade" do Banco Central, supostamente perdida em 2010. Os dois têm custos e riscos sociais e políticos muito diferentes e é natural que o poder incumbente procure minimizá-los.
O segundo diagnóstico é apoiado numa visão que não corresponde à realidade que estamos vivendo.
Quando se analisa o que ocorre no mundo e se compara com o que nos acontece, verificamos que a situação fiscal (deficit nominal e relação dívida/ PIB), mesmo não sendo a que gostaríamos, está longe de ser um desastre, e que a nossa taxa de inflação batendo no teto de tolerância da "meta" não está mais fora de controle do que a de qualquer outra do mundo emergente.
Um dramático choque fiscal e um significativo aumento da taxa de juro real (já a maior do mundo e três vezes maior do que a do segundo colocado) poderia nos levar de volta à recessão. Não tenhamos ilusões.
É impossível "calibrar" os efeitos de tal choque. Uma vez iniciado, ele se incorporará às expectativas dos trabalhadores que, com o risco de perderem seus empregos, cortarão seu consumo e dos empresários que, com medo de perderem o equilíbrio de suas finanças, reduzirão a produção e adiarão seus investimentos.
Quem "calibra" para reduzir o crescimento a 3% poderá acabar reduzindo-o para -1%.
Diante desses riscos, é claro que a estratégia cuidadosa do governo parece muito melhor: reduzir o crescimento real das despesas de custeio para ficar abaixo do crescimento provável do PIB e, além da manobra dos juros, introduzir medidas macroprudenciais para colaborar no ajuste da demanda.
Quando o Banco Central alonga o período da política monetária e aceita a possibilidade da taxa de inflação superar momentaneamente a "meta", ele não está desistindo do combate à inflação.
Está apenas tentando reduzir os custos sociais e políticos do ajuste necessário. Se não atingir o objetivo, poderá mudar a ênfase dos seus instrumentos e pagará um pouco mais caro por isso.

ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras na Folha de São Paulo

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Nova velha Cuba

Editoriais
editoriais@uol.com.br


Os resultados do primeiro congresso em 14 anos do Partido Comunista de Cuba ficaram aquém do que seria necessário para lançar o país no rumo de uma reforma capitalista profunda. Nem mesmo o tom de autocrítica adotado pelos irmãos Castro, sobre a ineficiência econômica e a fossilização do regime de 52 anos, autoriza muito otimismo com essa perspectiva.
Na economia, as reformas que vinham sendo esboçadas por Raúl Castro foram ratificadas, mas em parte desaceleradas. A demissão de 500 mil funcionários públicos -anunciada em setembro para efetivação até março- foi estendida agora para cinco anos.
A promessa de rejuvenescer a liderança e limitar a ocupação de cargos públicos a dois mandatos de cinco anos contrastou com a nova cúpula do PCC. O segundo e o terceiro postos serão ocupados por integrantes da velha guarda revolucionária, de 80 e 78 anos.
O próprio Raúl pediu desculpas pela falta de "substitutos experientes". Não mencionou, claro, o expurgo em 2009 de dirigentes mais jovens que eram vistos como sucessores dele e do irmão.
O objetivo principal das reformas econômicas é legalizar e cobrar impostos de uma economia subterrânea e precária. Daí o anúncio de que será permitido o comércio de imóveis e veículos.
Num país que depende da importação até de alimentos, a timidez das reformas tem relação com os limites determinados pela carência de capital e de insumos, necessários para deslanchar os pequenos negócios que deveriam ocupar os servidores demitidos. E, também, com o receio do PCC de perder o controle do processo.
Na agricultura, por exemplo, Cuba enviou técnicos ao Vietnã com o objetivo de estudar a cessão de terrenos agrícolas para usufruto vitalício de particulares e a liberação do comércio de alimentos. Em vez de seguir o exemplo, porém, Havana ainda obriga seus empreendedores a vender boa parte da produção ao Estado.
O gradualismo é compreensível. A experiência com terapias de choque na transição de regimes comunistas, como na Rússia, não indica garantia de estabilidade política, antes o contrário. Enquanto isso, acentua-se a divisão social entre os cubanos que têm parentes no exílio e acesso a divisas, de um lado, e os que não dispõem dessa vantagem, de outro.
Nesse sentido, é de lamentar o anacronismo do embargo dos EUA a Cuba. A liberação de investimentos e viagens por norte-americanos seria um incentivo para a aceleração das reformas e tiraria do regime o principal argumento contra a abertura política

terça-feira, 19 de abril de 2011

Abertura imobiliária pode mudar Havana

DA ENVIADA ESPECIAL A HAVANA

No bonito Passeio do Prado, na entrada do centro histórico de Havana, todos os dias se reúnem dezenas de homens e mulheres em busca de "trocar" casas. Ou pelo menos isso é o que eles dizem às autoridades.
Há 50 anos é proibido vender ou comprar casas em Cuba, a não ser que o comprador seja o Estado. É permitido só "permutar" a casa por outra, à conveniência das partes. O mesmo vale para carros comprados após 1960.
O estranho sistema alimenta há décadas um mercado imobiliário subterrâneo de compras e vendas que está prestes a emergir e que pode, segundo observadores, mudar a cara de Havana.
Muitos dos frequentadores do Prado são, na verdade, corretores de imóveis experientes, que facilitam a negociação, fecham contratos de gaveta ou simulam "trocas".
Um grupo deles ontem entrou em uma discussão calorosa: entre cinco, dois não acreditavam de jeito nenhum que o governo liberaria a compra e venda de casas, como sugerido por Raúl Castro em seu discurso no sábado.
Ontem, a imprensa oficial confirmou que os delegados do Congresso do PC "decidiram levar a plenário que se estabeleça compra e venda" de casas e a flexibilização de outras modalidades, como doação e arrendamento.

CRESCIMENTO
"Se isso for aprovado, e acredito que vai ser, o nosso negócio vai crescer muito. Hoje tem gente que manda dinheiro de Miami para um parente comprar uma casa, mas é um risco. Pode ficar sem o dinheiro e sem a casa. Tem muita gente esperando por isso", diz José R., 45, do lado dos corretores otimistas e há três anos no negócio.
De acordo com os corretores ilegais, um apartamento de 60 metros na Havana Velha, a parte histórica da cidade, pode custar US$ 10 mil no mercado negro, se necessitar de muitos reparos. Um valor ainda bastante baixo para uma capital turística.
Já nos registros do governo, casas e apartamentos podem custar irrisórios 10 mil pesos cubanos (US$ 400).
A mudança tem potencial para mostrar a desigualdade na ilha -os sem acesso a divisas, atualmente também vivendo nas áreas centrais da cidade, podem ser empurrados para as periferias.
Folha de São Paulo, 19/04/2011

Regime cubano começa a definir a sucessão dos Castro

Congresso do Partido Comunista vota para definir novo número dois da legenda; delegados aprovam reformas

Em artigo, Fidel elogia discussão pelos jovens, diz que não entende tudo o que falam e pede que consertem regime

FLÁVIA MARREIRO
ENVIADA ESPECIAL A HAVANA

O Partido Comunista de Cuba começou ontem a eleger sua nova cúpula elevando a expectativa para conhecer o novo número dois do regime, dias depois de o ditador Raúl Castro admitir que sua geração falhou na tarefa de preparar sucessores.
A imprensa oficial distribuiu fotos da votação, mas não havia informações sobre o resultado até a noite.
No sistema de partido único cubano, o PC é a autoridade máxima do país e é comandado por um primeiro-secretário -posto ocupado por Fidel Castro, 84, até adoecer, em 2006- e pelo segundo-secretário, Raúl.
Espera-se que o ditador ascenda ao posto do irmão, abrindo a estratégica vaga na linha de sucessão. É provável que seja a primeira vez, em 53 anos, que um posto tão alto seja ocupado por alguém sem o sobrenome Castro.
Mil delegados do PC se reúnem desde sábado no primeiro Congresso da legenda em 14 anos.
Convocado para discutir reformas econômicas, o encontro ganhou voltagem política com a proposta de Raúl de reduzir a dez anos o período máximo de um dirigente no poder e sua promessa de "rejuvenescer sistematicamente" o partido.
"Acho positiva a mudança, ainda que, como tudo em Cuba, a decisão só venha muito mais tarde. Não temos ideia de quem vai vir depois [dos irmãos Castro]", disse o engenheiro mecânico Dennis G., 25.
Os comunistas cubanos votarão ainda para eleger o restante da estrutura da cúpula: o comitê central, de cerca de 130 membros, e o birô, hoje com 19.
Também há vagas nestas instâncias, causadas pela morte de vários líderes históricos -em média, os ligados à guerrilha vitoriosa em 1959, com mais de 70 anos.

FIDEL E OS JOVENS
A mensagem insistente dos Castro nos últimos dias tem sido a de que sua geração não tem mais muito tempo de vida e de que é preciso preparar a sucessão.
Raúl se disse "envergonhado" porque o PC não conseguiu se renovar e admitiu que faltam quadros.
Já o convalescente Fidel preferiu um tom mais otimista e incentivador de "soldado das ideias", como ele se definiu. Elogiou as discussões do Congresso e também o preparo dos delegados jovens e seu vocabulário que ele não "conseguia entender".
Exortou-os a "consertar tudo que tem de ser consertado" e mostrar mais uma vez que o socialismo é "fazer o impossível".
No sábado, Raúl deixou claro os limites dos ajustes: afirmou que nada que atente contra o espírito socialista será acatado. Citou especificamente a concentração da propriedade.

REFORMAS
Também ontem, o 6º Congresso do PC aprovou o plano de reformas econômicas para "atualizar" o modelo socialista, apresentado por Raúl como forma de retomar o crescimento de Cuba.
As reformas, algumas já em curso, têm "tendências de mercado" e incluem mais de 300 pontos para abertura do setor privado, cortes no setor público e redução de subsídios, entre outros.
Em resolução, delegados apresentaram as reformas como tendo objetivo de "garantir a continuidade e irreversibilidade do socialismo, o desenvolvimento e o aumento do nível de vida".
Folha de São Paulo, 19/04/2011

Fragilidade americana tende a realimentar incerteza global

ANÁLISE

FERNANDO SAMPAIO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Há muitas décadas, considera-se que os títulos de dívida emitidos pelo Tesouro Nacional dos EUA têm risco baixíssimo de inadimplência.
A percepção generalizada de que é muito remota a perspectiva de o governo americano não conseguir honrar esses títulos, aliada ao fato de que tradicionalmente é muito fácil encontrar quem queira comprá-los, os coloca como a referência central de mercado ("benchmark"): há décadas, os demais títulos de dívida (de governos e empresas) embutem na remuneração que pagam a quem os compra um prêmio pelos riscos maiores em que o investidor incorre ao preterir a compra de um "Treasury".
É por isso que o anúncio feito ontem pela agência Standard & Poor's, de que estuda rever para pior a sua avaliação do risco de inadimplência do Tesouro dos EUA, foi recebido com certo espanto. E o fato perturbador acabou apontado como fator para a queda das Bolsas e das moedas de vários países (como o real) mundo afora.
Esse movimento é paradoxal: uma das mais importantes das agências dedicadas à avaliação de risco de ativos financeiros afirma ter dúvidas se o porto mais seguro das finanças globais ainda deve ser visto como tal, e os investidores, ao invés de correr para se desfazer dos seus "Treasuries" e demais ativos ligados ao dólar, fazem o movimento inverso: vendem outros ativos, considerados de risco mais alto. Em outras palavras, fogem para o dólar, ao invés de fugir do dólar.
Movimentações paradoxais como essas têm sido observadas com frequência desde que o frenesi global de crédito e de especulação iniciado em 2003 desaguou em grave crise financeira, a partir de meados de 2007.
O paradoxo das commodities também é perturbador.
Devido às dificuldades atravessadas pelos países desenvolvidos, e apesar do dinamismo de muitas economias de renda mais baixa (como o Brasil e, muito mais importante, a China), no mundo considerado como um todo ainda há bastante desemprego e máquinas paradas.
E, no entanto, a grande maioria dos produtos primários se encontra com cotações entre as mais altas da história.
Essas constatações reiteram o receio de que os impasses gerados pela crise financeira -sobretudo a aguda fragilização das finanças dos governos de vários países de renda mais alta, a começar pelos EUA- ainda por um bom tempo tenderão a realimentar o clima global de grande incerteza.

FERNANDO SAMPAIO, economista, é sócio-diretor da LCA Consultores.
Folha de São Paulo, 19/04/2011

EUA recebem alerta pelo risco da dívida

Agência de classificação de risco coloca o país em "perspectiva negativa", o que derruba Bolsas pelo mundo

S&P avalia que políticos não se entendem sobre a necessidade de reduzir o deficit publico e a alta dívida norte-americana

ANDREA MURTA
DE WASHINGTON

Os EUA receberam ontem projeção "negativa" para sua nota de risco da dívida soberana, dada pela Standard & Poor's, uma das principais agências de avaliação de investimentos do mundo. A notícia derrubou diversas Bolsas ao redor do mundo.
A mudança na perspectiva representa um alerta de que aumentou o risco de o país não poder pagar a sua dívida no futuro. A perspectiva negativa é um passo anterior à decisão de rebaixar a nota de risco de um país.
A projeção anterior para os EUA era "estável". O país hoje tem nota AAA, a melhor da agência, denotando que sua capacidade de cumprir compromissos e pagar no prazo os papéis de dívida que emite é extremamente alta.
Um possível rebaixamento indicaria que a S&P crê que essa capacidade diminuiu, o que pode afugentar investidores. Segundo a agência, há uma chance em três, pelo menos, de a nota dos EUA cair em dois anos.
O motivo da projeção negativa é a situação do deficit federal americano, que deve atingir US$ 1,6 trilhão antes do final do ano, e a crescente dívida pública dos EUA, calculada hoje em mais de US$ 14,2 trilhões.
"Mais de dois anos depois do início da crise, políticos dos EUA ainda não concordaram em como reverter a deterioração fiscal ou resolver as pressões fiscais de longo prazo", disse a S&P.
Quanto maior o buraco da dívida, mais difícil é para o governo pagar no prazo seus compromissos.
A S&P se disse preocupada com a chance de a Casa Branca e o Congresso não se entenderem sobre o Orçamento do ano fiscal de 2013. O alerta chega após duras batalhas sobre os gastos públicos de 2011 e 2012.
O governo dos EUA criticou o anúncio. "Fundamentalmente, a S&P está fazendo um julgamento político, e não acho que ele está correto", disse Austan Golsbee, conselheiro econômico da Casa Branca. O Tesouro disse que "a projeção subestima a capacidade dos líderes americanos de se unir".
Não é, porém, a primeira vez que uma agência alerta para as dificuldades relacionadas ao déficit americano.
A Moody"s, uma das principais concorrentes da S&P, não chegou a divulgar um alerta oficial sobre a dívida dos EUA, mas no fim de março um dos seus altos executivos declarou que, se nada for feito, "uma avalanche se formará em 2012 e depois".

BOLSAS EM QUEDA
Ainda que um calote siga quase inimaginável, a projeção sacudiu as Bolsas pelo mundo. Preocupações crescentes com a crise fiscal na Europa também contribuíram para o movimento.
O índice Dow Jones, uma referência mundial, caiu 1,14% e o Nasdaq, 1,06%. Já o Stoxx Europe 600 caiu 1,7%, e a Bovespa caiu 1,9%. O petróleo cru e outras commodities também caíram, devido a temores de que a demanda nos EUA diminua. O ouro, considerado mais seguro em tempos nebulosos, subiu.
O FMI afirmou em seu último relatório sobre a situação fiscal mundial que a dívida dos EUA é um risco para a economia global. A dívida americana e de vários países cresceu após a crise de 2008 porque os governos tiveram de investir fortemente e assumir por algum tempo o lugar dos gastos privados.

Folha de São Paulo, 19/04/2011

Brasília

VLADIMIR SAFATLE

Em dois dias, Brasília completará 51 anos. Mas ela continua sendo um corpo estranho no interior do Brasil.
Talvez nenhuma outra capital no mundo seja tão incompreendida por seu próprio povo. Muito desta incompreensão diz respeito à "ideia" de Brasília: a crença modernista na força formadora da ideia.
A natureza modernista da ideia de Brasília encontra-se, principalmente, em seu desejo inicial de reconfiguração do que poderíamos chamar de "gramática urbana". Toda verdadeira ideia é sempre um movimento de reconstrução destes dados elementares que pareciam, até então, absolutamente naturais e que, no caso de uma cidade, compõem a gramática dos modos de ocupação do espaço.
Brasília foi, desde o início, um modo diferente de ocupar o espaço. Não por outra razão, seu desenho urbano fora inspirado no gesto mais elementar de tomar posse, ao abrir os braços diante do vazio.
Desta forma, seu projeto tinha a força de suspender dicotomias que, até hoje, destroem nossas cidades. A diferença entre espaço público e espaço privado (no projeto inicial, os elevadores abriam-se diretamente para o espaço público), entre espaço vazio e espaço pleno (nada em Brasília é tão pleno que não possa ser atravessado pela abertura do vazio), entre vegetação original e intervenção humana.
Tudo parecia procurar uma nova configuração em uma cidade, graças ao gênio de Lucio Costa, que foi capaz de aliar alta circulação em suas artérias e lentidão silenciosa em torno de suas habitações.
Esta força da ideia de Brasília trazia, principalmente, a promessa de construir seu próprio tempo. Em um cerrado onde a natureza parece, a todo momento, querer voltar ao nada, onde as árvores tortuosas parecem querer voltar ao chão, Brasília era a afirmação de que toda verdadeira criação alimenta-se de um impulso "ex nihilo", que vem do nada, impondo um corte que nos faz ver, de uma forma bem diversa, o passado e o futuro.
Mas costuma-se dizer que o tempo de Brasília não se realizou, que ela ficou velha. Suas utopias de igualdade social não se realizaram, mesmo sua arquitetura foi ferida pelo lixo neoclássico produzido pela especulação imobiliária com seus delírios de ostentação.
Porém podemos dizer também outra coisa. Uma ideia, quando encontra seu tempo, guarda-o, mesmo que ele não se realize. Este tempo fica em latência, como um corpo estranho a assombrar o presente. Como uma promessa que mostra um desejo de ruptura que, às vezes, consegue alcançar a superfície e cortar o contínuo da história.
Este desejo é a marca maior de uma outra história do nosso país. Uma história que passa por Brasília.

VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras nesta coluna.

Desunião europeia

Editoriais
editoriais@uol.com.br


Não faz muito tempo a União Europeia era vista como o exemplo notável da possibilidade de atingir um desenvolvimento socialmente equilibrado por meio de consensos supranacionais e do abandono dos particularismos.
A realidade sempre foi mais matizada do que esse ideal -o que não impediu que inspirasse outras iniciativas, entre elas o Mercosul. Agora, diante do agravamento das disputas internas, cabe até perguntar se paira uma ameaça sobre a ideia chamada Europa.
A integração está em xeque desde a crise de 2008, que expôs os desequilíbrios entre os 17 países da UE que compartilham o euro. Força exportadora, a Alemanha foi menos afetada que a maioria dos parceiros de bloco, em parte porque vinha apertando salários e reduzindo o Estado de bem-estar.
O governo da chanceler Angela Merkel, que estava para enfrentar uma série de eleições regionais, relutou em ajudar os vizinhos. Quando o fez, impôs condições consideradas draconianas.
No último fim de semana, veio novo exemplo de que cálculos internos se sobrepõem aos da União. A França interrompeu o tráfego ferroviário com a Itália, para impedir a passagem de imigrantes norte-africanos. Roma lhes havia concedido vistos temporários de trabalho e, em tese, eles poderiam circular nos 25 dos 27 países da UE entre os quais não há controles fronteiriços.
A Comissão Europeia avalia que a França tinha direito à medida "pontual", mas o premiê italiano Silvio Berlusconi -que, como o presidente francês Nicolas Sarkozy, fez do controle imigratório um trunfo político- reclama a solidariedade do bloco. A Itália recebeu 23 mil refugiados da Tunísia, cujo ditador, bem relacionado com Paris, foi derrubado no início das rebeliões árabes.
O medo de uma avalanche migratória vinda da África foi uma das motivações para que Sarkozy, apoiado pelo premiê britânico, David Cameron, tomasse a frente da campanha pela intervenção contra o ditador Muammar Gaddafi. No entanto, a operação liderada pela Otan (aliança militar ocidental) também dividiu a UE.
Sob o argumento de que a história lhe ensinou que a força constitui um recurso extremo, a Alemanha se absteve de aprovar a ofensiva na ONU. Franceses e britânicos, que nunca se entenderam em muita coisa, agora se unem para apontar oportunismo no "pacifismo" alemão. Tais divergências, contudo, não parecem suficientes para desfazer a rede de acordos que sustenta o bloco.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

 

CIA sabia que invasão da baía dos Porcos fracassaria, diz americano

ANDREA MURTA
DE WASHINGTON


Documentos secretos da CIA que vem sendo gradualmente divulgados mostram que a agência sabia muito bem que a invasão da Baía dos Porcos, uma tentativa dos Estados Unidos de sufocar a revolução cubana em 1961, seria um "fracasso perfeito".
A invasão de exilados cubanos patrocinada pela CIA, que completou 50 anos ontem, acabou se tornando "a maior catástrofe pública da história da agência".
Segundo Peter Kornbluh, diretor do projeto Cuba do National Security Archives, que estuda arquivos do governo americano, os papéis mostram em detalhes como o presidente John Kennedy (1961-63) mudou os planos da CIA e minou as chances de sucesso da operação.
Mas também revelam a responsabilidade da agência na comédia de erros que se tornou a invasão, inclusive por esconder do presidente que os planejadores do ataque tentaram se demitir uma semana antes.
FOLHA- O que os documentos mostram sobre como os EUA chegaram a decidir lançar a invasão da Baía dos Porcos?
PETER KORNBLUH- Documentos de dezembro de 1959 mostram que a visão dos EUA sobre Cuba passou por uma evolução no primeiro ano após a revolução. Quando Fidel veio aos EUA, se encontrou com o vice-presidente Richard Nixon, que ficou muito impressionado com seu carisma e escreveu um memorando ao presidente [Dwight] Eisenhower [1953-61] que dizia: "vamos ter que trabalhar com esse cara, ele tem um carisma tremendo, é um líder, e não temos escolha a não ser tentar guiá-lo na direção dos nossos interesses".
A CIA também se encontrou com Fidel secretamente nesta viagem também e disse, "sabe, achamos que você será o líder espiritual das forças democráticas na América Latina, mas há esse monte de comunistas soltos em seu governo, e achamos que você devia saber quem são para poder fazer algo a respeito. Então vamos armar um canal secreto para podermos te passar informações sobre comunistas em seu governo para que você se livre deles". E Fidel disse, "claro".
A visão da CIA e do Departamento de Estado passou disso para decidir por volta do verão (austral) de 1959 que Fidel Castro era tão anti-americano em sua retórica, tão perigoso por sua popularidade entre as massas do hemisfério, que precisava ser eliminado.
Em dezembro de 1959, foi escrito um grande memorando da CIA para o diretor da agência denominado "o problema cubano" no qual sugerem que o plano é se livrar de Fidel em um ano e o substituir por uma junta amigável aos EUA.
O que causou uma mudança tão rápida?
Houve todo um ciclo de indas e vindas, com a expropriação de propriedades americanas em Cuba, inclusive indústrias controladas por empresas americanas, como a açucareira, telefônicas, etc. Fidel recebeu delegações da União Soviética por razões comerciais e decidiu que as refinarias americanas em Cuba teriam que refinar petróleo soviético e não apenas americano. E havia cada vez mais inteligência sobre operativos cubanos em outros países e apoiando movimentos revolucionários por lá.
Isso os levou a planejar uma operação secreta?
Bem, foi a expropriação, a defecção da classe média alta... há documentos da CIA que mostram a expectativa [americana] de mais atividade subversiva [em outros países]. E havia [temor] de dano drástico à liderança já enfraquecia dos EUA na região.
Quando começaram com os encontros para decidir como seria a operação, como foi?
Primeiro pensaram em criar pequenas células de infiltrados que seriam levados a Cuba e teriam armas fornecidas por aviões que as jogariam do ar. Previam um orçamento de US$ 4,4 milhões.
Isso chegou a US$ 45 milhões um ano depois, quando a operação foi lançada. Então você pode ver como se expandiu.
Tentaram levar os infiltrados, mas os camponeses os entregaram às autoridades imediatamente. Foram presos, interrogados, e contaram onde as armas seriam jogadas e as datas. Quando os aviões levaram as armas, os militares cubanos estavam lá esperando por elas. Acabamos armando o Exército.
Em novembro [de 1960] abandonaram esse plano e passaram a um esquema completo de invasão paramilitar, assim como um plano secreto para assassinar Fidel.
Então a invasão foi planejada em um período de novembro a abril de 61. Começaram um esforço frenético para recrutar exilados, levá-los a campos na Guatemala, treiná-los em operações militares e organizar essa invasão.
O problema é que Eisenhower acabara de perder a reeleição [para John Kennedy]. Então a CIA teve que convencer Kennedy de que a operação devia prosseguir.
Enviaram para falar com ele alguém muito persuasivo, Richard Bissel, [vice-diretor de planos da CIA], que foi o arquiteto de tudo isso. Mas ele não entendia nada sobre Cuba. Se baseava em uma série de presunções falsas de que essa força [de exilados] chegaria e todos os cubanos se uniriam para derrubar Castro.
Se não conseguissem estabelecer um campo de resistência, iriam para as montanhas e formariam uma guerrilha, assim como Castro fez.
Na ata da primeira reunião do grupo que planejou a invasão dizem que entre 60% e 70% da população apoiava Fidel e que o inimigo "sob hipótese alguma poderia ser subestimado". O plano que se seguiu não foi totalmente incoerente com essas afirmações?
Exatamente. O plano final ignora esses avisos, e não só isso: ignora os membros da CIA que sabiam que isso não ia funcionar e disseram isso repetidamente. Mas Bissel disse a Kennedy que daria certo, e que mesmo se não funcionasse da forma como planejaram, daria certo no longo prazo.
Há toda uma questão parte do folclore da Baía dos Porcos chamada "o problema da eliminação". Basicamente não poderiam cancelar o plano porque teriam 1.500 exilados voltando de campos da Guatemala para Miami que diriam que o presidente os vendeu e foi o elo fraco da operação.
Seria impossível manter tudo em segredo se fosse cancelado. Então a forma de "eliminar" o problema seria levá-los a Cuba e os apoiar, e na pior das hipóteses formar uma guerrilha nas montanhas.
O quanto Kennedy alterou o plano?
Muito. Tanto Kennedy quanto Eisenhower queriam que essa fosse uma operação secreta, pois seria completamente ilegítimo para o "superpoder" EUA invadir Cuba sem nenhum motivo.
Cuba não nos havia atacado, não era ameaça para nossa segurança [física], não estávamos em guerra, assinamos a convenção da ONU sobre os direitos soberanos de países, toda a América Latina pegaria em armas se invadíssemos, e ajudaríamos a radicalizar a região. O Departamento de Estado também não estava muito ansioso por uma invasão aberta.
Mas quando a CIA abordou Kennedy, o plano era chegar a Cuba durante o dia em uma cidade --Trinidad. Ele exigiu algo "menos barulhento' e ordenou que a invasão fosse a noite em um lugar isolado.
Isso foi em março de 1961. Então tiveram quatro dias, depois de planejar por um ano, para encontrar um novo local de chegada. O único lugar que encontraram que atendia aos critérios da Casa Branca foi a Baía dos Porcos. Lá havia uma praia, era isolado, e havia uma faixa de terra onde todos os aviõezinhos que chegariam da América Central poderiam pousar depois que a praia fosse conquistada.
De lá poderiam lançar ataques às forças em Havana.
O plano mudou. O gerente da operação na CIA, Jacob Esterline, me disse ter pensado: "Baía dos Porcos... não é um nome que soa a sucesso". Não havia nada lá a não ser crocodilos e patos.
Esterline e Jack Hawkins, que comandou a parte militar, tentaram se demitir uma semana antes. Foram até a casa de Bissel em 8 de abril [cerca de uma semana antes do início da operação] para dizer que não achavam que o presidente entendia o que era necessário e que todas as restrições exigidas para manter a operação secreta prejudicavam as chances de ela ser bem sucedida.
Bissel disse que falaria com Kennedy e os convenceu a ficar. Mas não fez isso.
Kennedy fez várias outras coisas, como cortar o número de aviões que participariam de um ataque aéreo preliminar de 16 para oito, pois ele achava que 16 não seriam muito discretos.
Esse ataque preliminar foi armado porque os estrategistas militares americanos sabiam que sem isso os aviões de Castro poderiam atacar a praia, matar todo mundo e afundar nossos navios.
E foi exatamente o que fizeram. Afundaram o navio que tinha alimentos, combustível e munição. Todas as armas e gasolina foram perdidas.
Outro problema era que para manter a história os aviões não podiam partir de Miami, tinham que vir da América Central, de lugares mais afastados, e só tinham uma hora para fazer os ataques e voltar antes que o combustível acabasse. Como a faixa de terra nunca foi conquistada, não podiam aterrissar por lá.
De toda forma a mentira de que os EUA não estavam envolvidos não se sustentou, e Kennedy mandou cancelar o segundo ataque aéreo.
Kennedy havia sido humilhado na frente do mundo inteiro. A CIA estupidamente deixou que a invasão coincidisse com uma conferência na ONU sobre as reclamações de Cuba a respeito das agressões crescentes dos EUA.
A CIA foi até o embaixador americano na ONU e contou uma grande mentira, dizendo que um piloto cubano decidiu deserdar e jogou um monte de bombas e depois fugiu para Miami. Era e história de fachada. Enquanto o embaixador tentava contar essa história para a comunidade internacional, repórteres em Miami relatavam que o avião que apresentaram a eles como prova da deserção do piloto cubano era de fato americano e a coisa toda era um embuste.
A operação "secreta" foi exposta em minutos.
Houve vários outros detalhes que não deram certo...
Vários. Um dos planos era enviar proteções para os aviões dos exilados no meio do ataque. Os aviões dos exilados vinham da América Central e usavam o fuso horário local; as aeronaves de proteção partiram de porta-aviões da Marinha americana que estavam em águas internacionais usando o horário de Washington. Resultado: chegaram uma hora atrasados.
Esse acúmulo de erros de planejamento foram resultado do pouco tempo de reajuste do plano após a posse de Kennedy?
Em um documento interno da CIA que obtive em 1998, há as seguintes afirmações do inspetor-geral da CIA: "A agência fracassou em reconhecer que quando o projeto avançou para além do padrão de uma negativa plausível, estava indo além da área de responsabilidade e também de capacidade da agência".
"A agência acabou tão envolvida no planejamento militar que não conseguiu avaliar as chances de sucesso realisticamente. E mais: fracassou em manter os que ditavam as políticas adequadamente informados sobre temas considerados essenciais para o sucesso e não pressionou suficientemente por decisões em uma situação que se movia muito rápido."
As coisas deram errado desde o princípio. O que os memorandos indicam sobre as reações de Kennedy?
Seus assessores foram até ele e disseram que era preciso transformar a operação em algo declarado e deixar os militares entrarem atrás dos exilados e os salvar. E sua posição foi manter tudo secreto e dizer que os EUA não invadiriam Cuba. Só cedeu em permitir os aviões de proteção, mas eles não chegaram a tempo e foi uma oportunidade única. Pelo terceiro dia, as forças de Castro já haviam basicamente vencido. A brigada não tinha mais munição nem comida, não podia ficar na praia e acabou no pântano, onde era impossível lutar. Eventualmente foram todos capturados ou se renderam.
Kennedy errou totalmente ou foi mal informado?
Bem, não quero tirar sua responsabilidade. Ele deu o sinal verde, mesmo estando cético e só aprovando a operação no último minuto.
Mas ele realmente não estava bem informado. Ouviu de Bissel uma história irreal sobre as chances de sucesso e a necessidade de ir em frente. O próprio inspetor-geral da CIA culpou Bissel em sua avaliação.
A CIA mais tarde concordou com a avaliação de que a baía dos Porcos foi uma vitória política para Cuba?
Do ponto de vista analítico, certamente. [A invasão] deu a Cuba uma reputação tremenda no Terceiro Mundo. Foi a verdadeira história de Davi e Golias. Foi parte do que fez a Baía dos Porcos um "fracasso perfeito". A intenção era minar a revolução, e a impulsionou. Era remover aliados soviéticos potenciais do hemisfério Ocidental, e levou Castro direto para os braços da União Soviética. Foi no meio da invasão que Fidel declarou a ilha um Estado socialista. E, claro, era para ser uma operação secreta, e se tornou uma das maiores catástrofes públicas da história da CIA.

Folha de São Paulo, 18/04/2011

Brasileiro mediou encontro entre Che Guevara e os EUA

Armada pelo diplomata Edmundo Barbosa, reunião secreta ocorreu 4 meses após fracassada invasão da baía dos Porcos
 
Em memorando enviado a Kennedy, americano diz que Che "agradeceu" pela tentativa frustrada de depor Fidel Castro
 
ANDREA MURTA
DE WASHINGTON

Eram 2h em Montevidéu naquele 17 de agosto de 1961, exatos quatro meses depois da invasão da baía dos Porcos. Foi então, no meio de uma festa de aniversário, que um brasileiro intermediou um histórico encontro entre um emissário de Cuba -Che Guevara (1928-1967)- e um diplomata norte-americano.
Ocorreu ali a primeira reunião de alto nível entre os dois países após o fracassado ataque patrocinado pela CIA na praia cubana, que completou 50 anos ontem.
O diplomata brasileiro Edmundo Barbosa da Silva não só armou o encontro secreto como serviu de intérprete entre Richard Goodwin, ex-subsecretário dos EUA para Assuntos Inter-Americanos, e Che, que usava "uniforme verde e a costumeira barba longa e despenteada".
A informação está no memorando que Goodwin enviou cinco dias depois ao presidente John Kennedy (1961-63), texto que permaneceu secreto por mais de 30 anos.
O documento está hoje na internet, no arquivo dos National Security Archives, da Universidade George Washington. Mas a participação da diplomacia brasileira segue pouco conhecida, e ainda há muito a ser explorado.
Pouco antes do aniversário da invasão, o NSA entrou na Justiça para obrigar a CIA a liberar o "História Oficial da Invasão da Baía dos Porcos".
"A CIA continua fazendo a história de refém", disse Peter Kornbluh, que dirige o projeto de Cuba do NSA.

ESFORÇO BRASILEIRO
No memorando, o subsecretário americano afirma que "membros das delegações brasileira e argentina fizeram esforços para organizar o encontro" com Che. Goodwin conta ter sido convidado para a festa de um diplomata brasileiro em Montevidéu. Depois de uma hora no local, "um dos argentinos me disse que Che também fora convidado".
"Ele chegou por volta das 2h e indicou Edmundo Barbosa da Silva, do Brasil (...), que tinha algo a me dizer."
A narrativa descreve um dos principais momentos do encontro: o famoso "agradecimento" de Che aos EUA pelo fiasco da baía dos Porcos.
"Ele disse que queria nos agradecer muitíssimo pela invasão, que teria sido uma grande vitória política -permitiu consolidar [a revolução] e transformou Cuba de pequeno país incomodado em um igual", diz Goodwin.
O memorando ainda delineia um retrato elaborado de Che. "Sob a barba suas feições eram bastante suaves, quase femininas, e seus modos intensos", diz Goodwin.

Folha de São Paulo, 18/04/2011

A tardia e ambígua revolução árabe

CANDIDO MENDES


A maratona do povo na rua passou ao confronto das dominações dinásticas, por sobre a vinculação de fé da maioria das suas populações

O seísmo continua no Oriente Médio, num abalo comparável, para muitos, à queda do Muro de Berlim. É o acordar de um inconsciente coletivo, disparado pela revolução tunisiana, mas a encontrar a multiplicidade de cenários, como acontece com aspirações históricas longamente reprimidas.
Toda a área chegou à independência à mesma época da queda dos impérios coloniais, após a Segunda Guerra. Ao acesso à soberania seguiu-se a instalação de regimes políticos que se viam como libertadores, aspirando à indefinida manutenção no poder.
Foi-se ao conformismo com sistemas autoritários, sem exceção. Mas o descarte da democracia vinha de par com marcas da modernização, a refletir a nova convivência com o Ocidente, dissociado do imperialismo há meio século.
Aí estão as primeiras manifestações tunisianas, resistindo à abolição do laicismo, visto como conquista irreversível do governo Ben Ali, e, tal, de parte da população mais desenvolvida de todo o Oriente Médio, na sua presença universitária, peso da classe média e preocupação com o efetivo pluralismo, indissociável da redemocratização.
Já o Egito quebrou a premissa de neutralidade confessional de Mubarak e começa a aceitar a inscrição de partidos religiosos, num primeiro teste para o efetivo alinhamento político da Irmandade Muçulmana, condizente com o grosso da militância de populações silenciadas durante o governo deposto.
A ausência de lideranças ostensivas vai ao encontro das irrupções carismáticas e às inevitáveis mobilizações radicais como seu último denominador. A maratona do povo na rua passou, no exemplo clássico do Bahrein, ao confronto das dominações dinásticas, por sobre o sentimento e a vinculação de fé da maioria das suas populações.
Muito mais do que contra o cerceio das liberdades, a população foi à praça em Manama por uma enorme maioria xiita, em confronto com uma casa real sunita, num fato consumado já quase secular, e amortecido pela enorme prosperidade do país. Nem outra é a ameaça à monarquia jordaniana pelas migrações das massas iraquianas, xiitas, causadas pelas guerras do Golfo.
Deparamos em todo esse quadro um efeito mais fundo dessa descolonização, o de um Ocidente que ainda não chegou a superar, por inteiro, a visão superficial de uma independência política como afirmação de identidades coletivas desses países, acordados agora para um exercício atrasado de sua autodeterminação. Mas esta não vai toda num mesmo sentido. Aí está a sobrevivência de Gaddafi, a evidenciar como a afirmação do sentimento de nacionalidade pode superar o repúdio às ditaduras pós-independência.
Reforçou-se o apoio ao líder que tirou o território do tribalismo clânico da caricatura da primeira monarquia e se entrincheira com crescente apoio popular contra a intervenção ocidental. A aposta democrática não se seguiu às maratonas da praça Tahrir, no Cairo.
Nem as Forças Armadas, voltadas às imediatas reformas constitucionais, escapam às novas mudanças de agenda, entre os sucessivos referendos e, de fato, a chegada às novas eleições, de vez e para valer.


CANDIDO MENDES, membro da Academia Brasileira de Letras e da Comissão de Justiça e Paz, é presidente do "Senior Board" do Conselho Internacional de Ciências Sociais da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e secretário-geral da Academia da Latinidade.
Folha de São Paulo, 18/04/2011

As três dívidas do Peru

Editoriais

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A eleição presidencial no Peru deu origem a manifestações localizadas de cunho racista contra Ollanta Humala, que teve 32% dos votos e disputará o segundo turno, em junho, com Keiko Fujimori (24%), filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990 a 2000).
O fato de oponentes se lançarem na depreciação da origem indígena de Humala chama atenção para a marginalização histórica desse contingente, estimado em 30% a 45% dos peruanos.
Já se comentou aqui a desigualdade de renda no Peru. A discriminação de fundo étnico -e a forma como ela se reflete na relação entre Lima e demais regiões- é outro fator relevante para explicar a baixa popularidade dos últimos governos, a despeito do crescimento econômico impulsionado pelos preços internacionais de minérios como cobre e prata.
Esses recursos estão principalmente em áreas dos Andes e da selva amazônica onde é maior a concentração de populações indígenas. Tanto o atual presidente, Alan García, quanto o antecessor, Alejandro Toledo, foram acusados de não consultar o eleitorado regional sobre concessões para exploração das riquezas naturais.
É sintomático que, apesar de ocuparem lados opostos no espectro político, Humala (à esquerda) e Keiko (à direita) proponham agora o aumento de impostos cobrados das mineradoras a fim de financiar gastos sociais.
O deficit peruano tem três componentes -socioeconômico, étnico e democrático. Uma das razões para sua sobrevida é a coincidência entre a democratização há 32 anos, após um ciclo de ditaduras militares, e as ações armadas do Sendero Luminoso.
De um lado, o grupo maoísta tentava associar-se à cultura indígena e conquistar adeptos nessa população. De outro, o país viveu anos sob estado de exceção no combate ao terrorismo senderista, época em que se acentuou o preconceito na região costeira contra habitantes do altiplano e da selva.
Esse é o contexto do quadro eleitoral atual, mais complexo que os estereótipos que apontam Humala como um novo Hugo Chávez e Keiko como a cópia de Fujimori. Os traços autoritários que ambos exibem são sintomas díspares de um mesmo mal -o triplo deficit peruano.
Folha de São Paulo, 18/04/2011

domingo, 17 de abril de 2011

Cinema de propaganda

DIÁRIO DE MOSCOU

O MAPA DA CULTURA

Um documentário a serviço do Kremlin
 
MARINA DARMAROS
 
DEPOIS DO ROUBO da versão final do filme "Khodorkovski" (2011), de Cyril Tuschino, dez dias antes de sua estreia no Festival de Berlim, em fevereiro, aparece na internet um novo trabalho sobre o magnata russo que emprestou o nome ao título daquela produção.
"Khodorkóvski. Trúpi." (em português, "Khodorkóvski. Cadáveres."), do jornalista russo Andrei Karaulov, é um documentário sobre seis assassinatos que teriam sido cometidos a mando do empresário e oposicionista político Mikhail Khodorkóvski, preso desde 2003 sob acusações de fraude e sonegação de impostos.
Segundo o diário "Moskovski Komsomolski", o filme é "encarado por especialistas como fruto de propaganda política premeditada". A segunda parte da fita foi divulgada na última quinta-feira, apenas um dia antes do julgamento da apelação do empresário contra o juiz Víktor Danilkin.
Na base da série de críticas negativas, estariam três fatores: a coincidência de datas entre o lançamento do filme e a sessão de apreciação da apelação, a exibição do documentário no site pravda.ru -sobre o qual a mulher do vice-dirigente de política interna do governo Medvedev teria forte ascendência- e as declarações do diretor sobre patrocinadores.
"Que patrocinadores? Isso não custa nada. Juntamos um monte de filmagens antigas, e todos os meus amigos que aparecem filmaram de graça", teria afirmado Karaulov, dias depois de confirmar ao diário "Nezavissimaia Gazeta" financiamento externo.

NA CAMA COM A OPOSIÇÃO
No jogo político russo, um escândalo sexual pode ser mais motivo de orgulho do que de impeachment. É o que mostra o livro de poesias de um dos líderes da oposição, Eduard Limonov.
Depois da revelação de que a estudante Kátia "Mumu", de 21 anos, era paga para seduzir oposicionistas políticos e registrá-los em vídeos comprometedores, a lolita virou uma das musas da lírica de Limonov.
Além de Limonov, caíram na rede de "Mumu" o satirista político Viktor Shenderovitch, o articulista Dmítri Oreshkin e o líder da ala jovem do partido de oposição Iábloko, Iliá Iáshin, para citar alguns.
"Mulher com mais de 30 não existe para mim", escreveu Limonov, que retrata a última amante e os protestos do Estratégia-31, movimento encabeçado pelo político e dublê de poeta e que organiza todo dia 31, na praça do Triunfo, encontros em defesa do artigo de mesmo número -o qual garante a liberdade de reunião na Rússia.

GAGARINLAND
Às vésperas do cinquentenário do primeiro voo no espaço, em 12 de abril, a filha caçula de Yuri Gagárin, o astronauta pioneiro, deu uma mal-humorada entrevista ao jornal estatal "Rossisykaya Gazeta". Na reportagem, Elena Gagárina demonstra contrariedade com o nome dado a um novo condomínio de datchas (chácaras) criado em homenagem ao pai: Gagarinland. Será a morada dos novos ricos russos, uma espécie de Alphaville eslavo.
A atuação dos jornalistas contemporâneos é outro tema que desperta sua impaciência. Na avaliação dela, a maior parte dos escritos sobre o pai é sensacionalista -tom que seria uma herança da perestroika de Gorbatchov. A geração que atua hoje, prosseguiu Gagárina, não poupa "uma mulher chorosa" de luzes e câmera.

ATREVIMENTO PREMIADO
Depois de aparecer e sumir diversas vezes da lista de indicados ao prêmio Inovação-2010 do Centro Estatal de Arte Contemporânea de Moscou, o coletivo de arte de protesto Voiná (em português, "guerra") foi finalmente incluído na relação oficial da premiação e, no último dia 7, anunciado vencedor.
A indecisão do comitê organizador quanto à indicação deu-se, de acordo com o presidente do comitê organizador, Mikhail Mindlin, porque os integrantes do grupo se mantêm no anonimato.
Isto é, trata-se de desconhecidos em termos: pelo menos dois deles, Leonid Nikolaiev e Oleg Vorotnikov, foram apresentados aos holofotes midiáticos em novembro, quando foram presos devido à ação/intervenção "Reviravolta Palaciana", em que tombavam carros da polícia russa nas ruas de São Petersburgo.
Na sétima edição do prêmio Inovação, o Voiná foi lembrado na categoria arte visual com a performance "C... ao cativeiro do FSB", na qual desenhou um pênis de 65 metros em uma ponte levadiça de São Petersburgo que, erguida, dava de cara para o serviço secreto russo.
O anúncio da vitória gerou uma confusão entre a Câmara Pública, que ataca a escolha, e o ministro da Cultura, Aleksandr Avdeev, que afirma não se intrometer no prêmio, pelo qual o coletivo vai receber do governo 250 mil rublos (R$ 14 mil).