sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Decadência?

KENNETH MAXWELL

Na semana passada, Charles Blow escreveu uma de suas clássicas colunas de opinião para o "New York Times". Ele tem uma capacidade quase inacreditável de resumir estatísticas de uma maneira que instiga os leitores.
Na coluna em questão, ele tratou de um assunto que está entre as maiores preocupações de muitos norte-americanos, mas que raramente é mencionado de modo tão direto. "Os EUA são ótimos de muitas maneiras", ele escreveu, "mas, de acordo com diversos indicadores, (...) nos tornamos retardatários do mundo industrializado. Não só não somos o número um - "USA! USA!'- como estamos entre os piores do mundo".
O que fez foi tabular de que modo os países classificados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) como "economias avançadas" se comparam em diversas categorias.
Em seguida, Blow verificou esses dados recorrendo ao "World Fact Book" da Agência Central de Inteligência (CIA), aos números do desemprego do Serviço de Estatísticas do Trabalho norte-americano, ao "Democracy Index 2010" da Economist Intelligence Unit, a dados do Gallup, da Unicef, do "World Prison Brief" compilado pela Universidade de Londres e do programa de avaliação internacional de estudantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Depois, preparou tabelas em que compara os melhores e os piores e subdividiu essa segunda categoria de forma a mostrar "o pior dos piores".
O resultado surpreendente é que, das nove categorias, os EUA ocupam posição baixa em seis. Em quatro delas, são o "pior dos piores", e estão entre os piores em outras duas.
Elas variam de comparações de disparidade de renda, onde na corrida pela última posição os EUA só ficam acima de Hong Kong e Cingapura; a insegurança alimentar (a porcentagem da população que afirma não ter tido dinheiro suficiente para alimentar sua família nos 12 meses anteriores); e população carcerária por 100 mil habitantes (o número norte-americano é de 743, ante 85 na Alemanha).
Nos resultados de testes de matemática, os EUA ocupam posição semelhante à de Portugal, e a expectativa de vida no país é de 78,38 anos, ante 81,72 na Austrália.
"Essa realidade, e a urgência que ela deveria instilar, é difícil demais para que muitos norte-americanos a digiram", conclui Blow. "Eles prefeririam continuar a se consolar com platitudes sobre a grandeza americana e a contemplar nosso império em erosão por entre as brumas indistintas do passado esplendor." O mais recente lema de Obama é "ganhar o futuro".
O ponto de Blow é que, para isso ocorrer, a primeira tarefa do país deve ser "deixar de mentir para si mesmo".



KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras na Folha de São Paulo