domingo, 25 de junho de 2017

Daens: um grito de justiça


O filme Daens: um grito de justiça demonstra de maneira crítica e emocionante a deplorável condição de vida e trabalho da população de Aalst, uma pequena cidade da Bélgica. A história decorre durante a última década do século XIX enfatizando o contexto sociopolítico socioeconômico desse período que é marcado pela Revolução Industrial. Neste marco da história mundial o capitalismo industrial já se consolidara como modo de produção vigente na ordem social e continuava a sua marcha expansionista explorando de forma cada vez mais intensa a força de trabalho dos operários. Os operários de uma indústria têxtil da cidade de Aalst viviam em condições subumanas, suas residências não possuíam nem um tipo de saneamento básico, além de não possuírem uma estrutura física adequada para sobreviverem com dignidade.
Os capitalistas industriais, por outro lado, desfrutavam suntuosidade a custa da exploração da mão de obra dos operários assalariados que eram intensamente explorados dentro das unidades fabris durante o processo de produção. Seus salários eram reduzidos por conta da ambição exacerbada dos capitalistas que eram movidos pelo ardente desejo de acumular cada vez mais riqueza através da obtenção de lucros, para isso, portanto, reduziam a valores abaixo da média os salários dos operários. A jornada de trabalho chegava, não raras vezes, há 16 horas diárias, o que debilitava o estado de saúde dos trabalhadores. Não satisfeitos com os lucros que recebiam mediante a implementação da mais valia absoluta, os capitalistas passaram a introduzir a mão de obra de mulheres e crianças ao processo produtivo, já que era uma forma inovadora de lucrar, pois tais forças produtivas aumentavam os lucros capitalistas, uma vez que eram mal remuneradas. Mulheres eram frequentemente abusadas sexualmente pelos capatazes e pelos próprios homens companheiros de trabalho. Jovens e crianças constantemente se acidentavam ao manusear as máquinas, pois não tinham as mesmas habilidades dos adultos. Muitos acidentes eram fatais, o que aumentava significativamente os níveis de mortalidade nas unidades de produção.
O padre Adolf Daens começa a criticar as relações sociais de produção capitalistas através da publicação de artigos nos jornais católicos. Adquiriu, desta forma, admiráveis amigos e indesejáveis inimigos. Passou a ser perseguido pelos industriais que o viam como uma ameaça ao sistema por eles instaurado na ordem social. Além disso, também foi alertado pela a Igreja Católica sobre suas atitudes que, segundo os cardeais, estavam causando um caos social.
O povo passou a apoiá-lo com unhas e dentes como se ele fosse o messias tanto esperado para salvá-lo das garras do capitalismo. Foi eleito pelo povo de Aalst o primeiro deputado do Parlamento a representar as causas da classe trabalhadora.
A morte de uma criança na fábrica foi o estopim para a mobilização e organização dos trabalhadores que lutavam com afinco a favor da instauração de uma nova ordem social em que não houvesse divisão de classes, exploração do trabalho e acumulação da riqueza em consequência da generalização da pobreza.
O padre Daens foi duramente reprimido pela Igreja Católica que o acusava de incitar a violência entre as classes sociais. Mas, fica a indagação que não quer calar: existe violência maior do que a cometida pelos capitalistas contra os operários? Como se pode notar no filme, o trabalho de crianças, mulheres, homens e jovens era rigidamente vigiado e controlado. Crianças morriam de fome e frio, pois não possuíam o mesmo conforto da elite, ou melhor, não possuíam ao mínimo uma casa com condições favoráveis para se viver. Aliás, famílias inteiras morriam de fome e inanição por não possuírem condições financeiras o suficiente para suprir sequer suas necessidades básicas humanas. Será que isso não é considerado pela Igreja Católica violência contra a raça humana? Todas as atrocidades que o sistema capitalista cometeu e ainda continua cometendo contra a classe trabalhadora a ele submetida, são os piores crimes já praticados contra a espécie humana durante toda a história da humanidade. Ao invés de agir a favor dos operários a Igreja Católica se alia a classe dominante, ou seja, a burguesia visando combater o socialismo - que defendia o estabelecimento de uma sociedade sem classes, sem exploração de uns sobre outros e onde a riqueza socialmente produzida pertença a todos - e, sobretudo, manter seu domínio enquanto religião ideologicamente hegemônica. A doutrina social da Igreja foi amplamente difundida através da encíclica papal Rerum Novarum, a qual pregava a harmonia entre as classes fundamentais do modo de produção capitalista: burguesia, dominante, e operária, dominada. Defendia, além disso, a propriedade privada de bens, afinal possuía grandes latifúndios desde o feudalismo e visualizava a reforma social como uma ameaça ao seu poderio e controle social sobre as massas.

Autor: Marcondes Torres.

Homens ainda são minoria entre professores de creche e pré-escola

Presença masculina na educação infantil cresceu nos últimos anos, mas segue pequena; profissionais relatam preconceito
Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo
14 Junho 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Há dez anos, o primeiro dia de aula é sempre igual para o professor José Tiago França. Os pais chegam para deixar seus filhos na escola e estranham que será um homem o responsável pela educação e os cuidados com as crianças de 2 anos. Apesar de ter crescido a presença masculina entre professores de creche e de pré-escola (de zero a 5 anos), ela ainda é bem pequena. Em todo o País, dos mais de 575 mil docentes dessa etapa, apenas 3,7% são homens - há sete anos, eram 2,8% do total, segundo o Censo Escolar.

“Meu primeiro contato em sala foi surreal. As mães chegaram às 7 horas e, quando me viram, vieram todas juntas perguntar se era eu o professor. Para elas, era muito estranho ter um homem cuidando de bebês”, conta França, de 32 anos, que é hoje responsável por uma turma de crianças de 2 anos no Centro Social Marista Robru, em São Miguel Paulista, na zona leste da capital.

Segundo França, ainda hoje sua presença causa estranhamento, mas ele já se acostumou e aprendeu a lidar com a situação. “Na Pedagogia, dos 120 (alunos) da turma, havia apenas eu e outro homem. Isso nunca me incomodou porque tinha muita vontade de trabalhar com crianças. Mas sempre ouvi comentários preconceituosos, até mesmo de colegas de classe.”

A presença masculina nos cursos de Pedagogia também continua pequena. Jaime Fontes, de 32 anos, é um dos três homens de uma turma de 40 alunos do 2.º ano da graduação no Instituto Singularidades, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo.

“É uma questão cultural e esse padrão começa a ser rompido, mesmo que lentamente. É esperado que, se o homem quer ser professor, trabalhe com adolescentes ou procure cargos de chefia. Não acham que o homem possa cuidar de crianças”.

O professor do Colégio Ítalo-Brasileiro, Carlos Eduardo da Silva, tem 55 anos - 34 deles na educação infantil e nos anos iniciais do fundamental (1.º ao 5.º ano). Para ele, o preconceito se deve a uma visão equivocada dessas etapas de ensino. “O estranhamento ocorre, em parte, por acharem que, na creche ou pré-escola, a criança vai somente para ser cuidada e não para aprender. A outra parte é por acharem que só uma mulher sabe cuidar, ser carinhosa.”

Hoje, Silva é professor do 2.º ano (alunos de 7 anos) e diz que, a cada nova turma, conversa com os pais para ganhar a confiança. “Brinco muito com as crianças, pego no colo. Muita gente ainda estranha essa atitude vinda de um homem. Por isso, peço que, se alguém se incomodar, que me avise, porque eu respeitarei. Foram poucos os casos em que os pais pediram.”

Números
A participação dos homens no magistério é maior conforme o avanço das etapas de ensino. Segundo o Censo Escolar 2016, na creche (de 0 a 3 anos), eles somam 2,3% do total de docentes. Na pré-escola (4 e 5 anos), são 4,8 %. Nos anos iniciais do fundamental, a taxa é de 10,7% e nos finais (do 6.º ao 9.º ano) o índice salta para quase um terço (30,4%) do total.


O último estudo da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico(OCDE) mostrou que, dos 41 países analisados em 2015, 8 em cada 10 professores da pré-escola e dos anos iniciais do fundamental eram mulheres. O relatório diz que a atuação dos homens contribui para que as crianças desenvolvam uma identidade positiva sobre gênero.

Alunos do fundamental já migram mais para EJA do que os do ensino médio

Dados do Inep mostram que 2,7% dos estudantes - mais de 344,5 mil - saíram do ensino regular entre os anos de 2014 e 2015
Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo
21 Junho 2017 | 03h00


Mais alunos dos anos finais do ensino fundamental (do 6.º ao 9.º ano) migram para a Educação de Jovens e Adultos (EJA) do que os do ensino médio. Dados inéditos, divulgados nesta terça-feira, 20, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), mostram que 2,7% dos estudantes - mais de 344,5 mil - ainda no fundamental saíram do ensino regular entre os anos de 2014 e 2015. No ensino médio, a proporção é menor, de 1,9% - 157,7 mil dos alunos.

Para cursar a EJA, é preciso ter 15 anos completos para se matricular no ensino fundamental e 18 anos, para o ensino médio. Na maioria das escolas, essa etapa - que substituiu o supletivo - ocorre no período noturno e tem uma carga horária menor.

“São estudantes que foram reprovados muitas vezes já no início da educação básica e estão em defasagem. As escolas não conseguem lidar com as dificuldades, educacionais e sociais, e ele acaba indo para a EJA, o que é muito equivocado”, diz César Callegari, integrante do Conselho Nacional de Educação.

A procura pela EJA já no fundamental chega a 5% dos estudantes de Estados como Alagoas, Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte e Pará. Além dessa migração, nessa etapa o Brasil perde 5,4% dos alunos, que desistem de estudar. “Os números de jovens que deixam de estudar ou procuram a EJA já nessa etapa mostram um abismo. São jovens que não têm perspectiva de terminar nem o ensino médio. É uma situação enfrentada pela população mais pobre e que é naturalizada”, diz Priscila Cruz, diretora executiva do Movimento Todos pela Educação.

Os dados mostram que, no 6.º ano do fundamental (o primeiro da etapa), 14,4% dos estudantes são reprovados. O porcentual tem queda, mas volta a subir no 1.º ano do ensino médio, quando 15,2% reprovam.

Atenção

 “O País não dá atenção para os anos de transição entre etapas de ensino e o aluno sofre e leva essa defasagem para os demais anos”, disse Callegari.

Museu do Holocausto em Jerusalém busca nomes de vítimas do nazismo


FOLHA DE SÃO PAULO


"Yad Va-Shem": Memorial e nome. A designação oficial do Museu do Holocausto de Israel, tirado de uma passagem bíblica (Isaías 56:5), nunca teve tanto significado.
Pouco mais de sete décadas depois do fim do nazismo, o museu se esforça para compilar os nomes de todos os judeus mortos no genocídio e divulgar cartas ou documentos pessoais para o público. O objetivo é desviar a atenção da história mais crua de grupos de vítimas para a de relatos pessoais, humanizando o peso de um número: 6 milhões.
A preservação e divulgação da memória de cada uma das vítimas se tornaram um dos principais objetivos da instituição em meio ao gradual e inexorável desaparecimento dos últimos sobreviventes.
O principal esforço tem sido feito pelo Projeto de Recuperação de Nomes de Vítimas do Shoá –nome do Holocausto para os judeus–, iniciado há uma década e que ganhou força nos últimos anos.
"Quando não lembramos de toda e qualquer pessoa, o número de vítimas se torna algo sem sentido. Um morto, cinco mortos... Acaba se tornando igual", afirma Sara Berkowitz, diretora do projeto. "O que os nazistas queriam era justamente desumanizar suas vítimas, tirar suas identidades. Mas a memória as imortaliza."
Até 2005, o Hall dos Nomes do Yad Vashem tinha 3 milhões de nomes de vítimas. Agora, já contabiliza 4,7 milhões, um incremento que foi fruto, em parte, de uma busca proativa pelos mortos que nunca foram identificados.
O Projeto Nomes já conseguiu buscar e identificar mais de 800 mil nomes. Mas a expectativa é de que esse número cresça, já que apenas 50% dos dados compilados já foram classificados.
Segundo Sara Berkowitz, o esforço tem como motivação também a crescente onda de negação do Holocausto por antissemitas em geral.
Os novos dados ajudam a confirmar dados já conhecidos e rechaçar informações forjadas (em geral por neonazistas que tentam provar que o Yad Vashem é uma fraude).
"Muitas pessoas dizem: 'Os judeus estão exagerando quando falam em 6 milhões'. Mas, na minha opinião, podemos passar disso. A maioria dos nomes que ainda não sabemos é oriunda da Polônia e da Europa Oriental, principalmente países da antiga União Soviética. Lá, os nazistas e seus simpatizantes não mantinham listas organizadas. Eles chegavam a aldeias, colocavam todos os judeus em algum lugar e ateavam fogo, sem documentar nada", diz.
Quando foi criado, em 1953, o Yad Vashem apelou para que famílias dos sobreviventes preenchessem páginas de testemunho com nomes de seus familiares mortos em campos de concentração, guetos ou outros lugares.
Folha descobriu que a primeira página, datada de 1954, foi preenchida em português, por um morador de São Paulo, em nome da polonesa Ester Feigel Gotlieb, que morreu em 1943, nos crematórios de Auschwitz.
Divulgação
Primeira página do caderno de testemunho do Yad Vashem, em 1954, assinada por um brasileiro
Primeira página do caderno de testemunho do Yad Vashem, em 1954, assinada por um brasileiro
Esses formulários continuam a formar a base do banco de dados do museu. Hoje, no entanto, eles podem ser preenchidos pela internet –outro motivo para o aumento no número de nomes compilados. Essa opção tem causado uma revolução na participação ativa de sobreviventes e parentes dos mortos.
Mesmo assim, o museu decidiu investir no Projeto Nomes. Voluntários e funcionários passaram a procurar dados em cemitérios, sinagogas, cartas, diários e outras fontes. As comunidades mais visadas são as de judeus ultraortodoxos, que hesitam em contribuir com autoridades.
Seus líderes preferiram, nos últimos 70 anos, celebrar seus mortos em livros ou placas em sinagogas. Numa sinagoga em Jerusalém, por exemplo, foi encontrada uma árvore estilizada na qual cada "folha" leva o nome de uma vítima do Holocausto. Nenhum dos nomes estava listado no Yad Vashem.
Mas as maiores fontes são, sem dúvida, os cemitérios. As lápides judaicas contam histórias que, por vezes, impressionam até mesmo os profissionais do Yad Vashem.
Além da busca por nomes, o museu passou a utilizar a internet para expor documentos pessoais dos mortos, enfatizando o caráter humano das vítimas. Um dos projetos é o "Last letters" (últimas cartas), que mostra a última correspondência enviada por pessoas que, em seguida, morreram.
A exibição online conta, hoje, com dez cartas de 1941 (ano em que começou a chamada Solução Final, o extermínio sistemático de judeus) e dez cartas de 1942. São apenas alguns poucos exemplos das milhares de cartas dos arquivos do Yad Vashem.
"É uma perspectiva pessoal. Cada um tem sua caligrafia própria. Às vezes, dá para ver até as lágrimas no papel", afirma a curadora Yona Kobo. "Nosso objetivo é tirar as cartas do arquivo para que as pessoas as vejam, já que não podem vê-las fisicamente por causa das condições especiais de armazenamento. Queremos dar a essas pessoas nome, rosto, história."
Kobo conta que há muitas cartas escritas à beira da morte; mas, nelas, os autores não reclamam. "Só pedem que não se esqueçam delas. Nós não esquecemos." 

Temer unificou o Brasil

BRASÍLIA - No discurso de posse, Michel Temer prometeu "pacificar a nação e unificar o Brasil". O presidente unificou o país, mas não foi como ele gostaria. Oito em cada dez brasileiros defendem que o Congresso abra um processo para afastá-lo. Sua aprovação caiu a míseros 7%, o índice mais baixo em 28 anos.
O Datafolha deu números a um fenômeno visível a olho nu: o apoio a Temer derreteu. A rejeição ao peemedebista já supera as piores marcas de Collor e Dilma, que sofreram impeachment. Ele está próximo de igualar o recorde negativo de Sarney.
A impopularidade de Temer cresce à medida que a polícia flagra seus aliados com malas de dinheiro ou contas na Suíça. Em pouco mais de um ano, quase todos os articuladores do impeachment estão delatados ou na cadeia. "Quem não está preso está no palácio", resumiu o empresário Joesley Batista, um corruptor confesso que tinha passe livre no Jaburu.
A pesquisa mostra que a população despreza o delator, mas não caiu no truque de desqualificar a delação. Há um mês, Temer faz discursos indignados e diz que é vítima de armação. Não convenceu quase ninguém. Para 83%, ele teve participação direta no esquema de corrupção descoberto pela Lava Jato. Só 6% acreditam na inocência presidencial.
Os números encerram mais uma semana trágica para o governo. O presidente viajou numa tentativa de atrair investimentos e simular normalidade. Perdeu R$ 166 milhões do Fundo Amazônia, cometeu gafes em série e ouviu um sermão da premiê norueguesa contra a corrupção.
No Brasil, a crise se agravou. Temer perdeu umavotação importante no Congresso e foi esculhambado por um senador que se gabava de nomear até melancias em seu governo. Na sexta, a PF desmoralizou sua defesa ao atestar que a gravação de Joesley não sofreu edições. A semana que começa deve ser ainda pior. Nas próximas horas, a Procuradoria-Geral da República vai formalizar a primeira denúncia contra o presidente. 

Rejeição implacável

O veredito nada tem de judicial, mas Michel Temer (PMDB) foi condenado de modo implacável pela opinião pública no caso JBS.
Em pesquisa Datafolha, 83% dos brasileiros consideram, a partir da conversa gravada com o empresário Joesley Batista, que o peemedebista teve participação direta em esquemas de corrupção.
Para 76%, Temer deveria renunciar ao cargo. Míseros 7% aprovam sua administração, o menor percentual obtido por um presidente desde 1989, quando José Sarney governava sob uma hiperinflação.
Agudiza-se, dessa maneira, o descompasso entre as preferências da população e a conduta do sistema político, em sua maioria alinhado ao Palácio do Planalto.
Para além da impopularidade de Temer, o divórcio entre representantes e representados explica-se ainda por três anos de ruína econômica, além da exposição cotidiana de escândalos e demonstrações de cinismo por parte dos principais partidos do país.
É compreensível, portanto, a ampla rejeição à impunidade, que não se limita a governantes e parlamentares. Para 64% dos entrevistados pelo Datafolha, a Procuradoria-Geral da República agiu mal em seu generoso acordo de delação premiada com Joesley Batista; 81% defendem a prisão do empresário, corruptor confesso.
O desalento reflete-se na imagem que se tem do país. Na pesquisa, 47% dizem sentir mais vergonha do que orgulho de serem brasileiros (50% afirmam o oposto), maior taxa desde que a questão começou a ser apresentada, em 2000.
O presidente pode sobreviver à denúncia de corrupção passiva a ser apresentada, como se espera, pelo Ministério Público –afinal, ainda controla votos suficientes no Congresso para barrar processos que o afastariam do cargo.
O desacordo da aliança governista a respeito de sua sucessão contribui para a sustentação precária de seu governo, assim como o refluxo das manifestações populares.
Existem ainda temores de que uma nova troca de comando no Planalto dificultaria a recuperação da economia, cujos primeiros e tímidos sinais se fazem notar.
É incontestável, entretanto, que a maioria acachapante deseja outro governo –e é difícil imaginar que a permanência prolongada de taxas de impopularidade tão elevadas se dê sem consequências.
Fernando Collor (então PRN, hoje PTC) e Dilma Rousseff (PT), que amargaram índices similares de rejeição, acabaram alvos de processos de impeachment.
No final calamitoso do governo Sarney, a degradação econômica e o descrédito político dizimaram as lideranças tradicionais no pleito de 1989, abrindo caminho para legendas como PT e PSDB.
Hoje, a uma distância considerável das eleições gerais de 2018, ainda não se vislumbram com clareza as opções preferenciais de renovação da classe dirigente nacional.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

'A inteligência artificial não vai nos destruir', diz gênio do xadrez Kasparov

'A inteligência artificial não vai nos destruir', diz gênio do xadrez Kasparov

Miso Lisanin - 27.dez.2015/Xinhua
(151227) -- ZAGREB, diciembre 27, 2015 (Xinhua) -- El excampeón mundial de ajedrez, Garry Kasparov (i), juega partidas de ajedrez contra 18 personas simultáneamente, en un hotel en Zagreb, capital de Croacia, el 27 de diciembre de 2015. De acuerdo con información de la prensa local, el evento se llevó a cabo con el objetivo de popularizar el ajedrez entre niños y jóvenes. (Xinhua/Miso Lisanin) (da) (ah)
O ex-campeão mundial de xadrez Garry Kasparov (à esq.) em partida de exibição na Croácia
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Garry Kasparov, que há 20 anos se tornou o primeiro campeão mundial de xadrez a ser derrotado por um supercomputador, pede licença para discordar do prêmio Nobel de física Stephen Hawking. Otimista, não acredita que humanos serão, um dia, destruídos por máquinas.
"Com todo o respeito, acho que esse futuro sombrio é mais uma jogada midiática do que uma previsão científica", disse ele, pouco antes de dar uma de suas palestras, no mês passado. Aposentado, o enxadrista de 52 anos dedica-se a demonstrar a aplicação da estratégia do xadrez fora dos tabuleiros.
Dali a uma hora, ele inauguraria o novo laboratório da Avast, uma fabricante de antivírus sediada na República Tcheca. Nos países do antigo bloco soviético, Kasparov, nascido no Azerbaijão, é um nome que ressoa –assim como ressoa sua relação com computadores.
"Gostam de lembrar do jogo que perdi, mas ganhei a guerra." Referia-se à partida de 10 de fevereiro de 1996 contra Deep Blue, um supercomputador da IBM. Kasparov ganharia três partidas e empataria outras duas contra o oponente de silício, mantendo o título mundial.
Um ano depois da disputa, a máquina, atualizada, venceu a revanche.
Peter Morgan - 11.mai.1997/Reuters
Xadrez: duelo entre Garry Kasparov e o computador Deep Blue da I.B.M: World chess champion Garry Kasparov rests his head in his hands as he is seen on a monitor during game six of the chess match against IBM supercomputer Deep Blue, May 11. The supercomputer made chess history Sunday when it defeated Kasparov for an overall victory in their six game re-match, the first time a computer has triumphed over a reigning world champion in a classical match. Kasparov resigned after 19 moves. ms/Photo by Peter Morgan REUTERS*** NÃO UTILIZAR SEM ANTES CHECAR CRÉDITO E LEGENDA***
Plateia assiste a embate entre Kasparov e o computador Deep Blue, da IBM
Campeão mundial desde 1985, ele não estava acostumado a perder. Deep Blue era algo diferente, no entanto. "Máquinas são um oponente com algum tipo de característica estranha", diz. "Hoje, elas são invencíveis por algo que nenhum ser humano pode superar: consistência."
Depois de muitos jogos de alto nível e de ter escrito um livro sobre a estratégia dos mestres que o inspiraram, Kasparov chegou à conclusão de que o xeque-mate está nos detalhes –e de que eles não fogem a olhos eletrônicos.
"Em nenhuma partida que joguei, nenhuma mesmo, houve grandes erros; apenas pequenas imprecisões –que não significam nada quando se está enfrentado um ser humano", afirma. "Mas o nível de precisão e de vigilância que se requer para ganhar de uma máquina nunca se encontrou em um humano."
Agora, o enxadrista vê a inteligência artificial que o derrotou como uma questão de outra ordem, maior até do que reis e rainhas.
Há duas semanas, um supercomputador do Google foi capaz de derrotar o campeão europeu do jogo chinês Go, cuja lógica não se presta tão bem à força bruta dos algoritmos que jogam xadrez.
Para vencer no jogo de Kasparov, basta um sistema eficiente para testar, em pouco tempo, milhares (e talvez milhões) de jogadas. No tabuleiro chinês, é difícil descrever ao computador o problema e a solução. Nesse caso, foi preciso simular o funcionamento de neurônios em software e deixar que ele aprendesse sozinho.
O princípio das redes neurais e do aprendizado de máquina é o que está por trás do boom da inteligência artificial nos últimos anos, e alimenta desde assistentes virtuais, como a Siri, da Apple, até os carros autônomos do Google.
O AlphaGo é cria da britânica DeepMind, adquirida pelo Google para levar à gigante californiana cérebros humanos que pensam sobre cérebros de máquinas. E eles pensam muito em jogos.
Tabuleiros são ótimos tubos de ensaio para as mentes de silício: oferecem desafios análogos aos do mundo real em um ambiente mais fácil de controlar e medir.
"Queremos aplicar essas técnicas em problemas reais", disse Demis Hassabis, um dos criadores do AlphaGo, ao jornal "Financial Times".
Nem isso preocupa Kasparov. "Já ouvimos muito que a tecnologia nos destruiria. Não aconteceu e não acho que vai acontecer."
*
XEQUE-MATE
Os computadores nos jogos
  • 1958 Pesquisadores da universidade norte-americana Carnegie-Mellon criam algoritmo que aumenta eficiência de computadores jogando xadrez
  • 1979 O programa BKG 9.8 vence o jogador de gamão italiano Luigi Villa. Com o uso de um dado, jogo mistura estratégia e sorte, que pode ter ajudado o computador
  • 1994 O programa Chinook chega à final do mundial de damas e é campeão com a desistência de Marion Tinsley, que descobre ter câncer
  • 1996 Garry Kasparov perde primeira partida para um computador. Ele ganharia a disputa vencendo três jogos de seis e empatando outros dois
  • 1997 Na revanche contra o Deep Blue, computador da IBM, Kasparov leva a pior. Perde duas partidas, vence uma delas e empata três outros jogos
  • 2006 O programa Quackle vence David Boys, campeão de Scrabble, jogo de estratégia em que se deve soletrar palavras em um tabuleiro
  • 2016 O AlphaGo, computador do Google, usa sistema inspirado em redes de neurônios para vencer o campeão europeu do jogo chinês Go
Divulgação
TEC 08.02.2016 - O jogador de tabuleiro Marion Tinsley (Dir.), durante jogo contra um dos criadores do programa Chinook, programa que venceu o jogador por desistência. O programa foi criado por pesquisadores da Universidade de Alberta, no Canadá - (Foto: Divulgação)
O jogador de tabuleiro Marion Tinsley (à dir.), durante jogo contra um dos criadores do programa Chinook

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Socialdemocracia no século 21

EDUARDO ZIBERMAN E IGOR ABDALLA

A socialdemocracia surgiu de cisão do socialismo alemão no século 19. Em oposição à revolução comunista de Karl Marx, criou-se uma dissidência que pregava a promoção pacífica do socialismo no processo democrático-parlamentar.

O apogeu da socialdemocracia ocorreu na Europa pós-1945, quando o Estado de bem-estar social combinou capitalismo e amplo sistema de benefícios sociais, como meio-termo entre a União Soviética comunista e a economia de mercado estadunidense.

No Brasil, a socialdemocracia foi a via média entre o nacional-estatismo e o "Centrão" conservador na Assembleia Constituinte, com uma perspectiva de centro-esquerda decisiva para a Constituição de 1988. Replicou-se o sistema do Estado de bem-estar social europeu, que, entretanto, tinha sua viabilidade fiscal desafiada desde os anos 1970, com o fim da bonança do pós-guerra. Não surpreende que o sistema adotado pela Constituição Federal tenha acarretado gastos governamentais crescentes nas últimas décadas.

Diante da deterioração corrente das finanças públicas, com as mazelas econômicas consequentes, espera-se, ou melhor, torce-se para que a sociedade brasileira entenda que não é possível atender todas as demandas contempladas em um amplo Estado de bem-estar social. As despesas precisam caber no orçamento que a sociedade transfere ao Estado. É necessário, portanto, estabelecer prioridades.

Desde os seus primórdios, a socialdemocracia priorizou o trabalhador, elo mais vulnerável do conflito distributivo expresso na luta de classes. No século 21, em que ainda pese a necessidade de se combater a pobreza e redistribuir renda, o principal conflito distributivo que se desenha é o de gerações.

Com a degradação do meio-ambiente, assim como o envelhecimento demográfico, empenha-se o futuro de modo flagrantemente insustentável para que a geração corrente possa consumir e receber benesses governamentais.

Cabe à socialdemocracia do século 21 seguir sua tradição ideológica e priorizar o elo mais frágil e vulnerável deste conflito distributivo: as gerações vindouras. Até porque a natureza deste conflito é muito mais perversa do que a do conflito de classes. Ao contrário dos movimentos trabalhistas, não é possível às gerações futuras se organizar para defender seus direitos.

Se as crianças, os recém e não nascidos pudessem se fazer representar, pipocariam Brasil afora manifestações exigindo a reforma da previdência. Na ausência desta, o próprio governo projeta que, em 2050, as despesas públicas com a previdência serão 12,6 por cento do PIB.

A magnitude dos tributos que incidirão, direta e indiretamente, sobre a renda futura das crianças de hoje (e de amanhã) será proibitiva. A reforma da previdência, portanto, não se destina apenas a contribuir para o necessário reequilíbrio fiscal, mas também proteger as gerações futuras.

Mais uma vez, se os não nascidos pudessem ser expostos às projeções alarmantes, ainda que incertas, sobre os efeitos do aquecimento global, estes exigiriam prioridade ao tema. Caso a trajetória de aquecimento global não seja mitigada, um estudo recém-publicado pela revista britânica "Nature" estima que, em 2100, o PIB per capita brasileiro será 83% menor do que aquele que vigoraria em um mundo sem mudanças climáticas. É imperativo, portanto, que o progresso de hoje permita às gerações futuras usufruir de condições ambientais ao menos semelhantes às atuais.

O mundo mudou faz tempo. A dimensão do conflito distributivo, que exige uma atenção maior da socialdemocracia, já não é a luta entre o trabalho e o capital, mas a luta entre o cidadão de hoje e o cidadão de amanhã. É notável que as supostas forças brasileiras de esquerda, ao centrar seu discurso nos oprimidos, não se levantem em defesa daqueles que, de todos, são os mais vulneráveis.

Cabe à socialdemocracia brasileira retomar para si bandeiras associadas erroneamente pelo senso comum "à direita", como a reforma da previdência, e "à esquerda", como a sustentabilidade. Nossos filhos e netos agradecem.


EDUARDO ZIBERMAN, 33, é doutor pela Universidade de Nova York e professor de economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio
IGOR ABDALLA, 34, é doutor pelo Instituto Universitário Europeu, professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio e presidente do Instituto Teotônio Vilela

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Só o Brasil oficial não sabia?


JOÃO LARA MESQUITA

Só o Brasil oficial não sabia?


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O desastre de Mariana, possivelmente, é o pior acidente ambiental brasileiro. Além de soterrar comunidades, matando 11 pessoas, e deixando 8 desaparecidos até agora, provocou a morte do rio Doce.
O Saae (Serviço Autônomo de Água e Esgoto), de Baixo Guandu (ES), analisou a água do rio e encontrou metais pesados: chumbo, alumínio, ferro, bário, cobre, boro e mercúrio.
"O rio está morto, o cenário é o pior possível", disse Luciano Magalhães, diretor do Saae. Morte anunciada em razão de uma legislação frouxa e inexistência de fiscalização.
Além da Samarco, propriedade da Vale e da anglo-australiana BHP Billiton, o governo federal também deveria ser punido; afinal, a responsabilidade é dele.
O Código de Mineração, no capítulo 2º, artigo 21º, inciso 24, estabelece que "compete à União organizar, manter e executar a inspeção do trabalho".
Já o capítulo 1º, artigo 174, é claro: "Como agente normativo e regulador da atividade econômica, o Estado exercerá, na forma da lei, as funções de fiscalização, incentivo e planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo para o setor privado".
Infelizmente, como denuncio em meu trabalho, a ausência de fiscalização é unânime em todas as comunidades nativas do litoral.
A Folha noticiou, em junho passado, que o principal órgão de controle ambiental do governo federal, o Ibama, tem apenas três barcos em atividade para fiscalizar os mais de 7.300 km do litoral brasileiro.
Em entrevista para o site "Mar sem Fim" (www.marsemfim.com.br), Maria Tereza Jorge Pádua, um dos ícones do ambientalismo brasileiro, sentenciou: "o meio ambiente nunca foi prioridade no Brasil".
Alguém duvida?
Fui aos sites. Descobri que a "missão" da Vale é "transformar recursos naturais em prosperidade e desenvolvimento sustentável". Desconfio de quem se diz "verde", "sustentável", "eco isso ou aquilo". Cansei de ver a destruição do litoral por empresas que abusam do jargão.
De toda forma, continuei a leitura. A Vale lista no site seis valores que norteiam a atuação da empresa. O primeiro e o terceiro foram duros de engolir. Respectivamente, "a vida em primeiro lugar" e "cuidar de nosso planeta". Argh!
O pior estava por vir. Vasculhando sobre a BHP, a casa caiu. O governo federal foi tão omisso que não se preocupou com o histórico de acidentes da empresa.
A BHP Billiton, ao contrário de Midas, tem dedo podre. Acidentes graves são frequentes onde atua. Um dos piores aconteceu em Papua-Nova Guiné, ao abrir uma mina de ouro e cobre, a OK Tedi Copper Gold Mine, em 1984.
Durante 20 anos despejou, dia após dia, 80 mil toneladas de rejeitos contendo cobre, cádmio, zinco e chumbo, diretamente na bacia do rio Fly, o que arruinou terras de milhares de agricultores, envenenando 2.000 quilômetros quadrados de floresta. E detonou dois rios, o Fly e o Ok Tedi.
Para fugir das responsabilidades, assinou acordos com líderes comunitários, que isentaram a empresa do pagamento de indenizações.
ONGs informaram que "ao conversarem com os nativos, ficou claro que eles não sabiam o que estavam assinando". O histórico da BHP gerou um relatório alternativo, "BHP Billiton Dirty Energy", informando sobre a destruição de comunidades na Colômbia, acidentes na Indonésia e Austrália.
Já o "Mining Journal" cita outros, como o da mina de cobre em Pinto Valley, Arizona (EUA).
Só o Brasil oficial não sabia?

JOÃO LARA MESQUITA, 60, jornalista, mantém o site www.marsemfim.com.br. Foi diretor, de 1982 a 2003, da Rádio Eldorado, do Grupo Estado
*

sábado, 21 de novembro de 2015

Paradise now


Paradise now

hélio schwartsman



SÃO PAULO - "Brian está no paraíso." Foi com essa mensagem que Sara, a mulher do jovem belga de ascendência brasileira que era membro do Estado Islâmico na Síria, anunciou sua morte à família. Será que Sara está certa? Existe mesmo um paraíso e pessoas que morrem lutando por Deus, a exemplo de Brian e dos terroristas que barbarizaram Paris na sexta-feira 13, ganham um passe expresso para lá?
Obviamente, não há nenhum indício físico de que exista vida no além e muito menos de que ela seja boa. Não obstante, textos religiosos tentam nos convencer do contrário. Os gregos tinham seus Campos Elísios, o cristianismo fala em salvação, mas é o islamismo que oferece as descrições mais detalhadas. O nobre Corão ensina que, no paraíso, podemos beber o vinho que era proibido na terra (Suras 83:25 e 47:15), fartar-nos com a carne de porco (52:22) e deliciar-nos com virgens (44:54 e 55:70) e "mancebos eternamente jovens" (56:17).
Apologistas islâmicos vão além. Jalal al-Suyuti (1445-1505), por exemplo, explica que, no paraíso, a virgindade das "huris" se renova após cada ato sexual, e que os pênis dos eleitos nunca esmorecem. No Jardim das Delícias, até a ereção é eterna.
Apesar das tentações do paraíso, não dá para atribuir os atentados de Paris apenas à religião. A esmagadora maioria dos crentes não sai por aí metralhando infiéis. É preciso algo mais, e cientistas políticos vêm oferecendo longas listas de ingredientes.
Meu ponto é que, embora a religião seja, no atacado, inocente, não pode ser totalmente exonerada. Ela carrega o pecado de fazer com que pessoas normais vejam como respeitáveis as hipóteses mais extravagantes, como a ressurreição de mortos, nascimentos virginais e orgasmos infinitos. Quando ligam o modo religioso de pensar, crentes, até os mais pacíficos, já não acham tão absurda a ideia de que Deus quer que liquidemos infiéis. Essa solidariedade passiva ajuda a alimentar o terrorismo. 

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Nossas futilidades


Nossas futilidades


Hoje à noite, viajo a Nova York para estar na entrega dos prêmios do Emmy International, que acontece na segunda (23). O seriado "Psi", que criei para o canal HBO (com equipes e colaboradores muitas vezes extraordinários), é um dos indicados ao prêmio de melhor série dramática. Emilio de Mello, o protagonista, é indicado ao prêmio de melhor ator de série dramática.
Agora mesmo, pensando na viagem, sou tomado por uma sensação de futilidade –como quando lemos, no jornal, uma notícia atroz e enxergamos, logo embaixo, a propaganda de uma bolsa, de um relógio ou de um cruzeiro. Estarei num jantar de gala, que celebra o entretenimento, enquanto, por exemplo, o Exército Islâmico escraviza as mulheres do povo yazidi do Curdistão ou, então, massacra jovens sentados num café ou numa casa de show de Paris.
Justamente, os jihadistas do Estado Islâmico nos desprezam porque, aos olhos deles, somos todos fúteis. O bizarro é que nós possamos, de uma certa forma, concordar com eles, ou seja, menosprezar nossa própria cultura e sua aparente "futilidade".
Um romance, um seriado, um namoro no bar ou um show de metal talvez sejam menos fúteis do que um ritual religioso qualquer. Mas nem deveríamos querer justificar nossas diversões, nossa liberdade e nosso prazer de viver.
No campo cristão, São Paulo (não a cidade, que é ótima, mas o autoproclamado apóstolo) é quem engajou o cristianismo numa cruzada contra a futilidade e o prazer.
Claro, Paulo fez que o cristianismo fosse uma religião universal, ótima para a diversidade do Império Romano, e ótima para a cultura moderna. O filósofo Alain Badiou, em "São Paulo – A Fundação do Universalismo" (Boitempo, 2009), é convincente: Paulo fundou uma religião que podia ser universal porque não era mais a verdade exclusiva de um povo, de uma cidade, de um território ou de uma classe social.
Mas isso não me basta para gostar dele. Fico com Nietzsche, achando que Paulo odiava o humano nele mesmo e propôs o mesmo ódio aos cristãos da época e do futuro. Vou ser irreverente (é um bom dia para o espírito de "Charlie Hebdo"): Paulo inaugurou o mecanismo projetivo quando caiu do cavalo e, para não admitir sua imperícia como cavaleiro, achou que Deus o tinha jogado no chão para convertê-lo.
Ele continuou no mecanismo projetivo: inventou um cristianismo sombrio na ilusão de que, perseguindo os "pecadores", ele conseguiria controlar seus desejos carnais.
Resultado: para nós, o prazer e a futilidade são sempre um pouco culpados, como se tivéssemos a obrigação de nos preocupar o tempo inteiro só com o divino e o absoluto. Na época, alguém deveria ter dito a São Paulo: "Get a life", vá viver sua vida, que é melhor...
No dia do enterro de meu avô, que eu adorava, voltando do cemitério, meus sobrinhos e eu (todos pré-adolescentes) fomos despachados para o cinema perto de casa. Eu hesitei. Como assim, ir ao cinema depois do funeral? Meu pai me lembrou que o avô era quem mais me levava ao cinema: assistir a um filme naquele dia talvez fosse o melhor jeito de honrar sua memória.
Pois bem, no ataque contra Paris, os lugares escolhidos foram cafés, restaurantes, um show de rock (todos num bairro boêmio) e um estádio de futebol: são lugares de prazer –de futilidade, não é?
Os jihadistas atacam em nós o que mais os seduz. O que eles odeiam são os atos e os pensamentos que eles precisam destruir dentro de si. Os mortos de Paris, para os jihadistas, não são pessoas (sequer "infiéis"): eles são os representantes de suas próprias tentações internas. Como sempre, os moralistas perseguem (e até exterminam) seus próprios desejos rebeldes.
Esse, aliás, é o ponto de partida para entender os jovens ocidentais que se alistam no Exército Islâmico. Como ocidentais, aprenderam a se odiar por serem "fúteis" e "hedonistas". Eles apenas transformam o ódio de si mesmos em ódio da gente.
O que fazer para que as coisas mudem? Talvez fosse a hora de sermos menos inimigos de nós mesmos. Ou seja, a hora de pensar que nossa grandeza está no fato de que gostamos do mundo onde vivemos. E podemos defender com orgulho não tanto nossas religiões ou grandes ideias, mas o que somos de melhor, sem ironia: uma saída para escutar uma banda legal, papo furado entre amigos à mesa de um café na rua e, às vezes, uns beijos escondidos na porta de um prédio da rua de Charonne. Ou de qualquer rua de nossas cidades. 

contardo calligaris

Consciência negra e desenvolvimento



MAURÍCIO PESTANA

Consciência negra e desenvolvimento



Há mais de 500 anos um fato importante aconteceu na história da humanidade: o início do tráfico negreiro da África para as Américas. O Brasil, durante mais de 300 anos anos, teve toda a sua formação social, econômica e territorial idealizada e produzida a partir desse acontecimento.
A Lei Áurea, de 1888, pôs fim oficialmente à escravidão no Brasil com um enorme atraso. Fomos o último país independente da América Latina a extinguir essa mácula.
Desde então, saímos de uma estrutura predominantemente latifundiária para um país com enorme desenvolvimento tecnológico e industrial, com alta capacidade de produção de bens materiais, o que nos coloca entre as dez mais pujantes economias do planeta.
No entanto, esse desenvolvimento foi incapaz de promover a distribuição igualitária das riquezas. O Brasil registra um dos maiores índices de desigualdade social do mundo, o que acarreta um enorme agravamento da discriminação racial e do preconceito.
Os negros (somando os autodeclarados pretos e pardos) são a maioria no Brasil, mas estão praticamente excluídos do desenvolvimento econômico, são subutilizados e subvalorizados no mercado, mal remunerados e com escasso acesso a empregos qualificados.
No maior país negro fora da África, a população negra, durante quase toda a história recente do país, não teve acesso aos bancos escolares de nível superior. Dados do final do século passado mostram que apenas 2% desses bancos eram ocupados por negros.
Somente no início do século 21 –leia-se, há apenas 15 anos–, o Brasil começou a tomar medidas que reduziram as distâncias entre negros e brancos na educação, processo esse que gerou muito debate em nossa sociedade.
Programas como o Prouni e as cotas raciais, conquistas do movimento negro, começam a reverter esse quadro: atualmente, a parcela das vagas ocupadas por negros nas universidades cresceu para 20%. Essas e outras políticas afirmativas adotadas pelos governos progressistas fizeram com que o Brasil se tornasse um pouco menos desigual.
Ainda que tardiamente, chegamos a um patamar de evolução educacional que nos permite discutir de que forma iremos avançar, uma vez que temos o maior número de formandos negros da história.
Com o intuito de responder a questões como essa, a Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial de São Paulo convocou um expressivo contingente de empresas do setor privado para discutir com o setor público medidas que pudessem contribuir para a maior inserção dos negros no mercado de trabalho, principalmente em funções estratégicas e bem remuneradas.
Avaliamos em conjunto políticas e ações possíveis que a sociedade pode gerar para um desenvolvimento econômico mais equilibrado.
As comemorações do Dia da Consciência Negra chamam a atenção dos brasileiros para a necessidade de um novo modelo socioeconômico para o país, diferente daquele injusto e excludente do século passado. Precisamos de um projeto de desenvolvimento econômico que envolva a população negra da cidade de São Paulo e do Brasil.
A nação de maior população negra fora do continente africano tem a obrigação de dar exemplo para o mundo. O desenvolvimento só será verdadeiro com a inclusão.
MAURÍCIO PESTANA, 50, é secretário municipal de Promoção da Igualdade Racial de São Paulo

Consciência negra e desenvolvimento


MAURÍCIO PESTANA

Consciência negra e desenvolvimento



Há mais de 500 anos um fato importante aconteceu na história da humanidade: o início do tráfico negreiro da África para as Américas. O Brasil, durante mais de 300 anos anos, teve toda a sua formação social, econômica e territorial idealizada e produzida a partir desse acontecimento.
A Lei Áurea, de 1888, pôs fim oficialmente à escravidão no Brasil com um enorme atraso. Fomos o último país independente da América Latina a extinguir essa mácula.
Desde então, saímos de uma estrutura predominantemente latifundiária para um país com enorme desenvolvimento tecnológico e industrial, com alta capacidade de produção de bens materiais, o que nos coloca entre as dez mais pujantes economias do planeta.
No entanto, esse desenvolvimento foi incapaz de promover a distribuição igualitária das riquezas. O Brasil registra um dos maiores índices de desigualdade social do mundo, o que acarreta um enorme agravamento da discriminação racial e do preconceito.
Os negros (somando os autodeclarados pretos e pardos) são a maioria no Brasil, mas estão praticamente excluídos do desenvolvimento econômico, são subutilizados e subvalorizados no mercado, mal remunerados e com escasso acesso a empregos qualificados.
No maior país negro fora da África, a população negra, durante quase toda a história recente do país, não teve acesso aos bancos escolares de nível superior. Dados do final do século passado mostram que apenas 2% desses bancos eram ocupados por negros.
Somente no início do século 21 –leia-se, há apenas 15 anos–, o Brasil começou a tomar medidas que reduziram as distâncias entre negros e brancos na educação, processo esse que gerou muito debate em nossa sociedade.
Programas como o Prouni e as cotas raciais, conquistas do movimento negro, começam a reverter esse quadro: atualmente, a parcela das vagas ocupadas por negros nas universidades cresceu para 20%. Essas e outras políticas afirmativas adotadas pelos governos progressistas fizeram com que o Brasil se tornasse um pouco menos desigual.
Ainda que tardiamente, chegamos a um patamar de evolução educacional que nos permite discutir de que forma iremos avançar, uma vez que temos o maior número de formandos negros da história.
Com o intuito de responder a questões como essa, a Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial de São Paulo convocou um expressivo contingente de empresas do setor privado para discutir com o setor público medidas que pudessem contribuir para a maior inserção dos negros no mercado de trabalho, principalmente em funções estratégicas e bem remuneradas.
Avaliamos em conjunto políticas e ações possíveis que a sociedade pode gerar para um desenvolvimento econômico mais equilibrado.
As comemorações do Dia da Consciência Negra chamam a atenção dos brasileiros para a necessidade de um novo modelo socioeconômico para o país, diferente daquele injusto e excludente do século passado. Precisamos de um projeto de desenvolvimento econômico que envolva a população negra da cidade de São Paulo e do Brasil.
A nação de maior população negra fora do continente africano tem a obrigação de dar exemplo para o mundo. O desenvolvimento só será verdadeiro com a inclusão.
MAURÍCIO PESTANA, 50, é secretário municipal de Promoção da Igualdade Racial de São Paulo

Preconceito na sala de aula

RICARDO HENRIQUES

Preconceito na sala de aula

Mais jovens negros estão frequentando o ensino médio, e a distância entre eles e os estudantes brancos, ao menos no que diz respeito ao acesso, diminuiu.

Essa constatação, feita a partir dos dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE, mostra que estamos conseguindo reduzir desigualdades nos bancos escolares.
Em 2014, mais da metade (51%) de brasileiros de 15 a 17 anos que se autodeclararam pretos ou pardos ao IBGE estava cursando o ensino médio. No início do século 21, essa proporção era de apenas 25%, ou um em cada quatro alunos. Entre jovens brancos da mesma idade, a variação no mesmo período foi de 51% para 65%.
Daniel Bueno
O aumento na proporção de negros no ensino médio pode ser atribuído a uma combinação de ações que resultaram na melhoria do fluxo desde os anos iniciais. Políticas públicas externas à escola, caso do Bolsa Família, contribuíram para a queda da evasão e para a manutenção das crianças na escola.
O avanço no acesso, contudo, não veio acompanhado da melhoria da qualidade do ensino. Esse quadro é agudo no ensino médio. No trágico contexto em que todos os grupos tiveram piora no desempenho medido pelo Saeb, exame nacional do MEC, a distância no aprendizado de português e matemática entre negros e brancos se manteve estável.
Em 1995, a proficiência média em língua portuguesa no terceiro ano do ensino médio dos estudantes brancos era de 292 pontos; dos negros, 278. Em 2013, a média dos alunos brancos caiu para 269 e a dos negros, para 254 pontos. A média considerada adequada pelo movimento Todos pela Educação é de 300 pontos.
É fundamental que voltemos os esforços para a elaboração de políticas educacionais focadas no ambiente escolar, para melhorarmos os resultados e para que a escola não reproduza as desigualdades de origem. É preciso olhar para o que acontece dentro da sala de aula, porque parte da desigualdade no aprendizado é causada por atitudes discriminatórias veladas.
A formação docente, por exemplo, não prepara o professor para a realidade das escolas públicas. O currículo das licenciaturas dedica-se muito à matriz teórica e filosófica e pouco à prática em sala. Um bom plano de aula enfrenta na origem a maioria das defasagens do alunato de diversos segmentos sociais.
Em outra frente, a flexibilidade do currículo do ensino médio deve oferecer opções de trajetórias, que podem ser acadêmicas ou técnicas, a partir de uma base comum. Isso possibilitaria, também, a incorporação dos saberes e cultura dos territórios. É importante que o currículo incorpore temas como sexualidade, discriminação, política e religião em suas múltiplas formas, estimulando a pluralidade de opiniões.
Por fim, a gestão escolar é fundamental para esse enfrentamento. Todo o esforço da gestão deve estar voltado para a melhoria da aprendizagem e para a redução das desigualdades no interior da escola –e entre escolas. É papel do diretor promover a escuta e o diálogo com os estudantes, professores e comunidade escolar, criando um ambiente de respeito às diferenças.
A persistente desigualdade de aprendizagem dos estudantes negros, frente ao atual cenário de práticas discriminatórias e intolerância, demanda políticas públicas educacionais e iniciativas que enfrentem essa realidade.
É uma agenda imprescindível para transformarmos uma sociedade marcada por desigualdades históricas em uma nação socialmente justa, igualitária e diversa.
RICARDO HENRIQUES, 55, economista, é superintendente executivo do Instituto Unibanco e membro do Conselho de Administração do Instituto Internacional de Planejamento da Educação da Unesco

Abaixo da média



EDITORIAL

Abaixo da média


Dados o colapso da economia neste ano e as projeções cada vez mais preocupantes para 2016, mostra-se irrelevante a rotineira revisão do PIB feita pelo IBGE.
Com as novas informações sobre 2012 e 2013, o crescimento anual médio no primeiro mandato de Dilma Rousseff (PT) subiu de 2,1% para 2,2%. No agregado, a economia ficou 0,4 ponto percentual maior.
Como se vê, a inclusão de dados que não estavam disponíveis à época da divulgação original não fez muita diferença em relação ao passado –e certamente não fará nenhuma quanto ao futuro.
Em março, uma alteração mais ampla havia incorporado investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Na ocasião, a alta média do PIB de 2011 a 2014 passou de 1,7% para 2,1%.
Efetuadas as atualizações, o período Dilma pode parecer um pouco menos ruim, mas permanece essencialmente o mesmo. O desempenho de seu governo é o pior das últimas décadas, seja em termos absolutos, seja em termos relativos. Seu primeiro mandato, além disso, deixou o legado mais deplorável.
Tomem-se as gestões de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e de Lula (PT). De 1995 a 2002, com o tucano na Presidência, o Brasil cresceu em média 2,4% ao ano, em um período marcado não só por recorrentes crises internacionais mas também baixos preços de matérias-primas. A América Latina, para comparação, avançou 2,2%.
Lula, por sua vez, vivenciou ambiente internacional bem melhor. Houve maior dinamismo na América Latina, em decorrência da demanda chinesa por bens primários. A economia da região, assim como a do Brasil, expandiu-se em média 4,1% de 2003 a 2010.
Esse padrão mudou com Dilma Rousseff. De 2011 a 2014, o crescimento latino-americano desacelerou, mas ficou em 3% na média, taxa bem superior à do Brasil –que só se saiu melhor que países quase arruinados, como a Venezuela.
Quando se considera o segundo mandato da petista, a situação se torna dramática. Caso se confirmem as projeções de analistas compiladas pelo Banco Central, o PIB cairá 3,1% neste ano e 2% em 2016. O crescimento voltaria em 2017 e 2018, mas em ritmo insuficiente para produzir uma média acima de zero no quadriênio.
Não há novidade em dizer que foram muitos e grandes os erros dos últimos anos. O real custo da incompetência, contudo, aparece no longo prazo: uma década de estagnação e a desmobilização das forças sociais para o crescimento.
Que o desastre causado pela irresponsabilidade dilmista sirva de motivação para fortalecer as instituições e a gestão das contas públicas, pilares para um projeto de desenvolvimento que possa durar mais que um ciclo eleitoral.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Palestinos e nazistas


João Pereira Coutinho

Escritor português, é doutor em ciência política. É colunista do 'Correio da Manhã', o maior diário português.

Palestinos e nazistas

Binyamin Netanyahu está errado: não foram os palestinos que ensinaram a matança sistemática de judeus aos nazistas.

O Holocausto, como qualquer historiador sério sabe, não se refere apenas ao período pós-1942, quando na Conferência de Wannsee se decidiu "a solução final para a questão judaica" (é importante citar "questão judaica" porque há sempre uns eruditos para quem o Holocausto não foi especificamente pensado para os judeus).

O Holocausto abrange todo o período entre 1933 e 1945, ou seja, desde a chegada de Hitler ao poder até a derrota do Terceiro Reich na Segunda Guerra Mundial. E, nesse período, os nazistas não precisavam de lições de genocídio de palestinos.

A partir de 1933, a perseguição e os assassinatos começaram; campos de concentração foram erguidos na Alemanha; a partir de 1938, com a "Kristallnacht", as matanças esporádicas tornaram-se rotina.

E, com o início da Segunda Guerra Mundial, os fuzilamentos em massa passaram a ser o prato do dia. Um exercício que era demorado, psicologicamente exigente (para a frágil saúde mental dos soldados do Reich, entenda). Era preciso uma "solução" mais rápida e, digamos, "indolor".

A partir de 1942, ou seja, com a desastrosa campanha contra a União Soviética (ou, para os eruditos, contra os seus aliados soviéticos, porque nazistas e comunistas tinham um pacto desde 1939), começaram as primeiras experiências químicas para matar judeus como quem mata baratas ou outros seres rastejantes.

Quando os nazistas descobriram o infame Zyklon B (que, ironia macabra, servia para matar baratas e outros seres rastejantes), estava encontrada a chave para acabar com os judeus da Europa.

Isso significa que o líder árabe na Palestina –Haj Amin al-Husseini– é inocente no antissemitismo assassino do mesmo período histórico? Também não. Vamos esquecer, por motivos caridosos, o fato de Al-Husseini ter sido considerado criminoso de guerra em Nuremberg e ter fugido para o Egito.

A pergunta fundamental é outra: por que motivo o "mufti" de Jerusalém foi considerado um criminoso de guerra?

Não é preciso consultar obras de peso sobre o assunto. Gregory Harms e Todd M. Ferry, apesar das suas simpatias pró-palestinas –repito: pró-palestinas–, escreveram um excelente livro de introdução ao conflito israelo-palestino que recomendo sempre a interessados –e a iletrados.

O retrato que ambos pintam de Al-Husseini resume-se a isto: o "mufti" representa um dos maiores erros do Mandato Britânico da Palestina.

Resumindo uma longa e complexa história, a partir do momento em que os britânicos, nos escombros da Primeira Guerra, decidiram que a Palestina deveria ser partilhada entre judeus e árabes, que já habitavam o território sob administração do Império Otomano (império que desapareceu na guerra), os árabes recusaram essa partilha. Assim começou, no essencial, a luta que dura até hoje.

Confrontado com essa violência, Londres acreditou que o "mufti" de Jerusalém era a pessoa indicada para tentar sossegar os ânimos.

Errou. Barbaramente. Al-Husseini não era apenas um antissemita virulento, que incitava aos confrontos e desejava uma limpeza étnica na Palestina.

Com o Terceiro Reich, o "mufti" estabeleceu relações de amizade e cooperação com Hitler. Na Palestina, criou os "escoteiros nazistas" (uma cópia da Juventude Hitlerista); recebeu apoio financeiro da Alemanha e até da Itália para a luta contra os judeus; e quando, na Alemanha, conheceu finalmente os campos de concentração, retornou à Palestina para também construir um campo do gênero perto da povoação de Nablus.

O premiê israelense Netanyahu está errado. Não foi Al-Husseini quem ensinou a lição a Hitler. O que aconteceu foi o contrário: na teoria e na prática, o Terceiro Reich apenas deu alimento suplementar a um ódio ideológico que já existia na Palestina.


Escuso de dizer que é esse o ódio que permanece até hoje. Porque o conflito israelo-palestino não é, porque nunca foi, um problema territorial. É um problema ideológico que não tem solução enquanto uma das partes olhar para os judeus exatamente como Hitler olhava para eles.