quinta-feira, 20 de julho de 2017

Insucesso na busca de prova leva Moro ao descontrole das argumentações

Novidade destes tempos indefiníveis, sentenças judiciais substituem a objetividade sóbria, de pretensões clássicas como se elas próprias vestissem a toga, e caem no debate rasgado. Lançamento de verão do juiz Sergio Moro, nas suas decisões iniciais em nome da Lava Jato, o "new look" expande-se nas centenas de folhas invernosas da condenação e, agora, de respostas a Lula e sua defesa. Tem de tudo, desde os milhares de palavras sobre o próprio autor, a opiniões pessoais sobre a situação nacional, e até sobre a sentença e sua alegada razão de ser. Dizem mais do juiz que do acusado. O que não é de todo mal, porque contribui para as impressões e as convicções sobre origens, percurso e propósitos deste e dos tantos episódios correlatos.
A resposta do juiz ao primeiro recurso contra a sentença é mais do que continuidade da peça contestada. É um novo avanço: lança a inclusão do insulto. Contrariado com as críticas à condenação carente de provas, Moro argumenta que não pode prender-se à formalidade da ação julgada. Não é, de fato, um argumento desprezível. Se o fizesse, diz ele, caberia absolver Eduardo Cunha, "pois ele também afirmava que não era titular das contas no exterior" que guardavam "vantagem indevida".
A igualdade das condutas de Cunha e Lula não existe. Moro apela ao que não procede. E permite a dedução de que o faça de modo consciente: tanto diz que Eduardo Cunha negava a posse das contas, como em seguida relembra que ele se dizia "usufrutuário em vida" do dinheiro. Se podia desfrutá-lo ("em vida", não quando morto), estava dizendo ser dinheiro seu ou também seu. Simples questão de pudor, talvez, comum nos recatados em questões de vis milhões. Moro não indica, porém, uma só ocasião em que Lula tenha admitido, mesmo por tabela, o que o juiz lhe atribui e condena.
Diferença a mais, os procuradores e o juiz receberam comprovação documental de contas de Eduardo Cunha. O insucesso na busca de documento ou outra prova que contrarie Lula, apesar dos esforços legítimos ou não para obtê-la, é o que leva os procuradores e Moro ao descontrole das argumentações. E a priorizar o desejado contra a confiabilidade. Vêm as críticas, e eles redobram as ansiedades.
É o próprio Moro a escrever: "Em casos de lavagem, o que importa é a realidade dos fatos, segundo as provas e não a mera aparência". Pois é. Estamos todos de acordo com tal conceituação. Nós outros, cá de fora, em grande medida vamos ainda mais longe, aplicando a mesma regra não só a lavagens, sejam do que forem, mas a uma infinidade de coisas. E muitos pudemos concluir que, se o importante para Moro é a realidade "segundo as provas e não a mera aparência", então, lá no fundo, está absolvendo Lula. Porque o apartamento pode até ser de Lula, mas ainda não há provas. A Lava Jato e o juiz só dispõem da "mera aparência", o que Moro diz não prestar.
Já está muito repisado que delações servem para dar pistas, não como prova. Apesar disso, Moro dá valor especial a escapatório de Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, de que o apartamento saiu de uma conta-corrente da empreiteira com o PT. Convém lembrar, a propósito, que Pinheiro negou, mais de ano, a posse do apartamento por Lula. Em meado do ano passado, Pinheiro e Marcelo Odebrecht foram postos sob a ameaça, feita publicamente pela Lava Jato, de ficarem fora das delações premiadas, que em breve se encerrariam. Ambos sabiam o que era desejado. E começaram as negociações. Odebrecht apressou-se. Pinheiro resistiu até há pouco. A ameaça de passar a velhice na cadeia o vendeu.
Infundada, a igualdade de Eduardo Cunha e Lula passou de argumento a insulto. A rigor, assim era desde o início. E juiz que insulta uma das partes infringe a imparcialidade. Mostra-se parte também. 

Presidencialismo só é estável quando eleitor não tem informação


Pedro Ladeira-11.jul.2017/Folhapress
BRASILIA, DF, BRASIL, 11-07-2017, 22h00: O presidente Michel Temer faz pronunciamento sobre a aprovação da Reforma Trabalhista no Senado, no Palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER)
O presidente Michel Temer após pronunciamento sobre a aprovação da reforma trabalhista

Reza a lenda que o presidencialismo de coalizão é exemplo de estabilidade. Capaz de atravessar o fim da hiperinflação, dois impeachments e troca de governos, o modelo teria condições de resistir a grandes tempestades. Nessa visão, a crise atual combina recessão econômica, Lava Jato, incompetência de Dilma e denúncias contra Temer, mas passará.
A realidade, porém, é outra.
Nosso modelo de presidencialismo somente é sólido quando há em vigor uma condição muito peculiar: falta de informação pública a respeito de como Brasília realmente funciona.
A diferença, agora, é que a Lava Jato expôs como o Executivo forma sua maioria parlamentar. A operação revelou que o sistema é tão difícil de operar que não basta à Presidência da República contar com todas as prerrogativas excepcionais da Constituição de 1988.
Mesmo gozando do mais possante arsenal de medidas provisórias, cargos públicos, ameaças de veto e balcão de emendas, um presidente brasileiro só consegue governar distribuindo oportunidades de negócios aos partidos que o apoiam e cultivando uma elite empresarial que vive de trocar privilégios por financiamento de campanha e pagamento de propinas à base aliada. Para governar, nossos presidentes são obrigados a transformar o Planalto no QG da falcatrua, recebendo empresários sedentos por facilidades e distribuindo "boquinhas" aos partidos.
Nesse esquema sujo, os presidentes também precisam assegurar a anuência das instituições de controle. Fazem isso nomeando aliados para o STF, o TSE, o TCU, as unidades de fiscalização de ministérios como Agricultura e Saúde e tantas outras agências regulatórias. Responsáveis por limitar o poder do Executivo, tais instituições controlam pouco e controlam mal, caindo também na lama. A dinâmica repete-se em nível estadual, como se vê em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
A instabilidade não é inerente ao presidencialismo de coalizão, mas é a tônica quando a opinião pública e o eleitorado possuem amplo acesso à informação. Trata-se de um modelo que, para funcionar bem, demanda um véu de ignorância.
O problema é ainda mais grave quando o governo de plantão não conta com um boom de commodities para anestesiar os cidadãos. Por isso, nas circunstâncias atuais, não há frente de concertação nacional capaz de garantir governança estável. Bastou retirar o tapume que protegia o presidencialismo de coalizão do escrutínio público para sua fragilidade ficar exposta, sem importar quem ocupa a cadeira —Temer, Alckmin, Bolsonaro, Ciro, Doria, Marina ou Lula. O resultado é instabilidade e incerteza.
Trocar esse sistema por outro será difícil porque não há alternativa óbvia, mas chegou a hora de começarmos a explorar. 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Juízes tidos como rigorosos têm alto conceito, mas são péssimos

É mais fácil encontrar fora dos autos e da sentença os motivos da condenação de Lula do que achá-los ali, convincentes e provados como pedem as condenações e a ideia de justiça.
No mesmo dia e com diferença de poucas horas, o comentário suficiente sobre a condenação teve a originalidade, por certo involuntária, de antecipar-se à divulgação da sentença por Sergio Moro. E nem sequer lhe fez menção direta.
Procurador federal como os da Lava Jato, mas lotado em Brasília, Ivan Cláudio Marx escreveu em parecer referente ao ex-senador e delator Delcídio do Amaral: "Não se pode olvidar o interesse do delator em encontrar fatos que lhe permitissem delatar terceiros, e dentre esses especialmente o ex-presidente Lula, como forma de aumentar seu poder de barganha ante a Procuradoria-Geral da República no seu acordo de delação".
Não precisaria ser mais explícito na indicação de que acusar Lula tem proporcionado reconhecimento especial na Lava Jato, traduzido em maior "poder de barganha" para alcançar maiores "prêmios" –saída da cadeia, penas quase fictícias, guarda de dinheiro e de bens adquiridos em crimes (com Joesley Batista, a premiação progrediu para imunidade contra processos judiciais, o que nem presidente da República recebeu da Constituição).
O procurador quis, porém, precisar sua constatação: "Não se está aqui ressaltando a responsabilidade ou não do ex-presidente Lula naquele processo [alegada tentativa de obstrução da Justiça], mas apenas demonstrando o quanto a citação do seu nome, ainda que desprovida de provas em determinados casos, pode ter importado para o fechamento do acordo de Delcídio do Amaral, inclusive no que se refere à amplitude dos benefícios recebidos".
O objetivo e a valorização de acusações a Lula, "ainda que desprovidas de provas", não podiam ser gratuitos, nem precisam de mais considerações agora. Basta, a respeito, observar que determinadas pessoas e entidades foram alvos por iniciativa da Lava Jato, desde o começo proveniente de uma investigação que deveria ser, e nunca foi, sobre rede de doleiros. Só bem mais tarde, outras pessoas e entidades foram incluídas nos alvos da Lava Jato, mas por força de circunstâncias delatoras e ocasionais.
Na eventualidade de recurso contra a condenação, a defesa de Lula precisa dirigir-se ao tribunal da 4ª Região, em Porto Alegre. Ali já houve reconsiderações do decidido por Moro, como a recente absolvição do petista João Vaccari em um dos seus processos. Mas a maioria dos recursos é derrotada, tendo os julgadores da oitava turma o conceito de "juízes duros, muito rigorosos". Já por ser no Rio Grande do Sul, como seria nos outros dois Estados sulinos, muitas defesas costumam temer propensões conservadoras, ou à direita, no trato dos recursos.
Juízes tidos como rigorosos têm alto conceito na imprensa, e daí em geral. São péssimos. Assim como seus opostos. Juízes de verdade não são rigorosos nem complacentes: são equilibrados –uma raridade, talvez. Como sabem Moro, por certa ordem de motivos, e Ivan Cláudio Marx, por outra.

Presidencialismo fracassou e enquista o Brasil no atraso

O presidencialismo da Nova República fracassou.
condenação de Lula à prisão apenas ilustra o ponto. Nestes 30 anos, todos os presidentes eleitos terminaram às voltas com a Justiça. Os únicos que podem dormir em paz agora são FHC e Sarney, salvos de um julgamento por causa da avançada idade e por terem tido a sorte de governar o país quando os "engavetadores da República" de plantão ainda tinham capacidade de oferecer proteção.
A podridão engendrada pelo sistema político nestes anos não para por aí. Também estão encalacrados todos os políticos que, sem alcançar a Presidência, chegaram ao segundo turno (Serra, Alckmin e Aécio). Ainda pertencem a esse grupo vários governadores e quase um terço dos parlamentares no Congresso Nacional.
Isso ocorre porque a Nova República inventou uma fórmula perversa para gerir a relação entre os Poderes Executivo e Legislativo. Em nosso sistema, o presidente não possui maioria parlamentar. Para governar, ele precisa montar uma "base aliada" de deputados e senadores. Estes, por sua vez, apoiam o presidente em troca de nacos do orçamento e de indicações para cargos públicos por onde passam licitações polpudas.
Nada nesse sistema garante que a relação entre Executivo e Legislativo produza bens públicos para a maioria do eleitorado (hospitais decentes, boas escolas e transporte público eficiente, por exemplo). Ao contrário, as regras do jogo de nosso presidencialismo fazem com que a sociedade inteira fique rendida diante de um conjunto de grupos de interesse fortes o suficiente para tirar vantagem da necessidade que o presidente tem de garantir apoio da base.
Quem ganha com isso? O cartel das empreiteiras como a Odebrecht, o grupo de empresários como Joesley Batista, os sindicalistas que cobram pedágio para parar greves e o lobby dos seguros de saúde.
Nesse sistema, o Palácio do Planalto é o QG dos interesses particularistas. Ali são distribuídos cargos de confiança a peso de ouro. Dali arma-se a arapuca para influenciar a cúpula do Judiciário e limitar os danos provocados pelas instituições de controle.
Dono da caneta que autoriza o troca-troca, o presidente vira arrecadador-chefe para as campanhas de seus aliados. O contato com grandes empresários é dele, seja à luz do dia ou na calada da noite.
Como o jogo é sujo, o próprio presidente se encharca na lama: nesses 30 anos, nossos mandatários alopraram com jatinhos, apartamentos, chácaras, reformas da casa da sogra, empregos para os filhos, mesadas para irmãos, malas de dinheiro e cabeleireiros de renome.
São as nossas instituições que enquistam o Brasil no atraso. 

Um petardo contra Lula

BRASÍLIA - Nunca antes neste país um presidente foi condenado por crime comum. A decisão do juiz Sergio Moro é um novo e poderoso petardo contra a imagem de Lula. A biografia do ex-operário que venceu a miséria e subiu a rampa do Planalto passa a incluir uma sentença a nove anos e meio de prisão.
A condenação amplia o desgaste do petista. Lula deixou o poder com 83% de aprovação. Hoje quase metade da população o rejeita. O ex-presidente ainda é o líder mais popular do Brasil, mas a aura de mito se desmancha. Ele colaborou com isso ao se aliar a setores atrasados da política e abraçar o velho padrão de relacionamento com as empreiteiras.
A sentença aumenta a incerteza sobre as eleições de 2018. Apesar do cerco judicial, o ex-presidente havia voltado a crescer nas pesquisas. Hoje ele lidera com folga todas as simulações, com 30% das intenções de voto. Se a condenação for confirmada em segunda instância, a lei da Ficha Limpa deve impedi-lo de concorrer.
O cenário sem Lula é desalentador para a esquerda. O PT não tem outro candidato viável, e Ciro Gomes enfrenta desconfiança pelo histórico de vaivém partidário. Marina Silva poderia ocupar o espaço vazio, mas seu apoio a Aécio Neves em 2014 tende a afastar os órfãos do lulismo.
À direita, João Doria e Jair Bolsonaro tentam tirar proveito político da condenação. Eles comemoraram a notícia nas redes, mas ainda serão cobrados pelo silêncio sobre aliados acusados de corrupção.
A Lula, resta esperar a Justiça e repetir que querem barrá-lo no tapetão. Seu discurso ganhou um reforço inesperado nesta quarta. No mesmo dia em que Moro o condenou, outro juiz tirou da cadeia Geddel Vieira Lima, um dos homens de Michel Temer apanhados pela Lava Jato.
*
O presidente Temer é "correto", "decente" e "honesto". Palavras de Paulo Maluf na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. 

Lula condenado

Dadas as dimensões do personagem, nunca se limitarão aos aspectos meramente jurídicos a análise e a repercussão da sentença que condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a nove anos e seis meses de prisão.
Em nada surpreendente, a decisão do juiz federal Sergio Moro se reveste de inevitável simbolismo —ainda que as questões referentes à posse de um apartamento tríplex no litoral paulista pareçam minudências diante do oceano de evidências de corrupção bilionária na administração petista.
A esta altura, só grupelhos fanáticos ou militantes profissionais negarão a sangria descomunal de recursos da Petrobras —que não se daria em tal escala sem a conivência do primeiro escalão do Executivo— e a sem-cerimônia com que Lula manteve relações com as empreiteiras do esquema.
Do escândalo à vista de todos até a caracterização jurídica de um crime e dos criminosos há, decerto, um percurso sujeito à controvérsia.
No caso em tela, Moro julgou que o cacique petista recebeu propina da construtora OAS na forma do imóvel em Guarujá e das "custosas reformas" nele realizadas. Nesse sentido, o juiz lista o que entende serem provas documentais de que o apartamento destinava-se a Lula, embora tenha permanecido em nome da empresa.
Mas não só: para que tenha havido corrupção passiva, deve-se demonstrar que o presente foi contrapartida a benefícios oferecidos à OAS no governo do ex-presidente.
"Não há no álibi do acusado", diz a sentença, "o apontamento de uma causa lícita para a concessão a ele de tais benefícios materiais". Logo, conclui-se, a "explicação única" para a transação seria acerto relativo a contratos da construtora com a Petrobras.
Descortina-se agora um período de incerteza até que o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), em Porto Alegre, confirme ou reveja a decisão de Moro.
Na primeira hipótese, Lula, primeiro colocado em intenções de voto no pleito presidencial de 2018, deverá ser preso e, mais certamente, tornado inelegível —isso, claro, se o julgamento na segunda instância ocorrer em tempo hábil.
Réu em outras quatro ações penais, líder também entre os rejeitados pelos eleitores, o petista se dedica à pregação farsesca de que seria vítima de perseguição política. Por disparatada que seja tal retórica, seu partido ainda dispõe de força para reverberá-la com o objetivo de pressionar os tribunais.
O TRF-4 conquistou reputação de rigor e independência; na Lava Jato, tanto já elevou quanto anulou penas impostas por Moro.
Com o conhecimento acumulado nos processos relativos à corrupção na Petrobras, é razoável que possa conferir maior celeridade à análise do caso de Lula. E, sobretudo, desejável: quanto antes a Justiça acertar as contas com o ex-presidente, melhor para todos.

terça-feira, 4 de julho de 2017

A incontinência de Trump



Carlo Allegri/Reuters
FILE PHOTO: Republican U.S. presidential candidate Donald Trump speaks at the Republican U.S. presidential candidates debate sponsored by CNN at the University of Miami in Miami, Florida March 10, 2016. REUTERS/Carlo Allegri/File Photo ORG XMIT: TOR502
O presidente americano, Donald Trump

Vítima de incontinência verbal crônica, o presidente dos EUA, Donald Trump, já foi aconselhado por seus correligionários republicanos a evitar manifestações irrefletidas. Declarações estridentes do mandatário, de fato, já se voltaram contra ele e contribuíram para gerar ou agravar turbulências políticas.
As recomendações, embora sensatas, não têm surtido o efeito esperado. Na quinta-feira (29), por exemplo, um novo ataque do presidente norte-americano a dois jornalistas da rede de TV MSNBC causou revolta e provocou reações de repúdio entre setores variados, inclusive de seu próprio partido.
O comentário de Trump veio logo depois de Mika Brzezinski, âncora do programa "Morning Joe" ao lado de Joe Scarborough, dizer que o presidente mentira ao se manifestar sobre uma reportagem do jornal "The New York Times". A jornalista foi chamada pela autoridade máxima do país de "louca de baixo QI", e o seu colega, de "psicótico" (em tradução aproximada).
Trump disse ainda que recusou conceder uma entrevista aos dois apresentadores na época do Réveillon, em seu resort na Flórida, ocasião em que Brzezinski, segundo ele, "sangrava horrores" por causa de uma operação plástica no rosto.
O insulto serviu para reavivar o histórico de manifestações sexistas de Trump, que já havia, na campanha eleitoral para a Presidência da República, dirigido-se de maneira imprópria a Megyn Kelly, então âncora da rede Fox News.
Após participar de um debate mediado por Kelly, o republicano sugeriu que ela o teria confrontado de modo mais assertivo por estar em momento de TPM (tensão pré-menstrual).
Em grande parte, os vitupérios de líder americano têm como alvo a imprensa ou jornalistas que o tratam de maneira crítica.
Os ataques aos jornais "The New York Times" e "The Washington Post" e às redes de TV CNN e MSNBC, que fazem oposição mais sistemática a seu comportamento, recrudesceram depois da eleição, em contraste com a expectativa de que o exercício do cargo de presidente da República levaria Trump a modular suas manifestações, tornando-as menos personalistas e mais institucionais.
No entanto, a aversão à crítica parece ser, além de traço de sua visão política populista e autoritária, uma característica pueril de sua personalidade.
As habituais reações desmesuradas do presidente transmitem a sensação de que falta a ele o indispensável equilíbrio para exercer função de tamanha responsabilidade no contexto global.

Ideologia nacional

Pouco mais de um ano depois que o PT foi substituído no poder federal por uma coalizão liderada pelo PMDB, hoje igualmente impopular, os brasileiros de novo se mostram divididos entre posições à esquerda e à direita.
Na mais recente pesquisa do Datafolha, nota-se oscilação rumo à primeira do pêndulo ideológico nacional, quando se comparam as preferências manifestadas agora com as de quase três anos atrás.
Em setembro de 2014, conforme os critérios do levantamento, 45% do eleitorado identificava-se com pontos de vista tidos em geral como mais conservadores, enquanto 35% apoiavam ideias comumente associadas ao campo oposto.
Agora, apurou-se um empate técnico —de 40% a 41%, respectivamente— que reproduz o equilíbrio observado em novembro de 2013, na primeira sondagem do tipo realizada pelo instituto.
Sempre haverá discordâncias, é claro, quanto à metodologia adotada em uma pesquisa como essa, baseada em questões sobre temas tão diversos quanto direitos trabalhistas, pena de morte, razões da pobreza e maioridade penal.
Muitos dos que se consideram de esquerda ou centro-esquerda, sem dúvida, discordarão de respostas atribuídas a esse lado do espectro político; o mesmo se dará no flanco direito.
Entretanto os dados não apenas revelam a evolução das opiniões nacionais como permitem identificar, com clareza, valores comuns à grande maioria.
Percebe-se, a esse respeito, um eleitorado mais conservador no que diz respeito a costumes (em tese, à direita) e defensor de um Estado forte na economia (posição associada à esquerda).
Os brasileiros exprimem, assim, boa dose de rejeição a teses liberais —em comportamento, por influência decisiva da religião (para 83%, acreditar em Deus torna as pessoas melhores), e, do lado econômico, das tradições intervencionistas (para 76%, o governo deve ser o maior responsável pela promoção da prosperidade).
Há, decerto, contradições aqui e ali. É notável, por exemplo, a crescente aceitação dos homossexuais, defendida por 74%, ante 64% três anos atrás. O estatismo tampouco impede que 51% desejem pagar menos impostos e contratar saúde e educação privadas.
No entanto, acima da dicotomia direita-esquerda, cujos contornos não se afiguram tão nítidos no Brasil, prevalecem a crença no governo, depositário das esperanças nacionais, e a moral cristã.
Com raízes que remontam ao surgimento da nação, tais valores não são imutáveis, mas ainda parecem os guias mais genuínos do que seria uma ideologia brasileira.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Esfarelando, governo Temer produziu três grandes vexames em dez dias

Se Michel Temer tivesse renunciado, em maio ou quando Fernando Henrique Cardoso sugeriu-lhe esse caminho, não entraria para a história como o primeiro presidente acusado de corrupção pela Procuradoria-Geral da República. Sua persistência tem um aspecto pessoal, a defesa da própria biografia. As consequências públicas dessa decisão têm sido a mobilização de uma tropa de choque e o esfarelamento do governo, colocando em risco o que resta do Poder Executivo.
Temer diz que é acossado por uma "infâmia" e que "nada nos destruirá", mas está se destruindo com lambanças e empulhações. Nada a ver com o relatório da Polícia Federal e a denuncia do procurador Rodrigo Janot. Em apenas dez dias, a gestão tabajara produziu três ruínas.
A máquina do Itamaraty sabe que Brasília tornou-se uma escala maldita. A chanceler alemã Angela Merkel foi à Argentina e não parou no caminho, nem para reabastecer. Mesmo assim, Temer resolveu mostrar desembaraço internacional e viajou para a Rússia e para a Noruega. A perna norueguesa, indo a uma nação de militância ambientalista, foi coisa de amador.
O vexame de presenciar o corte de 50% da contribuição norueguesa para o Fundo Amazônia veio dos números de desmatamento. Bem outra coisa foi o carão da primeira-ministra Erna Solberg: "Estamos preocupados com o processo da Lava Jato, esperamos uma limpeza e que sejam encontradas boas soluções". Limpeza, tudo bem, mas não ficou claro o que a senhora entende por "boas soluções". Pelo menos duas empresas norueguesas entraram na farra das sondas marítimas da Petrobras.
Em 2012, a Odfjell assinou um contrato com a Sete Brasil pelo qual ela pagava academias de ginástica para os noruegueses e escolas para seus filhos. Esses pixulecos, estendidos a todos os sócios da Sete Brasil, custaram-lhe US$ 50 milhões em 2013. Além disso, não era necessário ser um gênio para perceber que as sondas estavam com preços acima do mercado e que a Sete Brasil era uma fantasia de petistas e larápios.
Madame Solberg poderia ter ouvido da comitiva de Temer que uma parte da limpeza poderia ser feita no seu quintal. O ministro Antônio Imbassahy, da Secretaria de Governo, respondeu como a humildade dos colonizados: "É o pensamento dela. Nós respeitamos".
O que Imbassahy tinha a ver com a viagem, não se sabe. Com ele estava Paulo Bauer, líder do PSDB no Senado. Enquanto eles flanavam, o projeto de reforma trabalhista do governo foi rejeitado numa comissão da Casa.
A PF e Rodrigo Janot também não tiveram participação no lance do Gabinete de Segurança Institucional que identificou nominalmente o chefe do escritório da Central Intelligence Agency em Brasília. Muito menos com a explicação oferecida aos brasileiros.
Esses vexames foram produzidos por uma Presidência que, ao longo desses mesmos dez dias, foi bem avaliada por apenas 7% dos entrevistados pelo Datafolha. De quebra, o governo americano proibiu a importação de carne fresca brasileira.
Coisas da vida, mas até a sorte tem faltado a Temer. A Força Aérea Brasileira interceptou um bimotor que carregava 500 quilos de cocaína e o traficante tinha um plano de voo falso informando que decolara de uma das muitas fazendas da empresa de Blairo Maggi, o bilionário ministro da Agricultura. Ele pretende voar para Washington, onde discutirá o veto à carne. 

A ficção de Temer

BRASÍLIA - Michel Temer recorreu a um truque antigo para reagir à denúncia por suposta prática de corrupção. Em vez de se defender, o presidente atacou o acusador. Ele subiu o tom contra o procurador-geral da República e classificou a peça entregue ao Supremo como "uma ficção".
A denúncia tem fragilidades, mas é Temer quem parece ter abandonado qualquer compromisso com os fatos. Nesta terça, ele começou o discursoagradecendo o "apoio extremamente espontâneo" dos parlamentares que estavam no Planalto. A tropa havia sido convocada minutos antes, em mensagens disparadas por celular.
O presidente apresentou duas versões distintas para a encrenca em que se meteu. Primeiro insinuou, sem apresentar provas, que o procurador Rodrigo Janot teria recebido propina para denunciá-lo. Depois disse que o dono da JBS o acusou no "desespero de se safar da cadeia".
Temer cometeu erros surpreendentes para quem se gaba de conhecer as leis. Chamou o áudio de Joesley Batista de "prova ilícita", apesar de o STF já ter autorizado o uso de conversas gravadas por um dos participantes. E acusou um ex-assessor de Janot de violar a quarentena, regra que inexiste para procuradores.
O presidente pareceu indeciso sobre o que pensa do empresário que o acusou. Ao justificar o encontro noturno no Jaburu, exaltou Joesley como o "maior produtor de proteína animal do país". Ao rebater a delação, voltou a chamá-lo de "bandido".
Numa tentativa de demonstrar que terá apoio para barrar a denúncia na Câmara, o presidente se cercou de deputados ao discursar. Pode ter sido uma ideia razoável, mas ele cochilou na seleção do elenco.
Do seu lado direito estava André Moura, réu em três ações penais e investigado por suspeita de homicídio. Do esquerdo, Raquel Muniz, mulher de um ex-prefeito preso sob acusação de corrupção. Logo atrás dela despontava Júlio Lopes, delatado na Lava Jato e citado nas investigações do esquema de Sérgio Cabral. 

A agonia de Temer

Se não acrescentou ao caso elementos essenciais que já não pertencessem ao conhecimento público, a denúncia formulada contra o presidente Michel Temer (PMDB) ampara-se em fatos graves o bastante para desacreditar o governo.
peça acusatória, apresentada pela Procuradoria-Geral da República, descreve um roteiro plausível para o crime de corrupção passiva no exercício do mandato.
Parte-se do fatídico encontro entre Temer e Joesley Batista, da JBS, em 7 de março. Em trecho truncado da gravação do diálogo, o presidente indica ao empresário um auxiliar de confiança, Rodrigo Rocha Loures; este, em 28 de abril, foi flagrado recebendo de um emissário da JBS mala com R$ 500 mil.
Entre uma data e outra, Loures assumiu um mandato de deputado federal (era suplente), manteve contatos com Batista e, conforme apuração policial, procurou ao menos um órgão público para tratar de interesses do frigorífico.
Embora não haja comprovação cabal de que Loures agia com conhecimento —e, mais ainda, em benefício— do presidente, a desenvoltura do ex-assessor do Planalto, registrada em conversas gravadas, em nada se assemelha à de alguém com mero acesso formal ao chefe.
A despeito de pronunciamentos veementes, Temer até agora não ofereceu explicações satisfatórias para os episódios. Nesta terça (27), voltou-se contra seu acusador, Rodrigo Janot, mencionando um procurador que deixou o posto para atuar em escritório de advocacia contratado pela JBS.
Na situação inédita de um presidente acusado formalmente de corrupção no exercício do cargo, o país está mergulhado em impasse de desfecho imprevisível.
Esta Folha já havia proposto a renúncia conjunta de Dilma Rousseff (PT) e Temer, seguida de eleições diretas, como solução adequada para devolver legitimidade ao governo. Mais recentemente, defendeu-se aqui a cassação daquela chapa, diante das múltiplas evidências de abuso de poder econômico no pleito de 2014.
As melhores oportunidades para a superação da crise, infelizmente, ficaram para trás. Resta agora avaliar de maneira realista o panorama que se descortina.
Há dúvidas políticas e jurídicas em torno de um eventual processo por crime comum. Nem mesmo existe certeza se o prazo constitucional de seis meses é suficiente para um julgamento pelo Supremo Tribunal Federal —em caso contrário, ocorreria um retorno vexatório do acusado ao posto.
A aceitação da denúncia pela Câmara dos Deputados, de todo modo, mostra-se a hipótese menos provável hoje. Ao presidente basta evitar que se forme uma esmagadora maioria de dois terços da Casa legislativa contra si.
O núcleo palaciano tentará demonstrar a capacidade de gerir a economia e aprovar reformas mesmo sob denúncias, suspeitas e impopularidade acachapante —cenário no qual se apresentaria como uma espécie de mal menor.
Tal aposta, de fato a única restante a Temer, dificilmente evitará, entretanto, que o governo se arraste como um morto-vivo pelos 18 longos meses ainda pela frente.

domingo, 25 de junho de 2017

GERMINAL (FILME)

João Luís de Almeida Machado é consultor em Educação e Inovação, Doutor e Mestre em Educação, historiador, pesquisador e escritor.
Germinal - 
Trabalhadores despertos

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Muitas-pessoas-juntas
O título do livro e do filme nos confunde um pouco e, se não estivermos a par da temática da obra de Émile Zola, que deu origem ao filme de Claude Berri, podemos passar por esse filme na locadora sem percebê-lo e sem dar a ele o devido valor. Não nos enganemos, essa produção do cinema francês merece ser vista e apreciada tanto pelos amantes da sétima arte quanto pelos estudiosos da literatura, da história, das relações humanas e dos movimentos de trabalhadores.
"Germinal" refere-se ao processo de gestação e maturação de movimentos grevistas e de uma atitude mais ofensiva por parte dos trabalhadores das minas de carvão do século XIX na França em relação à exploração de seus patrões; nesse período alguns países passavam a integrar o seleto conjunto de nações industrializadas ao lado da pioneira Inglaterra, entre os quais a França, palco das ações descritas no romance e representadas no filme.
A forma contundente como as ações ocorrem no filme tornam a crueza dos acontecimentos extremamente chocante para os espectadores, no entanto, esse discurso um tanto quanto agressivo por parte do diretor Berri tem o firme propósito de conclamar os espíritos da audiência e chamar a atenção para as dificuldades e a rudeza do mundo operário do século XIX.
Vilipendiado, roubado, esgotado, trabalhando em condições totalmente impróprias, inseguro, sujeito a acidentes que podem ceifar-lhe a vida ou decepar-lhe um braço ou uma perna, assim nos é mostrado o proletariado francês nas telas. Inserido na escuridão das minas de carvão, sujo, cumprindo jornadas de 14, 15 ou 16 horas, recebendo salários baixíssimos e tendo que ver sua família toda se encaminhar para o mesmo tipo de trabalho e péssimas condições, pouco resta aos trabalhadores senão a luta contra aquelesque os oprimem.
A obra literária é do período que marca o surgimento da Internacional Comunista, por isso há menções a Marx e Engels e também ao anarquismo (um dos personagens centrais da trama assume o discurso dos pensadores que propuseram o anarquismo até as últimas conseqüências, mesmo tendo em vista as desgraças que isso poderia causar naquele contexto específico).

Cena-do-filme

Um trabalho paralelo envolvendo a leitura de trechos selecionados do livro sendo monitorado pelos professores da área de literatura, acompanhado por uma passagem em filosofia pelas obras dos intelectuais que abordaram os temas das lutas de classes e uma elucidativa aula sobre as condições em que se desenvolveu o movimento trabalhista ao longo do século XIX na Europa por parte do professor de história fariam com que a compreensão do filme e, conseqüentemente, do fenômeno da confrontação entre patrões e empregados fosse melhor assimilada pelos estudantes.
A história do filme gira em torno de uma família, que se encontra nas mencionadas condições de miséria e penúria listadas nos parágrafos anteriores, o chefe dessa família, vivido pelo grandalhão Gerárd Depárdieu (considerado um dos melhores atores franceses de todos os tempos, que também trabalhou em outros importantes filmes com temática histórica como "Danton - o processo da revolução" e "1492 - A Conquista do Paraíso") se vê então obrigado a tomar providências e para isso é estimulado pela chegada de um novo operário, que já possui vivência em termos de criação e fomentação de movimentos reivindicatórios. O primeiro passo dessa dupla passa a ser, então, criar condições de sobrevivência para os trabalhadores tendo-se em vista que uma greve poderia se prolongar por um longo período de tempo, por isso, criam uma caixa de resistência, com a qual todos os operários deveriam contribuir. A diminuição dos salários e o pouco caso dos patrões em relação à segurança e a saúde dos trabalhadores aumenta ainda mais as tensões.
Paralelamente a história dos trabalhadores podemos acompanhar a burguesia e seu cotidiano de brioches, grandes refeições, luxuosas residências e total descaso em relação ao mundo que existe além dos seus portões.
O contraste também é proposital, tem por objetivo acirrar os ânimos de quem assiste e fazer com que as pessoas tomem partido (obviamente dos trabalhadores), por isso, deve-se destacar quando se trabalhar esse filme, a questão ideológica. Como obra que procurou ser fiel aos acontecimentos do período em que foi escrita, a perspectiva para os operários não é das melhores.

Cena-do-filme

Uma boa reprodução de época, acompanhada por atuações convincentes, a escolha acertada das locações onde o filme foi produzido e a excelente trama que se desenvolve paralelamente as disputas entre burgueses e trabalhadores tornam o filme uma ótima pedida para facilitar o estudo dessa difícil e complicada questão. Assistam!

Ficha Técnica:
País/Ano de produção:- França, 1993
Duração/Gênero:- 158 min., drama
Disponível em vídeo
Direção deClaude Berri
Elenco:- Gerárd Depárdieu, Miou-Miou, Jean Carmet, Renaud, Jean-Roger Milo.
Link:

Daens: um grito de justiça


O filme Daens: um grito de justiça demonstra de maneira crítica e emocionante a deplorável condição de vida e trabalho da população de Aalst, uma pequena cidade da Bélgica. A história decorre durante a última década do século XIX enfatizando o contexto sociopolítico socioeconômico desse período que é marcado pela Revolução Industrial. Neste marco da história mundial o capitalismo industrial já se consolidara como modo de produção vigente na ordem social e continuava a sua marcha expansionista explorando de forma cada vez mais intensa a força de trabalho dos operários. Os operários de uma indústria têxtil da cidade de Aalst viviam em condições subumanas, suas residências não possuíam nem um tipo de saneamento básico, além de não possuírem uma estrutura física adequada para sobreviverem com dignidade.
Os capitalistas industriais, por outro lado, desfrutavam suntuosidade a custa da exploração da mão de obra dos operários assalariados que eram intensamente explorados dentro das unidades fabris durante o processo de produção. Seus salários eram reduzidos por conta da ambição exacerbada dos capitalistas que eram movidos pelo ardente desejo de acumular cada vez mais riqueza através da obtenção de lucros, para isso, portanto, reduziam a valores abaixo da média os salários dos operários. A jornada de trabalho chegava, não raras vezes, há 16 horas diárias, o que debilitava o estado de saúde dos trabalhadores. Não satisfeitos com os lucros que recebiam mediante a implementação da mais valia absoluta, os capitalistas passaram a introduzir a mão de obra de mulheres e crianças ao processo produtivo, já que era uma forma inovadora de lucrar, pois tais forças produtivas aumentavam os lucros capitalistas, uma vez que eram mal remuneradas. Mulheres eram frequentemente abusadas sexualmente pelos capatazes e pelos próprios homens companheiros de trabalho. Jovens e crianças constantemente se acidentavam ao manusear as máquinas, pois não tinham as mesmas habilidades dos adultos. Muitos acidentes eram fatais, o que aumentava significativamente os níveis de mortalidade nas unidades de produção.
O padre Adolf Daens começa a criticar as relações sociais de produção capitalistas através da publicação de artigos nos jornais católicos. Adquiriu, desta forma, admiráveis amigos e indesejáveis inimigos. Passou a ser perseguido pelos industriais que o viam como uma ameaça ao sistema por eles instaurado na ordem social. Além disso, também foi alertado pela a Igreja Católica sobre suas atitudes que, segundo os cardeais, estavam causando um caos social.
O povo passou a apoiá-lo com unhas e dentes como se ele fosse o messias tanto esperado para salvá-lo das garras do capitalismo. Foi eleito pelo povo de Aalst o primeiro deputado do Parlamento a representar as causas da classe trabalhadora.
A morte de uma criança na fábrica foi o estopim para a mobilização e organização dos trabalhadores que lutavam com afinco a favor da instauração de uma nova ordem social em que não houvesse divisão de classes, exploração do trabalho e acumulação da riqueza em consequência da generalização da pobreza.
O padre Daens foi duramente reprimido pela Igreja Católica que o acusava de incitar a violência entre as classes sociais. Mas, fica a indagação que não quer calar: existe violência maior do que a cometida pelos capitalistas contra os operários? Como se pode notar no filme, o trabalho de crianças, mulheres, homens e jovens era rigidamente vigiado e controlado. Crianças morriam de fome e frio, pois não possuíam o mesmo conforto da elite, ou melhor, não possuíam ao mínimo uma casa com condições favoráveis para se viver. Aliás, famílias inteiras morriam de fome e inanição por não possuírem condições financeiras o suficiente para suprir sequer suas necessidades básicas humanas. Será que isso não é considerado pela Igreja Católica violência contra a raça humana? Todas as atrocidades que o sistema capitalista cometeu e ainda continua cometendo contra a classe trabalhadora a ele submetida, são os piores crimes já praticados contra a espécie humana durante toda a história da humanidade. Ao invés de agir a favor dos operários a Igreja Católica se alia a classe dominante, ou seja, a burguesia visando combater o socialismo - que defendia o estabelecimento de uma sociedade sem classes, sem exploração de uns sobre outros e onde a riqueza socialmente produzida pertença a todos - e, sobretudo, manter seu domínio enquanto religião ideologicamente hegemônica. A doutrina social da Igreja foi amplamente difundida através da encíclica papal Rerum Novarum, a qual pregava a harmonia entre as classes fundamentais do modo de produção capitalista: burguesia, dominante, e operária, dominada. Defendia, além disso, a propriedade privada de bens, afinal possuía grandes latifúndios desde o feudalismo e visualizava a reforma social como uma ameaça ao seu poderio e controle social sobre as massas.

Autor: Marcondes Torres.

Homens ainda são minoria entre professores de creche e pré-escola

Presença masculina na educação infantil cresceu nos últimos anos, mas segue pequena; profissionais relatam preconceito
Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo
14 Junho 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Há dez anos, o primeiro dia de aula é sempre igual para o professor José Tiago França. Os pais chegam para deixar seus filhos na escola e estranham que será um homem o responsável pela educação e os cuidados com as crianças de 2 anos. Apesar de ter crescido a presença masculina entre professores de creche e de pré-escola (de zero a 5 anos), ela ainda é bem pequena. Em todo o País, dos mais de 575 mil docentes dessa etapa, apenas 3,7% são homens - há sete anos, eram 2,8% do total, segundo o Censo Escolar.

“Meu primeiro contato em sala foi surreal. As mães chegaram às 7 horas e, quando me viram, vieram todas juntas perguntar se era eu o professor. Para elas, era muito estranho ter um homem cuidando de bebês”, conta França, de 32 anos, que é hoje responsável por uma turma de crianças de 2 anos no Centro Social Marista Robru, em São Miguel Paulista, na zona leste da capital.

Segundo França, ainda hoje sua presença causa estranhamento, mas ele já se acostumou e aprendeu a lidar com a situação. “Na Pedagogia, dos 120 (alunos) da turma, havia apenas eu e outro homem. Isso nunca me incomodou porque tinha muita vontade de trabalhar com crianças. Mas sempre ouvi comentários preconceituosos, até mesmo de colegas de classe.”

A presença masculina nos cursos de Pedagogia também continua pequena. Jaime Fontes, de 32 anos, é um dos três homens de uma turma de 40 alunos do 2.º ano da graduação no Instituto Singularidades, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo.

“É uma questão cultural e esse padrão começa a ser rompido, mesmo que lentamente. É esperado que, se o homem quer ser professor, trabalhe com adolescentes ou procure cargos de chefia. Não acham que o homem possa cuidar de crianças”.

O professor do Colégio Ítalo-Brasileiro, Carlos Eduardo da Silva, tem 55 anos - 34 deles na educação infantil e nos anos iniciais do fundamental (1.º ao 5.º ano). Para ele, o preconceito se deve a uma visão equivocada dessas etapas de ensino. “O estranhamento ocorre, em parte, por acharem que, na creche ou pré-escola, a criança vai somente para ser cuidada e não para aprender. A outra parte é por acharem que só uma mulher sabe cuidar, ser carinhosa.”

Hoje, Silva é professor do 2.º ano (alunos de 7 anos) e diz que, a cada nova turma, conversa com os pais para ganhar a confiança. “Brinco muito com as crianças, pego no colo. Muita gente ainda estranha essa atitude vinda de um homem. Por isso, peço que, se alguém se incomodar, que me avise, porque eu respeitarei. Foram poucos os casos em que os pais pediram.”

Números
A participação dos homens no magistério é maior conforme o avanço das etapas de ensino. Segundo o Censo Escolar 2016, na creche (de 0 a 3 anos), eles somam 2,3% do total de docentes. Na pré-escola (4 e 5 anos), são 4,8 %. Nos anos iniciais do fundamental, a taxa é de 10,7% e nos finais (do 6.º ao 9.º ano) o índice salta para quase um terço (30,4%) do total.


O último estudo da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico(OCDE) mostrou que, dos 41 países analisados em 2015, 8 em cada 10 professores da pré-escola e dos anos iniciais do fundamental eram mulheres. O relatório diz que a atuação dos homens contribui para que as crianças desenvolvam uma identidade positiva sobre gênero.

Alunos do fundamental já migram mais para EJA do que os do ensino médio

Dados do Inep mostram que 2,7% dos estudantes - mais de 344,5 mil - saíram do ensino regular entre os anos de 2014 e 2015
Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo
21 Junho 2017 | 03h00


Mais alunos dos anos finais do ensino fundamental (do 6.º ao 9.º ano) migram para a Educação de Jovens e Adultos (EJA) do que os do ensino médio. Dados inéditos, divulgados nesta terça-feira, 20, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), mostram que 2,7% dos estudantes - mais de 344,5 mil - ainda no fundamental saíram do ensino regular entre os anos de 2014 e 2015. No ensino médio, a proporção é menor, de 1,9% - 157,7 mil dos alunos.

Para cursar a EJA, é preciso ter 15 anos completos para se matricular no ensino fundamental e 18 anos, para o ensino médio. Na maioria das escolas, essa etapa - que substituiu o supletivo - ocorre no período noturno e tem uma carga horária menor.

“São estudantes que foram reprovados muitas vezes já no início da educação básica e estão em defasagem. As escolas não conseguem lidar com as dificuldades, educacionais e sociais, e ele acaba indo para a EJA, o que é muito equivocado”, diz César Callegari, integrante do Conselho Nacional de Educação.

A procura pela EJA já no fundamental chega a 5% dos estudantes de Estados como Alagoas, Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte e Pará. Além dessa migração, nessa etapa o Brasil perde 5,4% dos alunos, que desistem de estudar. “Os números de jovens que deixam de estudar ou procuram a EJA já nessa etapa mostram um abismo. São jovens que não têm perspectiva de terminar nem o ensino médio. É uma situação enfrentada pela população mais pobre e que é naturalizada”, diz Priscila Cruz, diretora executiva do Movimento Todos pela Educação.

Os dados mostram que, no 6.º ano do fundamental (o primeiro da etapa), 14,4% dos estudantes são reprovados. O porcentual tem queda, mas volta a subir no 1.º ano do ensino médio, quando 15,2% reprovam.

Atenção

 “O País não dá atenção para os anos de transição entre etapas de ensino e o aluno sofre e leva essa defasagem para os demais anos”, disse Callegari.

Museu do Holocausto em Jerusalém busca nomes de vítimas do nazismo


FOLHA DE SÃO PAULO


"Yad Va-Shem": Memorial e nome. A designação oficial do Museu do Holocausto de Israel, tirado de uma passagem bíblica (Isaías 56:5), nunca teve tanto significado.
Pouco mais de sete décadas depois do fim do nazismo, o museu se esforça para compilar os nomes de todos os judeus mortos no genocídio e divulgar cartas ou documentos pessoais para o público. O objetivo é desviar a atenção da história mais crua de grupos de vítimas para a de relatos pessoais, humanizando o peso de um número: 6 milhões.
A preservação e divulgação da memória de cada uma das vítimas se tornaram um dos principais objetivos da instituição em meio ao gradual e inexorável desaparecimento dos últimos sobreviventes.
O principal esforço tem sido feito pelo Projeto de Recuperação de Nomes de Vítimas do Shoá –nome do Holocausto para os judeus–, iniciado há uma década e que ganhou força nos últimos anos.
"Quando não lembramos de toda e qualquer pessoa, o número de vítimas se torna algo sem sentido. Um morto, cinco mortos... Acaba se tornando igual", afirma Sara Berkowitz, diretora do projeto. "O que os nazistas queriam era justamente desumanizar suas vítimas, tirar suas identidades. Mas a memória as imortaliza."
Até 2005, o Hall dos Nomes do Yad Vashem tinha 3 milhões de nomes de vítimas. Agora, já contabiliza 4,7 milhões, um incremento que foi fruto, em parte, de uma busca proativa pelos mortos que nunca foram identificados.
O Projeto Nomes já conseguiu buscar e identificar mais de 800 mil nomes. Mas a expectativa é de que esse número cresça, já que apenas 50% dos dados compilados já foram classificados.
Segundo Sara Berkowitz, o esforço tem como motivação também a crescente onda de negação do Holocausto por antissemitas em geral.
Os novos dados ajudam a confirmar dados já conhecidos e rechaçar informações forjadas (em geral por neonazistas que tentam provar que o Yad Vashem é uma fraude).
"Muitas pessoas dizem: 'Os judeus estão exagerando quando falam em 6 milhões'. Mas, na minha opinião, podemos passar disso. A maioria dos nomes que ainda não sabemos é oriunda da Polônia e da Europa Oriental, principalmente países da antiga União Soviética. Lá, os nazistas e seus simpatizantes não mantinham listas organizadas. Eles chegavam a aldeias, colocavam todos os judeus em algum lugar e ateavam fogo, sem documentar nada", diz.
Quando foi criado, em 1953, o Yad Vashem apelou para que famílias dos sobreviventes preenchessem páginas de testemunho com nomes de seus familiares mortos em campos de concentração, guetos ou outros lugares.
Folha descobriu que a primeira página, datada de 1954, foi preenchida em português, por um morador de São Paulo, em nome da polonesa Ester Feigel Gotlieb, que morreu em 1943, nos crematórios de Auschwitz.
Divulgação
Primeira página do caderno de testemunho do Yad Vashem, em 1954, assinada por um brasileiro
Primeira página do caderno de testemunho do Yad Vashem, em 1954, assinada por um brasileiro
Esses formulários continuam a formar a base do banco de dados do museu. Hoje, no entanto, eles podem ser preenchidos pela internet –outro motivo para o aumento no número de nomes compilados. Essa opção tem causado uma revolução na participação ativa de sobreviventes e parentes dos mortos.
Mesmo assim, o museu decidiu investir no Projeto Nomes. Voluntários e funcionários passaram a procurar dados em cemitérios, sinagogas, cartas, diários e outras fontes. As comunidades mais visadas são as de judeus ultraortodoxos, que hesitam em contribuir com autoridades.
Seus líderes preferiram, nos últimos 70 anos, celebrar seus mortos em livros ou placas em sinagogas. Numa sinagoga em Jerusalém, por exemplo, foi encontrada uma árvore estilizada na qual cada "folha" leva o nome de uma vítima do Holocausto. Nenhum dos nomes estava listado no Yad Vashem.
Mas as maiores fontes são, sem dúvida, os cemitérios. As lápides judaicas contam histórias que, por vezes, impressionam até mesmo os profissionais do Yad Vashem.
Além da busca por nomes, o museu passou a utilizar a internet para expor documentos pessoais dos mortos, enfatizando o caráter humano das vítimas. Um dos projetos é o "Last letters" (últimas cartas), que mostra a última correspondência enviada por pessoas que, em seguida, morreram.
A exibição online conta, hoje, com dez cartas de 1941 (ano em que começou a chamada Solução Final, o extermínio sistemático de judeus) e dez cartas de 1942. São apenas alguns poucos exemplos das milhares de cartas dos arquivos do Yad Vashem.
"É uma perspectiva pessoal. Cada um tem sua caligrafia própria. Às vezes, dá para ver até as lágrimas no papel", afirma a curadora Yona Kobo. "Nosso objetivo é tirar as cartas do arquivo para que as pessoas as vejam, já que não podem vê-las fisicamente por causa das condições especiais de armazenamento. Queremos dar a essas pessoas nome, rosto, história."
Kobo conta que há muitas cartas escritas à beira da morte; mas, nelas, os autores não reclamam. "Só pedem que não se esqueçam delas. Nós não esquecemos." 

Temer unificou o Brasil

BRASÍLIA - No discurso de posse, Michel Temer prometeu "pacificar a nação e unificar o Brasil". O presidente unificou o país, mas não foi como ele gostaria. Oito em cada dez brasileiros defendem que o Congresso abra um processo para afastá-lo. Sua aprovação caiu a míseros 7%, o índice mais baixo em 28 anos.
O Datafolha deu números a um fenômeno visível a olho nu: o apoio a Temer derreteu. A rejeição ao peemedebista já supera as piores marcas de Collor e Dilma, que sofreram impeachment. Ele está próximo de igualar o recorde negativo de Sarney.
A impopularidade de Temer cresce à medida que a polícia flagra seus aliados com malas de dinheiro ou contas na Suíça. Em pouco mais de um ano, quase todos os articuladores do impeachment estão delatados ou na cadeia. "Quem não está preso está no palácio", resumiu o empresário Joesley Batista, um corruptor confesso que tinha passe livre no Jaburu.
A pesquisa mostra que a população despreza o delator, mas não caiu no truque de desqualificar a delação. Há um mês, Temer faz discursos indignados e diz que é vítima de armação. Não convenceu quase ninguém. Para 83%, ele teve participação direta no esquema de corrupção descoberto pela Lava Jato. Só 6% acreditam na inocência presidencial.
Os números encerram mais uma semana trágica para o governo. O presidente viajou numa tentativa de atrair investimentos e simular normalidade. Perdeu R$ 166 milhões do Fundo Amazônia, cometeu gafes em série e ouviu um sermão da premiê norueguesa contra a corrupção.
No Brasil, a crise se agravou. Temer perdeu umavotação importante no Congresso e foi esculhambado por um senador que se gabava de nomear até melancias em seu governo. Na sexta, a PF desmoralizou sua defesa ao atestar que a gravação de Joesley não sofreu edições. A semana que começa deve ser ainda pior. Nas próximas horas, a Procuradoria-Geral da República vai formalizar a primeira denúncia contra o presidente. 

Rejeição implacável

O veredito nada tem de judicial, mas Michel Temer (PMDB) foi condenado de modo implacável pela opinião pública no caso JBS.
Em pesquisa Datafolha, 83% dos brasileiros consideram, a partir da conversa gravada com o empresário Joesley Batista, que o peemedebista teve participação direta em esquemas de corrupção.
Para 76%, Temer deveria renunciar ao cargo. Míseros 7% aprovam sua administração, o menor percentual obtido por um presidente desde 1989, quando José Sarney governava sob uma hiperinflação.
Agudiza-se, dessa maneira, o descompasso entre as preferências da população e a conduta do sistema político, em sua maioria alinhado ao Palácio do Planalto.
Para além da impopularidade de Temer, o divórcio entre representantes e representados explica-se ainda por três anos de ruína econômica, além da exposição cotidiana de escândalos e demonstrações de cinismo por parte dos principais partidos do país.
É compreensível, portanto, a ampla rejeição à impunidade, que não se limita a governantes e parlamentares. Para 64% dos entrevistados pelo Datafolha, a Procuradoria-Geral da República agiu mal em seu generoso acordo de delação premiada com Joesley Batista; 81% defendem a prisão do empresário, corruptor confesso.
O desalento reflete-se na imagem que se tem do país. Na pesquisa, 47% dizem sentir mais vergonha do que orgulho de serem brasileiros (50% afirmam o oposto), maior taxa desde que a questão começou a ser apresentada, em 2000.
O presidente pode sobreviver à denúncia de corrupção passiva a ser apresentada, como se espera, pelo Ministério Público –afinal, ainda controla votos suficientes no Congresso para barrar processos que o afastariam do cargo.
O desacordo da aliança governista a respeito de sua sucessão contribui para a sustentação precária de seu governo, assim como o refluxo das manifestações populares.
Existem ainda temores de que uma nova troca de comando no Planalto dificultaria a recuperação da economia, cujos primeiros e tímidos sinais se fazem notar.
É incontestável, entretanto, que a maioria acachapante deseja outro governo –e é difícil imaginar que a permanência prolongada de taxas de impopularidade tão elevadas se dê sem consequências.
Fernando Collor (então PRN, hoje PTC) e Dilma Rousseff (PT), que amargaram índices similares de rejeição, acabaram alvos de processos de impeachment.
No final calamitoso do governo Sarney, a degradação econômica e o descrédito político dizimaram as lideranças tradicionais no pleito de 1989, abrindo caminho para legendas como PT e PSDB.
Hoje, a uma distância considerável das eleições gerais de 2018, ainda não se vislumbram com clareza as opções preferenciais de renovação da classe dirigente nacional.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

'A inteligência artificial não vai nos destruir', diz gênio do xadrez Kasparov

'A inteligência artificial não vai nos destruir', diz gênio do xadrez Kasparov

Miso Lisanin - 27.dez.2015/Xinhua
(151227) -- ZAGREB, diciembre 27, 2015 (Xinhua) -- El excampeón mundial de ajedrez, Garry Kasparov (i), juega partidas de ajedrez contra 18 personas simultáneamente, en un hotel en Zagreb, capital de Croacia, el 27 de diciembre de 2015. De acuerdo con información de la prensa local, el evento se llevó a cabo con el objetivo de popularizar el ajedrez entre niños y jóvenes. (Xinhua/Miso Lisanin) (da) (ah)
O ex-campeão mundial de xadrez Garry Kasparov (à esq.) em partida de exibição na Croácia
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Garry Kasparov, que há 20 anos se tornou o primeiro campeão mundial de xadrez a ser derrotado por um supercomputador, pede licença para discordar do prêmio Nobel de física Stephen Hawking. Otimista, não acredita que humanos serão, um dia, destruídos por máquinas.
"Com todo o respeito, acho que esse futuro sombrio é mais uma jogada midiática do que uma previsão científica", disse ele, pouco antes de dar uma de suas palestras, no mês passado. Aposentado, o enxadrista de 52 anos dedica-se a demonstrar a aplicação da estratégia do xadrez fora dos tabuleiros.
Dali a uma hora, ele inauguraria o novo laboratório da Avast, uma fabricante de antivírus sediada na República Tcheca. Nos países do antigo bloco soviético, Kasparov, nascido no Azerbaijão, é um nome que ressoa –assim como ressoa sua relação com computadores.
"Gostam de lembrar do jogo que perdi, mas ganhei a guerra." Referia-se à partida de 10 de fevereiro de 1996 contra Deep Blue, um supercomputador da IBM. Kasparov ganharia três partidas e empataria outras duas contra o oponente de silício, mantendo o título mundial.
Um ano depois da disputa, a máquina, atualizada, venceu a revanche.
Peter Morgan - 11.mai.1997/Reuters
Xadrez: duelo entre Garry Kasparov e o computador Deep Blue da I.B.M: World chess champion Garry Kasparov rests his head in his hands as he is seen on a monitor during game six of the chess match against IBM supercomputer Deep Blue, May 11. The supercomputer made chess history Sunday when it defeated Kasparov for an overall victory in their six game re-match, the first time a computer has triumphed over a reigning world champion in a classical match. Kasparov resigned after 19 moves. ms/Photo by Peter Morgan REUTERS*** NÃO UTILIZAR SEM ANTES CHECAR CRÉDITO E LEGENDA***
Plateia assiste a embate entre Kasparov e o computador Deep Blue, da IBM
Campeão mundial desde 1985, ele não estava acostumado a perder. Deep Blue era algo diferente, no entanto. "Máquinas são um oponente com algum tipo de característica estranha", diz. "Hoje, elas são invencíveis por algo que nenhum ser humano pode superar: consistência."
Depois de muitos jogos de alto nível e de ter escrito um livro sobre a estratégia dos mestres que o inspiraram, Kasparov chegou à conclusão de que o xeque-mate está nos detalhes –e de que eles não fogem a olhos eletrônicos.
"Em nenhuma partida que joguei, nenhuma mesmo, houve grandes erros; apenas pequenas imprecisões –que não significam nada quando se está enfrentado um ser humano", afirma. "Mas o nível de precisão e de vigilância que se requer para ganhar de uma máquina nunca se encontrou em um humano."
Agora, o enxadrista vê a inteligência artificial que o derrotou como uma questão de outra ordem, maior até do que reis e rainhas.
Há duas semanas, um supercomputador do Google foi capaz de derrotar o campeão europeu do jogo chinês Go, cuja lógica não se presta tão bem à força bruta dos algoritmos que jogam xadrez.
Para vencer no jogo de Kasparov, basta um sistema eficiente para testar, em pouco tempo, milhares (e talvez milhões) de jogadas. No tabuleiro chinês, é difícil descrever ao computador o problema e a solução. Nesse caso, foi preciso simular o funcionamento de neurônios em software e deixar que ele aprendesse sozinho.
O princípio das redes neurais e do aprendizado de máquina é o que está por trás do boom da inteligência artificial nos últimos anos, e alimenta desde assistentes virtuais, como a Siri, da Apple, até os carros autônomos do Google.
O AlphaGo é cria da britânica DeepMind, adquirida pelo Google para levar à gigante californiana cérebros humanos que pensam sobre cérebros de máquinas. E eles pensam muito em jogos.
Tabuleiros são ótimos tubos de ensaio para as mentes de silício: oferecem desafios análogos aos do mundo real em um ambiente mais fácil de controlar e medir.
"Queremos aplicar essas técnicas em problemas reais", disse Demis Hassabis, um dos criadores do AlphaGo, ao jornal "Financial Times".
Nem isso preocupa Kasparov. "Já ouvimos muito que a tecnologia nos destruiria. Não aconteceu e não acho que vai acontecer."
*
XEQUE-MATE
Os computadores nos jogos
  • 1958 Pesquisadores da universidade norte-americana Carnegie-Mellon criam algoritmo que aumenta eficiência de computadores jogando xadrez
  • 1979 O programa BKG 9.8 vence o jogador de gamão italiano Luigi Villa. Com o uso de um dado, jogo mistura estratégia e sorte, que pode ter ajudado o computador
  • 1994 O programa Chinook chega à final do mundial de damas e é campeão com a desistência de Marion Tinsley, que descobre ter câncer
  • 1996 Garry Kasparov perde primeira partida para um computador. Ele ganharia a disputa vencendo três jogos de seis e empatando outros dois
  • 1997 Na revanche contra o Deep Blue, computador da IBM, Kasparov leva a pior. Perde duas partidas, vence uma delas e empata três outros jogos
  • 2006 O programa Quackle vence David Boys, campeão de Scrabble, jogo de estratégia em que se deve soletrar palavras em um tabuleiro
  • 2016 O AlphaGo, computador do Google, usa sistema inspirado em redes de neurônios para vencer o campeão europeu do jogo chinês Go
Divulgação
TEC 08.02.2016 - O jogador de tabuleiro Marion Tinsley (Dir.), durante jogo contra um dos criadores do programa Chinook, programa que venceu o jogador por desistência. O programa foi criado por pesquisadores da Universidade de Alberta, no Canadá - (Foto: Divulgação)
O jogador de tabuleiro Marion Tinsley (à dir.), durante jogo contra um dos criadores do programa Chinook